quarta-feira, 22 de julho de 2026

 


 

Tema 9: A DEVOÇÃO MARIANA NO CARISMA PALOTINO 

A devoção a Maria não surgiu na Igreja por meio de um decreto oficial ou de um evento único, mas cresceu de forma orgânica, como uma semente plantada no início do cristianismo que floresceu ao longo dos séculos. Ela combina intuição teológica, registros bíblicos e a necessidade emocional dos fiéis de encontrar uma figura materna na fé.

Tudo começou com o “Sim” de Maria na Anunciação. No Novo Testamento, ela já aparece como figura central em momentos-chave: o nascimento de Jesus, as Bodas de Caná (onde atua como intercessora) e aos pés da Cruz. O registro mais antigo de uma oração a Maria data de aproximadamente o ano 250 d.C: “À vossa proteção recorremos, Santa Mãe de Deus...”, encontrado em um fragmento de papiro no Egito (Papiro Rylands 470). Isso prova que, antes mesmo da Igreja oficializar dogmas, os cristãos já pediam sua intercessão em tempos de perseguição. Em termos práticos e humanos, a devoção começou porque os cristãos viam em Maria a ponte perfeita: ela é plenamente humana (como nós), mas teve a maior intimidade possível com o Divino (Jesus).  

Para os primeiros cristãos, se Jesus ouviu o pedido dela em uma festa de casamento em Caná, Ele certamente a ouviria no céu (Cf. Jo 2,3-5). Para o nosso fundador, São Vicente Pallotti, a devoção mariana ia muito além da oração contemplativa; era o combustível para a ação apostólica. Ele via Maria como modelo de doação total a Deus e que poderia modelar nele a imagem do seu Filho, Jesus (Stawiski, p. 191).

Maria na ascética palotina

Maria ocupa um lugar muito importante na obra e na doutrina de Vicente Pallotti. Para ele, Maria é a cheia de graça, a filha predileta do eterno Pai, a Mãe que Deus Filho escolheu entre todas as mulheres para tornar-se homem, a Esposa única na qual o Espírito Santo infundiu a mais pura virgindade e exuberante maternidade. Nenhuma criatura, pela sua pessoal excelência, pode ser amada e honrada como foi amada e honrada Maria, porque ela foi infinitamente amada e honrada por Deus Pai, Filho e Espírito Santo. Deus criou o homem à sua imagem e Maria, Mãe de Jesus, fez Deus à sua imagem. Não existe uma criatura comparável à Maria, porque sua beleza é irrepetível. Por esta admirável excelência, Maria merece admiração, louvor, amor, mais do que todas as coisas criadas (Amoroso. Dal nulla al tutto, p. 114; OO CC VIII, 224).

Na cruz, o sangue derramado de Cristo é o sangue de Maria, a carne de Jesus, flagelada e coroada de espinhos, seus membros perfurados pelos pregos e lanças é carne de Maria. Maria aceitou a profecia de Simeão que anunciou tais sofrimentos com o símbolo da espada que traspassará seu coração. Esta Senhora bendita foi constituída por Jesus, no momento mais solene da redenção, Mãe do novo povo de Deus (Cf. OO CC XIII, 725; cf. Amoroso. Dal nulla al tutto, p. 115).

No seu contínuo contato filial com a Mãe de Deus, Pallotti descobriu nela algo muito significativo, a sua presença no Cenáculo como Mãe e Rainha dos apóstolos. Ela que não tinha nenhuma jurisdição e nenhuma participação no sacerdócio ministerial e, contudo, foi tão grande apóstola que mereceu o título de Rainha dos Apóstolos. Isto prova claramente que não é necessário ter um poder de jurisdição ou de ministério para se tornar apóstolo de Jesus. Maria não ocupou nenhum cargo e, no entanto, superou, em méritos, todos os Papas, Bispos e sacerdotes (Cf. OO CC III, 141-142, 144-150; IV, 180-186; Doc. da fundação, p. 97).

Segundo Pallotti, Maria cooperou na propagação da santa fé mais que os apóstolos. Ela sustentou, com sua oração o ânimo dos apóstolos e fez com que superassem as suas fadigas. Assim escreveu ele:

A santa Igreja, não por um simples título de honra, mas por motivo de plenitude de méritos, saúda Maria com o augusto título de Rainha dos Apóstolos e, com isto, todos, sacerdotes e leigos, todos, de ambos os sexos, de todo estado, posição e condição social, se animarão a imitar a nossa Imaculada Mãe Maria Santíssima, em todos os empreendimentos da maior glória de Deus e em todas as obras de misericórdia corporal e espiritual para o bem dos próximos (Cf. OO CC III, 6, 182, 188, 195, 209; IV, 208, 246, 293, 325, 333, 378, 417ss, 454, 475; VII, 7; Doc. da fundação, p. 184).

Pallotti queria também que seus seguidores tivessem um profundo amor e devoção à Mãe de Deus. Queria que todos fossem fervorosíssimos apóstolos de Maria. Queria que todos fossem transformados em Maria, de sorte que, depois de Jesus Cristo, o seu coração, os seus movimentos internos, as suas palavras e os seus olhares, seus passos e ações fossem de Maria, porque um verdadeiro devoto de Maria não só se salvará, como se tornará um grande santo (Cf. OO CC III, 6, 182, 188, 195, 209; IV, 208, 246, 293, 325, 333, 378, 417ss, 454, 475; VII, 7). Por isso, a fundação da “União do Apostolado Católico” foi totalmente colocada sob a materna proteção de Maria Santíssima, Rainha dos Apóstolos (Cf. OO CC I, 6; III, 6). Para ele, Maria era quem melhor representava a ideia do apostolado católico, porque foi quem fortaleceu a fé dos apóstolos, no Cenáculo, enquanto esperavam a vinda do Espírito Santo (Cf. OO CC III, 27; IV, 50; X, 86-87; XIII, 195, 365, 440). Ela é, depois de Cristo, o modelo mais perfeito de apostolado (Cf. OO CC I, 7).

Maria na vida de Vicente Pallotti

A devoção a Maria é uma das colunas que sustentou a espiritualidade de Vicente Pallotti. Ele a venerava sobretudo sob o título de “Rainha dos Apóstolos”, uma invocação da Ladainha de Nossa Senhora de Loreto. Por isso, escolheu a Rainha dos Apóstolos como padroeira e protetora do “Apostolado Católico.”

Em Maria, ele vê um exemplo extraordinário do verdadeiro zelo apostólico e do amor perfeito. Além disso, Pallotti gostava da ideia de que Maria, sem poderes sacerdotais e sem o ministério da pregação, era uma verdadeira apóstola, como sinal e exemplo para todos na Igreja. Pois, apóstolo é cada um que, do modo possível e segundo suas possibilidades, se empenha pela expansão do Reino de Deus.

Maria, com seu exemplo e com sua oração intercessora, dá valor aos Apóstolos e premia seus esforços. Nosso santo vê em Maria uma mestra que lhe diz: “Aprende de mim, como eu imitei perfeitamente meu Filho.” O primeiro escrito de Pallotti que veio à luz é justamente um tratado de 154 páginas dedicado a Maria, Rainha dos Santos. É composto por trinta leituras, para meditar no mês de maio, mês da Virgem. As imagens preferidas de Maria, para Pallotti, são aquelas em que ela carrega seu filho nos braços, em especial a “Mãe do Divino Amor”, que ainda hoje na Itália é uma invocação muito popular.

Um fato importante na devoção mariana de Pallotti é o que ele mesmo escreveu em seu Diário, com a data de 31 de dezembro de 1832. Segundo Juan S. Gaynor, este acontecimento é chamado pelos escritores místicos de “Esponsalício Espiritual”. Essa doutrina se fundamenta no fato de que nenhum ser humano poderá entrar em uma relação tão íntima com Deus como Maria, enquanto estiver nesta Terra. Esta doutrina estabelece que, em alguns casos, Deus permite a alguns seres humanos entrar em uma união estreitíssima com Maria e desfrutar, através dela, de uma antecipação de união divina. Por esta razão, achei importante citar este texto para compreender mais a relação de nosso santo com Maria santíssima:

“No último dia de 1832, a grande Mãe de misericórdia, para triunfar com o milagre de misericórdia sobre a inconcebível ingratidão e indignidade do maior miserável jamais visto entre os súditos do reino da misericórdia, se digna misericordiosamente aceitar o casamento espiritual com tal súdito e lhe dá como dote tudo o que possui, fazendo-o reconhecer o próprio divino Filho: sendo ela esposa do Espírito Santo, se empenha em fazer com que tudo seja transformado no Espírito Santo. Que misericórdia a de Jesus que, sem esperar, atende os pedidos da Mãe em favor de um ingrato, miserável, indigno, sacrílego, criminoso, o maior criminoso que jamais existiu ou que possa existir! Que misericórdia a de Maria, Rainha Imaculada que tão piedosamente se dispõe a rezar e a interceder em favor do mais miserável, ingrato e sacrílego pecador que ela jamais teve ou terá entre os súditos de seu reino no império da misericórdia! O paraíso está repleto das misericórdias de Maria. Misericórdia! Misericórdia! Misericórdia! Misericórdia! Misericórdia! Misericórdia! Misericórdia! Misericórdia! Cantarei eternamente as misericórdias do Senhor. Cantarei eternamente as misericórdias de Maria. Meu Deus e meu tudo”! (OO CC X, 195)

Em muitas imagens de Pallotti, ele é representado com uma pequena imagem de Maria na palma da mão. Isso acontece porque naquela época era costume beijar a mão do sacerdote, mas Pallotti não gostava deste costume. Ele resolveu o problema mandando fazer uma estatueta especial, com a imagem de Maria, para apresentá-la a quem queria beijar a sua mão.

Entre as formas usadas pelo santo para se dirigir à Maria, aparecem as seguintes: “minha Senhora e nossa comum mãe Maria Santíssima”; “minha mais que apaixonadíssima mãe Maria”; “Maria santíssima, minha mais que enamoradíssima e imaculada mãe”; “minha mais que puríssima e enamoradíssima mãe Maria”. Com esses títulos, podemos ver como Pallotti sente o amor infinito e a ternura de Maria para com ele e para com todos os seus filhos, e não se cansa de dizer que ela é uma mãe amantíssima.

No mosteiro de Camáldoli

Estando no Mosteiro dos Camaldulenses, nosso santo escreveu uma carta ao seu diretor espiritual, o Pe. Fazzini (1758-1837), a pedido deste, sobre as qualidades de sua mãe, que havia falecido em julho de 1827. É nesta carta que vemos como a espiritualidade mariana já reinava em sua família:

“Quanto à Imaculada Conceição de Maria Santíssima, o Espírito do Senhor lhe deu tal veneração e uma ideia tão nobre que, não somente a invejava santamente e se humilhava, mas ainda, muitas vezes com afeto e devoção a saudava com o título gloriosíssimo de Imaculada Conceição, incentivando seus filhos a fazer o mesmo. O mistério da maternidade da mesma Virgem Maria, conforme as luzes que Deus lhe havia dado, era para ela objeto de encanto e repetia com tal veneração e afeto religioso os versículos – ‘bem-aventuradas as entranhas da Virgem Maria que trouxeram o Filho do Pai Eterno e bem-aventurados os seios que amamentam a Cristo Senhor’ – que era digna de ser plenamente invejada”.

Todos sabemos a importância que a família tem no desenvolvimento da personalidade e dos valores humanos. Vicente encontrou em seu lar um ambiente favorável para o sustento e crescimento de sua fé e de sua devoção mariana. Em sua casa se rezava diariamente o santo Rosário e também se celebravam as festas de Maria com orações especiais e até jejuns. Todos os dias os pais levavam seus filhos a visitar uma Igreja e a rezar diante do Santíssimo Sacramento e de uma imagem de Maria. Este ambiente mariano familiar propiciou em Vicente uma grande admiração e amor à Maria. Através de atitudes e gestos de seus pais, Vicente aprendeu a conhecer e a amar Maria e a dirigir-se a ela com confiança e carinho. Também o ambiente eclesial romano tinha um caráter mariano. Roma estava cheia de Igrejas e de altares marianos e as festas marianas eram celebradas com muito fervor por todo o povo italiano.

Na escola primária, Pallotti encontrou bons mestres que o incentivaram a fazer parte da Congregação Mariana, que se reunia aos domingos na Igreja de Nossa Senhora das Lágrimas, no bairro judeu, e tinha momentos de reflexão, oração e festa. Ele admira de modo especial a Imaculada Conceição e no ano de 1816, pede a um sacerdote para poder fazer voto de professar à Imaculada Conceição de Maria. Nesse voto ele expressava seu desejo de “defender infinitamente a Imaculada Conceição da Virgem” e de que “todas as criaturas respeitem, venerem, adorem profundamente os nomes santos de Maria e Jesus. Caso a Igreja Católica não estabeleça o contrário, quereria que todas as criaturas fizessem com perfeição um soleníssimo voto de professar e de defender a Imaculada Conceição de Maria sempre Virgem” (OO CC X, 521). O dogma da Imaculada Conceição foi declarado em 1854, quatro anos após a morte de nosso fundador. Na época em que ele realizou este voto, o tema ainda era discutido, embora fosse um sentimento popular.

Para Vicente Pallotti, Maria é uma grande mestra da vida espiritual. Por isso a chama também de Mestra. Durante seu retiro em preparação para o subdiaconato, diz que a devoção a Maria consiste sobretudo em imitar seu Filho e em aprender dela a imitá-Lo. Seu grande desejo é amar Maria, se fosse possível, com um amor infinitamente terno. Incentivado pela leitura do então Venerável João Berchmans, que não queria descansar até não ter alcançado um “terno amor à sua dulcíssima Mãe Maria”, Pallotti escreveu: “jamais descansarei enquanto não tenha alcançado, se fosse possível, um amor infinitamente perfeito a Deus, a Jesus Cristo e à minha mais que dulcíssima e amantíssima Mãe Maria”.

Através de Maria, com Maria e com todas as criaturas, queria receber a abundância do Espírito Santo, razão pela qual desejava estar sempre espiritualmente no Cenáculo de Jerusalém com Maria, com Jesus e com todas as criaturas, à espera do Espírito Santo. Este propósito é muito importante, já que nos fala de como Pallotti, através desta imagem, fundamenta o apostolado de Maria que, através de sua vida e em especial no Pentecostes, estando junto aos apóstolos e animando-os, recebe o Espírito Santo.

Segundo o Padre João Quaini, este foi o primeiro retiro cristão, quando os discípulos, junto com Maria, se reúnem para rezar, meditar e esperar a vinda do Espírito Santo, e quem pregou este retiro foi Maria santíssima, encorajando-os, animando-os, recordando-lhes as palavras de Jesus e dando força a quem já era também seus filhos.

Existe um documento muito valioso, que é uma exortação mariana dirigida a seus mestres e companheiros, escrita aproximadamente nos anos de 1817-1818:

“Meus irmãos e mestres, devemos nutrir uma tal devoção à nossa mais que apaixonadíssima Mãe Maria; com as obras e com as exortações devemos ser apóstolos fervorosíssimos não somente de Jesus Cristo crucificado, mas também de nossa Mãe Maria. Devemos ser filhos e apóstolos de Nossa Senhora e procurar (cheios de confiança em Deus) ser totalmente transformados em Nossa Senhora, de tal sorte que, depois de Jesus Cristo, nosso coração seja de Nossa Senhora, nossos movimentos internos sejam de Nossa Senhora, nossas palavras, nossos olhares, nossos passos e todas as nossas ações sejam de Nossa Senhora. Persuadamo-nos de que um verdadeiro devoto de Maria será um grande santo e de que sua santidade aumentará dia por dia. Dediquemo-nos, pois, com sumo empenho a propagar as glórias de Maria e a insinuar no coração de todos um amor, se fosse possível, infinitamente terno à nossa mais que enamoradíssima Mãe, Senhora e Rainha Maria” (S. V. Pallotti. Collezione Spirituale, Roma, 1933).

Olhando a vida de Maria, Pallotti admira sua grande capacidade de contemplar os mistérios de Deus. A comunhão com Deus amadurecia na atmosfera de abertura às inspirações do Espírito Santo, na escuta da Palavra de Deus e na meditação. Por sua particular eleição e vocação, Maria responde antes de tudo com fé: “faça-se em mim segundo a tua Palavra” (Lc 1,38). Diante deste sim de Maria, Pallotti nos convida à contínua meditação da grandeza do amor de Deus pelo homem. Ele está convencido de que Maria, como Mãe, nos ama e nos anima a glorificar sempre a Deus Pai, Deus Filho e Deus Espírito Santo e, ao mesmo tempo, nos convida a considerar a ação de Deus que não apenas cria o mundo, mas o sustenta com sua providência.

Maria, como filha predileta de Deus-Pai, deseja a glória de Deus e convida a todos a promulgá-la:

“Procurarás aplicar-te o quanto puderes assiduamente no maior amor a Deus que com suas graças (...) te dá o mais enérgico sinal de seu amor e não cessarás de louvá-lo e de agradecer-lhe por tantos favores, apesar de cada não correspondência tua, e depois não esquecerás de multiplicar tributos de louvor e de ação de graças, também para suprir o defeito de todos, especialmente dos pobres pecadores que vivem não só esquecidos deste sagrado dever, mas que às graças fazem também tanta resistência; oferece tudo em união da Vida santíssima e dos merecimentos infinitos de Jesus Cristo, esposo das almas, a fim de que tudo se cumpra segundo os objetivos adoráveis e amorosíssimos de sua infinita caridade” (OO CC XIII, 284-285. Mês de maio para religiosos)

Ouvindo a Maria, Pallotti se sentia impelido a dar continuamente glória a Deus com todas as suas ações. Ao indicar Maria, Rainha dos Apóstolos, como Filha do eterno Pai, continuamente encoraja cada um de nós a transformar a própria vida em contemplação de Deus, Infinito Amor que nos leva à vida de Amor, no Amor e para o Amor.

Meditando a participação de Maria na salvação, Pallotti nos apresenta Maria como a única que é exaltada pelos méritos de obediência, maternidade, pureza e fidelidade. Estes são os atributos que a predispõem a colaborar no amor de Jesus, Apóstolo do Eterno Pai como Rainha dos Apóstolos. Por isso fica fascinado pelo seu trabalho em silêncio, pela aceitação da vida religiosa de seu povo, pelo trabalho cotidiano em Nazaré.

Como Rainha dos Apóstolos, ela dá início à Igreja e colabora com seus membros para que a obra de salvação de seu Filho possa abraçar todo o mundo:

“Maria Santíssima Mãe do Eterno Verbo encarnado nos chama a imitá-la na qualidade de Mãe, e amorosamente nos adverte que a podemos imitar procurando multiplicar filhos para a Igreja com nossas orações e com nosso bom exemplo, e assim serão multiplicados os irmãos de Jesus, dos quais ele é o primogênito” (OO CC XI, 344).

Segundo Pallotti, Maria é o mais perfeito exemplo de apostolado depois de Jesus Cristo. Por isso, aconselha a imitá-la e a formar a própria vida e o próprio serviço apostólico seguindo o seu exemplo. É por esta razão que para nós, palotinos, é inerente ter uma espiritualidade mariana. Não se compreende um leigo, seminarista, irmão, irmã, sacerdote palotino que não tenha amor e devoção a Maria. Porque, além dos fundamentos teológicos, está na própria vida de nosso fundador, está em nossas raízes.

Pallotti estava convencido de que a eficácia apostólica de toda ação depende da intercessão de Maria e de sua colaboração. Por isso, desenvolvia e confiava em Maria, Rainha dos Apóstolos, todas as suas atividades apostólicas, sobretudo, aquelas desenvolvidas pela União do Apostolado Católico (Cf. OO CC I, 6).

A Pia União foi fundada sob a proteção de maria

A Congregação e a Pia União foram fundadas sob a especial proteção de Maria Santíssima, Rainha dos Apóstolos, não só porque com sua intercessão concedeu graças a todos os membros, mas também para que se tenha ela como o mais perfeito exemplo de zelo apostólico. Maria não era sacerdotisa, nem apóstola, no entanto, se ocupava de modo perfeito de seu trabalho com tal dedicação e perfeição que por isso recebeu honra ainda maior que a dos Apóstolos. A Igreja a saúda com o título de Rainha dos Apóstolos não só por sua honra, mas também por seus méritos. Ela recebe este nome para estimular a todos os fiéis de ambos os sexos, de qualquer estado, grau e condição a imitar nossa Mãe Imaculada Maria a retomar cada ato de maior glória de Deus e bem dos outros e cada ato espiritual e material (Cf. OO CC VII, 7-8).

O mais sublime e claro ato materno e apostólico de Maria é a sua presença no Calvário, na Cruz de Cristo. Jesus entrega a João sua Mãe e entregando João a Maria, entrega com ele a todos os apóstolos (Jo 19, 25-27). A partir desse momento, Maria se torna modelo para a Igreja, já que aqui começa sua missão espiritual que no Pentecostes encontra sua realização. Assim rezava a Maria:

“Meu Deus, somos indignos de ter o dom do amor perfeito à nossa imaculada Mãe Maria santíssima. Mas tu nos concedes por tua infinita misericórdia e pelos méritos de Jesus e de Maria santíssima. Queremos amar nossa enamorada Mãe Maria com o amor com que tu a amas, oh Pai eterno, que a amas como Filha; com o amor com que tu a amas, oh divino Filho, que a amas como Mãe; com o amor com que tu a amas, oh divino Espírito, que a amas como Esposa. Assim queremos que seja amada por todas as criaturas pretéritas, presentes, futuras e possíveis” (OO CC VIII, 224; 433-434).

Mesmo diante da sua indignidade e ingratidão, Pallotti se abre à graça: “Eis-me aqui disposto a oferecer-me todo a ti. Eis aqui meu coração com todos os seus afetos. Eis aqui todas as minhas coisas. Eu te entrego nas mãos da Mãe da Misericórdia, Maria santíssima. Pois, quero que todo eu e todas as minhas coisas sejam tuas, para que tu sejas todo meu para sempre” (OO CC XIII, 525-526).

O nosso santo se sente nada diante dos divinos olhos de Deus, porque sente que muitas vezes resistiu ao seu amor. Sentimento que, talvez hoje mais do que nunca, experimentamos nós, os cristãos: Deus que nos chama e nós que resistimos, não lhe abrimos o coração, porque estamos ocupados em servir a outros deuses, a outros senhores. Deuses que nossa sociedade fabrica cada vez com maior perfeição e em maior quantidade. Mas, em Pallotti vemos o triunfo da confiança, o triunfo de um coração que deseja e anseia abrir-se para receber o único Senhor, o único Deus e Pai. Pallotti não fica lamentando sua fraqueza; pelo contrário, se põe de pé e faz uso da graça divina que o conforta e o move a responder ao chamado divino. E essa força e intercessão é Maria, a Mãe da Misericórdia, que o aproxima de Cristo, carregando-o em suas mãos.

Portanto, a obra do apostolado católico nasceu com a devoção a Maria e persiste graças a seu amparo. Assim quis nosso fundador, assim quis Deus e assim seremos fiéis à sua essência. Por isso, devemos sempre, individual e comunitariamente, alimentar e fortalecer a nossa união com Maria, que é nossa Mãe e sempre está ao nosso lado, protegendo-nos e animando-nos, assim como ocorreu com os Apóstolos em Pentecostes.

 Para refletir

1.      Como surgiu a devoção mariana na vida de Vicente Pallotti?

2.      Qual o papel de Maria na fundação de Pallotti?

3.      Quais foram os argumentos de Pallotti para deixar Maria como padroeira da sua obra?