Tema 9: A DEVOÇÃO MARIANA NO CARISMA PALOTINO
A devoção a Maria não surgiu na Igreja por meio de um
decreto oficial ou de um evento único, mas cresceu de forma orgânica, como uma
semente plantada no início do cristianismo que floresceu ao longo dos séculos.
Ela combina intuição teológica, registros bíblicos e a necessidade emocional
dos fiéis de encontrar uma figura materna na fé.
Tudo começou com o “Sim” de Maria na Anunciação. No
Novo Testamento, ela já aparece como figura central em momentos-chave: o
nascimento de Jesus, as Bodas de Caná (onde atua como intercessora) e aos pés
da Cruz. O registro mais antigo de uma oração a Maria data de aproximadamente o
ano 250 d.C: “À vossa proteção recorremos, Santa Mãe de Deus...”, encontrado em
um fragmento de papiro no Egito (Papiro Rylands 470). Isso prova que,
antes mesmo da Igreja oficializar dogmas, os cristãos já pediam sua intercessão
em tempos de perseguição. Em termos práticos e humanos, a devoção começou
porque os cristãos viam em Maria a ponte perfeita: ela é plenamente humana
(como nós), mas teve a maior intimidade possível com o Divino (Jesus).
Para os primeiros cristãos, se Jesus ouviu o pedido
dela em uma festa de casamento em Caná, Ele certamente a ouviria no céu (Cf. Jo
2,3-5). Para o nosso fundador, São Vicente Pallotti, a devoção mariana ia muito
além da oração contemplativa; era o combustível para a ação apostólica. Ele via
Maria como modelo de doação total a Deus e que poderia modelar nele a imagem do
seu Filho, Jesus (Stawiski, p. 191).
Maria ocupa
um lugar muito importante na obra e na doutrina de Vicente Pallotti. Para ele,
Maria é a cheia de graça, a filha predileta do eterno Pai, a Mãe que Deus Filho
escolheu entre todas as mulheres para tornar-se homem, a Esposa única na qual o
Espírito Santo infundiu a mais pura virgindade e exuberante maternidade.
Nenhuma criatura, pela sua pessoal excelência, pode ser amada e honrada como
foi amada e honrada Maria, porque ela foi infinitamente amada e honrada por
Deus Pai, Filho e Espírito Santo. Deus criou o homem à sua imagem e Maria, Mãe
de Jesus, fez Deus à sua imagem. Não existe uma criatura comparável à Maria,
porque sua beleza é irrepetível. Por esta admirável excelência, Maria merece
admiração, louvor, amor, mais do que todas as coisas criadas (Amoroso. Dal
nulla al tutto, p. 114; OO CC
VIII, 224).
No seu
contínuo contato filial com a Mãe de Deus, Pallotti descobriu nela algo muito
significativo, a sua presença no Cenáculo como Mãe e Rainha dos apóstolos. Ela
que não tinha nenhuma jurisdição e nenhuma participação no sacerdócio
ministerial e, contudo, foi tão grande apóstola que mereceu o título de Rainha
dos Apóstolos. Isto prova claramente que não é necessário ter um poder de
jurisdição ou de ministério para se tornar apóstolo de Jesus. Maria não ocupou
nenhum cargo e, no entanto, superou, em méritos, todos os Papas, Bispos e
sacerdotes (Cf. OO CC III, 141-142, 144-150; IV, 180-186; Doc. da fundação, p. 97).
A santa Igreja, não por um simples título de
honra, mas por motivo de plenitude de méritos, saúda Maria com o augusto título
de Rainha dos Apóstolos e, com isto, todos, sacerdotes e leigos, todos, de
ambos os sexos, de todo estado, posição e condição social, se animarão a imitar
a nossa Imaculada Mãe Maria Santíssima, em todos os empreendimentos da maior
glória de Deus e em todas as obras de misericórdia corporal e espiritual para o
bem dos próximos (Cf. OO CC
III, 6, 182, 188, 195, 209; IV, 208, 246, 293, 325, 333, 378, 417ss, 454, 475;
VII, 7; Doc. da fundação, p. 184).
Pallotti
queria também que seus seguidores tivessem um profundo amor e devoção à Mãe de
Deus. Queria que todos fossem fervorosíssimos apóstolos de Maria. Queria que
todos fossem transformados em Maria, de sorte que, depois de Jesus Cristo, o
seu coração, os seus movimentos internos, as suas palavras e os seus olhares,
seus passos e ações fossem de Maria, porque um verdadeiro devoto de Maria não
só se salvará, como se tornará um grande santo (Cf. OO CC
III, 6, 182, 188, 195, 209; IV, 208, 246, 293, 325, 333, 378, 417ss, 454, 475;
VII, 7). Por isso, a fundação da “União do Apostolado Católico” foi totalmente
colocada sob a materna proteção de Maria Santíssima, Rainha dos Apóstolos (Cf. OO CC I, 6; III, 6). Para
ele, Maria era quem melhor representava a ideia do apostolado católico, porque
foi quem fortaleceu a fé dos apóstolos, no Cenáculo, enquanto esperavam a vinda
do Espírito Santo (Cf. OO CC III, 27; IV, 50; X,
86-87; XIII, 195, 365, 440). Ela é,
depois de Cristo, o modelo mais perfeito de apostolado (Cf. OO CC I, 7).
Maria
na vida de Vicente Pallotti
A devoção a Maria é uma das
colunas que sustentou a espiritualidade de Vicente Pallotti. Ele a venerava
sobretudo sob o título de “Rainha dos Apóstolos”, uma invocação da Ladainha de
Nossa Senhora de Loreto. Por isso, escolheu a Rainha dos Apóstolos como
padroeira e protetora do “Apostolado Católico.”
Em Maria, ele vê um exemplo
extraordinário do verdadeiro zelo apostólico e do amor perfeito. Além disso,
Pallotti gostava da ideia de que Maria, sem poderes sacerdotais e sem o
ministério da pregação, era uma verdadeira apóstola, como sinal e exemplo para
todos na Igreja. Pois, apóstolo é cada um que, do modo possível e segundo suas
possibilidades, se empenha pela expansão do Reino de Deus.
Maria, com seu exemplo e com
sua oração intercessora, dá valor aos Apóstolos e premia seus esforços. Nosso
santo vê em Maria uma mestra que lhe diz: “Aprende de mim, como eu imitei
perfeitamente meu Filho.” O primeiro escrito de Pallotti que veio à luz é
justamente um tratado de 154 páginas dedicado a Maria, Rainha dos Santos. É
composto por trinta leituras, para meditar no mês de maio, mês da Virgem. As
imagens preferidas de Maria, para Pallotti, são aquelas em que ela carrega seu
filho nos braços, em especial a “Mãe do Divino Amor”, que ainda hoje na Itália
é uma invocação muito popular.
Um fato importante na
devoção mariana de Pallotti é o que ele mesmo escreveu em seu Diário, com a
data de 31 de dezembro de 1832. Segundo Juan S. Gaynor, este acontecimento é
chamado pelos escritores místicos de “Esponsalício Espiritual”. Essa doutrina
se fundamenta no fato de que nenhum ser humano poderá entrar em uma relação tão
íntima com Deus como Maria, enquanto estiver nesta Terra. Esta doutrina
estabelece que, em alguns casos, Deus permite a alguns seres humanos entrar em
uma união estreitíssima com Maria e desfrutar, através dela, de uma antecipação
de união divina. Por esta razão, achei importante citar este texto para
compreender mais a relação de nosso santo com Maria santíssima:
“No último dia de 1832, a grande Mãe de
misericórdia, para triunfar com o milagre de misericórdia sobre a inconcebível
ingratidão e indignidade do maior miserável jamais visto entre os súditos do
reino da misericórdia, se digna misericordiosamente aceitar o casamento
espiritual com tal súdito e lhe dá como dote tudo o que possui, fazendo-o
reconhecer o próprio divino Filho: sendo ela esposa do Espírito Santo, se
empenha em fazer com que tudo seja transformado no Espírito Santo. Que
misericórdia a de Jesus que, sem esperar, atende os pedidos da Mãe em favor de
um ingrato, miserável, indigno, sacrílego, criminoso, o maior criminoso que
jamais existiu ou que possa existir! Que misericórdia a de Maria, Rainha Imaculada
que tão piedosamente se dispõe a rezar e a interceder em favor do mais
miserável, ingrato e sacrílego pecador que ela jamais teve ou terá entre os
súditos de seu reino no império da misericórdia! O paraíso está repleto das
misericórdias de Maria. Misericórdia! Misericórdia! Misericórdia! Misericórdia!
Misericórdia! Misericórdia! Misericórdia! Misericórdia! Cantarei eternamente as
misericórdias do Senhor. Cantarei eternamente as misericórdias de Maria. Meu
Deus e meu tudo”! (OO CC X, 195)
Em muitas imagens de
Pallotti, ele é representado com uma pequena imagem de Maria na palma da mão.
Isso acontece porque naquela época era costume beijar a mão do sacerdote, mas
Pallotti não gostava deste costume. Ele resolveu o problema mandando fazer uma
estatueta especial, com a imagem de Maria, para apresentá-la a quem queria
beijar a sua mão.
Entre as formas usadas pelo
santo para se dirigir à Maria, aparecem as seguintes: “minha Senhora e nossa
comum mãe Maria Santíssima”; “minha mais que apaixonadíssima mãe Maria”; “Maria
santíssima, minha mais que enamoradíssima e imaculada mãe”; “minha mais que
puríssima e enamoradíssima mãe Maria”. Com esses títulos, podemos ver como
Pallotti sente o amor infinito e a ternura de Maria para com ele e para com
todos os seus filhos, e não se cansa de dizer que ela é uma mãe amantíssima.
No
mosteiro de Camáldoli
Estando no Mosteiro dos
Camaldulenses, nosso santo escreveu uma carta ao seu diretor espiritual, o Pe.
Fazzini (1758-1837), a pedido deste, sobre as qualidades de sua mãe, que havia
falecido em julho de 1827. É nesta carta que vemos como a espiritualidade
mariana já reinava em sua família:
“Quanto à Imaculada Conceição de Maria Santíssima, o
Espírito do Senhor lhe deu tal veneração e uma ideia tão nobre que, não somente
a invejava santamente e se humilhava, mas ainda, muitas vezes com afeto e
devoção a saudava com o título gloriosíssimo de Imaculada Conceição,
incentivando seus filhos a fazer o mesmo. O mistério da maternidade da mesma
Virgem Maria, conforme as luzes que Deus lhe havia dado, era para ela objeto de
encanto e repetia com tal veneração e afeto religioso os versículos – ‘bem-aventuradas
as entranhas da Virgem Maria que trouxeram o Filho do Pai Eterno e
bem-aventurados os seios que amamentam a Cristo Senhor’ – que era digna de ser
plenamente invejada”.
Todos sabemos a importância
que a família tem no desenvolvimento da personalidade e dos valores humanos.
Vicente encontrou em seu lar um ambiente favorável para o sustento e
crescimento de sua fé e de sua devoção mariana. Em sua casa se rezava
diariamente o santo Rosário e também se celebravam as festas de Maria com
orações especiais e até jejuns. Todos os dias os pais levavam seus filhos a
visitar uma Igreja e a rezar diante do Santíssimo Sacramento e de uma imagem de
Maria. Este ambiente mariano familiar propiciou em Vicente uma grande admiração
e amor à Maria. Através de atitudes e gestos de seus pais, Vicente aprendeu a
conhecer e a amar Maria e a dirigir-se a ela com confiança e carinho. Também o
ambiente eclesial romano tinha um caráter mariano. Roma estava cheia de Igrejas
e de altares marianos e as festas marianas eram celebradas com muito fervor por
todo o povo italiano.
Na escola primária, Pallotti
encontrou bons mestres que o incentivaram a fazer parte da Congregação Mariana,
que se reunia aos domingos na Igreja de Nossa Senhora das Lágrimas, no bairro
judeu, e tinha momentos de reflexão, oração e festa. Ele admira de modo
especial a Imaculada Conceição e no ano de 1816, pede a um sacerdote para poder
fazer voto de professar à Imaculada Conceição de Maria. Nesse voto ele
expressava seu desejo de “defender infinitamente a Imaculada Conceição da
Virgem” e de que “todas as criaturas respeitem, venerem, adorem profundamente
os nomes santos de Maria e Jesus. Caso a Igreja Católica não estabeleça o
contrário, quereria que todas as criaturas fizessem com perfeição um
soleníssimo voto de professar e de defender a Imaculada Conceição de Maria
sempre Virgem” (OO CC X, 521). O dogma da Imaculada Conceição foi
declarado em 1854, quatro anos após a morte de nosso fundador. Na época em que
ele realizou este voto, o tema ainda era discutido, embora fosse um sentimento
popular.
Para Vicente Pallotti, Maria
é uma grande mestra da vida espiritual. Por isso a chama também de Mestra.
Durante seu retiro em preparação para o subdiaconato, diz que a devoção a Maria
consiste sobretudo em imitar seu Filho e em aprender dela a imitá-Lo. Seu
grande desejo é amar Maria, se fosse possível, com um amor infinitamente terno.
Incentivado pela leitura do então Venerável João Berchmans, que não queria
descansar até não ter alcançado um “terno amor à sua dulcíssima Mãe Maria”,
Pallotti escreveu: “jamais descansarei enquanto não tenha alcançado, se fosse
possível, um amor infinitamente perfeito a Deus, a Jesus Cristo e à minha mais
que dulcíssima e amantíssima Mãe Maria”.
Através de Maria, com Maria
e com todas as criaturas, queria receber a abundância do Espírito Santo, razão
pela qual desejava estar sempre espiritualmente no Cenáculo de Jerusalém com
Maria, com Jesus e com todas as criaturas, à espera do Espírito Santo. Este
propósito é muito importante, já que nos fala de como Pallotti, através desta
imagem, fundamenta o apostolado de Maria que, através de sua vida e em especial
no Pentecostes, estando junto aos apóstolos e animando-os, recebe o Espírito
Santo.
Segundo o Padre João Quaini,
este foi o primeiro retiro cristão, quando os discípulos, junto com Maria, se
reúnem para rezar, meditar e esperar a vinda do Espírito Santo, e quem pregou
este retiro foi Maria santíssima, encorajando-os, animando-os, recordando-lhes
as palavras de Jesus e dando força a quem já era também seus filhos.
Existe um documento muito
valioso, que é uma exortação mariana dirigida a seus mestres e companheiros,
escrita aproximadamente nos anos de 1817-1818:
“Meus irmãos e mestres, devemos nutrir uma tal
devoção à nossa mais que apaixonadíssima Mãe Maria; com as obras e com as
exortações devemos ser apóstolos fervorosíssimos não somente de Jesus Cristo
crucificado, mas também de nossa Mãe Maria. Devemos ser filhos e apóstolos de
Nossa Senhora e procurar (cheios de confiança em Deus) ser totalmente
transformados em Nossa Senhora, de tal sorte que, depois de Jesus Cristo, nosso
coração seja de Nossa Senhora, nossos movimentos internos sejam de Nossa
Senhora, nossas palavras, nossos olhares, nossos passos e todas as nossas ações
sejam de Nossa Senhora. Persuadamo-nos de que um verdadeiro devoto de Maria
será um grande santo e de que sua santidade aumentará dia por dia.
Dediquemo-nos, pois, com sumo empenho a propagar as glórias de Maria e a
insinuar no coração de todos um amor, se fosse possível, infinitamente terno à
nossa mais que enamoradíssima Mãe, Senhora e Rainha Maria” (S. V. Pallotti.
Collezione Spirituale, Roma, 1933).
Olhando a vida de Maria,
Pallotti admira sua grande capacidade de contemplar os mistérios de Deus. A
comunhão com Deus amadurecia na atmosfera de abertura às inspirações do
Espírito Santo, na escuta da Palavra de Deus e na meditação. Por sua particular
eleição e vocação, Maria responde antes de tudo com fé: “faça-se em mim segundo
a tua Palavra” (Lc 1,38). Diante deste sim de Maria, Pallotti nos convida à
contínua meditação da grandeza do amor de Deus pelo homem. Ele está convencido
de que Maria, como Mãe, nos ama e nos anima a glorificar sempre a Deus Pai,
Deus Filho e Deus Espírito Santo e, ao mesmo tempo, nos convida a considerar a
ação de Deus que não apenas cria o mundo, mas o sustenta com sua providência.
Maria, como filha predileta
de Deus-Pai, deseja a glória de Deus e convida a todos a promulgá-la:
“Procurarás aplicar-te o quanto puderes assiduamente
no maior amor a Deus que com suas graças (...) te dá o mais enérgico sinal de
seu amor e não cessarás de louvá-lo e de agradecer-lhe por tantos favores,
apesar de cada não correspondência tua, e depois não esquecerás de multiplicar
tributos de louvor e de ação de graças, também para suprir o defeito de todos,
especialmente dos pobres pecadores que vivem não só esquecidos deste sagrado
dever, mas que às graças fazem também tanta resistência; oferece tudo em união
da Vida santíssima e dos merecimentos infinitos de Jesus Cristo, esposo das
almas, a fim de que tudo se cumpra segundo os objetivos adoráveis e
amorosíssimos de sua infinita caridade” (OO CC XIII, 284-285. Mês
de maio para religiosos)
Ouvindo a Maria, Pallotti se
sentia impelido a dar continuamente glória a Deus com todas as suas ações. Ao
indicar Maria, Rainha dos Apóstolos, como Filha do eterno Pai, continuamente
encoraja cada um de nós a transformar a própria vida em contemplação de Deus,
Infinito Amor que nos leva à vida de Amor, no Amor e para o Amor.
Meditando a participação de
Maria na salvação, Pallotti nos apresenta Maria como a única que é exaltada
pelos méritos de obediência, maternidade, pureza e fidelidade. Estes são os
atributos que a predispõem a colaborar no amor de Jesus, Apóstolo do Eterno Pai
como Rainha dos Apóstolos. Por isso fica fascinado pelo seu trabalho em
silêncio, pela aceitação da vida religiosa de seu povo, pelo trabalho cotidiano
em Nazaré.
Como Rainha dos Apóstolos,
ela dá início à Igreja e colabora com seus membros para que a obra de salvação
de seu Filho possa abraçar todo o mundo:
“Maria Santíssima Mãe do Eterno Verbo encarnado nos
chama a imitá-la na qualidade de Mãe, e amorosamente nos adverte que a podemos
imitar procurando multiplicar filhos para a Igreja com nossas orações e com
nosso bom exemplo, e assim serão multiplicados os irmãos de Jesus, dos quais
ele é o primogênito” (OO CC XI, 344).
Segundo Pallotti, Maria é o
mais perfeito exemplo de apostolado depois de Jesus Cristo. Por isso, aconselha
a imitá-la e a formar a própria vida e o próprio serviço apostólico seguindo o seu
exemplo. É por esta razão que para nós, palotinos, é inerente ter uma
espiritualidade mariana. Não se compreende um leigo, seminarista, irmão, irmã,
sacerdote palotino que não tenha amor e devoção a Maria. Porque, além dos
fundamentos teológicos, está na própria vida de nosso fundador, está em nossas
raízes.
Pallotti estava convencido
de que a eficácia apostólica de toda ação depende da intercessão de Maria e de
sua colaboração. Por isso, desenvolvia e confiava em Maria, Rainha dos
Apóstolos, todas as suas atividades apostólicas, sobretudo, aquelas desenvolvidas
pela União do Apostolado Católico (Cf. OO CC I, 6).
A Pia União
foi fundada sob a proteção de maria
A Congregação e a Pia União
foram fundadas sob a especial proteção de Maria Santíssima, Rainha dos
Apóstolos, não só porque com sua intercessão concedeu graças a todos os
membros, mas também para que se tenha ela como o mais perfeito exemplo de zelo
apostólico. Maria não era sacerdotisa, nem apóstola, no entanto, se ocupava de
modo perfeito de seu trabalho com tal dedicação e perfeição que por isso
recebeu honra ainda maior que a dos Apóstolos. A Igreja a saúda com o título de
Rainha dos Apóstolos não só por sua honra, mas também por seus méritos. Ela
recebe este nome para estimular a todos os fiéis de ambos os sexos, de qualquer
estado, grau e condição a imitar nossa Mãe Imaculada Maria a retomar cada ato
de maior glória de Deus e bem dos outros e cada ato espiritual e material (Cf. OO
CC VII, 7-8).
O mais sublime e claro ato
materno e apostólico de Maria é a sua presença no Calvário, na Cruz de Cristo.
Jesus entrega a João sua Mãe e entregando João a Maria, entrega com ele a todos
os apóstolos (Jo 19, 25-27). A partir desse momento, Maria se torna modelo para
a Igreja, já que aqui começa sua missão espiritual que no Pentecostes encontra
sua realização. Assim rezava a Maria:
“Meu Deus, somos indignos de ter o dom do amor
perfeito à nossa imaculada Mãe Maria santíssima. Mas tu nos concedes por tua
infinita misericórdia e pelos méritos de Jesus e de Maria santíssima. Queremos
amar nossa enamorada Mãe Maria com o amor com que tu a amas, oh Pai eterno, que
a amas como Filha; com o amor com que tu a amas, oh divino Filho, que a amas
como Mãe; com o amor com que tu a amas, oh divino Espírito, que a amas como
Esposa. Assim queremos que seja amada por todas as criaturas pretéritas, presentes,
futuras e possíveis” (OO CC VIII, 224; 433-434).
Mesmo diante da sua
indignidade e ingratidão, Pallotti se abre à graça: “Eis-me aqui disposto a
oferecer-me todo a ti. Eis aqui meu coração com todos os seus afetos. Eis aqui
todas as minhas coisas. Eu te entrego nas mãos da Mãe da Misericórdia, Maria
santíssima. Pois, quero que todo eu e todas as minhas coisas sejam tuas, para
que tu sejas todo meu para sempre” (OO CC XIII, 525-526).
O nosso santo se sente nada
diante dos divinos olhos de Deus, porque sente que muitas vezes resistiu ao seu
amor. Sentimento que, talvez hoje mais do que nunca, experimentamos nós, os
cristãos: Deus que nos chama e nós que resistimos, não lhe abrimos o coração,
porque estamos ocupados em servir a outros deuses, a outros senhores. Deuses
que nossa sociedade fabrica cada vez com maior perfeição e em maior quantidade.
Mas, em Pallotti vemos o triunfo da confiança, o triunfo de um coração que
deseja e anseia abrir-se para receber o único Senhor, o único Deus e Pai.
Pallotti não fica lamentando sua fraqueza; pelo contrário, se põe de pé e faz
uso da graça divina que o conforta e o move a responder ao chamado divino. E
essa força e intercessão é Maria, a Mãe da Misericórdia, que o aproxima de
Cristo, carregando-o em suas mãos.
Portanto, a obra do
apostolado católico nasceu com a devoção a Maria e persiste graças a seu
amparo. Assim quis nosso fundador, assim quis Deus e assim seremos fiéis à sua
essência. Por isso, devemos sempre, individual e comunitariamente, alimentar e
fortalecer a nossa união com Maria, que é nossa Mãe e sempre está ao nosso
lado, protegendo-nos e animando-nos, assim como ocorreu com os Apóstolos em
Pentecostes.
1. Como surgiu a devoção
mariana na vida de Vicente Pallotti?
2. Qual o papel de Maria na
fundação de Pallotti?
3. Quais foram os argumentos de
Pallotti para deixar Maria como padroeira da sua obra?
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