quarta-feira, 10 de fevereiro de 2010

VIVA MELHOR - TENHA UM PROJETO DE VIDA

MEU PROJETO PESSOAL

O projeto pessoal de vida é deixar-se questionar pelas atitudes de Jesus, pela Palavra e pela busca do novo alimento.
“Procurai a Javé enquanto pode ser achado, invocai-o enquanto está perto. Abandone o ímpio o seu caminho e o homem mau os seus pensamentos, e volte para Javé, pois terá compaixão dele, e para o nosso Deus, porque é rico em perdão” (Is 55,1-7).
A vida espiritual humana foi sempre um caminho árduo e exigente. Buscar uma vida de perfeição, à imitação de Cristo, é preciso que haja despojamento de si. A busca de santidade não acontece de um dia para o outro, mas passa por um longo processo de amadurecimento espiritual. Para isso, é necessário traçar um projeto de vida que esteja de acordo com a vontade de Deus, revelada em Jesus Cristo.
O desejo de Deus provoca nas pessoas atitudes constantes de mudança de vida, tanto interna quanto externamente. Não é um sentimento passageiro, um desejo infantil, um ideal fútil. É um fogo que queima por dentro e deixa a inquietação da busca (Ex 3,2-6).
São Vicente Pallotti deixou bem claro, em seus escritos, que, para se atingir a perfeição é preciso ter, além da graça de Deus, muito esforço pessoal. Por isso ele diz:
“Por amor de nosso Senhor Jesus Cristo, devemos viver sempre ocupados numa vida de oração e de recolhimento, para a maior glória de Deus e para maior santificação nossa e do próximo” (OO CC III, 76).
“Desconfie sempre de si mesmo e das suas forças, mas abandone-se com perfeita confiança a Deus. Nada deve temer, pois Deus dirigirá tudo, quando nós fazemos tudo com a plena certeza de que nada podemos sem Ele” (OCL II, 335).
“Diante de Jesus entregue toda sua vida, história passada, presente e futura. Tudo pertence a Deus. Ele conhece tudo profundamente, porque ele perscruta o íntimo do nosso ser. Entregue-se inteiramente em suas mãos para poder ser alimentado por sua substância divina” (OO CC X, 452).
“Sinto que Deus quer transformar-me nele para que eu seja uma coisa só com ele” (OO CC X, 694-698). “Como o Pai me ama, assim também eu vos amo. Perseverai no meu amor” (Jo 15,9). “Cristo me nutre com o seu próprio corpo, para que eu possa ser transformado nele” (OO CC X, 698).

Vivemos desejando um futuro que ainda não possuímos. Desejar faz parte da história do homem que luta entre o que é e o que se deseja ser.
O encontro com os místicos faz compreender que a necessidade de Deus só pode ser entendida por aqueles que se decidem a percorrer o caminho da fé, entregando-se totalmente à sua ação transformadora.
“Eu estou disposto a escutar a voz de Deus, que chama a ser perfeito e a caminhar em sua presença” (Chama viva de amor 2,14).
Quais são os medos, os ídolos que me impedem de iniciar o caminho de entrega a Deus e de viver a sua palavra?
“Vós fostes chamados à liberdade, irmãos. Entretanto, que a liberdade não sirva de pretexto para a carne, mas, pela caridade, colocai-vos a serviço uns dos outros” (Gl 5,13s).
O bem e o mal se põem à nossa frente e somos convidados a fazer a opção. Carregamos vida afora as conseqüências das escolhas que fazemos (Dt 11,26-28).
A porta do coração não se abre por fora, mas por dentro. “Eis que estou à porta e bato: se alguém ouvir a minha voz e abrir a porta, entrarei em sua casa e cearei com ele, e ele comigo” (Ap 3,20). “Eis que eu pus diante de ti uma porta aberta que ninguém pode fechar” (Ap 3,8).

A nossa vontade e liberdade é a única chave que permite abrir o coração, para que Deus possa entrar e ficar conosco.
Acolhendo com fé e amor a Palavra de Jesus, vamos descobrindo que ele tem um projeto amoroso, individual, pessoal para cada um de nós. Numa sociedade anônima, despersonalizada em que nos sentimos um número e uma engrenagem na máquina da produtividade, é importante resgatarmos a nossa individualidade, sentirmo-nos únicos e amados por Deus.
No relacionamento pessoal com Jesus, cada um se reencontra, descobre a sua identidade, norteia a própria vida. São Paulo, após o encontro com Cristo, muda toda a orientação da sua caminhada histórica. Esquece o seu passado, assume o presente e lança-se corajosamente para o futuro, chegando à maturidade cristã. Cristo se torna o centro e o único projeto de sua vida (Fil 3,9-13).
O verdadeiro conhecimento de Cristo relativiza todas as coisas e nos leva a centralizar as nossas forças no seguimento dele. Por isso todos os santos não quiseram saber mais de nada a não ser de Jesus Cristo. “Para mim o viver é Cristo e o morrer é lucro” (Fl 2,21).
O projeto pessoal de vida não é outra coisa senão assumir Jesus como Caminho, Verdade e Vida em nosso cotidiano.
Os projetos não dizem respeito ao passado, mas ao futuro. Saber aonde se quer chegar e qual o objetivo a ser alcançado é o início de todo bom resultado. Os projetos devem ser fruto de um lento amadurecimento em que se levantam todos os pontos positivos e negativos, determinando-se as estratégias para atingir o fim almejado.
Não se trata só de caminhar. É preciso saber aonde se quer chegar. Quem foge sente-se como que perseguido, descontente, frustrado por não conseguir alcançar o ideal que se propôs. Tomé, apesar de estar já com Jesus, afirma: “Senhor, não sabemos para onde vais, como podemos conhecer o caminho”? (Jo 14,5).
Na caminhada deve haver também uma revisão para manter o que está bem e corrigir aquilo que ainda precisa ser mudado. Nada na vida é estático.

O projeto de vida e seu significado
O projeto de vida espiritual não pode ser algo supérfluo ou decorativo, mas destinado a produzir frutos abundantes. Não vamos atuar isoladamente, mas junto com a graça do Senhor. “Sem mim nada podeis fazer” (Jo 15,5).”Esta minha vida presente, na carne, eu a vivo na fé, crendo no Filho de Deus, que me amou e se entregou por mim” (Gal 2,20). “Permanecei inabaláveis e firmes na fé, sem vos afastardes da esperança que vos dá o Evangelho” (Cl 1,23).
O projeto de vida ajuda a pessoa a superar a crise de identidade, ou seja, a perda de sentido da vida. Com a crise, a pessoa não sabe mais quem ela é e nem o que quer ser. A crise é a perda da capacidade de identificar-se com aquilo que faz. A pessoa vive em constante desequilíbrio entre o que é e a sua realidade prática. A crise obriga a pessoa a parar e a rever suas posições, os caminhos e as idéias que se propôs a seguir. Assumir a própria identidade é assumir toda complexidade da vida humana, nos seus vários aspectos: físico, intelectual, social, sexual, cultural etc. Identificar-se quer dizer: revelar o que se é. Ao assumir a sua própria identidade, a pessoa reavivará em si a confiança em suas capacidades e potencialidades, sem depender tanto da aprovação dos outros, modificando o seu modo de pensar, de agir e de projetar-se para o futuro.
Num projeto espiritual de vida, a pessoa vai se convencendo de que tem qualidades e limites. Quanto às qualidades devem ser reforçadas e os limites trabalhados, para que possa caminhar com maior consciência e liberdade. Desta forma, cônscio de seu papel na Igreja e no mundo, poderá abrir-se à graça de Deus e solícito para responder ao seu apelo. Torna-se contemplativo na ação, pisando em base sólida do seu mundo interior, tanto no campo afetivo, psíquico e espiritual.

Oração da manhã
O projeto de vida deve ser recomeçado a cada dia que nasce. Os primeiros momentos do dia fazem com que a pessoa experimente as dádivas de Deus de poder usufruir mais este dia em meio à comunidade. É também convidada a dar um sentido a tudo o que vai acontecer e assim poder preparar o espírito, prever quais atitudes devem ser tomadas e como deverá agir em determinados circunstâncias. Com a oração da manhã um grande horizonte se abre pela frente, pois já reza com toda a Igreja e por toda a Igreja. Rezando os salmos entrará em contato com a Palavra de Deus, estará sintonizado com toda a Igreja e sentirá a voz do salmista que se eleva até Deus em meio às suas alegrias e suas decepções da vida. Preparar a agenda do dia com Deus é muito importante, pois poderá sentir ao longo do dia a sua presença e a sua misericórdia nos momentos de fracassos e incompreensões. “Fala, que teu servo escuta!” (1Sam 3,10).

O mistério da vida
Viver é estar envolto em uma nuvem de mistério. É na normalidade da vida, nos acontecimentos deste mundo, onde temos tantos planos e sonhos, Deus se revela a cada pessoa, mesmo estando envolta em meio a tantas ilusões e decepções. Por isso, resgatar o valor do tempo presente como “kairós” da manifestação viva e atuante do Senhor deve ser o objetivo de todos. Estar vigilante naquilo que se faz e se diz. É estar atento aos mínimos acontecimentos e vivê-los com intensidade, responsabilidade e amor. A espiritualidade cotidiana nos convida a essas atitudes interiores. A cada um cabe a capacidade e sensibilidade de ler tudo isso numa dimensão existencial da presença de Deus.
Um projeto de vida espiritual não pode renunciar o momento presente, que é o lugar onde a pessoa se realiza. O projeto de vida não é um luxo para poucos privilegiados, mas é simplesmente uma resposta amorosa ao próprio Deus que nos interpela quando diz: “Sede santos, porque eu sou santo” (Lev 11, 44.45; 19,2; 1Ped 1,16).

A oração como mola propulsora de todo projeto
Cada pessoa é chamada a ter um encontro pessoal com Deus através da oração, não somente comunitária, mas também pessoal, pois é ali que a pessoa deposita toda a sua vida nas mãos de Deus, de uma maneira confiante e confidente. A oração diária não pode ser o resultado da lei, mas de um profundo amor gerado ao longo da vida, através das descobertas de Deus nos pequenos acontecimentos do dia a dia. Um projeto de vida espiritual não pode esquecer-se de recolocar a oração diária no centro de onde tudo parte e aonde tudo chega.
Nos tempos modernos tudo se tornou muito difícil, as pessoas já quase não encontram mais tempo nem mesmo para fazer suas refeições da maneira como queria, porém nunca deixam de se alimentar de maneira nutritiva. Assim também acontece com aqueles que já não possuem tempo também para a oração, com momentos específicos. Todo momento é momento de oração, não importa onde está (Dt 6,4-7). Todo pequeno espaço, nos momentos mais variados, é possível manter-se na presença de Deus. Basta estar atento a isso e saber aproveitar o seu tempo para estar com o Senhor. Quem adquire uma certa familiaridade no relacionamento com Deus, mesmo diante da imprevisibilidade da vida é possível descobrir a ação de Deus que vem em nosso auxílio; basta recordar a passagem em que João reconhece Jesus na beira do lago enquanto pescavam: “É o Senhor” (Jo 21,1-7).
Rezar não significa pensar, por isso Santa Teresa diz: “a oração não consiste em muito pensar, mas sim em muito amar”. Rezar é a arte de amar.
Santo Inácio, por sua vez, diz que devemos ser contemplativos na ação. A contemplação é o permanecer com o olhar e o coração fixo em Deus. É saber ler atrás de cada acontecimento da vida, da história cotidiana, a presença viva de Deus que tudo conduz e fecunda com a graça e seu amor. O que prejudica a oração é o ativismo, não a atividade. É necessário recuperar, na vida espiritual, a dimensão do trabalho e da oração como algo indispensável para o nosso equilíbrio espiritual. Ser contemplativo na ação é compreender que não podemos gozar da experiência de Deus sem participá-la aos irmãos. Os grandes místicos foram também grandes apóstolos e souberam encontrar a unidade de toda a vida mergulhando cada vez mais na oração e na atividade.

Dar vasão à criatividade
Um projeto de vida depende muito da nossa vida, daquilo que nós fazemos. Devemos a cada dia dar sabor às nossas atividades, para que a vida não se torne amarga e sem sentido, monótona. A vida religiosa só poderá ser contagiante na medida em que o religioso é capaz de ser criativo com o dom recebido de Deus. “Pela graça de Deus sou o que sou, e a graça que me conferiu não foi estéril. Ao contrário, tenho trabalhado mais do que todos eles, mas não eu e sim a graça de Deus comigo” (1Cor 15,10).
Nesse processo de crescimento espiritual, sem dúvida, não deveria ficar de fora o desejo profundo de se encontrar com Deus de uma maneira mais perfeita possível. Um dos meios eficazes para que haja um encontro de qualidade, a pessoa deve buscar freqüentemente os sacramentos, de modo particular a Eucaristia e a penitência. Através da confissão a pessoa terá um crescimento da vida espiritual e da intimidade com Cristo. A pessoa vai se libertar de muitos fantasmas que impedirão um crescimento espiritual harmonioso pela falta de dar perdão e de receber perdão. O pecado é como um veneno que vai contaminando tudo, vai impedindo que a graça de Deus prospere na vida da pessoa. Este sacramento ajuda a pessoa a mudar de direção e de reafirmação de certas decisões tomadas, segundo o projeto de Deus a seu respeito.

Direção espiritual
A direção espiritual é o meio mais eficaz de avaliação do caminho espiritual, para se descobrir a vontade de Deus e praticá-la com tranqüilidade. A direção espiritual é a ajuda que um cristão oferece a outro cristão, tendo a perfeição como meta. Ninguém consegue caminhar sozinho, sem a ajuda dos outros. No processo de crescimento espiritual torna-se indispensável a ajuda de alguém a quem nós confiamos e deixamos que nos guie na liberdade de espírito, para que um projeto de vida espiritual possa caminhar e crescer.

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