Tema 18: PALLOTTI: CONTEMPLATIVO NA AÇÃO
Quando entramos no aspecto pessoal da espiritualidade
de São Vicente Pallotti, é perceptível que ele, ao longo da sua vida, rompeu
com a dicotomia que havia entre o sagrado e o profano. Para o, assim chamado, “Apóstolo
de Roma”, a contemplação não era um momento para refugiar-se do mundo, mas,
sim, o combustível para transformá-lo em um verdadeiro orante. Ser um
contemplativo na ação significava buscar a face de Deus, não apenas no silêncio
da capela, mas nas feridas dos enfermos e na fadiga dos trabalhadores,
transformando cada gesto de caridade em uma liturgia viva. Esse seu modo de ser
e de agir imprimiu no carisma palotino uma busca incessante pela unidade das
pessoas entre si e em relação a Deus. A expressão “contemplativo na ação”
define o equilíbrio entre o ora et labora (reza e trabalha), onde a
contemplação não é um estado de passividade, mas a força motriz que impulsiona
o apostolado. Vicente Pallotti compreendeu que, se Deus é amor infinito e ação
constante, o apóstolo deve imitá-Lo unindo a oração interior ao serviço
concreto ao próximo.
Pallotti, mesmo pertencendo ao clero diocesano,
conseguiu destacar-se tanto pelo espírito de oração, como pela contemplação dos
santos mistérios de Deus, concretizado na pessoa de Seu Filho Jesus Cristo. O
que relatamos aqui, não é somente baseado nos testemunhos sobre a sua vida,
mas, principalmente nos baseamos em seus escritos espirituais, iniciados em
1816, quando tinha apenas 21 anos de idade. Embora fosse jovem, ele demonstra ter
profundidade, maturidade espiritual e intelectual.
A experiência do amor de Deus em Pallotti era tão
forte que, não encontrando palavras para expressar o que sentia, repetia muitas
vezes as mesmas palavras: Deus, Deus, Deus, Deus, ou Misericórdia,
Misericórdia, Misericórdia, como aparece em muitas partes de seus escritos.
Segundo o Padre Achylle Rubin, Pallotti poderia ter orado em línguas, conforme
a explicação desse dom feita por Santo Agostinho. Esse Padre da Igreja falava
do júbilo que brota do coração, quando não se tem mais palavras para expressar
a imensa alegria do amor de Deus.
Agostinho viveu em uma época em que o fenômeno, tal
como descrito no dia de Pentecostes, já não era comum na Igreja. Por isso, ele
desenvolveu uma interpretação eclesiológica e simbólica sobre o
tema. Ele argumentava que o milagre de Pentecostes era um sinal temporário,
para demonstrar que o Evangelho deveria ser pregado em todas as línguas. Para ele,
a Igreja agora fala todas as línguas do mundo.
Portanto, quem está na unidade da Igreja “fala em
línguas”, pois faz parte de um corpo universal que louva a Deus em todos os
idiomas (Tratado VI, 10. Comentário à Primeira Epístola de João (In
Epistulam Ioannis ad Parthos). Sermões 267, 268 e 269). Ele enfatiza que o
verdadeiro sinal do Espírito Santo não é o som das línguas, mas a caridade e a unidade
da Igreja.
Quando analisamos friamente a ação da graça na vida de
Pallotti, fica a impressão de que era fruto da sua determinação constante e
disciplinada de oração. Mas, ele mesmo responde com suas próprias palavras,
quando repete em inúmeros textos sobre a misericordiosa ação de Deus em sua
vida, sentindo-se indigno de tão grande amor: “Por mim, nada posso, com Deus,
posso tudo”. Ele tinha plena consciência de que, por si mesmo, não conseguia se
santificar, porque se sentia nada e pecado. No entanto, confiava na incrível e infinita
misericórdia de Deus que destruía toda a sua miséria.
Em diversas passagens de seus escritos espirituais,
ele apresenta ter sentido a presença ou a ação de Deus nele. Por isso, ele queria, em todas as suas ações,
como a dos outros, que Deus fosse glorificado. Isto podemos ver também em Santa
Teresinha, que caminhava pela mesma direção, quando, em sua extraordinária e
divina simplicidade, dizia sobre a oração: “Para mim, a oração é um impulso do
coração, um simples olhar lançado ao Céu; é um grito de agradecimento e de
amor, tanto no meio da provação quanto no meio da alegria; em suma, é algo
grandioso, sobrenatural, que me expande a alma e me aproxima de Jesus”
(História de uma alma).
Para Pallotti, sentir-se infinitamente amado por Deus
o levava a desejar amar infinitamente Aquele que o amou primeiro. Pelos seus
escritos, percebemos como ele se relaciona com seu Amor infinito e isso nos dá
uma clara ideia da ternura, da confiança e da intimidade que ele experimentava.
Ele se refere a Deus, em seu primeiro escrito, dizendo: “meu bom Pai Celeste”,
ou “meu Pai amorosíssimo e infinitamente perfeito”, “meu terníssimo e
amorosíssimo Pai”. Essas expressões não eram comuns na sua época e tal
linguagem revelava que ele tinha uma relação íntima e profunda, assim como
Jesus teve ao dizer “Abba”, Pai. É a linguagem dos apaixonados, dos enamorados,
dos loucos de amor, daqueles que creem e vivem a “loucura da cruz”.
Rezar com a imaginação
Um detalhe importante a ser notado nos escritos de
Pallotti é o modo como ele recorre à imaginação como método para rezar, para
estar em oração. Assim escreveu: “onde quer que eu esteja, quero imaginar-me no
Cenáculo, com Maria e os Apóstolos”, para sentir-se inundado pelo Espírito
Santo e receber seus dons, para que Ele e todas as criaturas louvem a Deus. Ele
também recorria à imaginação quando escreveu: “Eu me imagino no seio de Deus,
nas chagas de Jesus, onde recebo uma grandíssima abundância de graças para a
santificação. Eu me imagino ainda no seio de Maria Santíssima...”. Isto deixa a
impressão de que ele empregava o método inaciano de composição de lugar.
Este seu método demonstra que estava inundado de amor,
compenetrado a tal ponto que se imaginava estar com a pessoa amada. Santa
Teresa de Ávila também o utilizava e o recomendava no “Livro da Vida”, a usar a
imaginação para nos aproximarmos e nos entusiasmarmos mais com Deus, com o
Evangelho, para excitar em nós o desejo de Cristo. Imaginar-nos como os
protagonistas das parábolas de Jesus e, assim, poder recuperar a visão,
caminhar e, acima de tudo, voltar correndo para a casa paterna e nos deixar
abraçar e encher de beijos, por nosso amadíssimo e terníssimo Pai-Deus.
Pallotti quer que toda a sua vida seja tomada por
Cristo: “Seja destruída toda a minha vida e toda a vida de Cristo seja a minha
vida. A vida de Jesus Cristo seja a minha meditação, o meu estudo, um adorno
para a Igreja em minha pessoa. A oração de Cristo seja a minha oração, a
palavra de Cristo seja a minha palavra, a caridade de Cristo seja a minha
caridade. O amor de Cristo para com a Virgem Maria seja o meu amor para com ela”
(OO CC X, 618-625). Usava também muito esta expressão: “Não quero nada
senão Deus: nada, nada. Meu Deus, tudo, tudo, tudo. Só Deus; só, só Deus” (OO
CC X, 68).
Essa abertura ao chamado de Deus, esse querer que Deus
seja tudo em sua vida, implica, por vezes, sofrimento, solidão e dor. É o
caminho que os grandes santos e profetas percorreram e que também nosso
fundador percorreu. Em “Noite Escura” e “Cântico Espiritual”, São João da Cruz
descreve todas as etapas no caminho da vida espiritual, as etapas na subida ao
monte de amor que é Deus. Primeiramente, a alma sente com muita intensidade a
presença divina e despertam desejos ardentes de Deus. Ela se entrega à vida
espiritual e começa a experimentar profundos sofrimentos, que são chamados por
São João da Cruz de “divinas feridas” e sofrimento de “pena da ausência de Deus”.
Estes momentos são os que encontramos em seu testamento espiritual quando ele
escreve:
“Passados
poucos dias... Deus, em sua infinita misericórdia, passou a visitar-me com tais
e tão dolorosas tribulações e a fazer-me sentir tão vivamente o peso delas,
que, em minha miséria, cheguei a crer que eram maiores que as tribulações de
todos os anos da minha vida passada. No que diz respeito a isso, Nosso Senhor
Jesus Cristo se dignou em derramar em meu pobre e ingratíssimo coração, vivo
sentimento de confiança de que o tempo de sofrimento seria o mais oportuno para
receber as luzes de Deus” (Testamento Espiritual. Regras Fundamentais).
É impressionante ver como Pallotti buscou realizar em
sua vida o amor de Deus. Ele tentava fazer com que as suas obras, as palavras, os
sentimentos e os pensamentos fossem dirigidos ao Criador de forma plena e
permanente. Dar sempre glória a Deus, infinitamente. Isso nasceu da consciência
que nosso santo teve do amor gratuito, imenso e até “exagerado” de Deus por
ele, que se sentia tão indigno de tamanha graça, tão limitado para corresponder
a tanto amor.
É por essa razão que Pallotti, com sua vida, tenta, na
medida do possível, agradecer ao amor infinito do qual se sente objeto. É por
isso, então, que o que moverá Pallotti em seu apostolado é a caridade. A
consequência imediata de sentir o amor de Deus é praticá-lo com os irmãos, é
anunciá-lo, para que todas as criaturas cheguem ao Pai e todas O louvem e vivam
com Ele para sempre. Isso é o que move o seu desejo de reascender a fé e
reavivar a caridade. Segundo ele: “Para poder realizar, por amor a Deus, o
menor dos atos de caridade para com o próximo, eu me jogaria até mesmo nas
chamas do inferno, desde que o possa fazer com a graça de Deus” (Propósitos e
aspirações, n. 205, p. 90). Este seu diálogo com Deus parece ilógico para nós,
mas esta é a forma como um místico expressa o seu amor para com Deus. Anos mais
tarde, Santa Teresinha dirá o mesmo: “iria ao próprio inferno para conseguir
que um dos condenados louvasse a Deus. São os arrebatamentos dos apaixonados
por Cristo.
O hino da
caridade
Quando Pallotti começa a infundir seu carisma na obra
nascente, ele escreve como deve ser o método a seguir nas assembleias e
recomenda que se leia, como introdução, o hino à caridade de São Paulo (1Cor
13). Assim dizia ele: “Já que a piedosa Sociedade está fundada e instituída na
caridade e para promover em todos os fiéis de qualquer estado, classe, grau,
sexo e condição o mais perfeito e ativo exercício das obras de caridade e de
misericórdia, para a maior glória de Deus e de sua Santíssima Mãe Imaculada e
para a maior santificação dos povos, por isso, todos devem estar sempre
animados pelo verdadeiro espírito da mais perfeita caridade”. É impressionante
ver como Pallotti buscava realizar em sua vida o amor de Deus.
Diante dessa sua profunda experiência com Deus, surgiu
nele o desejo de praticar as obras de misericórdia, até porque, para ele, Deus
é misericórdia infinita:
“Tenho
confiança muito grande em que Deus não deixará de assistir-me com abundância de
suas graças por sua bondade infinita e compaixão para com a minha miséria. Eu
desejaria estar permanentemente nos hospitais, nas prisões, encontrar-me sempre
em todos os lugares da terra para atender às necessidades dos pobres e às
enfermidades dos doentes, ensinar aos ignorantes a verdadeira ciência dos
santos, fazer com que príncipes, soberanos, reis, grandes e pequenos, nobres e
plebeus e todas as criaturas com perfeição infinita conheçam, amem e sirvam a
Deus, meu Pai, meu Tudo, meu Bem; assim, gostaria de realizar coisas infinitas
por Deus Uno e Trino; e tudo isso de forma tal que eu não seja visto senão por
Deus; e como é impossível realizar tudo isso, ofereço ao Senhor, nosso Pai
Celeste, os merecimentos e orações de todas as criaturas, especialmente de
Jesus e de Maria, para cumprir em parte o mandamento da caridade para com os
próximos, meus irmãos, e para com Deus. Eu disse em parte, porque gostaria de
fazer mais, uma vez que “tudo posso naquele que me conforta” (Fl 4,13);
(Propósitos e aspirações, n. 176, pp. 78-79).
Continua
ele: “Em cada uma das minhas ações, mesmo as mais insignificantes, procurarei
considerar como de grande importância e realizar com perfeição sempre confiante
nos merecimentos do meu mais que amadíssimo Jesus e da minha mais que afetuosíssima
Maria, dos anjos e dos santos” (Propósitos e aspirações, n. 141, p. 65).
Propósito
de estar sempre no cenáculo
Tenho a firme esperança de que pelos méritos dos
santos, dos anjos, de Maria e de Jesus, Deus em sua bondade derramará
fartamente sobre mim a graça que santifica e faz operar coisas grandiosas para
a glória de Deus, e infundirá em mim altíssimos graus de santidade e perfeição.
Tenho confiança de que o Senhor e Pai afetuosíssimo me concederá tal graça,
sendo tão grande a minha confiança, tenho a impressão de tê-la recebido já.
Espero tornar-me santo como Deus quer, não por obras minhas, mas por graça do
Senhor, o qual a cada momento pode instilar nas almas altos graus de santidade.
Por isso, em qualquer lugar em que eu estiver, procurarei
imaginar-me que eu mesmo e todas as criaturas estamos no Cenáculo de Jerusalém,
onde os apóstolos receberam o Espírito Santo; e esse pensamento eu renovarei
frequentemente. Como os apóstolos lá estavam, juntamente com Maria Santíssima,
assim, eu também, imaginarei estar junto com a minha mais que encantadora mãe
Maria e com o mais que amado esposo de minha alma Jesus, os quais eu tenho
certeza de que, como meus particularíssimos advogados, farão descer sobre mim e
os outros a abundância do Espírito Santo (Propósitos e aspirações, n. 81 e 82,
pp. 48-50).
Em suma, a trajetória de Vicente Pallotti revela que
sua eficácia apostólica não era fruto de meros esforços humanos, mas o
transbordamento de uma vida profundamente mergulhada em Deus. Ao unir a oração
contemplativa, marcada pelo uso da imaginação e pela consciência da própria
pequenez, a uma caridade operante, Pallotti demonstrou que ser um “contemplativo
na ação” significa permitir que o amor de Deus seja o motor de cada gesto. Sua
herança espiritual convida-nos a retornar constantemente ao “Cenáculo”, para
que, fortalecidos pelo Espírito Santo e impulsionados pela caridade de Cristo,
possamos ser instrumentos da misericórdia divina no mundo, buscando sempre e em
tudo a Sua infinita glória.
Vicente Pallotti como contemplativo, orante, personifica o equilíbrio perfeito entre a mística e a missão. Sua espiritualidade, fundamentada na confiança absoluta na Providência e na imitação da vida de Jesus, não o isolou do mundo, mas o lançou com ardor ao serviço dos mais necessitados. Para ele, a oração e a ação eram faces da mesma moeda: o amor a Deus que se concretiza no amor ao próximo. Ao propor que todos, independentemente de seu estado ou classe, fossem apóstolos animados pela caridade, trouxe uma nova aurora para a Igreja. Por isso, seguramente, podemos afirmar que, o grande legado que ele deixou foi a certeza de que não podemos vier sem a unidade e o zelo apostólico. O seu testemunho de vida nos ensina que o segredo da santidade reside na humildade de reconhecer que “nada podemos sem Deus”, mas que, com ele poderemos fazer grandes coisas.
Para refletir
1.
Como podemos
transformar as nossas atividades cotidianas em uma oração contínua, sem nos
isolarmos do mundo?
2.
Pallotti
utilizava o método da imaginação, para aprofundar sua intimidade com Deus. Como
isso pode ajudar em sua oração?
3.
Se a “caridade de
Cristo nos impele”, é possível ser um verdadeiro contemplativo sem estar
engajado em ações de misericórdia para com o próximo?