sábado, 3 de outubro de 2026


 

Tema 18: PALLOTTI: CONTEMPLATIVO NA AÇÃO

Quando entramos no aspecto pessoal da espiritualidade de São Vicente Pallotti, é perceptível que ele, ao longo da sua vida, rompeu com a dicotomia que havia entre o sagrado e o profano. Para o, assim chamado, “Apóstolo de Roma”, a contemplação não era um momento para refugiar-se do mundo, mas, sim, o combustível para transformá-lo em um verdadeiro orante. Ser um contemplativo na ação significava buscar a face de Deus, não apenas no silêncio da capela, mas nas feridas dos enfermos e na fadiga dos trabalhadores, transformando cada gesto de caridade em uma liturgia viva. Esse seu modo de ser e de agir imprimiu no carisma palotino uma busca incessante pela unidade das pessoas entre si e em relação a Deus. A expressão “contemplativo na ação” define o equilíbrio entre o ora et labora (reza e trabalha), onde a contemplação não é um estado de passividade, mas a força motriz que impulsiona o apostolado. Vicente Pallotti compreendeu que, se Deus é amor infinito e ação constante, o apóstolo deve imitá-Lo unindo a oração interior ao serviço concreto ao próximo.

Pallotti, mesmo pertencendo ao clero diocesano, conseguiu destacar-se tanto pelo espírito de oração, como pela contemplação dos santos mistérios de Deus, concretizado na pessoa de Seu Filho Jesus Cristo. O que relatamos aqui, não é somente baseado nos testemunhos sobre a sua vida, mas, principalmente nos baseamos em seus escritos espirituais, iniciados em 1816, quando tinha apenas 21 anos de idade. Embora fosse jovem, ele demonstra ter profundidade, maturidade espiritual e intelectual.

A experiência do amor de Deus em Pallotti era tão forte que, não encontrando palavras para expressar o que sentia, repetia muitas vezes as mesmas palavras: Deus, Deus, Deus, Deus, ou Misericórdia, Misericórdia, Misericórdia, como aparece em muitas partes de seus escritos. Segundo o Padre Achylle Rubin, Pallotti poderia ter orado em línguas, conforme a explicação desse dom feita por Santo Agostinho. Esse Padre da Igreja falava do júbilo que brota do coração, quando não se tem mais palavras para expressar a imensa alegria do amor de Deus.

Agostinho viveu em uma época em que o fenômeno, tal como descrito no dia de Pentecostes, já não era comum na Igreja. Por isso, ele desenvolveu uma interpretação eclesiológica e simbólica sobre o tema. Ele argumentava que o milagre de Pentecostes era um sinal temporário, para demonstrar que o Evangelho deveria ser pregado em todas as línguas. Para ele, a Igreja agora fala todas as línguas do mundo.

Portanto, quem está na unidade da Igreja “fala em línguas”, pois faz parte de um corpo universal que louva a Deus em todos os idiomas (Tratado VI, 10. Comentário à Primeira Epístola de João (In Epistulam Ioannis ad Parthos). Sermões 267, 268 e 269). Ele enfatiza que o verdadeiro sinal do Espírito Santo não é o som das línguas, mas a caridade e a unidade da Igreja.

Quando analisamos friamente a ação da graça na vida de Pallotti, fica a impressão de que era fruto da sua determinação constante e disciplinada de oração. Mas, ele mesmo responde com suas próprias palavras, quando repete em inúmeros textos sobre a misericordiosa ação de Deus em sua vida, sentindo-se indigno de tão grande amor: “Por mim, nada posso, com Deus, posso tudo”. Ele tinha plena consciência de que, por si mesmo, não conseguia se santificar, porque se sentia nada e pecado. No entanto, confiava na incrível e infinita misericórdia de Deus que destruía toda a sua miséria.

Em diversas passagens de seus escritos espirituais, ele apresenta ter sentido a presença ou a ação de Deus nele.  Por isso, ele queria, em todas as suas ações, como a dos outros, que Deus fosse glorificado. Isto podemos ver também em Santa Teresinha, que caminhava pela mesma direção, quando, em sua extraordinária e divina simplicidade, dizia sobre a oração: “Para mim, a oração é um impulso do coração, um simples olhar lançado ao Céu; é um grito de agradecimento e de amor, tanto no meio da provação quanto no meio da alegria; em suma, é algo grandioso, sobrenatural, que me expande a alma e me aproxima de Jesus” (História de uma alma).

Para Pallotti, sentir-se infinitamente amado por Deus o levava a desejar amar infinitamente Aquele que o amou primeiro. Pelos seus escritos, percebemos como ele se relaciona com seu Amor infinito e isso nos dá uma clara ideia da ternura, da confiança e da intimidade que ele experimentava. Ele se refere a Deus, em seu primeiro escrito, dizendo: “meu bom Pai Celeste”, ou “meu Pai amorosíssimo e infinitamente perfeito”, “meu terníssimo e amorosíssimo Pai”. Essas expressões não eram comuns na sua época e tal linguagem revelava que ele tinha uma relação íntima e profunda, assim como Jesus teve ao dizer “Abba”, Pai. É a linguagem dos apaixonados, dos enamorados, dos loucos de amor, daqueles que creem e vivem a “loucura da cruz”.

Rezar com a imaginação

Um detalhe importante a ser notado nos escritos de Pallotti é o modo como ele recorre à imaginação como método para rezar, para estar em oração. Assim escreveu: “onde quer que eu esteja, quero imaginar-me no Cenáculo, com Maria e os Apóstolos”, para sentir-se inundado pelo Espírito Santo e receber seus dons, para que Ele e todas as criaturas louvem a Deus. Ele também recorria à imaginação quando escreveu: “Eu me imagino no seio de Deus, nas chagas de Jesus, onde recebo uma grandíssima abundância de graças para a santificação. Eu me imagino ainda no seio de Maria Santíssima...”. Isto deixa a impressão de que ele empregava o método inaciano de composição de lugar.

Este seu método demonstra que estava inundado de amor, compenetrado a tal ponto que se imaginava estar com a pessoa amada. Santa Teresa de Ávila também o utilizava e o recomendava no “Livro da Vida”, a usar a imaginação para nos aproximarmos e nos entusiasmarmos mais com Deus, com o Evangelho, para excitar em nós o desejo de Cristo. Imaginar-nos como os protagonistas das parábolas de Jesus e, assim, poder recuperar a visão, caminhar e, acima de tudo, voltar correndo para a casa paterna e nos deixar abraçar e encher de beijos, por nosso amadíssimo e terníssimo Pai-Deus.

Pallotti quer que toda a sua vida seja tomada por Cristo: “Seja destruída toda a minha vida e toda a vida de Cristo seja a minha vida. A vida de Jesus Cristo seja a minha meditação, o meu estudo, um adorno para a Igreja em minha pessoa. A oração de Cristo seja a minha oração, a palavra de Cristo seja a minha palavra, a caridade de Cristo seja a minha caridade. O amor de Cristo para com a Virgem Maria seja o meu amor para com ela” (OO CC X, 618-625). Usava também muito esta expressão: “Não quero nada senão Deus: nada, nada. Meu Deus, tudo, tudo, tudo. Só Deus; só, só Deus” (OO CC X, 68).

Essa abertura ao chamado de Deus, esse querer que Deus seja tudo em sua vida, implica, por vezes, sofrimento, solidão e dor. É o caminho que os grandes santos e profetas percorreram e que também nosso fundador percorreu. Em “Noite Escura” e “Cântico Espiritual”, São João da Cruz descreve todas as etapas no caminho da vida espiritual, as etapas na subida ao monte de amor que é Deus. Primeiramente, a alma sente com muita intensidade a presença divina e despertam desejos ardentes de Deus. Ela se entrega à vida espiritual e começa a experimentar profundos sofrimentos, que são chamados por São João da Cruz de “divinas feridas” e sofrimento de “pena da ausência de Deus”. Estes momentos são os que encontramos em seu testamento espiritual quando ele escreve:

“Passados poucos dias... Deus, em sua infinita misericórdia, passou a visitar-me com tais e tão dolorosas tribulações e a fazer-me sentir tão vivamente o peso delas, que, em minha miséria, cheguei a crer que eram maiores que as tribulações de todos os anos da minha vida passada. No que diz respeito a isso, Nosso Senhor Jesus Cristo se dignou em derramar em meu pobre e ingratíssimo coração, vivo sentimento de confiança de que o tempo de sofrimento seria o mais oportuno para receber as luzes de Deus” (Testamento Espiritual. Regras Fundamentais).

É impressionante ver como Pallotti buscou realizar em sua vida o amor de Deus. Ele tentava fazer com que as suas obras, as palavras, os sentimentos e os pensamentos fossem dirigidos ao Criador de forma plena e permanente. Dar sempre glória a Deus, infinitamente. Isso nasceu da consciência que nosso santo teve do amor gratuito, imenso e até “exagerado” de Deus por ele, que se sentia tão indigno de tamanha graça, tão limitado para corresponder a tanto amor.

É por essa razão que Pallotti, com sua vida, tenta, na medida do possível, agradecer ao amor infinito do qual se sente objeto. É por isso, então, que o que moverá Pallotti em seu apostolado é a caridade. A consequência imediata de sentir o amor de Deus é praticá-lo com os irmãos, é anunciá-lo, para que todas as criaturas cheguem ao Pai e todas O louvem e vivam com Ele para sempre. Isso é o que move o seu desejo de reascender a fé e reavivar a caridade. Segundo ele: “Para poder realizar, por amor a Deus, o menor dos atos de caridade para com o próximo, eu me jogaria até mesmo nas chamas do inferno, desde que o possa fazer com a graça de Deus” (Propósitos e aspirações, n. 205, p. 90). Este seu diálogo com Deus parece ilógico para nós, mas esta é a forma como um místico expressa o seu amor para com Deus. Anos mais tarde, Santa Teresinha dirá o mesmo: “iria ao próprio inferno para conseguir que um dos condenados louvasse a Deus. São os arrebatamentos dos apaixonados por Cristo.

O hino da caridade

Quando Pallotti começa a infundir seu carisma na obra nascente, ele escreve como deve ser o método a seguir nas assembleias e recomenda que se leia, como introdução, o hino à caridade de São Paulo (1Cor 13). Assim dizia ele: “Já que a piedosa Sociedade está fundada e instituída na caridade e para promover em todos os fiéis de qualquer estado, classe, grau, sexo e condição o mais perfeito e ativo exercício das obras de caridade e de misericórdia, para a maior glória de Deus e de sua Santíssima Mãe Imaculada e para a maior santificação dos povos, por isso, todos devem estar sempre animados pelo verdadeiro espírito da mais perfeita caridade”. É impressionante ver como Pallotti buscava realizar em sua vida o amor de Deus.

Diante dessa sua profunda experiência com Deus, surgiu nele o desejo de praticar as obras de misericórdia, até porque, para ele, Deus é misericórdia infinita:

“Tenho confiança muito grande em que Deus não deixará de assistir-me com abundância de suas graças por sua bondade infinita e compaixão para com a minha miséria. Eu desejaria estar permanentemente nos hospitais, nas prisões, encontrar-me sempre em todos os lugares da terra para atender às necessidades dos pobres e às enfermidades dos doentes, ensinar aos ignorantes a verdadeira ciência dos santos, fazer com que príncipes, soberanos, reis, grandes e pequenos, nobres e plebeus e todas as criaturas com perfeição infinita conheçam, amem e sirvam a Deus, meu Pai, meu Tudo, meu Bem; assim, gostaria de realizar coisas infinitas por Deus Uno e Trino; e tudo isso de forma tal que eu não seja visto senão por Deus; e como é impossível realizar tudo isso, ofereço ao Senhor, nosso Pai Celeste, os merecimentos e orações de todas as criaturas, especialmente de Jesus e de Maria, para cumprir em parte o mandamento da caridade para com os próximos, meus irmãos, e para com Deus. Eu disse em parte, porque gostaria de fazer mais, uma vez que “tudo posso naquele que me conforta” (Fl 4,13); (Propósitos e aspirações, n. 176, pp. 78-79).

Continua ele: “Em cada uma das minhas ações, mesmo as mais insignificantes, procurarei considerar como de grande importância e realizar com perfeição sempre confiante nos merecimentos do meu mais que amadíssimo Jesus e da minha mais que afetuosíssima Maria, dos anjos e dos santos” (Propósitos e aspirações, n. 141, p. 65).

Propósito de estar sempre no cenáculo

Tenho a firme esperança de que pelos méritos dos santos, dos anjos, de Maria e de Jesus, Deus em sua bondade derramará fartamente sobre mim a graça que santifica e faz operar coisas grandiosas para a glória de Deus, e infundirá em mim altíssimos graus de santidade e perfeição. Tenho confiança de que o Senhor e Pai afetuosíssimo me concederá tal graça, sendo tão grande a minha confiança, tenho a impressão de tê-la recebido já. Espero tornar-me santo como Deus quer, não por obras minhas, mas por graça do Senhor, o qual a cada momento pode instilar nas almas altos graus de santidade.

Por isso, em qualquer lugar em que eu estiver, procurarei imaginar-me que eu mesmo e todas as criaturas estamos no Cenáculo de Jerusalém, onde os apóstolos receberam o Espírito Santo; e esse pensamento eu renovarei frequentemente. Como os apóstolos lá estavam, juntamente com Maria Santíssima, assim, eu também, imaginarei estar junto com a minha mais que encantadora mãe Maria e com o mais que amado esposo de minha alma Jesus, os quais eu tenho certeza de que, como meus particularíssimos advogados, farão descer sobre mim e os outros a abundância do Espírito Santo (Propósitos e aspirações, n. 81 e 82, pp. 48-50).

Em suma, a trajetória de Vicente Pallotti revela que sua eficácia apostólica não era fruto de meros esforços humanos, mas o transbordamento de uma vida profundamente mergulhada em Deus. Ao unir a oração contemplativa, marcada pelo uso da imaginação e pela consciência da própria pequenez, a uma caridade operante, Pallotti demonstrou que ser um “contemplativo na ação” significa permitir que o amor de Deus seja o motor de cada gesto. Sua herança espiritual convida-nos a retornar constantemente ao “Cenáculo”, para que, fortalecidos pelo Espírito Santo e impulsionados pela caridade de Cristo, possamos ser instrumentos da misericórdia divina no mundo, buscando sempre e em tudo a Sua infinita glória.

Vicente Pallotti como contemplativo, orante, personifica o equilíbrio perfeito entre a mística e a missão. Sua espiritualidade, fundamentada na confiança absoluta na Providência e na imitação da vida de Jesus, não o isolou do mundo, mas o lançou com ardor ao serviço dos mais necessitados. Para ele, a oração e a ação eram faces da mesma moeda: o amor a Deus que se concretiza no amor ao próximo. Ao propor que todos, independentemente de seu estado ou classe, fossem apóstolos animados pela caridade, trouxe uma nova aurora para a Igreja. Por isso, seguramente, podemos afirmar que, o grande legado que ele deixou foi a certeza de que não podemos vier sem a unidade e o zelo apostólico. O seu testemunho de vida nos ensina que o segredo da santidade reside na humildade de reconhecer que “nada podemos sem Deus”, mas que, com ele poderemos fazer grandes coisas. 

Para refletir

1.     Como podemos transformar as nossas atividades cotidianas em uma oração contínua, sem nos isolarmos do mundo?

2.     Pallotti utilizava o método da imaginação, para aprofundar sua intimidade com Deus. Como isso pode ajudar em sua oração?

3.     Se a “caridade de Cristo nos impele”, é possível ser um verdadeiro contemplativo sem estar engajado em ações de misericórdia para com o próximo?