sexta-feira, 9 de outubro de 2026


 

Tema 19: DEUS, O ENLOUQUECIDO DE AMOR

 “Deus amou tanto o mundo que deu o seu único Filho, para que todo aquele que nele crê não se perca, mas tenha a vida eterna” (Jo 3, 16). 

O amor é um dos temas mais complexos e profundos da experiência humana, sendo abordado por diferentes perspectivas ao longo da história: biológica, filosófica, psicológica e, sobretudo, espiritual. Para os santos, o amor não é apenas um sentimento, mas uma virtude teologal (cf. 1Cor 13,13) e uma decisão da vontade:

  1. São Bernardo de Claraval, no capítulo 1 de sua obra De Diligendo Deo via o amor como o peso da alma. Segundo ele: “a medida do amor é amar sem medida”. Ele ensinava que o amor deve ser ordenado, porque não há um limite prudente para o amor a Deus, pois Ele próprio é a razão infindável desse amor. Segundo São Paulo, em Gálatas: “Toda a lei se cumpre numa só palavra: Amarás o teu próximo como a ti mesmo” (Gl 5, 14).
  2. Santo Tomás resumiu o amor (caridade) como querer o bem do outro. É um ato da vontade que busca a perfeição do outro (cf. Suma Teológica III, q. 26, a. 4).
  3. Para Santa Teresinha, o amor é o que movimenta a Igreja, em sua famosa frase: “No coração da Igreja, minha mãe, eu serei o amor” (Obras completas: manuscritos autobiográficos. Manuscrito B, Edições Carmelo, 1996, p. 230), reflete a ideia de que todas as obras, por menores que sejam, só têm valor se feitas com amor.
  4. Segundo São João da Cruz, o amor purifica a alma: “No entardecer da vida, seremos julgados pelo amor”. Ou então: “É impossível chegar ao perfeito amor de Deus, sem uma visão perfeita de Deus” (Cântico espiritual B, 38, n. 5).
  5. São Vicente Pallotti, por sua vez, trouxe uma perspectiva muito específica e dinâmica sobre o amor, fundamentada na ideia de caridade infinita (cf. Vicente Pallotti. As luzes, 113-132). Para ele, o amor não era um conceito abstrato, mas a própria essência de Deus agindo no mundo. Ele contemplava Deus essencialmente como amor e caridade. Ele acreditava que, como fomos criados à imagem e semelhança de Deus, nossa maior vocação é sermos “caridade” no mundo. Ele frequentemente usava a expressão: “Caritas Christi urget nos”! (“A caridade de Cristo nos impele” – 2Cor 5, 14).

Para Pallotti, o amor é operante, é diferente de uma contemplação passiva, o amor para ele é apostólico. Ele defendia que o amor deve se transformar em ação concreta, para reavivar a fé e reacender a caridade em todos os membros do povo de Deus. Não existe amor a Deus que não se desdobre em serviço ao próximo. Ele ensinava, também, que o amor tem o poder de transformar a miséria humana. Por isso, buscava ver a imagem de Deus em cada pessoa, especialmente nos mais pobres e marginalizados, tratando-os com a mesma reverência com que trataria o próprio Cristo.

O toque do amor de Deus

Quem foi tocado pelo profundo amor de Deus, nunca mais será o mesmo. Olhando para a história da Igreja, encontramos inúmeras pessoas que tiveram suas vidas transformadas, depois de um encontro pessoal com o Senhor. Podemos destacar a conversão de Santo Agostinho, que depois de descobrir Deus em sua vida, exclamou: “Tarde te amei, beleza tão antiga e tão nova, tarde te amei! Tu estavas dentro de mim e eu te buscava fora. Estavas comigo, mas eu não estava contigo...” (Confissões, Livro X, 27). Da mesma forma ocorreu com os apóstolos, quando partiram desanimados com a ausência física de Jesus e já estavam voltando para as suas velhas e conhecidas labutas diárias, a pesca (cf. Jo 21, 1-3). Mas, sem Jesus, a pesca fracassou e, somente, com presença d’Ele, na beira do lago, fez com que tudo mudasse. Somente aquele que tinha contato mais direto com o Mestre, João, percebeu logo quem era aquele que estava à beira do lago: “É o Senhor!” (Jo 21,7).

São Vicente Pallotti, também, foi um desses que, ao sentir o amor de Deus em sua vida, expressou: “Perdoe-me se ouso dizer que sois o louco de amor, e de misericórdia para comigo, pois, em cada momento e sempre, desde toda a Eternidade pensa em mim e derrama sobre mim infinitas inundações de graças, de favores, de dádivas e de misericórdias...” (OO CC X, 235; V. Pallotti. As luzes, p. 121). Com essa experiência, a sua vida tornou-se um reflexo desse amor. Da mesma forma que Deus ouviu o clamor do povo, viu o sofrimento deles e desceu (Ex 3,7), assim, também Pallotti, diante das enormes necessidades do mundo e da Igreja sentiu-se impelido a fazer algo, para cooperar com a salvação das pessoas, por amor.

Nele apareceram os mesmos sentimentos de Cristo, o Apóstolo do Pai eterno. O Espírito Santo fez com que ele penetrasse profundamente no coração do Cristo e fizesse seus os sentimentos do próprio Cristo, Apóstolo e bom Pastor. A exemplo de Cristo, que era tomado de compaixão diante dos homens enfraquecidos e abatidos, como ovelhas sem pastor e sujeitos a muitíssimas fraquezas (cf. Mt 9,35s); Vicente Pallotti era tomado de grandíssima e profunda compaixão pelos que se encontravam mergulhados nas trevas do erro e desconheciam, totalmente, Jesus Cristo Salvador.

Ele sentia uma enorme compaixão por aqueles que deixavam este mundo sem fé ou com uma fé morta, porque não foram animadas pela caridade e, por isso mesmo, expostos às terríveis consequências que a própria fé ensina. Ele era incapaz de olhar com indiferença para tantos irmãos ameaçados de perder-se para sempre, mas era impelido, pela caridade de Cristo, a orar e a socorrer, com as obras, o mundo necessitado de salvação. Desejava, ardentemente, que todo o mundo fosse reconduzido a um só rebanho e um só pastor (Jo 10,16). A exemplo de Cristo, queria dar-se por inteiro a todos, a fim de reconduzir todos ao rebanho de Cristo. Queria evangelizar a todos, anunciar a todos a boa nova, ajudar a todos, especialmente os mais necessitados, como manda a caridade cristã (cf. Apostolicam Actuositatem, 8).

A exemplo de Cristo, que ordenou pedir ao Pai a multiplicação dos operários evangélicos, Pallotti desencadeou um movimento de oração, na Igreja, em favor da multiplicação dos operários evangélicos e da sua formação e sustento. Guiado pelo Espírito Santo, ele compreendeu os sentimentos de Cristo e penetrou no sentido mais profundo da palavra de Deus e entendeu que, toda a Igreja e todos os seus membros, estão chamados a se empenharem na continuação do apostolado de Jesus Cristo ou no prolongamento da sua missão no mundo.

Para ele, empenhar-se na salvação do mundo, é missão de toda a Igreja e de cada um dos seus membros. Ele compreendeu que Deus quer que o homem coopere ativamente na salvação eterna do seu próximo. Não apenas os ministros ordenados, mas também todos os cristãos estão chamados a cooperar, eficazmente, na propagação da fé no mundo inteiro e, por isso, a ajudar o próximo a conseguir a sua felicidade eterna. Em outras palavras, somos todos obrigados a ajudar-nos uns aos outros a alcançar o céu.

O Papa Francisco, na Encíclica Evangelii Gaudium (EG), números 272 e 273, reflete sobre o ser missionário. Segundo ele: “O amor às pessoas é uma força espiritual que favorece o encontro em plenitude com Deus... Portanto, quando vivemos a mística de nos aproximar dos outros com a intenção de procurar o seu bem, ampliamos o nosso interior para receber os mais belos dons do Senhor. Cada vez que nos encontramos com um ser humano no amor, ficamos capazes de descobrir algo de novo sobre Deus...” 

Segundo o Papa, “a tarefa da evangelização enriquece a mente e o coração, abre-nos horizontes espirituais, torna-nos mais sensíveis para reconhecer a ação do Espírito, faz-nos sair dos nossos esquemas espirituais limitados. Ao mesmo tempo, um missionário plenamente devotado ao seu trabalho experimenta o prazer de ser um manancial que transborda e refresca os outros. Só pode ser missionário quem se sente bem, procurando o bem do próximo, desejando a felicidade dos outros”.

O número 273 da Evangelii Gaudium acrescenta: “A missão no coração do povo não é uma parte da minha vida, ou um ornamento que posso pôr de lado; não é um apêndice ou um momento entre tantos outros da minha vida. É algo que não posso arrancar do meu ser, se não me quero destruir”. E, assim, concluiu o Papa: “Eu sou uma missão nesta terra, e para isso estou neste mundo”.

Pallotti tinha a convicção de que, embora Deus, por si mesmo, pudesse num instante reavivar a fé e reacender a caridade entre os católicos e dar-se a conhecer e amar a todos os que estão no mundo. Ele não costuma fazê-lo no curso ordinário da sua providência, pois quer que o homem coopere na medida das suas forças para a salvação das almas. Ao fazê-lo, ao tirar proveito de todos os dons que ele recebe de Deus como autor da natureza e da graça, o homem se torna sempre mais semelhante a Deus. Porque todos os homens, segundo a realidade da sua criação, são uma imagem da caridade por essência, pois Deus ordenou que cada um se interesse pelo seu próximo. E se isso é verdadeiro quanto aos bens do corpo de nosso próximo, com maior razão o é quanto ao bem da alma, que é a vida eterna.

Para Pallotti, portanto, todos os homens, pelo fato de serem imagem e semelhança de Deus (cf. Gn 1,26), devem empenhar-se em ajudar o próximo a conseguir a vida eterna, pois Deus em todas as suas ações voltadas para fora procura sempre o bem do homem, até ao ponto de enviar o seu único Filho, para redimir o gênero humano com sua morte na cruz. Diz Pallotti: “Deus é perfeito no amar o homem. Desde toda a eternidade o amou, vendo-o na sua infinita presciência e ama o homem por toda a eternidade. E pelo homem obra sempre no tempo com a criação, conservação, redenção, e na eternidade com a glorificação”. Também o homem, na medida das suas possibilidades, deve imitar a Deus amando a seu próximo com a eficácia das obras. E o próximo é todo ser humano, de qualquer condição, clima, nação etc., capaz de conhecer a Deus. À pergunta: “Quem é meu próximo?” (Lc 10, 25-37). Jesus apresenta a figura do Samaritano. Nossa missão é de mostrar que somos originais e não fotocópias, como nos ensina São Carlo Acutis.

Somos corresponsáveis pela salvação do mundo

A obrigação de contribuir para a salvação eterna do próximo, é vista por Pallotti, no mandamento novo, ensinado por Jesus: “Amar o próximo como a si mesmo” (Mt 22, 39). Ora, haverá quem não saiba que se a gente não observar o preceito da caridade não alcançará a salvação eterna? Por isso, a menos que alguém raciocine como louco, terá que admitir que todo que habite esta terra, em seu estado, condição, posição, dignidade, cultura, talentos, arte, profissão, relações, deverá, na medida de suas forças, procurar efetivamente a salvação eterna do próximo. Porque, todo bem que temos de Deus é para ser usado, ao mesmo tempo, para a sua glória e para a salvação da alma, da própria e da do próximo. Também o uso dos bens terrenos deve ser ordenado para o verdadeiro bem do espírito, como ocorria na comunidade dos primeiros cristãos (cf. At 4, 32).

Para São Vicente Pallotti, a definição de Deus não se limitava a atributos metafísicos de onipotência ou justiça. Para ele, Deus é essencialmente “Amor Infinito”. A expressão “Enlouquecido de Amor” captura a intensidade de um Criador que rompe as barreiras da lógica humana, para buscar a sua criatura. Para ele, a criação não foi um ato de necessidade, mas um impulso de generosidade “louca”. Deus, sendo perfeito e pleno em si mesmo, não precisava de nada. No entanto, o seu amor é tão pulsante que ele “precisava” criar seres para partilhar a sua felicidade. É Loucura pelo fato de criar seres livres, sabendo que essa liberdade poderia ser usada para rejeitá-Lo. É o risco total por amor.

O ápice da visão de Pallotti encontra-se no mistério de Jesus Cristo, que ao assumir a fragilidade de um recém-nascido e a pobreza de uma manjedoura é, para ele, a prova definitiva de que Deus perdeu a “compostura” divina por nós. Ele contempla, em seus escritos, a humildade de Deus como uma forma de embriaguez espiritual. Deus se faz pequeno, para que o homem não tenha medo de se aproximar dele: “Sendo ele de condição divina, não se prevaleceu de sua igualdade com Deus, mas aniquilou-se a si mesmo, assumindo a condição de escravo” (Fl 2, 6-11). 

O excesso do sacrifício de Cristo

Se o mundo considera a Cruz um escândalo ou uma loucura (1Cor 1, 18), Pallotti a vê como o momento em que o “Enlouquecido de Amor” entrega tudo. Não bastava a Deus perdoar; Ele quis sofrer conosco, pois Ele é a Caridade Infinita. Pallotti enfatiza que cada chaga de Cristo é uma boca que grita o quanto Deus nos ama. Ele não economizou sangue nem dor, revelando um coração que não sabe amar com medidas ou cálculos. A história da salvação não terminou no Calvário. Para Pallotti, a Eucaristia é a continuação dessa “loucura”. Deus se esconde sob as espécies do pão e do vinho, para ser alimento e companhia constante. A resposta humana a esse amor enlouquecido deve ser, segundo Pallotti, o apostolado. Se Deus nos ama sem limites, o batizado deve, também, tornar-se um apóstolo que utiliza todos os meios para que o mundo conheça esse Amor Infinito.

Meu Deus, quem sou eu e quem sois Vós?

Diante da grandeza de Deus na vida humana, Pallotti não separava Deus do homem, e perguntava: “Meu Deus, quem sois Vós, e quem sou eu diante de Vós”?  A visão que Pallotti tem de Deus é trinitária. O mistério de Deus na sua dimensão trinitária serviu como impulso inicial para a sua vida espiritual. O mistério da comunhão trinitária lhe serve igualmente como modelo perfeito da colaboração na salvação das almas, porque aquilo que se realiza perpetuamente no seio da Trindade, transborda e se revela também na história da salvação (Stawicki, in Horizontes Palotinos, vol. II, p. 628).

Para ele, Deus é o seu Tudo. Ele usa esse termo, para dizer que qualquer nome é insuficiente para defini-Lo. Ele vai além, em momentos de profunda oração: “Meu Deus, perdoa-me se ouso dizer: sois o louco de amor e de misericórdia para comigo” (OO CC X, 235 e 237).

Em 1849, alguns meses antes de sua morte, com uma espiritualidade mais amadurecida, escreveu um opúsculo, quando estava refugiado no Colégio irlandês, por causa de perseguição política: “Deus, amor infinito” (OO CC XIII, 25-171). Esse opúsculo representa o grito de um homem que, em sua vida, fez a experiência do amor e da misericórdia de Deus e, ao mesmo tempo, o gemido de um peregrino entristecido pelo fato que a sua imagem, isto é, a sua transformação no amor é muito lenta. Apesar do título: Deus amor infinito, escreve repetidas vezes: “Deus, misericórdia infinita”, pois, para ele, Deus é amor infinito atuante, ou seja, a Sua misericórdia é o excesso do amor incompreensível. Via, ainda, que a misericórdia é a invenção do amor de Deus (cf. OO CC XIII, 129). No texto aparecem 190 vezes a expressão: Deus, amor infinito e 230 vezes, misericórdia infinita (Stawicki, in Horizontes Palotinos, Vol. II, p. 630).

Ele chama a misericórdia de Deus de excesso do amor infinito de Deus. A misericórdia enche o abismo do seu nada e transforma a sua incapacidade em plenitude de vida. Eis o resultado da experiência do amor de Deus confessado por ele, com a expressão: “eu senti”. “Eu senti que o prodígio de misericórdia, que a infinita misericórdia realizou em mim, eu deveria desejá-lo a todos os demais” (cf. OO CC XIII, 322).

Essa experiência da misericórdia trouxe duas consequências em sua vida: o renascer interior e a abertura apostólica. Esse renascer interior é fruto total da misericórdia e não o resultado dos seus esforços pessoais. Quanto a abertura apostólica, o miserável tornar-se-á apóstolo da misericórdia. Essa é a passagem do nada ao tudo. É também a passagem do amor para a misericórdia, isto é, do amor que atua e faz do místico um apóstolo. Em linhas gerais, esta foi a experiência tida por Pallotti, que o inspirou e sustentou durante toda a sua vida a ponto de dizer: “Meu Deus, quem sou eu diante de Vós”? “Eu não Vos conheço como deveria conhecer, porque se Vos conhecesse como deveria, Vos amaria, seria completamente desapegado do mundo, seria todo Vosso... viveria tudo por Vós, faria tudo a fim de promover os interesses da Vossa maior glória e para a maior santificação de todas as pessoas” (OO CC X, 466; 467; 468). Porém, para conhecer Deus, o ser humano precisa conhecer a si mesmo, necessita ter consciência de ter sido criado à imagem de Deus, pois ele sabe da malícia e da maldade do coração humano (cf. OO CC X, 682-737).

Pallotti vê o homem como uma grandeza única, porque criado à imagem e semelhança de Deus, é chamado a ser filho e herdeiro de Deus, enriquecido de tantos bens e, ao mesmo tempo, é uma miséria indizível. Mas, se Pallotti ressalta, sem piedade, a corrupção do ser humano e o seu pecado, o faz para salientar o amor infinito, incondicional e misericordioso de Deus. Em outras palavras, segundo a antropologia palotina, o ser humano não é separável de Deus, da mesma forma que a sua grandeza e a sua miséria são dois aspectos inseparáveis (Stawicki. In Horizontes Palotinos, Vol. II, p. 633).

Para Pallotti, o orgulho é que impede o ser humano de conhecer-se e de saber quem é ele diante de Deus. Sobre o orgulho, escreveu: “Eu sou um verdadeiro orgulhoso, eu tenho um orgulho perverso... Vós sabeis quantas vezes fomentei o meu orgulho com respostas equivocadas, destinadas a não revelar minha ignorância sobre todos os assuntos, mesmo naqueles em que fui obrigado a ser educado, enquanto eu sou o primeiro ignorante sobre todos os assuntos” (OO CC X, 234; São V. Pallotti. As luzes, p. 120).

Por outra lado, o que o ilumina na descoberta de sua autoestima e seu autoconhecimento é a misericórdia de Deus (cf. OO CC X, 471). Por isso, Pallotti pede a humildade, pois, ela parece-lhe como remédio mais eficaz contra o orgulho (cf. OO CC XI, 359-360).

Para entrarmos na espiritualidade de Pallotti, precisamos de duas chaves. A primeira é a da união transformante da qual fala São João da Cruz. Porque a pessoa se torna divina, se torna Deus por participação. No caso de Pallotti, o Deus que é amor infinito desperta na alma o desejo de união com Ele. Esse é o dom primeiro na alma de Pallotti, como o é em todos os que experimentam Deus. Ele escreve: “Dilatai, ó Senhor, em cada momento infinitésimo, os meus desejos de Vós...” (OO CC X, 103); mas, essa transformação não funciona sem a segunda, a humildade, que é a capacidade de reconhecer a matéria que deve ser transformada, o homem do pecado (V. Pallotti. O Deus, amor infinito, p. 202; 210).

Portanto, para que todos nós possamos deixar Deus ser Deus em nossas vidas, é preciso ter essa mesma humildade que Pallotti teve de se reconhecer o maior dos pecadores, para atrair a si o amor infinito e misericordioso daquele que nos “amou até o fim” (Jo 13, 1).

 Para refletir

1.      Você concorda com Pallotti que Deus age de maneira desmedida só por amor?

2.      Como o ser humano pode corresponder ao amor infinito que Deus tem por cada um de nós?

3.      O que este texto trouxe como provocação para a sua vida de fé?

 

sábado, 3 de outubro de 2026


 

Tema 18: PALLOTTI: CONTEMPLATIVO NA AÇÃO

Quando entramos no aspecto pessoal da espiritualidade de São Vicente Pallotti, é perceptível que ele, ao longo da sua vida, rompeu com a dicotomia que havia entre o sagrado e o profano. Para o, assim chamado, “Apóstolo de Roma”, a contemplação não era um momento para refugiar-se do mundo, mas, sim, o combustível para transformá-lo em um verdadeiro orante. Ser um contemplativo na ação significava buscar a face de Deus, não apenas no silêncio da capela, mas nas feridas dos enfermos e na fadiga dos trabalhadores, transformando cada gesto de caridade em uma liturgia viva. Esse seu modo de ser e de agir imprimiu no carisma palotino uma busca incessante pela unidade das pessoas entre si e em relação a Deus. A expressão “contemplativo na ação” define o equilíbrio entre o ora et labora (reza e trabalha), onde a contemplação não é um estado de passividade, mas a força motriz que impulsiona o apostolado. Vicente Pallotti compreendeu que, se Deus é amor infinito e ação constante, o apóstolo deve imitá-Lo unindo a oração interior ao serviço concreto ao próximo.

Pallotti, mesmo pertencendo ao clero diocesano, conseguiu destacar-se tanto pelo espírito de oração, como pela contemplação dos santos mistérios de Deus, concretizado na pessoa de Seu Filho Jesus Cristo. O que relatamos aqui, não é somente baseado nos testemunhos sobre a sua vida, mas, principalmente nos baseamos em seus escritos espirituais, iniciados em 1816, quando tinha apenas 21 anos de idade. Embora fosse jovem, ele demonstra ter profundidade, maturidade espiritual e intelectual.

A experiência do amor de Deus em Pallotti era tão forte que, não encontrando palavras para expressar o que sentia, repetia muitas vezes as mesmas palavras: Deus, Deus, Deus, Deus, ou Misericórdia, Misericórdia, Misericórdia, como aparece em muitas partes de seus escritos. Segundo o Padre Achylle Rubin, Pallotti poderia ter orado em línguas, conforme a explicação desse dom feita por Santo Agostinho. Esse Padre da Igreja falava do júbilo que brota do coração, quando não se tem mais palavras para expressar a imensa alegria do amor de Deus.

Agostinho viveu em uma época em que o fenômeno, tal como descrito no dia de Pentecostes, já não era comum na Igreja. Por isso, ele desenvolveu uma interpretação eclesiológica e simbólica sobre o tema. Ele argumentava que o milagre de Pentecostes era um sinal temporário, para demonstrar que o Evangelho deveria ser pregado em todas as línguas. Para ele, a Igreja agora fala todas as línguas do mundo.

Portanto, quem está na unidade da Igreja “fala em línguas”, pois faz parte de um corpo universal que louva a Deus em todos os idiomas (Tratado VI, 10. Comentário à Primeira Epístola de João (In Epistulam Ioannis ad Parthos). Sermões 267, 268 e 269). Ele enfatiza que o verdadeiro sinal do Espírito Santo não é o som das línguas, mas a caridade e a unidade da Igreja.

Quando analisamos friamente a ação da graça na vida de Pallotti, fica a impressão de que era fruto da sua determinação constante e disciplinada de oração. Mas, ele mesmo responde com suas próprias palavras, quando repete em inúmeros textos sobre a misericordiosa ação de Deus em sua vida, sentindo-se indigno de tão grande amor: “Por mim, nada posso, com Deus, posso tudo”. Ele tinha plena consciência de que, por si mesmo, não conseguia se santificar, porque se sentia nada e pecado. No entanto, confiava na incrível e infinita misericórdia de Deus que destruía toda a sua miséria.

Em diversas passagens de seus escritos espirituais, ele apresenta ter sentido a presença ou a ação de Deus nele.  Por isso, ele queria, em todas as suas ações, como a dos outros, que Deus fosse glorificado. Isto podemos ver também em Santa Teresinha, que caminhava pela mesma direção, quando, em sua extraordinária e divina simplicidade, dizia sobre a oração: “Para mim, a oração é um impulso do coração, um simples olhar lançado ao Céu; é um grito de agradecimento e de amor, tanto no meio da provação quanto no meio da alegria; em suma, é algo grandioso, sobrenatural, que me expande a alma e me aproxima de Jesus” (História de uma alma).

Para Pallotti, sentir-se infinitamente amado por Deus o levava a desejar amar infinitamente Aquele que o amou primeiro. Pelos seus escritos, percebemos como ele se relaciona com seu Amor infinito e isso nos dá uma clara ideia da ternura, da confiança e da intimidade que ele experimentava. Ele se refere a Deus, em seu primeiro escrito, dizendo: “meu bom Pai Celeste”, ou “meu Pai amorosíssimo e infinitamente perfeito”, “meu terníssimo e amorosíssimo Pai”. Essas expressões não eram comuns na sua época e tal linguagem revelava que ele tinha uma relação íntima e profunda, assim como Jesus teve ao dizer “Abba”, Pai. É a linguagem dos apaixonados, dos enamorados, dos loucos de amor, daqueles que creem e vivem a “loucura da cruz”.

Rezar com a imaginação

Um detalhe importante a ser notado nos escritos de Pallotti é o modo como ele recorre à imaginação como método para rezar, para estar em oração. Assim escreveu: “onde quer que eu esteja, quero imaginar-me no Cenáculo, com Maria e os Apóstolos”, para sentir-se inundado pelo Espírito Santo e receber seus dons, para que Ele e todas as criaturas louvem a Deus. Ele também recorria à imaginação quando escreveu: “Eu me imagino no seio de Deus, nas chagas de Jesus, onde recebo uma grandíssima abundância de graças para a santificação. Eu me imagino ainda no seio de Maria Santíssima...”. Isto deixa a impressão de que ele empregava o método inaciano de composição de lugar.

Este seu método demonstra que estava inundado de amor, compenetrado a tal ponto que se imaginava estar com a pessoa amada. Santa Teresa de Ávila também o utilizava e o recomendava no “Livro da Vida”, a usar a imaginação para nos aproximarmos e nos entusiasmarmos mais com Deus, com o Evangelho, para excitar em nós o desejo de Cristo. Imaginar-nos como os protagonistas das parábolas de Jesus e, assim, poder recuperar a visão, caminhar e, acima de tudo, voltar correndo para a casa paterna e nos deixar abraçar e encher de beijos, por nosso amadíssimo e terníssimo Pai-Deus.

Pallotti quer que toda a sua vida seja tomada por Cristo: “Seja destruída toda a minha vida e toda a vida de Cristo seja a minha vida. A vida de Jesus Cristo seja a minha meditação, o meu estudo, um adorno para a Igreja em minha pessoa. A oração de Cristo seja a minha oração, a palavra de Cristo seja a minha palavra, a caridade de Cristo seja a minha caridade. O amor de Cristo para com a Virgem Maria seja o meu amor para com ela” (OO CC X, 618-625). Usava também muito esta expressão: “Não quero nada senão Deus: nada, nada. Meu Deus, tudo, tudo, tudo. Só Deus; só, só Deus” (OO CC X, 68).

Essa abertura ao chamado de Deus, esse querer que Deus seja tudo em sua vida, implica, por vezes, sofrimento, solidão e dor. É o caminho que os grandes santos e profetas percorreram e que também nosso fundador percorreu. Em “Noite Escura” e “Cântico Espiritual”, São João da Cruz descreve todas as etapas no caminho da vida espiritual, as etapas na subida ao monte de amor que é Deus. Primeiramente, a alma sente com muita intensidade a presença divina e despertam desejos ardentes de Deus. Ela se entrega à vida espiritual e começa a experimentar profundos sofrimentos, que são chamados por São João da Cruz de “divinas feridas” e sofrimento de “pena da ausência de Deus”. Estes momentos são os que encontramos em seu testamento espiritual quando ele escreve:

“Passados poucos dias... Deus, em sua infinita misericórdia, passou a visitar-me com tais e tão dolorosas tribulações e a fazer-me sentir tão vivamente o peso delas, que, em minha miséria, cheguei a crer que eram maiores que as tribulações de todos os anos da minha vida passada. No que diz respeito a isso, Nosso Senhor Jesus Cristo se dignou em derramar em meu pobre e ingratíssimo coração, vivo sentimento de confiança de que o tempo de sofrimento seria o mais oportuno para receber as luzes de Deus” (Testamento Espiritual. Regras Fundamentais).

É impressionante ver como Pallotti buscou realizar em sua vida o amor de Deus. Ele tentava fazer com que as suas obras, as palavras, os sentimentos e os pensamentos fossem dirigidos ao Criador de forma plena e permanente. Dar sempre glória a Deus, infinitamente. Isso nasceu da consciência que nosso santo teve do amor gratuito, imenso e até “exagerado” de Deus por ele, que se sentia tão indigno de tamanha graça, tão limitado para corresponder a tanto amor.

É por essa razão que Pallotti, com sua vida, tenta, na medida do possível, agradecer ao amor infinito do qual se sente objeto. É por isso, então, que o que moverá Pallotti em seu apostolado é a caridade. A consequência imediata de sentir o amor de Deus é praticá-lo com os irmãos, é anunciá-lo, para que todas as criaturas cheguem ao Pai e todas O louvem e vivam com Ele para sempre. Isso é o que move o seu desejo de reascender a fé e reavivar a caridade. Segundo ele: “Para poder realizar, por amor a Deus, o menor dos atos de caridade para com o próximo, eu me jogaria até mesmo nas chamas do inferno, desde que o possa fazer com a graça de Deus” (Propósitos e aspirações, n. 205, p. 90). Este seu diálogo com Deus parece ilógico para nós, mas esta é a forma como um místico expressa o seu amor para com Deus. Anos mais tarde, Santa Teresinha dirá o mesmo: “iria ao próprio inferno para conseguir que um dos condenados louvasse a Deus. São os arrebatamentos dos apaixonados por Cristo.

O hino da caridade

Quando Pallotti começa a infundir seu carisma na obra nascente, ele escreve como deve ser o método a seguir nas assembleias e recomenda que se leia, como introdução, o hino à caridade de São Paulo (1Cor 13). Assim dizia ele: “Já que a piedosa Sociedade está fundada e instituída na caridade e para promover em todos os fiéis de qualquer estado, classe, grau, sexo e condição o mais perfeito e ativo exercício das obras de caridade e de misericórdia, para a maior glória de Deus e de sua Santíssima Mãe Imaculada e para a maior santificação dos povos, por isso, todos devem estar sempre animados pelo verdadeiro espírito da mais perfeita caridade”. É impressionante ver como Pallotti buscava realizar em sua vida o amor de Deus.

Diante dessa sua profunda experiência com Deus, surgiu nele o desejo de praticar as obras de misericórdia, até porque, para ele, Deus é misericórdia infinita:

“Tenho confiança muito grande em que Deus não deixará de assistir-me com abundância de suas graças por sua bondade infinita e compaixão para com a minha miséria. Eu desejaria estar permanentemente nos hospitais, nas prisões, encontrar-me sempre em todos os lugares da terra para atender às necessidades dos pobres e às enfermidades dos doentes, ensinar aos ignorantes a verdadeira ciência dos santos, fazer com que príncipes, soberanos, reis, grandes e pequenos, nobres e plebeus e todas as criaturas com perfeição infinita conheçam, amem e sirvam a Deus, meu Pai, meu Tudo, meu Bem; assim, gostaria de realizar coisas infinitas por Deus Uno e Trino; e tudo isso de forma tal que eu não seja visto senão por Deus; e como é impossível realizar tudo isso, ofereço ao Senhor, nosso Pai Celeste, os merecimentos e orações de todas as criaturas, especialmente de Jesus e de Maria, para cumprir em parte o mandamento da caridade para com os próximos, meus irmãos, e para com Deus. Eu disse em parte, porque gostaria de fazer mais, uma vez que “tudo posso naquele que me conforta” (Fl 4,13); (Propósitos e aspirações, n. 176, pp. 78-79).

Continua ele: “Em cada uma das minhas ações, mesmo as mais insignificantes, procurarei considerar como de grande importância e realizar com perfeição sempre confiante nos merecimentos do meu mais que amadíssimo Jesus e da minha mais que afetuosíssima Maria, dos anjos e dos santos” (Propósitos e aspirações, n. 141, p. 65).

Propósito de estar sempre no cenáculo

Tenho a firme esperança de que pelos méritos dos santos, dos anjos, de Maria e de Jesus, Deus em sua bondade derramará fartamente sobre mim a graça que santifica e faz operar coisas grandiosas para a glória de Deus, e infundirá em mim altíssimos graus de santidade e perfeição. Tenho confiança de que o Senhor e Pai afetuosíssimo me concederá tal graça, sendo tão grande a minha confiança, tenho a impressão de tê-la recebido já. Espero tornar-me santo como Deus quer, não por obras minhas, mas por graça do Senhor, o qual a cada momento pode instilar nas almas altos graus de santidade.

Por isso, em qualquer lugar em que eu estiver, procurarei imaginar-me que eu mesmo e todas as criaturas estamos no Cenáculo de Jerusalém, onde os apóstolos receberam o Espírito Santo; e esse pensamento eu renovarei frequentemente. Como os apóstolos lá estavam, juntamente com Maria Santíssima, assim, eu também, imaginarei estar junto com a minha mais que encantadora mãe Maria e com o mais que amado esposo de minha alma Jesus, os quais eu tenho certeza de que, como meus particularíssimos advogados, farão descer sobre mim e os outros a abundância do Espírito Santo (Propósitos e aspirações, n. 81 e 82, pp. 48-50).

Em suma, a trajetória de Vicente Pallotti revela que sua eficácia apostólica não era fruto de meros esforços humanos, mas o transbordamento de uma vida profundamente mergulhada em Deus. Ao unir a oração contemplativa, marcada pelo uso da imaginação e pela consciência da própria pequenez, a uma caridade operante, Pallotti demonstrou que ser um “contemplativo na ação” significa permitir que o amor de Deus seja o motor de cada gesto. Sua herança espiritual convida-nos a retornar constantemente ao “Cenáculo”, para que, fortalecidos pelo Espírito Santo e impulsionados pela caridade de Cristo, possamos ser instrumentos da misericórdia divina no mundo, buscando sempre e em tudo a Sua infinita glória.

Vicente Pallotti como contemplativo, orante, personifica o equilíbrio perfeito entre a mística e a missão. Sua espiritualidade, fundamentada na confiança absoluta na Providência e na imitação da vida de Jesus, não o isolou do mundo, mas o lançou com ardor ao serviço dos mais necessitados. Para ele, a oração e a ação eram faces da mesma moeda: o amor a Deus que se concretiza no amor ao próximo. Ao propor que todos, independentemente de seu estado ou classe, fossem apóstolos animados pela caridade, trouxe uma nova aurora para a Igreja. Por isso, seguramente, podemos afirmar que, o grande legado que ele deixou foi a certeza de que não podemos vier sem a unidade e o zelo apostólico. O seu testemunho de vida nos ensina que o segredo da santidade reside na humildade de reconhecer que “nada podemos sem Deus”, mas que, com ele poderemos fazer grandes coisas. 

Para refletir

1.     Como podemos transformar as nossas atividades cotidianas em uma oração contínua, sem nos isolarmos do mundo?

2.     Pallotti utilizava o método da imaginação, para aprofundar sua intimidade com Deus. Como isso pode ajudar em sua oração?

3.     Se a “caridade de Cristo nos impele”, é possível ser um verdadeiro contemplativo sem estar engajado em ações de misericórdia para com o próximo?

sábado, 26 de setembro de 2026


 

Tema 17: A FORMAÇÃO SACERDOTAL DE PALLOTTI 

São Vicente Pallotti pertencia ao clero de Roma. Para que possamos conhecer melhor o seu processo formativo, como sacerdote, é preciso saber como era a situação do clero romano naquela época e como acontecia a sua formação cultural, intelectual e espiritual.

Uma pesquisa histórica feita por Pietro Stella sobre o clero romano, no século XIX, revela que na primeira metade do século XIX verifica-se um desenvolvimento, no campo formativo, com a presença de novas tendências, ou seja, o clero apresentava ter maior preocupação com os trabalhos pastorais e espirituais do que com as coisas temporais.

No campo da formação espiritual aparece o modelo do sacerdote bom pastor, disposto a guiar e a defender as ovelhas perdidas, principalmente no que se refere ao enfraquecimento da prática religiosa. Dá-se maior ênfase também à questão intelectual, com boas bibliotecas, contendo obras que auxiliassem na pregação, na catequese, na apologética, vida dos santos para cada dia do ano, subsídios devocionais, história sagrada, tratados elementares e ecléticos de teologia, manual prático de moral. Isso é possível constatar, no quarto de Pallotti, acima da sua cama, um amplo quadro com as festas litúrgicas durante o ano.

A formação sacerdotal daquele período, do ponto de vista espiritual, era conforme o modelo jesuítico, nutrida pela meditação, exame de consciência, exercícios de piedade e da prática dos sacramentos. Em geral, pode-se afirmar que o clero romano, no tempo de Pallotti, tinha uma boa formação sacerdotal, e ele fazia parte deste elenco.

Formação de Pallotti, antes da ordenação sacerdotal

O jovem Vicente Pallotti iniciou os seus estudos por volta de 1804, frequentando a escola fundamental, na via dei Cappellari e depois no Colégio de São Pantaleão dos padres Escolápios. De 1809 até o verão de 1814, frequentou o Seminário Romano que, após a supressão dos jesuítas, em 1773, no difícil período de ocupação napoleônica, foi confiado a um grupo de sacerdotes diocesanos. No Seminário Romano, o adolescente Vicente fez os seus primeiros estudos humanísticos, onde se familiarizou com os clássicos latinos e gregos.

A última etapa da sua formação de filosofia e de teologia, que o conduziu ao sacerdócio, no dia 16 de maio de 1818, aconteceu na Universidade Romana Sapienza. Naquele tempo, a Sapienza oferecia cursos de teologia, filosofia, medicina, direito e letras. A maioria dos professores pertencia ao clero regular e secular. O ambiente acadêmico e espiritual da Sapienza era muito bom. A vida universitária ajudava os estudantes a cultivar a vida espiritual. De segunda a sexta-feira, o estudante Pallotti, como todos, assistia às aulas dos vários mestres e a discussões de temas teológicos, organizados após os cursos obrigatórios. Na Igreja de Santo Ivo, celebravam-se as missas de abertura do ano letivo e das festas principais. Os sacerdotes professores se alternavam para celebrar as missas festivas e dominicais, como também ouviam as confissões.

Vicente Pallotti teve sua formação sacerdotal de forma diferente, como a concebemos hoje. Ele morava na casa paterna e estudava como aluno externo. Recebia uma sólida formação humana e religiosa de diversas pessoas, primeiramente dos pais, que eram muito piedosos, do seu diretor espiritual, Pe. Fazzini, os mestres Escolápios, Seminário Romano, Universidade Sapienza e, ocasionalmente, os diretores dos exercícios espirituais anuais e dos retiros. Tudo isto teve uma forte influência na sua formação sacerdotal.

O biógrafo do Papa Pio IX, Carlo Falconi, escreveu também sobre Pallotti. Comentou sobre seus estudos acadêmicos e da sua escolha de seguir a vida eclesiástica, privilegiando assim laurear-se em filosofia e teologia. Era também um poliglota e de boa formação intelectual, com inclinação para a intelectualidade, mas fica para ele uma incógnita do porque mudou de rota e decidiu entrar no campo da ação pastoral.

Pallotti e a sua formação sacerdotal permanente

Na vida de Vicente Pallotti, pode-se destacar dois períodos ligados à sua formação sacerdotal permanente. Primeiro: formação sacerdotal, no campo espiritual/intelectual, de 1818 até 1830. Segundo: de 1830 até 1850, formação sacerdotal, no campo espiritual/pastoral.

Antes de tudo, a formação espiritual de Pallotti se dá ao longo da sua existência, no intenso cultivo das coisas espirituais. Isto se confirma pelos seus escritos espirituais, pelas suas inspirações e heroicos propósitos que foram compendiados no volume X das Obras Completas, As luzes. Sobre este assunto, não há necessidade de muitas delongas, porque temos várias outras contribuições sobre o caminho espiritual de Pallotti. Basta folhear os escritos do Pe. Francesco Amoroso, SAC, intitulado: “La via dell’infinito” (O caminho do infinito), no qual apresenta a autobiografia espiritual do referido santo.

O pensamento espiritual de Pallotti deu-se ao longo da sua formação. Isto se pode notar pela sua visão e compreensão a respeito do sacerdócio. No início do seu ministério sacerdotal, escreveu: “O nosso inefável Deus dignou-se elevar-me ao sublime grau do sacerdócio, cuja missão é: celebrar o digníssimo Sacrifício, administrar os Santos Sacramentos, pregar a divina Palavra e recitar o divino Ofício” (OO CC X, 148). No final de sua vida, escreveu de maneira diferente: “Luzes e trevas, bendizei o Senhor. Raios e nuvens, bendizei o Senhor (Dn 3,72-73). Quanto ao que era ensinado por mim, era visto como algo bem feito, tanto da minha parte como da dos outros; mas, na verdade, eu não fiz nada que não fosse o mal, pois não instruí suficientemente os fieis, e não preguei o Evangelho a todas as criaturas; mas as obras de Jesus Cristo e a pregação do Reino, para sua piíssima misericórdia e amor, foram objetos de minhas obras e pregações” (OO CC X, 492).

Pallotti continuou sua formação sacerdotal/intelectual após a ordenação, aos 16 de maio de 1818, com o complemento dos estudos teológicos e exercendo o ofício de professor na Universidade Sapienza. No dia 15 de julho de 1818, Pallotti submeteu-se aos exames para laurear-se em filosofia e teologia, obtendo bons resultados. No dia 4 de março de 1819, o reitor da Universidade, Belisario Cristaldi (1764/1831), nomeou-o como acadêmico daquela mesma universidade. Na carta de nomeação, escreveu: “O favorável parecer a respeito do senhor determinou-me a escolhê-lo como Acadêmico da faculdade de Dogmática, da Escolástica e dos locais teológicos, para ajudar os alunos nos grupos de estudo com argumentações e dissertações” (OCL I, 425-426); (San Vincenzo Pallotti romano, Postulazione generale SAC, Roma 1962, p. 39).

Ansgar Faller explica que Pallotti foi nomeado como repetidor e exerceu este ofício de mestre acadêmico entre os anos de 1819 até 1829. Com este título, não podia desenvolver sua própria opinião teológica, porém, ideias pessoais não lhe faltavam. Mesmo que pudesse manifestá-las, ele as evitava. Limitou-se, rigorosamente, em apenas repetir os conteúdos a serem apresentados. Ele escolhia as pessoas para o debate e anotava seu desenvolvimento com muito cuidado. Organizava as discussões de maneira acadêmica e confirmava os resultados. Durante estes dez anos de trabalho, como mestre acadêmico, teve a oportunidade de aprofundar-se na teologia e com isso pode ajudar na formação de inúmeros sacerdotes que mais tarde tornaram-se párocos e professores.

O esforço de Pallotti em aprofundar na área da teologia ficou evidente pela sua participação na Pia União de São Paulo Apóstolo, iniciada em Roma, no ano de 1790. Era uma obra que promovia a formação espiritual do clero romano e que organizava as atividades apostólicas e pastorais nos diversos campos da vida eclesial. Vicente Pallotti era membro desta Pia União e participava das conferências sobre a moral, a cada quinze dias, na Igreja Santa Maria da Paz, na Igreja da Universidade romana e na Igreja Santo Apolinário.

Nos anos de 1820 a 1829, fez parte de um grupo para resolver casos referentes à moral. Nestes encontros participavam também o clero romano, pois a sua finalidade era para capacitá-los nestas questões. A função de Vicente Pallotti era a de apresentar casos e propor soluções. Isto nos faz acreditar que, já naquele tempo, possuía uma ampla cultura geral e teológica.

As iniciativas de Pallotti a respeito da formação sacerdotal

Vicente Pallotti conhecia, profundamente, a vida sacerdotal. Estava convencido de que a santidade dos sacerdotes, como também seu desempenho pastoral, dependem de uma boa formação. Para ele, não basta apenas o clero ser santo, é preciso que também seja douto (OO CC I, 171). Dizia mais: “Se a vida de todos os cristãos deve ser uma contínua imitação da vida de Nosso Senhor Jesus Cristo, (...) com quanto maior perfeição não deveria ser a daqueles que chegaram ao sacerdócio e que devem agir em nome de Cristo”! (OO CC I, 157).

Por isso, desde o início das atividades sacerdotais se nota um grande apreço de Pallotti pela contínua renovação da vida do clero. Isto se confirma pelo texto escrito entre os anos 1823 a 1829, período do pontificado do Papa Leão XII, intitulado: “Vários pontos para a reforma do clero” (OO CC V, 544 a 557). Este texto traz as propostas para a renovação da vida sacerdotal, e Pallotti é solícito em promover tudo aquilo que pode contribuir para a formação dos perfeitos servos de Cristo. Os sacerdotes e confessores, além de serem bem preparados, devem ter uma vida de santidade. Os pregadores devem distinguir-se tanto pela doutrina quanto pela sua integridade moral. Da santidade, da ciência e da vigilância dos pastores dependem, em grande parte, a paz da cristandade e a salvação eterna das almas.

A partir de 1827, Pallotti foi nomeado diretor espiritual do Seminário Romano, Colégio Inglês e Irlandês. Em 1833, deu início também ao Colégio Urbano da Propagação da Fé. O exercício da direção espiritual levou-o a ter ainda mais convicção da necessidade de uma profunda formação sacerdotal, sobretudo, missionária. Qual fosse o teor da sua formação espiritual, afirma: “Para ajudar os alunos a serem verdadeiros missionários, entre os infieis, é necessário formá-los na prática indicada pelo próprio Cristo: ‘Se alguém quiser vir atrás de mim, renegue-se a si mesmo, tome cada dia sua cruz e me siga’” (Mt 16,24); (OO CC XI, 449)

O pensamento de Pallotti sobre a formação sacerdotal

Vicente Pallotti lembra, frequentemente, em seus escritos, que o eclesiástico deve esforçar-se pessoalmente, para buscar seu crescimento durante toda sua vida. Ele estava convencido de que há uma intrínseca união entre o crescimento espiritual, o estudo e o apostolado. Sobre isto, merece destaque o texto sobre a obrigação de todos no espírito de santidade e de instrução (cf. OO CC II, 81-86; III, pp. 47-48). Este texto vem precedido da referência sobre a vida de Jesus Cristo: “O menino crescia e se fortificava, cheio de sabedoria e da graça de Deus; após três dias o encontraram no Templo, sentado entre os doutores, enquanto os escutava e os interrogava” (Lc 2,40-46). Pallotti, assim, pensava: da mesma forma que Jesus crescia e se fortificava cheio de sabedoria, escutando e interrogando os mestres, mesmo sendo a verdadeira Sabedoria, com maior razão, devemos também nós buscar a verdadeira instrução.

Escreveu ainda: “Devemos mais amar que buscar as instruções, e devemos procurá-las com afinco e ávidos de manifestar aos outros a nossa ignorância; e, por esta via de humildade, Deus nos recompensará com grande e saudável capacidade” (OO CC III, 48). Pallotti, por sua vez, enumerava os pontos que mereciam maior atenção e aprofundamento, a saber: a Sagrada Escritura, a história da Igreja, a teologia fundamental e dogmática, os sacramentos, a liturgia e a teologia moral. Ele expressava, ainda, a razão de se ter um contínuo aprendizado: “Para que jamais regrida na mais perfeita imitação da vida de Nosso Senhor Jesus Cristo e, assim, cooperar eficazmente no engrandecimento da sua glória, para a santificação das almas” (OO CC VII, 63-64).

As propostas de Pallotti em prol da formação sacerdotal

a)      Mês de maio para os eclesiásticos

No início de 1939, Vicente Pallotti começou a celebrar na Igreja do Espírito Santo dos napolitanos o Mês de maio com os sacerdotes romanos, diocesanos e religiosos. Francesco Moccia SAC afirma que os três “Mês de maio”, compostos por Pallotti, em 1833, tinha a intenção de divulgar a devoção mariana e de atingir mais profundamente o coração dos leitores.

O Mês de maio para os eclesiásticos, impresso no curso dos anos, em cinco edições, atribui o título à Maria Imaculada Mãe de Deus, Rainha dos Apóstolos, no mês de maio, em honra aos seus consagrados; recorda aos eclesiásticos instituídos, em qualquer ordem, os avisos que lhes dá a Igreja, após sua ordenação, segundo o Pontifical Romano e seu angélico ministério, segundo os apelos das Sagradas Escrituras.

A fonte para as meditações é o Pontifical Romano com os trechos dos escritos dos Santos Padres, para se ter presente nos diversos dias. O Mês de maio para os eclesiásticos se distingue pela densidade da doutrina. Os temas são tomados das advertências do Pontifical romano aos vários graus dos ordenados e dos ofícios dos coros angélicos. Maria Imaculada, Rainha dos Apóstolos, recorda aos eclesiásticos os avisos que a Igreja lhes dá, durante a cerimônia da ordenação e às funções do seu ministério. A Mãe de Deus instrui, guia, encoraja os mestres da Igreja de seu Filho. A parte mais ampla da meditação é a respeito do exame de consciência e a renovação da própria vida, não se trata tanto de ampliar os conhecimentos, mas de buscar maior transformação pessoal.

A finalidade do mês mariano para os sacerdotes era de aprofundar na doutrina eclesial e a renovação espiritual. Neste escrito, Maria, Rainha dos Apóstolos, dizia aos sacerdotes: “Quero deixar bem claro que, para converter os pecadores e iluminar os incrédulos, é mais eficaz a santidade da vida do clero do que todas as apologias escritas nos livros”. No último dia do mês se encontram as palavras de profundo significado espiritual para a vida do sacerdote. Maria, Rainha dos Apóstolos, lhes diz: “Abrasado de amor no amor infinito, vai acompanhado das bênçãos do Amor Infinito, para exercitar o seu ministério e será um Serafim e espalhará por todos os lados dardos de amor nos corações, para levar-lhes o Amor Infinito: dardos de amor será o seu salmodiar, dardos de amor serão a sua celebração dos mistérios, a sua pregação e a sua administração dos sacramentos; instruído em Deus, aceso de amor em Deus, animado pelo espírito de Jesus Cristo, em plena desconfiança de si; vá corajosamente (...) quero que o seu zelo pelo crescimento do Rebanho de Jesus Cristo seja, sem medida, aceso pela divina caridade e dirigido pelo Amor Infinito”.

A adesão dos sacerdotes às celebrações do mês mariano, na Igreja do Espírito Santo dos Napolitanos, foi muito boa. A cada dia do mês se faziam meditações sob as pegadas de o “Mês de maio para os eclesiásticos”, de Pallotti, e terminava com um cântico atribuído a São Boaventura: “Louvamos a Ti, ó Mãe de Deus”. Segundo as informações históricas, o Mês de maio para os eclesiásticos foi celebrado na Igreja do Espírito Santo, de 1839 até 1845. Isto se confirma com a carta de Pallotti que, em 18 de maio de 1844, escrevia a Domenico Santucci: “Lembre-se de que temos o mês de maio para os eclesiásticos”. Pallotti se transferiu para a casa, junto a São Salvador em Onda, no início da quaresma de 1846.

b)      As conferências semanais para os sacerdotes

Os sacerdotes que participavam das celebrações do Mês de maio expressaram o desejo de reunirem-se no mesmo local, periodicamente, ao longo do ano. Assim nasceu a ideia das conferências semanais para os sacerdotes que participaram na Igreja do Espírito Santo dos Napolitanos, começando em 1839. A alma e promotor principal destas conferências era o sacerdote Vicente Pallotti.

O primeiro encontro aconteceu no dia 6 de junho de 1839, primeira quinta-feira do mês. A partir de então, o clero romano começou a se reunir toda quinta-feira à tarde, na Igreja do Espírito Santo, na Via Giulia. Participaram sacerdotes diocesanos e regulares, monsenhores, teólogos, consultores dos dicastérios pontifícios e também alguns bispos. As conferências, graças a Vivente Pallotti, eram endereçadas à renovação da vida espiritual e a atualização pastoral dos sacerdotes. Ao empreender esta iniciativa, Pallotti se inspirou na ideia de São Vicente de Paulo, que promovia reuniões periódicas de eclesiásticos destinados a renovar a vida espiritual e a preparação pastoral dos sacerdotes. Nestes encontros se abordava um caso de moral ou de liturgia. Analisava-se e apresentava soluções. Neste período, em toda a Europa, começaram surgir estas iniciativas. Pallotti, porém, enriqueceu o programa e focalizou sobre a renovação espiritual, como se pode ver pelo título do texto: “Conferências semanais do espírito, do estudo sacro, e do ministério evangélico para os eclesiásticos, instituídos sob a especial proteção da Imaculada Mãe de Deus, Rainha dos Apóstolos”.

Segundo Pallotti, as conferências de quinta-feira deveriam ser uma palestra de alento espiritual. Aos participantes, Pallotti sugeria boa disposição: “Frequentá-la com espírito da mais profunda humildade e firme persuasão da necessidade de escutar as reflexões dos outros com a consciência da própria indignidade em receber a graça de aprofundar em tais reflexões: e aqui, cada um pode considerar o quanto esteja longe de tirar proveito das conferências, uma vez que a frequentasse somente para mostrar os seus próprios conhecimentos, pensamentos, argumentações e saber”. Por isso, dos encontros “se excluem as reflexões críticas ou de simples erudição; todas as reflexões devem tender a promoção da vida devota e santa (...). São proibidas as perguntas muito longas, porque elas não favorecem o crescimento das ciências sagradas” (OO CC V, 582). De acordo com os escritos de Pallotti, as conferências deveriam ter a finalidade de conduzir as pessoas à maior imitação de Jesus Cristo e de promover o quanto possível, a maior glória de Deus e a perfeição evangélica de si mesmo e dos outros e de dispor-se assim à observância do ministério apostólico.

Pallotti explicava que o método desta conferência, para ser frutuoso, devia ser simples e que tocasse no coração e na mente. Eis os componentes do encontro: lições de canto gregoriano, leitura e partilha de um texto do Evangelho do domingo seguinte, leitura do Catecismo Tridentino ou Romano, com o comentário de um ou mais padres escolhidos, debate desenvolvido “na paz e na caridade” em torno de um caso referente à moral, escolhido na conferência anterior, e a oração final para pedir a Deus operários para sua messe. Quanto à partilha do Evangelho, Pallotti insistia que, após a leitura do texto, em Latim, se lesse também, para uma maior compreensão, “a tradução vulgar com as notas”. Cada participante era convidado a dizer não somente o que o havia tocado, mas também o que gostaria de fazer para seguir Jesus Cristo, de acordo com o que foi lido. Esta partilha tinha também a finalidade de enriquecer a pregação dominical. No final da partilha, se distribuía um pequeno bilhete no qual estava escrito um versículo da Sagrada Escritura. Cada um lia em voz alta e fazia um pequeno comentário.

Do epistolário de Pallotti, descobrimos que as conferências semanais lhe eram muito caras. Ele, pessoalmente, se encarregava de recordar os sacerdotes e também de convidá-los para fazer parte. Esta confirmação aparece em duas cartas, dia 27 de abril de 1841, Pallotti escreve para monsenhor Pietro Minetti: “ela se tornou avarenta, é preciso fazer algum presente na conferência semanal! Fará o mesmo no mês mariano dos eclesiásticos, a qual iniciará na próxima sexta-feira. Espero que venha quinta-feira à conferência e depois a indicada prática do mês de Nossa Senhora Imaculada” (OCL III, 1. n. 751). No dia 13 de março de 1845, Pallotti escreve para Andrea Mogliazzi: “Hoje, às 21h 30min, nos encontramos para a conferência no Santo Espírito; e para cumprir esse dever e regular as forças, você poderia confessar alguém no Hospital Militar” (OCL V, 1. n. 1103)?

Nota-se, também, que para levar adiante este projeto de organizar e assistir todas as quintas-feiras tais conferências, necessitava de muito esforço e exigia empenho e colaboração de muitas pessoas. Talvez, depois do primeiro impulso, diminuiu o zelo dos colaboradores. Isto pode ser observado pela carta escrito por Pallotti, no dia 6 de agosto de 1840, em Cingoli, onde se encontrava para realizar as missões. Ele escreveu aos zelosos colaboradores das conferências espirituais, do estudo sacro, e do ministério evangélico, sob a proteção especial da Imaculada Mãe de Deus Maria Santíssima, Rainha dos Apóstolos: “chegou o momento oportuno de falar do mês mariano para os eclesiásticos e das conferências; gostaria de contar com a presença de todos vocês, e tenho certeza o quanto isso os fará bem. Senhores missionários, gostaria de confirmar vocês no progresso da unidade, mesmo que algum tenha sofrido a tentação do resfriamento ou então da desistência...” (OCL III, 1. n. 695).

Para concluirmos sobre o tema: a Formação sacerdotal de Pallotti e o modo como instruía os membros do clero de Roma, isto no leva a crer que, para ele, não bastava apenas buscar a santidade, mas, também, devemos ter a preocupação diária em sermos doutos.

 

Para refletir

1.      O que você diria da formação sacerdotal de Vicente Pallotti?

2.      Como os membros da UAC podem ampliar os seus conhecimentos no campo da fé?

3.      Que sugestão você daria, para que possamos manter vivo um espírito de oração e de estudo?



 

segunda-feira, 21 de setembro de 2026


 

Tema 16: PALLOTTI E OS SEUS TRÊS LEMAS

A vida de São Vicente Pallotti foi marcada por um profundo amor e zelo pelas coisas de Deus. Com três lemas, ele implantou um novo modo de ser Igreja. Para ele: “Tudo deveria conduzir a pessoa para a maior glória de Deus; para a destruição do pecado e para a salvação das almas”. Esses princípios nortearam a sua missão de reavivar a fé e a caridade entre os católicos e de espalhar o Evangelho pelo mundo. Na sua essência, a vida de São Vicente Pallotti foi uma busca constante por colocar a fé em ação, baseada no amor e no desejo de que todas as pessoas pudessem conhecer e amar a Deus.

A sua personalidade espiritual norteava-se pelo esvaziamento total de si mesmo, para encher-se totalmente de Deus. Buscava uma vida de sacrifícios, para que Deus triunfasse nele. Por causa disso, procurava excluir de si qualquer germe ou inclinação de egoísmo. Buscava o aniquilamento do seu eu para que Deus fosse glorificado. Esta maneira de viver de Pallotti só pode ser compreendida quando se tem como ponto de referência o seu profundo amor para com Deus, pois o amor é vida e quanto maior for o amor, tanto maior e mais forte e duradoura será a vida.

Um outro detalhe que encontramos em sua vida é a constante necessidade de ser humilhado. A medida da sua humilhação deve ser a medida da glória de Deus, pois quanto mais Deus deve ser exaltado, tanto mais ele deve ser humilhado. A grandeza de Deus é a alegria de sua humildade. Assim dizia ele: “Quem pode medir a minha miséria, pobreza, malícia e ingratidão? Ninguém, exceto o meu Deus” (OO CC X, 29). Sobre a via da certeza confiante, Vicente não conhecia limites. Ele chegou a pedir o dom dos estigmas e estava seguro de que obteria tal graça, porque o amor de Jesus é infinito (cf. OO CC X, 106). Esse dom não lhe foi concedido, mas obteve tantos outros que o santificaram.

Ele sempre exortava para que nunca desconfiassem de que Deus não seja capaz de fazer o que fizeram os maiores santos da Igreja, porque com a graça dele, você pode fazer coisas maiores, ou melhor, você pode fazer mais do que fizeram todos os santos juntos (cf. OO CC X, 112). “Se considero infinita a bondade de meu Deus, é porque estou convencido de que Ele me enriquece com a abundância da graça santificante, para que eu possa desejar o Paraíso, se é que se pode desejar algo naquela Pátria beata. Tenho certeza de que Deus, pela sua bondade, se pudesse fazer-me verdadeiro Deus, Ele o faria” (OO CC X, 143).

Em Pallotti, todo o seu contato com Deus está projetado sobre o infinito. A glória de Deus deve ser infinita, a perfeição da criatura deve ser infinita, o amor deve ser infinito e até mesmo a humilhação e o sofrimento devem ser infinitos, para servir de reparação ao Amor infinito. Enfim, tudo deve ser elevado ao infinito, ou seja, quem ama infinitamente deve aceitar também, para reparar os seus erros, verdadeiros ou presumíveis expiações ou reparações também de uma maneira infinita. A humilhação externa com a mortificação física não só são meios eficazes de expiação dos pecados do orgulho e de concupiscência, mas é também uma ótima disciplina para conservar a castidade e o equilíbrio humano.

Os lemas

Tudo para a maior glória de Deus:

O apostolado, para Pallotti, consiste no conduzir o mundo a se transformar no amor de Jesus Cristo, que morreu por nós. Em 14 de julho de 1839, após a santa missa, refletindo que, na comunhão, a misericórdia de Deus e o próprio Deus se faz alimento da alma, subitamente lhe veio à mente uma iluminação muito forte e ele escreveu: “Senti que a infinita justiça de Deus é infinitamente misericordiosa. Senti que o prodígio da misericórdia que a infinita misericórdia operou em mim, devo desejar para todos. Meu Deus, na íntima persuasão de minha incapacidade de vos glorificar, recomendo a vós, Pai, Filho e Espírito Santo, a glorificação infinita que mereceis receber de todas as criaturas. Sim, meu Deus, glorificai-vos a vós mesmos com a vossa glória eterna e infinita e cobri-me de vergonha e de sofrimentos e ficarei satisfeito”.

A sua oração se estende a todo o universo como também à Maria Santíssima, aos anjos, aos santos, pela libertação das almas do purgatório, a santificação e a difusão da Igreja Católica, o papa, os bispos, o clero, os sacramentos, os governos, as nações, as cidades, as famílias, para que, por todos os lados, resplandeçam os fins adoráveis da divina caridade (S. Vicente Pallotti. As luzes, p. 348).

A finalidade da sua oração é a glória de Deus, de Maria, dos santos, pela conversão dos pecadores, pela destruição de todo o pecado e imperfeição, da libertação imediata e simultânea de todas as almas do purgatório, pela salvação e perfeição infinita de todas as criaturas, pela multiplicação de todas as obras de caridade, o alívio de todos os aflitos e indigentes, a formação de um só rebanho sob um só Pastor, pela sua transformação e de todos os homens em Cristo. Ele desejava, também, amar a Deus sem que ninguém soubesse, exceto Ele. E continua: Eu gostaria de sofrer, para aumentar a sua glória, mas, que ele apenas soubesse disso. Com o passar do tempo, eu gostaria de aumentar, cada vez mais, a glória de Deus (As luzes, p. 49). Em qualquer lugar em que me encontre ou nos lugares isolados, pretendo fazer o que os justos, os santos, os anjos, Maria Santíssima e Jesus fariam se estivessem na mesma situação. Em qualquer outro estado em que me encontre e imaginando o que fizeram para a glória de Deus, de Jesus, pela glória do seu Pai Celeste, da mesma forma quero fazê-lo (As luzes, p. 50).

Ao longo da sua vida, Pallotti cunhou um binômio: glória de Deus e santificação das almas e tal binômio não é uma casual formulação literária somente, mas é um programa de apostolado, isto é, ele vê a santificação das almas como o mais eficaz contributo para a glória de Deus. Mas, para ele, o que é verdadeiramente glorificar o nome de Deus? Não consiste na construção de catedrais, de hospitais, de escolas católicas, de manifestações religiosas públicas, de Igrejas cheias. Tudo isso são coisas boas e louváveis, mas não são necessariamente elementos que glorifiquem a Deus, pois nem todos aqueles que colaboram pela construção de uma catedral tem a intenção de glorificar Deus e nem mesmo uma Igreja cheia de gente. Segundo ele, a glória de Deus consiste na realização do seu Reino sobre a terra, no fazer a sua vontade, no santificar o seu nome (Dal nulla al tutto, p. 171).

Segundo ele, o maior hino para cantar a glória de Deus e a santificação própria e a do próximo, é a adesão da mente, do coração e de todas as ações para Deus, pois esta é proveniente da fé, da esperança e da caridade, é a adesão da mente, do coração e de todas as ações para Deus (Dal nulla al tutto, p. 172). Certa vez, ele escreveu em uma carta: “Precisa respirar Deus, procurai-O e o encontrareis. Procurai-O em todas as coisas e O encontrareis em tudo. Procurai sempre e O encontrareis sempre” (Lett 382).

Para Pallotti, pensar em imitar Cristo é algo fascinante, mas poucos praticam, porque poucos pensam nisto, mas àqueles que pensam nele, quanto mais se aprofundam neste pensamento, tanto maior será o desejo de imitá-Lo e quanto mais cresce o amor por Jesus, tanto maior será a fé e a graça de Deus. A imitação de Jesus tem como objeto o espírito de sacrifício de Jesus Cristo, a sua disponibilidade para cumprir a vontade do Pai Celeste, a sua humildade e mansidão, seu amor à pobreza, o seu desejo da glória do Pai e da salvação das almas (Dal nulla al tutto, p. 175).

Pallotti não conseguia ficar limitado entre o tempo e o espaço. O seu desejo era de abraçar o infinito, a eternidade, para poder render infinitamente glória a Deus, por toda a eternidade. Desejava uma perfeição infinita para si e para todas as criaturas. A espiritualidade palotina tem como eixo a vida apostólica, que por sua vez está fundada sobre o entusiasmo que nasce do amor (OO CC VIII, 254-460).

Tudo para a salvação das almas:

Desde tenra idade, Vicente Pallotti tinha um profundo desejo de conduzir as pessoas a Deus. Para ele, quanto mais uma alma se emerge em Deus, tanto mais sentirá a estima e o afeto da criatura para com o Criador. A prova da autenticidade do amor para com Deus é amando as pessoas, pois quem não ama as pessoas, também não pode amar a Deus (cf. 1Jo 4,8).

Pallotti, após ter professado procurar só a Deus, só, só, escreveu: “Procurarei socorrer os pobres, como posso e como mais convém à graça de Deus. Ele adquiriu uma tão grande compaixão pelo seu estado de vida a ponto de querer tornar-se alimento, bebida, licor, roupa, para socorrer as suas misérias e gostaria de ser transformado em luz para os cegos, ouvido para os surdos, saúde para os enfermos” (OO CC X, 15).

Ao ver que existem muitos pecadores que, se bem orientados, poderiam fazer grandes coisas e ignorantes, se fossem instruídos, seriam grandes santos. Por isso, se comprometeu estimular em si mesmo um grande desejo de instruí-los, iluminá-los, santificá-los e convertê-los com a infinita graça de Deus (cf.  OO CC X, 22-25).

Tudo para a destruição do pecado:

Para compreender a atitude drástica de Pallotti contra o pecado, é preciso recorrer à Sagrada Escritura, às origens e à reparação do pecado. O escritor sagrado vê no primeiro pecado como uma evidente recusa de Deus. Deus proibira o homem de tocar em uma das árvores do jardim do Éden e a não observância desta ordem incorreria na morte. A serpente insinuara que nada disso aconteceria, colocando à prova a própria Palavra de Deus, pois, ao contrário, tal fruto portaria ao verdadeiro conhecimento e, assim, seriam como Deus. Adão aceitou a insinuação diabólica e desobedeceu à ordem de Deus de não se aproximar do fruto proibido.

O pecado em si mesmo é a antítese de Deus: Deus cria a vida e a ordena. O pecado, por sua vez, semeia a morte e a desordem. Com o pecado, o homem perdeu o equilíbrio do espírito, equilíbrio esse necessário para distinguir com segurança o bem do mal e a partir daí escolher, decisivamente, sempre e só o bem.

Com o pecado, a imagem de Deus impressa no ser humano, no ato da criação, continuava tênue e deturpada. Deus chamou, então, Abraão e depois Moisés, iluminou os profetas com sua sabedoria, mas o pecado continuava a devastar a obra do Criador. Mas, quando chegou a plenitude dos tempos, enviou o Seu próprio Filho (Gl 4,4), que fez o último apelo. Ele mesmo assumiu a natureza humana, lavou com o seu sangue a mancha que não fora possível lavar nem com o sangue dos sacrifícios e nem com as águas do dilúvio. Pela sua obediência até a cruz, compensou a desobediência mortal do primeiro homem. Deus foi zombado, flagelado, crucificado, morreu entre os insultos do povo, para compensar a ofensa do pecado que tinha chamado Deus de ciumento e mentiroso. Mas, a história não termina aqui. No terceiro dia, como havia dito, Jesus ressuscitou dando a prova decisiva de que Ele era verdadeiramente Deus e que seu sangue tinha lavado a mancha deixada pelo pecado (cf. OO CC X, 478-479; XIII, 117).

Esta é a razão teológica pela qual Vicente Pallotti declara o seu ódio contra o pecado e inicia uma cruzada não só para combatê-lo, mas para erradicá-lo da face da terra (cf. OO CC X, 525). Ele se acusava de ser o maior pecador, nada e pecado (cf. OO CC X, 160), a causa de todos os males físicos e morais da humanidade, mas o pecado do qual faz menção é o da ingratidão (cf. OO CC X, 155; 700-701). São Vicente Pallotti, no seu encontro místico com Deus, percebera o quanto Ele merece ser amado e naturalmente toda a sua gratidão era insignificante diante do amor que Ele tem para com a humanidade pecadora. O não corresponder com a graça de Deus levou-o a viver uma grande angústia, pois gostaria de reparar o amor infinito de Deus, também, com um igual amor infinito (cf. OO CC X, 607; 118-120).

A linguagem de Pallotti é muito dura, quando se refere ao pecado. Diante dos próprios pecados, chega a pedir a Deus que destrua a sua vida (cf. OO CC X, 568; 260; 674-675). O termo destruição, à primeira vista, dá a impressão de ser negativo, como se refletisse a algo sádico. Para ele, isto não tinha uma conotação negativa, como também não era negativa para São Paulo, quando usava a terminologia do velho homem que deve morrer, para que surja uma criatura nova (cf. Ef 4, 22-24). Essa expressão faz parte da linguagem mística. Para Pallotti, essa palavra é rica de significado, de coisas vistas e ouvidas que, por sua vez, não são familiares às pessoas comuns, porque não podem ser expressas por palavras.

A transformação dos místicos é a antecipação do Paraíso, é uma experiência antecipada da vitória definitiva. A via da transformação é a purificação da alma. A graça vai agindo gradativamente na pessoa, à medida que ela se abre a Deus e se esforça para conquistá-la, e a partir daí a alma se desprende das paixões e dos afetos terrenos e se transforma em Deus. Quanto mais se tornam tênues o véu da carne e dos sentidos, tanto mais profundamente e vastamente a luz de Deus penetra na alma. Quando os véus, pelo impulso do amor de Deus se desligam de tudo, daí a alma se transforma no esplendor e no calor de Deus.

Portanto, na ascética de Pallotti, o elemento determinante para a transformação é a imitação de Jesus Cristo. Segundo ele, quando uma alma, dia após dia, se coloca verdadeiramente a procurar no seu íntimo os pensamentos, os afetos e as palavras e as obras de Jesus, Jesus entra naquela alma e a purifica, adorna, ilumina e aquece; faz dela sua morada e age nela. Porém, a força que opera a transformação é o amor. O amor assimila sempre aquele que ama, ao objeto do seu amor. “O amor de Deus transforma em Deus e quanto mais alguém ama Deus, tanto mais rapidamente e completamente se transforma em Deus”.

Um dos efeitos mais vistosos da transformação é a aquisição de uma particular disposição à magnificência. A experiência da infinita beleza, da infinita misericórdia, da infinita potência e do infinito amor, deixa na alma uma impressão, uma atitude e um desejo de grandeza que, depois, vai refletir na linguagem, nos juízos, nas ideias e em todas as iniciativas, e, a partir daí, tudo passa a ser visto em um plano divino e medido com a medida do infinito.

Um outro efeito da transformação em Deus é a audácia dos santos. De fato, quem teve a sorte de pensar quase com o intelecto de Deus e de amar com o coração de Deus, ousa tudo, não tem limites nos seus desejos, não se assusta com mais nada, não se fecha diante dos obstáculos e não sabe renunciar a nenhum dos planos que Ele projetou para a Sua glória.

Deus infunde em Pallotti um sentimento

Ele tem certeza de que a sua vida seria destruída pela infinita misericórdia de Deus, para que ele pudesse começar uma vida nova e perfeita em Deus (cf. OO CC X, 642). A experiência, a qual refere o santo, é uma experiência sobre-humana. A sua certeza acontece por um estado de união mística com Deus. Deus, apesar de seus inúmeros pecados nunca o abandonou, pelo contrário, a sua misericórdia o dá confiança e certeza disso, por isso afirma: “quanto mais me vê pobre, tanto mais quer multiplicar em mim a difusão da vossa graça. Que coisa é, então, o homem diante de Deus? É uma coisa inefável, uma fonte de ternura. O homem diante de Deus é como a ovelha perdida que se obstina em se perder e o pastor se obstina em procurá-la, ou é o filho que se obstina em estar doente e a mãe que se obstina em fazer de tudo para que o encontre a cura” (Dal nulla al tutto, p. 272).

São Vicente nos surpreende com seu perene emergir de todos os abismos da nulidade e do pecado nos quais ele se precipita com sua autoacusação de traição e de sacrilégio, mas as suas autoincriminações querem denunciar uma escassa falta de amor da qual ele se sente culpado porque, em sua lógica, ele nunca teria amado a Deus, como Ele merece ser amado; e este é o seu desespero; mas esta também é a sua força: esforçar-se a todo custo para amar a Deus, como Deus merece ser amado! É seu dever, sua necessidade e a fonte de toda a sua energia ascética e apostólica.

Em suma, os três lemas de São Vicente Pallotti, a glória de Deus, a destruição do pecado e a salvação das almas, não são apenas frases religiosas, mas um programa de vida fundado no amor infinito. Sua trajetória nos ensina que a verdadeira santidade não reside em grandes obras externas, mas na conformidade total com Cristo e na busca constante por “respirar Deus” em cada ação. Pallotti nos convida a sair do egoísmo para abraçar a audácia dos santos, transformando nossa existência em um reflexo da misericórdia divina.

 

Para refletir

1.      O que levou Pallotti escolher esses três lemas?

2.      Qual ensinamento você pode tirar para a sua vida?

3.      Em que momento de sua vida você percebeu a ação concreta de Deus?