domingo, 12 de julho de 2026

 


Tema 7: VICENTE PALLOTTI E SEUS ANSEIOS

Para conhecermos uma pessoa notável (em profundidade), devemos não só entrar em contato com a sua obra, mas também ouvir o que dizem a seu respeito. Certa vez, até mesmo Jesus perguntou aos seus discípulos: O que as pessoas falavam sobre ele. E as respostas foram as mais variadas. “Uns dizem que és João Batista, outros Elias ou algum dos antigos profetas que ressuscitou” (Mt 16,13-16).

Sobre Vicente Pallotti temos relatos de que ele era visto, pelo povo romano, como uma personalidade extremamente popular, amada e quase unanimemente considerada um “santo em vida” e o “apóstolo de Roma”. Sua reputação na “Cidade Eterna” era de um homem incansável na caridade, místico e guia espiritual de todas as classes sociais, desde nobres até os mais pobres e doentes.

Ele era um sacerdote imerso na realidade das pessoas e sabia ouvir as dores e as angústias que cada uma delas trazia em seu coração. Diante disto, certamente brotou nele um profundo desejo de aliviar tantos sofrimentos, ao ponto de escrever no seu diário espiritual “As luzes”: “Ao ver ou pensar nos pobres, esforçar-me-ei para ajudá-los da maneira que puder, e como a maior glória de Deus exige, então, tentarei conceber a mais alta compaixão de seu estado miserável, de modo que eu gostaria que todas as partes do meu corpo e a própria alma respirassem compaixão e misericórdia. Por isso, eu gostaria de me tornar comida, bebida, licor, roupas, posses etc., para sempre ajudar em suas misérias, e, assim, eu gostaria de ser transformado em luz para cegos, voz para os mudos, ouvidos para os surdos, saúde para os doentes etc. (São Vicente Pallotti. As luzes, n. 17.2, p. 25).

Esse seu desejo foi transformado em realidade, quando em 1837 Roma fora acometida pela epidemia de cólera que deixou milhares de pessoas órfãs. Diante de muitas mortes e de pessoas infectadas, ele mesmo cuidou pessoalmente de muitos doentes e moribundos, demonstrando coragem e caridade extraordinárias. Aos olhos do povo, ele era amplamente visto como um homem de amor e de profunda compaixão, doando o que tinha aos necessitados, o que acabou por levá-lo à morte por pneumonia após doar sua capa a um necessitado, em 1850.

A sua preocupação não estava apenas direcionada para as necessidades mais imediatas, como a fome, ou a doença, mas principalmente com a questão espiritual. Em relação aos jovens, com receio de que pudessem se perder na vida, não poupou o seu tempo para dar orientação em colégios e universidades, sendo reconhecido como mestre e guia de almas.

Ele tinha um desejo tão intenso pela salvação das almas que parecia uma obsessão. Como sabia que sozinho era impossível atingir a todos, então teve a nobre intuição de criar uma instituição que pudesse atingir o mundo inteiro.

O trabalho realizado por Pallotti foi tão intenso que ficou conhecido como o “segundo apóstolo de Roma”, depois de São Filipe Neri (1515 a 1595), pois tinha como foco os mais esquecidos que estavam nos hospitais e nas prisões. Tornou-se um confessor extremamente procurado. Ele acreditava que o confessionário era o lugar onde a misericórdia de Deus se tornava concreta. Fundou escolas noturnas para jovens trabalhadores e artesãos que não tinham acesso à educação formal durante o dia.

Diferentemente de muitos padres da sua época, Vicente não trabalhava sozinho. Desde o início, ele buscava a colaboração de pessoas comuns: Ele incentivava médicos, advogados e comerciantes a usarem suas competências profissionais como ferramentas de evangelização. As suas ações visavam quebrar as barreiras entre o clero e o povo, criando uma consciência de missão compartilhada.

Embora tenha começado a agir imediatamente após a ordenação, em 1818, o auge de suas ações iniciais culminou na fundação da União do Apostolado Católico (UAC) em 1835. Nele havia o desejo de que todas as instituições de caridade existentes trabalhassem juntas. A melhor forma para convidar as pessoas a trabalharem juntas, aconteceu na celebração da Oitava da Epifania em Roma, que envolvia vários estratos da sociedade romana, cada um com um papel a cumprir, em um evento que reunia diversas línguas e ritos para mostrar a universalidade da Igreja.

Na verdade, o grande anseio que palpitava no coração de Pallotti era o desejo de “despertar o gigante adormecido” que era o laicato. Ele acreditava que os leigos (pessoas comuns, com profissões e famílias) tinham um papel fundamental na evangelização. O seu maior sonho era ver carpinteiros, advogados e donas de casa usando seus talentos para o bem comum e para levar o Evangelho aos lugares aonde o clero não chegava. Ele não queria criar apenas mais uma congregação isolada, mas, sim, criar uma rede de colaboração que unisse todas as forças da Igreja. Para Pallotti, a caridade era mais eficaz quando feita em conjunto e, com isso, queria superar o isolamento entre diferentes grupos religiosos, para criar uma estrutura de apoio mútuo para as obras de caridade e missões. A caridade, para ele não era apenas dar esmolas, mas atingir a pessoa em sua integralidade.

A Imitação de Maria, Rainha dos Apóstolos

Vicente Pallotti desejava que todos seguissem o exemplo da Virgem Maria. No Cenáculo, ela não era apóstola pela ordenação, mas pela sua presença orante e caridosa que incentivava os outros. Esse era o modelo de “apostolado escondido” que ele ansiava para todos os fiéis. Assim encontramos em Atos dos Apóstolos sobre Pentecostes: “Todos eles tinham os mesmos sentimentos e eram assíduos na oração, junto com algumas mulheres, entre as quais Maria, mãe de Jesus, e com os irmãos de Jesus” (At 1,14).

O surgimento do ideal de Vicente Pallotti

Antes de tudo, foram as suas observações e experiências como diretor espiritual, no colégio da Propagação da Fé, que o fizeram amadurecer em muitas iniciativas apostólicas. As novas perspectivas para a Igreja que provinham dessas vivências prepararam o terreno para o que estava por vir.

O momento da inspiração ocorreu no dia 09 de janeiro de 1835, quando rezava na capela do convento “Regina Coeli” das carmelitas, durante a ação de graças após a comunhão, brilhou repentinamente em sua mente um ideal que mudou completamente o seu modo de agir. Como uma visão de futuro, esse propósito dominaria, nos anos seguintes, todos os seus pensamentos e esforços.

O registro desta experiência, como era seu costume, foi anotado em uma folha solta. Em traços curtos e claros, marcou aquilo que futuramente seria a imagem orientadora de sua alma e de seu ser. Assim escreveu: “Meu Deus, minha misericórdia, em vossa infinita misericórdia, Vós me permitis de uma maneira extraordinária, pelo menos com o mais vivo desejo de promover, de estabelecer, de difundir, de aperfeiçoar e de formar permanentemente em vosso santíssimo Coração. Uma obra de apostolado universal entre todos os católicos, para a difusão da fé e da religião de Jesus Cristo entre todos os infiéis e não católicos. Um outro apostolado oculto, para reavivar, conservar e aprofundar a fé entre os católicos. Uma obra universal do amor pelo exercício de todas as obras de misericórdia corporais e espirituais, para que Vós sejais reconhecido no homem de todos os modos possíveis e imagináveis, já que Vós sois o amor infinito” (S. V. Pallotti. As luzes, p. 65).

Portanto, Pallotti achava que eram necessárias na Igreja três organizações de extensão mundial. O alvo da primeira era: a organização de todos os católicos para a difusão da fé entre os não católicos. Portanto, seria propriamente uma sociedade missionária, que na medida do possível abrangesse todos os católicos como sócios, ganhando-os como colaboradores pela oração e contribuição monetária. Esta cooperação de todos os cristãos católicos, na difusão da fé, Vicente Pallotti a chama sem rodeios de “apostolado”, de maneira que com isso ele preconizou o apostolado dos leigos de nossos dias.

A segunda organização deveria ser um “apostolado oculto”, porque tinha a tarefa de trabalhar em silêncio, reavivando a fé entre os católicos e com isso despertar neles o espírito apostólico, porque sem uma constante e silenciosa renovação da fé, com o tempo, também, se faz impossível um entusiasmo apostólico.

A terceira seria a organização da caridade, com extensão mundial, devia servir com os mesmos objetivos, porque pelo fato de fazer o amor de Deus visível através do exercício do amor humano deveria, por sua vez, despertar este amor ao próximo, naqueles que foram objetos do amor, suscitando um movimento espiral crescente.

Desde aquela hora no “Regina Coeli”, Vicente Pallotti se sabia chamado e encarregado de trabalhar na realização e concretização desta visão de futuro. Além deste “anseio vivíssimo”, nem ele se animava a decidir, claramente, o ‘como’ e o ‘quando’ deveria começar a fundação de tão grande obra. Para isto, a vontade de Deus deveria revelar-se com mais clareza. Possivelmente, seria somente tarefa sua preparar tais obras na Igreja, defender e apoiá-las e criar condições para que se concretizassem. Diante dessas incertezas, evitou usar a palavra “fundar”.

Na verdade, ele nunca teve dúvidas que a criação de uma instituição de extensão mundial estivesse no plano da providência divina. Ele estava realmente convencido disso, ao ponto de concluir seus apontamentos com a oração: “Mesmo que eu seja inapropriado e sempre mais me torne inapropriado e indigno, mesmo assim espero, sim, eu tenho certeza, que agora chegou o momento de um brilhante triunfo de vossa misericórdia sobre a minha incapacidade e indignidade: “Meu Deus, misericórdia graça””.

Esta breve descrição do estado de espírito de todos os membros da Sociedade do Apostolado Católico poderia muito bem ser do ano de 1838, quando Pallotti teve que defender-se de ataques e censuras lançados contra ele. E, certamente, uma destas acusações referia-se à pretensão e à presunção de reivindicar para si o apostolado católico da hierarquia. É por isso que este escrito começa por inculcar, de um lado, o respeito para com os membros da hierarquia, portadores do mandato apostólico neste mundo e, de outro, a obediência no exercício do apostolado participado.

O anseio mais vivo de Pallotti é a caridade serviçal e desinteressada, na qual a humildade e o amor se complementam na gratuidade de todo trabalho e serviço prestado. O grande valor dado por ele a esta atitude interior, a esta motivação, provavelmente decorria do muito que ele observara e experimentara nos círculos clericais de Roma (Doc. Fundação, p. 151).

Para ele, na Sociedade recém-criada devia resplandecer um correto e sólido espírito de profundo respeito, de pronta obediência e de religiosa veneração ao Sumo Pontífice, constituído por Jesus Cristo como o primeiro dentre os apóstolos. Só ele recebeu de Deus o poder de enviar missionários a todas as partes do mundo, para trazer ao redil aquelas ovelhas, ou melhor, aquelas almas das quais disse Jesus Cristo: “Tenho outras ovelhas, que não são deste aprisco: devo conduzi-las também” (Jo 10,16). Só Ele tem o primado de jurisdição sobre toda a Igreja. Deve haver na Sociedade também, proporcional e respectivo, um espírito de religioso respeito e de obediência ao sacro colégio dos cardeais e aos bispos, que, nas suas dioceses, são os nossos pastores. Deve haver também o respeito e a obediência aos superiores das ordens religiosas, que, no âmbito da respectiva ordem, são também apóstolos católicos.

Portanto, a denominação Apostolado Católico, longe de embalar a ufania do agregado à pia Sociedade, que se julgasse digno do nome de apóstolo, porque agregado, deve inspirar em cada qual, de todo estado, posição ou condição, um ardente desejo de fazer quanto esteja a seu alcance, a fim de promover tudo que possa contribuir, para fazer acontecer a maior glória de Deus na salvação das almas. Este é o verdadeiro Apostolado Católico. Só o humilde autêntico pode chegar a resultados concretos. Assim, todo que aspire a concorrer eficientemente, para felizes e rápidos êxitos do Apostolado Católico, deverá considerar-se o mais indigno do nome de apóstolo. Tal nome só cabe àqueles que, em grau heroico, tenham posto em ação o preceito da caridade, promovendo, de toda forma possível, a maior glória de Deus e a salvação das almas (Doc. Fundação, p. 152).

Por isso afirmou: “Nunca desconfie de que Deus não seja capaz de fazer o que fizeram os maiores santos da Igreja, porque com a graça de Deus, tu podes fazer coisas maiores, ou melhor, tu podes fazer mais do que fizeram todos os santos juntos” (OO CC X, 112). Acrescentou ainda: “Se considero infinita a bondade de meu Deus, é porque estou convencido de que Ele me enriquece com a abundância da graça santificante, para que eu possa desejar o Paraíso, se é que se pode desejar algo naquela Pátria beata. Tenho certeza de que Deus, pela sua bondade, se pudesse fazer-me verdadeiro Deus, o faria” (OO CC X, 143).

Em Pallotti, todo o seu contato com Deus está projetado sobre o infinito. A glória de Deus deve ser infinita, a perfeição da criatura deve ser infinita, o amor deve ser infinito e até mesmo a humilhação e o sofrimento devem ser infinitos, para servir de reparação ao Amor infinito. Enfim, tudo deve ser elevado ao infinito, ou seja, quem ama infinitamente deve aceitar também, para reparar os seus erros, verdadeiros ou presumíveis expiações ou reparações também de maneira infinita. A humilhação externa com a mortificação física não só são meios eficazes de expiação dos pecados do orgulho e da concupiscência, mas é também uma ótima disciplina para conservar a castidade e o equilíbrio humano.

Pallotti foi guiado e iluminado por Deus

A presença ativa e constante do amor de Deus na vida quotidiana de Pallotti é a razão psicológica e teológica da sua partida velocíssima no caminho de perfeição e da conquista de metas muito raras. A sua doutrina consiste: o segredo de uma vida santa está no amor de Deus. Se não tem o amor em Deus, todos os atos objetivamente virtuosos se tornam egoísmo e vaidade. Os meios de santificação utilizados por Pallotti para extirpar os vícios e cultivar as virtudes são: a direção espiritual, exercícios de piedade, práticas de penitência, exame de consciência, meditações, recolhimento, confronto com a palavra de Deus, leis da Igreja e o exemplo dos santos, mas a vastidão ou a decisão de seus propósitos é a profundidade da fé, esperança e caridade. Elas dão um ritmo privilegiado à sua marcha (Dal nulla al tutto, p. 67).

Um outro elemento que caracteriza a autenticidade do itinerário de santificação de Vicente Pallotti é a tradução quase que automática do amor de Deus em amor ao próximo. A prova da autenticidade do amor a Deus é a sinceridade do amor ao próximo. Quem não dá nada ao homem do qual vê a sua necessidade, como pode comover-se por Deus ao qual não vê? (Dal nulla al tutto, p. 71).

Porém, o que garante a autenticidade do caminho de santidade de Pallotti é a sua profunda e cordial insatisfação por aquilo que ele é e pelo que faz. Esta é também uma das marcas da sua espiritualidade, pois, segundo ele, um homem satisfeito consigo mesmo não pode ser santo. Olhando para si mesmo, ele ficava espantado por aquilo que ele é (cf. OO CC X, 751; 748; 482-483), porque se julgava como alguém que foi feito à imagem de Deus (cf. OO CC X, 245; 470), e a santidade de Deus é a medida para que o homem também possa tornar-se santo (cf. OO CC X, 51; 112).

Em suma, podemos dizer que Vicente Pallotti foi um visionário que compreendeu que a santidade não é um privilégio do clero, mas um chamado universal. A sua vida foi marcada pelo anseio de “despertar o gigante adormecido” (o laicato), acreditando que cada pessoa, em sua profissão e estado de vida, possui uma missão evangelizadora insubstituível. E a essência de seu legado pode ser resumida em três pilares: primeiro, a caridade operante, que o leva a um profundo amor ao próximo ao ponto de desejar “ser tudo” para salvar os necessitados. O segundo elemento é a unidade e a colaboração, que levou a UAC a criar uma rede de cooperação, para superar o isolamento e potencializar o bem comum. E em terceiro lugar, ele tinha o seu foco no infinito, para superar toda e qualquer superficialidade para buscar a maior glória de Deus através da humildade, da oração e do serviço desinteressado. Esperamos que este seu propósito possa, ainda hoje, estimular muitos cristãos a perseguirem este mesmo caminho.

 

Para refletir

1.      Qual era o anseio mais profundo de Pallotti?

2.      Quais eram os meios de santificação para Pallotti?

3.      O que Pallotti afirma sobre o amor?







sábado, 23 de maio de 2026

 



FESTA DA RAINHA DOS APÓSTOLOS

23/05/2026

Hoje celebramos Maria, a Rainha dos Apóstolos. A família palotina celebra esse dia com muita devoção, confiando naquela que esteve presente na vida da comunidade nascente que, assustada, presenciou a subida de Cristo ao céu e, agora, no cenáculo, esperam a vinda do Espírito Santo. Na Ascensão de Jesus, muitos ainda duvidavam do que viam. Foi somente em Pentecostes, quando estavam no cenáculo em oração, junto com Maria, que algo começou a tomar um novo rumo.

A devoção a Maria não surgiu na Igreja por meio de um decreto oficial ou de um evento único, mas cresceu de forma orgânica, como uma semente plantada no início do cristianismo que floresceu ao longo dos séculos. Ela combina intuição teológica, registros bíblicos e a necessidade emocional dos fiéis de encontrar uma figura materna na fé.

Tudo começou com o “Sim” de Maria na Anunciação. No Novo Testamento, ela já aparece como figura central em momentos-chave: o nascimento de Jesus, as Bodas de Caná (onde atua como intercessora) e aos pés da Cruz. O registro mais antigo de uma oração a Maria data de aproximadamente no ano 250 d.C: assim diz a oração: “À vossa proteção recorremos, Santa Mãe de Deus...”, encontrado em um fragmento de papiro no Egito (Papiro Rylands 470). Isso prova que, antes mesmo da Igreja oficializar dogmas, os cristãos já pediam sua intercessão em tempos de perseguição. Em termos práticos e humanos, a devoção começou porque os cristãos viam em Maria a ponte perfeita: ela é plenamente humana (como nós), mas teve a maior intimidade possível com o Divino (Jesus).  Nas paredes das Catacumbas de Priscila, em Roma, há afrescos datados do século II (por volta de 150 d.C.) que retratam a Virgem Maria com o Menino Jesus. É a mais antiga imagem conhecida da mãe de Cristo.

Para os primeiros cristãos, se Jesus ouviu o pedido dela em uma festa de casamento em Caná, Ele certamente a ouviria no céu (Cf. Jo 2,3-5). Para o nosso fundador, São Vicente Pallotti, a devoção mariana ia muito além da oração contemplativa; era o combustível para a ação apostólica. Ele via Maria como modelo de doação total a Deus e que poderia modelar, nele, a imagem do seu Filho, Jesus.

Maria na ascética palotina

Maria ocupa um lugar muito importante na obra e na doutrina de Vicente Pallotti. Para ele, Maria é a cheia de graça, a filha predileta do eterno Pai, a Mãe que Deus Filho escolheu entre todas as mulheres para tornar-se homem, a Esposa única na qual o Espírito Santo infundiu a mais pura virgindade e exuberante maternidade. Nenhuma criatura, pela sua pessoal excelência, pode ser amada e honrada como foi amada e honrada Maria, porque ela foi infinitamente amada e honrada por Deus Pai, Filho e Espírito Santo. Deus criou o homem à sua imagem e Maria, Mãe de Jesus, fez Deus à sua imagem. Não existe uma criatura comparável à Maria, porque sua beleza é irrepetível. Por esta admirável excelência, Maria merece admiração, louvor, amor, mais do que todas as coisas criadas, segundo padre Francisco Amoroso.

Pallotti olhando para Jesus agonizante, reflete: Na cruz, o sangue derramado de Cristo é o sangue de Maria, a carne de Jesus, flagelada e coroada de espinhos, seus membros perfurados pelos pregos e lanças é carne de Maria. Maria aceitou a profecia de Simeão que anunciou tais sofrimentos com o símbolo da espada que traspassará seu coração. Esta Senhora bendita foi constituída por Jesus, no momento mais solene da redenção, Mãe do novo povo de Deus (Cf. OO CC XIII, 725; cf. Amoroso. Dal nulla al tutto, p. 115).

No seu contínuo contato filial com a Mãe de Deus, Pallotti descobriu nela algo muito significativo, a sua presença no Cenáculo como Mãe e Rainha dos apóstolos. Ela que não tinha nenhuma jurisdição e nenhuma participação no sacerdócio ministerial e, contudo, foi tão grande apóstola que mereceu o título de Rainha dos Apóstolos. Isto prova claramente que não é necessário ter um poder de jurisdição ou de ministério para se tornar apóstolo de Jesus. Maria não ocupou nenhum cargo e, no entanto, superou, em méritos, todos os Papas, Bispos e sacerdotes.

Segundo Pallotti, Maria cooperou na propagação da santa fé mais que os apóstolos. Ela sustentou, com sua oração o ânimo dos apóstolos e fez com que superassem as suas fadigas e medos. Assim escreveu ele:

A santa Igreja, não por um simples título de honra, mas por motivo de plenitude de méritos, saúda Maria com o augusto título de Rainha dos Apóstolos e, com isto, todos, sacerdotes e leigos, todos, de ambos os sexos, de todo estado, posição e condição social, se animarão a imitar a nossa Imaculada Mãe Maria Santíssima, em todos os empreendimentos da maior glória de Deus e em todas as obras de misericórdia corporal e espiritual para o bem dos próximos (Doc. da fundação, p. 184).

Para concluir, Pallotti desejou profundamente que seus seguidores tivessem um profundo amor e devoção à Mãe de Deus. Queria que todos fossem fervorosíssimos apóstolos de Maria. Queria que todos fossem transformados em Maria, de sorte que, depois de Jesus Cristo, o seu coração, os seus movimentos internos, as suas palavras e os seus olhares, os seus passos e ações fossem de Maria, porque um verdadeiro devoto de Maria não só se salvará, como se tornará um grande santo. “Deus em tudo e  sempre!”

terça-feira, 12 de maio de 2026



TEMA 6: UAC – Um novo modo de ser Igreja 

O evangelho de Mateus, nos seus últimos versículos, recorda a todos que a missão de Jesus Cristo continua na vida da Igreja e todos os batizados são convocados a anunciar essa boa notícia até os confins do mundo: “Ide e ensinai a todas as nações, batizai-as em nome do Pai, do Filho e do Espírito Santo” (Mt 28,19).

São Vicente Pallotti, iluminado por esta mesma Palavra, sentiu a necessidade de convocar os batizados para que, de maneira consciente e organizada, pudessem levar o mais rápido possível essa mensagem às nações e, assim, reavivar a fé e reacender a caridade.  Por isso, em meados de maio de 1835, ele fez um apelo ao povo, dizendo:

“Todos, grandes e pequenos, formados, estudantes, operários, ricos e pobres, padres, leigos, religiosos e seculares, comerciantes e empresários, funcionários, artistas e artesãos, comunidades e indivíduos, cada qual no seu próprio estado, na própria condição, de acordo com os próprios dons, podem dedicar-se às obras do Apostolado Católico para reavivar a fé, reacender a caridade e propagá-las em todo o mundo”.[1]

Esse apelo ao povo foi o primeiro passo dado por ele, para que as pessoas saíssem do seu torpor religioso e começassem a ter um olhar mais amplo e universal. Sendo assim, muitas pessoas tanto do clero quando dos fiéis se entusiasmaram por esta ideia e, desta forma, deram início a uma nova maneira de trabalhar juntos em prol do Reino de Deus, mas de forma organizada. Essa organização, por sua vez, não significa centralizar ações em uma estrutura própria, mas fortalecer a comunhão entre os apóstolos, de modo que cada um, no seu lugar, atue com maior consciência, unidade e espírito de colaboração.

O Papa Francisco, no seu magistério, convocou os cristãos, para que saíssem dos seus ambientes fechados da Igreja, para tornarem-se uma “Igreja em saída”, ou seja, que todos possam ir em direção das pessoas, em suas periferias existenciais, para levar o remédio de Cristo a tantos corações feridos pela falta de amor e acometidos pelo ódio e pela desesperança. Assim, diz o Papa: “hoje, todos somos chamados a esta nova saída missionária. Cada cristão, cada comunidade e sacerdotes devem sair do seu conforto e ter a coragem de chegar a todas as periferias existenciais, que precisam da luz do Evangelho. Esse é o caminho que o Senhor lhe pede, mas cabe a nós aceitar este chamado”.[2]

A força do batismo

Segundo a Lumen Gentium (LG), “todo leigo é chamado a ser testemunha da ressurreição e da vida do Senhor Jesus, sinal de Deus vivo, diante do mundo”. O número 40 afirma: “Nas diversas profissões e formas de vida, a santidade é sempre a mesma”. O número 33: “Formando o povo de Deus, os leigos constituem um só corpo de Cristo, que é a cabeça. Por vontade do Criador e pela graça recebida do redentor, todos, como membros vivos, são chamados a contribuir com o melhor de suas forças para o crescimento e contínua santificação da Igreja”.[3]

A santa Igreja foi instituída por Deus, com uma grande variedade de categorias e funções (cf. LG 32). Os leigos, homens e mulheres, em virtude da sua condição e missão, têm algo de especial, cujo fundamento deve ser melhor examinado nas circunstâncias particulares do mundo em que vivemos. Os pastores sabem quanto os leigos contribuem para o bem de toda a Igreja. Eles sabem que não foram constituídos por Cristo para assumirem sozinhos a missão salvadora da Igreja em relação ao mundo. É sumamente importante que, no exercício da sua função, contem com o apoio dos leigos e com os seus carismas, permitindo que todos colaborem a seu modo na execução do trabalho comum (...). Denominam-se leigos todos os fiéis que não pertencem às ordens sagradas, nem são religiosos reconhecidos pela Igreja. São, pois, os fiéis batizados, incorporados a Cristo, membros do povo de Deus, participantes da função sacerdotal, profética e régia de Cristo, que tomam parte no cumprimento da missão de todo o povo cristão, na Igreja e no mundo (cf. LG 31).

O cristão precisa ter uma identidade sólida e positiva, para poder testemunhar a sua fé e anunciar Jesus Cristo. A falta de clareza da própria identidade nos faz cair em incoerências, pois nos leva a viver fora da finalidade essencial da nossa vida e nos distancia do nosso verdadeiro valor. Isso, muitas vezes, dificulta uma realização mais profunda da nossa vida e vocação. A origem da nossa identidade cristã está no batismo. Nele, recebemos uma nova identidade, que é a de sermos filhos de Deus. Pelo batismo nos tornamos membros da comunidade eclesial e nos credencia a continuar a missão de Jesus Cristo. Ser cristão é reproduzir, na própria vida, o modo de viver de Jesus, é identificar-se sempre mais com Ele.

Para São Mateus, a identidade e a missão do cristão consistem em: batizar e fazer discípulos (Mt 28,19). Os que foram batizados, em nome de Cristo, foram também enviados em missão (Lc 10,1). Inspirados pelo Espírito Santo, os cristãos realizam numerosas iniciativas apostólicas como manifestação de amor ao próximo, fundado no amor de Deus. Segundo o Papa Bento XVI, na encíclica Deus Caritas Est, o compromisso de fé com Cristo leva à realização da caridade, tanto individualmente como em comunidade. Para ele, a caridade deve ser organizada como pré-requisito, para um serviço ordenado à comunidade. A identidade da Igreja está na caridade. Ela é a sua essência. Para a Igreja, a caridade não é uma espécie de atividade de assistência social que se poderia mesmo confiar a outros, mas pertence à sua natureza, é expressão irrenunciável da sua própria essência (Deus caritas est, n. 22). A Igreja é a família de Deus no mundo. Nesta família, não deve haver ninguém que sofra por falta do necessário (n. 25b ).

A caridade vai muito além de uma simples assistência humanitária. Ela é um serviço abnegado por motivo de fé: “é servindo ao próximo que os meus olhos se abrirão para aquilo que Deus faz por mim e para o modo como Ele me ama” (n. 18). Os Santos hauriram a sua capacidade de amar o próximo, de modo sempre renovado, do seu encontro com o Senhor eucarístico e, vice-versa, este encontro ganhou o seu realismo e profundidade, precisamente, no serviço deles aos outros. O amor cresce através do amor. O amor é “divino”, porque vem de Deus e nos une a Deus, e, através deste processo unificador, transforma-nos em um nós, que supera as nossas divisões e nos faz ser um só, até que, no fim, Deus seja “tudo em todos” (1Cor 15,28).

Segundo São Vicente Pallotti, o amor de Deus é difusivo. Ele irradia nos corações, que, por sua vez, torna-se uma luz que vai se propagando na vivência entre as pessoas. Assim disse Jesus: “Quem me vê, vê o Pai”! Ele é o reflexo do amor do Pai, que ama o Filho, que por sua vez, o filho transborda esse amor na cruz (cf. Rm 5,5). O amor do próximo, radicado no amor de Deus, é um dever para cada um dos fiéis, mas o é também para a comunidade eclesial inteira, em todos os seus níveis: desde a comunidade local, passando pela Igreja particular, até a Igreja universal na sua globalidade. A Igreja também, enquanto comunidade deve praticar o amor. A consequência disso é que o amor tem necessidade também de organização, enquanto pressuposto para um serviço comunitário ordenado (Deus caritas est, n. 20).

A consciência de tal dever teve relevância constitutiva na Igreja desde os seus inícios: “Todos os crentes viviam unidos e possuíam tudo em comum. Vendiam terras e outros bens e distribuíam o dinheiro por todos de acordo com as necessidades de cada um” (At 2, 44-45). Com o passar dos anos e a progressiva difusão da Igreja, a prática da caridade confirmou-se como um dos seus âmbitos essenciais, juntamente com a administração dos Sacramentos e o anúncio da Palavra: praticar o amor para com as viúvas e os órfãos, os presos, os doentes e necessitados de qualquer gênero pertence tanto à sua essência como o serviço dos Sacramentos e o anúncio do Evangelho (Mt 25,34-40). “A Igreja não pode descurar o serviço da caridade, tal como não pode negligenciar os Sacramentos nem a Palavra” (Deus caritas est, n. 22).

O direito de associar-se

As associações representam a forma organizada e mais elaborada do ministério eclesial, para desenvolver a caridade e a piedade, caracterizado pela ação evangelizadora da Igreja e portadores da possibilidade de reunir os vários estados de vida (sacerdotes, religiosos, leigos), por um objetivo comum. As associações não têm seu próprio propósito, mas elas servem a missão que a Igreja deve cumprir no mundo com o testemunho e o espírito evangélico. Assim, D. Denilson Geraldo apresenta em seu artigo sobre a sinodalidade na União:

A UAC, como uma associação pública internacional, é uma pessoa jurídica eclesiástica e não pode ser considerada como Ordem Terceira, de acordo com a norma do cân. 303; nem mesmo uma Federação de diferentes congregações ou sociedades de vida apostólica, de acordo com a norma do cân. 582, porque uma associação não é vida consagrada (cf. can. 298) e não tem o poder de governar sobre os membros das comunidades de fundação, mas uma coordenação das obras que estão sob a pessoa jurídica desta associação, que é a UAC. Desta forma, como afirmado no n. 10 de seu Estatuto, a UAC não interfere nos regulamentos internos das comunidades que fazem parte dela (cf. artigos 34-37 e 40. Apostolato Univesale, n. 47/2018, p. 39).

A UAC, embora reconhecida juridicamente como associação, não se define como um grupo de atuação própria dentro da Igreja. Sua natureza é, antes de tudo, a de uma comunhão apostólica, que une fiéis de diferentes estados de vida no chamado universal ao apostolado, vivido nas realidades em que cada um já está inserido.

O direito de se associar para desenvolver obras apostólicas provém do Batismo e da Confirmação, para que a mensagem divina da salvação seja conhecida e bem recebida pelas pessoas. O requisito fundamental de uma associação católica é a comunhão com a Igreja e o reconhecimento dos estatutos, nos quais ela determina a finalidade, a localização, o governo, condições exigidas para sua admissão, tendo em conta a necessidade de tempo e lugar com uma indicação clara para inculturação. O nascimento de uma nova associação é sempre uma garantia contra a centralização excessiva que sufoca e inibe a participação (Apostolato Univesale, p. 36).

A compreensão da UAC como associação não deve ser reduzida a uma lógica de grupo ou estrutura de atuação própria, mas entendida como instrumento de comunhão, que favorece a unidade entre os apóstolos, sem substituir ou se sobrepor às demais expressões da Igreja. Ou seja, a UAC, embora seja uma associação reconhecida pela Igreja, não se configura como um grupo ou pastoral com atuação própria. Sua identidade é a de comunhão apostólica, vivida pelos seus membros nas diversas realidades onde já estão inseridos. A sua organização existe para promover unidade e consciência de missão, não para criar uma estrutura paralela na Igreja.

Por isso, o Papa Francisco convoca todos os batizados para uma Igreja em saída, ou seja, uma Igreja onde todos os seus membros são protagonistas no caminho do discipulado. Segundo ele, a reforma da Igreja católica tem que levar em conta que é necessário superar a mentalidade reducionista e clerical que entende os leigos como objetos da ação da hierarquia e como “consumidores” dos sacramentos, bem como criar as condições necessárias, para que os leigos possam viver o seu protagonismo de forma autônoma (Papa Francisco e o laicato, ano nacional do laicato, 2018, p. 26).

A associação, por meio dos seus dispositivos legais, ajuda no diálogo com a cultura e exige lidar adequadamente com as questões sociais do nosso tempo. Esta é a chave para uma visão associativa adequada, porque a realidade é caracterizada por problemas cada vez mais interconectados e que influenciam toda a família humana. Diante disso, é preciso criar novas estratégias que satisfaçam às necessidades do nosso tempo, o valor da vocação cristã e dos diferentes carismas para a evangelização da sociedade e também dialogar com todos aqueles que desejam, sinceramente, o bem do povo e da humanidade. Um sinal de esperança é o fato de que, hoje, as religiões e culturas expressam abertura ao diálogo e a urgência de unir seus esforços para promover a justiça, a fraternidade, a paz e o crescimento da pessoa humana.

O Direito Canônico, cân. 215, acentua que os fiéis têm o direito de estabelecer e dirigir livremente associações que visam à caridade ou à piedade, ou associações que propõem o aumento da vocação cristã no mundo. Têm o direito de realizar reuniões para a concretização comum de tais propósitos. Porque, por meio do batismo, a pessoa é incorporada à Igreja de Cristo, com os deveres e os direitos que lhes são próprios, em comunhão com a Igreja.

O Concílio Vaticano II destacou, de maneira particularmente clara, a “igualdade entre todos quanto à dignidade e quanto à atuação, comum a todos os fiéis, em favor da edificação do corpo de Cristo”, em virtude do sacramento do batismo (LG, n. 32). O princípio da igualdade implica que existem alguns direitos e deveres fundamentais comuns a todos os fiéis, que foram enunciados no cânon 208-223. No entanto, o reconhecimento do direito de associação dos batizados foi o resultado de um desenvolvimento gradual, no qual o Concílio Vaticano II foi de fundamental importância, e que só culminou com a completa formalização desse direito dos fiéis, na entrada em vigor do Código de Direito Canônico. Pois, o batismo lhes dá a dignidade de um lar espiritual e de um sacerdócio sagrado. Em virtude do sacerdócio comum dos fiéis[4], eles podem, em união com Cristo e à Igreja, viver uma vida extraordinária, cheia de graça, mesmo em suas circunstâncias mais comuns. Esta é a vida sacramental. Os membros de uma associação ou movimento se esforçam para viver essa vida mais intensamente e de maneira coordenada.

A fonte do apostolado

A fonte de todo apostolado é o amor de Deus, que, em Jesus Cristo, Apóstolo do Pai, impulsiona as pessoas a viverem em perfeita união e a expressarem na vida tudo quanto receberam por meio da fé. O desejo de Deus está escrito no coração do ser humano. Deus não cessa de atraí-lo a si, e, somente em Deus, a pessoa humana encontra a verdade e a felicidade que não cessa de procurar. O ser humano é chamado a viver em comunhão com Deus. O homem existe porque Deus o criou por amor e, por isso, não cessa de dar-lhe o ser, e o homem só vive plenamente, segundo a verdade, se reconhecer livremente este amor e se entregar ao seu Criador.

A União do Apostolado Católico, uma associação de fiéis, é dom do Espírito Santo, e vive em comunhão, segundo o carisma de São Vicente Pallotti, a serviço da Igreja e do mundo (Estatuto Geral (UAC), n. 1). Esse chamado é um dom gratuito do Pai que, no seu amor infinito e misericordioso, chama as pessoas a seguirem seu Filho, Jesus Cristo, Apóstolo do Eterno Pai, para continuar, no mundo, a Sua Missão salvífica. Como o Pai mandou o Seu Filho ao mundo, assim também os membros da União, impulsionados pelo amor redentor de Cristo, são enviados a:

1.      Reavivar e difundir a fé evangelizando as pessoas e a sociedade em que vivem;

2.      Reacender a caridade;

3.      Viver uma profunda união com Jesus, Apóstolo do Eterno Pai, no desenvolvimento de obras apostólicas, em comunhão com os católicos, os cristãos e as pessoas de boa vontade;

4.      Despertar, no povo de Deus, a consciência da vocação ao apostolado (Est. Geral, n. 12).

A UAC foi reconhecida definitivamente como uma associação pública internacional, no dia 28/10/2008, para que os membros do Povo de Deus pudessem, unidos na missão evangelizadora da Igreja, praticar a caridade de forma associativa. Pallotti acreditava que as iniciativas apostólicas pessoais seriam mais eficazes se fossem realizadas em colaboração e destinadas à tarefa comum da vida e à difusão conjunta do Evangelho. Com efeito, a missão das UAC é de promover o espírito associativo dos batizados e trabalhar pela justiça e pela caridade. Podemos dizer, também, que o trabalho associativo é uma prática verdadeira do princípio da subsidiariedade, baseado na teologia da comunhão e que dá uma sábia descentralização do apostolado caridoso e inculturado na realidade de cada Igreja local, de acordo com o tempo e o lugar (ver Cânon 304); [Denilson Geraldo, p. 37-38].

Quem pode fazer parte da União

Segundo São Vicente Pallotti, todo batizado é chamado por Deus para ser apóstolo do Reino. Para justificar isso, apresentou Maria, a Mãe de Jesus, como mulher apostólica, fazendo muito mais que todos os apóstolos, mesmo sem receber nenhuma ordem sacra. Ela foi sempre obediente à vontade do Pai. O seu “Sim” transformou o mundo, gerou o Salvador que assumiu a nossa humanidade. Maria, pela graça de Deus, tornou-se a Rainha dos Apóstolos.

O ser humano está sempre em busca de algo maior para sua vida. Após a vinda de Pentecostes, as pessoas perguntavam a Pedro, que, pela primeira vez, anunciava o reino destemidamente: “E nós, o que devemos fazer”? Pedro respondia: “Convertam-se e sejam batizadas” (At 2,37-38). Portanto, o batismo já nos inseriu no projeto redentor de Cristo, porém ele convida pessoas para um trabalho específico em sua Igreja, para que sua dedicação seja exclusiva ao serviço do Reino. Todavia, ele suscita no meio do povo pessoas com carismas especiais, para tornar o evangelho sempre atual e, desta forma, responder às necessidades de cada época.

A UAC, desde o tempo de sua fundação, vem mostrando o seu modo próprio de ser e de agir dentro a Igreja, e, até mesmo os seus Estatutos atuais deixam em aberto a possibilidade de todos fazerem parte, em primeiro lugar, os batizados, bem como aqueles que desejam cooperar com a obra apostólica, mesmo não professando a fé católica.

Compromisso apostólico

Com a aprovação dos Estatutos da UAC, a Igreja concedeu aos seus membros o direito de associar-se para que, assim, cada membro, de maneira consciente da sua missão na Igreja, pudesse viver a sua fé de modo mais estreito e associativo. Esta seria a resposta prática para aqueles que fizeram uma caminhada de estudo e que sentiram a necessidade de dar um passo a mais em direção à vivência do seu batismo, não apenas como um membro que coopera com as obras do apostolado, que também tem o seu valor, mas, vivendo, de maneira consciente, o apostolado nas realidades em que já está inserido — seja nas pastorais, movimentos, na vida profissional, familiar e social.

assumindo de maneira consciente os trabalhos que estão à sua disposição na paróquia. Para que pudesse ampliar os trabalhos apostólicos e até mesmo poder dialogar com o mundo e outras realidades, a associação de fiéis permite que se tenha uma identidade própria com um CNPJ, podendo assim assumir direitos e deveres diante da sociedade civil, mas isso não exclui aqueles que apenas desejarem viver o carisma palotino na realidade em que se encontra, fazendo obras de caridade, sem nenhum vínculo formal. Essa prática já acontecia desde o tempo do fundador.

Segundo o D. Denilson Geraldo, em sua live do dia 22/09/2021[5], ao falar da Associação internacional de fiéis, deixou bem claro que as pastorais estão ligadas aos párocos e as associações estão ligadas ao Bispo. Ela tem uma estrutura jurídica com um Estatuto. O estatuto dá estabilidade apostólica no tempo, sendo reconhecida civilmente. Com isso, ela pode dialogar com a cultura e isso perdura no tempo e é necessário ter uma espiritualidade das necessidades reais que as pessoas têm. Segundo ele, a caridade deve ser realizada comunitariamente e organizada em associações, não apenas como pastoral, mas como uma associação que tem uma autonomia jurídica e administrativa, mas, sempre em comunhão com a Igreja, pelo reconhecimento dos estatutos feito pelo Bispo diocesano. Isso demonstra a maturidade de um grupo de cristãos, ou seja, dando um passo além do que se faz nas paróquias. 

Pallotti queria esse tipo de maturidade para os leigos, que eles fossem maduros na fé e que trabalhassem com leigos que tivessem uma ousadia de criar uma associação, de criar recursos para o apostolado e, assim, dialogar com a cultura, inseridos na sociedade onde vivem. A UAC, felizmente, conseguiu esse patamar, de ser uma associação pública internacional de fiéis, com suas coordenações locais, nacionais e internacional. A finalidade do Conselho é promover a unidade, articular a comunhão e favorecer a consciência apostólica entre os membros da UAC, estimulando o apostolado nas diversas realidades onde já atuam.

Os colaboradores

Desde o início da fundação, Pallotti contava com inúmeras pessoas que colaboravam com a sua obra. O atual Estatuto, também dedica três números sobre eles, a saber: 30, 53 e 57, que trata não dos membros efetivos, mas daqueles simpáticos ao carisma, porém, sem ter feito a caminhada prevista para o empenho apostólico. Essas pessoas se sentem muito felizes em dar a sua colaboração, quer seja pelas orações ou, então, como benfeitoras dos seminários, sentem alegres por cooperarem com a Missão de Cristo na União, com o seu trabalho, sua doação ou oração.

Para concluir, podemos dizer que nos Estatutos da União constam quem pode participar das suas iniciativas, como colaboradores:

1.      os cristãos (cf. art. 53-54);

2.      os crentes de outras religiões (cf. art. 55);

3.      outras pessoas de boa vontade (cf. art. 56).

No número 53 lemos: “Os fiéis católicos que, mesmo não assumindo particulares empenhos na União, desejarem de qualquer modo partilhar do seu espírito e participar de suas iniciativas, podem tornar-se seus colaboradores”. No número 57 encontramos: “As modalidades de todo tipo de colaboração são estabelecidas pelo regulamento do Conselho Nacional de Coordenação (cf. art. 71i).

Sendo assim, podemos dizer que o TODOS, no apelo de maio, continua tendo o mesmo valor ainda hoje, porém, com o Estatuto, podemos tornar visível a comunhão apostólica vivida pelos seus membros e, assim, fazermos coisas ainda mais ousadas, graças ao Estatuto e ao reconhecimento público na Igreja e na sociedade civil.

 

Para refletir

1.      O que você entendeu por Associação de fiéis?

2.      Segundo o texto, qual é a importância do Estatuto para uma associação?

3.      Para você, como deveria ser a evangelização da Igreja?



[1] Na sexta-feira, 9 de janeiro de 1835, após a Santa Missa celebrada no mosteiro Regina Coeli, Vicente Pallotti se sentiu chamado a instituir a obra do Apostolado Católico, para alcançar os seguintes objetivos: 1. Difundir a fé entre os não crentes; 2. Reavivar a fé nos católicos; 3. Exercer trabalhos de caridade”, mas, em maio do mesmo ano, ele, juntamente com os seus colaboradores, divulgou o “Apelo ao povo” (OO CC X, 196-201).

[2] Exortação Apostólica Evangelii Gaudium, do Papa Francisco, 2013, n. 20.

[3] VATICANO II, Mensagens, discursos, documentos, Paulinas: São Paulo, 1998, p. 185, n. 38.

[4] O conceito de sacerdócio comum dos fiéis é um dos pilares da eclesiologia católica contemporânea, especialmente fortalecido após o Concílio Vaticano II. Ele se baseia na ideia de que, pelo Batismo, todo cristão é incorporado a Cristo e passa a participar de sua missão como profeta, rei e sacerdote. Sacerdote: Oferecer a própria vida e as atividades diárias como sacrifício espiritual a Deus. Profeta: Anunciar o Evangelho por palavras e pelo exemplo de vida. Rei: Servir ao próximo e ajudar a ordenar o mundo segundo os valores cristãos.

 

[5] Acesso a live, dia 22/09/2021, https://www.youtube.com/watch?v=Qr-Kyd6y_J8





sexta-feira, 8 de maio de 2026


 

Tema 5: As treze procuradorias

Após termos conhecido a grandiosa obra evangelizadora da UAC, passaremos para a sua parte organizativa.

Em 1839, em Camaldoli, enquanto estava em retiro com os monges camaldulenses, Pallotti escreveu documentos fundamentais que definiram a identidade da obra, a União do Apostolado Católico (UAC). Foi nesse período que ele amadureceu a ideia de que o apostolado não era exclusividade do clero, mas um dever e direito de todos os batizados. Ele redigiu normas que buscavam organizar a vida espiritual dos membros da sua congregação, focando na caridade e na imitação de Jesus Cristo como o “Apóstolo do Pai Eterno”.

Para que tivesse bom êxito, Pallotti teve a intuição de criar centros de ação denominados “Procuras” (procuradorias). São treze no total, e treze são os Procuradores, auxiliados pelos respectivos colaboradores (membros agregados). As “Procuras” foram colocadas sob a proteção dos doze Apóstolos e criou a décima terceira sob a proteção de São Paulo, Apóstolo dos Gentios. A protetora da Sociedade é Maria Santíssima, a Rainha dos Apóstolos.

A instituição das Procuradorias tinha como objetivo prover às necessidades presentes e futuras do mundo (OO CC I, 13). O fundamento da reflexão sobre este tema é um dos pontos principais do carisma, do pensamento, da vontade e da ação de São Vicente Pallotti.

Para compreendermos o significado das treze procuradorias, criadas por Pallotti, devemos entrar no espírito de sua obra, que era de convocar todos os batizados a formarem um exército de anunciadores da boa notícia de Jesus. Essa ideia surgiu em um tempo em que a sociedade de Roma se encontrava distante da religião e a caridade era escassa. Para que isso fosse possível, necessariamente, deveria ter um grupo de apoio, para que tal desejo fosse concretizado. Sendo assim, reuniu um grupo de leigos piedosos e propôs criar uma força tarefa que pudesse colaborar com o apostolado de Jesus Cristo.

A ideia fundamental

A ideia principal das procuradorias era fundar grupos, comunidades apostólicas que pudessem responder às necessidades da Igreja universal e local e dos diversos ambientes e circunstâncias. Pallotti, ao falar da Procuradoria Geral, diz: “Onde mais em Roma do que em qualquer outra cidade é necessário que exista um grupo de pessoas zelosas, que formem como mola propulsora, que mantenham o vigor e o zelo de todos os católicos de qualquer parte do mundo” (OO CC I, 19-20). As Procuradorias, portanto, são fruto do amor, porque só o verdadeiro amor vê as necessidades dos outros e procura fazer de tudo para ir ao seu encontro.

O conceito de procuradoria

O conceito de “Procuradoria” brota da essência do carisma palotino: “Caritas Christi urget nos” (“O amor de Cristo nos impele” – 2Cor 5,14). O sentido essencial das procuradorias é que elas deveriam ser uma resposta concreta às necessidades do mundo, da Igreja e do homem (Chiamati per nome, p. 107). Porém, o projeto tal como foi idealizado nunca foi concretizado plenamente, nem durante a sua vida, nem ao longo da história da União do Apostolado Católico (UAC) e os motivos são vários.

  1. Resistência do clero: Na época de Pallotti, a evangelização era considerada uma tarefa exclusiva do clero e dos religiosos. A sua proposta “ousada e profética” de inserir os leigos ativamente na missão da Igreja gerou reações negativas entre os membros do clero da época.
  2. Contexto de crise: A implementação ocorreu em um período de profundas crises sociais, políticas e espirituais. Pallotti buscava “reavivar a fé e reacender a caridade” em um mundo que ele via como necessitado de uma resposta coletiva de todos os batizados, e não apenas da hierarquia eclesiástica.
  3. Inovação teológica: Ele teve que fundamentar sua obra na ideia de que todos os batizados, independentemente de seu estado ou dons, possuem uma corresponsabilidade na evangelização. Essa visão de que “todos são chamados a evangelizar” só foi plenamente reconhecida e validada pela Igreja muito mais tarde, durante o Concílio Vaticano II (1962-1965).

A palavra italiana “procura” (procuradoria) deriva do latim procurare e pode ter vários significados: cuidar, prover, obter, poder plenamente, representação, agir por procuração. Essa organização tinha um esquema relativamente simples. Pallotti a descreve no capítulo “Sobre a necessidade e a utilidade da instituição das Procuradorias, sobre seus progressos, sua estabilidade e sua expansão (Stawicki, p. 436).

Com as procuradorias, Pallotti instaura uma nova dinâmica de obediência, ou seja, ela não deve ser vista como uma imposição, mas como um meio de alargar a visão. Ela exige “deslocamentos”, ou seja, sair da própria zona de conforto, para buscar respostas que respeitem diferentes abordagens e sensibilidades.

Ele toma como exemplo a Família de Nazaré, modelo de unidade e local onde se trabalha em conjunto. Lá prevalecia não o eu, mas o nós. Desta forma, o trabalho na Igreja deixa de ser um projeto isolado de líderes (padres, leigos ou superiores) para se tornar uma obra comunitária. Substitui-se o espírito de domínio pela atenção voltada a Jesus e ao próximo. Portanto, a cooperação eficaz não nasce da vontade de “vencer” ou de impor uma ideia, mas do desejo compartilhado de cumprir uma missão. A unidade torna-se possível quando todos respondem, com autenticidade, aos apelos de Cristo e dos irmãos. Essa sua postura converge para o conceito atual de “Igreja sinodal e em saída”, proposto pelo Papa Francisco, onde o caminhar junto e a abertura ao mundo são as prioridades.

As treze procuradorias:

1.      A primeira, sob a proteção de São Pedro, zelará pela formação espiritual, científica e pastoral do clero.

2.      A segunda, sob a proteção de Santo André, promoverá a obra dos retiros e missões populares.

3.      A terceira, sob a proteção de São Tiago Maior, incentivará o zelo do clero, secular e regular, e do povo, pelas missões estrangeiras, imprimindo-lhes o maior impulso possível.

4.      A quarta, sob o patrocínio de São João, promoverá as obras pias dentro da cidade, a saber: oratórios, congregações, confrarias, pias uniões e associações religiosas.

5.      A quinta, sob o patrocínio de São Tomé, cuidará empenhadamente da educação religiosa, cívica e literária da juventude, masculina e feminina, especialmente da classe indigente.

6.      A sexta, sob o patrocínio de São Tiago Menor, tratará de agregar à Pia Sociedade as comunidades de qualquer espécie, e fará por manter nelas o fervor, animando-as a prestar a sua colaboração, com o fornecimento de objetos necessários ao culto e ao fomento da devoção particular do povo.

7.      A sétima, sob a proteção de São Felipe, empenhar-se-á por afervorar o zelo do clero e do povo em prol da cultura religiosa e moral dos camponeses no próprio ambiente ou nas cidades quando para aqui vierem, nos dias santos.

8.      A oitava, sob a proteção de São Bartolomeu, promoverá a prática mais efetiva das obras de misericórdia espiritual e corporal em favor dos pobres prisioneiros e dos condenados à pena de morte.

9.      A nona, sob a proteção de São Mateus, fará o mesmo a favor dos enfermos dos hóspedes e a outros, desamparados em suas próprias casas.

10.  A décima, sob o patrocínio de São Simão, velará pela mais completa formação religiosa e moral dos militares, e tratará outrossim de conservar sempre aceso e operante o zelo e a caridade dos nobres.

11.  A décima primeira, sob o patrocínio de São Judas Tadeu, propagará as várias práticas de devoção aprovadas pela Igreja, como o santo Rosário, a os diversos escapulários, a adoração perpétua, a Via Sacra, etc.

12.  A décima segunda, sob o patrocínio de São Matias, estimulará o exercício mais ativo da caridade e misericórdia em favor dos verdadeiros necessitados, também estrangeiros, de qualquer idade, sexo, estado e condição, nos casos urgentes, e distintamente, dos órfãos e viúvas, dos jovens e donzelas em perigo, e das famílias dos pobres envergonhados.

A décima terceira Procuradoria, sob a proteção de São Paulo, não tinha um campo determinado de ação, mas devia ter a preocupação por todo o mundo, para animar e incentivar as demais procuradorias (Cf. OO CC I, 369; 2Cor 11,28; OO CC I, 369-373; III, 13-15).

As motivações que levaram a criação das procuradorias

Pallotti entendeu que o apostolado não é exclusividade dos padres. Ao criar essas divisões, as “Procuradorias”, ele permitiu que um sapateiro, um conde e um bispo trabalhassem no mesmo projeto, cada um contribuindo com o que tinha de melhor. Se um hospital precisava de reforma, ele acionava a classe dos operários para a mão de obra e a dos comerciantes para os materiais. É importante salientar que este modelo de atuação na Igreja foi revolucionário para o século XIX, pois antecipou em mais de cem anos a ideia do “protagonismo dos leigos” que só se tornaria central na Igreja após o Concílio Vaticano II, pelos Documentos: Apostolicam Actuositatem (Decreto do Concílio Vaticano II, 1965): Decreto sobre o Apostolado dos Leigos, que afirma a vocação própria dos leigos de buscar o Reino de Deus tratando das coisas temporais. A Lumen Gentium (Constituição Dogmática do Concílio Vaticano II, 1964): o Capítulo IV deste documento trata especificamente dos leigos, definindo-os como parte do “Povo de Deus”.

As procuradorias: Uma rede de cooperação

Para Vicente Pallotti, a Igreja não é somente uma estrutura, um aparelho, uma instituição com seu pessoal e administração. Ela é, ao mesmo tempo, uma assembleia de irmãos, uma coletividade de fiéis, uma comunidade viva, uma família (Stawicki, p. 425).

No livro Mês de Maio, Pallotti faz Maria convidar os cristãos à cooperação: “Portanto, ó Filhos, se Deus vos fez poderosos na Terra, usai de tal poder para a propagação da Santa Fé, para conservá-la e reavivá-la entre os Católicos. Sois Nobres? Usai a vossa nobreza para a propagação da Fé” (OO CC IV, 335).

De fato, Pallotti liga as Procuradorias ao ambiente da oração e de Pentecostes, ambos indispensáveis para saber discernir os “sinais dos tempos” e para receber o dom mais divino de cooperar com Deus na salvação eterna das almas (Cf. OO CC X, 86-87; XIII, 195, 252).

As atividades promovidas pelos membros da União

As procuradorias, no tempo de Pallotti, sem dúvida, tiveram um papel importantíssimo para o desenvolvimento de muitas frentes caritativas, a saber: Pediam contribuições para combater a miséria. Distribuíam objetos sagrados para alimentar a devoção popular. Intermediavam emprego para artesãos. Ofereciam retiros para os soldados e os preparava para a páscoa. Além das missões populares e tantas outras atividades.

A partir de 1846, circunstâncias desfavoráveis ao primeiro projeto obrigaram Pallotti a concentrar suas forças na organização da Congregação dos padres e irmãos e a chamá-la de “alma e motor” de toda a União (Cf. OO CC III, 3-7)[1]. Pallotti confiou a ela a missão de portadora e realizadora do sistema das Procuradorias. O papel das religiosas do Apostolado Católico, analogamente ao dos padres e dos irmãos, consistia em animar a caridade e o zelo apostólico das pessoas de seu sexo nas comunidades religiosas e no mundo (Cf. OO CC II, 555-558). Mesmo lhes dando um papel de animadoras e inspiradoras do mundo feminino, Pallotti evita chamá-las de alma e parte motriz de toda a união. Isso porque Pallotti compreendeu que, segundo a prática da Igreja, essa tarefa só podia ser assegurada por uma associação sacerdotal. De qualquer maneira, Pallotti não deixou de sublinhar cuidadosa e explicitamente a corresponsabilidade das irmãs no objetivo de toda a União. Nesse sentido, eis um texto que mostra a paridade das duas Congregações:

“Como a Congregação dos Padres foi fundada com o objetivo de animar sempre mais o clero secular e regular, para as obras do santo ministério evangélico, num sagrado vínculo de competitiva caridade e zelo e de animar todos, de todo estado, sexo, posição e condição para as obras de caridade e de zelo da maior glória de Deus e da salvação das almas, assim, a Congregação das monjas institui-se para animar sempre mais a caridade e o zelo das pessoas religiosas e seculares do próprio sexo. Como os padres da Congregação devem estar dispostos a exercer qualquer obra do santo ministério, assim as monjas devem estar dispostas para qualquer obra de caridade e de zelo, principalmente no que se refere à educação cristã e civil das meninas pobres e à conversão e santificação das almas, mediante exercícios espirituais a pessoas de toda idade de sexo feminino” (OO CC II, 559).

Parece-nos que esse “como” e “assim”, repetidos duas vezes no texto, são um verdadeiro apelo de Pallotti a não marginalizar o mundo feminino da União do Apostolado Católico, pois também a elas foram confiadas a missão e a responsabilidade de ser “alma e motriz” da União. Mais tarde, em um esboço sobre a Congregação feminina, Pallotti precisa: “As regras delas serão substancialmente as mesmas da Congregação (dos Padres), com as análogas diversificações para as monjas. O mesmo se diga das constituições” (OO CC II, 558).

Pallotti, em 1836, escreveu: “Dentre todos os Operários (eclesiásticos e leigos), os que puderem consagrar-se inteiramente à Direção e ao regulamento da pia Sociedade, reunidos em Comunidade bem ordenada pelo vínculo de competitiva e humilde caridade, sem formarem comunidade religiosa, poderão formar o corpo central e motriz da pia Sociedade” (Cf. OO CC IV, 355. 399. 436; V, 47. 59. 76).

As Procuradorias, evidentemente, foram concebidas como uma rede e lugar de cooperação de todos – padres, religiosos, leigos, homens e mulheres de todas as culturas, línguas e nações – para responder, em todos os campos, às necessidades do tempo e do lugar e com todos os meios oportunos e necessários. Pallotti queria também as Procuradorias como um espaço que permitisse a todos alcançarem as profundezas, onde o particular se abre ao universal. Em outras palavras, as Procuradorias de Pallotti eram as portadoras da catolicidade, ou seja, de um sopro de abertura, de diálogo e de universalidade.

Para Vicente Pallotti, os termos “meios oportunos e necessários” são a chave mestra de sua prática missionária. Ele não era um teórico abstrato; ele era um homem de ação que entendia que a caridade precisa de ferramentas concretas para funcionar. Em outras palavras, esses meios representam a logística da fé.

1. O que são os Meios Necessários?

São os recursos fundamentais sem os quais a missão simplesmente não acontece. Pallotti tinha uma visão muito realista de que “não se evangeliza de barriga vazia”. Para ele, isso incluía:

  • Recursos Financeiros: Dinheiro para sustentar órfãos, escolas e missões.
  • Estrutura Física: Casas de caridade, Igrejas e oficinas de trabalho.
  • Pessoas: O capital humano (leigos, padres e religiosos) disposto a trabalhar.
  • Conhecimento: A formação teórica e técnica para realizar o bem com eficiência.

2. O que são os meios oportunos?

Aqui entra o gênio estratégico de Pallotti. O “oportuno” é aquilo que se adapta ao tempo, ao lugar e às circunstâncias. Ele acreditava que a Igreja deveria usar as ferramentas do seu tempo.

  • Comunicação: Se no século XIX o meio oportuno era a imprensa e os folhetos, hoje Pallotti certamente estaria usando a internet.
  • Inovação: Ele criava escolas noturnas para operários porque, naquele momento, era a oportunidade de integrar educação e fé para quem trabalhava o dia todo.
  • Flexibilidade: O meio oportuno é o “remédio certo para a ferida aberta agora”. Se a necessidade do momento era o combate ao cólera em Roma, esse era o meio oportuno, e não apenas a oração contemplativa.

O ideal das procuradorias

Se quisermos ser fiéis ao carisma de Pallotti, devemos também olhar com fé e com amor o mundo de hoje e reconhecer os sinais dos tempos, as atuais necessidades das pessoas e procurar responder a elas. Este encargo é dever de todos os membros e associados da UAC, especialmente os seus responsáveis.

As indicações particulares dadas por Pallotti, a respeito da organização das Procuradorias, requerem modificações e adaptações aos nossos tempos e à legislação eclesial. Permanece, porém, imutável e sempre atual a ideia essencial: a construção de comunidades-grupos, instituições que possam responder às necessidades do mundo, da Igreja e do homem de hoje. O número e o tipo de procuradorias dependem das necessidades atuais: tantas necessidades, tantas procuradorias.

As necessidades são muito diversas nas diferentes partes do mundo, nos diferentes ambientes. Existe, portanto, a necessidade de criar procuradorias adaptadas às necessidades concretas. Existem, no entanto, necessidades universais, as quais surgem em todos os ambientes. Poder-se-ia, portanto, propor a instituição de procuradorias com base em uma linha de necessidades universais, tais como:

1.      A evangelização, as missões populares, a reevangelização;

2.      O ecumenismo;

3.      A construção e salvaguarda da justiça, da paz e do amor;

4.      Atingir as periferias existenciais;

5.      O trabalho com as famílias;

6.      As obras vocacionais.

As diversas Procuradorias podem colaborar entre si e podem trabalhar autonomamente. As procuradorias, vistas à luz do carisma de Pallotti, podem ser um ótimo lugar para realizar a vocação apostólica e a maturidade humana da pessoa. Pois, a condição fundamental para o desenvolvimento do ser humano é a abertura ao amor.

O caráter caritativo das Procuradorias, já por sua natureza, favorece o desenvolvimento do amor que não busca o seu próprio interesse, mas tudo suporta... (cf. 1Cor 13). Porém, é preciso direcionar as nossas ações às necessidades concretas da Igreja e do homem, para favorecer o desenvolvimento autêntico do amor, que se baseia justamente nas necessidades concretas e não envolve apenas discussões teóricas (Chiamati per nome, p. 108).

O caráter missionário das Procuradorias favorece também o desenvolvimento da criatividade de uma autêntica comunidade apostólica. A atividade autêntica do grupo e a colaboração com outros grupos garantem o escopo caritativo e defendem do egoísmo e do individualismo.

O caráter comunitário favorece também o desenvolvimento da pessoa, porque esta pode se desenvolver e se realizar de modo autêntico, somente na comunhão com os outros e com Deus.

Outra oportunidade que as Procuradorias oferecem para o desenvolvimento do ser humano é a realização dos diversos carismas de cada um, segundo o dom que recebeu (cf. Rm 12,8). A diversidade das Procuradorias oferece a possibilidade de trabalhar segundo os nossos carismas pessoais.

Por fim, podemos dizer que o mistério do Cenáculo está muito ligado às Procuradorias e é modelo para todas as comunidades da União do Apostolado Católico. Assim, como em Jerusalém, na comunidade dos primeiros discípulos, o Cenáculo é a fonte dos dons do Espírito e o lugar da maturação dos apóstolos. Também hoje, o mesmo mistério pode dar ao homem o dom da plenitude da vida cristã.

 

Para refletir

  1. O que eram as procuradorias idealizadas por Pallotti?
  2. Por que razão Pallotti não conseguiu implementar esse seu projeto de evangelização?
  3. Como podemos atualizar, em nossas comunidades, esse modo de evangelizar?

 



[1]Pallotti chama a Congregação dos padres e irmãos coadjutores tanto de “alma e parte motriz da pia Sociedade” quanto “parte central e motriz da pia Sociedade”. Atribui, ainda, um papel semelhante ao da décima terceira Procuradoria, ou seja, o cuidado pelo conjunto, o papel inspirador, a vigilância por uma cooperação harmoniosa.