quinta-feira, 16 de julho de 2026

 


Tema 8: VICENTE PALLOTTI: UM SACERDOTE INQUIETO

Quando analisamos uma pessoa, normalmente, muitos aspectos da sua vida acabam sendo desvendados por impressões de simpatia ou de antipatia. A partir dos primeiros contatos, nós vamos nos identificando ou não com o seu modo de ser e de agir. Quando se trata de alguém com fama de santidade, certamente, os olhares são mais aguçados e mais exigentes da parte daqueles que o observam, pois, ao olhar para ele se vê traços do amor de Deus e, dele, não se espera nada que fuja da missão que ele abraçou em favor do povo.

Quanto a São Vicente Pallotti, durante o período em que exerceu o seu ministério sacerdotal, ele deixou marcas profundas no imaginário de muitas pessoas. Ele exerceu múltiplas funções, sempre com o intuito de dar uma resposta adequada a cada situação com a qual se deparava. Isso foi criando nele uma inquietude espiritual. Podemos dizer que ele foi sendo modelado não somente pela graça infusa de Deus, mas também pela convivência que teve com a sensibilidade humana e religiosa de seus pais.

Em relação ao tema: “Vicente Pallotti: um sacerdote inquieto”, apresentaremos alguns testemunhos de pessoas que o conheceram e que conviveram com ele. Na verdade, ele era um sacerdote de muitas qualidades. Foi professor universitário e de muita ação pastoral. Isso fez com que ele soubesse analisar, com habilidade, as questões teóricas em seus vários aspectos, bem como agia de maneira prática diante dos profundos desafios pela qual passava a Igreja de seu tempo. Por isso, dedicava boa parte do seu tempo para as confissões e orientações. De acordo com relatos, ele jamais viveu de maneira reclusa. Quase nunca estava em casa. Em seus escritos, ele sempre reclamou das suas limitações humanas e procurou vencê-las por meio de longas orações e muito espírito de sacrifício e penitência.

O caminho percorrido por Pallotti

Vicente Pallotti, ainda na sua juventude, viveu como qualquer outro jovem da sua idade. Passou sua infância no centro de Roma. Participava da vida social, em meio aos trabalhos cotidianos da família, convivendo com pessoas de todas as classes sociais que frequentavam o comércio de seu pai. Naquele ambiente, aprendeu a observar as pessoas e a sentir as suas reais necessidades. Ele percebeu que elas buscavam alimento para nutrir o corpo, mas algo lhe dizia que precisavam também de saciar a alma.

No confronto com cada uma delas, percebeu que, independentemente da sua história pessoal, estava diante de um ser humano, feito à imagem e semelhança de Deus, que precisava ser amada e respeitada. À medida que crescia esse sentimento, aumentava nele a necessidade de partilhar com todos a experiência que fizera do amor de Deus. Essa sua sensibilidade foi sendo cada vez mais ampliada a ponto de escrever:

Ao pensar, ao ouvir falar ou ver pessoas aflitas, angustiadas, atribuladas, cansadas, sobrecarregadas, fatigadas, como, por exemplo, pobres fabricantes de chaves, lavradores, carroceiros, carpinteiros, pedreiros, pobres mulheres aflitas pelos trabalhos domésticos, angustiadas e doentes por causa dos filhos, pelas longas vigílias que devem fazer, quando os filhos adoecem, quando devem cuidar deles, amamentá-los (...). Se eu mesmo ou uma outra pessoa pudesse penetrar em todos os ângulos da terra e enxergar de uma só vez as misérias que afligem a pobre humanidade, eu acredito firmemente que o coração humano não suportaria uma tal visão, mas todos morreriam de dor.[1]

No seu dia a dia, encontrou pessoas insatisfeitas com a vida, outras à beira do desespero devido a tantos sofrimentos. Foi insuportável para ele presenciar tudo aquilo. Diante de Deus, tomou a firme resolução de oferecer o que possuía para amenizar os sofrimentos de tanta gente. Muitas vezes, deixou de tomar o seu lanche para doá-lo a quem tinha fome, doou seus sapatos a um pobre e sua cama a um enfermo que dormia desconfortavelmente. A sua fé em Jesus Cristo foi quem o motivou a sair do seu conforto, para ajudar àqueles que eram penalizados pela vida.

As testemunhas do seu processo de beatificação atestaram esse seu interesse especial pelas coisas de Deus. Ainda muito pequeno, contemplava fixamente uma imagem de Maria e começou a preocupar-se pelo cultivo das virtudes. Dava a impressão de ser um menino tranquilo e modesto nos seus gestos. Cinquenta anos mais tarde, os vizinhos ainda recordavam a sua compaixão pelos mais pobres e necessitados.

Quando tinha doze anos de idade, em 1807, começou a fazer direção espiritual com o Padre Bernardino Fazzini, que foi seu confessor até o seu falecimento, em 1838.[2] Ele teve um papel decisivo na vida espiritual de Vicente, conduzindo-o à santidade. Ele inculcou no jovem Pallotti a prática da mortificação corporal, pois logo percebeu que seu dirigido possuía dotes especiais e graças singulares. Para cooperar com elas, era necessário entrar pelo caminho da mortificação e da penitência. Certa vez, sua mãe pediu que Fazzini desaconselhasse Vicente a fazer as mortificações, porque a sua saúde era frágil. Fazzini limitou-se a dizer-lhe que o dedo de Deus estava dirigindo o trabalho. Parece provável que, já na infância, Vicente Pallotti tenha sentido forte atração pelo sacerdócio. Como adolescente sentiu-se atraído pelos ideais e pela austeridade da Ordem Franciscana Capuchinha, mas o seu diretor espiritual o desaconselhou por causa da sua saúde frágil e pelo fato de que deveria desempenhar um trabalho não no claustro, mas no mundo. Fazzini morreu com oitenta e dois anos de idade e seu filho espiritual o acompanhou em sua enfermidade e falecimento (Gaynor, p. 19). Os dois viveram esta amizade verdadeira durante trinta anos.

O cardeal Lambruschini afirmava que, desde pequeno, Vicente teve o dom do amor de Deus. Aos seis anos foi crismado, tendo como padrinho o seu tio que também levava o nome de Vicente Pallotti. Aos nove anos, seu primo Francisco percebeu que, por penitência, Vicente usava como travesseiro um pedaço de madeira. Aos dez anos, ele fez a primeira comunhão e recebera licença para comungar todos os dias, o que na época, era coisa rara. Vicente manifestava sinais de santidade desde a infância.

Aos quinze anos de idade, em 1810, Vicente decidiu entrar para o clero secular. Com o triunfo da Revolução Francesa, os seminários e colégios estavam fechados e os aspirantes ao sacerdócio deveriam prosseguir seus estudos, vivendo com os pais. Por causa disso, Pallotti fez toda a sua formação morando na casa paterna. As autoridades da Igreja não deixavam de prover a formação dos estudantes, que, em cada paróquia, estavam submetidos ao cuidado especial do pároco do lugar. Esse preocupava-se com que os grupinhos de clérigos participassem nos atos de piedade em comum. Havia também confrarias e centros especiais de reunião para eles, para estimulá-los e assim suprir, de alguma forma, a falta de vida comunitária, tão característica da formação seminarística (Gaynor, p. 20-22). Vicente inscreveu-se na confraria de Nossa Senhora do Pranto, mas logo integrou a diretoria, depois presidiu-a por longo tempo e só foi obrigado a renunciar devido ao acúmulo dos trabalhos apostólicos (Gaynor, p. 24).

Uma nova proposta de vida

Vicente Pallotti não se conformava com o fato de ser uma pessoa a mais entre as demais, ou um sacerdote isolado na Igreja. Ele quis, antes de tudo, que a sua pessoa irradiasse Cristo por onde passasse. Isso não era somente um desejo, ele procurou agir com palavras e ações para ser sinal da presença do ressuscitado, não somente quando ocupava a sua função sagrada, mas em cada gesto de sua vida: “Deus em tudo e sempre” (OO CC X, 131).

O povo romano, sedento por uma nova proposta de vida, logo viu em Vicente Pallotti um modelo a ser seguido. Por isso, em 1835, Pallotti fez um apelo ao povo de Roma:

Todos, grandes e pequenos, doutores e ignorantes, ricos e pobres, sacerdotes e leigos, seculares e religiosos, viventes em comunidade ou em solidão, podem, em sua posição, isto é, no estado em que Deus os colocou, exercer, de alguma forma, sempre com mérito, o apostolado de Jesus Cristo (OO CC III, 146).

O seu testemunho de vida despertou em muitos batizados a consciência de que uma nova aurora se despontava na Igreja. Muitos leigos e eclesiásticos aderiram à obra do Apostolado Católico, pois viram nela uma nova forma de ser Igreja. Descobriram, ainda, que podiam ser protagonistas da sua própria história e colaboradores do apostolado universal. Essa realidade deve ser, ainda hoje, propagada, para que mais pessoas possam assumir o seu batismo de modo consciente e alegre, pois, quem serve a Cristo, nunca fica decepcionado. Por isso, todos são convidados a conhecer e a participar do Apostolado de Jesus Cristo. Até mesmo o seu diretor espiritual, Padre Fazzini, foi o primeiro a se inscrever na obra do apostolado católico, em seguida, o próprio santo (Gaynor, p. 19).  

Vicente Pallotti foi um homem concreto e visual. Para expressar a sua fé, servia-se de sagradas estátuas, de crucifixos, de pinturas expressivas de santos e de Nossa Senhora, de relíquias dos santos. Mais tarde, no seu quarto, na reitoria do Espírito Santo dos Napolitanos, mandou abrir uma pequena janela, para poder ver, durante as orações, o tabernáculo. Mais tarde, na residência do Santíssimo Salvador, não foi possível a ele ver o tabernáculo, mas colocou diante do genuflexório um Calvário, em seu quarto, atrás do qual pintou um crucifixo.

O padre Vicente foi um guia e um líder nato, de intensa caridade, reconhecido espontaneamente pelos participantes dos diversos grupos. Era um homem sensível, “amante da música”, capaz de amor intenso e apaixonado na dedicação à pessoa amada, sempre muito constante. Possuía um temperamento de tenacidade legítima, que não chegava a ser teimosia. Tinha uma inteligência acima da média e apta para temas científicos e para discussão de tais temas. Isto lhe dava seguro senso crítico capaz de torná-lo apto para uma carreira acadêmica. Vicente possuía, porém, um senso vivo da realidade (Todisco, p. 151).

Foi declarado, ainda, que ele possuía uma natureza fogosa, mas soube sublimá-la e, ao ser insultado por alguém se mostrava paciente e dócil. Pe. Vaccari também confirma esse seu temperamento, porém, a sua vigilância o fazia sempre doce e bondoso (Todisco, p. 151). Assim dizia ele: “Não sou capaz de dar bom exemplo, mas com a graça de Deus, serei capaz de santificar o mundo” (OO CC X, 607). “Peço a Deus um caminho santo” (OO CC X, 97).

Possuía, ainda, uma inclinação temperamental para o orgulho, para a ambição, para o mando, para a imposição do próprio querer sobre o dos outros: “Removerei os obstáculos que possam impedir a minha santificação; o obstáculo maior dentro de mim é o orgulho” (Propósitos e aspirações, p. 88, n. 197). “Destruí a minha vida e dai-me a vossa vida de caridade. Transformai-me na vossa caridade” (OO CC X, 674-675).

Para o grafólogo Girolamo Moretti, o padre Vicente possuía um senso vivo da realidade: “tem êxito também por ser um organizador prático, enquanto tem à sua disposição a ponderação e a reflexão capazes de entender a realidade principalmente no campo humano”. A sua praticidade estava orientada para as necessidades da vida. A fidelidade total aos ideais cristãos, os dotes de liderança e a caridade foram traços bem marcantes em toda a sua vida.

Depoimento de Melia: “Sou testemunha e admirador de sua perene, inalterável mansidão para comigo e para com todos os outros”. Maneiras atenciosas, paciência e equanimidade inalteráveis usou-as não só com os coirmãos, os nobres e as pessoas de posição, mas com todos, em especial com os pobres, que muitas vezes eram importunos e intolerantes. Assim deixou escrito: “Quero ter dentro de mim uma profunda compaixão pelas viúvas, agricultores, doentes. Quero sentir as suas aflições” (OO CC X, 19-20). “Quero ser luz para os cegos, bebida...” (OO CC X, 15-16).

O sacerdócio se funde perfeitamente com a vida do santo e sua alma, como se ele tivesse nascido apenas para ser um sacerdote e, em sua vida, não há vestígio de uma escolha que ele teve que fazer dela; como se ele tivesse nascido apenas para isso. Sentiu-se responsável pela salvação de todas as almas e de todas as Igrejas, como se o cuidado da Igreja universal lhe tivesse sido confiado (cf. OO CC X, 151) e já, durante os exercícios espirituais, realizados para sua ordenação sacerdotal, ele estabeleceu esse objetivo: “Senhor, ou morrer ou amar-te infinitamente” (OO CC X, 614). E nos exercícios espirituais de 1827, a razão que dominou todas as suas meditações foi: “Toda a vida de Jesus Cristo seja a minha vida” (OO CC X, 618-625)!

Continuou ele: “Estou convencido de que, se me fosse concedido beijar a terra, por onde passou um sacerdote, como prêmio pelas boas obras, elas seriam grandemente compensadas. O que podemos dizer, então, que a bondade do nosso Deus se dignou elevar-me ao mais sublime grau do sacerdócio” (OO CC X, 147). “Eu rezo a Deus que conceda a mim e a todos a graça de servi-Lo, somente, para a sua glória e para o bem das almas” (OO CC X, 616). “Lembre-se sempre, Vicente, que se os outros tivessem a conveniência que você tem de fazer o bem, eles já seriam grandes santos” (OO CC X, 116).

Na Santa Missa, ele revivia novamente a Paixão de Jesus Cristo. Muitas vezes, foi visto suspenso do chão, quando elevava a santa hóstia. Ele se confessava todos os dias, antes da celebração. Passava noites inteiras diante do Tabernáculo. Ele compôs três notáveis visitas ao Santíssimo Sacramento, mas queria escrever uma para cada dia do mês.

Segundo seu primo Francisco, por várias vezes o encontrou em casa vestido de sobrepeliz e estola, pronto para ouvir as confissões. Fabi Montani também escreveu que, em Roma, não havia nenhum doente ou moribundo que não tivesse sido visitado por ele. Aos seus sacerdotes, ele sugeriu que dividissem o seu dia em duas partes, uma para se preparar para celebrar a missa e a outra para agradecer a Deus, pelo presente da celebração já realizada. Ele queria imitar Jesus Cristo e muitos, realmente, acreditavam que O viam nele.

Pallotti desejou a santidade

Olhando para a vida e obra do nosso fundador, podemos afirmar que o santo é o humano que deu certo. Apesar das vicissitudes da vida, ele soube encará-las com serenidade e simplicidade e conseguiu ver além daquilo que todos viam. O santo, pelo fato de ter descoberto o amor de Deus, não tem medo de enfrentar os desafios, sejam eles quais forem. Ele é um desbravador de novidades, mas com Deus e por causa d’Ele. Enquanto para uns a realidade se apresenta caótica, o santo a vê como um terreno fértil para novas realizações e mudanças de paradigmas. Mas, isso não quer dizer que as incertezas e as dificuldades da vida não o atinjam. Quanto a Pallotti, ele não viveu senão para Deus e para sua glória. Por isso, propunha-se elevar a mente para Deus em tudo que tivesse visto e lido, com a aspiração de que tudo redundasse em maior glória para Ele e para a maior glória d’Ele.

Portanto, o amor a Deus foi a marca registrada que perpassou toda a vida de padre Vicente. A glorificação de Deus se traduzia em amor para com Ele e a sua espiritualidade. Glorificar a Deus e sofrer para tornar infinita a glorificação, juntamente com a vocação apostólica, foram os pilares da experiência religiosa e da orientação de toda a sua vida. O amor, qual meio de glorificação, inicialmente parecia levá-lo à contemplação. Vicente parecia estar no céu, para amar e, na terra, para amar e sofrer, e não para trabalhar pela glória de Deus. A espiritualidade de Pallotti parecia centrar-se no aspecto da adoração da vocação sacerdotal (cf. OO CC X, 163).

Enfim, após termos visto alguns aspectos da vida espiritual do padre Vicente, podemos dizer que falar de santidade não é fácil, mas só é possível quando encontramos pessoas com virtudes elevadas, com um estilo próprio, capaz de encarar os desafios do mundo com serenidade. Como palotinos, além de seguir a Cristo, o santo por excelência, temos como modelo de virtude e de santidade o próprio fundador da União do Apostolado Católico, São Vicente Pallotti. Pelo seu testemunho de vida, toda a Igreja pode aproximar-se, cada vez mais de Deus, com a certeza de que somos profundamente amados e perdoados por Ele. Na sua simplicidade, Pallotti procurou sempre analisar a sua vida a partir da fé, do seu encontro pessoal com o amor infinito e misericordioso de Deus. Por isso, os membros da União do Apostolado Católico devem continuar esta mesma missão de fazer com que Cristo seja sempre amado, servido e glorificado por todas as pessoas de todos os tempos.

Que o Espírito Santo, que impulsionou à missão todos os que participaram do Cenáculo de Jerusalém, possa fazer das nossas comunidades um verdadeiro Cenáculo, onde Deus se torna o centro de tudo e de todos.

 

Para refletir

1.      Quais eram as inquietudes do padre Vicente Pallotti?

2.      Com que olhar Vicente Pallotti olhava para as pessoas?

3.      Muitos testemunharam sobre a vida e a obra de Vicente Pallotti. O que você compreendeu, até agora, sobre o carisma deixado por ele?



[1]  GAYNOR, Juan Santos. Vida e obra de São Vicente Pallotti, Santa Maria, 2000, p. 34-35; (OO CC X 19-20).

[2] TODISCO, p. 60-61. AMOROSO, Francesco. São Vicente Pallotti romano, p. 26-27.


domingo, 12 de julho de 2026

 


Tema 7: VICENTE PALLOTTI E SEUS ANSEIOS

Para conhecermos uma pessoa notável (em profundidade), devemos não só entrar em contato com a sua obra, mas também ouvir o que dizem a seu respeito. Certa vez, até mesmo Jesus perguntou aos seus discípulos: O que as pessoas falavam sobre ele. E as respostas foram as mais variadas. “Uns dizem que és João Batista, outros Elias ou algum dos antigos profetas que ressuscitou” (Mt 16,13-16).

Sobre Vicente Pallotti temos relatos de que ele era visto, pelo povo romano, como uma personalidade extremamente popular, amada e quase unanimemente considerada um “santo em vida” e o “apóstolo de Roma”. Sua reputação na “Cidade Eterna” era de um homem incansável na caridade, místico e guia espiritual de todas as classes sociais, desde nobres até os mais pobres e doentes.

Ele era um sacerdote imerso na realidade das pessoas e sabia ouvir as dores e as angústias que cada uma delas trazia em seu coração. Diante disto, certamente brotou nele um profundo desejo de aliviar tantos sofrimentos, ao ponto de escrever no seu diário espiritual “As luzes”: “Ao ver ou pensar nos pobres, esforçar-me-ei para ajudá-los da maneira que puder, e como a maior glória de Deus exige, então, tentarei conceber a mais alta compaixão de seu estado miserável, de modo que eu gostaria que todas as partes do meu corpo e a própria alma respirassem compaixão e misericórdia. Por isso, eu gostaria de me tornar comida, bebida, licor, roupas, posses etc., para sempre ajudar em suas misérias, e, assim, eu gostaria de ser transformado em luz para cegos, voz para os mudos, ouvidos para os surdos, saúde para os doentes etc. (São Vicente Pallotti. As luzes, n. 17.2, p. 25).

Esse seu desejo foi transformado em realidade, quando em 1837 Roma fora acometida pela epidemia de cólera que deixou milhares de pessoas órfãs. Diante de muitas mortes e de pessoas infectadas, ele mesmo cuidou pessoalmente de muitos doentes e moribundos, demonstrando coragem e caridade extraordinárias. Aos olhos do povo, ele era amplamente visto como um homem de amor e de profunda compaixão, doando o que tinha aos necessitados, o que acabou por levá-lo à morte por pneumonia após doar sua capa a um necessitado, em 1850.

A sua preocupação não estava apenas direcionada para as necessidades mais imediatas, como a fome, ou a doença, mas principalmente com a questão espiritual. Em relação aos jovens, com receio de que pudessem se perder na vida, não poupou o seu tempo para dar orientação em colégios e universidades, sendo reconhecido como mestre e guia de almas.

Ele tinha um desejo tão intenso pela salvação das almas que parecia uma obsessão. Como sabia que sozinho era impossível atingir a todos, então teve a nobre intuição de criar uma instituição que pudesse atingir o mundo inteiro.

O trabalho realizado por Pallotti foi tão intenso que ficou conhecido como o “segundo apóstolo de Roma”, depois de São Filipe Neri (1515 a 1595), pois tinha como foco os mais esquecidos que estavam nos hospitais e nas prisões. Tornou-se um confessor extremamente procurado. Ele acreditava que o confessionário era o lugar onde a misericórdia de Deus se tornava concreta. Fundou escolas noturnas para jovens trabalhadores e artesãos que não tinham acesso à educação formal durante o dia.

Diferentemente de muitos padres da sua época, Vicente não trabalhava sozinho. Desde o início, ele buscava a colaboração de pessoas comuns: Ele incentivava médicos, advogados e comerciantes a usarem suas competências profissionais como ferramentas de evangelização. As suas ações visavam quebrar as barreiras entre o clero e o povo, criando uma consciência de missão compartilhada.

Embora tenha começado a agir imediatamente após a ordenação, em 1818, o auge de suas ações iniciais culminou na fundação da União do Apostolado Católico (UAC) em 1835. Nele havia o desejo de que todas as instituições de caridade existentes trabalhassem juntas. A melhor forma para convidar as pessoas a trabalharem juntas, aconteceu na celebração da Oitava da Epifania em Roma, que envolvia vários estratos da sociedade romana, cada um com um papel a cumprir, em um evento que reunia diversas línguas e ritos para mostrar a universalidade da Igreja.

Na verdade, o grande anseio que palpitava no coração de Pallotti era o desejo de “despertar o gigante adormecido” que era o laicato. Ele acreditava que os leigos (pessoas comuns, com profissões e famílias) tinham um papel fundamental na evangelização. O seu maior sonho era ver carpinteiros, advogados e donas de casa usando seus talentos para o bem comum e para levar o Evangelho aos lugares aonde o clero não chegava. Ele não queria criar apenas mais uma congregação isolada, mas, sim, criar uma rede de colaboração que unisse todas as forças da Igreja. Para Pallotti, a caridade era mais eficaz quando feita em conjunto e, com isso, queria superar o isolamento entre diferentes grupos religiosos, para criar uma estrutura de apoio mútuo para as obras de caridade e missões. A caridade, para ele não era apenas dar esmolas, mas atingir a pessoa em sua integralidade.

A Imitação de Maria, Rainha dos Apóstolos

Vicente Pallotti desejava que todos seguissem o exemplo da Virgem Maria. No Cenáculo, ela não era apóstola pela ordenação, mas pela sua presença orante e caridosa que incentivava os outros. Esse era o modelo de “apostolado escondido” que ele ansiava para todos os fiéis. Assim encontramos em Atos dos Apóstolos sobre Pentecostes: “Todos eles tinham os mesmos sentimentos e eram assíduos na oração, junto com algumas mulheres, entre as quais Maria, mãe de Jesus, e com os irmãos de Jesus” (At 1,14).

O surgimento do ideal de Vicente Pallotti

Antes de tudo, foram as suas observações e experiências como diretor espiritual, no colégio da Propagação da Fé, que o fizeram amadurecer em muitas iniciativas apostólicas. As novas perspectivas para a Igreja que provinham dessas vivências prepararam o terreno para o que estava por vir.

O momento da inspiração ocorreu no dia 09 de janeiro de 1835, quando rezava na capela do convento “Regina Coeli” das carmelitas, durante a ação de graças após a comunhão, brilhou repentinamente em sua mente um ideal que mudou completamente o seu modo de agir. Como uma visão de futuro, esse propósito dominaria, nos anos seguintes, todos os seus pensamentos e esforços.

O registro desta experiência, como era seu costume, foi anotado em uma folha solta. Em traços curtos e claros, marcou aquilo que futuramente seria a imagem orientadora de sua alma e de seu ser. Assim escreveu: “Meu Deus, minha misericórdia, em vossa infinita misericórdia, Vós me permitis de uma maneira extraordinária, pelo menos com o mais vivo desejo de promover, de estabelecer, de difundir, de aperfeiçoar e de formar permanentemente em vosso santíssimo Coração. Uma obra de apostolado universal entre todos os católicos, para a difusão da fé e da religião de Jesus Cristo entre todos os infiéis e não católicos. Um outro apostolado oculto, para reavivar, conservar e aprofundar a fé entre os católicos. Uma obra universal do amor pelo exercício de todas as obras de misericórdia corporais e espirituais, para que Vós sejais reconhecido no homem de todos os modos possíveis e imagináveis, já que Vós sois o amor infinito” (S. V. Pallotti. As luzes, p. 65).

Portanto, Pallotti achava que eram necessárias na Igreja três organizações de extensão mundial. O alvo da primeira era: a organização de todos os católicos para a difusão da fé entre os não católicos. Portanto, seria propriamente uma sociedade missionária, que na medida do possível abrangesse todos os católicos como sócios, ganhando-os como colaboradores pela oração e contribuição monetária. Esta cooperação de todos os cristãos católicos, na difusão da fé, Vicente Pallotti a chama sem rodeios de “apostolado”, de maneira que com isso ele preconizou o apostolado dos leigos de nossos dias.

A segunda organização deveria ser um “apostolado oculto”, porque tinha a tarefa de trabalhar em silêncio, reavivando a fé entre os católicos e com isso despertar neles o espírito apostólico, porque sem uma constante e silenciosa renovação da fé, com o tempo, também, se faz impossível um entusiasmo apostólico.

A terceira seria a organização da caridade, com extensão mundial, devia servir com os mesmos objetivos, porque pelo fato de fazer o amor de Deus visível através do exercício do amor humano deveria, por sua vez, despertar este amor ao próximo, naqueles que foram objetos do amor, suscitando um movimento espiral crescente.

Desde aquela hora no “Regina Coeli”, Vicente Pallotti se sabia chamado e encarregado de trabalhar na realização e concretização desta visão de futuro. Além deste “anseio vivíssimo”, nem ele se animava a decidir, claramente, o ‘como’ e o ‘quando’ deveria começar a fundação de tão grande obra. Para isto, a vontade de Deus deveria revelar-se com mais clareza. Possivelmente, seria somente tarefa sua preparar tais obras na Igreja, defender e apoiá-las e criar condições para que se concretizassem. Diante dessas incertezas, evitou usar a palavra “fundar”.

Na verdade, ele nunca teve dúvidas que a criação de uma instituição de extensão mundial estivesse no plano da providência divina. Ele estava realmente convencido disso, ao ponto de concluir seus apontamentos com a oração: “Mesmo que eu seja inapropriado e sempre mais me torne inapropriado e indigno, mesmo assim espero, sim, eu tenho certeza, que agora chegou o momento de um brilhante triunfo de vossa misericórdia sobre a minha incapacidade e indignidade: “Meu Deus, misericórdia graça””.

Esta breve descrição do estado de espírito de todos os membros da Sociedade do Apostolado Católico poderia muito bem ser do ano de 1838, quando Pallotti teve que defender-se de ataques e censuras lançados contra ele. E, certamente, uma destas acusações referia-se à pretensão e à presunção de reivindicar para si o apostolado católico da hierarquia. É por isso que este escrito começa por inculcar, de um lado, o respeito para com os membros da hierarquia, portadores do mandato apostólico neste mundo e, de outro, a obediência no exercício do apostolado participado.

O anseio mais vivo de Pallotti é a caridade serviçal e desinteressada, na qual a humildade e o amor se complementam na gratuidade de todo trabalho e serviço prestado. O grande valor dado por ele a esta atitude interior, a esta motivação, provavelmente decorria do muito que ele observara e experimentara nos círculos clericais de Roma (Doc. Fundação, p. 151).

Para ele, na Sociedade recém-criada devia resplandecer um correto e sólido espírito de profundo respeito, de pronta obediência e de religiosa veneração ao Sumo Pontífice, constituído por Jesus Cristo como o primeiro dentre os apóstolos. Só ele recebeu de Deus o poder de enviar missionários a todas as partes do mundo, para trazer ao redil aquelas ovelhas, ou melhor, aquelas almas das quais disse Jesus Cristo: “Tenho outras ovelhas, que não são deste aprisco: devo conduzi-las também” (Jo 10,16). Só Ele tem o primado de jurisdição sobre toda a Igreja. Deve haver na Sociedade também, proporcional e respectivo, um espírito de religioso respeito e de obediência ao sacro colégio dos cardeais e aos bispos, que, nas suas dioceses, são os nossos pastores. Deve haver também o respeito e a obediência aos superiores das ordens religiosas, que, no âmbito da respectiva ordem, são também apóstolos católicos.

Portanto, a denominação Apostolado Católico, longe de embalar a ufania do agregado à pia Sociedade, que se julgasse digno do nome de apóstolo, porque agregado, deve inspirar em cada qual, de todo estado, posição ou condição, um ardente desejo de fazer quanto esteja a seu alcance, a fim de promover tudo que possa contribuir, para fazer acontecer a maior glória de Deus na salvação das almas. Este é o verdadeiro Apostolado Católico. Só o humilde autêntico pode chegar a resultados concretos. Assim, todo que aspire a concorrer eficientemente, para felizes e rápidos êxitos do Apostolado Católico, deverá considerar-se o mais indigno do nome de apóstolo. Tal nome só cabe àqueles que, em grau heroico, tenham posto em ação o preceito da caridade, promovendo, de toda forma possível, a maior glória de Deus e a salvação das almas (Doc. Fundação, p. 152).

Por isso afirmou: “Nunca desconfie de que Deus não seja capaz de fazer o que fizeram os maiores santos da Igreja, porque com a graça de Deus, tu podes fazer coisas maiores, ou melhor, tu podes fazer mais do que fizeram todos os santos juntos” (OO CC X, 112). Acrescentou ainda: “Se considero infinita a bondade de meu Deus, é porque estou convencido de que Ele me enriquece com a abundância da graça santificante, para que eu possa desejar o Paraíso, se é que se pode desejar algo naquela Pátria beata. Tenho certeza de que Deus, pela sua bondade, se pudesse fazer-me verdadeiro Deus, o faria” (OO CC X, 143).

Em Pallotti, todo o seu contato com Deus está projetado sobre o infinito. A glória de Deus deve ser infinita, a perfeição da criatura deve ser infinita, o amor deve ser infinito e até mesmo a humilhação e o sofrimento devem ser infinitos, para servir de reparação ao Amor infinito. Enfim, tudo deve ser elevado ao infinito, ou seja, quem ama infinitamente deve aceitar também, para reparar os seus erros, verdadeiros ou presumíveis expiações ou reparações também de maneira infinita. A humilhação externa com a mortificação física não só são meios eficazes de expiação dos pecados do orgulho e da concupiscência, mas é também uma ótima disciplina para conservar a castidade e o equilíbrio humano.

Pallotti foi guiado e iluminado por Deus

A presença ativa e constante do amor de Deus na vida quotidiana de Pallotti é a razão psicológica e teológica da sua partida velocíssima no caminho de perfeição e da conquista de metas muito raras. A sua doutrina consiste: o segredo de uma vida santa está no amor de Deus. Se não tem o amor em Deus, todos os atos objetivamente virtuosos se tornam egoísmo e vaidade. Os meios de santificação utilizados por Pallotti para extirpar os vícios e cultivar as virtudes são: a direção espiritual, exercícios de piedade, práticas de penitência, exame de consciência, meditações, recolhimento, confronto com a palavra de Deus, leis da Igreja e o exemplo dos santos, mas a vastidão ou a decisão de seus propósitos é a profundidade da fé, esperança e caridade. Elas dão um ritmo privilegiado à sua marcha (Dal nulla al tutto, p. 67).

Um outro elemento que caracteriza a autenticidade do itinerário de santificação de Vicente Pallotti é a tradução quase que automática do amor de Deus em amor ao próximo. A prova da autenticidade do amor a Deus é a sinceridade do amor ao próximo. Quem não dá nada ao homem do qual vê a sua necessidade, como pode comover-se por Deus ao qual não vê? (Dal nulla al tutto, p. 71).

Porém, o que garante a autenticidade do caminho de santidade de Pallotti é a sua profunda e cordial insatisfação por aquilo que ele é e pelo que faz. Esta é também uma das marcas da sua espiritualidade, pois, segundo ele, um homem satisfeito consigo mesmo não pode ser santo. Olhando para si mesmo, ele ficava espantado por aquilo que ele é (cf. OO CC X, 751; 748; 482-483), porque se julgava como alguém que foi feito à imagem de Deus (cf. OO CC X, 245; 470), e a santidade de Deus é a medida para que o homem também possa tornar-se santo (cf. OO CC X, 51; 112).

Em suma, podemos dizer que Vicente Pallotti foi um visionário que compreendeu que a santidade não é um privilégio do clero, mas um chamado universal. A sua vida foi marcada pelo anseio de “despertar o gigante adormecido” (o laicato), acreditando que cada pessoa, em sua profissão e estado de vida, possui uma missão evangelizadora insubstituível. E a essência de seu legado pode ser resumida em três pilares: primeiro, a caridade operante, que o leva a um profundo amor ao próximo ao ponto de desejar “ser tudo” para salvar os necessitados. O segundo elemento é a unidade e a colaboração, que levou a UAC a criar uma rede de cooperação, para superar o isolamento e potencializar o bem comum. E em terceiro lugar, ele tinha o seu foco no infinito, para superar toda e qualquer superficialidade para buscar a maior glória de Deus através da humildade, da oração e do serviço desinteressado. Esperamos que este seu propósito possa, ainda hoje, estimular muitos cristãos a perseguirem este mesmo caminho.

 

Para refletir

1.      Qual era o anseio mais profundo de Pallotti?

2.      Quais eram os meios de santificação para Pallotti?

3.      O que Pallotti afirma sobre o amor?







sábado, 23 de maio de 2026

 



FESTA DA RAINHA DOS APÓSTOLOS

23/05/2026

Hoje celebramos Maria, a Rainha dos Apóstolos. A família palotina celebra esse dia com muita devoção, confiando naquela que esteve presente na vida da comunidade nascente que, assustada, presenciou a subida de Cristo ao céu e, agora, no cenáculo, esperam a vinda do Espírito Santo. Na Ascensão de Jesus, muitos ainda duvidavam do que viam. Foi somente em Pentecostes, quando estavam no cenáculo em oração, junto com Maria, que algo começou a tomar um novo rumo.

A devoção a Maria não surgiu na Igreja por meio de um decreto oficial ou de um evento único, mas cresceu de forma orgânica, como uma semente plantada no início do cristianismo que floresceu ao longo dos séculos. Ela combina intuição teológica, registros bíblicos e a necessidade emocional dos fiéis de encontrar uma figura materna na fé.

Tudo começou com o “Sim” de Maria na Anunciação. No Novo Testamento, ela já aparece como figura central em momentos-chave: o nascimento de Jesus, as Bodas de Caná (onde atua como intercessora) e aos pés da Cruz. O registro mais antigo de uma oração a Maria data de aproximadamente no ano 250 d.C: assim diz a oração: “À vossa proteção recorremos, Santa Mãe de Deus...”, encontrado em um fragmento de papiro no Egito (Papiro Rylands 470). Isso prova que, antes mesmo da Igreja oficializar dogmas, os cristãos já pediam sua intercessão em tempos de perseguição. Em termos práticos e humanos, a devoção começou porque os cristãos viam em Maria a ponte perfeita: ela é plenamente humana (como nós), mas teve a maior intimidade possível com o Divino (Jesus).  Nas paredes das Catacumbas de Priscila, em Roma, há afrescos datados do século II (por volta de 150 d.C.) que retratam a Virgem Maria com o Menino Jesus. É a mais antiga imagem conhecida da mãe de Cristo.

Para os primeiros cristãos, se Jesus ouviu o pedido dela em uma festa de casamento em Caná, Ele certamente a ouviria no céu (Cf. Jo 2,3-5). Para o nosso fundador, São Vicente Pallotti, a devoção mariana ia muito além da oração contemplativa; era o combustível para a ação apostólica. Ele via Maria como modelo de doação total a Deus e que poderia modelar, nele, a imagem do seu Filho, Jesus.

Maria na ascética palotina

Maria ocupa um lugar muito importante na obra e na doutrina de Vicente Pallotti. Para ele, Maria é a cheia de graça, a filha predileta do eterno Pai, a Mãe que Deus Filho escolheu entre todas as mulheres para tornar-se homem, a Esposa única na qual o Espírito Santo infundiu a mais pura virgindade e exuberante maternidade. Nenhuma criatura, pela sua pessoal excelência, pode ser amada e honrada como foi amada e honrada Maria, porque ela foi infinitamente amada e honrada por Deus Pai, Filho e Espírito Santo. Deus criou o homem à sua imagem e Maria, Mãe de Jesus, fez Deus à sua imagem. Não existe uma criatura comparável à Maria, porque sua beleza é irrepetível. Por esta admirável excelência, Maria merece admiração, louvor, amor, mais do que todas as coisas criadas, segundo padre Francisco Amoroso.

Pallotti olhando para Jesus agonizante, reflete: Na cruz, o sangue derramado de Cristo é o sangue de Maria, a carne de Jesus, flagelada e coroada de espinhos, seus membros perfurados pelos pregos e lanças é carne de Maria. Maria aceitou a profecia de Simeão que anunciou tais sofrimentos com o símbolo da espada que traspassará seu coração. Esta Senhora bendita foi constituída por Jesus, no momento mais solene da redenção, Mãe do novo povo de Deus (Cf. OO CC XIII, 725; cf. Amoroso. Dal nulla al tutto, p. 115).

No seu contínuo contato filial com a Mãe de Deus, Pallotti descobriu nela algo muito significativo, a sua presença no Cenáculo como Mãe e Rainha dos apóstolos. Ela que não tinha nenhuma jurisdição e nenhuma participação no sacerdócio ministerial e, contudo, foi tão grande apóstola que mereceu o título de Rainha dos Apóstolos. Isto prova claramente que não é necessário ter um poder de jurisdição ou de ministério para se tornar apóstolo de Jesus. Maria não ocupou nenhum cargo e, no entanto, superou, em méritos, todos os Papas, Bispos e sacerdotes.

Segundo Pallotti, Maria cooperou na propagação da santa fé mais que os apóstolos. Ela sustentou, com sua oração o ânimo dos apóstolos e fez com que superassem as suas fadigas e medos. Assim escreveu ele:

A santa Igreja, não por um simples título de honra, mas por motivo de plenitude de méritos, saúda Maria com o augusto título de Rainha dos Apóstolos e, com isto, todos, sacerdotes e leigos, todos, de ambos os sexos, de todo estado, posição e condição social, se animarão a imitar a nossa Imaculada Mãe Maria Santíssima, em todos os empreendimentos da maior glória de Deus e em todas as obras de misericórdia corporal e espiritual para o bem dos próximos (Doc. da fundação, p. 184).

Para concluir, Pallotti desejou profundamente que seus seguidores tivessem um profundo amor e devoção à Mãe de Deus. Queria que todos fossem fervorosíssimos apóstolos de Maria. Queria que todos fossem transformados em Maria, de sorte que, depois de Jesus Cristo, o seu coração, os seus movimentos internos, as suas palavras e os seus olhares, os seus passos e ações fossem de Maria, porque um verdadeiro devoto de Maria não só se salvará, como se tornará um grande santo. “Deus em tudo e  sempre!”

terça-feira, 12 de maio de 2026



TEMA 6: UAC – Um novo modo de ser Igreja 

O evangelho de Mateus, nos seus últimos versículos, recorda a todos que a missão de Jesus Cristo continua na vida da Igreja e todos os batizados são convocados a anunciar essa boa notícia até os confins do mundo: “Ide e ensinai a todas as nações, batizai-as em nome do Pai, do Filho e do Espírito Santo” (Mt 28,19).

São Vicente Pallotti, iluminado por esta mesma Palavra, sentiu a necessidade de convocar os batizados para que, de maneira consciente e organizada, pudessem levar o mais rápido possível essa mensagem às nações e, assim, reavivar a fé e reacender a caridade.  Por isso, em meados de maio de 1835, ele fez um apelo ao povo, dizendo:

“Todos, grandes e pequenos, formados, estudantes, operários, ricos e pobres, padres, leigos, religiosos e seculares, comerciantes e empresários, funcionários, artistas e artesãos, comunidades e indivíduos, cada qual no seu próprio estado, na própria condição, de acordo com os próprios dons, podem dedicar-se às obras do Apostolado Católico para reavivar a fé, reacender a caridade e propagá-las em todo o mundo”.[1]

Esse apelo ao povo foi o primeiro passo dado por ele, para que as pessoas saíssem do seu torpor religioso e começassem a ter um olhar mais amplo e universal. Sendo assim, muitas pessoas tanto do clero quando dos fiéis se entusiasmaram por esta ideia e, desta forma, deram início a uma nova maneira de trabalhar juntos em prol do Reino de Deus, mas de forma organizada. Essa organização, por sua vez, não significa centralizar ações em uma estrutura própria, mas fortalecer a comunhão entre os apóstolos, de modo que cada um, no seu lugar, atue com maior consciência, unidade e espírito de colaboração.

O Papa Francisco, no seu magistério, convocou os cristãos, para que saíssem dos seus ambientes fechados da Igreja, para tornarem-se uma “Igreja em saída”, ou seja, que todos possam ir em direção das pessoas, em suas periferias existenciais, para levar o remédio de Cristo a tantos corações feridos pela falta de amor e acometidos pelo ódio e pela desesperança. Assim, diz o Papa: “hoje, todos somos chamados a esta nova saída missionária. Cada cristão, cada comunidade e sacerdotes devem sair do seu conforto e ter a coragem de chegar a todas as periferias existenciais, que precisam da luz do Evangelho. Esse é o caminho que o Senhor lhe pede, mas cabe a nós aceitar este chamado”.[2]

A força do batismo

Segundo a Lumen Gentium (LG), “todo leigo é chamado a ser testemunha da ressurreição e da vida do Senhor Jesus, sinal de Deus vivo, diante do mundo”. O número 40 afirma: “Nas diversas profissões e formas de vida, a santidade é sempre a mesma”. O número 33: “Formando o povo de Deus, os leigos constituem um só corpo de Cristo, que é a cabeça. Por vontade do Criador e pela graça recebida do redentor, todos, como membros vivos, são chamados a contribuir com o melhor de suas forças para o crescimento e contínua santificação da Igreja”.[3]

A santa Igreja foi instituída por Deus, com uma grande variedade de categorias e funções (cf. LG 32). Os leigos, homens e mulheres, em virtude da sua condição e missão, têm algo de especial, cujo fundamento deve ser melhor examinado nas circunstâncias particulares do mundo em que vivemos. Os pastores sabem quanto os leigos contribuem para o bem de toda a Igreja. Eles sabem que não foram constituídos por Cristo para assumirem sozinhos a missão salvadora da Igreja em relação ao mundo. É sumamente importante que, no exercício da sua função, contem com o apoio dos leigos e com os seus carismas, permitindo que todos colaborem a seu modo na execução do trabalho comum (...). Denominam-se leigos todos os fiéis que não pertencem às ordens sagradas, nem são religiosos reconhecidos pela Igreja. São, pois, os fiéis batizados, incorporados a Cristo, membros do povo de Deus, participantes da função sacerdotal, profética e régia de Cristo, que tomam parte no cumprimento da missão de todo o povo cristão, na Igreja e no mundo (cf. LG 31).

O cristão precisa ter uma identidade sólida e positiva, para poder testemunhar a sua fé e anunciar Jesus Cristo. A falta de clareza da própria identidade nos faz cair em incoerências, pois nos leva a viver fora da finalidade essencial da nossa vida e nos distancia do nosso verdadeiro valor. Isso, muitas vezes, dificulta uma realização mais profunda da nossa vida e vocação. A origem da nossa identidade cristã está no batismo. Nele, recebemos uma nova identidade, que é a de sermos filhos de Deus. Pelo batismo nos tornamos membros da comunidade eclesial e nos credencia a continuar a missão de Jesus Cristo. Ser cristão é reproduzir, na própria vida, o modo de viver de Jesus, é identificar-se sempre mais com Ele.

Para São Mateus, a identidade e a missão do cristão consistem em: batizar e fazer discípulos (Mt 28,19). Os que foram batizados, em nome de Cristo, foram também enviados em missão (Lc 10,1). Inspirados pelo Espírito Santo, os cristãos realizam numerosas iniciativas apostólicas como manifestação de amor ao próximo, fundado no amor de Deus. Segundo o Papa Bento XVI, na encíclica Deus Caritas Est, o compromisso de fé com Cristo leva à realização da caridade, tanto individualmente como em comunidade. Para ele, a caridade deve ser organizada como pré-requisito, para um serviço ordenado à comunidade. A identidade da Igreja está na caridade. Ela é a sua essência. Para a Igreja, a caridade não é uma espécie de atividade de assistência social que se poderia mesmo confiar a outros, mas pertence à sua natureza, é expressão irrenunciável da sua própria essência (Deus caritas est, n. 22). A Igreja é a família de Deus no mundo. Nesta família, não deve haver ninguém que sofra por falta do necessário (n. 25b ).

A caridade vai muito além de uma simples assistência humanitária. Ela é um serviço abnegado por motivo de fé: “é servindo ao próximo que os meus olhos se abrirão para aquilo que Deus faz por mim e para o modo como Ele me ama” (n. 18). Os Santos hauriram a sua capacidade de amar o próximo, de modo sempre renovado, do seu encontro com o Senhor eucarístico e, vice-versa, este encontro ganhou o seu realismo e profundidade, precisamente, no serviço deles aos outros. O amor cresce através do amor. O amor é “divino”, porque vem de Deus e nos une a Deus, e, através deste processo unificador, transforma-nos em um nós, que supera as nossas divisões e nos faz ser um só, até que, no fim, Deus seja “tudo em todos” (1Cor 15,28).

Segundo São Vicente Pallotti, o amor de Deus é difusivo. Ele irradia nos corações, que, por sua vez, torna-se uma luz que vai se propagando na vivência entre as pessoas. Assim disse Jesus: “Quem me vê, vê o Pai”! Ele é o reflexo do amor do Pai, que ama o Filho, que por sua vez, o filho transborda esse amor na cruz (cf. Rm 5,5). O amor do próximo, radicado no amor de Deus, é um dever para cada um dos fiéis, mas o é também para a comunidade eclesial inteira, em todos os seus níveis: desde a comunidade local, passando pela Igreja particular, até a Igreja universal na sua globalidade. A Igreja também, enquanto comunidade deve praticar o amor. A consequência disso é que o amor tem necessidade também de organização, enquanto pressuposto para um serviço comunitário ordenado (Deus caritas est, n. 20).

A consciência de tal dever teve relevância constitutiva na Igreja desde os seus inícios: “Todos os crentes viviam unidos e possuíam tudo em comum. Vendiam terras e outros bens e distribuíam o dinheiro por todos de acordo com as necessidades de cada um” (At 2, 44-45). Com o passar dos anos e a progressiva difusão da Igreja, a prática da caridade confirmou-se como um dos seus âmbitos essenciais, juntamente com a administração dos Sacramentos e o anúncio da Palavra: praticar o amor para com as viúvas e os órfãos, os presos, os doentes e necessitados de qualquer gênero pertence tanto à sua essência como o serviço dos Sacramentos e o anúncio do Evangelho (Mt 25,34-40). “A Igreja não pode descurar o serviço da caridade, tal como não pode negligenciar os Sacramentos nem a Palavra” (Deus caritas est, n. 22).

O direito de associar-se

As associações representam a forma organizada e mais elaborada do ministério eclesial, para desenvolver a caridade e a piedade, caracterizado pela ação evangelizadora da Igreja e portadores da possibilidade de reunir os vários estados de vida (sacerdotes, religiosos, leigos), por um objetivo comum. As associações não têm seu próprio propósito, mas elas servem a missão que a Igreja deve cumprir no mundo com o testemunho e o espírito evangélico. Assim, D. Denilson Geraldo apresenta em seu artigo sobre a sinodalidade na União:

A UAC, como uma associação pública internacional, é uma pessoa jurídica eclesiástica e não pode ser considerada como Ordem Terceira, de acordo com a norma do cân. 303; nem mesmo uma Federação de diferentes congregações ou sociedades de vida apostólica, de acordo com a norma do cân. 582, porque uma associação não é vida consagrada (cf. can. 298) e não tem o poder de governar sobre os membros das comunidades de fundação, mas uma coordenação das obras que estão sob a pessoa jurídica desta associação, que é a UAC. Desta forma, como afirmado no n. 10 de seu Estatuto, a UAC não interfere nos regulamentos internos das comunidades que fazem parte dela (cf. artigos 34-37 e 40. Apostolato Univesale, n. 47/2018, p. 39).

A UAC, embora reconhecida juridicamente como associação, não se define como um grupo de atuação própria dentro da Igreja. Sua natureza é, antes de tudo, a de uma comunhão apostólica, que une fiéis de diferentes estados de vida no chamado universal ao apostolado, vivido nas realidades em que cada um já está inserido.

O direito de se associar para desenvolver obras apostólicas provém do Batismo e da Confirmação, para que a mensagem divina da salvação seja conhecida e bem recebida pelas pessoas. O requisito fundamental de uma associação católica é a comunhão com a Igreja e o reconhecimento dos estatutos, nos quais ela determina a finalidade, a localização, o governo, condições exigidas para sua admissão, tendo em conta a necessidade de tempo e lugar com uma indicação clara para inculturação. O nascimento de uma nova associação é sempre uma garantia contra a centralização excessiva que sufoca e inibe a participação (Apostolato Univesale, p. 36).

A compreensão da UAC como associação não deve ser reduzida a uma lógica de grupo ou estrutura de atuação própria, mas entendida como instrumento de comunhão, que favorece a unidade entre os apóstolos, sem substituir ou se sobrepor às demais expressões da Igreja. Ou seja, a UAC, embora seja uma associação reconhecida pela Igreja, não se configura como um grupo ou pastoral com atuação própria. Sua identidade é a de comunhão apostólica, vivida pelos seus membros nas diversas realidades onde já estão inseridos. A sua organização existe para promover unidade e consciência de missão, não para criar uma estrutura paralela na Igreja.

Por isso, o Papa Francisco convoca todos os batizados para uma Igreja em saída, ou seja, uma Igreja onde todos os seus membros são protagonistas no caminho do discipulado. Segundo ele, a reforma da Igreja católica tem que levar em conta que é necessário superar a mentalidade reducionista e clerical que entende os leigos como objetos da ação da hierarquia e como “consumidores” dos sacramentos, bem como criar as condições necessárias, para que os leigos possam viver o seu protagonismo de forma autônoma (Papa Francisco e o laicato, ano nacional do laicato, 2018, p. 26).

A associação, por meio dos seus dispositivos legais, ajuda no diálogo com a cultura e exige lidar adequadamente com as questões sociais do nosso tempo. Esta é a chave para uma visão associativa adequada, porque a realidade é caracterizada por problemas cada vez mais interconectados e que influenciam toda a família humana. Diante disso, é preciso criar novas estratégias que satisfaçam às necessidades do nosso tempo, o valor da vocação cristã e dos diferentes carismas para a evangelização da sociedade e também dialogar com todos aqueles que desejam, sinceramente, o bem do povo e da humanidade. Um sinal de esperança é o fato de que, hoje, as religiões e culturas expressam abertura ao diálogo e a urgência de unir seus esforços para promover a justiça, a fraternidade, a paz e o crescimento da pessoa humana.

O Direito Canônico, cân. 215, acentua que os fiéis têm o direito de estabelecer e dirigir livremente associações que visam à caridade ou à piedade, ou associações que propõem o aumento da vocação cristã no mundo. Têm o direito de realizar reuniões para a concretização comum de tais propósitos. Porque, por meio do batismo, a pessoa é incorporada à Igreja de Cristo, com os deveres e os direitos que lhes são próprios, em comunhão com a Igreja.

O Concílio Vaticano II destacou, de maneira particularmente clara, a “igualdade entre todos quanto à dignidade e quanto à atuação, comum a todos os fiéis, em favor da edificação do corpo de Cristo”, em virtude do sacramento do batismo (LG, n. 32). O princípio da igualdade implica que existem alguns direitos e deveres fundamentais comuns a todos os fiéis, que foram enunciados no cânon 208-223. No entanto, o reconhecimento do direito de associação dos batizados foi o resultado de um desenvolvimento gradual, no qual o Concílio Vaticano II foi de fundamental importância, e que só culminou com a completa formalização desse direito dos fiéis, na entrada em vigor do Código de Direito Canônico. Pois, o batismo lhes dá a dignidade de um lar espiritual e de um sacerdócio sagrado. Em virtude do sacerdócio comum dos fiéis[4], eles podem, em união com Cristo e à Igreja, viver uma vida extraordinária, cheia de graça, mesmo em suas circunstâncias mais comuns. Esta é a vida sacramental. Os membros de uma associação ou movimento se esforçam para viver essa vida mais intensamente e de maneira coordenada.

A fonte do apostolado

A fonte de todo apostolado é o amor de Deus, que, em Jesus Cristo, Apóstolo do Pai, impulsiona as pessoas a viverem em perfeita união e a expressarem na vida tudo quanto receberam por meio da fé. O desejo de Deus está escrito no coração do ser humano. Deus não cessa de atraí-lo a si, e, somente em Deus, a pessoa humana encontra a verdade e a felicidade que não cessa de procurar. O ser humano é chamado a viver em comunhão com Deus. O homem existe porque Deus o criou por amor e, por isso, não cessa de dar-lhe o ser, e o homem só vive plenamente, segundo a verdade, se reconhecer livremente este amor e se entregar ao seu Criador.

A União do Apostolado Católico, uma associação de fiéis, é dom do Espírito Santo, e vive em comunhão, segundo o carisma de São Vicente Pallotti, a serviço da Igreja e do mundo (Estatuto Geral (UAC), n. 1). Esse chamado é um dom gratuito do Pai que, no seu amor infinito e misericordioso, chama as pessoas a seguirem seu Filho, Jesus Cristo, Apóstolo do Eterno Pai, para continuar, no mundo, a Sua Missão salvífica. Como o Pai mandou o Seu Filho ao mundo, assim também os membros da União, impulsionados pelo amor redentor de Cristo, são enviados a:

1.      Reavivar e difundir a fé evangelizando as pessoas e a sociedade em que vivem;

2.      Reacender a caridade;

3.      Viver uma profunda união com Jesus, Apóstolo do Eterno Pai, no desenvolvimento de obras apostólicas, em comunhão com os católicos, os cristãos e as pessoas de boa vontade;

4.      Despertar, no povo de Deus, a consciência da vocação ao apostolado (Est. Geral, n. 12).

A UAC foi reconhecida definitivamente como uma associação pública internacional, no dia 28/10/2008, para que os membros do Povo de Deus pudessem, unidos na missão evangelizadora da Igreja, praticar a caridade de forma associativa. Pallotti acreditava que as iniciativas apostólicas pessoais seriam mais eficazes se fossem realizadas em colaboração e destinadas à tarefa comum da vida e à difusão conjunta do Evangelho. Com efeito, a missão das UAC é de promover o espírito associativo dos batizados e trabalhar pela justiça e pela caridade. Podemos dizer, também, que o trabalho associativo é uma prática verdadeira do princípio da subsidiariedade, baseado na teologia da comunhão e que dá uma sábia descentralização do apostolado caridoso e inculturado na realidade de cada Igreja local, de acordo com o tempo e o lugar (ver Cânon 304); [Denilson Geraldo, p. 37-38].

Quem pode fazer parte da União

Segundo São Vicente Pallotti, todo batizado é chamado por Deus para ser apóstolo do Reino. Para justificar isso, apresentou Maria, a Mãe de Jesus, como mulher apostólica, fazendo muito mais que todos os apóstolos, mesmo sem receber nenhuma ordem sacra. Ela foi sempre obediente à vontade do Pai. O seu “Sim” transformou o mundo, gerou o Salvador que assumiu a nossa humanidade. Maria, pela graça de Deus, tornou-se a Rainha dos Apóstolos.

O ser humano está sempre em busca de algo maior para sua vida. Após a vinda de Pentecostes, as pessoas perguntavam a Pedro, que, pela primeira vez, anunciava o reino destemidamente: “E nós, o que devemos fazer”? Pedro respondia: “Convertam-se e sejam batizadas” (At 2,37-38). Portanto, o batismo já nos inseriu no projeto redentor de Cristo, porém ele convida pessoas para um trabalho específico em sua Igreja, para que sua dedicação seja exclusiva ao serviço do Reino. Todavia, ele suscita no meio do povo pessoas com carismas especiais, para tornar o evangelho sempre atual e, desta forma, responder às necessidades de cada época.

A UAC, desde o tempo de sua fundação, vem mostrando o seu modo próprio de ser e de agir dentro a Igreja, e, até mesmo os seus Estatutos atuais deixam em aberto a possibilidade de todos fazerem parte, em primeiro lugar, os batizados, bem como aqueles que desejam cooperar com a obra apostólica, mesmo não professando a fé católica.

Compromisso apostólico

Com a aprovação dos Estatutos da UAC, a Igreja concedeu aos seus membros o direito de associar-se para que, assim, cada membro, de maneira consciente da sua missão na Igreja, pudesse viver a sua fé de modo mais estreito e associativo. Esta seria a resposta prática para aqueles que fizeram uma caminhada de estudo e que sentiram a necessidade de dar um passo a mais em direção à vivência do seu batismo, não apenas como um membro que coopera com as obras do apostolado, que também tem o seu valor, mas, vivendo, de maneira consciente, o apostolado nas realidades em que já está inserido — seja nas pastorais, movimentos, na vida profissional, familiar e social.

assumindo de maneira consciente os trabalhos que estão à sua disposição na paróquia. Para que pudesse ampliar os trabalhos apostólicos e até mesmo poder dialogar com o mundo e outras realidades, a associação de fiéis permite que se tenha uma identidade própria com um CNPJ, podendo assim assumir direitos e deveres diante da sociedade civil, mas isso não exclui aqueles que apenas desejarem viver o carisma palotino na realidade em que se encontra, fazendo obras de caridade, sem nenhum vínculo formal. Essa prática já acontecia desde o tempo do fundador.

Segundo o D. Denilson Geraldo, em sua live do dia 22/09/2021[5], ao falar da Associação internacional de fiéis, deixou bem claro que as pastorais estão ligadas aos párocos e as associações estão ligadas ao Bispo. Ela tem uma estrutura jurídica com um Estatuto. O estatuto dá estabilidade apostólica no tempo, sendo reconhecida civilmente. Com isso, ela pode dialogar com a cultura e isso perdura no tempo e é necessário ter uma espiritualidade das necessidades reais que as pessoas têm. Segundo ele, a caridade deve ser realizada comunitariamente e organizada em associações, não apenas como pastoral, mas como uma associação que tem uma autonomia jurídica e administrativa, mas, sempre em comunhão com a Igreja, pelo reconhecimento dos estatutos feito pelo Bispo diocesano. Isso demonstra a maturidade de um grupo de cristãos, ou seja, dando um passo além do que se faz nas paróquias. 

Pallotti queria esse tipo de maturidade para os leigos, que eles fossem maduros na fé e que trabalhassem com leigos que tivessem uma ousadia de criar uma associação, de criar recursos para o apostolado e, assim, dialogar com a cultura, inseridos na sociedade onde vivem. A UAC, felizmente, conseguiu esse patamar, de ser uma associação pública internacional de fiéis, com suas coordenações locais, nacionais e internacional. A finalidade do Conselho é promover a unidade, articular a comunhão e favorecer a consciência apostólica entre os membros da UAC, estimulando o apostolado nas diversas realidades onde já atuam.

Os colaboradores

Desde o início da fundação, Pallotti contava com inúmeras pessoas que colaboravam com a sua obra. O atual Estatuto, também dedica três números sobre eles, a saber: 30, 53 e 57, que trata não dos membros efetivos, mas daqueles simpáticos ao carisma, porém, sem ter feito a caminhada prevista para o empenho apostólico. Essas pessoas se sentem muito felizes em dar a sua colaboração, quer seja pelas orações ou, então, como benfeitoras dos seminários, sentem alegres por cooperarem com a Missão de Cristo na União, com o seu trabalho, sua doação ou oração.

Para concluir, podemos dizer que nos Estatutos da União constam quem pode participar das suas iniciativas, como colaboradores:

1.      os cristãos (cf. art. 53-54);

2.      os crentes de outras religiões (cf. art. 55);

3.      outras pessoas de boa vontade (cf. art. 56).

No número 53 lemos: “Os fiéis católicos que, mesmo não assumindo particulares empenhos na União, desejarem de qualquer modo partilhar do seu espírito e participar de suas iniciativas, podem tornar-se seus colaboradores”. No número 57 encontramos: “As modalidades de todo tipo de colaboração são estabelecidas pelo regulamento do Conselho Nacional de Coordenação (cf. art. 71i).

Sendo assim, podemos dizer que o TODOS, no apelo de maio, continua tendo o mesmo valor ainda hoje, porém, com o Estatuto, podemos tornar visível a comunhão apostólica vivida pelos seus membros e, assim, fazermos coisas ainda mais ousadas, graças ao Estatuto e ao reconhecimento público na Igreja e na sociedade civil.

 

Para refletir

1.      O que você entendeu por Associação de fiéis?

2.      Segundo o texto, qual é a importância do Estatuto para uma associação?

3.      Para você, como deveria ser a evangelização da Igreja?



[1] Na sexta-feira, 9 de janeiro de 1835, após a Santa Missa celebrada no mosteiro Regina Coeli, Vicente Pallotti se sentiu chamado a instituir a obra do Apostolado Católico, para alcançar os seguintes objetivos: 1. Difundir a fé entre os não crentes; 2. Reavivar a fé nos católicos; 3. Exercer trabalhos de caridade”, mas, em maio do mesmo ano, ele, juntamente com os seus colaboradores, divulgou o “Apelo ao povo” (OO CC X, 196-201).

[2] Exortação Apostólica Evangelii Gaudium, do Papa Francisco, 2013, n. 20.

[3] VATICANO II, Mensagens, discursos, documentos, Paulinas: São Paulo, 1998, p. 185, n. 38.

[4] O conceito de sacerdócio comum dos fiéis é um dos pilares da eclesiologia católica contemporânea, especialmente fortalecido após o Concílio Vaticano II. Ele se baseia na ideia de que, pelo Batismo, todo cristão é incorporado a Cristo e passa a participar de sua missão como profeta, rei e sacerdote. Sacerdote: Oferecer a própria vida e as atividades diárias como sacrifício espiritual a Deus. Profeta: Anunciar o Evangelho por palavras e pelo exemplo de vida. Rei: Servir ao próximo e ajudar a ordenar o mundo segundo os valores cristãos.

 

[5] Acesso a live, dia 22/09/2021, https://www.youtube.com/watch?v=Qr-Kyd6y_J8