terça-feira, 12 de maio de 2026

 Clica AQUI, para acessar ao vídeo no Youtube, Os palotinos.

https://www.youtube.com/watch?v=yKc7qDxVhX4


TEMA 6: UAC – Um novo modo de ser Igreja 

O evangelho de Mateus, nos seus últimos versículos, recorda a todos que a missão de Jesus Cristo continua na vida da Igreja e todos os batizados são convocados a anunciar essa boa notícia até os confins do mundo: “Ide e ensinai a todas as nações, batizai-as em nome do Pai, do Filho e do Espírito Santo” (Mt 28,19).

São Vicente Pallotti, iluminado por esta mesma Palavra, sentiu a necessidade de convocar os batizados para que, de maneira consciente e organizada, pudessem levar o mais rápido possível essa mensagem às nações e, assim, reavivar a fé e reacender a caridade.  Por isso, em meados de maio de 1835, ele fez um apelo ao povo, dizendo:

“Todos, grandes e pequenos, formados, estudantes, operários, ricos e pobres, padres, leigos, religiosos e seculares, comerciantes e empresários, funcionários, artistas e artesãos, comunidades e indivíduos, cada qual no seu próprio estado, na própria condição, de acordo com os próprios dons, podem dedicar-se às obras do Apostolado Católico para reavivar a fé, reacender a caridade e propagá-las em todo o mundo”.[1]

Esse apelo ao povo foi o primeiro passo dado por ele, para que as pessoas saíssem do seu torpor religioso e começassem a ter um olhar mais amplo e universal. Sendo assim, muitas pessoas tanto do clero quando dos fiéis se entusiasmaram por esta ideia e, desta forma, deram início a uma nova maneira de trabalhar juntos em prol do Reino de Deus, mas de forma organizada. Essa organização, por sua vez, não significa centralizar ações em uma estrutura própria, mas fortalecer a comunhão entre os apóstolos, de modo que cada um, no seu lugar, atue com maior consciência, unidade e espírito de colaboração.

O Papa Francisco, no seu magistério, convocou os cristãos, para que saíssem dos seus ambientes fechados da Igreja, para tornarem-se uma “Igreja em saída”, ou seja, que todos possam ir em direção das pessoas, em suas periferias existenciais, para levar o remédio de Cristo a tantos corações feridos pela falta de amor e acometidos pelo ódio e pela desesperança. Assim, diz o Papa: “hoje, todos somos chamados a esta nova saída missionária. Cada cristão, cada comunidade e sacerdotes devem sair do seu conforto e ter a coragem de chegar a todas as periferias existenciais, que precisam da luz do Evangelho. Esse é o caminho que o Senhor lhe pede, mas cabe a nós aceitar este chamado”.[2]

A força do batismo

Segundo a Lumen Gentium (LG), “todo leigo é chamado a ser testemunha da ressurreição e da vida do Senhor Jesus, sinal de Deus vivo, diante do mundo”. O número 40 afirma: “Nas diversas profissões e formas de vida, a santidade é sempre a mesma”. O número 33: “Formando o povo de Deus, os leigos constituem um só corpo de Cristo, que é a cabeça. Por vontade do Criador e pela graça recebida do redentor, todos, como membros vivos, são chamados a contribuir com o melhor de suas forças para o crescimento e contínua santificação da Igreja”.[3]

A santa Igreja foi instituída por Deus, com uma grande variedade de categorias e funções (cf. LG 32). Os leigos, homens e mulheres, em virtude da sua condição e missão, têm algo de especial, cujo fundamento deve ser melhor examinado nas circunstâncias particulares do mundo em que vivemos. Os pastores sabem quanto os leigos contribuem para o bem de toda a Igreja. Eles sabem que não foram constituídos por Cristo para assumirem sozinhos a missão salvadora da Igreja em relação ao mundo. É sumamente importante que, no exercício da sua função, contem com o apoio dos leigos e com os seus carismas, permitindo que todos colaborem a seu modo na execução do trabalho comum (...). Denominam-se leigos todos os fiéis que não pertencem às ordens sagradas, nem são religiosos reconhecidos pela Igreja. São, pois, os fiéis batizados, incorporados a Cristo, membros do povo de Deus, participantes da função sacerdotal, profética e régia de Cristo, que tomam parte no cumprimento da missão de todo o povo cristão, na Igreja e no mundo (cf. LG 31).

O cristão precisa ter uma identidade sólida e positiva, para poder testemunhar a sua fé e anunciar Jesus Cristo. A falta de clareza da própria identidade nos faz cair em incoerências, pois nos leva a viver fora da finalidade essencial da nossa vida e nos distancia do nosso verdadeiro valor. Isso, muitas vezes, dificulta uma realização mais profunda da nossa vida e vocação. A origem da nossa identidade cristã está no batismo. Nele, recebemos uma nova identidade, que é a de sermos filhos de Deus. Pelo batismo nos tornamos membros da comunidade eclesial e nos credencia a continuar a missão de Jesus Cristo. Ser cristão é reproduzir, na própria vida, o modo de viver de Jesus, é identificar-se sempre mais com Ele.

Para São Mateus, a identidade e a missão do cristão consistem em: batizar e fazer discípulos (Mt 28,19). Os que foram batizados, em nome de Cristo, foram também enviados em missão (Lc 10,1). Inspirados pelo Espírito Santo, os cristãos realizam numerosas iniciativas apostólicas como manifestação de amor ao próximo, fundado no amor de Deus. Segundo o Papa Bento XVI, na encíclica Deus Caritas Est, o compromisso de fé com Cristo leva à realização da caridade, tanto individualmente como em comunidade. Para ele, a caridade deve ser organizada como pré-requisito, para um serviço ordenado à comunidade. A identidade da Igreja está na caridade. Ela é a sua essência. Para a Igreja, a caridade não é uma espécie de atividade de assistência social que se poderia mesmo confiar a outros, mas pertence à sua natureza, é expressão irrenunciável da sua própria essência (Deus caritas est, n. 22). A Igreja é a família de Deus no mundo. Nesta família, não deve haver ninguém que sofra por falta do necessário (n. 25b ).

A caridade vai muito além de uma simples assistência humanitária. Ela é um serviço abnegado por motivo de fé: “é servindo ao próximo que os meus olhos se abrirão para aquilo que Deus faz por mim e para o modo como Ele me ama” (n. 18). Os Santos hauriram a sua capacidade de amar o próximo, de modo sempre renovado, do seu encontro com o Senhor eucarístico e, vice-versa, este encontro ganhou o seu realismo e profundidade, precisamente, no serviço deles aos outros. O amor cresce através do amor. O amor é “divino”, porque vem de Deus e nos une a Deus, e, através deste processo unificador, transforma-nos em um nós, que supera as nossas divisões e nos faz ser um só, até que, no fim, Deus seja “tudo em todos” (1Cor 15,28).

Segundo São Vicente Pallotti, o amor de Deus é difusivo. Ele irradia nos corações, que, por sua vez, torna-se uma luz que vai se propagando na vivência entre as pessoas. Assim disse Jesus: “Quem me vê, vê o Pai”! Ele é o reflexo do amor do Pai, que ama o Filho, que por sua vez, o filho transborda esse amor na cruz (cf. Rm 5,5). O amor do próximo, radicado no amor de Deus, é um dever para cada um dos fiéis, mas o é também para a comunidade eclesial inteira, em todos os seus níveis: desde a comunidade local, passando pela Igreja particular, até a Igreja universal na sua globalidade. A Igreja também, enquanto comunidade deve praticar o amor. A consequência disso é que o amor tem necessidade também de organização, enquanto pressuposto para um serviço comunitário ordenado (Deus caritas est, n. 20).

A consciência de tal dever teve relevância constitutiva na Igreja desde os seus inícios: “Todos os crentes viviam unidos e possuíam tudo em comum. Vendiam terras e outros bens e distribuíam o dinheiro por todos de acordo com as necessidades de cada um” (At 2, 44-45). Com o passar dos anos e a progressiva difusão da Igreja, a prática da caridade confirmou-se como um dos seus âmbitos essenciais, juntamente com a administração dos Sacramentos e o anúncio da Palavra: praticar o amor para com as viúvas e os órfãos, os presos, os doentes e necessitados de qualquer gênero pertence tanto à sua essência como o serviço dos Sacramentos e o anúncio do Evangelho (Mt 25,34-40). “A Igreja não pode descurar o serviço da caridade, tal como não pode negligenciar os Sacramentos nem a Palavra” (Deus caritas est, n. 22).

O direito de associar-se

As associações representam a forma organizada e mais elaborada do ministério eclesial, para desenvolver a caridade e a piedade, caracterizado pela ação evangelizadora da Igreja e portadores da possibilidade de reunir os vários estados de vida (sacerdotes, religiosos, leigos), por um objetivo comum. As associações não têm seu próprio propósito, mas elas servem a missão que a Igreja deve cumprir no mundo com o testemunho e o espírito evangélico. Assim, D. Denilson Geraldo apresenta em seu artigo sobre a sinodalidade na União:

A UAC, como uma associação pública internacional, é uma pessoa jurídica eclesiástica e não pode ser considerada como Ordem Terceira, de acordo com a norma do cân. 303; nem mesmo uma Federação de diferentes congregações ou sociedades de vida apostólica, de acordo com a norma do cân. 582, porque uma associação não é vida consagrada (cf. can. 298) e não tem o poder de governar sobre os membros das comunidades de fundação, mas uma coordenação das obras que estão sob a pessoa jurídica desta associação, que é a UAC. Desta forma, como afirmado no n. 10 de seu Estatuto, a UAC não interfere nos regulamentos internos das comunidades que fazem parte dela (cf. artigos 34-37 e 40. Apostolato Univesale, n. 47/2018, p. 39).

A UAC, embora reconhecida juridicamente como associação, não se define como um grupo de atuação própria dentro da Igreja. Sua natureza é, antes de tudo, a de uma comunhão apostólica, que une fiéis de diferentes estados de vida no chamado universal ao apostolado, vivido nas realidades em que cada um já está inserido.

O direito de se associar para desenvolver obras apostólicas provém do Batismo e da Confirmação, para que a mensagem divina da salvação seja conhecida e bem recebida pelas pessoas. O requisito fundamental de uma associação católica é a comunhão com a Igreja e o reconhecimento dos estatutos, nos quais ela determina a finalidade, a localização, o governo, condições exigidas para sua admissão, tendo em conta a necessidade de tempo e lugar com uma indicação clara para inculturação. O nascimento de uma nova associação é sempre uma garantia contra a centralização excessiva que sufoca e inibe a participação (Apostolato Univesale, p. 36).

A compreensão da UAC como associação não deve ser reduzida a uma lógica de grupo ou estrutura de atuação própria, mas entendida como instrumento de comunhão, que favorece a unidade entre os apóstolos, sem substituir ou se sobrepor às demais expressões da Igreja. Ou seja, a UAC, embora seja uma associação reconhecida pela Igreja, não se configura como um grupo ou pastoral com atuação própria. Sua identidade é a de comunhão apostólica, vivida pelos seus membros nas diversas realidades onde já estão inseridos. A sua organização existe para promover unidade e consciência de missão, não para criar uma estrutura paralela na Igreja.

Por isso, o Papa Francisco convoca todos os batizados para uma Igreja em saída, ou seja, uma Igreja onde todos os seus membros são protagonistas no caminho do discipulado. Segundo ele, a reforma da Igreja católica tem que levar em conta que é necessário superar a mentalidade reducionista e clerical que entende os leigos como objetos da ação da hierarquia e como “consumidores” dos sacramentos, bem como criar as condições necessárias, para que os leigos possam viver o seu protagonismo de forma autônoma (Papa Francisco e o laicato, ano nacional do laicato, 2018, p. 26).

A associação, por meio dos seus dispositivos legais, ajuda no diálogo com a cultura e exige lidar adequadamente com as questões sociais do nosso tempo. Esta é a chave para uma visão associativa adequada, porque a realidade é caracterizada por problemas cada vez mais interconectados e que influenciam toda a família humana. Diante disso, é preciso criar novas estratégias que satisfaçam às necessidades do nosso tempo, o valor da vocação cristã e dos diferentes carismas para a evangelização da sociedade e também dialogar com todos aqueles que desejam, sinceramente, o bem do povo e da humanidade. Um sinal de esperança é o fato de que, hoje, as religiões e culturas expressam abertura ao diálogo e a urgência de unir seus esforços para promover a justiça, a fraternidade, a paz e o crescimento da pessoa humana.

O Direito Canônico, cân. 215, acentua que os fiéis têm o direito de estabelecer e dirigir livremente associações que visam à caridade ou à piedade, ou associações que propõem o aumento da vocação cristã no mundo. Têm o direito de realizar reuniões para a concretização comum de tais propósitos. Porque, por meio do batismo, a pessoa é incorporada à Igreja de Cristo, com os deveres e os direitos que lhes são próprios, em comunhão com a Igreja.

O Concílio Vaticano II destacou, de maneira particularmente clara, a “igualdade entre todos quanto à dignidade e quanto à atuação, comum a todos os fiéis, em favor da edificação do corpo de Cristo”, em virtude do sacramento do batismo (LG, n. 32). O princípio da igualdade implica que existem alguns direitos e deveres fundamentais comuns a todos os fiéis, que foram enunciados no cânon 208-223. No entanto, o reconhecimento do direito de associação dos batizados foi o resultado de um desenvolvimento gradual, no qual o Concílio Vaticano II foi de fundamental importância, e que só culminou com a completa formalização desse direito dos fiéis, na entrada em vigor do Código de Direito Canônico. Pois, o batismo lhes dá a dignidade de um lar espiritual e de um sacerdócio sagrado. Em virtude do sacerdócio comum dos fiéis[4], eles podem, em união com Cristo e à Igreja, viver uma vida extraordinária, cheia de graça, mesmo em suas circunstâncias mais comuns. Esta é a vida sacramental. Os membros de uma associação ou movimento se esforçam para viver essa vida mais intensamente e de maneira coordenada.

A fonte do apostolado

A fonte de todo apostolado é o amor de Deus, que, em Jesus Cristo, Apóstolo do Pai, impulsiona as pessoas a viverem em perfeita união e a expressarem na vida tudo quanto receberam por meio da fé. O desejo de Deus está escrito no coração do ser humano. Deus não cessa de atraí-lo a si, e, somente em Deus, a pessoa humana encontra a verdade e a felicidade que não cessa de procurar. O ser humano é chamado a viver em comunhão com Deus. O homem existe porque Deus o criou por amor e, por isso, não cessa de dar-lhe o ser, e o homem só vive plenamente, segundo a verdade, se reconhecer livremente este amor e se entregar ao seu Criador.

A União do Apostolado Católico, uma associação de fiéis, é dom do Espírito Santo, e vive em comunhão, segundo o carisma de São Vicente Pallotti, a serviço da Igreja e do mundo (Estatuto Geral (UAC), n. 1). Esse chamado é um dom gratuito do Pai que, no seu amor infinito e misericordioso, chama as pessoas a seguirem seu Filho, Jesus Cristo, Apóstolo do Eterno Pai, para continuar, no mundo, a Sua Missão salvífica. Como o Pai mandou o Seu Filho ao mundo, assim também os membros da União, impulsionados pelo amor redentor de Cristo, são enviados a:

1.      Reavivar e difundir a fé evangelizando as pessoas e a sociedade em que vivem;

2.      Reacender a caridade;

3.      Viver uma profunda união com Jesus, Apóstolo do Eterno Pai, no desenvolvimento de obras apostólicas, em comunhão com os católicos, os cristãos e as pessoas de boa vontade;

4.      Despertar, no povo de Deus, a consciência da vocação ao apostolado (Est. Geral, n. 12).

A UAC foi reconhecida definitivamente como uma associação pública internacional, no dia 28/10/2008, para que os membros do Povo de Deus pudessem, unidos na missão evangelizadora da Igreja, praticar a caridade de forma associativa. Pallotti acreditava que as iniciativas apostólicas pessoais seriam mais eficazes se fossem realizadas em colaboração e destinadas à tarefa comum da vida e à difusão conjunta do Evangelho. Com efeito, a missão das UAC é de promover o espírito associativo dos batizados e trabalhar pela justiça e pela caridade. Podemos dizer, também, que o trabalho associativo é uma prática verdadeira do princípio da subsidiariedade, baseado na teologia da comunhão e que dá uma sábia descentralização do apostolado caridoso e inculturado na realidade de cada Igreja local, de acordo com o tempo e o lugar (ver Cânon 304); [Denilson Geraldo, p. 37-38].

Quem pode fazer parte da União

Segundo São Vicente Pallotti, todo batizado é chamado por Deus para ser apóstolo do Reino. Para justificar isso, apresentou Maria, a Mãe de Jesus, como mulher apostólica, fazendo muito mais que todos os apóstolos, mesmo sem receber nenhuma ordem sacra. Ela foi sempre obediente à vontade do Pai. O seu “Sim” transformou o mundo, gerou o Salvador que assumiu a nossa humanidade. Maria, pela graça de Deus, tornou-se a Rainha dos Apóstolos.

O ser humano está sempre em busca de algo maior para sua vida. Após a vinda de Pentecostes, as pessoas perguntavam a Pedro, que, pela primeira vez, anunciava o reino destemidamente: “E nós, o que devemos fazer”? Pedro respondia: “Convertam-se e sejam batizadas” (At 2,37-38). Portanto, o batismo já nos inseriu no projeto redentor de Cristo, porém ele convida pessoas para um trabalho específico em sua Igreja, para que sua dedicação seja exclusiva ao serviço do Reino. Todavia, ele suscita no meio do povo pessoas com carismas especiais, para tornar o evangelho sempre atual e, desta forma, responder às necessidades de cada época.

A UAC, desde o tempo de sua fundação, vem mostrando o seu modo próprio de ser e de agir dentro a Igreja, e, até mesmo os seus Estatutos atuais deixam em aberto a possibilidade de todos fazerem parte, em primeiro lugar, os batizados, bem como aqueles que desejam cooperar com a obra apostólica, mesmo não professando a fé católica.

Compromisso apostólico

Com a aprovação dos Estatutos da UAC, a Igreja concedeu aos seus membros o direito de associar-se para que, assim, cada membro, de maneira consciente da sua missão na Igreja, pudesse viver a sua fé de modo mais estreito e associativo. Esta seria a resposta prática para aqueles que fizeram uma caminhada de estudo e que sentiram a necessidade de dar um passo a mais em direção à vivência do seu batismo, não apenas como um membro que coopera com as obras do apostolado, que também tem o seu valor, mas, vivendo, de maneira consciente, o apostolado nas realidades em que já está inserido — seja nas pastorais, movimentos, na vida profissional, familiar e social.

assumindo de maneira consciente os trabalhos que estão à sua disposição na paróquia. Para que pudesse ampliar os trabalhos apostólicos e até mesmo poder dialogar com o mundo e outras realidades, a associação de fiéis permite que se tenha uma identidade própria com um CNPJ, podendo assim assumir direitos e deveres diante da sociedade civil, mas isso não exclui aqueles que apenas desejarem viver o carisma palotino na realidade em que se encontra, fazendo obras de caridade, sem nenhum vínculo formal. Essa prática já acontecia desde o tempo do fundador.

Segundo o D. Denilson Geraldo, em sua live do dia 22/09/2021[5], ao falar da Associação internacional de fiéis, deixou bem claro que as pastorais estão ligadas aos párocos e as associações estão ligadas ao Bispo. Ela tem uma estrutura jurídica com um Estatuto. O estatuto dá estabilidade apostólica no tempo, sendo reconhecida civilmente. Com isso, ela pode dialogar com a cultura e isso perdura no tempo e é necessário ter uma espiritualidade das necessidades reais que as pessoas têm. Segundo ele, a caridade deve ser realizada comunitariamente e organizada em associações, não apenas como pastoral, mas como uma associação que tem uma autonomia jurídica e administrativa, mas, sempre em comunhão com a Igreja, pelo reconhecimento dos estatutos feito pelo Bispo diocesano. Isso demonstra a maturidade de um grupo de cristãos, ou seja, dando um passo além do que se faz nas paróquias. 

Pallotti queria esse tipo de maturidade para os leigos, que eles fossem maduros na fé e que trabalhassem com leigos que tivessem uma ousadia de criar uma associação, de criar recursos para o apostolado e, assim, dialogar com a cultura, inseridos na sociedade onde vivem. A UAC, felizmente, conseguiu esse patamar, de ser uma associação pública internacional de fiéis, com suas coordenações locais, nacionais e internacional. A finalidade do Conselho é promover a unidade, articular a comunhão e favorecer a consciência apostólica entre os membros da UAC, estimulando o apostolado nas diversas realidades onde já atuam.

Os colaboradores

Desde o início da fundação, Pallotti contava com inúmeras pessoas que colaboravam com a sua obra. O atual Estatuto, também dedica três números sobre eles, a saber: 30, 53 e 57, que trata não dos membros efetivos, mas daqueles simpáticos ao carisma, porém, sem ter feito a caminhada prevista para o empenho apostólico. Essas pessoas se sentem muito felizes em dar a sua colaboração, quer seja pelas orações ou, então, como benfeitoras dos seminários, sentem alegres por cooperarem com a Missão de Cristo na União, com o seu trabalho, sua doação ou oração.

Para concluir, podemos dizer que nos Estatutos da União constam quem pode participar das suas iniciativas, como colaboradores:

1.      os cristãos (cf. art. 53-54);

2.      os crentes de outras religiões (cf. art. 55);

3.      outras pessoas de boa vontade (cf. art. 56).

No número 53 lemos: “Os fiéis católicos que, mesmo não assumindo particulares empenhos na União, desejarem de qualquer modo partilhar do seu espírito e participar de suas iniciativas, podem tornar-se seus colaboradores”. No número 57 encontramos: “As modalidades de todo tipo de colaboração são estabelecidas pelo regulamento do Conselho Nacional de Coordenação (cf. art. 71i).

Sendo assim, podemos dizer que o TODOS, no apelo de maio, continua tendo o mesmo valor ainda hoje, porém, com o Estatuto, podemos tornar visível a comunhão apostólica vivida pelos seus membros e, assim, fazermos coisas ainda mais ousadas, graças ao Estatuto e ao reconhecimento público na Igreja e na sociedade civil.

 

Para refletir

1.      O que você entendeu por Associação de fiéis?

2.      Segundo o texto, qual é a importância do Estatuto para uma associação?

3.      Para você, como deveria ser a evangelização da Igreja?



[1] Na sexta-feira, 9 de janeiro de 1835, após a Santa Missa celebrada no mosteiro Regina Coeli, Vicente Pallotti se sentiu chamado a instituir a obra do Apostolado Católico, para alcançar os seguintes objetivos: 1. Difundir a fé entre os não crentes; 2. Reavivar a fé nos católicos; 3. Exercer trabalhos de caridade”, mas, em maio do mesmo ano, ele, juntamente com os seus colaboradores, divulgou o “Apelo ao povo” (OO CC X, 196-201).

[2] Exortação Apostólica Evangelii Gaudium, do Papa Francisco, 2013, n. 20.

[3] VATICANO II, Mensagens, discursos, documentos, Paulinas: São Paulo, 1998, p. 185, n. 38.

[4] O conceito de sacerdócio comum dos fiéis é um dos pilares da eclesiologia católica contemporânea, especialmente fortalecido após o Concílio Vaticano II. Ele se baseia na ideia de que, pelo Batismo, todo cristão é incorporado a Cristo e passa a participar de sua missão como profeta, rei e sacerdote. Sacerdote: Oferecer a própria vida e as atividades diárias como sacrifício espiritual a Deus. Profeta: Anunciar o Evangelho por palavras e pelo exemplo de vida. Rei: Servir ao próximo e ajudar a ordenar o mundo segundo os valores cristãos.

 

[5] Acesso a live, dia 22/09/2021, https://www.youtube.com/watch?v=Qr-Kyd6y_J8





sexta-feira, 8 de maio de 2026


 

Tema 5: As treze procuradorias

Após termos conhecido a grandiosa obra evangelizadora da UAC, passaremos para a sua parte organizativa.

Em 1839, em Camaldoli, enquanto estava em retiro com os monges camaldulenses, Pallotti escreveu documentos fundamentais que definiram a identidade da obra, a União do Apostolado Católico (UAC). Foi nesse período que ele amadureceu a ideia de que o apostolado não era exclusividade do clero, mas um dever e direito de todos os batizados. Ele redigiu normas que buscavam organizar a vida espiritual dos membros da sua congregação, focando na caridade e na imitação de Jesus Cristo como o “Apóstolo do Pai Eterno”.

Para que tivesse bom êxito, Pallotti teve a intuição de criar centros de ação denominados “Procuras” (procuradorias). São treze no total, e treze são os Procuradores, auxiliados pelos respectivos colaboradores (membros agregados). As “Procuras” foram colocadas sob a proteção dos doze Apóstolos e criou a décima terceira sob a proteção de São Paulo, Apóstolo dos Gentios. A protetora da Sociedade é Maria Santíssima, a Rainha dos Apóstolos.

A instituição das Procuradorias tinha como objetivo prover às necessidades presentes e futuras do mundo (OO CC I, 13). O fundamento da reflexão sobre este tema é um dos pontos principais do carisma, do pensamento, da vontade e da ação de São Vicente Pallotti.

Para compreendermos o significado das treze procuradorias, criadas por Pallotti, devemos entrar no espírito de sua obra, que era de convocar todos os batizados a formarem um exército de anunciadores da boa notícia de Jesus. Essa ideia surgiu em um tempo em que a sociedade de Roma se encontrava distante da religião e a caridade era escassa. Para que isso fosse possível, necessariamente, deveria ter um grupo de apoio, para que tal desejo fosse concretizado. Sendo assim, reuniu um grupo de leigos piedosos e propôs criar uma força tarefa que pudesse colaborar com o apostolado de Jesus Cristo.

A ideia fundamental

A ideia principal das procuradorias era fundar grupos, comunidades apostólicas que pudessem responder às necessidades da Igreja universal e local e dos diversos ambientes e circunstâncias. Pallotti, ao falar da Procuradoria Geral, diz: “Onde mais em Roma do que em qualquer outra cidade é necessário que exista um grupo de pessoas zelosas, que formem como mola propulsora, que mantenham o vigor e o zelo de todos os católicos de qualquer parte do mundo” (OO CC I, 19-20). As Procuradorias, portanto, são fruto do amor, porque só o verdadeiro amor vê as necessidades dos outros e procura fazer de tudo para ir ao seu encontro.

O conceito de procuradoria

O conceito de “Procuradoria” brota da essência do carisma palotino: “Caritas Christi urget nos” (“O amor de Cristo nos impele” – 2Cor 5,14). O sentido essencial das procuradorias é que elas deveriam ser uma resposta concreta às necessidades do mundo, da Igreja e do homem (Chiamati per nome, p. 107). Porém, o projeto tal como foi idealizado nunca foi concretizado plenamente, nem durante a sua vida, nem ao longo da história da União do Apostolado Católico (UAC) e os motivos são vários.

  1. Resistência do clero: Na época de Pallotti, a evangelização era considerada uma tarefa exclusiva do clero e dos religiosos. A sua proposta “ousada e profética” de inserir os leigos ativamente na missão da Igreja gerou reações negativas entre os membros do clero da época.
  2. Contexto de crise: A implementação ocorreu em um período de profundas crises sociais, políticas e espirituais. Pallotti buscava “reavivar a fé e reacender a caridade” em um mundo que ele via como necessitado de uma resposta coletiva de todos os batizados, e não apenas da hierarquia eclesiástica.
  3. Inovação teológica: Ele teve que fundamentar sua obra na ideia de que todos os batizados, independentemente de seu estado ou dons, possuem uma corresponsabilidade na evangelização. Essa visão de que “todos são chamados a evangelizar” só foi plenamente reconhecida e validada pela Igreja muito mais tarde, durante o Concílio Vaticano II (1962-1965).

A palavra italiana “procura” (procuradoria) deriva do latim procurare e pode ter vários significados: cuidar, prover, obter, poder plenamente, representação, agir por procuração. Essa organização tinha um esquema relativamente simples. Pallotti a descreve no capítulo “Sobre a necessidade e a utilidade da instituição das Procuradorias, sobre seus progressos, sua estabilidade e sua expansão (Stawicki, p. 436).

Com as procuradorias, Pallotti instaura uma nova dinâmica de obediência, ou seja, ela não deve ser vista como uma imposição, mas como um meio de alargar a visão. Ela exige “deslocamentos”, ou seja, sair da própria zona de conforto, para buscar respostas que respeitem diferentes abordagens e sensibilidades.

Ele toma como exemplo a Família de Nazaré, modelo de unidade e local onde se trabalha em conjunto. Lá prevalecia não o eu, mas o nós. Desta forma, o trabalho na Igreja deixa de ser um projeto isolado de líderes (padres, leigos ou superiores) para se tornar uma obra comunitária. Substitui-se o espírito de domínio pela atenção voltada a Jesus e ao próximo. Portanto, a cooperação eficaz não nasce da vontade de “vencer” ou de impor uma ideia, mas do desejo compartilhado de cumprir uma missão. A unidade torna-se possível quando todos respondem, com autenticidade, aos apelos de Cristo e dos irmãos. Essa sua postura converge para o conceito atual de “Igreja sinodal e em saída”, proposto pelo Papa Francisco, onde o caminhar junto e a abertura ao mundo são as prioridades.

As treze procuradorias:

1.      A primeira, sob a proteção de São Pedro, zelará pela formação espiritual, científica e pastoral do clero.

2.      A segunda, sob a proteção de Santo André, promoverá a obra dos retiros e missões populares.

3.      A terceira, sob a proteção de São Tiago Maior, incentivará o zelo do clero, secular e regular, e do povo, pelas missões estrangeiras, imprimindo-lhes o maior impulso possível.

4.      A quarta, sob o patrocínio de São João, promoverá as obras pias dentro da cidade, a saber: oratórios, congregações, confrarias, pias uniões e associações religiosas.

5.      A quinta, sob o patrocínio de São Tomé, cuidará empenhadamente da educação religiosa, cívica e literária da juventude, masculina e feminina, especialmente da classe indigente.

6.      A sexta, sob o patrocínio de São Tiago Menor, tratará de agregar à Pia Sociedade as comunidades de qualquer espécie, e fará por manter nelas o fervor, animando-as a prestar a sua colaboração, com o fornecimento de objetos necessários ao culto e ao fomento da devoção particular do povo.

7.      A sétima, sob a proteção de São Felipe, empenhar-se-á por afervorar o zelo do clero e do povo em prol da cultura religiosa e moral dos camponeses no próprio ambiente ou nas cidades quando para aqui vierem, nos dias santos.

8.      A oitava, sob a proteção de São Bartolomeu, promoverá a prática mais efetiva das obras de misericórdia espiritual e corporal em favor dos pobres prisioneiros e dos condenados à pena de morte.

9.      A nona, sob a proteção de São Mateus, fará o mesmo a favor dos enfermos dos hóspedes e a outros, desamparados em suas próprias casas.

10.  A décima, sob o patrocínio de São Simão, velará pela mais completa formação religiosa e moral dos militares, e tratará outrossim de conservar sempre aceso e operante o zelo e a caridade dos nobres.

11.  A décima primeira, sob o patrocínio de São Judas Tadeu, propagará as várias práticas de devoção aprovadas pela Igreja, como o santo Rosário, a os diversos escapulários, a adoração perpétua, a Via Sacra, etc.

12.  A décima segunda, sob o patrocínio de São Matias, estimulará o exercício mais ativo da caridade e misericórdia em favor dos verdadeiros necessitados, também estrangeiros, de qualquer idade, sexo, estado e condição, nos casos urgentes, e distintamente, dos órfãos e viúvas, dos jovens e donzelas em perigo, e das famílias dos pobres envergonhados.

A décima terceira Procuradoria, sob a proteção de São Paulo, não tinha um campo determinado de ação, mas devia ter a preocupação por todo o mundo, para animar e incentivar as demais procuradorias (Cf. OO CC I, 369; 2Cor 11,28; OO CC I, 369-373; III, 13-15).

As motivações que levaram a criação das procuradorias

Pallotti entendeu que o apostolado não é exclusividade dos padres. Ao criar essas divisões, as “Procuradorias”, ele permitiu que um sapateiro, um conde e um bispo trabalhassem no mesmo projeto, cada um contribuindo com o que tinha de melhor. Se um hospital precisava de reforma, ele acionava a classe dos operários para a mão de obra e a dos comerciantes para os materiais. É importante salientar que este modelo de atuação na Igreja foi revolucionário para o século XIX, pois antecipou em mais de cem anos a ideia do “protagonismo dos leigos” que só se tornaria central na Igreja após o Concílio Vaticano II, pelos Documentos: Apostolicam Actuositatem (Decreto do Concílio Vaticano II, 1965): Decreto sobre o Apostolado dos Leigos, que afirma a vocação própria dos leigos de buscar o Reino de Deus tratando das coisas temporais. A Lumen Gentium (Constituição Dogmática do Concílio Vaticano II, 1964): o Capítulo IV deste documento trata especificamente dos leigos, definindo-os como parte do “Povo de Deus”.

As procuradorias: Uma rede de cooperação

Para Vicente Pallotti, a Igreja não é somente uma estrutura, um aparelho, uma instituição com seu pessoal e administração. Ela é, ao mesmo tempo, uma assembleia de irmãos, uma coletividade de fiéis, uma comunidade viva, uma família (Stawicki, p. 425).

No livro Mês de Maio, Pallotti faz Maria convidar os cristãos à cooperação: “Portanto, ó Filhos, se Deus vos fez poderosos na Terra, usai de tal poder para a propagação da Santa Fé, para conservá-la e reavivá-la entre os Católicos. Sois Nobres? Usai a vossa nobreza para a propagação da Fé” (OO CC IV, 335).

De fato, Pallotti liga as Procuradorias ao ambiente da oração e de Pentecostes, ambos indispensáveis para saber discernir os “sinais dos tempos” e para receber o dom mais divino de cooperar com Deus na salvação eterna das almas (Cf. OO CC X, 86-87; XIII, 195, 252).

As atividades promovidas pelos membros da União

As procuradorias, no tempo de Pallotti, sem dúvida, tiveram um papel importantíssimo para o desenvolvimento de muitas frentes caritativas, a saber: Pediam contribuições para combater a miséria. Distribuíam objetos sagrados para alimentar a devoção popular. Intermediavam emprego para artesãos. Ofereciam retiros para os soldados e os preparava para a páscoa. Além das missões populares e tantas outras atividades.

A partir de 1846, circunstâncias desfavoráveis ao primeiro projeto obrigaram Pallotti a concentrar suas forças na organização da Congregação dos padres e irmãos e a chamá-la de “alma e motor” de toda a União (Cf. OO CC III, 3-7)[1]. Pallotti confiou a ela a missão de portadora e realizadora do sistema das Procuradorias. O papel das religiosas do Apostolado Católico, analogamente ao dos padres e dos irmãos, consistia em animar a caridade e o zelo apostólico das pessoas de seu sexo nas comunidades religiosas e no mundo (Cf. OO CC II, 555-558). Mesmo lhes dando um papel de animadoras e inspiradoras do mundo feminino, Pallotti evita chamá-las de alma e parte motriz de toda a união. Isso porque Pallotti compreendeu que, segundo a prática da Igreja, essa tarefa só podia ser assegurada por uma associação sacerdotal. De qualquer maneira, Pallotti não deixou de sublinhar cuidadosa e explicitamente a corresponsabilidade das irmãs no objetivo de toda a União. Nesse sentido, eis um texto que mostra a paridade das duas Congregações:

“Como a Congregação dos Padres foi fundada com o objetivo de animar sempre mais o clero secular e regular, para as obras do santo ministério evangélico, num sagrado vínculo de competitiva caridade e zelo e de animar todos, de todo estado, sexo, posição e condição para as obras de caridade e de zelo da maior glória de Deus e da salvação das almas, assim, a Congregação das monjas institui-se para animar sempre mais a caridade e o zelo das pessoas religiosas e seculares do próprio sexo. Como os padres da Congregação devem estar dispostos a exercer qualquer obra do santo ministério, assim as monjas devem estar dispostas para qualquer obra de caridade e de zelo, principalmente no que se refere à educação cristã e civil das meninas pobres e à conversão e santificação das almas, mediante exercícios espirituais a pessoas de toda idade de sexo feminino” (OO CC II, 559).

Parece-nos que esse “como” e “assim”, repetidos duas vezes no texto, são um verdadeiro apelo de Pallotti a não marginalizar o mundo feminino da União do Apostolado Católico, pois também a elas foram confiadas a missão e a responsabilidade de ser “alma e motriz” da União. Mais tarde, em um esboço sobre a Congregação feminina, Pallotti precisa: “As regras delas serão substancialmente as mesmas da Congregação (dos Padres), com as análogas diversificações para as monjas. O mesmo se diga das constituições” (OO CC II, 558).

Pallotti, em 1836, escreveu: “Dentre todos os Operários (eclesiásticos e leigos), os que puderem consagrar-se inteiramente à Direção e ao regulamento da pia Sociedade, reunidos em Comunidade bem ordenada pelo vínculo de competitiva e humilde caridade, sem formarem comunidade religiosa, poderão formar o corpo central e motriz da pia Sociedade” (Cf. OO CC IV, 355. 399. 436; V, 47. 59. 76).

As Procuradorias, evidentemente, foram concebidas como uma rede e lugar de cooperação de todos – padres, religiosos, leigos, homens e mulheres de todas as culturas, línguas e nações – para responder, em todos os campos, às necessidades do tempo e do lugar e com todos os meios oportunos e necessários. Pallotti queria também as Procuradorias como um espaço que permitisse a todos alcançarem as profundezas, onde o particular se abre ao universal. Em outras palavras, as Procuradorias de Pallotti eram as portadoras da catolicidade, ou seja, de um sopro de abertura, de diálogo e de universalidade.

Para Vicente Pallotti, os termos “meios oportunos e necessários” são a chave mestra de sua prática missionária. Ele não era um teórico abstrato; ele era um homem de ação que entendia que a caridade precisa de ferramentas concretas para funcionar. Em outras palavras, esses meios representam a logística da fé.

1. O que são os Meios Necessários?

São os recursos fundamentais sem os quais a missão simplesmente não acontece. Pallotti tinha uma visão muito realista de que “não se evangeliza de barriga vazia”. Para ele, isso incluía:

  • Recursos Financeiros: Dinheiro para sustentar órfãos, escolas e missões.
  • Estrutura Física: Casas de caridade, Igrejas e oficinas de trabalho.
  • Pessoas: O capital humano (leigos, padres e religiosos) disposto a trabalhar.
  • Conhecimento: A formação teórica e técnica para realizar o bem com eficiência.

2. O que são os meios oportunos?

Aqui entra o gênio estratégico de Pallotti. O “oportuno” é aquilo que se adapta ao tempo, ao lugar e às circunstâncias. Ele acreditava que a Igreja deveria usar as ferramentas do seu tempo.

  • Comunicação: Se no século XIX o meio oportuno era a imprensa e os folhetos, hoje Pallotti certamente estaria usando a internet.
  • Inovação: Ele criava escolas noturnas para operários porque, naquele momento, era a oportunidade de integrar educação e fé para quem trabalhava o dia todo.
  • Flexibilidade: O meio oportuno é o “remédio certo para a ferida aberta agora”. Se a necessidade do momento era o combate ao cólera em Roma, esse era o meio oportuno, e não apenas a oração contemplativa.

O ideal das procuradorias

Se quisermos ser fiéis ao carisma de Pallotti, devemos também olhar com fé e com amor o mundo de hoje e reconhecer os sinais dos tempos, as atuais necessidades das pessoas e procurar responder a elas. Este encargo é dever de todos os membros e associados da UAC, especialmente os seus responsáveis.

As indicações particulares dadas por Pallotti, a respeito da organização das Procuradorias, requerem modificações e adaptações aos nossos tempos e à legislação eclesial. Permanece, porém, imutável e sempre atual a ideia essencial: a construção de comunidades-grupos, instituições que possam responder às necessidades do mundo, da Igreja e do homem de hoje. O número e o tipo de procuradorias dependem das necessidades atuais: tantas necessidades, tantas procuradorias.

As necessidades são muito diversas nas diferentes partes do mundo, nos diferentes ambientes. Existe, portanto, a necessidade de criar procuradorias adaptadas às necessidades concretas. Existem, no entanto, necessidades universais, as quais surgem em todos os ambientes. Poder-se-ia, portanto, propor a instituição de procuradorias com base em uma linha de necessidades universais, tais como:

1.      A evangelização, as missões populares, a reevangelização;

2.      O ecumenismo;

3.      A construção e salvaguarda da justiça, da paz e do amor;

4.      Atingir as periferias existenciais;

5.      O trabalho com as famílias;

6.      As obras vocacionais.

As diversas Procuradorias podem colaborar entre si e podem trabalhar autonomamente. As procuradorias, vistas à luz do carisma de Pallotti, podem ser um ótimo lugar para realizar a vocação apostólica e a maturidade humana da pessoa. Pois, a condição fundamental para o desenvolvimento do ser humano é a abertura ao amor.

O caráter caritativo das Procuradorias, já por sua natureza, favorece o desenvolvimento do amor que não busca o seu próprio interesse, mas tudo suporta... (cf. 1Cor 13). Porém, é preciso direcionar as nossas ações às necessidades concretas da Igreja e do homem, para favorecer o desenvolvimento autêntico do amor, que se baseia justamente nas necessidades concretas e não envolve apenas discussões teóricas (Chiamati per nome, p. 108).

O caráter missionário das Procuradorias favorece também o desenvolvimento da criatividade de uma autêntica comunidade apostólica. A atividade autêntica do grupo e a colaboração com outros grupos garantem o escopo caritativo e defendem do egoísmo e do individualismo.

O caráter comunitário favorece também o desenvolvimento da pessoa, porque esta pode se desenvolver e se realizar de modo autêntico, somente na comunhão com os outros e com Deus.

Outra oportunidade que as Procuradorias oferecem para o desenvolvimento do ser humano é a realização dos diversos carismas de cada um, segundo o dom que recebeu (cf. Rm 12,8). A diversidade das Procuradorias oferece a possibilidade de trabalhar segundo os nossos carismas pessoais.

Por fim, podemos dizer que o mistério do Cenáculo está muito ligado às Procuradorias e é modelo para todas as comunidades da União do Apostolado Católico. Assim, como em Jerusalém, na comunidade dos primeiros discípulos, o Cenáculo é a fonte dos dons do Espírito e o lugar da maturação dos apóstolos. Também hoje, o mesmo mistério pode dar ao homem o dom da plenitude da vida cristã.

 

Para refletir

  1. O que eram as procuradorias idealizadas por Pallotti?
  2. Por que razão Pallotti não conseguiu implementar esse seu projeto de evangelização?
  3. Como podemos atualizar, em nossas comunidades, esse modo de evangelizar?

 



[1]Pallotti chama a Congregação dos padres e irmãos coadjutores tanto de “alma e parte motriz da pia Sociedade” quanto “parte central e motriz da pia Sociedade”. Atribui, ainda, um papel semelhante ao da décima terceira Procuradoria, ou seja, o cuidado pelo conjunto, o papel inspirador, a vigilância por uma cooperação harmoniosa.


terça-feira, 5 de maio de 2026



Tema 4: O espírito de cooperação na UAC 

Dando continuidade aos ensinamentos deixados pelo nosso santo fundador, São Vicente Pallotti, hoje vamos tratar sobre O Espírito de cooperação na UAC. Iluminado pelo Espírito Santo, Pallotti visualizou a Igreja como um corpo onde cada membro, do mais simples ao mais instruído, possui um papel vital. A cooperação, portanto, surge como a expressão máxima do amor cristão em sua obra: Amai-vos como eu vos amei (Cf. Jo 13,34-35). Este texto busca detalhar as raízes dessa colaboração fraterna, que ele estabeleceu como pilar para multiplicar os esforços em favor da glória de Deus e da salvação das almas.

É importante salientar que Padre Vicente sempre viu a pessoa humana como alguém que pode cooperar com a obra redentora de Cristo. Aliás, o ser humano se conhece a partir do amor infinito de Deus que se reflete nele. O Livro do Gênesis, por sua vez, apresenta o homem como imagem e semelhança de Deus e como alguém capaz de gerenciar toda a Sua obra (Gn 1,28-31). Com essa consciência, Pallotti intuiu que o apostolado universal é uma obra exclusivamente divina e que a cooperação é imprescindível para a evangelização da Igreja.[1]

Segundo ele, a cooperação reside na ideia de que as iniciativas apostólicas pessoais se tornam mais eficazes e atingem um impacto maior se forem realizadas em colaboração e destinadas ao objetivo comum de difundir o Evangelho.

Muitos autores, que escrevem sobre Pallotti, tratam somente sobre o tema da imitação de Cristo na vida e nas atividades apostólicas. Poucos são os que apresentam essa imitação como cooperação com Deus na salvação da humanidade. Segundo o Pe. Stanislaw Stawicki, é exatamente isso a originalidade do conceito palotino de seguimento de Cristo, colaborar com Deus na obra da salvação. Para o santo, isso não é somente uma estratégia pastoral da Igreja, mas é uma arte, um dom que permite criar e inovar, sem desafiar a Igreja. A maior graça de Deus feita ao homem é o chamado à cooperação em sua própria salvação e a de todos os seres humanos: “Eu vim para que todos tenham vida e a tenham em abundância” (Jo 10, 10); (Stanislaw Stawicki, pp. 407-409).

Originalmente, Pallotti chegou a definir a União com três classes de membros, demonstrando a diversidade da cooperação:

  1. Operários: Agentes apostólicos, como padres, irmãos, irmãs e leigos incorporados.
  2. Coadjutores espirituais: Que colaboravam com a oração.
  3. Coadjutores temporais: Que colaboravam com recursos materiais.

 Na visão de Pallotti, ninguém é tão pobre que não possa enriquecer o próximo (com o seu apostolado, oração, talentos) e ninguém é tão rico que não precise da ajuda dos outros. Isso reforça o sentido de interdependência e de cooperação mútua. A cooperação, no carisma palotino, nada mais é que o esforço coordenado de todos os batizados, para cumprir a missão de Jesus Cristo na Igreja e no mundo, reconhecendo que o apostolado é um chamado universal, ou seja, de todos.

O método utilizado pelo apostolado católico

O maior sonho do nosso fundador foi o de ver uma Igreja unida, a exemplo dos primeiros cristãos, que colocavam os seus bens em comum e distribuía conforme a necessidade de cada um (At 2, 42-47). Uma característica especial do apostolado da União é a colaboração entre os próprios membros (OO CC IV, 124 s., 389, 393, 477; OO CC V, 122); com todas as outras pessoas que realizam o apostolado (OO CC I, 3 s.; OO CC IV, 32), e a colaboração com os destinatários do apostolado (OO CC I, 5 s., 50 s.; OO CC III, 2; OO CC IV, 123, 318 s., 389 s., 414; OO CC V, 143 s.; OO CC VII, 14).

Pallotti assim exortava: “Coopere o máximo que puder para tornar conhecido o Pai, o Filho e o Espírito Santo, os Mistérios da Redenção e a mais santa lei do Evangelho. Você é rico em bens terrestres? Use-o o máximo que puder para multiplicar os meios oportunos para a propagação da Santa Fé, pois, dentre todas as perfeições divinas, a mais divina é cooperar com Deus na saúde das almas... pensem, filhos, que, no momento da sua morte, para nada servirá o poder, a nobreza, a doutrina e nenhum outro bem terreno se não os aproveitou para os fins que levem a Deus” (OO CC IV, 477-478).

Portanto, a “Pia Sociedade foi instituída não apenas para promover os meios de oração, mas também quaisquer outros meios necessários para esse fim. Ela estimula a caridade cristã entre todas as classes de pessoas, da qual ninguém está isento de exercê-la de acordo com a possibilidade, estado, grau e condição...” (OO CC IV, 318).

O método da colaboração está fundamentado na lei do amor, ou seja, amar a Deus de todo o coração, amar a nós mesmos e amar os outros como a nós mesmos e, ao mesmo tempo, fazer de tudo para ver neles a imagem e semelhança de Deus, Trino. Diante disso, não importa se ele é o nosso inimigo, ou amigo, católico ou herege, pagão ou incrédulo, cristão ou judeu, cidadão ou estrangeiro. Ele será sempre o nosso próximo, por isso devemos amá-lo, como a nós mesmos, por amor a Deus (OO CC III, 152). Segundo São João, no amor não tem temor: “O amor perfeito lança fora o medo, pois o medo tem consigo a pena e quem teme não é perfeito em amor” (1Jo 4, 18). Para São Paulo: “Não fiqueis devendo nada a ninguém, a não ser o amor mútuo... O amor não faz nenhum mal contra o próximo” (Rm 13, 8.10).

Pallotti não era um sonhador ingênuo que idealizava a cooperação, minimizando a sua dimensão histórica. A cooperação para ele não é desencarnada. Ele sabia que o caminho para ela passava pelo combate, muitas vezes. Para cooperar verdadeiramente para a glória de Deus e para a salvação das pessoas, é preciso que o homem peregrino se engaje no combate, como aquele apresentado por São Paulo: “Combati o bom combate, terminei a corrida, guardei a fé” (2Tm 4, 7). Para Pallotti, a cooperação deve ser constante, corajosa, perseverante, enérgica, laboriosa, fervente e zelosa. A cooperação comporta também provas e sofrimentos. Por isso, ela é colocada frequentemente à prova e requer das pessoas certo consentimento ao sofrimento, para enfrentar as resistências das pessoas. Ele tinha plena consciência de que nem sempre as pessoas cooperam para o bem, principalmente quando elas sentem ciúme, fechamento e desejo exclusivista (cf. OO CC IV, 134; OO CC V, 218-219; OO CC XII, 420-421; 425-427).

Segundo o Pe. Stawicki, Pallotti, em seus escritos, não expõe somente a doutrina sobre a cooperação, para suscitar em todos os cristãos a vontade de cooperar nas obras e nos objetivos da Pia Sociedade, mas, ele apresenta igualmente vários modelos e exemplos de cooperação, a saber:

  1. Amplidão ilimitada, já que o seu fundamento se encontra no próprio Deus Uno e Trino. Ela não concerne somente às pessoas entre si. É um trabalho humano, mas em Deus. Parece-nos que é nesse aspecto que se situa a originalidade radial da cooperação na Igreja segundo Pallotti. Ela se liga à fé teologal, uma vez que Deus, em sua natureza, é cooperação e princípio dela entre as pessoas.
  2. A sua fonte é a comunicação recíproca do Pai e Filho no Espírito Santo.
  3. O seu termo está para além da história, na plena “participação da glória de Deus, por toda a eternidade” (OO CC XI, 259). (Stawicki, p. 7)

De fato, Vicente declara querer cooperar sempre, até mesmo depois da morte (Cf. OO CC V, 210-211). Em sua oração, ele manifesta a Deus o desejo de cooperar plena, eficaz e eternamente em todas as empresas da Sua maior Glória e da Salvação das Almas, e de cooperar com tanta plenitude como se, desde toda a Eternidade e por toda a Eternidade, tivesse cooperado e cooperasse em todas as empresas evangélicas passadas, presentes, futuras e possíveis que tivessem sido e seriam necessárias para impedir todos os pecados, até os mais leves, e para salvar todas as almas (Cf. OO CC X, 280).

Essa maneira de viver a obediência na Igreja e na comunidade permite, certamente, o alargamento da visão, a introdução de uma dinâmica de deslocamentos necessários, para operar na busca de respostas que respeitem as diferentes abordagens e que, consequentemente, podem ser levados em conjunto. O “trabalhar juntos” não é mais o projeto dos superiores, de um padre, de um leigo; não é mais uma obra individual, e sim de uma comunidade que se torna verdadeira família, como aquela de Nazaré. Pois, Nazaré é sempre o lugar onde as pessoas buscam viver e trabalhar unidas. Eis uma das chaves da cooperação bem-sucedida. Trata-se de sair do espírito de domínio e do face a face para voltar os olhos a Jesus e aos outros. Sendo assim, a cooperação não se torna uma preocupação de querer vencer sozinho, mas um desejo de cumprir uma missão juntos (Stawicki, p. 412, nota n. 31; 421).

Finalmente notamos que, como no caso da Trindade, Pallotti dirige sua atenção para cada uma das pessoas que a compõe. O exemplo eminente da cooperação é evidentemente o de Jesus, o cooperador do Pai por excelência, que veio ao mundo para cumprir a obra da redenção. Pallotti sublinha, muitas vezes, que o homem que entra na dinâmica da cooperação persegue a missão de Cristo (Cf. OO CC II, 4; III, 139; 177-178; IV, 337). Um outro modelo de cooperação na salvação das almas é São José. Colocando as palavras nos lábios de Maria, Pallotti exorta: “Tendes o exemplo disso de meu esposo, José, que, mesmo sendo carpinteiro de profissão, no seu estado e condição, em meio a dificuldades, sofrimentos, pobreza e perseguições, fez quanto pôde para cooperar na redenção das almas” (OO CC IV, 338). Stawicki, p. 12.

A cooperação é a alma do apostolado

Pallotti sonhava com uma Igreja que estivesse à altura dessa vocação e missão. Segundo ele, a natureza mesma da Igreja exige a cooperação entre todos os membros do povo de Deus. Felizmente, com o Concílio Vaticano II, aquilo que era um sonho, agora, tornou-se realidade para toda a Igreja. Assim encontramos na Gaudium et Spes, n. 2: “Em virtude de sua missão (...) a Igreja torna-se o sinal daquela fraternidade que permite e consolida um diálogo sincero. Isto, porém, requer, em primeiro lugar, que promovamos no seio da Igreja a mútua estima, respeito e concórdia, admitindo toda diversidade legítima, para que se estabeleça um diálogo cada vez mais frutífero entre todos os que constituem o único Povo de Deus, sejam os pastores, sejam os demais cristãos...”.

Pode-se dizer que, hoje, a Igreja não pode ser sinal de fraternidade universal senão vivendo, ela mesma, a cooperação e o diálogo sincero. Pallotti, no seu tempo, de maneira criativa criou um imenso projeto, o das “Procuradorias” (treze frentes de trabalho, para coordenar os esforços de evangelização e da caridade em diferentes áreas), considerado por um dos seus membros, Rafael Melia, como o “coroamento de toda a sua obra”. Mas, qual foi a razão dele criar as procuradorias? Foi unicamente para abrir um espaço de cooperação e permitir, assim, que todos os cristãos pudessem ter parte ativa na vida da Igreja.

A catolicidade da Igreja

Pallotti utilizou exaustivamente dois adjetivos para descrever a sua fundação: “apostólico” (2.060 vezes) e “católico” (2.200 vezes). Com a palavra “apostólico”, ele evoca tanto as atividades, quanto as virtudes daqueles que se esforçam por meio das orações, da propagação da fé e da caridade, colocando seus talentos a serviço da Igreja e da humanidade. Ele utilizou, muitas vezes outras expressões, tais como: “zelo apostólico” (Cf. OO CC I, 159; 196; 203), ou “espírito apostólico” (Cf. OO CC I, 194; 206; II, 110), “homem apostólico” (Cf. OO CC I, 194; II, 548) e “ministério apostólico” (Cf. OO CC I, 193; III, 31). Evidentemente, esses adjetivos conheceram uma evolução muito grande ao longo da história da Igreja. Porém, para Vicente, essa evolução complexa permanece sempre unificada pela referência a Cristo, Apóstolo do eterno Pai, como encontramos na Carta aos Hebreus: “Por isso, irmãos santos, participantes da vocação celestial, considerai a Cristo Jesus, apóstolo e sumo sacerdote da fé que nós professamos” (Hb 3,1; Jo 20,21) e pelos que Ele mesmo enviou (Lc 10,1-12).

A palavra católico significa primeiramente “universal”. Esse é, ao menos, o sentido que Pallotti dá mais frequentemente a essa palavra (Cf. OO CC III, 143; 183; I, 4-5). Mas, “universal” não exprime perfeitamente o conteúdo de “católico”. Este comporta um sentido, muitas vezes, mais rico e concreto. Por isso, Pallotti prefere usar “católico” em vez de “universal”; isto porque a palavra católico quer dizer “com todos”. Outro motivo é porque os cristãos não podem ser encerrados em particularismo algum, pois católico significa “ordenado para o universal”, voltado para “o todo” – não no sentido de uma totalidade, mas no de uma superação dos particularismos (Cf. OO CC III, 183).

Para São Vicente, a catolicidade é a capacidade universal de unidade, de assimilar, de plenificar, de ganhar para Deus, de reunir e de consumar nele todos os seres humanos e todo o valor humano. Ela não pode acarretar um nivelamento das culturas, das línguas e dos ritos. Segundo ele, a catolicidade é um dom de Deus que se abre, progressivamente, a cada época, meio, língua e cultura.

Uma segunda acepção de católico, no pensamento de Pallotti, trata-se evidentemente da expansão geográfica da Igreja, já que ela está destinada a se estender a todas as nações, como nos afirma São Marcos: “Ide por todo mundo e pregai o evangelho a toda a criatura” (Mc 16, 15). Segundo ele, toda missão na verdadeira Igreja de Jesus Cristo é católica, ou seja, para todos indistintamente (Stawicki, p. 430).

Pallotti sugere essa dinâmica no seu Apelo de Maio, onde ele precisa explicitamente: “Assim, na obra do Apostolado, não entra em questão se alguém contribuiu com pregação, com oração, com subsídios ou com exercício de ministério eclesiástico, nem se contribuiu com sua arte, com sua posição social e influência. Vale o zelo e o fervor com que cada qual, no nível que lhe cabe, se presta” (OO CC IV, 137).

Por isso, desenvolvendo o conceito de apostolado universal, Pallotti não insiste nas estatísticas, mas na qualidade dos sinais postos pelos cristãos e principalmente no seu “zelo universal” (Cf. OO CC I, 371; II, 265; VII, 264), “o engajamento universal” (OO CC I, 153; II, 40; VII, 48), “a oração universal” (OO CC I, 153; IV, 151, 272, 358, 401), “a caridade universal” (OO CC II, 236; III, 11; V, 236; VII, 237; X, 199), “a obediência universal” (OO CC II, 90-92; III, 49, 71; VII, 98, 100-101) e no dever de tecer a “cooperação universal” (OO CC I, 50-51; V, 351; III, 193; IV, 19-20, 260, 276, 292-293; VII, 58; XI, 327), superando todas as fragmentações e se abrindo, assim, à unidade na diversidade.

Como já foi mencionado acima, a palavra “todo” não deve ser entendida no sentido de uma totalidade, mas no de superação dos particularismos e das divisões eclesiais entre leigos e clero, entre religiosos e seculares (Cf. OO CC III, 4). Por isso Pallotti quer, por exemplo, que a Congregação dos padres e irmãos palotinos se tornem “um ponto de união entre o clero secular e regular” e que toda a União seja, “para sempre, na Igreja de Jesus Cristo, como uma trombeta evangélica, que chame e convoque a todos os fiéis, de todos os estados de vida, posição e condição social, despertem o zelo e a caridade em todas as nações (Stawicki, p. 434).

O apostolado, na visão de Pallotti, não é um privilégio apenas dos doze apóstolos. De acordo com o Pe. Achylle Rubin: “Pallotti não fez uma teologia do apostolado dos leigos, mas simplesmente do apostolado da Igreja. Se houve maior empenho em argumentar em favor do apostolado dos leigos, isso só aconteceu porque os leigos são a maioria na Igreja e a compreensão do significado do apostolado dos leigos era deficiente e se tornava, por isso, necessário um esclarecimento teológico.[2]

De fato, mesmo que Pallotti tenha chamado a sua União de “corpo auxiliar da Igreja”, ele nunca chamou os leigos de “auxiliares da hierarquia”. Chama-os, pelo contrário, de “pessoas inspiradas pelo Evangelho”, “cristãos zelosos”, “leigos piedosos”, “irmãos da pia União do Apostolado Católico” (OO CC IV, 1-8; XIII, 365). Ele sempre apela para a responsabilidade pessoal de todos os cristãos, seja padre ou leigo, religioso ou secular: “porque todos são chamados e obrigados a imitar o apostolado de Jesus Cristo, na sua própria condição e estado” (OO CC III, 142); “todos, na respectiva posição, condição ou estado, podem, de uma ou de outra forma, sempre com mérito, exercer o apostolado de Jesus Cristo” (OO CC IV, 327).

De fato, para Vicente Pallotti, o apostolado dos leigos não é uma usurpação nem uma substituição ou uma ação paralela ao daquele fundado no sacramento da ordem. O apostolado católico é uma responsabilidade comum de todos os cristãos: “talvez pudesse alguém achar que ninguém possa ter o mérito do apostolado sem ter o ofício de pregar. Pensar deste modo seria, porém, errado. Reparai (...) em nossa Mãe Maria. Sem pregar, ela não só tem o mérito comum dos Apóstolos, mas dos próprios Apóstolos é Rainha. Como tal é saudada pela Igreja de Jesus Cristo, como Rainha dos Apóstolos, porque, na medida em que lhe foi possível, em sua condição e circunstâncias, cooperou na propagação da santa fé. E porque também nisto agiu com tal perfeição que, de muito longe superou os Apóstolos, aquele Deus, que atenta para as disposições do coração das suas criaturas, elevou-a à dignidade e à glória de Rainha dos Apóstolos, pois reconheceu a sua dignidade” (OO CC IV, 180-181).

Considerando a época e as circunstâncias nas quais esse texto foi escrito, não se pode deixar de admirar a liberdade de espírito, o realismo pastoral e o senso de Igreja que animam Pallotti. Com efeito, o apostolado de todos, na escola de Pallotti, é uma responsabilidade comum que supõe que os fiéis leigos sejam também estabelecidos em cargos vitais para uma “Igreja enviada no mundo deste tempo”. Isto contrastava com a visão de apostolado tido pela hierarquia da Igreja, a saber: o Papa Pio X via os leigos como “auxiliares do clero”. Pio XI declarou a Ação Católica como a “participação dos leigos no apostolado da hierarquia”. Pio XII “teve a prudência” de substituir a “participação” dos leigos pela simples “colaboração” no apostolado da hierarquia.

Quanto ao modo de pensar de Pallotti, ele estava muito mais próximo ao do Concílio Vaticano II que não procurou promover os leigos, mas exprimiu mais uma vez a identidade da Igreja como totalidade de fiéis em Cristo. O Capítulo II da Lumen Gentium expressa esta realidade, apresentando a Igreja como “Povo de Deus”.

De fato, Pallotti teve a intuição de fundar a responsabilidade de todos na corresponsabilidade diferenciada: “na obra do Apostolado, não entra em questão se alguém contribuiu com pregação, com oração, com subsídios ou com exercício de ministério eclesiástico, nem se contribuiu com sua arte, com sua posição social e influência.

No dia 1 de setembro de 1963, o Papa Paulo VI, por ocasião de sua visita a Igreja de Frascati, na sua fala evocou as ideias e a ação de Pallotti que despertaram na Igreja a consciência do laicato católico: assim disse ele: O objetivo da minha peregrinação é incentivar a “grande lição oferecida por São Vicente Pallotti ao mundo de hoje, também aqui, e especialmente aqui, onde ele celebrou a primeira Missa e onde escreveu e entregou ao futuro as regras da sua Instituição, tenha, como herança, um novo e belo florescimento de egrégias iniciativas”. Continua o papa: “Hoje é já algo evidente – e Sua Santidade quer, também ele, prestar homenagem à conclusão da biografia tão interessante e tão edificante do Santo – a certeza de que S. Vicente Pallotti foi um precursor. Ele antecipou, de quase um século, a descoberta – é injusto, talvez, para a tradição cristã dizer esta palavra, mas é necessário sermos realistas e usá-la – a descoberta que também no mundo dos leigos, até então passivo, adormecido, tímido e inábil para se exprimir, há uma grande capacidade de bem. (...) Ele construiu, assim, aquela ponte entre o clero e o laicato, que é uma das vias mais percorridas pela espiritualidade moderna, uma das vias que dão maior esperança à Igreja de Deus. (...) Estamos no período sucessivo à Revolução Francesa com todos os desastres, as ideias desordenadas e caóticas e, ao mesmo tempo, frementes e ainda confiantes, que aquela revolução tinha incutido nos homens do século antecedente. Havia grande necessidade de colocar ordem e, se diria, de o estatizar, torná-lo firme como deve ser (Stawicki, p. 434, nota n. 213).

Em suma, podemos dizer que o nosso santo fundador esteve muito à frente do seu tempo. Ele percebia algo que ninguém tinha a capacidade de perceber, naquele momento. Mas Deus, no momento oportuno, iluminou a Igreja para que, realmente, pudesse viver o mandato de Cristo: “Ide, pois, e ensinai a todas as nações, batizai-as em nome do Pai e do Filho e do Espírito Santo. Ensinai-as a observar tudo o que vos prescrevi” (Mt 28, 19-20). Deus em tudo e sempre!

 

Para refletir

  1. O que significa cooperar com a obra apostólica?
  2. O que Pallotti entendia por catolicidade da nossa Igreja?
  3. Pallotti desejou que toda a União fosse, na Igreja de Jesus Cristo, como uma trombeta evangélica. O que realmente ele quis dizer com isso?

 



[1] Stanislaw Stawicki. A cooperação, paixão de uma vida. Biblos: Santa Maria, 2007, pp. 173-175.

[2] Achylle Alexio RUBIN, “L’Apostolato Aattolico nella realtà ecclesiale del nostro tempo” in ACTA-SAC, vol. IX, 1979, p. 320.