domingo, 30 de agosto de 2026

 


Tema 14: CAMINHOS DE SANTIDADE

 A Igreja Católica trata a santidade como algo comum a todos os fiéis, frequentemente chamada de “vocação universal à santidade”. Isto encontramos na Constituição Dogmática do Concílio Vaticano II, Lumen Gentium. Este Documento superou a ideia histórica de que a santidade era reservada prioritariamente a padres, freiras ou religiosos. O Concílio reafirmou que todos os batizados, qualquer que seja o seu estado de vida ou profissão, são chamados à plenitude da vida cristã e à perfeição da caridade. O Documento Gaudete et Exsultate (Exortação Apostólica do Papa Francisco, 2018) destaca que para ser santo não precisa ter tido grandes êxtases ou atos extraordinários, mas sim viver com amor e dar testemunho cristão nas ocupações diárias: na família, no trabalho e na comunidade. No Documento Christifideles Laici (Exortação Apostólica do Papa João Paulo II, 1988) reforça que os leigos não precisam “fugir do mundo” para se santificarem; pelo contrário, a santidade do leigo se realiza justamente no engajamento com as realidades temporais (política, economia, cultura, família e trabalho). Para o Catecismo da Igreja Católica, a santidade é um crescimento na graça trazida pelo Batismo e que o caminho da perfeição passa, necessariamente, pela união com Cristo e pelo exercício da caridade.

Para compreendermos como os santos percorreram os seus caminhos de santidade, é preciso desmistificar a ideia de que eles nasceram prontos ou imunes a falhas. Antes de tudo, a santidade não deve ser vista com a ausência de erros, mas uma persistência no amor e uma resposta generosa à graça divina. Embora cada trajetória seja única, existem “pontos” comuns que definem esse percurso. A maioria dos santos experimentou um momento de ruptura ou de “despertar”. Para alguns, foi algo dramático (como São Paulo no caminho de Damasco – At 9,4-8); para outros, foi um processo lento de amadurecimento (como Santa Teresinha). O ponto comum entre eles é a decisão de colocar Deus como centro da vida, movendo-se do “eu” para o “nós”.

Não existe santidade sem uma conexão profunda com a fonte, que é Deus. Os santos buscavam a oração não como uma obrigação, mas como uma necessidade vital. Por isso, sentem a necessidade da contemplação da Palavra de Deus, da Eucaristia e dos momentos de silêncio para ouvir a voz interior.

Os santos eram profundamente realistas sobre suas próprias limitações. Eles entendiam que a santidade não é mérito próprio, mas é obra de Deus neles. Por isso, reconhecem e aceitam as suas fraquezas e não tem medo de enumerá-las. A santidade vai ocorrendo na medida em que se desapegam do seu próprio eu, da vaidade e do controle excessivo sobre a própria vida. A santidade não se apresenta de maneira isolada, mas é o transbordamento de amor em relação a Deus e ao próximo. Na verdade, o caminho de santidade é pavimentado pelo serviço abnegado. Assim muitos se santificaram, como por exemplo:

1.      São Vicente Pallotti: Viu a caridade e o apostolado como a forma mais pura de imitar a Deus.

2.      São Francisco de Assis: Encontrou o Cristo nos pobres e na criação.

3.      Santa Teresa de Calcutá: Viveu a santidade no toque aos “mais pobres entre os pobres”.

4.      São João da Cruz: Despojar-se interiormente, para alcançar a união transformante com Deus.

5.      Santa Teresa D’Ávila: A santidade não é um conjunto de regras rígidas ou demonstrações externas de piedade, mas é amizade e intimidade com Deus. Ser santo é deixar-se transformar pelo amor de Deus até que Cristo viva plenamente na alma, gerando uma vida repleta de humildade, liberdade interior e serviço amoroso aos outros.

A perseverança nas “noites escuras”

Muitos santos passaram por períodos de aridez espiritual, dúvidas e sofrimentos intensos (a famosa “Noite Escura da Alma” de São João da Cruz). O diferencial do santo é que ele continua caminhando, mesmo quando não sente a consolação de Deus. A santidade é, acima de tudo, fidelidade em tempos de aridez espiritual.

Em relação a Pallotti, a presença ativa e constante do amor de Deus é a razão psicológica e teológica da sua partida velocíssima no caminho de perfeição e da conquista de metas muito raras. A sua doutrina consiste: o segredo de uma vida santa está no amor de Deus. Não faça nada sem o amor de Deus. Se não tem o amor em Deus, todos os atos objetivamente virtuosos se tornam egoísmo e vaidade. Os meios de santificação, utilizados por Pallotti, para extirpar os vícios e cultivar as virtudes são: a direção espiritual, os exercícios de piedade, as práticas de penitência, o exame de consciência, as meditações, o recolhimento, o confronto com a Palavra de Deus, as leis da Igreja e o exemplo dos santos, mas a vastidão ou a decisão de seus propósitos é a profundidade da fé, esperança e caridade. Elas dão um ritmo privilegiado à sua marcha.

O segundo elemento que caracteriza a autenticidade do itinerário de santificação de Vicente Pallotti é a tradução, quase que automática, do amor de Deus em amor ao próximo. A prova da autenticidade do amor a Deus é a sinceridade do amor ao próximo. Quem não dá nada ao homem do qual vê a sua necessidade, como pode comover-se por Deus ao qual não vê? A santidade, portanto, não consiste em fazer coisas extraordinárias, mas em fazer extraordinariamente bem as coisas comuns por amor a Deus.

O terceiro elemento que garante a autenticidade do caminho de santidade de Pallotti é a sua profunda e cordial insatisfação por aquilo que ele é e o que faz. Esta é também uma das marcas da sua espiritualidade, pois, segundo ele, um homem satisfeito consigo mesmo não pode ser santo. Olhando para si mesmo, Pallotti fica espantado por aquilo que ele é, porque se julga como alguém que foi feito à imagem de Deus, pois a santidade de Deus é a medida para que o homem também possa tornar-se santo (cf. OO CC X, 751; 748; 482-483; OO CC X, 51; 112). Para ele, precisa respirar Deus: “Procurai-o e o encontrareis. Procurai-o em todas as coisas e o encontrareis em tudo. Procurai sempre e o encontrareis sempre” (Lettera 382).

O cultivo espiritual

Vicente Pallotti, que tinha dedicado a existência ao serviço de Deus e ao ministério em favor do próximo, cultivou, pois, uma atitude de profunda adoração de Deus e de Jesus Eucaristia e de veneração para com Maria, os Anjos, os Santos e os justos. A vivência do mistério eucarístico o levou a uma configuração a Cristo, onde sua vida, suas atitudes, seu apostolado fosse a vida do próprio Cristo (cf. Gl 2,20). Essa perfeição, porém, só pode ser encontrada no Cenáculo. Através de seu exemplo, Pallotti nos impulsiona a nutrir um profundo amor pela Eucaristia, fonte de graças e de bênçãos para todo apostolado.

A oração era o centro da vida de Pallotti. Recomendava a todos: oração, oração, oração, para alcançar a submissão da vontade ao querer divino (cf. OCL I, 7;12;25;35;53). A oração cria um clima de santidade nos grupos que se dedicam à ação apostólica. Ele se preocupava, para que a oração dos leigos fosse mais profunda. Ainda jovem, traçou para as famílias cristãs um programa de orações, que incluía uma breve meditação diária, alternando a da paixão de Cristo com uma, sugerida pelo livro das Máximas Eternas de Santo Afonso, oração do rosário, das ladainhas etc. (Todisco, p. 167).

Vicente Pallotti, ao longo de sua vida pessoal e de sua ação pastoral, fez uso de muitas orações. Ele tomou orações de autores espirituais, as quais ou usou em sua integridade original ou modificou ao sabor da própria espiritualidade e do próprio zelo apostólico. A maior parte de suas orações foi composta por ele mesmo. Embora a linguagem e a mística de sua época possam parecer distantes ou complexas para nós hoje, mergulhar em suas orações é essencial. Elas oferecem um vislumbre valioso da intensidade, do vigor e da profundidade de sua vida interior, revelando a força de sua espiritualidade.

A vida interior de Pallotti era um constante e ininterrupto impulso para Deus infinito, imenso e incompreensível, para o Deus que é Amor. Deus infinito quer atrair tudo a si e a alma, arrebatada e fascinada por esse Deus, do qual é imagem, dá a sua resposta. Este impulso para o Deus infinito transforma a vida e a realidade: o mundo, os seres humanos e todas as criaturas participam deste movimento para Deus amor infinito.

A vida contemplativa de Pallotti manifestou-se cedo, aos vinte anos, inserindo-o em uma união profunda com o Deus infinito. Diante da luz da santidade de Deus, ele experimentou de forma dolorosa a própria fragilidade e o “abismo do pecado” que habita na humanidade, identificando-se com a figura bíblica do “homem do pecado”. Ele também intuiu o caráter profundo e tenebroso do mal, sentindo-se, por vezes, “pior que o nada”, perante a perfeição divina. Por isso, traçou como meta espiritual a transformação total em Jesus Cristo. Ele buscava que o Amor de Deus, que é comunicativo por natureza, se difundisse no abismo de sua miséria. Ao reconhecer o seu próprio nada, ele se lança inteiramente à torrente da misericórdia divina, onde a transformação e a gratidão se tornam possíveis.

Na ascética de Pallotti, o elemento determinante para a transformação é a imitação de Jesus Cristo. Segundo ele, quando uma alma, dia após dia, se coloca verdadeiramente a procurar no seu íntimo os pensamentos, os afetos e as palavras e as obras de Jesus, Jesus entra naquela alma e a purifica, adorna, ilumina e aquece; faz dela sua morada e age nela. Porém, a força que opera a transformação é o amor. O amor assimila sempre aquele que ama, ao objeto do seu amor. Para ele: “O amor de Deus transforma em Deus e quanto mais alguém ama Deus, tanto mais rapidamente e completamente se transforma em Deus”. O próprio Jesus, diz: “Vós sois deuses” (Jo 10,34), para indicar que quem recebe a palavra divina possui uma centelha dela, ou seja, tem a capacidade de amar e de evoluir, em vez de se referir a uma igualdade com o Deus Criador. 

Um dos efeitos mais vistosos da transformação é a aquisição de uma particular disposição à magnificência. A experiência da infinita beleza, da infinita misericórdia, da infinita potência e do infinito amor, deixa na alma uma impressão, uma atitude e um desejo de grandeza que depois vai refletir na linguagem, nos juízos, nas ideias e em todas as iniciativas, e a partir daí tudo passa a ser visto em um plano divino e medido com o metro do infinito.

Um outro efeito da transformação em Deus é a audácia dos santos. De fato, quem teve a sorte de pensar quase com o intelecto de Deus e de amar com o coração de Jesus, ousa tudo, não tem limite nos seus desejos, não se assusta com mais nada, não se fecha diante dos obstáculos e não renuncia a nenhum dos planos que Deus projetou para a Sua glória.

Dimensão apostólica da oração

As orações de Vicente Pallotti sempre têm também uma vigorosa dimensão apostólica. Incansável pastor que era, não podia ele, de modo algum, minimizar o engajamento evangelizador. Sua ação pastoral, na linha da fé e da caridade, ia até a exaustão. Mas, a ação partia sempre da vida contemplativa, consciente que estava de que todo apostolado só pode merecer tal nome se partir de Deus.

A oração era para ele o meio infalível para alcançar tudo. Sua oração abarcava todas as intenções e necessidades da Igreja e se estendia à totalidade das pessoas. Ele queria levar todos a Deus amor infinito. Promotor de muitas iniciativas apostólicas, alimentava-as de permanente oração. A oração era para ele um gênero de apostolado indispensável.

A devoção à Maria, principalmente em sua missão histórico-salvífica, ocupava amplo e profundo espaço em sua vida. Ela era a ‘Rainha dos Apóstolos’. No pensamento de Pallotti, ela se preocupou com a salvação de todos os homens, mesmo antes dos apóstolos. Depois, ela fortaleceu com sua oração o testemunho deles. Ela se tornou o mais digno modelo de todo apostolado da Igreja, de todo apostolado dos batizados, ao consagrar-se sem medida ao Reino de Jesus Cristo. Por isso, muitas das preces apostólicas de Pallotti são dirigidas à Maria e voltam o olhar dos fiéis para a vida dela e para o seu testemunho de fé.

Pallotti e seu caminho de perfeição

Quando se trata do caminho espiritual de perfeição, devemos pensar que este trajeto humano pode ser percorrido por qualquer pessoa. Diante de Deus, não existe uns mais e outros menos privilegiados. Na verdade, todos são chamados à vida de santidade. O Papa Francisco, na Encíclica Gaudete et Exultate, afirma:

Para ser santo, não é necessário ser bispo, sacerdote, religiosa ou religioso. Muitas vezes somos tentados a pensar que a santidade esteja reservada apenas àqueles que têm possibilidade de se afastar das ocupações comuns, para dedicar muito tempo à oração. Não é assim. Todos somos chamados a ser santos, vivendo com amor e oferecendo o próprio testemunho nas ocupações de cada dia, onde cada um se encontra. És uma consagrada ou um consagrado? Sê santo, vivendo com alegria a tua doação. Estás casado? Sê santo, amando e cuidando do teu marido ou da tua esposa, como Cristo fez com a Igreja. És um trabalhador? Sê santo, cumprindo com honestidade e competência o teu trabalho ao serviço dos irmãos. És progenitor, avó ou avô? Sê santo, ensinando com paciência as crianças a seguirem Jesus. Estás investido em autoridade? Sê santo, lutando pelo bem comum e renunciando aos teus interesses pessoais” (Gaudete et exultate, n. 14).

Tudo o que foi escrito pelo Papa Francisco, acerca da santidade, pode ser igualado ao modo como Pallotti via a pessoa humana, imagem de Deus, e se Deus é o Santo por excelência, então, todos podem atingir esse grau maior de perfeição (Lv 11,44-45). Ele, motivado pela fé em Jesus Cristo, travou uma batalha contra todo tipo de mal que pudesse afligir a pessoa humana e, assim, distanciá-la do seu Criador, amor infinito. Assim, ele dizia: “Quem sou eu diante de ti, meu Deus, tu que, tanto de dia como de noite, quer eu vigie, quer durma, quer eu pense ou não em ti, não obstante minha ingratidão e os meus pecados, tu com Amor infinito pensas em mim, para destruir a minha indignidade e transformar-me em ti”? (OO CC X, 472).

Vicente Pallotti, ao contemplar o amor misericordioso de Deus, percebeu que, apesar de ele ter procurado viver só para Ele, ainda a sua vida era marcada por inúmeras imperfeições, porque nem sempre os seus desejos correspondiam aos desejos de Deus. Suas inclinações nem sempre eram boas, e tudo isso feria o coração amoroso de Jesus que deu sua vida para nos salvar.

Na verdade, o santo quando falava de si mesmo revelava, sem medo, as suas fraquezas, segredos e malícias, impiedades e impurezas (...). Todo o seu lado sombrio. Por isso, recorria a expressões muito fortes que nós temos muita dificuldade em aceitar e compreender. Em alguns momentos, se autonomeava como o mais horrível monstro, que existiu e que existirá, infinitamente inferior ao puro nada (cf. OO CC X, 458). Mas, ele justifica essa sua atitude comentando o capítulo 13 da Primeira Carta aos Coríntios: “Somos filhos de Adão, mesmo que animados pelo desejo de fazer o bem, não estamos ainda no céu, e sim no mundo” (OO CC I, 108). Por estas afirmações, podemos perceber o seu equilíbrio e o seu realismo humano e espiritual.

Ele considerava o ser humano de uma grandeza imensa, porque foi criado à imagem e semelhança do Criador, por isso é chamado a ser filho de Deus, “herdeiro de Deus” (Rm 8,17), cumulado de tantos bens e, ao mesmo tempo, esse mesmo ser humano é de uma miséria indescritível. Pallotti sublinha, sem piedade, a corrupção do ser humano e seu pecado, para colocar em relevo o amor infinito, incondicional e misericordioso de Deus.

Segundo a antropologia palotina, a criatura humana é inseparável de Deus, do mesmo modo como a sua grandeza e a sua miséria são dois aspectos inseparáveis. Diante da amargura do pecado, ele pede o dom da humildade. Quer até mesmo ser humilhado diante de Deus e de todo o universo. A humildade lhe aparece como remédio mais eficaz contra o orgulho (cf. OO CC XI, 359-360).

Segundo o Padre Faller, para entrar na espiritualidade de Pallotti, precisa-se de duas chaves. A primeira é a do desejo de ser transformado em Deus, Amor e Misericórdia Infinita. Mas essa não funciona sem a segunda: a da humildade que leva em conta a matéria a ser transformada: “Buscai Deus e O encontrareis. Buscai-O em todas as coisas e O encontrareis em tudo. Buscai-O sempre e O encontrareis sempre” (OCL II, 126).

Em uma coleção de sentenças diversas sobre o ser humano diante de Deus, nós encontramos uma resposta muito densa e concisa para a busca de Pallotti. Para a pergunta: “Quem sois vós e quem sou eu diante de vós”? Ele responde: “Deus é tudo do ser humano. O ser humano é tudo de Deus” (OO CC XI, 669), ou seja: uma vez que Deus é o tudo do ser humano, a relação recíproca requer que o ser humano seja o tudo de Deus. Pallotti, quando olhava para suas limitações pessoais, declarava-se como o homem do pecado, mas, ao mesmo tempo via-se como prodígio da misericórdia de Deus, pois, como diz São Paulo: “Onde foi grande o pecado, foi bem maior a graça” (Rm 5,20). Possuído pela presença de Deus, ele sentia a necessidade de escrever e de cantar as maravilhas de Deus. O amor de Deus é como uma violenta tempestade; não pode ser contida, leva e inunda tudo o que encontra pela frente.

Segundo o Pe. Amoroso, o amor de Deus deu aos apóstolos a capacidade de conquistar o mundo, mas sem o Seu amor, o cristão torna-se uma estátua, que fica de pé pela força da inércia; basta um empurrão para derrubá-la e fazê-la em pedaços. Por isso, a presença ativa e constante do amor de Deus, na vida quotidiana de Pallotti, é a razão psicológica e teológica da sua partida velocíssima no caminho de perfeição e da conquista de metas muito raras. A sua doutrina consiste: o segredo de uma vida santa está no amor de Deus. Não faça nada sem o amor d’Ele. Se não tem o amor em Deus, todos os atos objetivamente virtuosos se tornam egoísmo e vaidade. Os meios de santificação utilizados por Pallotti, para extirpar os vícios e cultivar as virtudes, são:

  • O primeiro de tudo é a direção espiritual, os exercícios de piedade, as práticas de penitência, o exame de consciência, as meditações, o recolhimento, o confronto com a palavra de Deus, as leis da Igreja e o exemplo dos santos, mas a vastidão ou a decisão de seus propósitos é a profundidade da fé, a esperança e a caridade. Elas dão um ritmo privilegiado à sua marcha (Amoroso. Dal nulla al tutto, pp. 66-67).
  • O segundo elemento que caracteriza a autenticidade do itinerário de santificação de Vicente Pallotti é a tradução quase que automática do amor de Deus em amor ao próximo. A prova da autenticidade do amor a Deus é a sinceridade do amor ao próximo. Quem não dá nada ao homem do qual vê a sua necessidade, como pode comover-se por Deus ao qual não vê? Ele, por sua vez, dava seu alimento, sapatos, meias, blusas, guarda-chuva, cama, dinheiro, etc. (Amoroso. Dal nulla al tutto, p. 71).
  • O terceiro elemento de santidade, que garante a autenticidade do caminho de santidade de Pallotti é a sua profunda e cordial insatisfação por aquilo que ele é e o que faz. Esta é também uma das marcas da sua espiritualidade, pois, segundo ele, um homem satisfeito consigo mesmo não pode ser santo. Olhando para si mesmo, Pallotti fica espantado por aquilo que ele é (cf. OO CC X, 751; 748; 482-483), porque se julga como alguém que foi feito à imagem de Deus (cf. OO CC X, 245; 470), pois a santidade de Deus é a medida para que o homem também possa tornar-se santo (cf. OO CC X, 51; 112).

Portanto, a trajetória de São Vicente Pallotti e o conceito cristão de santidade apresentados revelam que ser santo não é um estado de perfeição angelical e distante, mas uma jornada profundamente humana e acessível a todos. A santidade fundamenta-se no equilíbrio entre o reconhecimento da própria fragilidade (o “abismo da miséria humana”) e a confiança absoluta na misericórdia divina.

Em suma, a santidade é um caminho acessível a todos os batizados — uma resposta diária e perseverante ao amor de Deus, que acolhe a humanidade em suas limitações e a transforma pelo exercício da fé, da esperança e da caridade. Ela se manifesta na fidelidade cotidiana e na audácia de quem, mesmo em meio às limitações, permite que a “torrente da misericórdia” de Deus guie seus passos. 

Para refletir

1. Por quais caminhos percorreu Pallotti, para chegar à santidade?

2. Quais são as chaves para entender a espiritualidade de Pallotti?

3. Por que Pallotti diz que ele é um milagre da misericórdia de Deus?

terça-feira, 25 de agosto de 2026

 


Tema 13: ASPECTOS DA PERSONALIDADE DE PALLOTTI

Após termos visto amplamente como Vicente Pallotti idealizou sua obra apostólica, agora vamos dirigir a nossa atenção para as suas características pessoais mais relevantes. Para isso, utilizaremos de alguns testemunhos de pessoas que tiveram algum contato com o santo. A primeira coisa que encontramos sobre sua pessoa é que era extremamente generoso. Ele não era apenas uma pessoa de oração, mas um estrategista da caridade que possuía traços psicológicos de grande resiliência e de empatia.

No confronto com as pessoas, ressalta o seu equilíbrio emocional diante das situações mais adversas. Ele demonstrava uma capacidade de transitar entre o recolhimento absoluto e a ação social frenética. Enfrentou perseguições e incompreensões dentro da própria Igreja. Em vez de reagir com agressividade, utilizava a sublimação, canalizando a frustração em mais trabalho e oração. Ele possuía uma sensibilidade aguçada para o sofrimento alheio. Relatos da época indicam que ele “sentia” a dor dos pobres, o que o levava a atos impulsivos de generosidade, como dar o próprio casaco no intenso inverno romano a um pobre homem. O seu conceito de “aniquilamento” (tornar-se nada perante Deus) revela uma psique totalmente voltada para o exterior e para o transcendente, com um ego minimizado em prol de uma causa maior.

Traços da sua personalidade

Pallotti tinha uma mentalidade inclusiva, que antecipou conceitos modernos de rede e de cooperação. Ele não via barreiras entre as classes sociais. Sua personalidade era agregadora, convencendo nobres e operários a trabalharem juntos na União do Apostolado Católico. A sua liderança estava pautada mais pelo exemplo e nunca pela imposição de autoridade. Vivia em uma simplicidade voluntária extrema. Esse traço não era apenas religioso, mas uma marca de seu caráter que rejeitava o acúmulo e o conforto pessoal. Era muito rigoroso consigo mesmo, o que lhe permitia manter o foco em múltiplos projetos simultâneos (escolas, orfanatos, prisões e missões).

Durante a epidemia de cólera em 1837, enquanto muitos fugiam, Pallotti entrava nos focos da doença. Isso demonstra um traço de personalidade marcado pela coragem física, baseada em uma convicção moral. Ele era capaz de dialogar com intelectuais e papas com a mesma naturalidade com que conversava com os jovens das escolas noturnas de Roma. Ele tinha uma altíssima capacidade de ouvir (foi um dos confessores mais procurados de sua época). Um detalhe importante a ser destacado é a sua capacidade de manter a visão original do seu projeto, mesmo sob pressão financeira e institucional. Por isso, ele é visto como o “precursor do laicato”, justamente porque sua personalidade não aceitava o isolamento ou o privilégio, mas buscava a multiplicação do bem através de cada indivíduo.

As pessoas que conviveram com Vicente Pallotti foram unânimes em relatar, por ocasião do processo de canonização, que, além de ser generoso, era profundamente introspectivo e tinha como grande desejo de penetrar nos mistérios da pessoa humana, para entender o porquê de tanta maldade no mundo, sendo que o ser humano foi feito bom e o próprio Deus se alegrou com a sua criação.

À medida que aprofundava em suas meditações, descobria, na Palavra de Deus, a resposta para a perversidade humana: o pecado. Se o homem foi criado bom, então algo entrou nessa natureza frágil e modificou o projeto inicial do Criador. O próprio Deus tinha se arrependido de ter criado o homem, mas depois voltou atrás, porque a sua misericórdia é infinita (Gn 6,6-7.11-12.17-18). Mesmo o homem abandonando o projeto de Deus, ainda assim, Ele continua fiel ao seu propósito inicial e continuará sustentando-o até o fim.

Olhando para este aspecto, Pallotti ficou ainda mais entusiasmado e enamorado por Deus, e continuamente usava a expressão: o amor infinito de Deus que se apaixona pela criatura deformada pelo pecado, mas Deus não se cansa de oferecer-lhe tantas e tantas oportunidades para fazê-lo melhor, ou seja, santo. Já que é este o desejo de Deus, Pallotti, por um chamado especial d’Ele, aceitou o desafio de ser Seu colaborador na obra da evangelização, convocando a todos para que também abraçassem essa causa, a da salvação do gênero humano. Como ele próprio afirmou: sozinho é impossível levar adiante tão grande projeto de salvação, instaurado por Cristo. Por isso, se faz necessário a colaboração de todas as classes de pessoas, raças, línguas, envolvendo assim em um grande mutirão de evangelização, para que todos possam, o mais rápido possível, chegar a um só rebanho apascentado por um só pastor.

Dizia ele: “A razão e a experiência demonstram que, ordinariamente, o bem que se faz isoladamente é escasso, incerto e de pouca duração e que os esforços, os mais generosos, dos indivíduos, não podem ter êxito, se não enquanto são reunidos e ordenados a um objetivo comum” (OO CC VI, 122).

O projeto é grande, o desafio é ainda maior, por isso conta com a colaboração de todos. Por este motivo, ele fez um apelo ao povo de Roma, para que se despertassem para essa nova realidade, e o eco da sua voz atingiu os confins da terra, fazendo com que todos se sintam impelidos a abraçar esta mesma causa, a salvação do próximo, para que possamos viver em um mundo reconciliado, onde reina a verdadeira paz e o amor fraterno. Se no mundo não há paz é porque não sabemos promovê-la a contento, então é tempo de mudança de hábitos e de atitudes.

Atitudes práticas

Pallotti, no seu cotidiano, era muito comedido no falar, no vestir, no alimentar-se e no lazer. Era humilde e sereno, apesar de extremamente ativo, e muito discreto. Em situações de conflitos não se alterava, simplesmente confiava na providência divina, porém era persistente em seus propósitos, jamais desanimava diante de qualquer desaprovação dos seus atos. Era uma pessoa muito delicada e de olhar penetrante. Desde a sua juventude, ele tinha uma espiritualidade marcante, com um desejo insaciável de amar a Deus e às pessoas. Queria conduzir a todos para mais perto de Deus. Para si não queria nada, mas para Deus e ao próximo, tudo. Daí surgiu a expressão “tudo para a infinita glória de Deus, tudo para a salvação das almas e tudo para a destruição do pecado”.

Ainda jovem, traçou para as famílias cristãs programa de orações, que incluía uma breve meditação diária, alternando entre elas a paixão de Cristo, sugerida pelo livro Máximas eternas de Santo Afonso, com o rosário, com as ladainhas e com o bendito seja Deus. Na verdade, o que ele queria era que a oração dos leigos fosse mais profunda (Todisco, p. 167). Ele foi um verdadeiro cristão, que esteve sempre aberto para escutar a voz de Deus, por meio da Palavra e foi sempre obediente às orientações de seus mestres e superiores.

A obediência praticada por Pallotti não seria uma aceitação passiva da vontade dos outros, nem a acomodação ou a falta de iniciativa. A sua obediência era uma conquista obtida, justamente, com o exercício constante de uma vontade determinada para dominar os instintos humanos. A obediência entra na sua ascética, da mesma forma que entra a humilhação, a mortificação e a castidade. Tudo isso surge da necessidade de reparar o distúrbio induzido pelo pecado original. A natureza é falha e precisa de corretivo.[1] Assim, Pallotti liderou uma cruzada contra o pecado ao longo de sua vida, para erradicá-lo de toda a terra. Ele se acusava de ser o maior pecador, “nada e pecado”, a causa de todos os males físicos e morais da humanidade, mas o pecado do qual ele faz menção é o da ingratidão. Padre Vicente, em seus encontros místicos com Deus, vira bem o quanto ele merece ser amado e, naturalmente, toda a sua gratidão não lhe parecia nada. A não correspondência, portanto, torna-se a sua aflição; ele gostaria de adequar-se ao infinito, e reparar o infinito amor de Deus com, pelo menos, um amor infinito; ele se vê derrotado e grita, por causa da sua monstruosa ingratidão (Dal nulla al tutto, pp. 96-97).

Traços específicos

Pallotti possuía um senso vivo da realidade e uma capacidade inata para a organização prática, orientado para as necessidades da vida. Ainda que fosse capaz de manter as decisões tomadas, ele possuía também uma inclinação temperamental para o orgulho, para a ambição, para o mando, para a imposição do próprio querer sobre os dos outros. Outro traço marcante da sua vida foi a fidelidade aos ideais, aos dotes de liderança e de caridade. Para o Pe. Vaccari, Pallotti possuía um temperamento de fogo, porém, graças à sua vigilância, parecia insensível a todo insulto e era sempre doce e bondoso. Pe. Rafael Melia, no seu depoimento para a beatificação, afirmou:

Sou testemunha e admirador de sua perene, inalterável mansidão para comigo e para com todos os outros. Nas recreações em que, às vezes estava presente, mostrava uma santa alegria, a ponto de tornar-se modelo e referência para os demais. Além disso, a fecundidade de suas ideias, a hilaridade do seu espírito, a sua cortesia e os seus modos gentis, despertavam realmente prazer em quem com ele conversasse (Todisco, pp. 151-152).

Portanto, o caminho da transformação passa pela purificação da alma; como, com forças naturais e com a graça de Deus, a alma se desprende das paixões e afeições terrenas, transforma-se em Deus, quanto mais os véus da carne e dos sentidos se tornarem tênues, mais profundamente a luz de Deus permeia a alma; quando os véus, devido ao efeito do amor de Deus, se dissolvem completamente, a alma se torna o esplendor e o calor de Deus (Dal nulla al tutto, p. 100).

Portanto, o encontro místico de Pallotti o fazia sensível não somente às coisas celestes, mas sofria muito ao ver os sofrimentos humanos. Assim escreveu Rosmini sobre sua grande sensibilidade: “Pallotti era um dos homens mais raros do mundo, porque possuía grandes ideias e ideais. Ele vivia muito além do seu tempo, porém, sem negar as suas raízes familiares”. E, por sinal, tinha uma relação muito estreita com sua piedosa mãe, tanto que quando ela estava gravemente enferma, tornou-se seu enfermeiro a ponto de dormir, próximo a ela, em uma esteira no chão, para dar-lhe a devida atenção. Preocupava-se, também, com o bom andamento de toda a sua família.

Pallotti foi também um exímio diretor espiritual e via a necessidade de uma formação edificante do clero, para que tivessem mais zelo apostólico. Sabia tocar nos sentimentos mais ocultos das pessoas, para convencê-las a praticar o bem. Por isso, ele valorizava muito a direção espiritual. Francesca de Maistre, uma de suas penitentes, testemunhou: “Encontrei nele algo que não encontrei em outros servos de Deus: uma expressão de bondade celeste, uma capacidade de acalmar e de acolher o ponto certo da alma em poucas medidas e eficazes palavras” (OCL, 390). Diante das inúmeras solicitações, ele parecia muito agitado e ansioso, porque queria atender a todos. Era uma pessoa de muita cultura, era corajoso, era perspicaz e hábil em convencer as pessoas a praticarem o bem. Ele dominava a arte do discernimento, e colocava em prática a pedagogia do equilíbrio entre discernir sobre o necessário e o oportuno.[2]

Outro detalhe da sua vida: diante das provações e das contrariedades, quase sempre agia com resignação e paciência, desprezando todo e qualquer tipo de satisfação e de gosto pessoal. Demonstrava uma certa obsessão pelas coisas grandiosas. Tudo, para ele, devia ser elevado ao infinito. O seu maior desejo era de querer viver no Cenáculo, pelo fato de ser um lugar da comunhão universal, de apelo à unidade e da cooperação eclesial. Enfim, era um lugar onde se aprende a ler os sinais dos tempos, as necessidades da Igreja e da humanidade; um lugar em que o apostolado se torna comunhão com Deus e com os irmãos. Mas, segundo ele, é no Cenáculo que se recebe a plenitude do Espírito Santo e a abundância dos seus dons, tão necessários para cooperar eficazmente nas obras da maior glória de Deus e da salvação da humanidade, a exemplo de Maria (Stawicki, p. 501-502).

Iluminado e impulsionado pelas luzes do Espírito, tornou-se um apóstolo incansável, com inúmeras atividades. Essa sua característica de estimar o tempo e de aproveitá-lo ao máximo, vem desde a sua juventude, pois nunca tolerou uma vida cheia de ociosidade. Assim escreveu: “Cuidarei em empregar bem também o menor espaço de tempo (...). Dar grande importância ao tempo e de inculcar nos fiéis uma altíssima estima do tempo” (OO CC X, 567 e 594).

Da mesma forma que ele tinha uma vida apostólica intensa, ainda reservava espaços para alimentar a sua vida espiritual, diante do tabernáculo. Tanto que na Igreja do Espírito Santo pediu para abrir uma janela no seu quarto, para que pudesse contemplar longamente o Santíssimo Sacramento durante a noite. Era aí que ele se acalmava e onde adquiriu a capacidade de gerenciar os conflitos de maneira serena e com muita clareza.

Ele foi capaz de ver, no caos da sociedade romana, uma luz que podia irradiar em todas as nações, sem jamais se perder em generalidades. Com a sua forte inclinação para o apostolado, conseguiu mergulhar nos problemas da Igreja e na vida das pessoas, para, a partir daí, sob o olhar e a inspiração de Deus, apresentar uma nova proposta evangelizadora. Mas, tudo isso só foi possível porque Deus foi colocado no centro de tudo, e, também, graças ao seu esforço pessoal. Diante desse seu testemunho de vida, podemos compreender o motivo pelo qual escreveu: “Deus em tudo e sempre” (As luzes, p. 73).

Embora Pallotti buscasse refletir a face de Cristo em sua própria vida através da santidade, ele também tinha uma percepção aguçada de ver o rosto de Jesus nos outros, especialmente nos pobres, doentes e marginalizados. Que os membros da União possam, também, continuar reverberando, na Igreja e no mundo, essa face misericórdia do nosso Deus.

Para refletir

  1. Pallotti foi sempre uma pessoa generosa e pronta para ajudar. Como podemos imitá-lo?
  2. Qual é o segredo para se chegar à santidade? Quais meios podem ser utilizados?
  3. Como Pallotti superou os seus limites humanos?

 



[1] AMOROSO, Francesco. Dal nulla al tutto, Città nuova Editrice: Roma, 1981, p. 59.

[2] Stawicki. A cooperação paixão de uma vida, pp. 428-429.


quarta-feira, 19 de agosto de 2026


 


 

Tema 12: UM SACERDOTE JOVEM ENTRE OS JOVENS

“Parai um pouco na estrada para observar, e perguntai sobre os antigos caminhos, e qual será o melhor, para seguirdes por ele; assim ficareis mais tranquilos em vossos corações” (Jer 6,16).

 Desde o início do seu ministério, duas coisas se destacam e despertam a nossa admiração pelo jovem, padre Vicente: a sua incansável dedicação apostólica e o seu vivíssimo espírito sacerdotal. Ele vivia intensamente para Cristo e para a Igreja. E almejava que todos tivessem essa mesma dedicação: Ah quanto bem pode realizar um eclesiástico zeloso!” (OCL I, 5; 8; 9).

Dezessete meses após a ordenação sacerdotal, a 24 de outubro de 1819, o neossacerdote Vicente Pallotti, em suas orações, reconhecia que o Espírito de Deus recebido lhe proporcionava graças abundantes capazes de produzir frutos para o bem do próximo (cf. OO CC X, 46. Todisco, p. 179).

No vigor de sua juventude, usava algumas palavras de motivação, tais como: “empenhar, propagar e fazer com que se propague”. “Trabalhemos, trabalhemos infinitamente, a todo instante infinitésimo. Entre tudo o que é divino, não há nada de mais divino que cooperar para a salvação das almas”. (Todisco, p. 180). O seu foco não estava apenas no trabalho, mas numa ação que levasse à glória de Deus e à salvação das almas.

Em relação às pessoas, o padre Vicente valorizava, principalmente, o espírito de oração e o zelo ativo. No contato com elas, demostrava muita sensibilidade, valorizando os mínimos detalhes, como por exemplo, tinha o costume de saudar cada um dos seus colaboradores, com um olhar fixo e aperto de mão. Ele sabia surpreender as pessoas com um sorriso nos lábios, como que a dizer: você é muito importante para Deus. Segundo ele: “Quem não ama não pode viver” (OO CC X, 226 e 614); “Ou morrer ou amar infinitamente” (Propósitos e aspirações, p. 92, n. 213).

O senso de fraternidade e de indiscutível liderança foram importantes no desenvolvimento da personalidade do padre Vicente Pallotti. Ele manifestou, logo depois da ordenação, a capacidade de se fazer rodear de eclesiásticos dedicados ao apostolado, inspirando aquela fraternidade que, mais tarde, foi nota distintiva da sua fundação (Todisco, p. 183). Pallotti encantava as pessoas com o seu modo acolhedor de ser. Ele via no outro a pessoa de Cristo.

Pallotti tinha objetivos claros e viáveis

O jovem Pallotti queria que todos os seus companheiros se filiassem à Pia União da Imaculada, recebendo o respectivo escapulário propagado pelos padres Teatinos, para que a luta contra o demônio se desenvolvesse sob a proteção de Maria concebida sem pecado. Queria também uma guerra, sem trégua, contra o maligno, suprimindo as ocasiões públicas de pecado. Ele estimulava as pessoas a terem metas e persegui-las. Ele as encorajava para não terem medo de fracassar, pois, segundo ele, não há podium sem antes conhecer derrotas.

Diante dos desafios da vida, Pallotti dava respostas incomuns para a sua época, diferente daquelas dadas por muitos: “não tem jeito, está tudo errado, está tudo perdido”, mas não faziam nada para mudar. Ele estimulava os jovens a pensar e a agir, pois, “com Deus, tudo posso”.

Na Faculdade Sapienza, Pallotti animava grupinhos de discussão, formados espontaneamente à saída das aulas. Isso chamou a atenção dos professores que, dois meses depois de sua ordenação, foi nomeado professor suplente de teologia. Isso o incentivou a organizar grupos de discussão, após as aulas de teologia, para reforçar os temas que há pouco haviam sido expostos.

Padre Mélia, um dos seus primeiros seguidores, dizia que Vicente Pallotti juntava em si admiravelmente duas coisas não fáceis de se encontrarem juntas na mesma pessoa, isto é, uma piedade muito grande, unida a uma ciência eminente que resultava em grande utilidade (Todisco, p. 193).

No seu fervor juvenil, em 1816, dizia: “Em todas as minhas ações e nas alheias, entendo, que não se tenha outro critério ou finalidade, que não seja Deus. Não quero nada senão Deus” (OO CC X, 68); (Todisco, p 154).

O jovem sacerdote Pallotti, frequentemente, meditou sobre o seu futuro como ministro de Deus e da Igreja: não se contentou em apenas ministrar sacramentos e dar aulas. Em 1819, um ano depois da ordenação sacerdotal, começou a pregar à noite, em praça pública. As pessoas conquistadas por suas palavras cheias de fervor cercavam-no e, enchendo aquela praça a ponto de impedir a passagem das carruagens. Isso mostra a sua profunda sensibilidade em querer conduzir aquelas pessoas que se encontravam distantes de Deus. Muitas delas, sedentas por Deus, corriam atrás dele, atrás de novidades. Ao final da pregação introdutória, pregador e povo dirigiam-se para rezar e cantar na Igreja de São Nicolau. As pessoas rezavam e o jovem padre as instruía e as confessava (Todisco, p. 197).

Diante da dificuldade para pregar, devido ao barulho das crianças na praça, recorreu a um leigo para que ele também catequizasse as crianças. Algo inédito para a época. Enquanto ele instruía os adultos, Giacomo ensinava catecismo aos pequenos, fazia-os cantar à vontade e atraía a atenção da garotada. Nasceram, assim, as escolas noturnas de religião para os filhos dos artesãos (Todisco, p. 198).

Pregava exercícios espirituais no morro do Gianicolo.

Não há dúvida de que, nestes primeiros anos de seu ministério, padre Vicente se tenha especializado na que hoje chamamos de pastoral da juventude. Sem que ele suspeitasse, Deus lhe preparava um campo de trabalho mais amplo. Sem sombra de dúvidas, podemos afirmar que, em Pallotti, a exortação de São Paulo, que segue, foi vivida integralmente por ele:

O amor seja sincero. Detestai o mal, apegai-vos ao bem. Que o amor fraterno vos una uns aos outros com terna perfeição, prevenindo-vos com atenções recíprocas. Sede zelosos e diligentes, fervorosos de espírito, servindo sempre ao Senhor, alegres por causa da esperança, fortes nas tribulações, perseverantes na oração (Rm 12,9-12).

Um apostolado pleno de vigor

Diante das tantas iniciativas realizadas pelo nosso santo, isso talvez nos instigue a termos uma visão mais ampla para as tantas necessidades pastorais do nosso tempo.

Assim viveu o seu ministério:

1.      Ele intuiu e lutou por ideais nobres.

2.      Na sua juventude sacerdotal, sonhava esperando por um futuro diferente.

3.      Não reclamava das dificuldades e nem esperava pelas ações dos outros, simplesmente agia e envolvia a todos para ter sucesso na sua ação.

4.      Era um jovem cheio de ousadia: ele não repetia velhos conceitos, mas criava novas formas de evangelização.

5.      A oração era a sua companheira na estrada da vida.

6.      Não tinha medo de expor sua fé e de defendê-la publicamente.

7.      Nunca se rendeu às solicitações humanas, mas superou-as pela força da oração e dos sacramentos.

8.      Jesus pergunta: o que dizem quem eu sou? Pallotti dizia o que experimentou de Cristo.

Uma coisa é certa, o apostolado católico nos faz discípulos missionários. O discípulo, porém, só será missionário se for apaixonado por Cristo. O que aumenta a sua paixão é o encontro pessoal com Ele na eucaristia, na vivência dos sacramentos, na escuta atenta da Palavra e na devoção à Maria. Tudo isso deve ser acompanhado por uma contínua conversão pessoal. Como encontramos nas Regras de São Bento: “A conversão dos costumes”.

Seguindo o exemplo de nosso fundador, devemos ir ao encontro dos que estão afastados de Deus e que vivem na indiferença religiosa. Porém surge uma pergunta: por que o apostolado católico ainda não é levado a sério pelos cristãos? Primeiro, porque somos imperfeitos e necessitamos de uma contínua conversão. Todos os dias devemos renovar a nossa opção por Cristo e de viver só para Ele. Segundo, porque perdemos tempo com coisas insignificantes, com preocupações inúteis, por discórdias na comunidade, por disputa de poder, como aquela apresentada pelo evangelho: “Eles discutiam para saber quem era o maior” (Mt 18,1-3).

Às vezes, perdemos tempo criticando a Igreja, porém nada fazemos. Pallotti, por sua vez, nunca criticou as estruturas do seu tempo, mas propôs uma nova maneira de viver o cristianismo, reavivando a fé e reacendendo a caridade. Como discípulos missionários, somos convidados a sair do nosso conforto e ir ao encontro daqueles que estão distantes de Deus, daqueles que estão confusos, perdidos, doentes e que vivem uma vida sem sentido. Muitos não precisam ser apenas resgatados em sua fé, mas, principalmente, em sua humanidade.

É comum ouvirmos a expressão, onde estão os nossos jovens? Eis a questão! Eles estão próximos de nós. Estão nas nossas casas, no nosso bairro, nas escolas, nos Shoppings, nas avenidas, nas baladas. Muitos estão perambulando pelas ruas como ovelhas sem pastor. Muitos deles já foram interceptados pelo mau pastor, por aqueles que se aproveitam dos seus sonhos juvenis ousados, para lhes oferecer não uma vida abundante como nos propõe o evangelho (Jo 10,10), mas uma vida limitada e que leva à verdadeira destruição e ao fracasso. Mas, todo jovem quer viver, quer produzir algo novo, sonha grande. Mas falta-lhe acolhida e oportunidades para transformar muitas realidades caducas.

A pergunta que paira no ar é: como surpreendê-los com algo fascinante, que os leve a sair da inércia para queimarem suas energias juvenis com algo que edifique a si mesmo e os outros? O saudoso Papa Francisco nos deixa muitos questionamentos na Exortação Apostólica Christus Vivit: Ele fala de uma escuta ativa e no protagonismo quando se trata de acolher a juventude. Para ele, acolher não é apenas abrir as portas de uma instituição, mas, sim, criar espaços onde os jovens se sintam verdadeiramente sujeitos da sua própria história.

Aqui estão os pontos centrais da mensagem do Papa sobre este acolhimento, baseados principalmente na Exortação Apostólica Christus Vivit:

1. Uma Igreja de “portas abertas” e sem julgamentos

Francisco defende que o acolhimento deve ser incondicional. Ele critica uma postura defensiva ou excessivamente moralista que afasta quem não se sente “perfeito”.

·         Acolher a fragilidade: O Papa pede que a Igreja saiba receber jovens que vivem situações de fracasso, dúvida ou que estão distantes da prática religiosa tradicional.

·         Linguagem de proximidade: Ele sugere que o acolhimento deve ser feito com “a linguagem do amor”, que é mais compreensível do que sermões teóricos ou moralistas.

2. O protagonismo Juvenil

Para o Papa, os jovens não são o “futuro”, mas o “agora de Deus”.

·         Não ao “asfalto”: Ele usa a metáfora de que não se deve “asfaltar” o caminho dos jovens, mas deixá-los criar novas rotas. Acolher significa dar espaço para que eles liderem e tragam novas ideias, mesmo que isso cause alguma “bagunça”.

·         Escuta empática: Acolher começa por ouvir. Francisco insiste que os adultos devem aprender a ouvir os questionamentos dos jovens sem pressa de dar respostas prontas.

3. Acompanhamento e discernimento

Acolher não é um evento isolado, mas um processo de caminhar juntos (sinodalidade).

·         Caminhar ao lado: Inspirado na passagem dos discípulos de Emaús, o Papa diz que o acolhimento exige paciência para caminhar no ritmo do jovem.

·         Cultura do encontro: Ele promove o diálogo entre gerações. Para Francisco, o acolhimento da juventude se fortalece quando há uma conexão com os idosos (as raízes).

4. O Uso das novas linguagens

O Papa reconhece que o acolhimento hoje passa pelo mundo digital e pelas novas formas de expressão.

·         Ambiente digital: Ele vê as redes sociais como locais de missão, mas alerta que o acolhimento real exige o toque, o olhar e a presença física sempre que possível.

Por que Cristo fascinou tanta gente ao longo dos séculos? Qual é a sua proposta de vida? O que falta para nós, que nos consideramos evangelizadores e portadores da “Boa Notícia” de Jesus e não conseguimos atingir satisfatoriamente as pessoas? Talvez, falta em nós a paixão por Jesus Cristo. Assim expressou o Documento de Aparecida, n. 29: “Conhecer a Jesus é o melhor presente que qualquer pessoa pode receber; tê-lo encontrado foi o melhor que ocorreu em nossas vidas, e fazê-lo conhecido com nossa palavra e obras é nossa alegria.”

Que tipo de notícia estamos anunciando? Uma coisa é certa, não devemos ter a preocupação de sermos iguais a todos. Ser mais um. O jovem não deve ser mais um no meio da multidão. Ele deve fazer a diferença, por mais que isso lhe custe a incompreensão. Se a sua atitude já provocou desconforto em alguém, pode ter certeza de que você está movido por uma proposta diferente, cheia de vida e de sentido. Você já está destoando daquilo que dizem ser normal. A sua proposta de vida é outra. Diante dessa realidade, Jesus tem uma palavra: “Não tenhais medo” (Jo 6,20).

Talvez, um dos maiores problemas que levam o jovem a dispersão é que ele se depara com uma enorme gama de informação, tudo ao mesmo tempo, e falta-lhe maturidade suficiente para fazer a melhor escolha. Ou então prefere aquela que mais lhe dá satisfação momentânea. Porém, fica a pergunta no ar: como mostrar para eles algo de valor diante das propostas carregadas de emoções e de sensações imediatas? Muitos estão fragmentados emocionalmente diante de tantos desafios familiares e sociais e, por isso, procuram meios de fuga.

Hoje, mais do que nunca, devemos procurar curar suas feridas interiores, para que estejam abertos à graça de Deus e às necessidades dos irmãos. A melhor maneira de buscar a Deus é ouvir o que Ele tem para nos ensinar. Essa escuta, porém, deve ser diária e bem conduzida.

A ovelha só reconhece a voz do seu pastor, porque desde seu nascimento está ouvindo aquela mesma voz cheia de ternura do lado dela. Se não nos aproximarmos de Deus, dificilmente a sua Palavra encontrará eco dentro de nós. Daí surge a urgência de criarmos momentos de encontros, de oração, de lazer e de partilha. Se tivermos uma espiritualidade superficial, nossos discursos serão vazios e estéreis. Não surpreenderemos ninguém com o nosso modo de ser e muito menos fascinaremos alguém com o nosso modo de viver.

Que o exemplo de apostolado criativo do nosso fundador possa ajudar a nos lançar sem medo, confiando sempre na inspiração divina.

 

Para refletir

  1. Como Pallotti viveu os seus primeiros anos de sacerdócio?
  2. O que devemos fazer hoje de relevante, para que nossos jovens se entusiasmem pelas coisas de Deus e pelo progresso da pessoa humana?
  3. Na sua opinião, quais são as necessidades mais prementes da nossa juventude?

domingo, 9 de agosto de 2026

 


TEMA 11: O APÓSTOLO DE ROMA

Se quiserdes caminhar a passos largos na vida de perfeição, segui continuamente Jesus, Maria e José. Procurai exercitar aquelas heroicas virtudes que eles praticaram maravilhosamente, com amor, em todas as circunstâncias e lugar.[1]

Um detalhe importante da vida de São Vicente Pallotti é que ele esteve sempre atento às necessidades espirituais e materiais da Igreja. No ano de 1833, ele demonstrou ter um interesse muito grande pelo Colégio da Propagação da Fé, que se encontrava na Praça Espanha (Postulazione generale, p. 61). Com a morte do diretor espiritual, o santo o substituiu oficialmente no dia 23 de setembro de 1835. Com tal nomeação, ele viu concretizar um sonho que para ele tinha muito significado, pois conseguira entrar em um Colégio Missionário da Igreja Católica, canonicamente erigido pelo Papa Urbano VIII, pela bula Immortalis Dei Filius, de agosto de 1627, para que acolhesse alunos de todas as nações, os quais seriam enviados pelo Sumo Pontífice, para a evangelização em todo o mundo.

A diversidade das raças, línguas e proveniências dos alunos, fazia com que palpitasse o coração do santo pela universalidade da Igreja. Pois, ele queria mergulhar toda a humanidade no sangue de Cristo, com suas próprias mãos, para que Cristo a purificasse (Postulazione generale, p. 36).

Para Vicente Pallotti, a essência da santidade está na pureza de coração. E tal virtude deve ser adquirida antes da ordenação, porque, do contrário será muito difícil de ser alcançada. Por isso, dizia sempre: três coisas são importantes para o sacerdócio: “castidade, castidade, castidade” (Postulazione generale, p. 57). Pallotti era tão cauteloso quanto às virtudes que, nas férias de verão, quando os alunos do Colégio da Propagação da Fé iam para a pequena cidade de Frascati, cerca de 25 Km de Roma, ele também se deslocava para lá, para dar assistência aos alunos. No entanto, alugava um banco da carruagem só para ele, para que tivesse uma viagem tranquila e sem a presença ao seu lado de uma mulher.[2]

Orientação apostólica

O trabalho realizado por Vicente Pallotti, até esse momento, não tinha uma linha definida. Era simplesmente um sacerdote que desempenhava sua missão de pastor, rezando missas, atendendo às confissões e demais sacramentos. Procurava fazer o bem às pessoas sem distinguir qual trabalho fosse, porque para ele, em qualquer das suas atividades, podia dar glória a Deus. Os seus trabalhos iniciais foram com os estudantes da Igreja Santa Maria do Pranto, na Academia de Teologia e aplicando os exercícios espirituais aos nobres e militares do Gianicolo, mas este não era o seu maior desejo. Passou, então, a atender os artesãos Del Muccioli, aos artesãos das Escolas Noturnas, de Ponterotto, Clementino Del Campa, e começou a identificar-se com este tipo de trabalho. A procura de seus interesses espirituais se alargou também aos clérigos do Seminário Romano, Colégio Urbano, Grego, Inglês, Irlandês, Escocês, mas ao mesmo tempo tinha contato com Camáldoli e com vários outros institutos de Roma. Depois, começou também atender os cárceres, os hospitais, os condenados à morte, os doentes de toda a cidade e as intermináveis filas dos penitentes.[3] Para nós parece que o seu trabalho era infinito e difícil de ser vencido, mas, para ele, a vontade de Deus é quem tranquiliza o coração (cf. Lettera, 21).

Recusas

Vicente Pallotti recusou, em 1829, trabalhar na Academia de Teologia. Recusou ainda o benefício de canônico na Igreja Santa Maria dos Mártires – Panteão. Recusou a rica e honrada paróquia de São Marcos e o ofício de capelão da Arquiconfraria de São João Decollato, porque teria um alto salário (Postulazione generale, p. 57). Todas essas recusas de Pallotti eram para estar mais livre para o apostolado. Todos viam nele não um sacerdote comum, mas alguém com uma auréola de santidade, um mestre refinado das coisas divinas (Postulazione generale, p. 69).

As seitas secretas

Três eram as ditas seitas secretas que agiam no tempo de Vicente Pallotti e que provocavam grandes problemas para a Igreja: a maçonaria, os carbonários (uma sociedade secreta revolucionária que atuou na Itália, França e Espanha no século XIX, contra o poder temporal da Igreja, cujas regras eram semelhantes às da maçonaria). Tanto a maçonaria como os carbonários se uniram ao Movimento de Unificação da Itália, que tinha fins políticos. Os Papas que sofreram com as investidas destes movimentos foram: Pio VII, Leão XII, Pio VIII, Gregório XVI e Pio IX. Todos eles travaram uma luta contra esses inimigos que tinham como única finalidade acabar com o poder temporal da Igreja (trono e altar).

Os Carbonários se infiltraram largamente nas fileiras do exército pontifício. Eles distribuíam panfletos entre os jovens, anunciando o extermínio total do catolicismo e da ideia cristã. Convidavam seus seguidores a mancharem a imagem do clero e a induzirem a juventude, inclusive os aspirantes ao sacerdócio, para que se inflamassem por esses novos ideais políticos. Eles queriam, na verdade, se infiltrar de tal maneira no governo da Igreja com o intuito de um dia ter um papa Carbonário (Postulazione generale, p. 80).

Gregório XVI, em todo o seu pontificado, viu nas seitas o maior perigo e a maior fonte de mal que ameaçava a Igreja. Um ano após a sua eleição já se falava na Encíclica Mirari vos (1832) da maldade perpetrada por essa seita através de seus costumes licenciosos e pelo desprezo às pessoas e coisas sagradas, pela sua luta contra a Cátedra de Pedro. A Encíclica fez acenos também às reuniões secretas feitas pela seita. Em Roma, as reuniões aconteciam no Coliseu (Postulazione generale, p. 92-100).

Pallotti tinha pleno conhecimento destas reuniões, mas nunca os confrontou diretamente. Vendo a força destrutiva de tal movimento, Pallotti procurou arrebanhar em torno de si o maior número possível de jovens, porque sabia que eles eram seus alvos prediletos. Fundou, nesse período, a liga antidemoníaca para combater a obscenidade e colocou toda sua alma na condução de todos os jovens nos seminários e nos colégios romanos, que se preparavam para o sacerdócio, para que tivessem uma vida santa (Postulazione generale, p. 94). Ele conhecia bem o poder desta organização, de modo que vinte anos mais tarde, à véspera do assassinato do Conde Pellegrino Rossi, quando De Geslin se mostrou surpreso porque não tomava uma iniciativa para salvar a vida do Conde, amargamente respondeu: “O senhor não conhece nem a força e nem a ferocidade desse grupo. O mal reina solto e o papa está impotente frente a eles”. Mesmo diante dos acontecimentos em curso, Pallotti continuou ativo no seu apostolado e tomou como lema para si: Tudo para a salvação das almas e tudo para a destruição do pecado. Em suas palavras tornaram-se frequentes a sua luta contra o pecado e por isso pensou em uma Sociedade Apostólica que fosse como que uma trombeta evangélica na Igreja.[4]

Uma visita inusitada

O desejo de Vicente Pallotti de servir a Cristo não tinha limites. Certo dia, passando pela rua entrou em um pequeno comércio de um senhor chamado Jacó Salvatti e encontra somente sua esposa e sem mesmo conhecê-la perguntou: “foi você que me chamou aqui?” Ela respondeu: “o senhor está enganado, pois nem te conheço!” Pallotti novamente diz à senhora: “Camilla, sua filha enferma, acaba de ser curada! A mulher responde, tão curada que está em agonia. Repetiu de novo e se foi. Quando o marido chega, dirige-se ao quarto e leva uma fruta para a menina. Ela come e em seguida se levanta. O seu médico constata mais tarde que a menina não sofria de mais nenhuma enfermidade. A resposta do médico foi: “certamente foi curada por esse homem de Deus”. Diante desse fato, Salvatti colocou-se à disposição de Pallotti, mas quando Pallotti confiou-lhe a missão de fazer a coleta de quatrocentos Escudos, levou o maior susto. Não é possível, disse. Não sou capaz disso, pois bem sabia que poderia ser malvisto pela sociedade, pelo fato de ter sido prisioneiro por duas vezes.[5] Ninguém acreditaria nele. Precisaria pelo menos de duas cartas de apresentação. Pallotti confirma a quantia e assegura que não precisaria de nenhuma carta de apresentação. Ele, por deferência a Pallotti, convencido saiu em direção à porta, mas de repente parou na soleira da porta, disse: “essa incumbência não é para mim!” Pallotti, mais decidido do que antes, insiste-lhe para que vá. Obedecendo à sua ordem, saiu e Pallotti com segurança profética lhe diz que, em nome do crucificado encontrarás aquilo que é necessário. Confiante em tamanha convicção do santo, Salvatti se anima e sai à procura da quantia estipulada. No meio da rua, mais uma vez começou a vacilar e veio a ideia de dar um giro pelo bairro, sem dizer nada e nem perguntar nada a ninguém, para depois voltar e dizer a Pallotti que ninguém quis colaborar. Pensando bem, ele tinha recebido a ordem de um santo e que descobriria sua mentira. Por fim, acabou se convencendo de que o melhor negócio seria enfrentar a parada. Primeiramente chegou diante de uma quitanda, entrou e logo já foi pedindo quatrocentos Escudos para uma obra de caridade. Esperava que o homem o expulsasse ou risse em sua cara. Para sua surpresa, o homem se desculpou gaguejando dizendo, mas... cem Escudos não estaria bom? De imediato, começou a contar as notas. Salvatti fez mil agradecimentos e encorajado entrou rápido em uma outra porta. O resultado foi idêntico. Ninguém recusou. Aquilo que parecia impossível foi muito rápido e fácil. Em pouquíssimo tempo, já tinha angariado quinhentos e cinquenta Escudos.

Salvatti não era uma pessoa rica, ele era proveniente de Rocca di Papa, perto de Roma. Era fabricante de sabão e vendia na sua lojinha. Por isso, não colocou nas mãos de Pallotti suas riquezas, mas o seu trabalho voluntário. Tornou-se um grande colaborador na Pia Casa di Carità, no Borgo de Santa Ágata. Mais tarde, Pallotti fez o casamento de sua filha Camilla e batizou seus filhos. No batismo da terceira menina, disse: “vieram as três Marias e agora virão aqueles que estavam aos pés da cruz.” Nasceram mais dois meninos e foram chamados de José de Arimatéia e de João. Neste batizado, surpreendeu a todos dizendo que já era velho e que logo partiria para a “Pátria”. Foi a Salvatti que o santo reservou sua visita antes da morte. Depois da morte, apareceu para a sua boa senhora e a curou de um mal súbito (Postulazione generale, pp. 92-94).

Um outro leigo muito próximo e fiel a Pallotti foi o operário do Apostolado Católico, o professor da Sapienza Tommaso Alkusci, caldeu. Em 1840, começou a viver em comunidade com Vicente Pallotti, na Igreja do Espírito Santo dos napolitanos, e, após sua morte, deixou sua rica biblioteca para a Congregação dos palotinos. Giacomo Pichini contribuía generosamente com os gastos referentes à festa do Oitavário da Epifania e deixou Salvatti como herdeiro de confiança, para a conversão de todos os seus bens em obras pias. Tanto a Igreja de Londres como a Pia Casa de Velletri foram beneficiadas por esta herança.[6]

Os colaboradores leigos no apostolado

Muitos leigos, entusiasmados pela ideia inovadora de Pallotti que abria espaço para todos na evangelização, se propuseram a atuar nas Escolas Noturnas, na Propagação da Fé, no Hospital Militar e nas Casernas, na administração da Pia Casa de Caridade das meninas órfãs (Postulazione generale, p. 103). Todo esse trabalho girava em torno de uma mística, ou de uma espiritualidade que os levava a crescer não só na fé, mas no amor ao próximo.

Diante do bom êxito obtido por Jacó Salvatti, na arrecadação de fundos para a impressão de um livreto de oração em língua árabe, levou Pallotti perceber como sendo uma resposta de Deus para um trabalho ainda mais profundo, por isso convocou um grupo de amigos para expor algumas ideias que o incomodavam. Pois, tinha a intuição de que todos podem ser apóstolos, mesmo aqueles que não são sacerdotes, inclusive as mulheres. Em sua experiência profunda de Deus, percebeu que Deus escolheu pessoas para ajudar na sua obra salvífica, sem, no entanto, instituí-las como sacerdotes. Ele toma como exemplo a própria Virgem Maria, que apesar de não possuir nenhum cargo eclesiástico, de nunca ter rezado uma missa, não ter confessado ninguém, nem ter pregado, e, no entanto, é a Rainha dos Apóstolos. É a Rainha dos apóstolos porque, no seu estado, concorreu maravilhosamente para a propagação do Reino de Cristo. Portanto, qualquer um, na condição em que se encontra, pode atuar na propagação da fé. Por isso merece o nome de apóstolo. Além do mais, todos são chamados ao apostolado porque devem imitar Cristo, o apóstolo do eterno Pai. O apostolado católico tem como função de despertar os fiéis do seu torpor e indiferença, frente aos acontecimentos da vida. Visa reacender a fé e reavivar a caridade em todo o mundo (Postulazione generale, p. 112 e 117).

Segundo Rafael Mélia, em 1838, o Apostolado Católico era já conhecido em 28 países, entre os quais, boa parte da Europa, Ásia, África, Oceania, já tinha a presença de membros da Sociedade. O apostolado católico inspirou a unidade e fez passar entre os institutos e casas religiosas, entre os religiosos e o clero secular, entre o clero e os fiéis o desejo de unirem-se em torno de um mesmo ideal, o apostolado universal (Postulazione generale, p. 123).

Em Roma, a Sociedade dirigia e sustentava quatro Escolas Noturnas. Os membros recolhiam e assistiam jovens em perigo ou já na marginalização. Acompanhavam os exercícios espirituais. Em 1837, com a epidemia do cólera, a Igreja do Espírito Santo dos Napolitanos, abriu um escritório de assistência espiritual e corporal para as pessoas contaminadas pela doença. Doavam camas e vestimentas para os necessitados. Em 1838, chegou a distribuir cem mil livretos de devoção popular (Postulazione generale, p. 128).

Vicente Pallotti com sua iniciativa apostólica tornou-se um inovador na Igreja, porque o que ele confiou aos leigos era uma atividade exclusiva do clero secular e regular. Em 1840, sentindo-se muito debilitado, recomendou aos sacerdotes e irmãos que promovessem com toda força a propagação do Instituto, porque, segundo ele, a obra era conforme os desígnios de Deus. Acrescentou ainda: “Nosso senhor Jesus Cristo se dignou revelar a uma alma sua dileta, para que fosse escrito tudo isso a respeito da Sociedade do Apostolado Católico. Tudo foi inspirado por Cristo” (Postulazione generale, p. 141).

Portanto, a trajetória de São Vicente Pallotti revela o quanto ele estava atento aos sinais de seu tempo e às necessidades da Igreja. Ele, realmente, utilizou todos os meios de que dispunha, para consolidar o seu sonho missionário de atingir o mundo inteiro, para unir a diversidade de línguas e raças, a fim de que houvesse um só rebanho sob um só Pastor. Com sua inovação apostólica, ele rompeu com o exclusivismo clerical da época ao entender que todo cristão é um apóstolo. Inspirado pela Virgem Maria — Rainha dos Apóstolos que, sem ter sido sacerdote, foi a maior cooperadora de Cristo — ele integrou leigos, artesãos e profissionais na missão evangelizadora. Essa visão de Pallotti pode ser encontrada no livro dos Atos dos Apóstolos que mostra Paulo reconhecendo que Deus também olha com um olhar misericordioso aos pagãos: “Deus me escolheu para que os pagãos ouvissem de minha boca a palavra do Evangelho e acreditassem. Ora, Deus, que conhece os corações, testemunhou a favor deles, dando-lhes o Espírito Santo como o deu a nós. E não fez nenhuma distinção entre nós e eles, purificando o coração deles mediante a fé” (At 15,7b-9).

Em suma, Vicente Pallotti antecipou o papel do laicato na Igreja, fundando uma “Sociedade Apostólica” que funciona como uma “trombeta evangélica”, recordando que a santidade e a missão não são privilégios de alguns, mas um chamado universal fundamentado na caridade e na união de forças. Por isso, esse grande sacerdote mereceu o título de apóstolo de Roma.

 Para refletir

  1. Por que padre Vicente Pallotti pode ser considerado o apóstolo de Roma?
  2. Qual foi a importância de Salvatti na União do Apostolado Católico?
  3. Quem eram as seitas secretas, no tempo de Pallotti, e como ele as enfrentou?

 

 



[1] Cf. F. AMOROSO, San Vincenzo Pallotti Romano, Postulazione generale della Scocietà dell’Apostolato Cattolico, Tipografia Editrice M. Pisani, Roma 1962, p. 34.

[2] Cf. F. AMOROSO, San Vincenzo Pallotti Romano, pp. 59-67. Segundo testemunhos de peritos da Casa Geral, o fato de Pallotti alugar um banco exclusivo para si em suas viagens, para que não fosse sentada mulher ao seu lado, não era por questão de algum luxo pessoal, ou por desprezo às mulheres, mas, sim, porque havia uma forte campanha patrocinada pelo movimento secreto dos Carbonários, anticlericais, que queriam encontrar a todo custo um pretexto para incriminar sacerdotes e religiosos em algum tipo de escândalo. Prevendo isso, Pallotti sempre foi muito cauteloso para enfrentar essa situação.

[3] Cf. F. AMOROSO. San Vincenzo Pallotti Romano, pp. 57-59. Edição antiga, p. 67.

[4] Cf. P. DE GESLIN. Compagnon de Saint Vincent Pallotti, Ècrits et Lettres, textes établis et annotés par Bruno Bayer SAC, Éditions du Dialogue, Paris, 1972, p. 105; Cf. F. AMOROSO. San Vincenzo Pallotti Romano, p. 94.

[5] Existe nos arquivos do Instituto Pallotti o processo, não completo, do julgamento de Salvatti quando esteve na prisão. Estes documentos, até então, não foram publicados e nem divulgados.

[6] Cf. AMOROSO. San Vincenzo Pallotti Romano, p. 125.