domingo, 9 de agosto de 2026

 


TEMA 11: O APÓSTOLO DE ROMA

Se quiserdes caminhar a passos largos na vida de perfeição, segui continuamente Jesus, Maria e José. Procurai exercitar aquelas heroicas virtudes que eles praticaram maravilhosamente, com amor, em todas as circunstâncias e lugar.[1]

Um detalhe importante da vida de São Vicente Pallotti é que ele esteve sempre atento às necessidades espirituais e materiais da Igreja. No ano de 1833, ele demonstrou ter um interesse muito grande pelo Colégio da Propagação da Fé, que se encontrava na Praça Espanha (Postulazione generale, p. 61). Com a morte do diretor espiritual, o santo o substituiu oficialmente no dia 23 de setembro de 1835. Com tal nomeação, ele viu concretizar um sonho que para ele tinha muito significado, pois conseguira entrar em um Colégio Missionário da Igreja Católica, canonicamente erigido pelo Papa Urbano VIII, pela bula Immortalis Dei Filius, de agosto de 1627, para que acolhesse alunos de todas as nações, os quais seriam enviados pelo Sumo Pontífice, para a evangelização em todo o mundo.

A diversidade das raças, línguas e proveniências dos alunos, fazia com que palpitasse o coração do santo pela universalidade da Igreja. Pois, ele queria mergulhar toda a humanidade no sangue de Cristo, com suas próprias mãos, para que Cristo a purificasse (Postulazione generale, p. 36).

Para Vicente Pallotti, a essência da santidade está na pureza de coração. E tal virtude deve ser adquirida antes da ordenação, porque, do contrário será muito difícil de ser alcançada. Por isso, dizia sempre: três coisas são importantes para o sacerdócio: “castidade, castidade, castidade” (Postulazione generale, p. 57). Pallotti era tão cauteloso quanto às virtudes que, nas férias de verão, quando os alunos do Colégio da Propagação da Fé iam para a pequena cidade de Frascati, cerca de 25 Km de Roma, ele também se deslocava para lá, para dar assistência aos alunos. No entanto, alugava um banco da carruagem só para ele, para que tivesse uma viagem tranquila e sem a presença ao seu lado de uma mulher.[2]

Orientação apostólica

O trabalho realizado por Vicente Pallotti, até esse momento, não tinha uma linha definida. Era simplesmente um sacerdote que desempenhava sua missão de pastor, rezando missas, atendendo às confissões e demais sacramentos. Procurava fazer o bem às pessoas sem distinguir qual trabalho fosse, porque para ele, em qualquer das suas atividades, podia dar glória a Deus. Os seus trabalhos iniciais foram com os estudantes da Igreja Santa Maria do Pranto, na Academia de Teologia e aplicando os exercícios espirituais aos nobres e militares do Gianicolo, mas este não era o seu maior desejo. Passou, então, a atender os artesãos Del Muccioli, aos artesãos das Escolas Noturnas, de Ponterotto, Clementino Del Campa, e começou a identificar-se com este tipo de trabalho. A procura de seus interesses espirituais se alargou também aos clérigos do Seminário Romano, Colégio Urbano, Grego, Inglês, Irlandês, Escocês, mas ao mesmo tempo tinha contato com Camáldoli e com vários outros institutos de Roma. Depois, começou também atender os cárceres, os hospitais, os condenados à morte, os doentes de toda a cidade e as intermináveis filas dos penitentes.[3] Para nós parece que o seu trabalho era infinito e difícil de ser vencido, mas, para ele, a vontade de Deus é quem tranquiliza o coração (cf. Lettera, 21).

Recusas

Vicente Pallotti recusou, em 1829, trabalhar na Academia de Teologia. Recusou ainda o benefício de canônico na Igreja Santa Maria dos Mártires – Panteão. Recusou a rica e honrada paróquia de São Marcos e o ofício de capelão da Arquiconfraria de São João Decollato, porque teria um alto salário (Postulazione generale, p. 57). Todas essas recusas de Pallotti eram para estar mais livre para o apostolado. Todos viam nele não um sacerdote comum, mas alguém com uma auréola de santidade, um mestre refinado das coisas divinas (Postulazione generale, p. 69).

As seitas secretas

Três eram as ditas seitas secretas que agiam no tempo de Vicente Pallotti e que provocavam grandes problemas para a Igreja: a maçonaria, os carbonários (uma sociedade secreta revolucionária que atuou na Itália, França e Espanha no século XIX, contra o poder temporal da Igreja, cujas regras eram semelhantes às da maçonaria). Tanto a maçonaria como os carbonários se uniram ao Movimento de Unificação da Itália, que tinha fins políticos. Os Papas que sofreram com as investidas destes movimentos foram: Pio VII, Leão XII, Pio VIII, Gregório XVI e Pio IX. Todos eles travaram uma luta contra esses inimigos que tinham como única finalidade acabar com o poder temporal da Igreja (trono e altar).

Os Carbonários se infiltraram largamente nas fileiras do exército pontifício. Eles distribuíam panfletos entre os jovens, anunciando o extermínio total do catolicismo e da ideia cristã. Convidavam seus seguidores a mancharem a imagem do clero e a induzirem a juventude, inclusive os aspirantes ao sacerdócio, para que se inflamassem por esses novos ideais políticos. Eles queriam, na verdade, se infiltrar de tal maneira no governo da Igreja com o intuito de um dia ter um papa Carbonário (Postulazione generale, p. 80).

Gregório XVI, em todo o seu pontificado, viu nas seitas o maior perigo e a maior fonte de mal que ameaçava a Igreja. Um ano após a sua eleição já se falava na Encíclica Mirari vos (1832) da maldade perpetrada por essa seita através de seus costumes licenciosos e pelo desprezo às pessoas e coisas sagradas, pela sua luta contra a Cátedra de Pedro. A Encíclica fez acenos também às reuniões secretas feitas pela seita. Em Roma, as reuniões aconteciam no Coliseu (Postulazione generale, p. 92-100).

Pallotti tinha pleno conhecimento destas reuniões, mas nunca os confrontou diretamente. Vendo a força destrutiva de tal movimento, Pallotti procurou arrebanhar em torno de si o maior número possível de jovens, porque sabia que eles eram seus alvos prediletos. Fundou, nesse período, a liga antidemoníaca para combater a obscenidade e colocou toda sua alma na condução de todos os jovens nos seminários e nos colégios romanos, que se preparavam para o sacerdócio, para que tivessem uma vida santa (Postulazione generale, p. 94). Ele conhecia bem o poder desta organização, de modo que vinte anos mais tarde, à véspera do assassinato do Conde Pellegrino Rossi, quando De Geslin se mostrou surpreso porque não tomava uma iniciativa para salvar a vida do Conde, amargamente respondeu: “O senhor não conhece nem a força e nem a ferocidade desse grupo. O mal reina solto e o papa está impotente frente a eles”. Mesmo diante dos acontecimentos em curso, Pallotti continuou ativo no seu apostolado e tomou como lema para si: Tudo para a salvação das almas e tudo para a destruição do pecado. Em suas palavras tornaram-se frequentes a sua luta contra o pecado e por isso pensou em uma Sociedade Apostólica que fosse como que uma trombeta evangélica na Igreja.[4]

Uma visita inusitada

O desejo de Vicente Pallotti de servir a Cristo não tinha limites. Certo dia, passando pela rua entrou em um pequeno comércio de um senhor chamado Jacó Salvatti e encontra somente sua esposa e sem mesmo conhecê-la perguntou: “foi você que me chamou aqui?” Ela respondeu: “o senhor está enganado, pois nem te conheço!” Pallotti novamente diz à senhora: “Camilla, sua filha enferma, acaba de ser curada! A mulher responde, tão curada que está em agonia. Repetiu de novo e se foi. Quando o marido chega, dirige-se ao quarto e leva uma fruta para a menina. Ela come e em seguida se levanta. O seu médico constata mais tarde que a menina não sofria de mais nenhuma enfermidade. A resposta do médico foi: “certamente foi curada por esse homem de Deus”. Diante desse fato, Salvatti colocou-se à disposição de Pallotti, mas quando Pallotti confiou-lhe a missão de fazer a coleta de quatrocentos Escudos, levou o maior susto. Não é possível, disse. Não sou capaz disso, pois bem sabia que poderia ser malvisto pela sociedade, pelo fato de ter sido prisioneiro por duas vezes.[5] Ninguém acreditaria nele. Precisaria pelo menos de duas cartas de apresentação. Pallotti confirma a quantia e assegura que não precisaria de nenhuma carta de apresentação. Ele, por deferência a Pallotti, convencido saiu em direção à porta, mas de repente parou na soleira da porta, disse: “essa incumbência não é para mim!” Pallotti, mais decidido do que antes, insiste-lhe para que vá. Obedecendo à sua ordem, saiu e Pallotti com segurança profética lhe diz que, em nome do crucificado encontrarás aquilo que é necessário. Confiante em tamanha convicção do santo, Salvatti se anima e sai à procura da quantia estipulada. No meio da rua, mais uma vez começou a vacilar e veio a ideia de dar um giro pelo bairro, sem dizer nada e nem perguntar nada a ninguém, para depois voltar e dizer a Pallotti que ninguém quis colaborar. Pensando bem, ele tinha recebido a ordem de um santo e que descobriria sua mentira. Por fim, acabou se convencendo de que o melhor negócio seria enfrentar a parada. Primeiramente chegou diante de uma quitanda, entrou e logo já foi pedindo quatrocentos Escudos para uma obra de caridade. Esperava que o homem o expulsasse ou risse em sua cara. Para sua surpresa, o homem se desculpou gaguejando dizendo, mas... cem Escudos não estaria bom? De imediato, começou a contar as notas. Salvatti fez mil agradecimentos e encorajado entrou rápido em uma outra porta. O resultado foi idêntico. Ninguém recusou. Aquilo que parecia impossível foi muito rápido e fácil. Em pouquíssimo tempo, já tinha angariado quinhentos e cinquenta Escudos.

Salvatti não era uma pessoa rica, ele era proveniente de Rocca di Papa, perto de Roma. Era fabricante de sabão e vendia na sua lojinha. Por isso, não colocou nas mãos de Pallotti suas riquezas, mas o seu trabalho voluntário. Tornou-se um grande colaborador na Pia Casa di Carità, no Borgo de Santa Ágata. Mais tarde, Pallotti fez o casamento de sua filha Camilla e batizou seus filhos. No batismo da terceira menina, disse: “vieram as três Marias e agora virão aqueles que estavam aos pés da cruz.” Nasceram mais dois meninos e foram chamados de José de Arimatéia e de João. Neste batizado, surpreendeu a todos dizendo que já era velho e que logo partiria para a “Pátria”. Foi a Salvatti que o santo reservou sua visita antes da morte. Depois da morte, apareceu para a sua boa senhora e a curou de um mal súbito (Postulazione generale, pp. 92-94).

Um outro leigo muito próximo e fiel a Pallotti foi o operário do Apostolado Católico, o professor da Sapienza Tommaso Alkusci, caldeu. Em 1840, começou a viver em comunidade com Vicente Pallotti, na Igreja do Espírito Santo dos napolitanos, e, após sua morte, deixou sua rica biblioteca para a Congregação dos palotinos. Giacomo Pichini contribuía generosamente com os gastos referentes à festa do Oitavário da Epifania e deixou Salvatti como herdeiro de confiança, para a conversão de todos os seus bens em obras pias. Tanto a Igreja de Londres como a Pia Casa de Velletri foram beneficiadas por esta herança.[6]

Os colaboradores leigos no apostolado

Muitos leigos, entusiasmados pela ideia inovadora de Pallotti que abria espaço para todos na evangelização, se propuseram a atuar nas Escolas Noturnas, na Propagação da Fé, no Hospital Militar e nas Casernas, na administração da Pia Casa de Caridade das meninas órfãs (Postulazione generale, p. 103). Todo esse trabalho girava em torno de uma mística, ou de uma espiritualidade que os levava a crescer não só na fé, mas no amor ao próximo.

Diante do bom êxito obtido por Jacó Salvatti, na arrecadação de fundos para a impressão de um livreto de oração em língua árabe, levou Pallotti perceber como sendo uma resposta de Deus para um trabalho ainda mais profundo, por isso convocou um grupo de amigos para expor algumas ideias que o incomodavam. Pois, tinha a intuição de que todos podem ser apóstolos, mesmo aqueles que não são sacerdotes, inclusive as mulheres. Em sua experiência profunda de Deus, percebeu que Deus escolheu pessoas para ajudar na sua obra salvífica, sem, no entanto, instituí-las como sacerdotes. Ele toma como exemplo a própria Virgem Maria, que apesar de não possuir nenhum cargo eclesiástico, de nunca ter rezado uma missa, não ter confessado ninguém, nem ter pregado, e, no entanto, é a Rainha dos Apóstolos. É a Rainha dos apóstolos porque, no seu estado, concorreu maravilhosamente para a propagação do Reino de Cristo. Portanto, qualquer um, na condição em que se encontra, pode atuar na propagação da fé. Por isso merece o nome de apóstolo. Além do mais, todos são chamados ao apostolado porque devem imitar Cristo, o apóstolo do eterno Pai. O apostolado católico tem como função de despertar os fiéis do seu torpor e indiferença, frente aos acontecimentos da vida. Visa reacender a fé e reavivar a caridade em todo o mundo (Postulazione generale, p. 112 e 117).

Segundo Rafael Mélia, em 1838, o Apostolado Católico era já conhecido em 28 países, entre os quais, boa parte da Europa, Ásia, África, Oceania, já tinha a presença de membros da Sociedade. O apostolado católico inspirou a unidade e fez passar entre os institutos e casas religiosas, entre os religiosos e o clero secular, entre o clero e os fiéis o desejo de unirem-se em torno de um mesmo ideal, o apostolado universal (Postulazione generale, p. 123).

Em Roma, a Sociedade dirigia e sustentava quatro Escolas Noturnas. Os membros recolhiam e assistiam jovens em perigo ou já na marginalização. Acompanhavam os exercícios espirituais. Em 1837, com a epidemia do cólera, a Igreja do Espírito Santo dos Napolitanos, abriu um escritório de assistência espiritual e corporal para as pessoas contaminadas pela doença. Doavam camas e vestimentas para os necessitados. Em 1838, chegou a distribuir cem mil livretos de devoção popular (Postulazione generale, p. 128).

Vicente Pallotti com sua iniciativa apostólica tornou-se um inovador na Igreja, porque o que ele confiou aos leigos era uma atividade exclusiva do clero secular e regular. Em 1840, sentindo-se muito debilitado, recomendou aos sacerdotes e irmãos que promovessem com toda força a propagação do Instituto, porque, segundo ele, a obra era conforme os desígnios de Deus. Acrescentou ainda: “Nosso senhor Jesus Cristo se dignou revelar a uma alma sua dileta, para que fosse escrito tudo isso a respeito da Sociedade do Apostolado Católico. Tudo foi inspirado por Cristo” (Postulazione generale, p. 141).

Portanto, a trajetória de São Vicente Pallotti revela o quanto ele estava atento aos sinais de seu tempo e às necessidades da Igreja. Ele, realmente, utilizou todos os meios de que dispunha, para consolidar o seu sonho missionário de atingir o mundo inteiro, para unir a diversidade de línguas e raças, a fim de que houvesse um só rebanho sob um só Pastor. Com sua inovação apostólica, ele rompeu com o exclusivismo clerical da época ao entender que todo cristão é um apóstolo. Inspirado pela Virgem Maria — Rainha dos Apóstolos que, sem ter sido sacerdote, foi a maior cooperadora de Cristo — ele integrou leigos, artesãos e profissionais na missão evangelizadora. Essa visão de Pallotti pode ser encontrada no livro dos Atos dos Apóstolos que mostra Paulo reconhecendo que Deus também olha com um olhar misericordioso aos pagãos: “Deus me escolheu para que os pagãos ouvissem de minha boca a palavra do Evangelho e acreditassem. Ora, Deus, que conhece os corações, testemunhou a favor deles, dando-lhes o Espírito Santo como o deu a nós. E não fez nenhuma distinção entre nós e eles, purificando o coração deles mediante a fé” (At 15,7b-9).

Em suma, Vicente Pallotti antecipou o papel do laicato na Igreja, fundando uma “Sociedade Apostólica” que funciona como uma “trombeta evangélica”, recordando que a santidade e a missão não são privilégios de alguns, mas um chamado universal fundamentado na caridade e na união de forças. Por isso, esse grande sacerdote mereceu o título de apóstolo de Roma.

 Para refletir

  1. Por que padre Vicente Pallotti pode ser considerado o apóstolo de Roma?
  2. Qual foi a importância de Salvatti na União do Apostolado Católico?
  3. Quem eram as seitas secretas, no tempo de Pallotti, e como ele as enfrentou?

 

 



[1] Cf. F. AMOROSO, San Vincenzo Pallotti Romano, Postulazione generale della Scocietà dell’Apostolato Cattolico, Tipografia Editrice M. Pisani, Roma 1962, p. 34.

[2] Cf. F. AMOROSO, San Vincenzo Pallotti Romano, pp. 59-67. Segundo testemunhos de peritos da Casa Geral, o fato de Pallotti alugar um banco exclusivo para si em suas viagens, para que não fosse sentada mulher ao seu lado, não era por questão de algum luxo pessoal, ou por desprezo às mulheres, mas, sim, porque havia uma forte campanha patrocinada pelo movimento secreto dos Carbonários, anticlericais, que queriam encontrar a todo custo um pretexto para incriminar sacerdotes e religiosos em algum tipo de escândalo. Prevendo isso, Pallotti sempre foi muito cauteloso para enfrentar essa situação.

[3] Cf. F. AMOROSO. San Vincenzo Pallotti Romano, pp. 57-59. Edição antiga, p. 67.

[4] Cf. P. DE GESLIN. Compagnon de Saint Vincent Pallotti, Ècrits et Lettres, textes établis et annotés par Bruno Bayer SAC, Éditions du Dialogue, Paris, 1972, p. 105; Cf. F. AMOROSO. San Vincenzo Pallotti Romano, p. 94.

[5] Existe nos arquivos do Instituto Pallotti o processo, não completo, do julgamento de Salvatti quando esteve na prisão. Estes documentos, até então, não foram publicados e nem divulgados.

[6] Cf. AMOROSO. San Vincenzo Pallotti Romano, p. 125.


 



Tema 10: VICENTE PALLOTTI: UM TRABALHADOR INCANSÁVEL

 Quem foi Vicente Pallotti

A vida de Vicente Pallotti foi marcada por um vasto apostolado. Aqui, apresentaremos algumas ações realizadas por ele, desde a sua infância e adolescência até os seus primeiros anos de sacerdócio. Mas, ao longo da nossa formação, apresentaremos outras atividades compartilhadas com os membros da sua fundação, a União do Apostolado Católico. Ele surpreendia a todos pela sua segurança e realismo com que fazia as coisas. Ele sempre esteve imerso em um profundo e ardente amor a Deus e ao próximo. Ele estava sempre atento às mínimas dificuldades das pessoas, como: doença, indigência, ignorância, injustiças sociais de todo tipo e ocupou-se disto como verdadeiro pastor de almas.

Além de professor na Faculdade Sapienza de Roma, dedicava grande parte do seu tempo à direção espiritual, às necessidades religiosas dos fiéis em muitos colégios dirigidos por religiosos e aos soldados. Em 1837, ano em que Roma foi acometida pela epidemia do cólera, com um elevado número de vítimas, ele dedicou-se à perigosa cura dos doentes. Roma tinha-se tornado um deserto. As pessoas evitavam sair pelas ruas. O número de pessoas contaminadas pelo cólera chegou a 9.372 e 5.419 mortos.

Essa doença chegou e propagou-se assustadoramente. Faltavam medicamentos, não havia mais assistência, escasseavam os alimentos e até a assistência espiritual às pessoas infectadas. Muitos padres temiam aproximar-se dos doentes, outros davam absolvição de longe. Para suplicar a intervenção divina, para que afugentasse aqueles males, foram feitas orações, caminhadas e procissões. Houve uma grande romaria onde padres, cardeais e o próprio papa Gregório XVI juntaram-se à caminhada processional. Padre Vicente promoveu a participação de grande número de padres diocesanos e religiosos, que fizeram o trajeto descalços, em pleno avanço da doença (Todisco, pp. 409-411).

Padre Vicente permaneceu à frente no atendimento aos doentes: como padre e enfermeiro, administrava os sacramentos e ministrava os remédios. Arrumava as camas, servia comida na boca dos doentes, acomodava-os nas almofadas. Ele não se preocupava com o contágio. Ele criou um centro de assistência religiosa. Se no momento que procuravam não houvesse padre disponível, as pessoas deixavam o endereço e no espaço de poucas horas chegaria um padre do Apostolado Católico ou o próprio Padre Vicente. Levavam também vales para pão, carne, outros alimentos e limões que eram utilizados como remédio. Todos os dias era preparado um panelão de sopa para os necessitados. Por causa deste árduo trabalho, em prol dos necessitados, muitos dos seus colaboradores perderam a vida (Todisco, pp. 412-414). Foi o caso anunciado pelo Próprio Pallotti que o padre Gaspar Del Bufalo faleceu na manhã do dia 28 de dezembro de 1837, após a celebração da santa missa, pelas nove horas.

As consequências da epidemia foram terríveis. Muitas meninas órfãs de pai e mãe vagueavam pelas ruas, muitas com fome e frio. Vicente comoveu-se diante desta realidade e tomou a firme decisão de recolhê-las e entregando-as aos cuidados de algumas mulheres piedosas que as abrigaram em uma casa alugada. Contando com o auxílio dos seus colaboradores, não teve dificuldades para dar-lhes a devida assistência. Com a morte da senhora Brandini, dona da casa alugada, as crianças foram transferidas para a casa de Madalena Salvatti. Como o número de órfãs aumentava a cada dia, Vicente recorreu à Santa Sé, para que fosse cedida à UAC a casa Fuccioli, na Rua Santa Ágata dei Gotti, para servir de abrigo às meninas. O seu pedido foi aceito pelas autoridades.

Vicente Pallotti se destacou por seu trabalho pastoral e pela caridade, estendendo sua atuação de forma notável também aos soldados e encarcerados em Roma. A sua abordagem era profundamente marcada pela compaixão e pelo desejo de reavivar a fé e buscar a dignidade humana, mesmo nas condições mais difíceis.

Trabalho com os Soldados

Durante a sua vida, a cidade de Roma esteve em constante efervescência política e militar, especialmente com as incursões e conflitos relacionados às Guerras Napoleônicas e ao Ressurgimento (unificação italiana). Pallotti via naqueles homens, muitas vezes afastados de suas famílias e em situações de risco, uma necessidade espiritual e humana. Mesmo sabendo do perigo de a qualquer momento se iniciar uma revolução na Itália, consequência da Revolução Francesa, Pallotti não deixou de fazer o seu trabalho junto aos soldados. A ele foi confiado o Hospital Militar e mais tarde recebeu com os seus padres a direção espiritual dos quartéis de Roma. Para motivar a vida religiosa entre os militares, introduziu a explicação semanal do evangelho e do catecismo, as orações em comum, o mês de Maria, os exercícios espirituais, a reza do terço e outros exercícios de piedade. Distribuía entre eles livrinhos de orações. Como conquistou a confiança dos soldados e comandantes, começou a fazer celebrações, retiros, orações. Certa vez, ao apresentar os seus propósitos a um comandante, este o advertiu: “Desse jeito, você vai transformar os soldados em monges”! Pallotti apenas acrescentou: “Tendo-se bons cristãos, ter-se-ão ótimos soldados”! Pallotti pregou muitos retiros nos quartéis, para soldados e comandantes. Ele era tão bem-quisto nos quartéis que chegou a intervir na liberação de soldados presos.[1]

Esse trabalho foi tão exitoso que acabou tendo colaboradores militares na União do Apostolado Católico. Alguns testemunhos afirmaram que muitos quartéis, realmente, chegaram a parecer mosteiros. Era um campo de trabalho desafiador, mas necessário. Ele não se limitava a oferecer somente ajuda material, mas buscava:

  1. Apoio espiritual e sacramental: Ele ia aos quartéis para ouvir confissões, celebrar missas e distribuir a comunhão. Seu objetivo era ser um ponto de apoio e consolo, ajudando os soldados a se reconectarem com sua fé em meio à incerteza e à violência.
  2. Aconselhamento e consolo: Pallotti oferecia palavras de encorajamento, orientando os soldados a manterem a esperança e a moralidade, independentemente das circunstâncias. Ele via cada um como filho de Deus, merecedor de respeito e de cuidado.
  3. Ajuda em batalha: Relatos históricos contam que, durante os conflitos, ele se arriscava para auxiliar os feridos no campo de batalha, demonstrando sua coragem e dedicação inabalável.

Trabalho com os encarcerados

A situação das prisões na época era extremamente precária, com condições desumanas e pouca ou nenhuma assistência espiritual. Pallotti se dedicou a transformar a vida daqueles homens, vendo neles não criminosos irrecuperáveis, mas pessoas em busca de redenção. Em alguns casos, interveio para libertar os injustiçados ou diminuir a pena daqueles pais de família que demonstravam ter boa conduta. Ele dava atenção especial para os condenados à pena de morte. Para alguns, deu assistência até o minuto da execução. Dentre os vários assistidos por ele, com exceção de dois, todos se converteram. Alguns resistiam no começo, mas, acabavam pedindo perdão, aceitando o amor e a misericórdia de Deus.

Ele atuava de diversas formas:

  1. Visitas regulares às prisões: Ele visitava as cadeias com frequência, levando não apenas alimentos e roupas, mas principalmente a esperança e o amor de Cristo. Ele se sentava para conversar com cada um, demonstrando interesse genuíno por suas histórias e arrependimentos.
  2. Ministrava os sacramentos: Assim como aos soldados, ele realizava confissões e missas nas prisões, oferecendo a oportunidade de reconciliação com Deus e de renovação interior.
  3. Trabalho de reabilitação: Pallotti entendia que a fé precisava ser acompanhada de ações concretas para a reabilitação. Ele se empenhou em auxiliar os prisioneiros a se reintegrarem à sociedade, após o cumprimento de suas penas, procurando emprego e moradia para eles. Esse trabalho de ressocialização era a parte fundamental de sua missão.

A atuação de Vicente Pallotti com esses grupos vulneráveis foi um reflexo de sua crença na união dos apóstolos, uma ideia central da sua Pia União. Para ele, cada pessoa, independentemente de sua condição ou passado, tinha o potencial de ser um apóstolo, ou seja, um instrumento para espalhar a fé. Seu legado demonstrava que a compaixão e a solidariedade podem alcançar os marginalizados, oferecendo-lhes uma nova chance de vida.

Vicente Pallotti estava atento a todas as necessidades do seu tempo. Ele não se limitou em fazer apenas um tipo de apostolado. Diante da limitação do Estado para dar a devida formação para as crianças, ele mesmo fundou escolas agrícolas, institutos assistenciais e orfanatos e, através das escolas noturnas, procurou oferecer cultura aos adultos, interessou-se pela difusão da boa imprensa, ocupou-se das obras missionárias. Organizou a assistência espiritual dos imigrantes italianos (na Inglaterra). A sua obra mais importante, para poder atender às inúmeras necessidades de então, foi a fundação da União do Apostolado Católico, uma organização bastante elástica, mas orientada para todo e qualquer tipo de apostolado.

Com a sua fundação, Vicente queria que seus discípulos percorressem o mesmo caminho pelo qual o guiou a divina Providência. Ele não se cansava de afirmar que a necessidade do seu tempo era de reavivar a fé e reacender a caridade no mundo. Necessidade esta que continua a urgir, com maior força ainda, às pessoas da nossa geração.[2]

Pallotti assumiu muitos compromissos e foi extremamente ativo, mas tudo colocava nas mãos de Deus. Ainda criança e adolescente, exerceu muitas obras de caridade, iniciando assim o seu apostolado. Quando saía de casa, levava consigo algo para os necessitados que encontrasse na rua e, por várias vezes, partilhou com os pobres aquilo que lhe era destinado, por exemplo, frutas, doces, sapatos, roupas e, certa vez, até doou o seu colchão.

Com o apoio do seu diretor espiritual, Vicente, ainda seminarista, ajudou e participou de muitas obras apostólicas, tais como: o Albergue de Santa Galla que alojava os migrantes, os camponeses e outras pessoas que passavam algum tempo em Roma. Ele auxiliava na orientação espiritual. A Obra de Ponterrotto (na rua das proximidades havia uma ponte quebrada que passava sobre o rio Tibre), que tinha como objetivo recolher jovens da classe pobre numa espécie de academia, onde aprendiam as artes úteis e os princípios morais e religiosos. Na casa de retiros, no Monte Gianiculo, Pallotti realizou um notável apostolado, tanto que, em 1823, foi nomeado diretor desta obra. Ele ministrava também a educação religiosa nas Escolas Noturnas, destinada aos filhos de artesãos, e assumiu a diretoria da obra até 1839, quando contavam com oito estabelecimentos, com cerca de mil alunos. Os alunos recebiam, nos domingos, a instrução religiosa e as práticas de piedade. Nos outros dias, o Colégio funcionava durante uma hora e meia, e os alunos aprendiam a ler, a escrever, a fazer contas, os princípios do desenho e da geometria aplicados às artes e o catecismo (Gaynor, pp. 44-46).

Pallotti, em seus trabalhos, sempre buscou destacar o valor do apostolado universal, isto é, de todos: clérigos, religiosos e leigos. Cada um conforme a sua realidade e condições deve dedicar-se ao apostolado. Sendo assim, não poderia deixar de valorizar também as associações religiosas existentes na época, com o intuito de fortalecer a caminhada cristã de seus membros.

Desde muito cedo, ele fez parte de associações religiosas, organizadas em forma de Confrarias e Pias Uniões. Ele participou da devoção ao Preciosíssimo Sangue de Jesus Cristo, fundada pelo seu amigo São Gaspar del Bufalo. Ele via nessa devoção a melhor forma de vencer a concupiscência.

Participou da União Antidemoníaca que lutava contra as imagens escandalosas e apresentava a lista dos livros proibidos, segundo a concepção da época. Desde os primeiros anos de escola, participou da Congregação Mariana Nossa Senhora das Lágrimas. Essa devoção surgiu quando a imagem da santa começou a verter lágrimas, perante um crime cometido aos seus pés. Ele chegou estar à frente desta Congregação auxiliando na formação e orientação dos jovens congregados. Foi também animador da Congregação Mariana, ainda seminarista, onde se destacava a devoção à Mãe do Céu. Além de grande colaborador, foi também presidente da Congregação Jesus e Maria.

As suas homilias, normalmente, eram breves para poder sobrar mais tempo para as confissões, função que Vicente exercia com muito amor e zelo. Essa dedicação era fruto da experiência pessoal que teve com o seu confessor. Ele dedicava horas e horas ao confessionário, sem contar as várias chamadas para junto aos enfermos. Os que mais se confessavam com Vicente eram camponeses, operários, autoridades civis e eclesiásticas.

Muitos procuravam orientar-se com ele desde leigos até cardeais, como Lambruschini, que foi secretário de Estado do Papa Gregório XVI. Para todos eles, Vicente destacava infinita bondade e misericórdia de Deus para com todos. Seu zelo pelas almas era tamanho que nunca deixou de se dedicar às confissões, mesmo quando alguns companheiros procuravam impedir esse seu apostolado.

Diante das tantas atividades realizadas pelo nosso santo fundador, isso nos leva a ver as pessoas com um novo olhar, o de Cristo que passou fazendo o bem e nos faz refletir sobre o modo como estamos atuando em nossas atividades pastorais. Que Vicente Pallotti nos inspire sempre, para que possamos ter maior sensibilidade para com as tantas necessidades do nosso tempo.

 

Para refletir

  1. De que maneira Vicente Pallotti desenvolveu o seu apostolado?
  2. Que tipo de mensagem ele deixa para a nossa realidade evangelizadora de hoje?
  3. A partir do exemplo da atuação pastoral de Pallotti, quais deveriam ser as nossas prioridades pastorais?


[1] Ângelo Lôndero (org.). Horizontes Palotinos, Santa Maria: Biblos, 2002, p. 130.

[2] GAYNOR, J. Santos. Vida e obra de São Vicente Pallotti. Pallotti: Santa Maria, 2000, p. 36.


quarta-feira, 22 de julho de 2026

 


 

Tema 9: A DEVOÇÃO MARIANA NO CARISMA PALOTINO 

A devoção a Maria não surgiu na Igreja por meio de um decreto oficial ou de um evento único, mas cresceu de forma orgânica, como uma semente plantada no início do cristianismo que floresceu ao longo dos séculos. Ela combina intuição teológica, registros bíblicos e a necessidade emocional dos fiéis de encontrar uma figura materna na fé.

Tudo começou com o “Sim” de Maria na Anunciação. No Novo Testamento, ela já aparece como figura central em momentos-chave: o nascimento de Jesus, as Bodas de Caná (onde atua como intercessora) e aos pés da Cruz. O registro mais antigo de uma oração a Maria data de aproximadamente o ano 250 d.C: “À vossa proteção recorremos, Santa Mãe de Deus...”, encontrado em um fragmento de papiro no Egito (Papiro Rylands 470). Isso prova que, antes mesmo da Igreja oficializar dogmas, os cristãos já pediam sua intercessão em tempos de perseguição. Em termos práticos e humanos, a devoção começou porque os cristãos viam em Maria a ponte perfeita: ela é plenamente humana (como nós), mas teve a maior intimidade possível com o Divino (Jesus).  

Para os primeiros cristãos, se Jesus ouviu o pedido dela em uma festa de casamento em Caná, Ele certamente a ouviria no céu (Cf. Jo 2,3-5). Para o nosso fundador, São Vicente Pallotti, a devoção mariana ia muito além da oração contemplativa; era o combustível para a ação apostólica. Ele via Maria como modelo de doação total a Deus e que poderia modelar nele a imagem do seu Filho, Jesus (Stawiski, p. 191).

Maria na ascética palotina

Maria ocupa um lugar muito importante na obra e na doutrina de Vicente Pallotti. Para ele, Maria é a cheia de graça, a filha predileta do eterno Pai, a Mãe que Deus Filho escolheu entre todas as mulheres para tornar-se homem, a Esposa única na qual o Espírito Santo infundiu a mais pura virgindade e exuberante maternidade. Nenhuma criatura, pela sua pessoal excelência, pode ser amada e honrada como foi amada e honrada Maria, porque ela foi infinitamente amada e honrada por Deus Pai, Filho e Espírito Santo. Deus criou o homem à sua imagem e Maria, Mãe de Jesus, fez Deus à sua imagem. Não existe uma criatura comparável à Maria, porque sua beleza é irrepetível. Por esta admirável excelência, Maria merece admiração, louvor, amor, mais do que todas as coisas criadas (Amoroso. Dal nulla al tutto, p. 114; OO CC VIII, 224).

Na cruz, o sangue derramado de Cristo é o sangue de Maria, a carne de Jesus, flagelada e coroada de espinhos, seus membros perfurados pelos pregos e lanças é carne de Maria. Maria aceitou a profecia de Simeão que anunciou tais sofrimentos com o símbolo da espada que traspassará seu coração. Esta Senhora bendita foi constituída por Jesus, no momento mais solene da redenção, Mãe do novo povo de Deus (Cf. OO CC XIII, 725; cf. Amoroso. Dal nulla al tutto, p. 115).

No seu contínuo contato filial com a Mãe de Deus, Pallotti descobriu nela algo muito significativo, a sua presença no Cenáculo como Mãe e Rainha dos apóstolos. Ela que não tinha nenhuma jurisdição e nenhuma participação no sacerdócio ministerial e, contudo, foi tão grande apóstola que mereceu o título de Rainha dos Apóstolos. Isto prova claramente que não é necessário ter um poder de jurisdição ou de ministério para se tornar apóstolo de Jesus. Maria não ocupou nenhum cargo e, no entanto, superou, em méritos, todos os Papas, Bispos e sacerdotes (Cf. OO CC III, 141-142, 144-150; IV, 180-186; Doc. da fundação, p. 97).

Segundo Pallotti, Maria cooperou na propagação da santa fé mais que os apóstolos. Ela sustentou, com sua oração o ânimo dos apóstolos e fez com que superassem as suas fadigas. Assim escreveu ele:

A santa Igreja, não por um simples título de honra, mas por motivo de plenitude de méritos, saúda Maria com o augusto título de Rainha dos Apóstolos e, com isto, todos, sacerdotes e leigos, todos, de ambos os sexos, de todo estado, posição e condição social, se animarão a imitar a nossa Imaculada Mãe Maria Santíssima, em todos os empreendimentos da maior glória de Deus e em todas as obras de misericórdia corporal e espiritual para o bem dos próximos (Cf. OO CC III, 6, 182, 188, 195, 209; IV, 208, 246, 293, 325, 333, 378, 417ss, 454, 475; VII, 7; Doc. da fundação, p. 184).

Pallotti queria também que seus seguidores tivessem um profundo amor e devoção à Mãe de Deus. Queria que todos fossem fervorosíssimos apóstolos de Maria. Queria que todos fossem transformados em Maria, de sorte que, depois de Jesus Cristo, o seu coração, os seus movimentos internos, as suas palavras e os seus olhares, seus passos e ações fossem de Maria, porque um verdadeiro devoto de Maria não só se salvará, como se tornará um grande santo (Cf. OO CC III, 6, 182, 188, 195, 209; IV, 208, 246, 293, 325, 333, 378, 417ss, 454, 475; VII, 7). Por isso, a fundação da “União do Apostolado Católico” foi totalmente colocada sob a materna proteção de Maria Santíssima, Rainha dos Apóstolos (Cf. OO CC I, 6; III, 6). Para ele, Maria era quem melhor representava a ideia do apostolado católico, porque foi quem fortaleceu a fé dos apóstolos, no Cenáculo, enquanto esperavam a vinda do Espírito Santo (Cf. OO CC III, 27; IV, 50; X, 86-87; XIII, 195, 365, 440). Ela é, depois de Cristo, o modelo mais perfeito de apostolado (Cf. OO CC I, 7).

Maria na vida de Vicente Pallotti

A devoção a Maria é uma das colunas que sustentou a espiritualidade de Vicente Pallotti. Ele a venerava sobretudo sob o título de “Rainha dos Apóstolos”, uma invocação da Ladainha de Nossa Senhora de Loreto. Por isso, escolheu a Rainha dos Apóstolos como padroeira e protetora do “Apostolado Católico.”

Em Maria, ele vê um exemplo extraordinário do verdadeiro zelo apostólico e do amor perfeito. Além disso, Pallotti gostava da ideia de que Maria, sem poderes sacerdotais e sem o ministério da pregação, era uma verdadeira apóstola, como sinal e exemplo para todos na Igreja. Pois, apóstolo é cada um que, do modo possível e segundo suas possibilidades, se empenha pela expansão do Reino de Deus.

Maria, com seu exemplo e com sua oração intercessora, dá valor aos Apóstolos e premia seus esforços. Nosso santo vê em Maria uma mestra que lhe diz: “Aprende de mim, como eu imitei perfeitamente meu Filho.” O primeiro escrito de Pallotti que veio à luz é justamente um tratado de 154 páginas dedicado a Maria, Rainha dos Santos. É composto por trinta leituras, para meditar no mês de maio, mês da Virgem. As imagens preferidas de Maria, para Pallotti, são aquelas em que ela carrega seu filho nos braços, em especial a “Mãe do Divino Amor”, que ainda hoje na Itália é uma invocação muito popular.

Um fato importante na devoção mariana de Pallotti é o que ele mesmo escreveu em seu Diário, com a data de 31 de dezembro de 1832. Segundo Juan S. Gaynor, este acontecimento é chamado pelos escritores místicos de “Esponsalício Espiritual”. Essa doutrina se fundamenta no fato de que nenhum ser humano poderá entrar em uma relação tão íntima com Deus como Maria, enquanto estiver nesta Terra. Esta doutrina estabelece que, em alguns casos, Deus permite a alguns seres humanos entrar em uma união estreitíssima com Maria e desfrutar, através dela, de uma antecipação de união divina. Por esta razão, achei importante citar este texto para compreender mais a relação de nosso santo com Maria santíssima:

“No último dia de 1832, a grande Mãe de misericórdia, para triunfar com o milagre de misericórdia sobre a inconcebível ingratidão e indignidade do maior miserável jamais visto entre os súditos do reino da misericórdia, se digna misericordiosamente aceitar o casamento espiritual com tal súdito e lhe dá como dote tudo o que possui, fazendo-o reconhecer o próprio divino Filho: sendo ela esposa do Espírito Santo, se empenha em fazer com que tudo seja transformado no Espírito Santo. Que misericórdia a de Jesus que, sem esperar, atende os pedidos da Mãe em favor de um ingrato, miserável, indigno, sacrílego, criminoso, o maior criminoso que jamais existiu ou que possa existir! Que misericórdia a de Maria, Rainha Imaculada que tão piedosamente se dispõe a rezar e a interceder em favor do mais miserável, ingrato e sacrílego pecador que ela jamais teve ou terá entre os súditos de seu reino no império da misericórdia! O paraíso está repleto das misericórdias de Maria. Misericórdia! Misericórdia! Misericórdia! Misericórdia! Misericórdia! Misericórdia! Misericórdia! Misericórdia! Cantarei eternamente as misericórdias do Senhor. Cantarei eternamente as misericórdias de Maria. Meu Deus e meu tudo”! (OO CC X, 195)

Em muitas imagens de Pallotti, ele é representado com uma pequena imagem de Maria na palma da mão. Isso acontece porque naquela época era costume beijar a mão do sacerdote, mas Pallotti não gostava deste costume. Ele resolveu o problema mandando fazer uma estatueta especial, com a imagem de Maria, para apresentá-la a quem queria beijar a sua mão.

Entre as formas usadas pelo santo para se dirigir à Maria, aparecem as seguintes: “minha Senhora e nossa comum mãe Maria Santíssima”; “minha mais que apaixonadíssima mãe Maria”; “Maria santíssima, minha mais que enamoradíssima e imaculada mãe”; “minha mais que puríssima e enamoradíssima mãe Maria”. Com esses títulos, podemos ver como Pallotti sente o amor infinito e a ternura de Maria para com ele e para com todos os seus filhos, e não se cansa de dizer que ela é uma mãe amantíssima.

No mosteiro de Camáldoli

Estando no Mosteiro dos Camaldulenses, nosso santo escreveu uma carta ao seu diretor espiritual, o Pe. Fazzini (1758-1837), a pedido deste, sobre as qualidades de sua mãe, que havia falecido em julho de 1827. É nesta carta que vemos como a espiritualidade mariana já reinava em sua família:

“Quanto à Imaculada Conceição de Maria Santíssima, o Espírito do Senhor lhe deu tal veneração e uma ideia tão nobre que, não somente a invejava santamente e se humilhava, mas ainda, muitas vezes com afeto e devoção a saudava com o título gloriosíssimo de Imaculada Conceição, incentivando seus filhos a fazer o mesmo. O mistério da maternidade da mesma Virgem Maria, conforme as luzes que Deus lhe havia dado, era para ela objeto de encanto e repetia com tal veneração e afeto religioso os versículos – ‘bem-aventuradas as entranhas da Virgem Maria que trouxeram o Filho do Pai Eterno e bem-aventurados os seios que amamentam a Cristo Senhor’ – que era digna de ser plenamente invejada”.

Todos sabemos a importância que a família tem no desenvolvimento da personalidade e dos valores humanos. Vicente encontrou em seu lar um ambiente favorável para o sustento e crescimento de sua fé e de sua devoção mariana. Em sua casa se rezava diariamente o santo Rosário e também se celebravam as festas de Maria com orações especiais e até jejuns. Todos os dias os pais levavam seus filhos a visitar uma Igreja e a rezar diante do Santíssimo Sacramento e de uma imagem de Maria. Este ambiente mariano familiar propiciou em Vicente uma grande admiração e amor à Maria. Através de atitudes e gestos de seus pais, Vicente aprendeu a conhecer e a amar Maria e a dirigir-se a ela com confiança e carinho. Também o ambiente eclesial romano tinha um caráter mariano. Roma estava cheia de Igrejas e de altares marianos e as festas marianas eram celebradas com muito fervor por todo o povo italiano.

Na escola primária, Pallotti encontrou bons mestres que o incentivaram a fazer parte da Congregação Mariana, que se reunia aos domingos na Igreja de Nossa Senhora das Lágrimas, no bairro judeu, e tinha momentos de reflexão, oração e festa. Ele admira de modo especial a Imaculada Conceição e no ano de 1816, pede a um sacerdote para poder fazer voto de professar à Imaculada Conceição de Maria. Nesse voto ele expressava seu desejo de “defender infinitamente a Imaculada Conceição da Virgem” e de que “todas as criaturas respeitem, venerem, adorem profundamente os nomes santos de Maria e Jesus. Caso a Igreja Católica não estabeleça o contrário, quereria que todas as criaturas fizessem com perfeição um soleníssimo voto de professar e de defender a Imaculada Conceição de Maria sempre Virgem” (OO CC X, 521). O dogma da Imaculada Conceição foi declarado em 1854, quatro anos após a morte de nosso fundador. Na época em que ele realizou este voto, o tema ainda era discutido, embora fosse um sentimento popular.

Para Vicente Pallotti, Maria é uma grande mestra da vida espiritual. Por isso a chama também de Mestra. Durante seu retiro em preparação para o subdiaconato, diz que a devoção a Maria consiste sobretudo em imitar seu Filho e em aprender dela a imitá-Lo. Seu grande desejo é amar Maria, se fosse possível, com um amor infinitamente terno. Incentivado pela leitura do então Venerável João Berchmans, que não queria descansar até não ter alcançado um “terno amor à sua dulcíssima Mãe Maria”, Pallotti escreveu: “jamais descansarei enquanto não tenha alcançado, se fosse possível, um amor infinitamente perfeito a Deus, a Jesus Cristo e à minha mais que dulcíssima e amantíssima Mãe Maria”.

Através de Maria, com Maria e com todas as criaturas, queria receber a abundância do Espírito Santo, razão pela qual desejava estar sempre espiritualmente no Cenáculo de Jerusalém com Maria, com Jesus e com todas as criaturas, à espera do Espírito Santo. Este propósito é muito importante, já que nos fala de como Pallotti, através desta imagem, fundamenta o apostolado de Maria que, através de sua vida e em especial no Pentecostes, estando junto aos apóstolos e animando-os, recebe o Espírito Santo.

Segundo o Padre João Quaini, este foi o primeiro retiro cristão, quando os discípulos, junto com Maria, se reúnem para rezar, meditar e esperar a vinda do Espírito Santo, e quem pregou este retiro foi Maria santíssima, encorajando-os, animando-os, recordando-lhes as palavras de Jesus e dando força a quem já era também seus filhos.

Existe um documento muito valioso, que é uma exortação mariana dirigida a seus mestres e companheiros, escrita aproximadamente nos anos de 1817-1818:

“Meus irmãos e mestres, devemos nutrir uma tal devoção à nossa mais que apaixonadíssima Mãe Maria; com as obras e com as exortações devemos ser apóstolos fervorosíssimos não somente de Jesus Cristo crucificado, mas também de nossa Mãe Maria. Devemos ser filhos e apóstolos de Nossa Senhora e procurar (cheios de confiança em Deus) ser totalmente transformados em Nossa Senhora, de tal sorte que, depois de Jesus Cristo, nosso coração seja de Nossa Senhora, nossos movimentos internos sejam de Nossa Senhora, nossas palavras, nossos olhares, nossos passos e todas as nossas ações sejam de Nossa Senhora. Persuadamo-nos de que um verdadeiro devoto de Maria será um grande santo e de que sua santidade aumentará dia por dia. Dediquemo-nos, pois, com sumo empenho a propagar as glórias de Maria e a insinuar no coração de todos um amor, se fosse possível, infinitamente terno à nossa mais que enamoradíssima Mãe, Senhora e Rainha Maria” (S. V. Pallotti. Collezione Spirituale, Roma, 1933).

Olhando a vida de Maria, Pallotti admira sua grande capacidade de contemplar os mistérios de Deus. A comunhão com Deus amadurecia na atmosfera de abertura às inspirações do Espírito Santo, na escuta da Palavra de Deus e na meditação. Por sua particular eleição e vocação, Maria responde antes de tudo com fé: “faça-se em mim segundo a tua Palavra” (Lc 1,38). Diante deste sim de Maria, Pallotti nos convida à contínua meditação da grandeza do amor de Deus pelo homem. Ele está convencido de que Maria, como Mãe, nos ama e nos anima a glorificar sempre a Deus Pai, Deus Filho e Deus Espírito Santo e, ao mesmo tempo, nos convida a considerar a ação de Deus que não apenas cria o mundo, mas o sustenta com sua providência.

Maria, como filha predileta de Deus-Pai, deseja a glória de Deus e convida a todos a promulgá-la:

“Procurarás aplicar-te o quanto puderes assiduamente no maior amor a Deus que com suas graças (...) te dá o mais enérgico sinal de seu amor e não cessarás de louvá-lo e de agradecer-lhe por tantos favores, apesar de cada não correspondência tua, e depois não esquecerás de multiplicar tributos de louvor e de ação de graças, também para suprir o defeito de todos, especialmente dos pobres pecadores que vivem não só esquecidos deste sagrado dever, mas que às graças fazem também tanta resistência; oferece tudo em união da Vida santíssima e dos merecimentos infinitos de Jesus Cristo, esposo das almas, a fim de que tudo se cumpra segundo os objetivos adoráveis e amorosíssimos de sua infinita caridade” (OO CC XIII, 284-285. Mês de maio para religiosos)

Ouvindo a Maria, Pallotti se sentia impelido a dar continuamente glória a Deus com todas as suas ações. Ao indicar Maria, Rainha dos Apóstolos, como Filha do eterno Pai, continuamente encoraja cada um de nós a transformar a própria vida em contemplação de Deus, Infinito Amor que nos leva à vida de Amor, no Amor e para o Amor.

Meditando a participação de Maria na salvação, Pallotti nos apresenta Maria como a única que é exaltada pelos méritos de obediência, maternidade, pureza e fidelidade. Estes são os atributos que a predispõem a colaborar no amor de Jesus, Apóstolo do Eterno Pai como Rainha dos Apóstolos. Por isso fica fascinado pelo seu trabalho em silêncio, pela aceitação da vida religiosa de seu povo, pelo trabalho cotidiano em Nazaré.

Como Rainha dos Apóstolos, ela dá início à Igreja e colabora com seus membros para que a obra de salvação de seu Filho possa abraçar todo o mundo:

“Maria Santíssima Mãe do Eterno Verbo encarnado nos chama a imitá-la na qualidade de Mãe, e amorosamente nos adverte que a podemos imitar procurando multiplicar filhos para a Igreja com nossas orações e com nosso bom exemplo, e assim serão multiplicados os irmãos de Jesus, dos quais ele é o primogênito” (OO CC XI, 344).

Segundo Pallotti, Maria é o mais perfeito exemplo de apostolado depois de Jesus Cristo. Por isso, aconselha a imitá-la e a formar a própria vida e o próprio serviço apostólico seguindo o seu exemplo. É por esta razão que para nós, palotinos, é inerente ter uma espiritualidade mariana. Não se compreende um leigo, seminarista, irmão, irmã, sacerdote palotino que não tenha amor e devoção a Maria. Porque, além dos fundamentos teológicos, está na própria vida de nosso fundador, está em nossas raízes.

Pallotti estava convencido de que a eficácia apostólica de toda ação depende da intercessão de Maria e de sua colaboração. Por isso, desenvolvia e confiava em Maria, Rainha dos Apóstolos, todas as suas atividades apostólicas, sobretudo, aquelas desenvolvidas pela União do Apostolado Católico (Cf. OO CC I, 6).

A Pia União foi fundada sob a proteção de maria

A Congregação e a Pia União foram fundadas sob a especial proteção de Maria Santíssima, Rainha dos Apóstolos, não só porque com sua intercessão concedeu graças a todos os membros, mas também para que se tenha ela como o mais perfeito exemplo de zelo apostólico. Maria não era sacerdotisa, nem apóstola, no entanto, se ocupava de modo perfeito de seu trabalho com tal dedicação e perfeição que por isso recebeu honra ainda maior que a dos Apóstolos. A Igreja a saúda com o título de Rainha dos Apóstolos não só por sua honra, mas também por seus méritos. Ela recebe este nome para estimular a todos os fiéis de ambos os sexos, de qualquer estado, grau e condição a imitar nossa Mãe Imaculada Maria a retomar cada ato de maior glória de Deus e bem dos outros e cada ato espiritual e material (Cf. OO CC VII, 7-8).

O mais sublime e claro ato materno e apostólico de Maria é a sua presença no Calvário, na Cruz de Cristo. Jesus entrega a João sua Mãe e entregando João a Maria, entrega com ele a todos os apóstolos (Jo 19, 25-27). A partir desse momento, Maria se torna modelo para a Igreja, já que aqui começa sua missão espiritual que no Pentecostes encontra sua realização. Assim rezava a Maria:

“Meu Deus, somos indignos de ter o dom do amor perfeito à nossa imaculada Mãe Maria santíssima. Mas tu nos concedes por tua infinita misericórdia e pelos méritos de Jesus e de Maria santíssima. Queremos amar nossa enamorada Mãe Maria com o amor com que tu a amas, oh Pai eterno, que a amas como Filha; com o amor com que tu a amas, oh divino Filho, que a amas como Mãe; com o amor com que tu a amas, oh divino Espírito, que a amas como Esposa. Assim queremos que seja amada por todas as criaturas pretéritas, presentes, futuras e possíveis” (OO CC VIII, 224; 433-434).

Mesmo diante da sua indignidade e ingratidão, Pallotti se abre à graça: “Eis-me aqui disposto a oferecer-me todo a ti. Eis aqui meu coração com todos os seus afetos. Eis aqui todas as minhas coisas. Eu te entrego nas mãos da Mãe da Misericórdia, Maria santíssima. Pois, quero que todo eu e todas as minhas coisas sejam tuas, para que tu sejas todo meu para sempre” (OO CC XIII, 525-526).

O nosso santo se sente nada diante dos divinos olhos de Deus, porque sente que muitas vezes resistiu ao seu amor. Sentimento que, talvez hoje mais do que nunca, experimentamos nós, os cristãos: Deus que nos chama e nós que resistimos, não lhe abrimos o coração, porque estamos ocupados em servir a outros deuses, a outros senhores. Deuses que nossa sociedade fabrica cada vez com maior perfeição e em maior quantidade. Mas, em Pallotti vemos o triunfo da confiança, o triunfo de um coração que deseja e anseia abrir-se para receber o único Senhor, o único Deus e Pai. Pallotti não fica lamentando sua fraqueza; pelo contrário, se põe de pé e faz uso da graça divina que o conforta e o move a responder ao chamado divino. E essa força e intercessão é Maria, a Mãe da Misericórdia, que o aproxima de Cristo, carregando-o em suas mãos.

Portanto, a obra do apostolado católico nasceu com a devoção a Maria e persiste graças a seu amparo. Assim quis nosso fundador, assim quis Deus e assim seremos fiéis à sua essência. Por isso, devemos sempre, individual e comunitariamente, alimentar e fortalecer a nossa união com Maria, que é nossa Mãe e sempre está ao nosso lado, protegendo-nos e animando-nos, assim como ocorreu com os Apóstolos em Pentecostes.

 Para refletir

1.      Como surgiu a devoção mariana na vida de Vicente Pallotti?

2.      Qual o papel de Maria na fundação de Pallotti?

3.      Quais foram os argumentos de Pallotti para deixar Maria como padroeira da sua obra?


quinta-feira, 16 de julho de 2026

 


Tema 8: VICENTE PALLOTTI: UM SACERDOTE INQUIETO

Quando analisamos uma pessoa, normalmente, muitos aspectos da sua vida acabam sendo desvendados por impressões de simpatia ou de antipatia. A partir dos primeiros contatos, nós vamos nos identificando ou não com o seu modo de ser e de agir. Quando se trata de alguém com fama de santidade, certamente, os olhares são mais aguçados e mais exigentes da parte daqueles que o observam, pois, ao olhar para ele se vê traços do amor de Deus e, dele, não se espera nada que fuja da missão que ele abraçou em favor do povo.

Quanto a São Vicente Pallotti, durante o período em que exerceu o seu ministério sacerdotal, ele deixou marcas profundas no imaginário de muitas pessoas. Ele exerceu múltiplas funções, sempre com o intuito de dar uma resposta adequada a cada situação com a qual se deparava. Isso foi criando nele uma inquietude espiritual. Podemos dizer que ele foi sendo modelado não somente pela graça infusa de Deus, mas também pela convivência que teve com a sensibilidade humana e religiosa de seus pais.

Em relação ao tema: “Vicente Pallotti: um sacerdote inquieto”, apresentaremos alguns testemunhos de pessoas que o conheceram e que conviveram com ele. Na verdade, ele era um sacerdote de muitas qualidades. Foi professor universitário e de muita ação pastoral. Isso fez com que ele soubesse analisar, com habilidade, as questões teóricas em seus vários aspectos, bem como agia de maneira prática diante dos profundos desafios pela qual passava a Igreja de seu tempo. Por isso, dedicava boa parte do seu tempo para as confissões e orientações. De acordo com relatos, ele jamais viveu de maneira reclusa. Quase nunca estava em casa. Em seus escritos, ele sempre reclamou das suas limitações humanas e procurou vencê-las por meio de longas orações e muito espírito de sacrifício e penitência.

O caminho percorrido por Pallotti

Vicente Pallotti, ainda na sua juventude, viveu como qualquer outro jovem da sua idade. Passou sua infância no centro de Roma. Participava da vida social, em meio aos trabalhos cotidianos da família, convivendo com pessoas de todas as classes sociais que frequentavam o comércio de seu pai. Naquele ambiente, aprendeu a observar as pessoas e a sentir as suas reais necessidades. Ele percebeu que elas buscavam alimento para nutrir o corpo, mas algo lhe dizia que precisavam também de saciar a alma.

No confronto com cada uma delas, percebeu que, independentemente da sua história pessoal, estava diante de um ser humano, feito à imagem e semelhança de Deus, que precisava ser amada e respeitada. À medida que crescia esse sentimento, aumentava nele a necessidade de partilhar com todos a experiência que fizera do amor de Deus. Essa sua sensibilidade foi sendo cada vez mais ampliada a ponto de escrever:

Ao pensar, ao ouvir falar ou ver pessoas aflitas, angustiadas, atribuladas, cansadas, sobrecarregadas, fatigadas, como, por exemplo, pobres fabricantes de chaves, lavradores, carroceiros, carpinteiros, pedreiros, pobres mulheres aflitas pelos trabalhos domésticos, angustiadas e doentes por causa dos filhos, pelas longas vigílias que devem fazer, quando os filhos adoecem, quando devem cuidar deles, amamentá-los (...). Se eu mesmo ou uma outra pessoa pudesse penetrar em todos os ângulos da terra e enxergar de uma só vez as misérias que afligem a pobre humanidade, eu acredito firmemente que o coração humano não suportaria uma tal visão, mas todos morreriam de dor.[1]

No seu dia a dia, encontrou pessoas insatisfeitas com a vida, outras à beira do desespero devido a tantos sofrimentos. Foi insuportável para ele presenciar tudo aquilo. Diante de Deus, tomou a firme resolução de oferecer o que possuía para amenizar os sofrimentos de tanta gente. Muitas vezes, deixou de tomar o seu lanche para doá-lo a quem tinha fome, doou seus sapatos a um pobre e sua cama a um enfermo que dormia desconfortavelmente. A sua fé em Jesus Cristo foi quem o motivou a sair do seu conforto, para ajudar àqueles que eram penalizados pela vida.

As testemunhas do seu processo de beatificação atestaram esse seu interesse especial pelas coisas de Deus. Ainda muito pequeno, contemplava fixamente uma imagem de Maria e começou a preocupar-se pelo cultivo das virtudes. Dava a impressão de ser um menino tranquilo e modesto nos seus gestos. Cinquenta anos mais tarde, os vizinhos ainda recordavam a sua compaixão pelos mais pobres e necessitados.

Quando tinha doze anos de idade, em 1807, começou a fazer direção espiritual com o Padre Bernardino Fazzini, que foi seu confessor até o seu falecimento, em 1838.[2] Ele teve um papel decisivo na vida espiritual de Vicente, conduzindo-o à santidade. Ele inculcou no jovem Pallotti a prática da mortificação corporal, pois logo percebeu que seu dirigido possuía dotes especiais e graças singulares. Para cooperar com elas, era necessário entrar pelo caminho da mortificação e da penitência. Certa vez, sua mãe pediu que Fazzini desaconselhasse Vicente a fazer as mortificações, porque a sua saúde era frágil. Fazzini limitou-se a dizer-lhe que o dedo de Deus estava dirigindo o trabalho. Parece provável que, já na infância, Vicente Pallotti tenha sentido forte atração pelo sacerdócio. Como adolescente sentiu-se atraído pelos ideais e pela austeridade da Ordem Franciscana Capuchinha, mas o seu diretor espiritual o desaconselhou por causa da sua saúde frágil e pelo fato de que deveria desempenhar um trabalho não no claustro, mas no mundo. Fazzini morreu com oitenta e dois anos de idade e seu filho espiritual o acompanhou em sua enfermidade e falecimento (Gaynor, p. 19). Os dois viveram esta amizade verdadeira durante trinta anos.

O cardeal Lambruschini afirmava que, desde pequeno, Vicente teve o dom do amor de Deus. Aos seis anos foi crismado, tendo como padrinho o seu tio que também levava o nome de Vicente Pallotti. Aos nove anos, seu primo Francisco percebeu que, por penitência, Vicente usava como travesseiro um pedaço de madeira. Aos dez anos, ele fez a primeira comunhão e recebera licença para comungar todos os dias, o que na época, era coisa rara. Vicente manifestava sinais de santidade desde a infância.

Aos quinze anos de idade, em 1810, Vicente decidiu entrar para o clero secular. Com o triunfo da Revolução Francesa, os seminários e colégios estavam fechados e os aspirantes ao sacerdócio deveriam prosseguir seus estudos, vivendo com os pais. Por causa disso, Pallotti fez toda a sua formação morando na casa paterna. As autoridades da Igreja não deixavam de prover a formação dos estudantes, que, em cada paróquia, estavam submetidos ao cuidado especial do pároco do lugar. Esse preocupava-se com que os grupinhos de clérigos participassem nos atos de piedade em comum. Havia também confrarias e centros especiais de reunião para eles, para estimulá-los e assim suprir, de alguma forma, a falta de vida comunitária, tão característica da formação seminarística (Gaynor, p. 20-22). Vicente inscreveu-se na confraria de Nossa Senhora do Pranto, mas logo integrou a diretoria, depois presidiu-a por longo tempo e só foi obrigado a renunciar devido ao acúmulo dos trabalhos apostólicos (Gaynor, p. 24).

Uma nova proposta de vida

Vicente Pallotti não se conformava com o fato de ser uma pessoa a mais entre as demais, ou um sacerdote isolado na Igreja. Ele quis, antes de tudo, que a sua pessoa irradiasse Cristo por onde passasse. Isso não era somente um desejo, ele procurou agir com palavras e ações para ser sinal da presença do ressuscitado, não somente quando ocupava a sua função sagrada, mas em cada gesto de sua vida: “Deus em tudo e sempre” (OO CC X, 131).

O povo romano, sedento por uma nova proposta de vida, logo viu em Vicente Pallotti um modelo a ser seguido. Por isso, em 1835, Pallotti fez um apelo ao povo de Roma:

Todos, grandes e pequenos, doutores e ignorantes, ricos e pobres, sacerdotes e leigos, seculares e religiosos, viventes em comunidade ou em solidão, podem, em sua posição, isto é, no estado em que Deus os colocou, exercer, de alguma forma, sempre com mérito, o apostolado de Jesus Cristo (OO CC III, 146).

O seu testemunho de vida despertou em muitos batizados a consciência de que uma nova aurora se despontava na Igreja. Muitos leigos e eclesiásticos aderiram à obra do Apostolado Católico, pois viram nela uma nova forma de ser Igreja. Descobriram, ainda, que podiam ser protagonistas da sua própria história e colaboradores do apostolado universal. Essa realidade deve ser, ainda hoje, propagada, para que mais pessoas possam assumir o seu batismo de modo consciente e alegre, pois, quem serve a Cristo, nunca fica decepcionado. Por isso, todos são convidados a conhecer e a participar do Apostolado de Jesus Cristo. Até mesmo o seu diretor espiritual, Padre Fazzini, foi o primeiro a se inscrever na obra do apostolado católico, em seguida, o próprio santo (Gaynor, p. 19).  

Vicente Pallotti foi um homem concreto e visual. Para expressar a sua fé, servia-se de sagradas estátuas, de crucifixos, de pinturas expressivas de santos e de Nossa Senhora, de relíquias dos santos. Mais tarde, no seu quarto, na reitoria do Espírito Santo dos Napolitanos, mandou abrir uma pequena janela, para poder ver, durante as orações, o tabernáculo. Mais tarde, na residência do Santíssimo Salvador, não foi possível a ele ver o tabernáculo, mas colocou diante do genuflexório um Calvário, em seu quarto, atrás do qual pintou um crucifixo.

O padre Vicente foi um guia e um líder nato, de intensa caridade, reconhecido espontaneamente pelos participantes dos diversos grupos. Era um homem sensível, “amante da música”, capaz de amor intenso e apaixonado na dedicação à pessoa amada, sempre muito constante. Possuía um temperamento de tenacidade legítima, que não chegava a ser teimosia. Tinha uma inteligência acima da média e apta para temas científicos e para discussão de tais temas. Isto lhe dava seguro senso crítico capaz de torná-lo apto para uma carreira acadêmica. Vicente possuía, porém, um senso vivo da realidade (Todisco, p. 151).

Foi declarado, ainda, que ele possuía uma natureza fogosa, mas soube sublimá-la e, ao ser insultado por alguém se mostrava paciente e dócil. Pe. Vaccari também confirma esse seu temperamento, porém, a sua vigilância o fazia sempre doce e bondoso (Todisco, p. 151). Assim dizia ele: “Não sou capaz de dar bom exemplo, mas com a graça de Deus, serei capaz de santificar o mundo” (OO CC X, 607). “Peço a Deus um caminho santo” (OO CC X, 97).

Possuía, ainda, uma inclinação temperamental para o orgulho, para a ambição, para o mando, para a imposição do próprio querer sobre o dos outros: “Removerei os obstáculos que possam impedir a minha santificação; o obstáculo maior dentro de mim é o orgulho” (Propósitos e aspirações, p. 88, n. 197). “Destruí a minha vida e dai-me a vossa vida de caridade. Transformai-me na vossa caridade” (OO CC X, 674-675).

Para o grafólogo Girolamo Moretti, o padre Vicente possuía um senso vivo da realidade: “tem êxito também por ser um organizador prático, enquanto tem à sua disposição a ponderação e a reflexão capazes de entender a realidade principalmente no campo humano”. A sua praticidade estava orientada para as necessidades da vida. A fidelidade total aos ideais cristãos, os dotes de liderança e a caridade foram traços bem marcantes em toda a sua vida.

Depoimento de Melia: “Sou testemunha e admirador de sua perene, inalterável mansidão para comigo e para com todos os outros”. Maneiras atenciosas, paciência e equanimidade inalteráveis usou-as não só com os coirmãos, os nobres e as pessoas de posição, mas com todos, em especial com os pobres, que muitas vezes eram importunos e intolerantes. Assim deixou escrito: “Quero ter dentro de mim uma profunda compaixão pelas viúvas, agricultores, doentes. Quero sentir as suas aflições” (OO CC X, 19-20). “Quero ser luz para os cegos, bebida...” (OO CC X, 15-16).

O sacerdócio se funde perfeitamente com a vida do santo e sua alma, como se ele tivesse nascido apenas para ser um sacerdote e, em sua vida, não há vestígio de uma escolha que ele teve que fazer dela; como se ele tivesse nascido apenas para isso. Sentiu-se responsável pela salvação de todas as almas e de todas as Igrejas, como se o cuidado da Igreja universal lhe tivesse sido confiado (cf. OO CC X, 151) e já, durante os exercícios espirituais, realizados para sua ordenação sacerdotal, ele estabeleceu esse objetivo: “Senhor, ou morrer ou amar-te infinitamente” (OO CC X, 614). E nos exercícios espirituais de 1827, a razão que dominou todas as suas meditações foi: “Toda a vida de Jesus Cristo seja a minha vida” (OO CC X, 618-625)!

Continuou ele: “Estou convencido de que, se me fosse concedido beijar a terra, por onde passou um sacerdote, como prêmio pelas boas obras, elas seriam grandemente compensadas. O que podemos dizer, então, que a bondade do nosso Deus se dignou elevar-me ao mais sublime grau do sacerdócio” (OO CC X, 147). “Eu rezo a Deus que conceda a mim e a todos a graça de servi-Lo, somente, para a sua glória e para o bem das almas” (OO CC X, 616). “Lembre-se sempre, Vicente, que se os outros tivessem a conveniência que você tem de fazer o bem, eles já seriam grandes santos” (OO CC X, 116).

Na Santa Missa, ele revivia novamente a Paixão de Jesus Cristo. Muitas vezes, foi visto suspenso do chão, quando elevava a santa hóstia. Ele se confessava todos os dias, antes da celebração. Passava noites inteiras diante do Tabernáculo. Ele compôs três notáveis visitas ao Santíssimo Sacramento, mas queria escrever uma para cada dia do mês.

Segundo seu primo Francisco, por várias vezes o encontrou em casa vestido de sobrepeliz e estola, pronto para ouvir as confissões. Fabi Montani também escreveu que, em Roma, não havia nenhum doente ou moribundo que não tivesse sido visitado por ele. Aos seus sacerdotes, ele sugeriu que dividissem o seu dia em duas partes, uma para se preparar para celebrar a missa e a outra para agradecer a Deus, pelo presente da celebração já realizada. Ele queria imitar Jesus Cristo e muitos, realmente, acreditavam que O viam nele.

Pallotti desejou a santidade

Olhando para a vida e obra do nosso fundador, podemos afirmar que o santo é o humano que deu certo. Apesar das vicissitudes da vida, ele soube encará-las com serenidade e simplicidade e conseguiu ver além daquilo que todos viam. O santo, pelo fato de ter descoberto o amor de Deus, não tem medo de enfrentar os desafios, sejam eles quais forem. Ele é um desbravador de novidades, mas com Deus e por causa d’Ele. Enquanto para uns a realidade se apresenta caótica, o santo a vê como um terreno fértil para novas realizações e mudanças de paradigmas. Mas, isso não quer dizer que as incertezas e as dificuldades da vida não o atinjam. Quanto a Pallotti, ele não viveu senão para Deus e para sua glória. Por isso, propunha-se elevar a mente para Deus em tudo que tivesse visto e lido, com a aspiração de que tudo redundasse em maior glória para Ele e para a maior glória d’Ele.

Portanto, o amor a Deus foi a marca registrada que perpassou toda a vida de padre Vicente. A glorificação de Deus se traduzia em amor para com Ele e a sua espiritualidade. Glorificar a Deus e sofrer para tornar infinita a glorificação, juntamente com a vocação apostólica, foram os pilares da experiência religiosa e da orientação de toda a sua vida. O amor, qual meio de glorificação, inicialmente parecia levá-lo à contemplação. Vicente parecia estar no céu, para amar e, na terra, para amar e sofrer, e não para trabalhar pela glória de Deus. A espiritualidade de Pallotti parecia centrar-se no aspecto da adoração da vocação sacerdotal (cf. OO CC X, 163).

Enfim, após termos visto alguns aspectos da vida espiritual do padre Vicente, podemos dizer que falar de santidade não é fácil, mas só é possível quando encontramos pessoas com virtudes elevadas, com um estilo próprio, capaz de encarar os desafios do mundo com serenidade. Como palotinos, além de seguir a Cristo, o santo por excelência, temos como modelo de virtude e de santidade o próprio fundador da União do Apostolado Católico, São Vicente Pallotti. Pelo seu testemunho de vida, toda a Igreja pode aproximar-se, cada vez mais de Deus, com a certeza de que somos profundamente amados e perdoados por Ele. Na sua simplicidade, Pallotti procurou sempre analisar a sua vida a partir da fé, do seu encontro pessoal com o amor infinito e misericordioso de Deus. Por isso, os membros da União do Apostolado Católico devem continuar esta mesma missão de fazer com que Cristo seja sempre amado, servido e glorificado por todas as pessoas de todos os tempos.

Que o Espírito Santo, que impulsionou à missão todos os que participaram do Cenáculo de Jerusalém, possa fazer das nossas comunidades um verdadeiro Cenáculo, onde Deus se torna o centro de tudo e de todos.

 

Para refletir

1.      Quais eram as inquietudes do padre Vicente Pallotti?

2.      Com que olhar Vicente Pallotti olhava para as pessoas?

3.      Muitos testemunharam sobre a vida e a obra de Vicente Pallotti. O que você compreendeu, até agora, sobre o carisma deixado por ele?



[1]  GAYNOR, Juan Santos. Vida e obra de São Vicente Pallotti, Santa Maria, 2000, p. 34-35; (OO CC X 19-20).

[2] TODISCO, p. 60-61. AMOROSO, Francesco. São Vicente Pallotti romano, p. 26-27.