sábado, 3 de outubro de 2026


 

Tema 18: PALLOTTI: CONTEMPLATIVO NA AÇÃO

Quando entramos no aspecto pessoal da espiritualidade de São Vicente Pallotti, é perceptível que ele, ao longo da sua vida, rompeu com a dicotomia que havia entre o sagrado e o profano. Para o, assim chamado, “Apóstolo de Roma”, a contemplação não era um momento para refugiar-se do mundo, mas, sim, o combustível para transformá-lo em um verdadeiro orante. Ser um contemplativo na ação significava buscar a face de Deus, não apenas no silêncio da capela, mas nas feridas dos enfermos e na fadiga dos trabalhadores, transformando cada gesto de caridade em uma liturgia viva. Esse seu modo de ser e de agir imprimiu no carisma palotino uma busca incessante pela unidade das pessoas entre si e em relação a Deus. A expressão “contemplativo na ação” define o equilíbrio entre o ora et labora (reza e trabalha), onde a contemplação não é um estado de passividade, mas a força motriz que impulsiona o apostolado. Vicente Pallotti compreendeu que, se Deus é amor infinito e ação constante, o apóstolo deve imitá-Lo unindo a oração interior ao serviço concreto ao próximo.

Pallotti, mesmo pertencendo ao clero diocesano, conseguiu destacar-se tanto pelo espírito de oração, como pela contemplação dos santos mistérios de Deus, concretizado na pessoa de Seu Filho Jesus Cristo. O que relatamos aqui, não é somente baseado nos testemunhos sobre a sua vida, mas, principalmente nos baseamos em seus escritos espirituais, iniciados em 1816, quando tinha apenas 21 anos de idade. Embora fosse jovem, ele demonstra ter profundidade, maturidade espiritual e intelectual.

A experiência do amor de Deus em Pallotti era tão forte que, não encontrando palavras para expressar o que sentia, repetia muitas vezes as mesmas palavras: Deus, Deus, Deus, Deus, ou Misericórdia, Misericórdia, Misericórdia, como aparece em muitas partes de seus escritos. Segundo o Padre Achylle Rubin, Pallotti poderia ter orado em línguas, conforme a explicação desse dom feita por Santo Agostinho. Esse Padre da Igreja falava do júbilo que brota do coração, quando não se tem mais palavras para expressar a imensa alegria do amor de Deus.

Agostinho viveu em uma época em que o fenômeno, tal como descrito no dia de Pentecostes, já não era comum na Igreja. Por isso, ele desenvolveu uma interpretação eclesiológica e simbólica sobre o tema. Ele argumentava que o milagre de Pentecostes era um sinal temporário, para demonstrar que o Evangelho deveria ser pregado em todas as línguas. Para ele, a Igreja agora fala todas as línguas do mundo.

Portanto, quem está na unidade da Igreja “fala em línguas”, pois faz parte de um corpo universal que louva a Deus em todos os idiomas (Tratado VI, 10. Comentário à Primeira Epístola de João (In Epistulam Ioannis ad Parthos). Sermões 267, 268 e 269). Ele enfatiza que o verdadeiro sinal do Espírito Santo não é o som das línguas, mas a caridade e a unidade da Igreja.

Quando analisamos friamente a ação da graça na vida de Pallotti, fica a impressão de que era fruto da sua determinação constante e disciplinada de oração. Mas, ele mesmo responde com suas próprias palavras, quando repete em inúmeros textos sobre a misericordiosa ação de Deus em sua vida, sentindo-se indigno de tão grande amor: “Por mim, nada posso, com Deus, posso tudo”. Ele tinha plena consciência de que, por si mesmo, não conseguia se santificar, porque se sentia nada e pecado. No entanto, confiava na incrível e infinita misericórdia de Deus que destruía toda a sua miséria.

Em diversas passagens de seus escritos espirituais, ele apresenta ter sentido a presença ou a ação de Deus nele.  Por isso, ele queria, em todas as suas ações, como a dos outros, que Deus fosse glorificado. Isto podemos ver também em Santa Teresinha, que caminhava pela mesma direção, quando, em sua extraordinária e divina simplicidade, dizia sobre a oração: “Para mim, a oração é um impulso do coração, um simples olhar lançado ao Céu; é um grito de agradecimento e de amor, tanto no meio da provação quanto no meio da alegria; em suma, é algo grandioso, sobrenatural, que me expande a alma e me aproxima de Jesus” (História de uma alma).

Para Pallotti, sentir-se infinitamente amado por Deus o levava a desejar amar infinitamente Aquele que o amou primeiro. Pelos seus escritos, percebemos como ele se relaciona com seu Amor infinito e isso nos dá uma clara ideia da ternura, da confiança e da intimidade que ele experimentava. Ele se refere a Deus, em seu primeiro escrito, dizendo: “meu bom Pai Celeste”, ou “meu Pai amorosíssimo e infinitamente perfeito”, “meu terníssimo e amorosíssimo Pai”. Essas expressões não eram comuns na sua época e tal linguagem revelava que ele tinha uma relação íntima e profunda, assim como Jesus teve ao dizer “Abba”, Pai. É a linguagem dos apaixonados, dos enamorados, dos loucos de amor, daqueles que creem e vivem a “loucura da cruz”.

Rezar com a imaginação

Um detalhe importante a ser notado nos escritos de Pallotti é o modo como ele recorre à imaginação como método para rezar, para estar em oração. Assim escreveu: “onde quer que eu esteja, quero imaginar-me no Cenáculo, com Maria e os Apóstolos”, para sentir-se inundado pelo Espírito Santo e receber seus dons, para que Ele e todas as criaturas louvem a Deus. Ele também recorria à imaginação quando escreveu: “Eu me imagino no seio de Deus, nas chagas de Jesus, onde recebo uma grandíssima abundância de graças para a santificação. Eu me imagino ainda no seio de Maria Santíssima...”. Isto deixa a impressão de que ele empregava o método inaciano de composição de lugar.

Este seu método demonstra que estava inundado de amor, compenetrado a tal ponto que se imaginava estar com a pessoa amada. Santa Teresa de Ávila também o utilizava e o recomendava no “Livro da Vida”, a usar a imaginação para nos aproximarmos e nos entusiasmarmos mais com Deus, com o Evangelho, para excitar em nós o desejo de Cristo. Imaginar-nos como os protagonistas das parábolas de Jesus e, assim, poder recuperar a visão, caminhar e, acima de tudo, voltar correndo para a casa paterna e nos deixar abraçar e encher de beijos, por nosso amadíssimo e terníssimo Pai-Deus.

Pallotti quer que toda a sua vida seja tomada por Cristo: “Seja destruída toda a minha vida e toda a vida de Cristo seja a minha vida. A vida de Jesus Cristo seja a minha meditação, o meu estudo, um adorno para a Igreja em minha pessoa. A oração de Cristo seja a minha oração, a palavra de Cristo seja a minha palavra, a caridade de Cristo seja a minha caridade. O amor de Cristo para com a Virgem Maria seja o meu amor para com ela” (OO CC X, 618-625). Usava também muito esta expressão: “Não quero nada senão Deus: nada, nada. Meu Deus, tudo, tudo, tudo. Só Deus; só, só Deus” (OO CC X, 68).

Essa abertura ao chamado de Deus, esse querer que Deus seja tudo em sua vida, implica, por vezes, sofrimento, solidão e dor. É o caminho que os grandes santos e profetas percorreram e que também nosso fundador percorreu. Em “Noite Escura” e “Cântico Espiritual”, São João da Cruz descreve todas as etapas no caminho da vida espiritual, as etapas na subida ao monte de amor que é Deus. Primeiramente, a alma sente com muita intensidade a presença divina e despertam desejos ardentes de Deus. Ela se entrega à vida espiritual e começa a experimentar profundos sofrimentos, que são chamados por São João da Cruz de “divinas feridas” e sofrimento de “pena da ausência de Deus”. Estes momentos são os que encontramos em seu testamento espiritual quando ele escreve:

“Passados poucos dias... Deus, em sua infinita misericórdia, passou a visitar-me com tais e tão dolorosas tribulações e a fazer-me sentir tão vivamente o peso delas, que, em minha miséria, cheguei a crer que eram maiores que as tribulações de todos os anos da minha vida passada. No que diz respeito a isso, Nosso Senhor Jesus Cristo se dignou em derramar em meu pobre e ingratíssimo coração, vivo sentimento de confiança de que o tempo de sofrimento seria o mais oportuno para receber as luzes de Deus” (Testamento Espiritual. Regras Fundamentais).

É impressionante ver como Pallotti buscou realizar em sua vida o amor de Deus. Ele tentava fazer com que as suas obras, as palavras, os sentimentos e os pensamentos fossem dirigidos ao Criador de forma plena e permanente. Dar sempre glória a Deus, infinitamente. Isso nasceu da consciência que nosso santo teve do amor gratuito, imenso e até “exagerado” de Deus por ele, que se sentia tão indigno de tamanha graça, tão limitado para corresponder a tanto amor.

É por essa razão que Pallotti, com sua vida, tenta, na medida do possível, agradecer ao amor infinito do qual se sente objeto. É por isso, então, que o que moverá Pallotti em seu apostolado é a caridade. A consequência imediata de sentir o amor de Deus é praticá-lo com os irmãos, é anunciá-lo, para que todas as criaturas cheguem ao Pai e todas O louvem e vivam com Ele para sempre. Isso é o que move o seu desejo de reascender a fé e reavivar a caridade. Segundo ele: “Para poder realizar, por amor a Deus, o menor dos atos de caridade para com o próximo, eu me jogaria até mesmo nas chamas do inferno, desde que o possa fazer com a graça de Deus” (Propósitos e aspirações, n. 205, p. 90). Este seu diálogo com Deus parece ilógico para nós, mas esta é a forma como um místico expressa o seu amor para com Deus. Anos mais tarde, Santa Teresinha dirá o mesmo: “iria ao próprio inferno para conseguir que um dos condenados louvasse a Deus. São os arrebatamentos dos apaixonados por Cristo.

O hino da caridade

Quando Pallotti começa a infundir seu carisma na obra nascente, ele escreve como deve ser o método a seguir nas assembleias e recomenda que se leia, como introdução, o hino à caridade de São Paulo (1Cor 13). Assim dizia ele: “Já que a piedosa Sociedade está fundada e instituída na caridade e para promover em todos os fiéis de qualquer estado, classe, grau, sexo e condição o mais perfeito e ativo exercício das obras de caridade e de misericórdia, para a maior glória de Deus e de sua Santíssima Mãe Imaculada e para a maior santificação dos povos, por isso, todos devem estar sempre animados pelo verdadeiro espírito da mais perfeita caridade”. É impressionante ver como Pallotti buscava realizar em sua vida o amor de Deus.

Diante dessa sua profunda experiência com Deus, surgiu nele o desejo de praticar as obras de misericórdia, até porque, para ele, Deus é misericórdia infinita:

“Tenho confiança muito grande em que Deus não deixará de assistir-me com abundância de suas graças por sua bondade infinita e compaixão para com a minha miséria. Eu desejaria estar permanentemente nos hospitais, nas prisões, encontrar-me sempre em todos os lugares da terra para atender às necessidades dos pobres e às enfermidades dos doentes, ensinar aos ignorantes a verdadeira ciência dos santos, fazer com que príncipes, soberanos, reis, grandes e pequenos, nobres e plebeus e todas as criaturas com perfeição infinita conheçam, amem e sirvam a Deus, meu Pai, meu Tudo, meu Bem; assim, gostaria de realizar coisas infinitas por Deus Uno e Trino; e tudo isso de forma tal que eu não seja visto senão por Deus; e como é impossível realizar tudo isso, ofereço ao Senhor, nosso Pai Celeste, os merecimentos e orações de todas as criaturas, especialmente de Jesus e de Maria, para cumprir em parte o mandamento da caridade para com os próximos, meus irmãos, e para com Deus. Eu disse em parte, porque gostaria de fazer mais, uma vez que “tudo posso naquele que me conforta” (Fl 4,13); (Propósitos e aspirações, n. 176, pp. 78-79).

Continua ele: “Em cada uma das minhas ações, mesmo as mais insignificantes, procurarei considerar como de grande importância e realizar com perfeição sempre confiante nos merecimentos do meu mais que amadíssimo Jesus e da minha mais que afetuosíssima Maria, dos anjos e dos santos” (Propósitos e aspirações, n. 141, p. 65).

Propósito de estar sempre no cenáculo

Tenho a firme esperança de que pelos méritos dos santos, dos anjos, de Maria e de Jesus, Deus em sua bondade derramará fartamente sobre mim a graça que santifica e faz operar coisas grandiosas para a glória de Deus, e infundirá em mim altíssimos graus de santidade e perfeição. Tenho confiança de que o Senhor e Pai afetuosíssimo me concederá tal graça, sendo tão grande a minha confiança, tenho a impressão de tê-la recebido já. Espero tornar-me santo como Deus quer, não por obras minhas, mas por graça do Senhor, o qual a cada momento pode instilar nas almas altos graus de santidade.

Por isso, em qualquer lugar em que eu estiver, procurarei imaginar-me que eu mesmo e todas as criaturas estamos no Cenáculo de Jerusalém, onde os apóstolos receberam o Espírito Santo; e esse pensamento eu renovarei frequentemente. Como os apóstolos lá estavam, juntamente com Maria Santíssima, assim, eu também, imaginarei estar junto com a minha mais que encantadora mãe Maria e com o mais que amado esposo de minha alma Jesus, os quais eu tenho certeza de que, como meus particularíssimos advogados, farão descer sobre mim e os outros a abundância do Espírito Santo (Propósitos e aspirações, n. 81 e 82, pp. 48-50).

Em suma, a trajetória de Vicente Pallotti revela que sua eficácia apostólica não era fruto de meros esforços humanos, mas o transbordamento de uma vida profundamente mergulhada em Deus. Ao unir a oração contemplativa, marcada pelo uso da imaginação e pela consciência da própria pequenez, a uma caridade operante, Pallotti demonstrou que ser um “contemplativo na ação” significa permitir que o amor de Deus seja o motor de cada gesto. Sua herança espiritual convida-nos a retornar constantemente ao “Cenáculo”, para que, fortalecidos pelo Espírito Santo e impulsionados pela caridade de Cristo, possamos ser instrumentos da misericórdia divina no mundo, buscando sempre e em tudo a Sua infinita glória.

Vicente Pallotti como contemplativo, orante, personifica o equilíbrio perfeito entre a mística e a missão. Sua espiritualidade, fundamentada na confiança absoluta na Providência e na imitação da vida de Jesus, não o isolou do mundo, mas o lançou com ardor ao serviço dos mais necessitados. Para ele, a oração e a ação eram faces da mesma moeda: o amor a Deus que se concretiza no amor ao próximo. Ao propor que todos, independentemente de seu estado ou classe, fossem apóstolos animados pela caridade, trouxe uma nova aurora para a Igreja. Por isso, seguramente, podemos afirmar que, o grande legado que ele deixou foi a certeza de que não podemos vier sem a unidade e o zelo apostólico. O seu testemunho de vida nos ensina que o segredo da santidade reside na humildade de reconhecer que “nada podemos sem Deus”, mas que, com ele poderemos fazer grandes coisas. 

Para refletir

1.     Como podemos transformar as nossas atividades cotidianas em uma oração contínua, sem nos isolarmos do mundo?

2.     Pallotti utilizava o método da imaginação, para aprofundar sua intimidade com Deus. Como isso pode ajudar em sua oração?

3.     Se a “caridade de Cristo nos impele”, é possível ser um verdadeiro contemplativo sem estar engajado em ações de misericórdia para com o próximo?

sábado, 26 de setembro de 2026


 

Tema 17: A FORMAÇÃO SACERDOTAL DE PALLOTTI 

São Vicente Pallotti pertencia ao clero de Roma. Para que possamos conhecer melhor o seu processo formativo, como sacerdote, é preciso saber como era a situação do clero romano naquela época e como acontecia a sua formação cultural, intelectual e espiritual.

Uma pesquisa histórica feita por Pietro Stella sobre o clero romano, no século XIX, revela que na primeira metade do século XIX verifica-se um desenvolvimento, no campo formativo, com a presença de novas tendências, ou seja, o clero apresentava ter maior preocupação com os trabalhos pastorais e espirituais do que com as coisas temporais.

No campo da formação espiritual aparece o modelo do sacerdote bom pastor, disposto a guiar e a defender as ovelhas perdidas, principalmente no que se refere ao enfraquecimento da prática religiosa. Dá-se maior ênfase também à questão intelectual, com boas bibliotecas, contendo obras que auxiliassem na pregação, na catequese, na apologética, vida dos santos para cada dia do ano, subsídios devocionais, história sagrada, tratados elementares e ecléticos de teologia, manual prático de moral. Isso é possível constatar, no quarto de Pallotti, acima da sua cama, um amplo quadro com as festas litúrgicas durante o ano.

A formação sacerdotal daquele período, do ponto de vista espiritual, era conforme o modelo jesuítico, nutrida pela meditação, exame de consciência, exercícios de piedade e da prática dos sacramentos. Em geral, pode-se afirmar que o clero romano, no tempo de Pallotti, tinha uma boa formação sacerdotal, e ele fazia parte deste elenco.

Formação de Pallotti, antes da ordenação sacerdotal

O jovem Vicente Pallotti iniciou os seus estudos por volta de 1804, frequentando a escola fundamental, na via dei Cappellari e depois no Colégio de São Pantaleão dos padres Escolápios. De 1809 até o verão de 1814, frequentou o Seminário Romano que, após a supressão dos jesuítas, em 1773, no difícil período de ocupação napoleônica, foi confiado a um grupo de sacerdotes diocesanos. No Seminário Romano, o adolescente Vicente fez os seus primeiros estudos humanísticos, onde se familiarizou com os clássicos latinos e gregos.

A última etapa da sua formação de filosofia e de teologia, que o conduziu ao sacerdócio, no dia 16 de maio de 1818, aconteceu na Universidade Romana Sapienza. Naquele tempo, a Sapienza oferecia cursos de teologia, filosofia, medicina, direito e letras. A maioria dos professores pertencia ao clero regular e secular. O ambiente acadêmico e espiritual da Sapienza era muito bom. A vida universitária ajudava os estudantes a cultivar a vida espiritual. De segunda a sexta-feira, o estudante Pallotti, como todos, assistia às aulas dos vários mestres e a discussões de temas teológicos, organizados após os cursos obrigatórios. Na Igreja de Santo Ivo, celebravam-se as missas de abertura do ano letivo e das festas principais. Os sacerdotes professores se alternavam para celebrar as missas festivas e dominicais, como também ouviam as confissões.

Vicente Pallotti teve sua formação sacerdotal de forma diferente, como a concebemos hoje. Ele morava na casa paterna e estudava como aluno externo. Recebia uma sólida formação humana e religiosa de diversas pessoas, primeiramente dos pais, que eram muito piedosos, do seu diretor espiritual, Pe. Fazzini, os mestres Escolápios, Seminário Romano, Universidade Sapienza e, ocasionalmente, os diretores dos exercícios espirituais anuais e dos retiros. Tudo isto teve uma forte influência na sua formação sacerdotal.

O biógrafo do Papa Pio IX, Carlo Falconi, escreveu também sobre Pallotti. Comentou sobre seus estudos acadêmicos e da sua escolha de seguir a vida eclesiástica, privilegiando assim laurear-se em filosofia e teologia. Era também um poliglota e de boa formação intelectual, com inclinação para a intelectualidade, mas fica para ele uma incógnita do porque mudou de rota e decidiu entrar no campo da ação pastoral.

Pallotti e a sua formação sacerdotal permanente

Na vida de Vicente Pallotti, pode-se destacar dois períodos ligados à sua formação sacerdotal permanente. Primeiro: formação sacerdotal, no campo espiritual/intelectual, de 1818 até 1830. Segundo: de 1830 até 1850, formação sacerdotal, no campo espiritual/pastoral.

Antes de tudo, a formação espiritual de Pallotti se dá ao longo da sua existência, no intenso cultivo das coisas espirituais. Isto se confirma pelos seus escritos espirituais, pelas suas inspirações e heroicos propósitos que foram compendiados no volume X das Obras Completas, As luzes. Sobre este assunto, não há necessidade de muitas delongas, porque temos várias outras contribuições sobre o caminho espiritual de Pallotti. Basta folhear os escritos do Pe. Francesco Amoroso, SAC, intitulado: “La via dell’infinito” (O caminho do infinito), no qual apresenta a autobiografia espiritual do referido santo.

O pensamento espiritual de Pallotti deu-se ao longo da sua formação. Isto se pode notar pela sua visão e compreensão a respeito do sacerdócio. No início do seu ministério sacerdotal, escreveu: “O nosso inefável Deus dignou-se elevar-me ao sublime grau do sacerdócio, cuja missão é: celebrar o digníssimo Sacrifício, administrar os Santos Sacramentos, pregar a divina Palavra e recitar o divino Ofício” (OO CC X, 148). No final de sua vida, escreveu de maneira diferente: “Luzes e trevas, bendizei o Senhor. Raios e nuvens, bendizei o Senhor (Dn 3,72-73). Quanto ao que era ensinado por mim, era visto como algo bem feito, tanto da minha parte como da dos outros; mas, na verdade, eu não fiz nada que não fosse o mal, pois não instruí suficientemente os fieis, e não preguei o Evangelho a todas as criaturas; mas as obras de Jesus Cristo e a pregação do Reino, para sua piíssima misericórdia e amor, foram objetos de minhas obras e pregações” (OO CC X, 492).

Pallotti continuou sua formação sacerdotal/intelectual após a ordenação, aos 16 de maio de 1818, com o complemento dos estudos teológicos e exercendo o ofício de professor na Universidade Sapienza. No dia 15 de julho de 1818, Pallotti submeteu-se aos exames para laurear-se em filosofia e teologia, obtendo bons resultados. No dia 4 de março de 1819, o reitor da Universidade, Belisario Cristaldi (1764/1831), nomeou-o como acadêmico daquela mesma universidade. Na carta de nomeação, escreveu: “O favorável parecer a respeito do senhor determinou-me a escolhê-lo como Acadêmico da faculdade de Dogmática, da Escolástica e dos locais teológicos, para ajudar os alunos nos grupos de estudo com argumentações e dissertações” (OCL I, 425-426); (San Vincenzo Pallotti romano, Postulazione generale SAC, Roma 1962, p. 39).

Ansgar Faller explica que Pallotti foi nomeado como repetidor e exerceu este ofício de mestre acadêmico entre os anos de 1819 até 1829. Com este título, não podia desenvolver sua própria opinião teológica, porém, ideias pessoais não lhe faltavam. Mesmo que pudesse manifestá-las, ele as evitava. Limitou-se, rigorosamente, em apenas repetir os conteúdos a serem apresentados. Ele escolhia as pessoas para o debate e anotava seu desenvolvimento com muito cuidado. Organizava as discussões de maneira acadêmica e confirmava os resultados. Durante estes dez anos de trabalho, como mestre acadêmico, teve a oportunidade de aprofundar-se na teologia e com isso pode ajudar na formação de inúmeros sacerdotes que mais tarde tornaram-se párocos e professores.

O esforço de Pallotti em aprofundar na área da teologia ficou evidente pela sua participação na Pia União de São Paulo Apóstolo, iniciada em Roma, no ano de 1790. Era uma obra que promovia a formação espiritual do clero romano e que organizava as atividades apostólicas e pastorais nos diversos campos da vida eclesial. Vicente Pallotti era membro desta Pia União e participava das conferências sobre a moral, a cada quinze dias, na Igreja Santa Maria da Paz, na Igreja da Universidade romana e na Igreja Santo Apolinário.

Nos anos de 1820 a 1829, fez parte de um grupo para resolver casos referentes à moral. Nestes encontros participavam também o clero romano, pois a sua finalidade era para capacitá-los nestas questões. A função de Vicente Pallotti era a de apresentar casos e propor soluções. Isto nos faz acreditar que, já naquele tempo, possuía uma ampla cultura geral e teológica.

As iniciativas de Pallotti a respeito da formação sacerdotal

Vicente Pallotti conhecia, profundamente, a vida sacerdotal. Estava convencido de que a santidade dos sacerdotes, como também seu desempenho pastoral, dependem de uma boa formação. Para ele, não basta apenas o clero ser santo, é preciso que também seja douto (OO CC I, 171). Dizia mais: “Se a vida de todos os cristãos deve ser uma contínua imitação da vida de Nosso Senhor Jesus Cristo, (...) com quanto maior perfeição não deveria ser a daqueles que chegaram ao sacerdócio e que devem agir em nome de Cristo”! (OO CC I, 157).

Por isso, desde o início das atividades sacerdotais se nota um grande apreço de Pallotti pela contínua renovação da vida do clero. Isto se confirma pelo texto escrito entre os anos 1823 a 1829, período do pontificado do Papa Leão XII, intitulado: “Vários pontos para a reforma do clero” (OO CC V, 544 a 557). Este texto traz as propostas para a renovação da vida sacerdotal, e Pallotti é solícito em promover tudo aquilo que pode contribuir para a formação dos perfeitos servos de Cristo. Os sacerdotes e confessores, além de serem bem preparados, devem ter uma vida de santidade. Os pregadores devem distinguir-se tanto pela doutrina quanto pela sua integridade moral. Da santidade, da ciência e da vigilância dos pastores dependem, em grande parte, a paz da cristandade e a salvação eterna das almas.

A partir de 1827, Pallotti foi nomeado diretor espiritual do Seminário Romano, Colégio Inglês e Irlandês. Em 1833, deu início também ao Colégio Urbano da Propagação da Fé. O exercício da direção espiritual levou-o a ter ainda mais convicção da necessidade de uma profunda formação sacerdotal, sobretudo, missionária. Qual fosse o teor da sua formação espiritual, afirma: “Para ajudar os alunos a serem verdadeiros missionários, entre os infieis, é necessário formá-los na prática indicada pelo próprio Cristo: ‘Se alguém quiser vir atrás de mim, renegue-se a si mesmo, tome cada dia sua cruz e me siga’” (Mt 16,24); (OO CC XI, 449)

O pensamento de Pallotti sobre a formação sacerdotal

Vicente Pallotti lembra, frequentemente, em seus escritos, que o eclesiástico deve esforçar-se pessoalmente, para buscar seu crescimento durante toda sua vida. Ele estava convencido de que há uma intrínseca união entre o crescimento espiritual, o estudo e o apostolado. Sobre isto, merece destaque o texto sobre a obrigação de todos no espírito de santidade e de instrução (cf. OO CC II, 81-86; III, pp. 47-48). Este texto vem precedido da referência sobre a vida de Jesus Cristo: “O menino crescia e se fortificava, cheio de sabedoria e da graça de Deus; após três dias o encontraram no Templo, sentado entre os doutores, enquanto os escutava e os interrogava” (Lc 2,40-46). Pallotti, assim, pensava: da mesma forma que Jesus crescia e se fortificava cheio de sabedoria, escutando e interrogando os mestres, mesmo sendo a verdadeira Sabedoria, com maior razão, devemos também nós buscar a verdadeira instrução.

Escreveu ainda: “Devemos mais amar que buscar as instruções, e devemos procurá-las com afinco e ávidos de manifestar aos outros a nossa ignorância; e, por esta via de humildade, Deus nos recompensará com grande e saudável capacidade” (OO CC III, 48). Pallotti, por sua vez, enumerava os pontos que mereciam maior atenção e aprofundamento, a saber: a Sagrada Escritura, a história da Igreja, a teologia fundamental e dogmática, os sacramentos, a liturgia e a teologia moral. Ele expressava, ainda, a razão de se ter um contínuo aprendizado: “Para que jamais regrida na mais perfeita imitação da vida de Nosso Senhor Jesus Cristo e, assim, cooperar eficazmente no engrandecimento da sua glória, para a santificação das almas” (OO CC VII, 63-64).

As propostas de Pallotti em prol da formação sacerdotal

a)      Mês de maio para os eclesiásticos

No início de 1939, Vicente Pallotti começou a celebrar na Igreja do Espírito Santo dos napolitanos o Mês de maio com os sacerdotes romanos, diocesanos e religiosos. Francesco Moccia SAC afirma que os três “Mês de maio”, compostos por Pallotti, em 1833, tinha a intenção de divulgar a devoção mariana e de atingir mais profundamente o coração dos leitores.

O Mês de maio para os eclesiásticos, impresso no curso dos anos, em cinco edições, atribui o título à Maria Imaculada Mãe de Deus, Rainha dos Apóstolos, no mês de maio, em honra aos seus consagrados; recorda aos eclesiásticos instituídos, em qualquer ordem, os avisos que lhes dá a Igreja, após sua ordenação, segundo o Pontifical Romano e seu angélico ministério, segundo os apelos das Sagradas Escrituras.

A fonte para as meditações é o Pontifical Romano com os trechos dos escritos dos Santos Padres, para se ter presente nos diversos dias. O Mês de maio para os eclesiásticos se distingue pela densidade da doutrina. Os temas são tomados das advertências do Pontifical romano aos vários graus dos ordenados e dos ofícios dos coros angélicos. Maria Imaculada, Rainha dos Apóstolos, recorda aos eclesiásticos os avisos que a Igreja lhes dá, durante a cerimônia da ordenação e às funções do seu ministério. A Mãe de Deus instrui, guia, encoraja os mestres da Igreja de seu Filho. A parte mais ampla da meditação é a respeito do exame de consciência e a renovação da própria vida, não se trata tanto de ampliar os conhecimentos, mas de buscar maior transformação pessoal.

A finalidade do mês mariano para os sacerdotes era de aprofundar na doutrina eclesial e a renovação espiritual. Neste escrito, Maria, Rainha dos Apóstolos, dizia aos sacerdotes: “Quero deixar bem claro que, para converter os pecadores e iluminar os incrédulos, é mais eficaz a santidade da vida do clero do que todas as apologias escritas nos livros”. No último dia do mês se encontram as palavras de profundo significado espiritual para a vida do sacerdote. Maria, Rainha dos Apóstolos, lhes diz: “Abrasado de amor no amor infinito, vai acompanhado das bênçãos do Amor Infinito, para exercitar o seu ministério e será um Serafim e espalhará por todos os lados dardos de amor nos corações, para levar-lhes o Amor Infinito: dardos de amor será o seu salmodiar, dardos de amor serão a sua celebração dos mistérios, a sua pregação e a sua administração dos sacramentos; instruído em Deus, aceso de amor em Deus, animado pelo espírito de Jesus Cristo, em plena desconfiança de si; vá corajosamente (...) quero que o seu zelo pelo crescimento do Rebanho de Jesus Cristo seja, sem medida, aceso pela divina caridade e dirigido pelo Amor Infinito”.

A adesão dos sacerdotes às celebrações do mês mariano, na Igreja do Espírito Santo dos Napolitanos, foi muito boa. A cada dia do mês se faziam meditações sob as pegadas de o “Mês de maio para os eclesiásticos”, de Pallotti, e terminava com um cântico atribuído a São Boaventura: “Louvamos a Ti, ó Mãe de Deus”. Segundo as informações históricas, o Mês de maio para os eclesiásticos foi celebrado na Igreja do Espírito Santo, de 1839 até 1845. Isto se confirma com a carta de Pallotti que, em 18 de maio de 1844, escrevia a Domenico Santucci: “Lembre-se de que temos o mês de maio para os eclesiásticos”. Pallotti se transferiu para a casa, junto a São Salvador em Onda, no início da quaresma de 1846.

b)      As conferências semanais para os sacerdotes

Os sacerdotes que participavam das celebrações do Mês de maio expressaram o desejo de reunirem-se no mesmo local, periodicamente, ao longo do ano. Assim nasceu a ideia das conferências semanais para os sacerdotes que participaram na Igreja do Espírito Santo dos Napolitanos, começando em 1839. A alma e promotor principal destas conferências era o sacerdote Vicente Pallotti.

O primeiro encontro aconteceu no dia 6 de junho de 1839, primeira quinta-feira do mês. A partir de então, o clero romano começou a se reunir toda quinta-feira à tarde, na Igreja do Espírito Santo, na Via Giulia. Participaram sacerdotes diocesanos e regulares, monsenhores, teólogos, consultores dos dicastérios pontifícios e também alguns bispos. As conferências, graças a Vivente Pallotti, eram endereçadas à renovação da vida espiritual e a atualização pastoral dos sacerdotes. Ao empreender esta iniciativa, Pallotti se inspirou na ideia de São Vicente de Paulo, que promovia reuniões periódicas de eclesiásticos destinados a renovar a vida espiritual e a preparação pastoral dos sacerdotes. Nestes encontros se abordava um caso de moral ou de liturgia. Analisava-se e apresentava soluções. Neste período, em toda a Europa, começaram surgir estas iniciativas. Pallotti, porém, enriqueceu o programa e focalizou sobre a renovação espiritual, como se pode ver pelo título do texto: “Conferências semanais do espírito, do estudo sacro, e do ministério evangélico para os eclesiásticos, instituídos sob a especial proteção da Imaculada Mãe de Deus, Rainha dos Apóstolos”.

Segundo Pallotti, as conferências de quinta-feira deveriam ser uma palestra de alento espiritual. Aos participantes, Pallotti sugeria boa disposição: “Frequentá-la com espírito da mais profunda humildade e firme persuasão da necessidade de escutar as reflexões dos outros com a consciência da própria indignidade em receber a graça de aprofundar em tais reflexões: e aqui, cada um pode considerar o quanto esteja longe de tirar proveito das conferências, uma vez que a frequentasse somente para mostrar os seus próprios conhecimentos, pensamentos, argumentações e saber”. Por isso, dos encontros “se excluem as reflexões críticas ou de simples erudição; todas as reflexões devem tender a promoção da vida devota e santa (...). São proibidas as perguntas muito longas, porque elas não favorecem o crescimento das ciências sagradas” (OO CC V, 582). De acordo com os escritos de Pallotti, as conferências deveriam ter a finalidade de conduzir as pessoas à maior imitação de Jesus Cristo e de promover o quanto possível, a maior glória de Deus e a perfeição evangélica de si mesmo e dos outros e de dispor-se assim à observância do ministério apostólico.

Pallotti explicava que o método desta conferência, para ser frutuoso, devia ser simples e que tocasse no coração e na mente. Eis os componentes do encontro: lições de canto gregoriano, leitura e partilha de um texto do Evangelho do domingo seguinte, leitura do Catecismo Tridentino ou Romano, com o comentário de um ou mais padres escolhidos, debate desenvolvido “na paz e na caridade” em torno de um caso referente à moral, escolhido na conferência anterior, e a oração final para pedir a Deus operários para sua messe. Quanto à partilha do Evangelho, Pallotti insistia que, após a leitura do texto, em Latim, se lesse também, para uma maior compreensão, “a tradução vulgar com as notas”. Cada participante era convidado a dizer não somente o que o havia tocado, mas também o que gostaria de fazer para seguir Jesus Cristo, de acordo com o que foi lido. Esta partilha tinha também a finalidade de enriquecer a pregação dominical. No final da partilha, se distribuía um pequeno bilhete no qual estava escrito um versículo da Sagrada Escritura. Cada um lia em voz alta e fazia um pequeno comentário.

Do epistolário de Pallotti, descobrimos que as conferências semanais lhe eram muito caras. Ele, pessoalmente, se encarregava de recordar os sacerdotes e também de convidá-los para fazer parte. Esta confirmação aparece em duas cartas, dia 27 de abril de 1841, Pallotti escreve para monsenhor Pietro Minetti: “ela se tornou avarenta, é preciso fazer algum presente na conferência semanal! Fará o mesmo no mês mariano dos eclesiásticos, a qual iniciará na próxima sexta-feira. Espero que venha quinta-feira à conferência e depois a indicada prática do mês de Nossa Senhora Imaculada” (OCL III, 1. n. 751). No dia 13 de março de 1845, Pallotti escreve para Andrea Mogliazzi: “Hoje, às 21h 30min, nos encontramos para a conferência no Santo Espírito; e para cumprir esse dever e regular as forças, você poderia confessar alguém no Hospital Militar” (OCL V, 1. n. 1103)?

Nota-se, também, que para levar adiante este projeto de organizar e assistir todas as quintas-feiras tais conferências, necessitava de muito esforço e exigia empenho e colaboração de muitas pessoas. Talvez, depois do primeiro impulso, diminuiu o zelo dos colaboradores. Isto pode ser observado pela carta escrito por Pallotti, no dia 6 de agosto de 1840, em Cingoli, onde se encontrava para realizar as missões. Ele escreveu aos zelosos colaboradores das conferências espirituais, do estudo sacro, e do ministério evangélico, sob a proteção especial da Imaculada Mãe de Deus Maria Santíssima, Rainha dos Apóstolos: “chegou o momento oportuno de falar do mês mariano para os eclesiásticos e das conferências; gostaria de contar com a presença de todos vocês, e tenho certeza o quanto isso os fará bem. Senhores missionários, gostaria de confirmar vocês no progresso da unidade, mesmo que algum tenha sofrido a tentação do resfriamento ou então da desistência...” (OCL III, 1. n. 695).

Para concluirmos sobre o tema: a Formação sacerdotal de Pallotti e o modo como instruía os membros do clero de Roma, isto no leva a crer que, para ele, não bastava apenas buscar a santidade, mas, também, devemos ter a preocupação diária em sermos doutos.

 

Para refletir

1.      O que você diria da formação sacerdotal de Vicente Pallotti?

2.      Como os membros da UAC podem ampliar os seus conhecimentos no campo da fé?

3.      Que sugestão você daria, para que possamos manter vivo um espírito de oração e de estudo?



 

segunda-feira, 21 de setembro de 2026


 

Tema 16: PALLOTTI E OS SEUS TRÊS LEMAS

A vida de São Vicente Pallotti foi marcada por um profundo amor e zelo pelas coisas de Deus. Com três lemas, ele implantou um novo modo de ser Igreja. Para ele: “Tudo deveria conduzir a pessoa para a maior glória de Deus; para a destruição do pecado e para a salvação das almas”. Esses princípios nortearam a sua missão de reavivar a fé e a caridade entre os católicos e de espalhar o Evangelho pelo mundo. Na sua essência, a vida de São Vicente Pallotti foi uma busca constante por colocar a fé em ação, baseada no amor e no desejo de que todas as pessoas pudessem conhecer e amar a Deus.

A sua personalidade espiritual norteava-se pelo esvaziamento total de si mesmo, para encher-se totalmente de Deus. Buscava uma vida de sacrifícios, para que Deus triunfasse nele. Por causa disso, procurava excluir de si qualquer germe ou inclinação de egoísmo. Buscava o aniquilamento do seu eu para que Deus fosse glorificado. Esta maneira de viver de Pallotti só pode ser compreendida quando se tem como ponto de referência o seu profundo amor para com Deus, pois o amor é vida e quanto maior for o amor, tanto maior e mais forte e duradoura será a vida.

Um outro detalhe que encontramos em sua vida é a constante necessidade de ser humilhado. A medida da sua humilhação deve ser a medida da glória de Deus, pois quanto mais Deus deve ser exaltado, tanto mais ele deve ser humilhado. A grandeza de Deus é a alegria de sua humildade. Assim dizia ele: “Quem pode medir a minha miséria, pobreza, malícia e ingratidão? Ninguém, exceto o meu Deus” (OO CC X, 29). Sobre a via da certeza confiante, Vicente não conhecia limites. Ele chegou a pedir o dom dos estigmas e estava seguro de que obteria tal graça, porque o amor de Jesus é infinito (cf. OO CC X, 106). Esse dom não lhe foi concedido, mas obteve tantos outros que o santificaram.

Ele sempre exortava para que nunca desconfiassem de que Deus não seja capaz de fazer o que fizeram os maiores santos da Igreja, porque com a graça dele, você pode fazer coisas maiores, ou melhor, você pode fazer mais do que fizeram todos os santos juntos (cf. OO CC X, 112). “Se considero infinita a bondade de meu Deus, é porque estou convencido de que Ele me enriquece com a abundância da graça santificante, para que eu possa desejar o Paraíso, se é que se pode desejar algo naquela Pátria beata. Tenho certeza de que Deus, pela sua bondade, se pudesse fazer-me verdadeiro Deus, Ele o faria” (OO CC X, 143).

Em Pallotti, todo o seu contato com Deus está projetado sobre o infinito. A glória de Deus deve ser infinita, a perfeição da criatura deve ser infinita, o amor deve ser infinito e até mesmo a humilhação e o sofrimento devem ser infinitos, para servir de reparação ao Amor infinito. Enfim, tudo deve ser elevado ao infinito, ou seja, quem ama infinitamente deve aceitar também, para reparar os seus erros, verdadeiros ou presumíveis expiações ou reparações também de uma maneira infinita. A humilhação externa com a mortificação física não só são meios eficazes de expiação dos pecados do orgulho e de concupiscência, mas é também uma ótima disciplina para conservar a castidade e o equilíbrio humano.

Os lemas

Tudo para a maior glória de Deus:

O apostolado, para Pallotti, consiste no conduzir o mundo a se transformar no amor de Jesus Cristo, que morreu por nós. Em 14 de julho de 1839, após a santa missa, refletindo que, na comunhão, a misericórdia de Deus e o próprio Deus se faz alimento da alma, subitamente lhe veio à mente uma iluminação muito forte e ele escreveu: “Senti que a infinita justiça de Deus é infinitamente misericordiosa. Senti que o prodígio da misericórdia que a infinita misericórdia operou em mim, devo desejar para todos. Meu Deus, na íntima persuasão de minha incapacidade de vos glorificar, recomendo a vós, Pai, Filho e Espírito Santo, a glorificação infinita que mereceis receber de todas as criaturas. Sim, meu Deus, glorificai-vos a vós mesmos com a vossa glória eterna e infinita e cobri-me de vergonha e de sofrimentos e ficarei satisfeito”.

A sua oração se estende a todo o universo como também à Maria Santíssima, aos anjos, aos santos, pela libertação das almas do purgatório, a santificação e a difusão da Igreja Católica, o papa, os bispos, o clero, os sacramentos, os governos, as nações, as cidades, as famílias, para que, por todos os lados, resplandeçam os fins adoráveis da divina caridade (S. Vicente Pallotti. As luzes, p. 348).

A finalidade da sua oração é a glória de Deus, de Maria, dos santos, pela conversão dos pecadores, pela destruição de todo o pecado e imperfeição, da libertação imediata e simultânea de todas as almas do purgatório, pela salvação e perfeição infinita de todas as criaturas, pela multiplicação de todas as obras de caridade, o alívio de todos os aflitos e indigentes, a formação de um só rebanho sob um só Pastor, pela sua transformação e de todos os homens em Cristo. Ele desejava, também, amar a Deus sem que ninguém soubesse, exceto Ele. E continua: Eu gostaria de sofrer, para aumentar a sua glória, mas, que ele apenas soubesse disso. Com o passar do tempo, eu gostaria de aumentar, cada vez mais, a glória de Deus (As luzes, p. 49). Em qualquer lugar em que me encontre ou nos lugares isolados, pretendo fazer o que os justos, os santos, os anjos, Maria Santíssima e Jesus fariam se estivessem na mesma situação. Em qualquer outro estado em que me encontre e imaginando o que fizeram para a glória de Deus, de Jesus, pela glória do seu Pai Celeste, da mesma forma quero fazê-lo (As luzes, p. 50).

Ao longo da sua vida, Pallotti cunhou um binômio: glória de Deus e santificação das almas e tal binômio não é uma casual formulação literária somente, mas é um programa de apostolado, isto é, ele vê a santificação das almas como o mais eficaz contributo para a glória de Deus. Mas, para ele, o que é verdadeiramente glorificar o nome de Deus? Não consiste na construção de catedrais, de hospitais, de escolas católicas, de manifestações religiosas públicas, de Igrejas cheias. Tudo isso são coisas boas e louváveis, mas não são necessariamente elementos que glorifiquem a Deus, pois nem todos aqueles que colaboram pela construção de uma catedral tem a intenção de glorificar Deus e nem mesmo uma Igreja cheia de gente. Segundo ele, a glória de Deus consiste na realização do seu Reino sobre a terra, no fazer a sua vontade, no santificar o seu nome (Dal nulla al tutto, p. 171).

Segundo ele, o maior hino para cantar a glória de Deus e a santificação própria e a do próximo, é a adesão da mente, do coração e de todas as ações para Deus, pois esta é proveniente da fé, da esperança e da caridade, é a adesão da mente, do coração e de todas as ações para Deus (Dal nulla al tutto, p. 172). Certa vez, ele escreveu em uma carta: “Precisa respirar Deus, procurai-O e o encontrareis. Procurai-O em todas as coisas e O encontrareis em tudo. Procurai sempre e O encontrareis sempre” (Lett 382).

Para Pallotti, pensar em imitar Cristo é algo fascinante, mas poucos praticam, porque poucos pensam nisto, mas àqueles que pensam nele, quanto mais se aprofundam neste pensamento, tanto maior será o desejo de imitá-Lo e quanto mais cresce o amor por Jesus, tanto maior será a fé e a graça de Deus. A imitação de Jesus tem como objeto o espírito de sacrifício de Jesus Cristo, a sua disponibilidade para cumprir a vontade do Pai Celeste, a sua humildade e mansidão, seu amor à pobreza, o seu desejo da glória do Pai e da salvação das almas (Dal nulla al tutto, p. 175).

Pallotti não conseguia ficar limitado entre o tempo e o espaço. O seu desejo era de abraçar o infinito, a eternidade, para poder render infinitamente glória a Deus, por toda a eternidade. Desejava uma perfeição infinita para si e para todas as criaturas. A espiritualidade palotina tem como eixo a vida apostólica, que por sua vez está fundada sobre o entusiasmo que nasce do amor (OO CC VIII, 254-460).

Tudo para a salvação das almas:

Desde tenra idade, Vicente Pallotti tinha um profundo desejo de conduzir as pessoas a Deus. Para ele, quanto mais uma alma se emerge em Deus, tanto mais sentirá a estima e o afeto da criatura para com o Criador. A prova da autenticidade do amor para com Deus é amando as pessoas, pois quem não ama as pessoas, também não pode amar a Deus (cf. 1Jo 4,8).

Pallotti, após ter professado procurar só a Deus, só, só, escreveu: “Procurarei socorrer os pobres, como posso e como mais convém à graça de Deus. Ele adquiriu uma tão grande compaixão pelo seu estado de vida a ponto de querer tornar-se alimento, bebida, licor, roupa, para socorrer as suas misérias e gostaria de ser transformado em luz para os cegos, ouvido para os surdos, saúde para os enfermos” (OO CC X, 15).

Ao ver que existem muitos pecadores que, se bem orientados, poderiam fazer grandes coisas e ignorantes, se fossem instruídos, seriam grandes santos. Por isso, se comprometeu estimular em si mesmo um grande desejo de instruí-los, iluminá-los, santificá-los e convertê-los com a infinita graça de Deus (cf.  OO CC X, 22-25).

Tudo para a destruição do pecado:

Para compreender a atitude drástica de Pallotti contra o pecado, é preciso recorrer à Sagrada Escritura, às origens e à reparação do pecado. O escritor sagrado vê no primeiro pecado como uma evidente recusa de Deus. Deus proibira o homem de tocar em uma das árvores do jardim do Éden e a não observância desta ordem incorreria na morte. A serpente insinuara que nada disso aconteceria, colocando à prova a própria Palavra de Deus, pois, ao contrário, tal fruto portaria ao verdadeiro conhecimento e, assim, seriam como Deus. Adão aceitou a insinuação diabólica e desobedeceu à ordem de Deus de não se aproximar do fruto proibido.

O pecado em si mesmo é a antítese de Deus: Deus cria a vida e a ordena. O pecado, por sua vez, semeia a morte e a desordem. Com o pecado, o homem perdeu o equilíbrio do espírito, equilíbrio esse necessário para distinguir com segurança o bem do mal e a partir daí escolher, decisivamente, sempre e só o bem.

Com o pecado, a imagem de Deus impressa no ser humano, no ato da criação, continuava tênue e deturpada. Deus chamou, então, Abraão e depois Moisés, iluminou os profetas com sua sabedoria, mas o pecado continuava a devastar a obra do Criador. Mas, quando chegou a plenitude dos tempos, enviou o Seu próprio Filho (Gl 4,4), que fez o último apelo. Ele mesmo assumiu a natureza humana, lavou com o seu sangue a mancha que não fora possível lavar nem com o sangue dos sacrifícios e nem com as águas do dilúvio. Pela sua obediência até a cruz, compensou a desobediência mortal do primeiro homem. Deus foi zombado, flagelado, crucificado, morreu entre os insultos do povo, para compensar a ofensa do pecado que tinha chamado Deus de ciumento e mentiroso. Mas, a história não termina aqui. No terceiro dia, como havia dito, Jesus ressuscitou dando a prova decisiva de que Ele era verdadeiramente Deus e que seu sangue tinha lavado a mancha deixada pelo pecado (cf. OO CC X, 478-479; XIII, 117).

Esta é a razão teológica pela qual Vicente Pallotti declara o seu ódio contra o pecado e inicia uma cruzada não só para combatê-lo, mas para erradicá-lo da face da terra (cf. OO CC X, 525). Ele se acusava de ser o maior pecador, nada e pecado (cf. OO CC X, 160), a causa de todos os males físicos e morais da humanidade, mas o pecado do qual faz menção é o da ingratidão (cf. OO CC X, 155; 700-701). São Vicente Pallotti, no seu encontro místico com Deus, percebera o quanto Ele merece ser amado e naturalmente toda a sua gratidão era insignificante diante do amor que Ele tem para com a humanidade pecadora. O não corresponder com a graça de Deus levou-o a viver uma grande angústia, pois gostaria de reparar o amor infinito de Deus, também, com um igual amor infinito (cf. OO CC X, 607; 118-120).

A linguagem de Pallotti é muito dura, quando se refere ao pecado. Diante dos próprios pecados, chega a pedir a Deus que destrua a sua vida (cf. OO CC X, 568; 260; 674-675). O termo destruição, à primeira vista, dá a impressão de ser negativo, como se refletisse a algo sádico. Para ele, isto não tinha uma conotação negativa, como também não era negativa para São Paulo, quando usava a terminologia do velho homem que deve morrer, para que surja uma criatura nova (cf. Ef 4, 22-24). Essa expressão faz parte da linguagem mística. Para Pallotti, essa palavra é rica de significado, de coisas vistas e ouvidas que, por sua vez, não são familiares às pessoas comuns, porque não podem ser expressas por palavras.

A transformação dos místicos é a antecipação do Paraíso, é uma experiência antecipada da vitória definitiva. A via da transformação é a purificação da alma. A graça vai agindo gradativamente na pessoa, à medida que ela se abre a Deus e se esforça para conquistá-la, e a partir daí a alma se desprende das paixões e dos afetos terrenos e se transforma em Deus. Quanto mais se tornam tênues o véu da carne e dos sentidos, tanto mais profundamente e vastamente a luz de Deus penetra na alma. Quando os véus, pelo impulso do amor de Deus se desligam de tudo, daí a alma se transforma no esplendor e no calor de Deus.

Portanto, na ascética de Pallotti, o elemento determinante para a transformação é a imitação de Jesus Cristo. Segundo ele, quando uma alma, dia após dia, se coloca verdadeiramente a procurar no seu íntimo os pensamentos, os afetos e as palavras e as obras de Jesus, Jesus entra naquela alma e a purifica, adorna, ilumina e aquece; faz dela sua morada e age nela. Porém, a força que opera a transformação é o amor. O amor assimila sempre aquele que ama, ao objeto do seu amor. “O amor de Deus transforma em Deus e quanto mais alguém ama Deus, tanto mais rapidamente e completamente se transforma em Deus”.

Um dos efeitos mais vistosos da transformação é a aquisição de uma particular disposição à magnificência. A experiência da infinita beleza, da infinita misericórdia, da infinita potência e do infinito amor, deixa na alma uma impressão, uma atitude e um desejo de grandeza que, depois, vai refletir na linguagem, nos juízos, nas ideias e em todas as iniciativas, e, a partir daí, tudo passa a ser visto em um plano divino e medido com a medida do infinito.

Um outro efeito da transformação em Deus é a audácia dos santos. De fato, quem teve a sorte de pensar quase com o intelecto de Deus e de amar com o coração de Deus, ousa tudo, não tem limites nos seus desejos, não se assusta com mais nada, não se fecha diante dos obstáculos e não sabe renunciar a nenhum dos planos que Ele projetou para a Sua glória.

Deus infunde em Pallotti um sentimento

Ele tem certeza de que a sua vida seria destruída pela infinita misericórdia de Deus, para que ele pudesse começar uma vida nova e perfeita em Deus (cf. OO CC X, 642). A experiência, a qual refere o santo, é uma experiência sobre-humana. A sua certeza acontece por um estado de união mística com Deus. Deus, apesar de seus inúmeros pecados nunca o abandonou, pelo contrário, a sua misericórdia o dá confiança e certeza disso, por isso afirma: “quanto mais me vê pobre, tanto mais quer multiplicar em mim a difusão da vossa graça. Que coisa é, então, o homem diante de Deus? É uma coisa inefável, uma fonte de ternura. O homem diante de Deus é como a ovelha perdida que se obstina em se perder e o pastor se obstina em procurá-la, ou é o filho que se obstina em estar doente e a mãe que se obstina em fazer de tudo para que o encontre a cura” (Dal nulla al tutto, p. 272).

São Vicente nos surpreende com seu perene emergir de todos os abismos da nulidade e do pecado nos quais ele se precipita com sua autoacusação de traição e de sacrilégio, mas as suas autoincriminações querem denunciar uma escassa falta de amor da qual ele se sente culpado porque, em sua lógica, ele nunca teria amado a Deus, como Ele merece ser amado; e este é o seu desespero; mas esta também é a sua força: esforçar-se a todo custo para amar a Deus, como Deus merece ser amado! É seu dever, sua necessidade e a fonte de toda a sua energia ascética e apostólica.

Em suma, os três lemas de São Vicente Pallotti, a glória de Deus, a destruição do pecado e a salvação das almas, não são apenas frases religiosas, mas um programa de vida fundado no amor infinito. Sua trajetória nos ensina que a verdadeira santidade não reside em grandes obras externas, mas na conformidade total com Cristo e na busca constante por “respirar Deus” em cada ação. Pallotti nos convida a sair do egoísmo para abraçar a audácia dos santos, transformando nossa existência em um reflexo da misericórdia divina.

 

Para refletir

1.      O que levou Pallotti escolher esses três lemas?

2.      Qual ensinamento você pode tirar para a sua vida?

3.      Em que momento de sua vida você percebeu a ação concreta de Deus?


quarta-feira, 16 de setembro de 2026


 

Tema 15: DEUS, MISERICÓRDIA INFINITA

A vida espiritual de Vicente Pallotti é para nós, hoje, uma fonte e um exemplo sempre atuais de busca daquele que nos chamou à existência. Graças ao seu testemunho de fé, podemos aprender como devemos nos relacionar com Deus, como nos deixar amar por Ele e como fazer com que todo o nosso ser esteja impregnado da Sua presença. Quando observamos, por meio dos seus escritos, a maneira como Pallotti rezava e agia, podemos compará-lo a alguém que atingiu um alto grau de perfeição, um místico. O místico, por sua vez, é aquele que busca e vivencia uma união direta, íntima e espiritual com o sagrado ou divino. O que diferencia um místico de uma pessoa comum é que ele, mesmo diante das suas misérias e fraquezas, permanece em plena comunhão com Deus: não desiste nunca.

Uma característica fundamental do nosso fundador é a clara consciência que teve do sentido da vida cristã, do pecado e da ação salvífica de Deus, por meio da sua infinita misericórdia, expressa em Jesus Cristo. Na sua experiência de oração se deparou com a sua pequenez, com o seu “nada”, com a sua limitação humana (cf. As luzes, p. 136). Mas, ele tinha a certeza de que Deus transformaria o seu “nada” em “tudo”. Segundo São Paulo: “Quando sou fraco, então é que sou forte” (2Cor 12,10). Era justamente isso que Pallotti experimentava: é na nossa fraqueza que se faz presente o amor e a força de Deus. Ele tinha consciência de que toda a sua vida e o seu agir eram permanentemente sustentados por Deus.

Em sua vida diária, Pallotti esteve sempre aberto à graça transformadora e vivificante de Deus Pai, que nos ama profundamente. Ele sabia que, sozinho, não era nada; que por si mesmo não conseguiria santificar-se, porque se sentia “nada e pecado”. No entanto, confiava na incrível e infinita misericórdia de Deus que destruía a sua miséria.

Em diversas passagens de seus escritos espirituais, ele confirmou ter sentido a presença ou a ação de Deus em si. Certa vez, escreveu: “...no dia 26 de março de 1840, depois de ter celebrado o divino sacrifício, eu senti, oh meu Deus... que tu te dignaste destruir todo o meu eu...” (OO CC X, p. 211).

A experiência do amor misericordioso de Deus

A experiência do amor e da misericórdia infinita de Deus, para com sua pessoa e para com toda a humanidade, foi vivida de maneira especial por Pallotti. Esta sua experiência tornou-se um dos alicerces da sua espiritualidade, o que levou a distingui-lo de outros santos da Igreja.

No contexto religioso do Século XIX, a vivência religiosa comum não seguia um caminho de proximidade com a divindade, nem sentia a Sua ternura para com o homem pecador, pelo contrário, se baseava mais em uma relação de distância e de frieza no cumprimento dos “deveres” religiosos como um fim em si mesmos. Quanto às pregações nos púlpitos, mostravam ao povo o perigo permanente de deixar de ser amado por Deus e de se tornar merecedor do inferno eterno. No entanto, Pallotti brilhava em sua época como uma estrela brilha no céu. Pois, demonstrava a sua firme confiança na misericórdia de Deus, e a sua gratidão por saber-se amado “loucamente” por Ele.

Este caminho vivenciado por nosso fundador é o mesmo que, anos depois, Santa Teresinha do Menino Jesus percorrerá, com sua experiência de se fazer e de ser sempre criança para poder ganhar o Reino, pois as crianças confiam, são transparentes, amam e se deixam amar sem limites e, acima de tudo, estão seguras do amor de seus pais.

Mais próxima de nós, Santa Faustina, que foi canonizada no ano 2000, por São João Paulo II, nos convida a seguir pelo caminho de nos consagrarmos ao coração sempre misericordioso de Jesus, um Jesus que, como lhe foi revelado, está esperando e desejando, pela salvação do mundo, que confiemos mais em seu amor e misericórdia para conosco.

Esta experiência da misericórdia de Deus, que agora está mais presente no sentir da Igreja, também quis ser intensificada pela Carta Encíclica do Papa João Paulo II, “Rico em Misericórdia”, que nos mostra como o nosso Pai é para com seus filhos e quão grande é o seu amor. Assim reza o Salmo 117: “Dai graças ao Senhor porque Ele é bom, porque eterna é a sua misericórdia”!

Para melhor aprofundarmos o pensamento místico de Pallotti, vejamos alguns de seus textos que nos ajudam a compreender sobre a misericórdia divina: “Deus é imenso e me alimenta com Sua imensidão. Eu, como um nada, levo a deformidade do pecado. No entanto, o Deus imenso está em mim com todos os seus imensos atributos. Oh, misericórdia! Oh, amor!” (OO CC X, 458).

Ele acrescenta: “Creio e tenho por firme que tua misericórdia destrói toda a minha miséria e me enche de todos os seus dons acima de todos os anjos, de todos os santos e de todas as criaturas passadas, presentes, futuras e possíveis. De modo que, em Maria, todos os séculos e todas as gerações admiraram o prodígio de tua graça, em mim, que supero em miséria, em impiedade e ingratidão a todos os anjos rebeldes e a todo o gênero humano, admirarão o prodígio de tua misericórdia” (OO CC X, 303).

Pallotti se sente o último dos pecadores, mas crê e tem por firme que a misericórdia de Deus destrói toda a miséria humana. Porém, uma coisa é certa, Deus pode destruir tudo o que nos faz mal, tudo o que nos torna escravos, todos os nossos ídolos, tudo o que nos cega. Deus nos quer livres, sadios e que amemos uns aos outros como Ele nos ama. Por isso, dizia: “Nada e pecado é toda a minha vida. Nada e pecado é toda a minha riqueza. Mas, pela inefável misericórdia de Deus, a vida de Jesus Cristo é toda a minha vida” (OO CC VIII, 405).

Nos escritos de Pallotti, o termo Misericórdia se torna repetitivo e sempre acompanhado de adjetivos: Eterna, Infinita, Imensa, Incompreensível, Inefável. Ele faz questão de chamá-la de “minha”, o que transforma o termo “Misericórdia minha” em suas conversas habituais com Deus. Ele saboreia a palavra misericórdia como a principal razão de seu amor por Deus. Para ele, a característica principal e mais importante que encontra em Deus é o seu ser misericordioso. Todos os outros atributos divinos estão em função da misericórdia. Pois, sem necessidade de nada, Deus criou o mundo e o que nele há, apenas por amor, por pura misericórdia. E só por essa razão Ele nos entregou o seu único Filho, sem ter por que fazê-lo, apenas movido pelo mais puro e terno amor: “A vossa infinita Misericórdia e todos os vossos infinitos atributos, todos infinitamente misericordiosos, me dão a ousadia de apresentar-me a Vós. A vossa Infinita Misericórdia e todo Vós, infinitamente misericordioso, com todos os vossos infinitos atributos, me enchem de confiança... Oh! Misericórdia Infinita! Oh! Prodígio de Misericórdia”! (OO CC X, 462-63).

Quanto mais Pallotti experimenta a misericórdia de Deus em sua vida, mais crescia a sua consciência de pequenez, de ingratidão e de se sentir não merecedor de tanto amor. No entanto, ele tem claro que toda a sua escuridão é iluminada por Deus, que por mais pecador que se sinta, Deus sempre estará com ele e o receberá permanentemente. Pallotti nunca se permitiu duvidar da Eterna Misericórdia do Criador, que o chamou à vida e deu a Sua vida por ele: “Oh! Triunfo da Divina Misericórdia infinita! Quero morrer infinitas vezes, com infinitos tormentos, antes de perder qualquer sentimento de tua bondade, de tua Misericórdia Infinita, do valor infinito do Sangue de Jesus” (OO CC X, 188).

Cristo é amor por essência

A caridade de Cristo nos impulsiona e nos move a corresponder ao amor misericordioso e infinito de Deus (cf. 2Cor 5,14). Esta será a preocupação de São Vicente: corresponder ao amor de Deus com sua vida, com suas obras, com seus pensamentos, com seu coração. E à medida que cresce em santidade e se aproxima da fonte de amor e luz que é Deus, com maior clareza, ele vai perceber, por menores que sejam, as suas falhas, as suas ingratidões, a sua falta de correspondência à misericórdia da qual é objeto.

São João da Cruz, na mesma posição de Pallotti, dirá que “Amor com amor se paga” (Cantico spirituale B 27 n. 7 e 8), ou seja, o amor que Deus nos manifestou só pode ter como resposta também o amor, ou seja, corresponder com o mesmo amor. Não podemos corresponder com egoísmo àquele que é Amor, pois, “Deus é imenso e me alimenta com a Sua imensidade. Eu, como nada, carrego a deformidade do pecado. No entanto, o Deus imenso está em mim com todos os seus imensos atributos. Oh misericórdia! Oh amor”! (OO CC X, 458).

Diante da grandeza de Deus, que gratuitamente nos amou e nos ama até o extremo, Pallotti sente a sua pequenez, os seus limites e o seu pecado. No entanto, ele sabe e crê firmemente que Deus foi tão bom que, na encarnação, assumiu toda a nossa natureza humana, exceto o pecado (cf. Rm 8,3). Graças a isso, através do batismo, também adquirimos os atributos de Deus. É por isso que, apesar de nossa natureza estar vulnerada pelo pecado, devemos olhar mais — como fazia Pallotti — para o fato de que também temos toda a força de Deus dentro de nós, para nos santificarmos a cada dia. Assim dizia:

“Oh, meu Deus!... Segundo a natureza de tua bondade infinita que se difunde infinitamente em todos os teus infinitos atributos, de dia e de noite, quer eu vele, durma, pense em ti ou não pense em ti, apesar de minha incompreensível ingratidão e meus incompreensíveis pecados, e apesar de uma vida de resistência às tuas graças, tu sempre pensas em mim com amor infinito, me amas, e com todos os teus infinitos atributos, propriedades e natureza, te voltaste para mim. E difundes sobre mim, de cada um dos teus infinitos atributos, propriedades e natureza, infinitas produções e comunicações de favores, de dons, de graças, de divinas influências e misericórdias, para destruir em mim toda a minha indignidade e para me transformar em ti mesmo e em teus divinos atributos. E, por isso, me lembras que tu me estás dizendo no íntimo do meu ingratíssimo coração: ‘Não, eu não me transformo em ti, mas tu serás transformado em mim!’ Oh, misericórdia! Oh, milagre de todos os infinitos atributos de Deus, todos infinitamente misericordiosos! Oh, meu Deus! Eu queria te dizer uma palavra. Mas não confies em minha palavra, pois nunca a mantive. Sempre te fui infiel. Meu Deus! Eis a palavra que digo: Eu gostaria de corresponder ao teu amor infinito”! (OO CC X, 472-473).

O Salmo 118,17 expressa com muita clareza o que São Vicente sentia: “Não hei de morrer, pelo contrário, viverei e cantarei a misericórdia do Senhor”. Este versículo mostra que, embora se sinta pequeno, ingrato, indigno e que muitas vezes não corresponde à misericórdia infinita de Deus, ele tem por certo que, de todas as formas, Deus está loucamente apaixonado por ele, nunca o deixará, o Seu amor destrói a sua miséria, porque Deus é o Pai que está sempre esperando o retorno do filho para casa.

A certeza que nos é transmitida é que, diante de toda a nossa miséria, não morreremos, pelo contrário, viveremos para cantar sempre a misericórdia do Senhor para conosco. E esse é o canto da vida de Pallotti. Ele sabia que em nós o pecado não tem a última palavra, porque Jesus o destruiu com sua morte na cruz. A vida venceu a morte, por isso não morreremos, mas viveremos em Cristo e para Cristo. E, continuando o Salmo, dizemos com Pallotti: “Dai graças ao Senhor, porque ele é bom, porque eterno é o seu amor”! (Sl 136,1). A isso, Pallotti acrescentou: “A Tua Misericórdia triunfará sobre minha inconcebível malícia, e todo o universo verá o mais luminoso triunfo de tua misericórdia sobre mim. Todos te conhecerão, te servirão e amarão e todos cantarão tuas divinas misericórdias no céu” (OO CC X, 201).

Para concluir o tema sobre a Misericórdia de Deus, vivida e sentida por Pallotti, nada melhor deixá-lo falar com as suas próprias palavras, pois elas expressam com clareza o modo como ele percebia em si a ação misericordiosa de Deus. Por outro lado, seria injusto comparar os escritos de Pallotti com outros santos, pois, o texto que segue é de uma riqueza que o faz sobressair sobre os demais, pelo fato de que o nosso fundador se mostra apaixonado, enamorado, e se atreve a dizer a Deus palavras que eram impensáveis na época. Mas, como vimos anteriormente, qual é a lógica do amor? Qual foi a lógica de Deus ao se encarnar? O amor de Deus vivido por São Vicente segue o caminho mais sensato que a humanidade pôde conhecer, o caminho da loucura da cruz. Eis o que diz o santo:

“Meu Deus! Tu és amor infinito, misericórdia infinita. Perdoa-me se me atrevo a dizer em voz alta: Tu és o louco de amor e de misericórdia por mim. Pois, em todo momento e sempre, desde toda a eternidade, pensas em mim e derramas sobre mim os infinitos dilúvios de graças, de favores, de dons, de misericórdias, de todos os teus infinitos atributos, todos infinitamente misericordiosos. (...) E todas estas ações de teu amor e de tua misericórdia as realizas de dia e de noite, quer eu vele, durma, coma, beba, passeie, pense em ti ou não pense em ti. (...) Oh, meu Deus! O que farei eu diante de teu amor tão inefável e de tua infinita misericórdia? Meu Deus: Eu, nada posso. Mas te ofereço toda a vida santíssima de Jesus Cristo, nosso Senhor. Oh, bem-aventurada e sacrossanta Trindade! Te ofereço tua mesma vida eterna e a vida de Maria santíssima e de todos os anjos e santos. E, para suprir meu defeito, por amor a Jesus, a Maria santíssima, aos anjos e santos, dá glória, dá louvores, dá bênçãos e dá graças a ti mesmo infinitamente. E o que sei eu? Meu Deus, tu és tudo, tudo, tudo! Meu Deus, sou nada, nada, nada, nada! Meu Deus, meu Pai, meu Amor infinito! Vinde, oh anjos e santos e criaturas do Universo! Vinde adorar o Amor infinito, o louco de amor! Vinde, adorai, bendizei, admirai, louvai, agradecei, exaltai-o eternamente e além ainda. Cantarei eternamente as misericórdias de Deus, pelos méritos de nosso Senhor Jesus e por sua infinita misericórdia” (OO CC X, 235-237).

Segundo o próprio Pallotti, o que o impede de avançar espiritualmente, é o seu orgulho. Ao invés, o que o ilumina na descoberta da estima de si e do conhecimento de si é a misericórdia de Deus. Por isso, de um lado, Pallotti quer ser transformado em Deus, que é misericórdia infinita. De outro lado, ele pede a humildade. A humildade lhe parece como o remédio mais eficaz contra o orgulho. Mas, consciente de sua nulidade nesse campo, ele pede a humildade de Jesus Cristo, para suprir a sua imperfeição (Stawicki, p. 168).

Por fim, ele suplica: “Renovai, ó Deus meu, a todo instante, o prodígio da vossa misericórdia. Destruí-me todo, a mim, com todas as minhas obras, e agi vós em mim e em todos, com vossa graça, como agistes e como podeis agir pessoalmente, porque assim, em tudo e sempre eu vivo, mas já não eu, vive em mim o Pai, o Filho e o Espírito Santo, Deus todo, por sua piíssima misericórdia, pelos infinitos méritos de seu Filho Nosso Senhor Jesus Cristo, pelos méritos e intercessão da Bem-aventurada Virgem Maria, de todos os anjos e de todos os santos, agora e para sempre” (Doc. da fundação, p. 222).

Que o Espírito de Deus toque em cada um dos nossos corações, para que possamos superar tudo aquilo que nos impede de sentir e de vibrar com as coisas divinas. Que as nossas almas estejam abertas para sentir essa misericórdia que atravessa os séculos e as gerações. Deus seja louvado em tudo, agora e para sempre.

 Para refletir

1.      A partir de que momento Pallotti descobriu Deus como misericórdia infinita?

2.      Qual é um dos alicerces da espiritualidade de Pallotti e como isso o distingue dos demais santos da Igreja?

3.      O que mais chamou a sua atenção neste texto?