sábado, 26 de setembro de 2026


 

Tema 17: A FORMAÇÃO SACERDOTAL DE PALLOTTI 

São Vicente Pallotti pertencia ao clero de Roma. Para que possamos conhecer melhor o seu processo formativo, como sacerdote, é preciso saber como era a situação do clero romano naquela época e como acontecia a sua formação cultural, intelectual e espiritual.

Uma pesquisa histórica feita por Pietro Stella sobre o clero romano, no século XIX, revela que na primeira metade do século XIX verifica-se um desenvolvimento, no campo formativo, com a presença de novas tendências, ou seja, o clero apresentava ter maior preocupação com os trabalhos pastorais e espirituais do que com as coisas temporais.

No campo da formação espiritual aparece o modelo do sacerdote bom pastor, disposto a guiar e a defender as ovelhas perdidas, principalmente no que se refere ao enfraquecimento da prática religiosa. Dá-se maior ênfase também à questão intelectual, com boas bibliotecas, contendo obras que auxiliassem na pregação, na catequese, na apologética, vida dos santos para cada dia do ano, subsídios devocionais, história sagrada, tratados elementares e ecléticos de teologia, manual prático de moral. Isso é possível constatar, no quarto de Pallotti, acima da sua cama, um amplo quadro com as festas litúrgicas durante o ano.

A formação sacerdotal daquele período, do ponto de vista espiritual, era conforme o modelo jesuítico, nutrida pela meditação, exame de consciência, exercícios de piedade e da prática dos sacramentos. Em geral, pode-se afirmar que o clero romano, no tempo de Pallotti, tinha uma boa formação sacerdotal, e ele fazia parte deste elenco.

Formação de Pallotti, antes da ordenação sacerdotal

O jovem Vicente Pallotti iniciou os seus estudos por volta de 1804, frequentando a escola fundamental, na via dei Cappellari e depois no Colégio de São Pantaleão dos padres Escolápios. De 1809 até o verão de 1814, frequentou o Seminário Romano que, após a supressão dos jesuítas, em 1773, no difícil período de ocupação napoleônica, foi confiado a um grupo de sacerdotes diocesanos. No Seminário Romano, o adolescente Vicente fez os seus primeiros estudos humanísticos, onde se familiarizou com os clássicos latinos e gregos.

A última etapa da sua formação de filosofia e de teologia, que o conduziu ao sacerdócio, no dia 16 de maio de 1818, aconteceu na Universidade Romana Sapienza. Naquele tempo, a Sapienza oferecia cursos de teologia, filosofia, medicina, direito e letras. A maioria dos professores pertencia ao clero regular e secular. O ambiente acadêmico e espiritual da Sapienza era muito bom. A vida universitária ajudava os estudantes a cultivar a vida espiritual. De segunda a sexta-feira, o estudante Pallotti, como todos, assistia às aulas dos vários mestres e a discussões de temas teológicos, organizados após os cursos obrigatórios. Na Igreja de Santo Ivo, celebravam-se as missas de abertura do ano letivo e das festas principais. Os sacerdotes professores se alternavam para celebrar as missas festivas e dominicais, como também ouviam as confissões.

Vicente Pallotti teve sua formação sacerdotal de forma diferente, como a concebemos hoje. Ele morava na casa paterna e estudava como aluno externo. Recebia uma sólida formação humana e religiosa de diversas pessoas, primeiramente dos pais, que eram muito piedosos, do seu diretor espiritual, Pe. Fazzini, os mestres Escolápios, Seminário Romano, Universidade Sapienza e, ocasionalmente, os diretores dos exercícios espirituais anuais e dos retiros. Tudo isto teve uma forte influência na sua formação sacerdotal.

O biógrafo do Papa Pio IX, Carlo Falconi, escreveu também sobre Pallotti. Comentou sobre seus estudos acadêmicos e da sua escolha de seguir a vida eclesiástica, privilegiando assim laurear-se em filosofia e teologia. Era também um poliglota e de boa formação intelectual, com inclinação para a intelectualidade, mas fica para ele uma incógnita do porque mudou de rota e decidiu entrar no campo da ação pastoral.

Pallotti e a sua formação sacerdotal permanente

Na vida de Vicente Pallotti, pode-se destacar dois períodos ligados à sua formação sacerdotal permanente. Primeiro: formação sacerdotal, no campo espiritual/intelectual, de 1818 até 1830. Segundo: de 1830 até 1850, formação sacerdotal, no campo espiritual/pastoral.

Antes de tudo, a formação espiritual de Pallotti se dá ao longo da sua existência, no intenso cultivo das coisas espirituais. Isto se confirma pelos seus escritos espirituais, pelas suas inspirações e heroicos propósitos que foram compendiados no volume X das Obras Completas, As luzes. Sobre este assunto, não há necessidade de muitas delongas, porque temos várias outras contribuições sobre o caminho espiritual de Pallotti. Basta folhear os escritos do Pe. Francesco Amoroso, SAC, intitulado: “La via dell’infinito” (O caminho do infinito), no qual apresenta a autobiografia espiritual do referido santo.

O pensamento espiritual de Pallotti deu-se ao longo da sua formação. Isto se pode notar pela sua visão e compreensão a respeito do sacerdócio. No início do seu ministério sacerdotal, escreveu: “O nosso inefável Deus dignou-se elevar-me ao sublime grau do sacerdócio, cuja missão é: celebrar o digníssimo Sacrifício, administrar os Santos Sacramentos, pregar a divina Palavra e recitar o divino Ofício” (OO CC X, 148). No final de sua vida, escreveu de maneira diferente: “Luzes e trevas, bendizei o Senhor. Raios e nuvens, bendizei o Senhor (Dn 3,72-73). Quanto ao que era ensinado por mim, era visto como algo bem feito, tanto da minha parte como da dos outros; mas, na verdade, eu não fiz nada que não fosse o mal, pois não instruí suficientemente os fieis, e não preguei o Evangelho a todas as criaturas; mas as obras de Jesus Cristo e a pregação do Reino, para sua piíssima misericórdia e amor, foram objetos de minhas obras e pregações” (OO CC X, 492).

Pallotti continuou sua formação sacerdotal/intelectual após a ordenação, aos 16 de maio de 1818, com o complemento dos estudos teológicos e exercendo o ofício de professor na Universidade Sapienza. No dia 15 de julho de 1818, Pallotti submeteu-se aos exames para laurear-se em filosofia e teologia, obtendo bons resultados. No dia 4 de março de 1819, o reitor da Universidade, Belisario Cristaldi (1764/1831), nomeou-o como acadêmico daquela mesma universidade. Na carta de nomeação, escreveu: “O favorável parecer a respeito do senhor determinou-me a escolhê-lo como Acadêmico da faculdade de Dogmática, da Escolástica e dos locais teológicos, para ajudar os alunos nos grupos de estudo com argumentações e dissertações” (OCL I, 425-426); (San Vincenzo Pallotti romano, Postulazione generale SAC, Roma 1962, p. 39).

Ansgar Faller explica que Pallotti foi nomeado como repetidor e exerceu este ofício de mestre acadêmico entre os anos de 1819 até 1829. Com este título, não podia desenvolver sua própria opinião teológica, porém, ideias pessoais não lhe faltavam. Mesmo que pudesse manifestá-las, ele as evitava. Limitou-se, rigorosamente, em apenas repetir os conteúdos a serem apresentados. Ele escolhia as pessoas para o debate e anotava seu desenvolvimento com muito cuidado. Organizava as discussões de maneira acadêmica e confirmava os resultados. Durante estes dez anos de trabalho, como mestre acadêmico, teve a oportunidade de aprofundar-se na teologia e com isso pode ajudar na formação de inúmeros sacerdotes que mais tarde tornaram-se párocos e professores.

O esforço de Pallotti em aprofundar na área da teologia ficou evidente pela sua participação na Pia União de São Paulo Apóstolo, iniciada em Roma, no ano de 1790. Era uma obra que promovia a formação espiritual do clero romano e que organizava as atividades apostólicas e pastorais nos diversos campos da vida eclesial. Vicente Pallotti era membro desta Pia União e participava das conferências sobre a moral, a cada quinze dias, na Igreja Santa Maria da Paz, na Igreja da Universidade romana e na Igreja Santo Apolinário.

Nos anos de 1820 a 1829, fez parte de um grupo para resolver casos referentes à moral. Nestes encontros participavam também o clero romano, pois a sua finalidade era para capacitá-los nestas questões. A função de Vicente Pallotti era a de apresentar casos e propor soluções. Isto nos faz acreditar que, já naquele tempo, possuía uma ampla cultura geral e teológica.

As iniciativas de Pallotti a respeito da formação sacerdotal

Vicente Pallotti conhecia, profundamente, a vida sacerdotal. Estava convencido de que a santidade dos sacerdotes, como também seu desempenho pastoral, dependem de uma boa formação. Para ele, não basta apenas o clero ser santo, é preciso que também seja douto (OO CC I, 171). Dizia mais: “Se a vida de todos os cristãos deve ser uma contínua imitação da vida de Nosso Senhor Jesus Cristo, (...) com quanto maior perfeição não deveria ser a daqueles que chegaram ao sacerdócio e que devem agir em nome de Cristo”! (OO CC I, 157).

Por isso, desde o início das atividades sacerdotais se nota um grande apreço de Pallotti pela contínua renovação da vida do clero. Isto se confirma pelo texto escrito entre os anos 1823 a 1829, período do pontificado do Papa Leão XII, intitulado: “Vários pontos para a reforma do clero” (OO CC V, 544 a 557). Este texto traz as propostas para a renovação da vida sacerdotal, e Pallotti é solícito em promover tudo aquilo que pode contribuir para a formação dos perfeitos servos de Cristo. Os sacerdotes e confessores, além de serem bem preparados, devem ter uma vida de santidade. Os pregadores devem distinguir-se tanto pela doutrina quanto pela sua integridade moral. Da santidade, da ciência e da vigilância dos pastores dependem, em grande parte, a paz da cristandade e a salvação eterna das almas.

A partir de 1827, Pallotti foi nomeado diretor espiritual do Seminário Romano, Colégio Inglês e Irlandês. Em 1833, deu início também ao Colégio Urbano da Propagação da Fé. O exercício da direção espiritual levou-o a ter ainda mais convicção da necessidade de uma profunda formação sacerdotal, sobretudo, missionária. Qual fosse o teor da sua formação espiritual, afirma: “Para ajudar os alunos a serem verdadeiros missionários, entre os infieis, é necessário formá-los na prática indicada pelo próprio Cristo: ‘Se alguém quiser vir atrás de mim, renegue-se a si mesmo, tome cada dia sua cruz e me siga’” (Mt 16,24); (OO CC XI, 449)

O pensamento de Pallotti sobre a formação sacerdotal

Vicente Pallotti lembra, frequentemente, em seus escritos, que o eclesiástico deve esforçar-se pessoalmente, para buscar seu crescimento durante toda sua vida. Ele estava convencido de que há uma intrínseca união entre o crescimento espiritual, o estudo e o apostolado. Sobre isto, merece destaque o texto sobre a obrigação de todos no espírito de santidade e de instrução (cf. OO CC II, 81-86; III, pp. 47-48). Este texto vem precedido da referência sobre a vida de Jesus Cristo: “O menino crescia e se fortificava, cheio de sabedoria e da graça de Deus; após três dias o encontraram no Templo, sentado entre os doutores, enquanto os escutava e os interrogava” (Lc 2,40-46). Pallotti, assim, pensava: da mesma forma que Jesus crescia e se fortificava cheio de sabedoria, escutando e interrogando os mestres, mesmo sendo a verdadeira Sabedoria, com maior razão, devemos também nós buscar a verdadeira instrução.

Escreveu ainda: “Devemos mais amar que buscar as instruções, e devemos procurá-las com afinco e ávidos de manifestar aos outros a nossa ignorância; e, por esta via de humildade, Deus nos recompensará com grande e saudável capacidade” (OO CC III, 48). Pallotti, por sua vez, enumerava os pontos que mereciam maior atenção e aprofundamento, a saber: a Sagrada Escritura, a história da Igreja, a teologia fundamental e dogmática, os sacramentos, a liturgia e a teologia moral. Ele expressava, ainda, a razão de se ter um contínuo aprendizado: “Para que jamais regrida na mais perfeita imitação da vida de Nosso Senhor Jesus Cristo e, assim, cooperar eficazmente no engrandecimento da sua glória, para a santificação das almas” (OO CC VII, 63-64).

As propostas de Pallotti em prol da formação sacerdotal

a)      Mês de maio para os eclesiásticos

No início de 1939, Vicente Pallotti começou a celebrar na Igreja do Espírito Santo dos napolitanos o Mês de maio com os sacerdotes romanos, diocesanos e religiosos. Francesco Moccia SAC afirma que os três “Mês de maio”, compostos por Pallotti, em 1833, tinha a intenção de divulgar a devoção mariana e de atingir mais profundamente o coração dos leitores.

O Mês de maio para os eclesiásticos, impresso no curso dos anos, em cinco edições, atribui o título à Maria Imaculada Mãe de Deus, Rainha dos Apóstolos, no mês de maio, em honra aos seus consagrados; recorda aos eclesiásticos instituídos, em qualquer ordem, os avisos que lhes dá a Igreja, após sua ordenação, segundo o Pontifical Romano e seu angélico ministério, segundo os apelos das Sagradas Escrituras.

A fonte para as meditações é o Pontifical Romano com os trechos dos escritos dos Santos Padres, para se ter presente nos diversos dias. O Mês de maio para os eclesiásticos se distingue pela densidade da doutrina. Os temas são tomados das advertências do Pontifical romano aos vários graus dos ordenados e dos ofícios dos coros angélicos. Maria Imaculada, Rainha dos Apóstolos, recorda aos eclesiásticos os avisos que a Igreja lhes dá, durante a cerimônia da ordenação e às funções do seu ministério. A Mãe de Deus instrui, guia, encoraja os mestres da Igreja de seu Filho. A parte mais ampla da meditação é a respeito do exame de consciência e a renovação da própria vida, não se trata tanto de ampliar os conhecimentos, mas de buscar maior transformação pessoal.

A finalidade do mês mariano para os sacerdotes era de aprofundar na doutrina eclesial e a renovação espiritual. Neste escrito, Maria, Rainha dos Apóstolos, dizia aos sacerdotes: “Quero deixar bem claro que, para converter os pecadores e iluminar os incrédulos, é mais eficaz a santidade da vida do clero do que todas as apologias escritas nos livros”. No último dia do mês se encontram as palavras de profundo significado espiritual para a vida do sacerdote. Maria, Rainha dos Apóstolos, lhes diz: “Abrasado de amor no amor infinito, vai acompanhado das bênçãos do Amor Infinito, para exercitar o seu ministério e será um Serafim e espalhará por todos os lados dardos de amor nos corações, para levar-lhes o Amor Infinito: dardos de amor será o seu salmodiar, dardos de amor serão a sua celebração dos mistérios, a sua pregação e a sua administração dos sacramentos; instruído em Deus, aceso de amor em Deus, animado pelo espírito de Jesus Cristo, em plena desconfiança de si; vá corajosamente (...) quero que o seu zelo pelo crescimento do Rebanho de Jesus Cristo seja, sem medida, aceso pela divina caridade e dirigido pelo Amor Infinito”.

A adesão dos sacerdotes às celebrações do mês mariano, na Igreja do Espírito Santo dos Napolitanos, foi muito boa. A cada dia do mês se faziam meditações sob as pegadas de o “Mês de maio para os eclesiásticos”, de Pallotti, e terminava com um cântico atribuído a São Boaventura: “Louvamos a Ti, ó Mãe de Deus”. Segundo as informações históricas, o Mês de maio para os eclesiásticos foi celebrado na Igreja do Espírito Santo, de 1839 até 1845. Isto se confirma com a carta de Pallotti que, em 18 de maio de 1844, escrevia a Domenico Santucci: “Lembre-se de que temos o mês de maio para os eclesiásticos”. Pallotti se transferiu para a casa, junto a São Salvador em Onda, no início da quaresma de 1846.

b)      As conferências semanais para os sacerdotes

Os sacerdotes que participavam das celebrações do Mês de maio expressaram o desejo de reunirem-se no mesmo local, periodicamente, ao longo do ano. Assim nasceu a ideia das conferências semanais para os sacerdotes que participaram na Igreja do Espírito Santo dos Napolitanos, começando em 1839. A alma e promotor principal destas conferências era o sacerdote Vicente Pallotti.

O primeiro encontro aconteceu no dia 6 de junho de 1839, primeira quinta-feira do mês. A partir de então, o clero romano começou a se reunir toda quinta-feira à tarde, na Igreja do Espírito Santo, na Via Giulia. Participaram sacerdotes diocesanos e regulares, monsenhores, teólogos, consultores dos dicastérios pontifícios e também alguns bispos. As conferências, graças a Vivente Pallotti, eram endereçadas à renovação da vida espiritual e a atualização pastoral dos sacerdotes. Ao empreender esta iniciativa, Pallotti se inspirou na ideia de São Vicente de Paulo, que promovia reuniões periódicas de eclesiásticos destinados a renovar a vida espiritual e a preparação pastoral dos sacerdotes. Nestes encontros se abordava um caso de moral ou de liturgia. Analisava-se e apresentava soluções. Neste período, em toda a Europa, começaram surgir estas iniciativas. Pallotti, porém, enriqueceu o programa e focalizou sobre a renovação espiritual, como se pode ver pelo título do texto: “Conferências semanais do espírito, do estudo sacro, e do ministério evangélico para os eclesiásticos, instituídos sob a especial proteção da Imaculada Mãe de Deus, Rainha dos Apóstolos”.

Segundo Pallotti, as conferências de quinta-feira deveriam ser uma palestra de alento espiritual. Aos participantes, Pallotti sugeria boa disposição: “Frequentá-la com espírito da mais profunda humildade e firme persuasão da necessidade de escutar as reflexões dos outros com a consciência da própria indignidade em receber a graça de aprofundar em tais reflexões: e aqui, cada um pode considerar o quanto esteja longe de tirar proveito das conferências, uma vez que a frequentasse somente para mostrar os seus próprios conhecimentos, pensamentos, argumentações e saber”. Por isso, dos encontros “se excluem as reflexões críticas ou de simples erudição; todas as reflexões devem tender a promoção da vida devota e santa (...). São proibidas as perguntas muito longas, porque elas não favorecem o crescimento das ciências sagradas” (OO CC V, 582). De acordo com os escritos de Pallotti, as conferências deveriam ter a finalidade de conduzir as pessoas à maior imitação de Jesus Cristo e de promover o quanto possível, a maior glória de Deus e a perfeição evangélica de si mesmo e dos outros e de dispor-se assim à observância do ministério apostólico.

Pallotti explicava que o método desta conferência, para ser frutuoso, devia ser simples e que tocasse no coração e na mente. Eis os componentes do encontro: lições de canto gregoriano, leitura e partilha de um texto do Evangelho do domingo seguinte, leitura do Catecismo Tridentino ou Romano, com o comentário de um ou mais padres escolhidos, debate desenvolvido “na paz e na caridade” em torno de um caso referente à moral, escolhido na conferência anterior, e a oração final para pedir a Deus operários para sua messe. Quanto à partilha do Evangelho, Pallotti insistia que, após a leitura do texto, em Latim, se lesse também, para uma maior compreensão, “a tradução vulgar com as notas”. Cada participante era convidado a dizer não somente o que o havia tocado, mas também o que gostaria de fazer para seguir Jesus Cristo, de acordo com o que foi lido. Esta partilha tinha também a finalidade de enriquecer a pregação dominical. No final da partilha, se distribuía um pequeno bilhete no qual estava escrito um versículo da Sagrada Escritura. Cada um lia em voz alta e fazia um pequeno comentário.

Do epistolário de Pallotti, descobrimos que as conferências semanais lhe eram muito caras. Ele, pessoalmente, se encarregava de recordar os sacerdotes e também de convidá-los para fazer parte. Esta confirmação aparece em duas cartas, dia 27 de abril de 1841, Pallotti escreve para monsenhor Pietro Minetti: “ela se tornou avarenta, é preciso fazer algum presente na conferência semanal! Fará o mesmo no mês mariano dos eclesiásticos, a qual iniciará na próxima sexta-feira. Espero que venha quinta-feira à conferência e depois a indicada prática do mês de Nossa Senhora Imaculada” (OCL III, 1. n. 751). No dia 13 de março de 1845, Pallotti escreve para Andrea Mogliazzi: “Hoje, às 21h 30min, nos encontramos para a conferência no Santo Espírito; e para cumprir esse dever e regular as forças, você poderia confessar alguém no Hospital Militar” (OCL V, 1. n. 1103)?

Nota-se, também, que para levar adiante este projeto de organizar e assistir todas as quintas-feiras tais conferências, necessitava de muito esforço e exigia empenho e colaboração de muitas pessoas. Talvez, depois do primeiro impulso, diminuiu o zelo dos colaboradores. Isto pode ser observado pela carta escrito por Pallotti, no dia 6 de agosto de 1840, em Cingoli, onde se encontrava para realizar as missões. Ele escreveu aos zelosos colaboradores das conferências espirituais, do estudo sacro, e do ministério evangélico, sob a proteção especial da Imaculada Mãe de Deus Maria Santíssima, Rainha dos Apóstolos: “chegou o momento oportuno de falar do mês mariano para os eclesiásticos e das conferências; gostaria de contar com a presença de todos vocês, e tenho certeza o quanto isso os fará bem. Senhores missionários, gostaria de confirmar vocês no progresso da unidade, mesmo que algum tenha sofrido a tentação do resfriamento ou então da desistência...” (OCL III, 1. n. 695).

Para concluirmos sobre o tema: a Formação sacerdotal de Pallotti e o modo como instruía os membros do clero de Roma, isto no leva a crer que, para ele, não bastava apenas buscar a santidade, mas, também, devemos ter a preocupação diária em sermos doutos.

 

Para refletir

1.      O que você diria da formação sacerdotal de Vicente Pallotti?

2.      Como os membros da UAC podem ampliar os seus conhecimentos no campo da fé?

3.      Que sugestão você daria, para que possamos manter vivo um espírito de oração e de estudo?



 

segunda-feira, 21 de setembro de 2026


 

Tema 16: PALLOTTI E OS SEUS TRÊS LEMAS

A vida de São Vicente Pallotti foi marcada por um profundo amor e zelo pelas coisas de Deus. Com três lemas, ele implantou um novo modo de ser Igreja. Para ele: “Tudo deveria conduzir a pessoa para a maior glória de Deus; para a destruição do pecado e para a salvação das almas”. Esses princípios nortearam a sua missão de reavivar a fé e a caridade entre os católicos e de espalhar o Evangelho pelo mundo. Na sua essência, a vida de São Vicente Pallotti foi uma busca constante por colocar a fé em ação, baseada no amor e no desejo de que todas as pessoas pudessem conhecer e amar a Deus.

A sua personalidade espiritual norteava-se pelo esvaziamento total de si mesmo, para encher-se totalmente de Deus. Buscava uma vida de sacrifícios, para que Deus triunfasse nele. Por causa disso, procurava excluir de si qualquer germe ou inclinação de egoísmo. Buscava o aniquilamento do seu eu para que Deus fosse glorificado. Esta maneira de viver de Pallotti só pode ser compreendida quando se tem como ponto de referência o seu profundo amor para com Deus, pois o amor é vida e quanto maior for o amor, tanto maior e mais forte e duradoura será a vida.

Um outro detalhe que encontramos em sua vida é a constante necessidade de ser humilhado. A medida da sua humilhação deve ser a medida da glória de Deus, pois quanto mais Deus deve ser exaltado, tanto mais ele deve ser humilhado. A grandeza de Deus é a alegria de sua humildade. Assim dizia ele: “Quem pode medir a minha miséria, pobreza, malícia e ingratidão? Ninguém, exceto o meu Deus” (OO CC X, 29). Sobre a via da certeza confiante, Vicente não conhecia limites. Ele chegou a pedir o dom dos estigmas e estava seguro de que obteria tal graça, porque o amor de Jesus é infinito (cf. OO CC X, 106). Esse dom não lhe foi concedido, mas obteve tantos outros que o santificaram.

Ele sempre exortava para que nunca desconfiassem de que Deus não seja capaz de fazer o que fizeram os maiores santos da Igreja, porque com a graça dele, você pode fazer coisas maiores, ou melhor, você pode fazer mais do que fizeram todos os santos juntos (cf. OO CC X, 112). “Se considero infinita a bondade de meu Deus, é porque estou convencido de que Ele me enriquece com a abundância da graça santificante, para que eu possa desejar o Paraíso, se é que se pode desejar algo naquela Pátria beata. Tenho certeza de que Deus, pela sua bondade, se pudesse fazer-me verdadeiro Deus, Ele o faria” (OO CC X, 143).

Em Pallotti, todo o seu contato com Deus está projetado sobre o infinito. A glória de Deus deve ser infinita, a perfeição da criatura deve ser infinita, o amor deve ser infinito e até mesmo a humilhação e o sofrimento devem ser infinitos, para servir de reparação ao Amor infinito. Enfim, tudo deve ser elevado ao infinito, ou seja, quem ama infinitamente deve aceitar também, para reparar os seus erros, verdadeiros ou presumíveis expiações ou reparações também de uma maneira infinita. A humilhação externa com a mortificação física não só são meios eficazes de expiação dos pecados do orgulho e de concupiscência, mas é também uma ótima disciplina para conservar a castidade e o equilíbrio humano.

Os lemas

Tudo para a maior glória de Deus:

O apostolado, para Pallotti, consiste no conduzir o mundo a se transformar no amor de Jesus Cristo, que morreu por nós. Em 14 de julho de 1839, após a santa missa, refletindo que, na comunhão, a misericórdia de Deus e o próprio Deus se faz alimento da alma, subitamente lhe veio à mente uma iluminação muito forte e ele escreveu: “Senti que a infinita justiça de Deus é infinitamente misericordiosa. Senti que o prodígio da misericórdia que a infinita misericórdia operou em mim, devo desejar para todos. Meu Deus, na íntima persuasão de minha incapacidade de vos glorificar, recomendo a vós, Pai, Filho e Espírito Santo, a glorificação infinita que mereceis receber de todas as criaturas. Sim, meu Deus, glorificai-vos a vós mesmos com a vossa glória eterna e infinita e cobri-me de vergonha e de sofrimentos e ficarei satisfeito”.

A sua oração se estende a todo o universo como também à Maria Santíssima, aos anjos, aos santos, pela libertação das almas do purgatório, a santificação e a difusão da Igreja Católica, o papa, os bispos, o clero, os sacramentos, os governos, as nações, as cidades, as famílias, para que, por todos os lados, resplandeçam os fins adoráveis da divina caridade (S. Vicente Pallotti. As luzes, p. 348).

A finalidade da sua oração é a glória de Deus, de Maria, dos santos, pela conversão dos pecadores, pela destruição de todo o pecado e imperfeição, da libertação imediata e simultânea de todas as almas do purgatório, pela salvação e perfeição infinita de todas as criaturas, pela multiplicação de todas as obras de caridade, o alívio de todos os aflitos e indigentes, a formação de um só rebanho sob um só Pastor, pela sua transformação e de todos os homens em Cristo. Ele desejava, também, amar a Deus sem que ninguém soubesse, exceto Ele. E continua: Eu gostaria de sofrer, para aumentar a sua glória, mas, que ele apenas soubesse disso. Com o passar do tempo, eu gostaria de aumentar, cada vez mais, a glória de Deus (As luzes, p. 49). Em qualquer lugar em que me encontre ou nos lugares isolados, pretendo fazer o que os justos, os santos, os anjos, Maria Santíssima e Jesus fariam se estivessem na mesma situação. Em qualquer outro estado em que me encontre e imaginando o que fizeram para a glória de Deus, de Jesus, pela glória do seu Pai Celeste, da mesma forma quero fazê-lo (As luzes, p. 50).

Ao longo da sua vida, Pallotti cunhou um binômio: glória de Deus e santificação das almas e tal binômio não é uma casual formulação literária somente, mas é um programa de apostolado, isto é, ele vê a santificação das almas como o mais eficaz contributo para a glória de Deus. Mas, para ele, o que é verdadeiramente glorificar o nome de Deus? Não consiste na construção de catedrais, de hospitais, de escolas católicas, de manifestações religiosas públicas, de Igrejas cheias. Tudo isso são coisas boas e louváveis, mas não são necessariamente elementos que glorifiquem a Deus, pois nem todos aqueles que colaboram pela construção de uma catedral tem a intenção de glorificar Deus e nem mesmo uma Igreja cheia de gente. Segundo ele, a glória de Deus consiste na realização do seu Reino sobre a terra, no fazer a sua vontade, no santificar o seu nome (Dal nulla al tutto, p. 171).

Segundo ele, o maior hino para cantar a glória de Deus e a santificação própria e a do próximo, é a adesão da mente, do coração e de todas as ações para Deus, pois esta é proveniente da fé, da esperança e da caridade, é a adesão da mente, do coração e de todas as ações para Deus (Dal nulla al tutto, p. 172). Certa vez, ele escreveu em uma carta: “Precisa respirar Deus, procurai-O e o encontrareis. Procurai-O em todas as coisas e O encontrareis em tudo. Procurai sempre e O encontrareis sempre” (Lett 382).

Para Pallotti, pensar em imitar Cristo é algo fascinante, mas poucos praticam, porque poucos pensam nisto, mas àqueles que pensam nele, quanto mais se aprofundam neste pensamento, tanto maior será o desejo de imitá-Lo e quanto mais cresce o amor por Jesus, tanto maior será a fé e a graça de Deus. A imitação de Jesus tem como objeto o espírito de sacrifício de Jesus Cristo, a sua disponibilidade para cumprir a vontade do Pai Celeste, a sua humildade e mansidão, seu amor à pobreza, o seu desejo da glória do Pai e da salvação das almas (Dal nulla al tutto, p. 175).

Pallotti não conseguia ficar limitado entre o tempo e o espaço. O seu desejo era de abraçar o infinito, a eternidade, para poder render infinitamente glória a Deus, por toda a eternidade. Desejava uma perfeição infinita para si e para todas as criaturas. A espiritualidade palotina tem como eixo a vida apostólica, que por sua vez está fundada sobre o entusiasmo que nasce do amor (OO CC VIII, 254-460).

Tudo para a salvação das almas:

Desde tenra idade, Vicente Pallotti tinha um profundo desejo de conduzir as pessoas a Deus. Para ele, quanto mais uma alma se emerge em Deus, tanto mais sentirá a estima e o afeto da criatura para com o Criador. A prova da autenticidade do amor para com Deus é amando as pessoas, pois quem não ama as pessoas, também não pode amar a Deus (cf. 1Jo 4,8).

Pallotti, após ter professado procurar só a Deus, só, só, escreveu: “Procurarei socorrer os pobres, como posso e como mais convém à graça de Deus. Ele adquiriu uma tão grande compaixão pelo seu estado de vida a ponto de querer tornar-se alimento, bebida, licor, roupa, para socorrer as suas misérias e gostaria de ser transformado em luz para os cegos, ouvido para os surdos, saúde para os enfermos” (OO CC X, 15).

Ao ver que existem muitos pecadores que, se bem orientados, poderiam fazer grandes coisas e ignorantes, se fossem instruídos, seriam grandes santos. Por isso, se comprometeu estimular em si mesmo um grande desejo de instruí-los, iluminá-los, santificá-los e convertê-los com a infinita graça de Deus (cf.  OO CC X, 22-25).

Tudo para a destruição do pecado:

Para compreender a atitude drástica de Pallotti contra o pecado, é preciso recorrer à Sagrada Escritura, às origens e à reparação do pecado. O escritor sagrado vê no primeiro pecado como uma evidente recusa de Deus. Deus proibira o homem de tocar em uma das árvores do jardim do Éden e a não observância desta ordem incorreria na morte. A serpente insinuara que nada disso aconteceria, colocando à prova a própria Palavra de Deus, pois, ao contrário, tal fruto portaria ao verdadeiro conhecimento e, assim, seriam como Deus. Adão aceitou a insinuação diabólica e desobedeceu à ordem de Deus de não se aproximar do fruto proibido.

O pecado em si mesmo é a antítese de Deus: Deus cria a vida e a ordena. O pecado, por sua vez, semeia a morte e a desordem. Com o pecado, o homem perdeu o equilíbrio do espírito, equilíbrio esse necessário para distinguir com segurança o bem do mal e a partir daí escolher, decisivamente, sempre e só o bem.

Com o pecado, a imagem de Deus impressa no ser humano, no ato da criação, continuava tênue e deturpada. Deus chamou, então, Abraão e depois Moisés, iluminou os profetas com sua sabedoria, mas o pecado continuava a devastar a obra do Criador. Mas, quando chegou a plenitude dos tempos, enviou o Seu próprio Filho (Gl 4,4), que fez o último apelo. Ele mesmo assumiu a natureza humana, lavou com o seu sangue a mancha que não fora possível lavar nem com o sangue dos sacrifícios e nem com as águas do dilúvio. Pela sua obediência até a cruz, compensou a desobediência mortal do primeiro homem. Deus foi zombado, flagelado, crucificado, morreu entre os insultos do povo, para compensar a ofensa do pecado que tinha chamado Deus de ciumento e mentiroso. Mas, a história não termina aqui. No terceiro dia, como havia dito, Jesus ressuscitou dando a prova decisiva de que Ele era verdadeiramente Deus e que seu sangue tinha lavado a mancha deixada pelo pecado (cf. OO CC X, 478-479; XIII, 117).

Esta é a razão teológica pela qual Vicente Pallotti declara o seu ódio contra o pecado e inicia uma cruzada não só para combatê-lo, mas para erradicá-lo da face da terra (cf. OO CC X, 525). Ele se acusava de ser o maior pecador, nada e pecado (cf. OO CC X, 160), a causa de todos os males físicos e morais da humanidade, mas o pecado do qual faz menção é o da ingratidão (cf. OO CC X, 155; 700-701). São Vicente Pallotti, no seu encontro místico com Deus, percebera o quanto Ele merece ser amado e naturalmente toda a sua gratidão era insignificante diante do amor que Ele tem para com a humanidade pecadora. O não corresponder com a graça de Deus levou-o a viver uma grande angústia, pois gostaria de reparar o amor infinito de Deus, também, com um igual amor infinito (cf. OO CC X, 607; 118-120).

A linguagem de Pallotti é muito dura, quando se refere ao pecado. Diante dos próprios pecados, chega a pedir a Deus que destrua a sua vida (cf. OO CC X, 568; 260; 674-675). O termo destruição, à primeira vista, dá a impressão de ser negativo, como se refletisse a algo sádico. Para ele, isto não tinha uma conotação negativa, como também não era negativa para São Paulo, quando usava a terminologia do velho homem que deve morrer, para que surja uma criatura nova (cf. Ef 4, 22-24). Essa expressão faz parte da linguagem mística. Para Pallotti, essa palavra é rica de significado, de coisas vistas e ouvidas que, por sua vez, não são familiares às pessoas comuns, porque não podem ser expressas por palavras.

A transformação dos místicos é a antecipação do Paraíso, é uma experiência antecipada da vitória definitiva. A via da transformação é a purificação da alma. A graça vai agindo gradativamente na pessoa, à medida que ela se abre a Deus e se esforça para conquistá-la, e a partir daí a alma se desprende das paixões e dos afetos terrenos e se transforma em Deus. Quanto mais se tornam tênues o véu da carne e dos sentidos, tanto mais profundamente e vastamente a luz de Deus penetra na alma. Quando os véus, pelo impulso do amor de Deus se desligam de tudo, daí a alma se transforma no esplendor e no calor de Deus.

Portanto, na ascética de Pallotti, o elemento determinante para a transformação é a imitação de Jesus Cristo. Segundo ele, quando uma alma, dia após dia, se coloca verdadeiramente a procurar no seu íntimo os pensamentos, os afetos e as palavras e as obras de Jesus, Jesus entra naquela alma e a purifica, adorna, ilumina e aquece; faz dela sua morada e age nela. Porém, a força que opera a transformação é o amor. O amor assimila sempre aquele que ama, ao objeto do seu amor. “O amor de Deus transforma em Deus e quanto mais alguém ama Deus, tanto mais rapidamente e completamente se transforma em Deus”.

Um dos efeitos mais vistosos da transformação é a aquisição de uma particular disposição à magnificência. A experiência da infinita beleza, da infinita misericórdia, da infinita potência e do infinito amor, deixa na alma uma impressão, uma atitude e um desejo de grandeza que, depois, vai refletir na linguagem, nos juízos, nas ideias e em todas as iniciativas, e, a partir daí, tudo passa a ser visto em um plano divino e medido com a medida do infinito.

Um outro efeito da transformação em Deus é a audácia dos santos. De fato, quem teve a sorte de pensar quase com o intelecto de Deus e de amar com o coração de Deus, ousa tudo, não tem limites nos seus desejos, não se assusta com mais nada, não se fecha diante dos obstáculos e não sabe renunciar a nenhum dos planos que Ele projetou para a Sua glória.

Deus infunde em Pallotti um sentimento

Ele tem certeza de que a sua vida seria destruída pela infinita misericórdia de Deus, para que ele pudesse começar uma vida nova e perfeita em Deus (cf. OO CC X, 642). A experiência, a qual refere o santo, é uma experiência sobre-humana. A sua certeza acontece por um estado de união mística com Deus. Deus, apesar de seus inúmeros pecados nunca o abandonou, pelo contrário, a sua misericórdia o dá confiança e certeza disso, por isso afirma: “quanto mais me vê pobre, tanto mais quer multiplicar em mim a difusão da vossa graça. Que coisa é, então, o homem diante de Deus? É uma coisa inefável, uma fonte de ternura. O homem diante de Deus é como a ovelha perdida que se obstina em se perder e o pastor se obstina em procurá-la, ou é o filho que se obstina em estar doente e a mãe que se obstina em fazer de tudo para que o encontre a cura” (Dal nulla al tutto, p. 272).

São Vicente nos surpreende com seu perene emergir de todos os abismos da nulidade e do pecado nos quais ele se precipita com sua autoacusação de traição e de sacrilégio, mas as suas autoincriminações querem denunciar uma escassa falta de amor da qual ele se sente culpado porque, em sua lógica, ele nunca teria amado a Deus, como Ele merece ser amado; e este é o seu desespero; mas esta também é a sua força: esforçar-se a todo custo para amar a Deus, como Deus merece ser amado! É seu dever, sua necessidade e a fonte de toda a sua energia ascética e apostólica.

Em suma, os três lemas de São Vicente Pallotti, a glória de Deus, a destruição do pecado e a salvação das almas, não são apenas frases religiosas, mas um programa de vida fundado no amor infinito. Sua trajetória nos ensina que a verdadeira santidade não reside em grandes obras externas, mas na conformidade total com Cristo e na busca constante por “respirar Deus” em cada ação. Pallotti nos convida a sair do egoísmo para abraçar a audácia dos santos, transformando nossa existência em um reflexo da misericórdia divina.

 

Para refletir

1.      O que levou Pallotti escolher esses três lemas?

2.      Qual ensinamento você pode tirar para a sua vida?

3.      Em que momento de sua vida você percebeu a ação concreta de Deus?


quarta-feira, 16 de setembro de 2026


 

Tema 15: DEUS, MISERICÓRDIA INFINITA

A vida espiritual de Vicente Pallotti é para nós, hoje, uma fonte e um exemplo sempre atuais de busca daquele que nos chamou à existência. Graças ao seu testemunho de fé, podemos aprender como devemos nos relacionar com Deus, como nos deixar amar por Ele e como fazer com que todo o nosso ser esteja impregnado da Sua presença. Quando observamos, por meio dos seus escritos, a maneira como Pallotti rezava e agia, podemos compará-lo a alguém que atingiu um alto grau de perfeição, um místico. O místico, por sua vez, é aquele que busca e vivencia uma união direta, íntima e espiritual com o sagrado ou divino. O que diferencia um místico de uma pessoa comum é que ele, mesmo diante das suas misérias e fraquezas, permanece em plena comunhão com Deus: não desiste nunca.

Uma característica fundamental do nosso fundador é a clara consciência que teve do sentido da vida cristã, do pecado e da ação salvífica de Deus, por meio da sua infinita misericórdia, expressa em Jesus Cristo. Na sua experiência de oração se deparou com a sua pequenez, com o seu “nada”, com a sua limitação humana (cf. As luzes, p. 136). Mas, ele tinha a certeza de que Deus transformaria o seu “nada” em “tudo”. Segundo São Paulo: “Quando sou fraco, então é que sou forte” (2Cor 12,10). Era justamente isso que Pallotti experimentava: é na nossa fraqueza que se faz presente o amor e a força de Deus. Ele tinha consciência de que toda a sua vida e o seu agir eram permanentemente sustentados por Deus.

Em sua vida diária, Pallotti esteve sempre aberto à graça transformadora e vivificante de Deus Pai, que nos ama profundamente. Ele sabia que, sozinho, não era nada; que por si mesmo não conseguiria santificar-se, porque se sentia “nada e pecado”. No entanto, confiava na incrível e infinita misericórdia de Deus que destruía a sua miséria.

Em diversas passagens de seus escritos espirituais, ele confirmou ter sentido a presença ou a ação de Deus em si. Certa vez, escreveu: “...no dia 26 de março de 1840, depois de ter celebrado o divino sacrifício, eu senti, oh meu Deus... que tu te dignaste destruir todo o meu eu...” (OO CC X, p. 211).

A experiência do amor misericordioso de Deus

A experiência do amor e da misericórdia infinita de Deus, para com sua pessoa e para com toda a humanidade, foi vivida de maneira especial por Pallotti. Esta sua experiência tornou-se um dos alicerces da sua espiritualidade, o que levou a distingui-lo de outros santos da Igreja.

No contexto religioso do Século XIX, a vivência religiosa comum não seguia um caminho de proximidade com a divindade, nem sentia a Sua ternura para com o homem pecador, pelo contrário, se baseava mais em uma relação de distância e de frieza no cumprimento dos “deveres” religiosos como um fim em si mesmos. Quanto às pregações nos púlpitos, mostravam ao povo o perigo permanente de deixar de ser amado por Deus e de se tornar merecedor do inferno eterno. No entanto, Pallotti brilhava em sua época como uma estrela brilha no céu. Pois, demonstrava a sua firme confiança na misericórdia de Deus, e a sua gratidão por saber-se amado “loucamente” por Ele.

Este caminho vivenciado por nosso fundador é o mesmo que, anos depois, Santa Teresinha do Menino Jesus percorrerá, com sua experiência de se fazer e de ser sempre criança para poder ganhar o Reino, pois as crianças confiam, são transparentes, amam e se deixam amar sem limites e, acima de tudo, estão seguras do amor de seus pais.

Mais próxima de nós, Santa Faustina, que foi canonizada no ano 2000, por São João Paulo II, nos convida a seguir pelo caminho de nos consagrarmos ao coração sempre misericordioso de Jesus, um Jesus que, como lhe foi revelado, está esperando e desejando, pela salvação do mundo, que confiemos mais em seu amor e misericórdia para conosco.

Esta experiência da misericórdia de Deus, que agora está mais presente no sentir da Igreja, também quis ser intensificada pela Carta Encíclica do Papa João Paulo II, “Rico em Misericórdia”, que nos mostra como o nosso Pai é para com seus filhos e quão grande é o seu amor. Assim reza o Salmo 117: “Dai graças ao Senhor porque Ele é bom, porque eterna é a sua misericórdia”!

Para melhor aprofundarmos o pensamento místico de Pallotti, vejamos alguns de seus textos que nos ajudam a compreender sobre a misericórdia divina: “Deus é imenso e me alimenta com Sua imensidão. Eu, como um nada, levo a deformidade do pecado. No entanto, o Deus imenso está em mim com todos os seus imensos atributos. Oh, misericórdia! Oh, amor!” (OO CC X, 458).

Ele acrescenta: “Creio e tenho por firme que tua misericórdia destrói toda a minha miséria e me enche de todos os seus dons acima de todos os anjos, de todos os santos e de todas as criaturas passadas, presentes, futuras e possíveis. De modo que, em Maria, todos os séculos e todas as gerações admiraram o prodígio de tua graça, em mim, que supero em miséria, em impiedade e ingratidão a todos os anjos rebeldes e a todo o gênero humano, admirarão o prodígio de tua misericórdia” (OO CC X, 303).

Pallotti se sente o último dos pecadores, mas crê e tem por firme que a misericórdia de Deus destrói toda a miséria humana. Porém, uma coisa é certa, Deus pode destruir tudo o que nos faz mal, tudo o que nos torna escravos, todos os nossos ídolos, tudo o que nos cega. Deus nos quer livres, sadios e que amemos uns aos outros como Ele nos ama. Por isso, dizia: “Nada e pecado é toda a minha vida. Nada e pecado é toda a minha riqueza. Mas, pela inefável misericórdia de Deus, a vida de Jesus Cristo é toda a minha vida” (OO CC VIII, 405).

Nos escritos de Pallotti, o termo Misericórdia se torna repetitivo e sempre acompanhado de adjetivos: Eterna, Infinita, Imensa, Incompreensível, Inefável. Ele faz questão de chamá-la de “minha”, o que transforma o termo “Misericórdia minha” em suas conversas habituais com Deus. Ele saboreia a palavra misericórdia como a principal razão de seu amor por Deus. Para ele, a característica principal e mais importante que encontra em Deus é o seu ser misericordioso. Todos os outros atributos divinos estão em função da misericórdia. Pois, sem necessidade de nada, Deus criou o mundo e o que nele há, apenas por amor, por pura misericórdia. E só por essa razão Ele nos entregou o seu único Filho, sem ter por que fazê-lo, apenas movido pelo mais puro e terno amor: “A vossa infinita Misericórdia e todos os vossos infinitos atributos, todos infinitamente misericordiosos, me dão a ousadia de apresentar-me a Vós. A vossa Infinita Misericórdia e todo Vós, infinitamente misericordioso, com todos os vossos infinitos atributos, me enchem de confiança... Oh! Misericórdia Infinita! Oh! Prodígio de Misericórdia”! (OO CC X, 462-63).

Quanto mais Pallotti experimenta a misericórdia de Deus em sua vida, mais crescia a sua consciência de pequenez, de ingratidão e de se sentir não merecedor de tanto amor. No entanto, ele tem claro que toda a sua escuridão é iluminada por Deus, que por mais pecador que se sinta, Deus sempre estará com ele e o receberá permanentemente. Pallotti nunca se permitiu duvidar da Eterna Misericórdia do Criador, que o chamou à vida e deu a Sua vida por ele: “Oh! Triunfo da Divina Misericórdia infinita! Quero morrer infinitas vezes, com infinitos tormentos, antes de perder qualquer sentimento de tua bondade, de tua Misericórdia Infinita, do valor infinito do Sangue de Jesus” (OO CC X, 188).

Cristo é amor por essência

A caridade de Cristo nos impulsiona e nos move a corresponder ao amor misericordioso e infinito de Deus (cf. 2Cor 5,14). Esta será a preocupação de São Vicente: corresponder ao amor de Deus com sua vida, com suas obras, com seus pensamentos, com seu coração. E à medida que cresce em santidade e se aproxima da fonte de amor e luz que é Deus, com maior clareza, ele vai perceber, por menores que sejam, as suas falhas, as suas ingratidões, a sua falta de correspondência à misericórdia da qual é objeto.

São João da Cruz, na mesma posição de Pallotti, dirá que “Amor com amor se paga” (Cantico spirituale B 27 n. 7 e 8), ou seja, o amor que Deus nos manifestou só pode ter como resposta também o amor, ou seja, corresponder com o mesmo amor. Não podemos corresponder com egoísmo àquele que é Amor, pois, “Deus é imenso e me alimenta com a Sua imensidade. Eu, como nada, carrego a deformidade do pecado. No entanto, o Deus imenso está em mim com todos os seus imensos atributos. Oh misericórdia! Oh amor”! (OO CC X, 458).

Diante da grandeza de Deus, que gratuitamente nos amou e nos ama até o extremo, Pallotti sente a sua pequenez, os seus limites e o seu pecado. No entanto, ele sabe e crê firmemente que Deus foi tão bom que, na encarnação, assumiu toda a nossa natureza humana, exceto o pecado (cf. Rm 8,3). Graças a isso, através do batismo, também adquirimos os atributos de Deus. É por isso que, apesar de nossa natureza estar vulnerada pelo pecado, devemos olhar mais — como fazia Pallotti — para o fato de que também temos toda a força de Deus dentro de nós, para nos santificarmos a cada dia. Assim dizia:

“Oh, meu Deus!... Segundo a natureza de tua bondade infinita que se difunde infinitamente em todos os teus infinitos atributos, de dia e de noite, quer eu vele, durma, pense em ti ou não pense em ti, apesar de minha incompreensível ingratidão e meus incompreensíveis pecados, e apesar de uma vida de resistência às tuas graças, tu sempre pensas em mim com amor infinito, me amas, e com todos os teus infinitos atributos, propriedades e natureza, te voltaste para mim. E difundes sobre mim, de cada um dos teus infinitos atributos, propriedades e natureza, infinitas produções e comunicações de favores, de dons, de graças, de divinas influências e misericórdias, para destruir em mim toda a minha indignidade e para me transformar em ti mesmo e em teus divinos atributos. E, por isso, me lembras que tu me estás dizendo no íntimo do meu ingratíssimo coração: ‘Não, eu não me transformo em ti, mas tu serás transformado em mim!’ Oh, misericórdia! Oh, milagre de todos os infinitos atributos de Deus, todos infinitamente misericordiosos! Oh, meu Deus! Eu queria te dizer uma palavra. Mas não confies em minha palavra, pois nunca a mantive. Sempre te fui infiel. Meu Deus! Eis a palavra que digo: Eu gostaria de corresponder ao teu amor infinito”! (OO CC X, 472-473).

O Salmo 118,17 expressa com muita clareza o que São Vicente sentia: “Não hei de morrer, pelo contrário, viverei e cantarei a misericórdia do Senhor”. Este versículo mostra que, embora se sinta pequeno, ingrato, indigno e que muitas vezes não corresponde à misericórdia infinita de Deus, ele tem por certo que, de todas as formas, Deus está loucamente apaixonado por ele, nunca o deixará, o Seu amor destrói a sua miséria, porque Deus é o Pai que está sempre esperando o retorno do filho para casa.

A certeza que nos é transmitida é que, diante de toda a nossa miséria, não morreremos, pelo contrário, viveremos para cantar sempre a misericórdia do Senhor para conosco. E esse é o canto da vida de Pallotti. Ele sabia que em nós o pecado não tem a última palavra, porque Jesus o destruiu com sua morte na cruz. A vida venceu a morte, por isso não morreremos, mas viveremos em Cristo e para Cristo. E, continuando o Salmo, dizemos com Pallotti: “Dai graças ao Senhor, porque ele é bom, porque eterno é o seu amor”! (Sl 136,1). A isso, Pallotti acrescentou: “A Tua Misericórdia triunfará sobre minha inconcebível malícia, e todo o universo verá o mais luminoso triunfo de tua misericórdia sobre mim. Todos te conhecerão, te servirão e amarão e todos cantarão tuas divinas misericórdias no céu” (OO CC X, 201).

Para concluir o tema sobre a Misericórdia de Deus, vivida e sentida por Pallotti, nada melhor deixá-lo falar com as suas próprias palavras, pois elas expressam com clareza o modo como ele percebia em si a ação misericordiosa de Deus. Por outro lado, seria injusto comparar os escritos de Pallotti com outros santos, pois, o texto que segue é de uma riqueza que o faz sobressair sobre os demais, pelo fato de que o nosso fundador se mostra apaixonado, enamorado, e se atreve a dizer a Deus palavras que eram impensáveis na época. Mas, como vimos anteriormente, qual é a lógica do amor? Qual foi a lógica de Deus ao se encarnar? O amor de Deus vivido por São Vicente segue o caminho mais sensato que a humanidade pôde conhecer, o caminho da loucura da cruz. Eis o que diz o santo:

“Meu Deus! Tu és amor infinito, misericórdia infinita. Perdoa-me se me atrevo a dizer em voz alta: Tu és o louco de amor e de misericórdia por mim. Pois, em todo momento e sempre, desde toda a eternidade, pensas em mim e derramas sobre mim os infinitos dilúvios de graças, de favores, de dons, de misericórdias, de todos os teus infinitos atributos, todos infinitamente misericordiosos. (...) E todas estas ações de teu amor e de tua misericórdia as realizas de dia e de noite, quer eu vele, durma, coma, beba, passeie, pense em ti ou não pense em ti. (...) Oh, meu Deus! O que farei eu diante de teu amor tão inefável e de tua infinita misericórdia? Meu Deus: Eu, nada posso. Mas te ofereço toda a vida santíssima de Jesus Cristo, nosso Senhor. Oh, bem-aventurada e sacrossanta Trindade! Te ofereço tua mesma vida eterna e a vida de Maria santíssima e de todos os anjos e santos. E, para suprir meu defeito, por amor a Jesus, a Maria santíssima, aos anjos e santos, dá glória, dá louvores, dá bênçãos e dá graças a ti mesmo infinitamente. E o que sei eu? Meu Deus, tu és tudo, tudo, tudo! Meu Deus, sou nada, nada, nada, nada! Meu Deus, meu Pai, meu Amor infinito! Vinde, oh anjos e santos e criaturas do Universo! Vinde adorar o Amor infinito, o louco de amor! Vinde, adorai, bendizei, admirai, louvai, agradecei, exaltai-o eternamente e além ainda. Cantarei eternamente as misericórdias de Deus, pelos méritos de nosso Senhor Jesus e por sua infinita misericórdia” (OO CC X, 235-237).

Segundo o próprio Pallotti, o que o impede de avançar espiritualmente, é o seu orgulho. Ao invés, o que o ilumina na descoberta da estima de si e do conhecimento de si é a misericórdia de Deus. Por isso, de um lado, Pallotti quer ser transformado em Deus, que é misericórdia infinita. De outro lado, ele pede a humildade. A humildade lhe parece como o remédio mais eficaz contra o orgulho. Mas, consciente de sua nulidade nesse campo, ele pede a humildade de Jesus Cristo, para suprir a sua imperfeição (Stawicki, p. 168).

Por fim, ele suplica: “Renovai, ó Deus meu, a todo instante, o prodígio da vossa misericórdia. Destruí-me todo, a mim, com todas as minhas obras, e agi vós em mim e em todos, com vossa graça, como agistes e como podeis agir pessoalmente, porque assim, em tudo e sempre eu vivo, mas já não eu, vive em mim o Pai, o Filho e o Espírito Santo, Deus todo, por sua piíssima misericórdia, pelos infinitos méritos de seu Filho Nosso Senhor Jesus Cristo, pelos méritos e intercessão da Bem-aventurada Virgem Maria, de todos os anjos e de todos os santos, agora e para sempre” (Doc. da fundação, p. 222).

Que o Espírito de Deus toque em cada um dos nossos corações, para que possamos superar tudo aquilo que nos impede de sentir e de vibrar com as coisas divinas. Que as nossas almas estejam abertas para sentir essa misericórdia que atravessa os séculos e as gerações. Deus seja louvado em tudo, agora e para sempre.

 Para refletir

1.      A partir de que momento Pallotti descobriu Deus como misericórdia infinita?

2.      Qual é um dos alicerces da espiritualidade de Pallotti e como isso o distingue dos demais santos da Igreja?

3.      O que mais chamou a sua atenção neste texto?


domingo, 30 de agosto de 2026

 


Tema 14: CAMINHOS DE SANTIDADE

 A Igreja Católica trata a santidade como algo comum a todos os fiéis, frequentemente chamada de “vocação universal à santidade”. Isto encontramos na Constituição Dogmática do Concílio Vaticano II, Lumen Gentium. Este Documento superou a ideia histórica de que a santidade era reservada prioritariamente a padres, freiras ou religiosos. O Concílio reafirmou que todos os batizados, qualquer que seja o seu estado de vida ou profissão, são chamados à plenitude da vida cristã e à perfeição da caridade. O Documento Gaudete et Exsultate (Exortação Apostólica do Papa Francisco, 2018) destaca que para ser santo não precisa ter tido grandes êxtases ou atos extraordinários, mas sim viver com amor e dar testemunho cristão nas ocupações diárias: na família, no trabalho e na comunidade. No Documento Christifideles Laici (Exortação Apostólica do Papa João Paulo II, 1988) reforça que os leigos não precisam “fugir do mundo” para se santificarem; pelo contrário, a santidade do leigo se realiza justamente no engajamento com as realidades temporais (política, economia, cultura, família e trabalho). Para o Catecismo da Igreja Católica, a santidade é um crescimento na graça trazida pelo Batismo e que o caminho da perfeição passa, necessariamente, pela união com Cristo e pelo exercício da caridade.

Para compreendermos como os santos percorreram os seus caminhos de santidade, é preciso desmistificar a ideia de que eles nasceram prontos ou imunes a falhas. Antes de tudo, a santidade não deve ser vista com a ausência de erros, mas uma persistência no amor e uma resposta generosa à graça divina. Embora cada trajetória seja única, existem “pontos” comuns que definem esse percurso. A maioria dos santos experimentou um momento de ruptura ou de “despertar”. Para alguns, foi algo dramático (como São Paulo no caminho de Damasco – At 9,4-8); para outros, foi um processo lento de amadurecimento (como Santa Teresinha). O ponto comum entre eles é a decisão de colocar Deus como centro da vida, movendo-se do “eu” para o “nós”.

Não existe santidade sem uma conexão profunda com a fonte, que é Deus. Os santos buscavam a oração não como uma obrigação, mas como uma necessidade vital. Por isso, sentem a necessidade da contemplação da Palavra de Deus, da Eucaristia e dos momentos de silêncio para ouvir a voz interior.

Os santos eram profundamente realistas sobre suas próprias limitações. Eles entendiam que a santidade não é mérito próprio, mas é obra de Deus neles. Por isso, reconhecem e aceitam as suas fraquezas e não tem medo de enumerá-las. A santidade vai ocorrendo na medida em que se desapegam do seu próprio eu, da vaidade e do controle excessivo sobre a própria vida. A santidade não se apresenta de maneira isolada, mas é o transbordamento de amor em relação a Deus e ao próximo. Na verdade, o caminho de santidade é pavimentado pelo serviço abnegado. Assim muitos se santificaram, como por exemplo:

1.      São Vicente Pallotti: Viu a caridade e o apostolado como a forma mais pura de imitar a Deus.

2.      São Francisco de Assis: Encontrou o Cristo nos pobres e na criação.

3.      Santa Teresa de Calcutá: Viveu a santidade no toque aos “mais pobres entre os pobres”.

4.      São João da Cruz: Despojar-se interiormente, para alcançar a união transformante com Deus.

5.      Santa Teresa D’Ávila: A santidade não é um conjunto de regras rígidas ou demonstrações externas de piedade, mas é amizade e intimidade com Deus. Ser santo é deixar-se transformar pelo amor de Deus até que Cristo viva plenamente na alma, gerando uma vida repleta de humildade, liberdade interior e serviço amoroso aos outros.

A perseverança nas “noites escuras”

Muitos santos passaram por períodos de aridez espiritual, dúvidas e sofrimentos intensos (a famosa “Noite Escura da Alma” de São João da Cruz). O diferencial do santo é que ele continua caminhando, mesmo quando não sente a consolação de Deus. A santidade é, acima de tudo, fidelidade em tempos de aridez espiritual.

Em relação a Pallotti, a presença ativa e constante do amor de Deus é a razão psicológica e teológica da sua partida velocíssima no caminho de perfeição e da conquista de metas muito raras. A sua doutrina consiste: o segredo de uma vida santa está no amor de Deus. Não faça nada sem o amor de Deus. Se não tem o amor em Deus, todos os atos objetivamente virtuosos se tornam egoísmo e vaidade. Os meios de santificação, utilizados por Pallotti, para extirpar os vícios e cultivar as virtudes são: a direção espiritual, os exercícios de piedade, as práticas de penitência, o exame de consciência, as meditações, o recolhimento, o confronto com a Palavra de Deus, as leis da Igreja e o exemplo dos santos, mas a vastidão ou a decisão de seus propósitos é a profundidade da fé, esperança e caridade. Elas dão um ritmo privilegiado à sua marcha.

O segundo elemento que caracteriza a autenticidade do itinerário de santificação de Vicente Pallotti é a tradução, quase que automática, do amor de Deus em amor ao próximo. A prova da autenticidade do amor a Deus é a sinceridade do amor ao próximo. Quem não dá nada ao homem do qual vê a sua necessidade, como pode comover-se por Deus ao qual não vê? A santidade, portanto, não consiste em fazer coisas extraordinárias, mas em fazer extraordinariamente bem as coisas comuns por amor a Deus.

O terceiro elemento que garante a autenticidade do caminho de santidade de Pallotti é a sua profunda e cordial insatisfação por aquilo que ele é e o que faz. Esta é também uma das marcas da sua espiritualidade, pois, segundo ele, um homem satisfeito consigo mesmo não pode ser santo. Olhando para si mesmo, Pallotti fica espantado por aquilo que ele é, porque se julga como alguém que foi feito à imagem de Deus, pois a santidade de Deus é a medida para que o homem também possa tornar-se santo (cf. OO CC X, 751; 748; 482-483; OO CC X, 51; 112). Para ele, precisa respirar Deus: “Procurai-o e o encontrareis. Procurai-o em todas as coisas e o encontrareis em tudo. Procurai sempre e o encontrareis sempre” (Lettera 382).

O cultivo espiritual

Vicente Pallotti, que tinha dedicado a existência ao serviço de Deus e ao ministério em favor do próximo, cultivou, pois, uma atitude de profunda adoração de Deus e de Jesus Eucaristia e de veneração para com Maria, os Anjos, os Santos e os justos. A vivência do mistério eucarístico o levou a uma configuração a Cristo, onde sua vida, suas atitudes, seu apostolado fosse a vida do próprio Cristo (cf. Gl 2,20). Essa perfeição, porém, só pode ser encontrada no Cenáculo. Através de seu exemplo, Pallotti nos impulsiona a nutrir um profundo amor pela Eucaristia, fonte de graças e de bênçãos para todo apostolado.

A oração era o centro da vida de Pallotti. Recomendava a todos: oração, oração, oração, para alcançar a submissão da vontade ao querer divino (cf. OCL I, 7;12;25;35;53). A oração cria um clima de santidade nos grupos que se dedicam à ação apostólica. Ele se preocupava, para que a oração dos leigos fosse mais profunda. Ainda jovem, traçou para as famílias cristãs um programa de orações, que incluía uma breve meditação diária, alternando a da paixão de Cristo com uma, sugerida pelo livro das Máximas Eternas de Santo Afonso, oração do rosário, das ladainhas etc. (Todisco, p. 167).

Vicente Pallotti, ao longo de sua vida pessoal e de sua ação pastoral, fez uso de muitas orações. Ele tomou orações de autores espirituais, as quais ou usou em sua integridade original ou modificou ao sabor da própria espiritualidade e do próprio zelo apostólico. A maior parte de suas orações foi composta por ele mesmo. Embora a linguagem e a mística de sua época possam parecer distantes ou complexas para nós hoje, mergulhar em suas orações é essencial. Elas oferecem um vislumbre valioso da intensidade, do vigor e da profundidade de sua vida interior, revelando a força de sua espiritualidade.

A vida interior de Pallotti era um constante e ininterrupto impulso para Deus infinito, imenso e incompreensível, para o Deus que é Amor. Deus infinito quer atrair tudo a si e a alma, arrebatada e fascinada por esse Deus, do qual é imagem, dá a sua resposta. Este impulso para o Deus infinito transforma a vida e a realidade: o mundo, os seres humanos e todas as criaturas participam deste movimento para Deus amor infinito.

A vida contemplativa de Pallotti manifestou-se cedo, aos vinte anos, inserindo-o em uma união profunda com o Deus infinito. Diante da luz da santidade de Deus, ele experimentou de forma dolorosa a própria fragilidade e o “abismo do pecado” que habita na humanidade, identificando-se com a figura bíblica do “homem do pecado”. Ele também intuiu o caráter profundo e tenebroso do mal, sentindo-se, por vezes, “pior que o nada”, perante a perfeição divina. Por isso, traçou como meta espiritual a transformação total em Jesus Cristo. Ele buscava que o Amor de Deus, que é comunicativo por natureza, se difundisse no abismo de sua miséria. Ao reconhecer o seu próprio nada, ele se lança inteiramente à torrente da misericórdia divina, onde a transformação e a gratidão se tornam possíveis.

Na ascética de Pallotti, o elemento determinante para a transformação é a imitação de Jesus Cristo. Segundo ele, quando uma alma, dia após dia, se coloca verdadeiramente a procurar no seu íntimo os pensamentos, os afetos e as palavras e as obras de Jesus, Jesus entra naquela alma e a purifica, adorna, ilumina e aquece; faz dela sua morada e age nela. Porém, a força que opera a transformação é o amor. O amor assimila sempre aquele que ama, ao objeto do seu amor. Para ele: “O amor de Deus transforma em Deus e quanto mais alguém ama Deus, tanto mais rapidamente e completamente se transforma em Deus”. O próprio Jesus, diz: “Vós sois deuses” (Jo 10,34), para indicar que quem recebe a palavra divina possui uma centelha dela, ou seja, tem a capacidade de amar e de evoluir, em vez de se referir a uma igualdade com o Deus Criador. 

Um dos efeitos mais vistosos da transformação é a aquisição de uma particular disposição à magnificência. A experiência da infinita beleza, da infinita misericórdia, da infinita potência e do infinito amor, deixa na alma uma impressão, uma atitude e um desejo de grandeza que depois vai refletir na linguagem, nos juízos, nas ideias e em todas as iniciativas, e a partir daí tudo passa a ser visto em um plano divino e medido com o metro do infinito.

Um outro efeito da transformação em Deus é a audácia dos santos. De fato, quem teve a sorte de pensar quase com o intelecto de Deus e de amar com o coração de Jesus, ousa tudo, não tem limite nos seus desejos, não se assusta com mais nada, não se fecha diante dos obstáculos e não renuncia a nenhum dos planos que Deus projetou para a Sua glória.

Dimensão apostólica da oração

As orações de Vicente Pallotti sempre têm também uma vigorosa dimensão apostólica. Incansável pastor que era, não podia ele, de modo algum, minimizar o engajamento evangelizador. Sua ação pastoral, na linha da fé e da caridade, ia até a exaustão. Mas, a ação partia sempre da vida contemplativa, consciente que estava de que todo apostolado só pode merecer tal nome se partir de Deus.

A oração era para ele o meio infalível para alcançar tudo. Sua oração abarcava todas as intenções e necessidades da Igreja e se estendia à totalidade das pessoas. Ele queria levar todos a Deus amor infinito. Promotor de muitas iniciativas apostólicas, alimentava-as de permanente oração. A oração era para ele um gênero de apostolado indispensável.

A devoção à Maria, principalmente em sua missão histórico-salvífica, ocupava amplo e profundo espaço em sua vida. Ela era a ‘Rainha dos Apóstolos’. No pensamento de Pallotti, ela se preocupou com a salvação de todos os homens, mesmo antes dos apóstolos. Depois, ela fortaleceu com sua oração o testemunho deles. Ela se tornou o mais digno modelo de todo apostolado da Igreja, de todo apostolado dos batizados, ao consagrar-se sem medida ao Reino de Jesus Cristo. Por isso, muitas das preces apostólicas de Pallotti são dirigidas à Maria e voltam o olhar dos fiéis para a vida dela e para o seu testemunho de fé.

Pallotti e seu caminho de perfeição

Quando se trata do caminho espiritual de perfeição, devemos pensar que este trajeto humano pode ser percorrido por qualquer pessoa. Diante de Deus, não existe uns mais e outros menos privilegiados. Na verdade, todos são chamados à vida de santidade. O Papa Francisco, na Encíclica Gaudete et Exultate, afirma:

Para ser santo, não é necessário ser bispo, sacerdote, religiosa ou religioso. Muitas vezes somos tentados a pensar que a santidade esteja reservada apenas àqueles que têm possibilidade de se afastar das ocupações comuns, para dedicar muito tempo à oração. Não é assim. Todos somos chamados a ser santos, vivendo com amor e oferecendo o próprio testemunho nas ocupações de cada dia, onde cada um se encontra. És uma consagrada ou um consagrado? Sê santo, vivendo com alegria a tua doação. Estás casado? Sê santo, amando e cuidando do teu marido ou da tua esposa, como Cristo fez com a Igreja. És um trabalhador? Sê santo, cumprindo com honestidade e competência o teu trabalho ao serviço dos irmãos. És progenitor, avó ou avô? Sê santo, ensinando com paciência as crianças a seguirem Jesus. Estás investido em autoridade? Sê santo, lutando pelo bem comum e renunciando aos teus interesses pessoais” (Gaudete et exultate, n. 14).

Tudo o que foi escrito pelo Papa Francisco, acerca da santidade, pode ser igualado ao modo como Pallotti via a pessoa humana, imagem de Deus, e se Deus é o Santo por excelência, então, todos podem atingir esse grau maior de perfeição (Lv 11,44-45). Ele, motivado pela fé em Jesus Cristo, travou uma batalha contra todo tipo de mal que pudesse afligir a pessoa humana e, assim, distanciá-la do seu Criador, amor infinito. Assim, ele dizia: “Quem sou eu diante de ti, meu Deus, tu que, tanto de dia como de noite, quer eu vigie, quer durma, quer eu pense ou não em ti, não obstante minha ingratidão e os meus pecados, tu com Amor infinito pensas em mim, para destruir a minha indignidade e transformar-me em ti”? (OO CC X, 472).

Vicente Pallotti, ao contemplar o amor misericordioso de Deus, percebeu que, apesar de ele ter procurado viver só para Ele, ainda a sua vida era marcada por inúmeras imperfeições, porque nem sempre os seus desejos correspondiam aos desejos de Deus. Suas inclinações nem sempre eram boas, e tudo isso feria o coração amoroso de Jesus que deu sua vida para nos salvar.

Na verdade, o santo quando falava de si mesmo revelava, sem medo, as suas fraquezas, segredos e malícias, impiedades e impurezas (...). Todo o seu lado sombrio. Por isso, recorria a expressões muito fortes que nós temos muita dificuldade em aceitar e compreender. Em alguns momentos, se autonomeava como o mais horrível monstro, que existiu e que existirá, infinitamente inferior ao puro nada (cf. OO CC X, 458). Mas, ele justifica essa sua atitude comentando o capítulo 13 da Primeira Carta aos Coríntios: “Somos filhos de Adão, mesmo que animados pelo desejo de fazer o bem, não estamos ainda no céu, e sim no mundo” (OO CC I, 108). Por estas afirmações, podemos perceber o seu equilíbrio e o seu realismo humano e espiritual.

Ele considerava o ser humano de uma grandeza imensa, porque foi criado à imagem e semelhança do Criador, por isso é chamado a ser filho de Deus, “herdeiro de Deus” (Rm 8,17), cumulado de tantos bens e, ao mesmo tempo, esse mesmo ser humano é de uma miséria indescritível. Pallotti sublinha, sem piedade, a corrupção do ser humano e seu pecado, para colocar em relevo o amor infinito, incondicional e misericordioso de Deus.

Segundo a antropologia palotina, a criatura humana é inseparável de Deus, do mesmo modo como a sua grandeza e a sua miséria são dois aspectos inseparáveis. Diante da amargura do pecado, ele pede o dom da humildade. Quer até mesmo ser humilhado diante de Deus e de todo o universo. A humildade lhe aparece como remédio mais eficaz contra o orgulho (cf. OO CC XI, 359-360).

Segundo o Padre Faller, para entrar na espiritualidade de Pallotti, precisa-se de duas chaves. A primeira é a do desejo de ser transformado em Deus, Amor e Misericórdia Infinita. Mas essa não funciona sem a segunda: a da humildade que leva em conta a matéria a ser transformada: “Buscai Deus e O encontrareis. Buscai-O em todas as coisas e O encontrareis em tudo. Buscai-O sempre e O encontrareis sempre” (OCL II, 126).

Em uma coleção de sentenças diversas sobre o ser humano diante de Deus, nós encontramos uma resposta muito densa e concisa para a busca de Pallotti. Para a pergunta: “Quem sois vós e quem sou eu diante de vós”? Ele responde: “Deus é tudo do ser humano. O ser humano é tudo de Deus” (OO CC XI, 669), ou seja: uma vez que Deus é o tudo do ser humano, a relação recíproca requer que o ser humano seja o tudo de Deus. Pallotti, quando olhava para suas limitações pessoais, declarava-se como o homem do pecado, mas, ao mesmo tempo via-se como prodígio da misericórdia de Deus, pois, como diz São Paulo: “Onde foi grande o pecado, foi bem maior a graça” (Rm 5,20). Possuído pela presença de Deus, ele sentia a necessidade de escrever e de cantar as maravilhas de Deus. O amor de Deus é como uma violenta tempestade; não pode ser contida, leva e inunda tudo o que encontra pela frente.

Segundo o Pe. Amoroso, o amor de Deus deu aos apóstolos a capacidade de conquistar o mundo, mas sem o Seu amor, o cristão torna-se uma estátua, que fica de pé pela força da inércia; basta um empurrão para derrubá-la e fazê-la em pedaços. Por isso, a presença ativa e constante do amor de Deus, na vida quotidiana de Pallotti, é a razão psicológica e teológica da sua partida velocíssima no caminho de perfeição e da conquista de metas muito raras. A sua doutrina consiste: o segredo de uma vida santa está no amor de Deus. Não faça nada sem o amor d’Ele. Se não tem o amor em Deus, todos os atos objetivamente virtuosos se tornam egoísmo e vaidade. Os meios de santificação utilizados por Pallotti, para extirpar os vícios e cultivar as virtudes, são:

  • O primeiro de tudo é a direção espiritual, os exercícios de piedade, as práticas de penitência, o exame de consciência, as meditações, o recolhimento, o confronto com a palavra de Deus, as leis da Igreja e o exemplo dos santos, mas a vastidão ou a decisão de seus propósitos é a profundidade da fé, a esperança e a caridade. Elas dão um ritmo privilegiado à sua marcha (Amoroso. Dal nulla al tutto, pp. 66-67).
  • O segundo elemento que caracteriza a autenticidade do itinerário de santificação de Vicente Pallotti é a tradução quase que automática do amor de Deus em amor ao próximo. A prova da autenticidade do amor a Deus é a sinceridade do amor ao próximo. Quem não dá nada ao homem do qual vê a sua necessidade, como pode comover-se por Deus ao qual não vê? Ele, por sua vez, dava seu alimento, sapatos, meias, blusas, guarda-chuva, cama, dinheiro, etc. (Amoroso. Dal nulla al tutto, p. 71).
  • O terceiro elemento de santidade, que garante a autenticidade do caminho de santidade de Pallotti é a sua profunda e cordial insatisfação por aquilo que ele é e o que faz. Esta é também uma das marcas da sua espiritualidade, pois, segundo ele, um homem satisfeito consigo mesmo não pode ser santo. Olhando para si mesmo, Pallotti fica espantado por aquilo que ele é (cf. OO CC X, 751; 748; 482-483), porque se julga como alguém que foi feito à imagem de Deus (cf. OO CC X, 245; 470), pois a santidade de Deus é a medida para que o homem também possa tornar-se santo (cf. OO CC X, 51; 112).

Portanto, a trajetória de São Vicente Pallotti e o conceito cristão de santidade apresentados revelam que ser santo não é um estado de perfeição angelical e distante, mas uma jornada profundamente humana e acessível a todos. A santidade fundamenta-se no equilíbrio entre o reconhecimento da própria fragilidade (o “abismo da miséria humana”) e a confiança absoluta na misericórdia divina.

Em suma, a santidade é um caminho acessível a todos os batizados — uma resposta diária e perseverante ao amor de Deus, que acolhe a humanidade em suas limitações e a transforma pelo exercício da fé, da esperança e da caridade. Ela se manifesta na fidelidade cotidiana e na audácia de quem, mesmo em meio às limitações, permite que a “torrente da misericórdia” de Deus guie seus passos. 

Para refletir

1. Por quais caminhos percorreu Pallotti, para chegar à santidade?

2. Quais são as chaves para entender a espiritualidade de Pallotti?

3. Por que Pallotti diz que ele é um milagre da misericórdia de Deus?