Tema 4: O espírito de cooperação na UAC
Dando continuidade aos ensinamentos deixados pelo
nosso santo fundador, São Vicente Pallotti, hoje vamos tratar sobre O Espírito
de cooperação na UAC. Iluminado pelo Espírito Santo, Pallotti visualizou a
Igreja como um corpo onde cada membro, do mais simples ao mais instruído,
possui um papel vital. A cooperação, portanto, surge como a expressão máxima do
amor cristão em sua obra: Amai-vos como eu vos amei (Cf. Jo 13,34-35). Este
texto busca detalhar as raízes dessa colaboração fraterna, que ele estabeleceu
como pilar para multiplicar os esforços em favor da glória de Deus e da
salvação das almas.
É importante salientar que Padre Vicente sempre viu a
pessoa humana como alguém que pode cooperar com a obra redentora de Cristo. Aliás,
o ser humano se conhece a partir do amor infinito de Deus que se reflete nele. O
Livro do Gênesis, por sua vez, apresenta o homem como imagem e semelhança de
Deus e como alguém capaz de gerenciar toda a Sua obra (Gn 1,28-31). Com essa
consciência, Pallotti intuiu que o apostolado universal é uma obra
exclusivamente divina e que a cooperação é imprescindível para a evangelização
da Igreja.[1]
Segundo ele, a cooperação reside na ideia de que as
iniciativas apostólicas pessoais se tornam mais eficazes e atingem um
impacto maior se forem realizadas em colaboração e destinadas ao objetivo
comum de difundir o Evangelho.
Muitos autores, que escrevem
sobre Pallotti, tratam somente sobre o tema da imitação de Cristo na vida e nas atividades apostólicas. Poucos são os que apresentam essa imitação como cooperação com Deus na
salvação da humanidade. Segundo o Pe.
Stanislaw Stawicki, é exatamente
isso a originalidade do conceito palotino de seguimento de Cristo, colaborar com Deus na obra da salvação.
Para o santo, isso não é somente uma estratégia pastoral da Igreja, mas é uma
arte, um dom que permite criar e inovar, sem desafiar a Igreja. A maior graça
de Deus feita ao homem é o chamado à cooperação em sua própria salvação e a de
todos os seres humanos: “Eu vim para que todos tenham vida e a tenham em
abundância” (Jo 10, 10); (Stanislaw
Stawicki, pp. 407-409).
Originalmente, Pallotti chegou a definir a União com
três classes de membros, demonstrando a diversidade da cooperação:
- Operários:
Agentes apostólicos, como padres, irmãos, irmãs e leigos incorporados.
- Coadjutores espirituais: Que colaboravam com a oração.
- Coadjutores temporais: Que colaboravam com recursos materiais.
Na
visão de Pallotti, ninguém é tão pobre que não possa enriquecer o próximo
(com o seu apostolado, oração, talentos) e ninguém é tão rico que não
precise da ajuda dos outros. Isso reforça o sentido de interdependência e de
cooperação mútua. A cooperação, no carisma palotino, nada mais é que o esforço
coordenado de todos os batizados, para cumprir a missão de Jesus Cristo na
Igreja e no mundo, reconhecendo que o apostolado é um chamado universal, ou
seja, de todos.
O método utilizado pelo apostolado católico
O maior sonho do nosso fundador foi o de ver uma
Igreja unida, a exemplo dos primeiros cristãos, que colocavam os seus bens em
comum e distribuía conforme a necessidade de cada um (At 2, 42-47). Uma
característica especial do apostolado da União é a colaboração entre os próprios
membros (OO CC IV, 124 s., 389, 393, 477; OO CC V, 122);
com todas as outras pessoas que realizam o apostolado (OO CC I, 3 s.; OO
CC IV, 32), e a colaboração com os destinatários do apostolado (OO CC
I, 5 s., 50 s.; OO CC III, 2; OO CC IV, 123, 318 s., 389
s., 414; OO CC V, 143 s.; OO CC VII, 14).
Pallotti assim exortava: “Coopere o máximo que puder
para tornar conhecido o Pai, o Filho e o Espírito Santo, os Mistérios da
Redenção e a mais santa lei do Evangelho. Você é rico em bens terrestres? Use-o
o máximo que puder para multiplicar os meios oportunos para a propagação da
Santa Fé, pois, dentre todas as perfeições divinas, a mais divina é cooperar com Deus na saúde das almas... pensem,
filhos, que, no momento da sua morte, para nada servirá o poder, a nobreza, a
doutrina e nenhum outro bem terreno se não os aproveitou para os fins que levem
a Deus” (OO CC IV, 477-478).
Portanto, a “Pia Sociedade foi instituída não apenas
para promover os meios de oração, mas também quaisquer outros meios necessários
para esse fim. Ela estimula a caridade cristã entre todas as classes de
pessoas, da qual ninguém está isento de exercê-la de acordo com a
possibilidade, estado, grau e condição...” (OO CC IV, 318).
O método da colaboração está fundamentado na lei do
amor, ou seja, amar a Deus de todo o coração, amar a nós mesmos e amar os
outros como a nós mesmos e, ao mesmo tempo, fazer de tudo para ver neles a
imagem e semelhança de Deus, Trino. Diante disso, não importa se ele é o nosso
inimigo, ou amigo, católico ou herege, pagão ou incrédulo, cristão ou judeu,
cidadão ou estrangeiro. Ele será sempre o nosso próximo, por isso devemos
amá-lo, como a nós mesmos, por amor a Deus (OO CC III, 152). Segundo São
João, no amor não tem temor: “O amor perfeito lança fora o medo, pois o medo
tem consigo a pena e quem teme não é perfeito em amor” (1Jo 4, 18). Para São
Paulo: “Não fiqueis devendo nada a ninguém, a não ser o amor mútuo... O amor
não faz nenhum mal contra o próximo” (Rm 13, 8.10).
Pallotti não era um sonhador ingênuo
que idealizava a cooperação, minimizando a sua dimensão histórica. A cooperação
para ele não é desencarnada. Ele sabia que o caminho para ela passava pelo
combate, muitas vezes. Para cooperar verdadeiramente para a glória de Deus e
para a salvação das pessoas, é preciso que o homem peregrino se engaje no
combate, como aquele apresentado por São Paulo: “Combati o bom combate,
terminei a corrida, guardei a fé” (2Tm 4, 7). Para Pallotti, a cooperação deve
ser constante, corajosa, perseverante, enérgica, laboriosa, fervente e zelosa.
A cooperação comporta também provas e sofrimentos. Por isso, ela é colocada
frequentemente à prova e requer das pessoas certo consentimento ao sofrimento,
para enfrentar as resistências das pessoas. Ele tinha plena consciência de que nem
sempre as pessoas cooperam para o bem, principalmente quando elas sentem ciúme,
fechamento e desejo exclusivista (cf. OO CC IV, 134; OO CC V,
218-219; OO CC XII, 420-421; 425-427).
Segundo o Pe. Stawicki, Pallotti,
em seus escritos, não expõe somente a doutrina sobre a cooperação, para
suscitar em todos os cristãos a vontade de cooperar nas obras e nos objetivos
da Pia Sociedade, mas, ele apresenta igualmente vários modelos e exemplos de
cooperação, a saber:
- Amplidão ilimitada, já que
o seu fundamento se encontra no próprio Deus Uno e Trino. Ela não concerne
somente às pessoas entre si. É um trabalho humano, mas em Deus. Parece-nos
que é nesse aspecto que se situa a originalidade radial da cooperação na
Igreja segundo Pallotti. Ela se liga à fé teologal, uma vez que Deus, em
sua natureza, é cooperação e princípio dela entre as pessoas.
- A sua fonte é a comunicação
recíproca do Pai e Filho no Espírito Santo.
- O seu termo está para além
da história, na plena “participação da glória de Deus, por toda a
eternidade” (OO CC XI, 259). (Stawicki,
p. 7)
De fato, Vicente declara querer cooperar sempre, até
mesmo depois da morte (Cf. OO CC V, 210-211). Em sua oração, ele
manifesta a Deus o desejo de cooperar plena, eficaz e eternamente em todas as empresas
da Sua maior Glória e da Salvação das Almas, e de cooperar com tanta plenitude
como se, desde toda a Eternidade e por toda a Eternidade, tivesse cooperado e
cooperasse em todas as empresas evangélicas passadas, presentes, futuras e
possíveis que tivessem sido e seriam necessárias para impedir todos os pecados,
até os mais leves, e para salvar todas as almas (Cf. OO CC X, 280).
Essa maneira de viver a obediência na Igreja e na
comunidade permite, certamente, o alargamento da visão, a introdução de uma
dinâmica de deslocamentos necessários, para operar na busca de respostas que
respeitem as diferentes abordagens e que, consequentemente, podem ser levados
em conjunto. O “trabalhar juntos” não é mais o projeto dos superiores, de um
padre, de um leigo; não é mais uma obra individual, e sim de uma comunidade que
se torna verdadeira família, como aquela de Nazaré. Pois, Nazaré é sempre o
lugar onde as pessoas buscam viver e trabalhar unidas. Eis uma das chaves da
cooperação bem-sucedida. Trata-se de sair do espírito de domínio e do face a
face para voltar os olhos a Jesus e aos outros. Sendo assim, a cooperação não se
torna uma preocupação de querer vencer sozinho, mas um desejo de cumprir uma
missão juntos (Stawicki, p. 412, nota
n. 31; 421).
Finalmente
notamos que, como no caso da Trindade, Pallotti dirige sua atenção para cada
uma das pessoas que a compõe. O exemplo eminente da cooperação é evidentemente
o de Jesus, o cooperador do Pai por excelência, que veio ao mundo para cumprir
a obra da redenção. Pallotti sublinha, muitas vezes, que o homem que entra na
dinâmica da cooperação persegue a missão de Cristo (Cf. OO CC II, 4;
III, 139; 177-178; IV, 337). Um outro modelo de cooperação na salvação das
almas é São José. Colocando as palavras nos lábios de Maria, Pallotti exorta:
“Tendes o exemplo disso de meu esposo, José, que, mesmo sendo carpinteiro de
profissão, no seu estado e condição, em meio a dificuldades, sofrimentos,
pobreza e perseguições, fez quanto pôde para cooperar na redenção das almas” (OO
CC IV, 338). Stawicki, p. 12.
A cooperação é a alma do apostolado
Pallotti sonhava com uma Igreja
que estivesse à altura dessa vocação e missão. Segundo ele, a natureza mesma da
Igreja exige a cooperação entre todos os membros do povo de Deus. Felizmente,
com o Concílio Vaticano II, aquilo que era um sonho, agora, tornou-se realidade
para toda a Igreja. Assim encontramos na Gaudium et Spes, n. 2: “Em
virtude de sua missão (...) a Igreja torna-se o sinal daquela fraternidade que
permite e consolida um diálogo sincero. Isto, porém, requer, em primeiro lugar,
que promovamos no seio da Igreja a mútua estima, respeito e concórdia,
admitindo toda diversidade legítima, para que se estabeleça um diálogo cada vez
mais frutífero entre todos os que constituem o único Povo de Deus, sejam os
pastores, sejam os demais cristãos...”.
Pode-se dizer que, hoje, a Igreja
não pode ser sinal de fraternidade universal senão vivendo, ela mesma, a
cooperação e o diálogo sincero. Pallotti, no seu tempo, de maneira criativa criou
um imenso projeto, o das “Procuradorias” (treze frentes de trabalho, para
coordenar os esforços de evangelização e da caridade em diferentes áreas),
considerado por um dos seus membros, Rafael Melia, como o “coroamento de toda a
sua obra”. Mas, qual foi a razão dele criar as procuradorias? Foi unicamente
para abrir um espaço de cooperação e permitir, assim, que todos os cristãos
pudessem ter parte ativa na vida da Igreja.
A catolicidade da Igreja
Pallotti utilizou exaustivamente
dois adjetivos para descrever a sua fundação: “apostólico” (2.060 vezes) e “católico”
(2.200 vezes). Com a palavra “apostólico”, ele evoca tanto as atividades,
quanto as virtudes daqueles que se esforçam por meio das orações, da propagação
da fé e da caridade, colocando seus talentos a serviço da Igreja e da
humanidade. Ele utilizou, muitas vezes outras expressões, tais como: “zelo
apostólico” (Cf. OO CC I, 159; 196; 203), ou “espírito
apostólico” (Cf. OO CC I, 194; 206; II, 110), “homem apostólico”
(Cf. OO CC I, 194; II, 548) e “ministério apostólico” (Cf. OO
CC I, 193; III, 31). Evidentemente, esses adjetivos conheceram uma evolução
muito grande ao longo da história da Igreja. Porém, para Vicente, essa evolução
complexa permanece sempre unificada pela referência a Cristo, Apóstolo do eterno Pai, como encontramos na
Carta aos Hebreus: “Por isso, irmãos santos, participantes da vocação
celestial, considerai a Cristo Jesus, apóstolo e sumo sacerdote da fé que nós
professamos” (Hb 3,1; Jo 20,21) e pelos que Ele mesmo enviou (Lc
10,1-12).
A palavra católico significa primeiramente
“universal”. Esse é, ao menos, o sentido que Pallotti dá mais frequentemente a
essa palavra (Cf. OO CC III, 143; 183; I, 4-5). Mas, “universal” não
exprime perfeitamente o conteúdo de “católico”. Este comporta um sentido,
muitas vezes, mais rico e concreto. Por isso, Pallotti prefere usar “católico”
em vez de “universal”; isto porque a palavra católico quer dizer “com todos”. Outro motivo é porque os
cristãos não podem ser encerrados em particularismo algum, pois católico
significa “ordenado para o universal”, voltado para “o todo” – não no sentido
de uma totalidade, mas no de uma superação dos particularismos (Cf. OO CC
III, 183).
Para São Vicente, a catolicidade é a capacidade
universal de unidade, de assimilar, de plenificar, de ganhar para Deus, de
reunir e de consumar nele todos os seres humanos e todo o valor humano. Ela não
pode acarretar um nivelamento das culturas, das línguas e dos ritos. Segundo
ele, a catolicidade é um dom de Deus que se abre, progressivamente, a cada
época, meio, língua e cultura.
Uma segunda acepção de católico,
no pensamento de Pallotti, trata-se evidentemente da expansão geográfica da
Igreja, já que ela está destinada a se estender a todas as nações, como nos
afirma São Marcos: “Ide por todo mundo e pregai o evangelho a toda a criatura”
(Mc 16, 15). Segundo ele, toda missão na verdadeira Igreja de Jesus Cristo é
católica, ou seja, para todos indistintamente (Stawicki, p. 430).
Pallotti sugere essa dinâmica no
seu Apelo de Maio, onde ele
precisa explicitamente: “Assim, na obra do Apostolado, não entra em questão se
alguém contribuiu com pregação, com oração, com subsídios ou com exercício de
ministério eclesiástico, nem se contribuiu com sua arte, com sua posição social
e influência. Vale o zelo e o fervor com que cada qual, no nível que lhe cabe,
se presta” (OO CC IV, 137).
Por isso, desenvolvendo o
conceito de apostolado universal, Pallotti não insiste nas estatísticas, mas na
qualidade dos sinais postos pelos cristãos e principalmente no seu “zelo
universal” (Cf. OO CC I, 371; II, 265; VII, 264), “o engajamento
universal” (OO CC I, 153; II, 40; VII, 48), “a oração universal”
(OO CC I, 153; IV, 151, 272, 358, 401), “a caridade universal” (OO
CC II, 236; III, 11; V, 236; VII, 237; X, 199), “a obediência universal”
(OO CC II, 90-92; III, 49, 71; VII, 98, 100-101) e no dever de tecer
a “cooperação universal” (OO CC I, 50-51; V, 351; III, 193; IV,
19-20, 260, 276, 292-293; VII, 58; XI, 327), superando todas as fragmentações e
se abrindo, assim, à unidade na diversidade.
Como já foi mencionado acima, a
palavra “todo” não deve ser
entendida no sentido de uma totalidade, mas no de superação dos particularismos
e das divisões eclesiais entre leigos e clero, entre religiosos e seculares
(Cf. OO CC III, 4). Por isso Pallotti quer, por exemplo, que a
Congregação dos padres e irmãos palotinos se tornem “um ponto de união entre o clero
secular e regular” e que toda a União seja, “para sempre, na Igreja de Jesus
Cristo, como uma trombeta evangélica, que chame e convoque a todos os fiéis, de
todos os estados de vida, posição e condição social, despertem o zelo e a
caridade em todas as nações (Stawicki, p. 434).
O apostolado, na visão de Pallotti, não é um
privilégio apenas dos doze apóstolos. De acordo com o Pe. Achylle Rubin:
“Pallotti não fez uma teologia do apostolado dos leigos, mas simplesmente do
apostolado da Igreja. Se houve maior empenho em argumentar em favor do
apostolado dos leigos, isso só aconteceu porque os leigos são a maioria na
Igreja e a compreensão do significado do apostolado dos leigos era deficiente e
se tornava, por isso, necessário um esclarecimento teológico.[2]
De fato, mesmo que Pallotti tenha chamado a sua União
de “corpo auxiliar da Igreja”, ele nunca chamou os leigos de “auxiliares da
hierarquia”. Chama-os, pelo contrário, de “pessoas inspiradas pelo Evangelho”,
“cristãos zelosos”, “leigos piedosos”, “irmãos da pia União do Apostolado
Católico” (OO CC IV, 1-8; XIII, 365). Ele sempre apela para a
responsabilidade pessoal de todos os cristãos, seja padre ou leigo, religioso
ou secular: “porque todos são chamados e
obrigados a imitar o apostolado de Jesus Cristo, na sua própria condição e
estado” (OO CC III, 142); “
De fato, para Vicente Pallotti, o
apostolado dos leigos não é uma usurpação nem uma substituição ou uma ação
paralela ao daquele fundado no sacramento da ordem. O apostolado católico é uma
responsabilidade comum de todos os cristãos: “talvez pudesse alguém achar que ninguém possa ter o mérito do
apostolado sem ter o ofício de pregar. Pensar deste modo seria, porém, errado.
Reparai (...)
Considerando a época e as circunstâncias nas quais
esse texto foi escrito, não se pode deixar de admirar a liberdade de espírito,
o realismo pastoral e o senso de Igreja que animam Pallotti. Com efeito, o
apostolado de todos, na escola de Pallotti, é uma responsabilidade comum que
supõe que os fiéis leigos sejam também estabelecidos em cargos vitais para uma
“Igreja enviada no mundo deste tempo”. Isto contrastava com a visão de
apostolado tido pela hierarquia da Igreja, a saber: o Papa Pio X via os leigos
como “auxiliares do clero”. Pio XI declarou a Ação Católica como a
“participação dos leigos no apostolado da hierarquia”. Pio XII “teve a
prudência” de substituir a “participação” dos leigos pela simples “colaboração”
no apostolado da hierarquia.
Quanto ao modo de pensar de Pallotti, ele estava muito
mais próximo ao do Concílio Vaticano II que não procurou promover os leigos,
mas exprimiu mais uma vez a identidade da Igreja como totalidade de fiéis em
Cristo. O Capítulo II da Lumen Gentium expressa esta realidade,
apresentando a Igreja como “Povo de Deus”.
De fato, Pallotti teve a intuição
de fundar a responsabilidade de todos na corresponsabilidade diferenciada: “na
obra do Apostolado, não entra em questão se alguém contribuiu com pregação, com
oração, com subsídios ou com exercício de ministério eclesiástico, nem se
contribuiu com sua arte, com sua posição social e influência.
No dia 1 de setembro de 1963, o Papa Paulo VI, por
ocasião de sua visita a Igreja de Frascati, na sua fala evocou as ideias e a
ação de Pallotti que despertaram na Igreja a consciência do laicato católico: assim
disse ele: O objetivo da minha peregrinação é
incentivar a “grande lição oferecida por São Vicente Pallotti ao mundo de hoje,
também aqui, e especialmente aqui, onde ele celebrou a primeira Missa e onde
escreveu e entregou ao futuro as regras da sua Instituição, tenha, como
herança, um novo e belo florescimento de egrégias iniciativas”. Continua o
papa: “Hoje é já algo evidente – e Sua Santidade quer, também ele,
prestar homenagem à conclusão da biografia tão interessante e tão edificante do
Santo – a certeza de que S. Vicente Pallotti foi um precursor. Ele antecipou,
de quase um século, a descoberta – é injusto, talvez, para a tradição cristã
dizer esta palavra, mas é necessário sermos realistas e usá-la – a descoberta
que também no mundo dos leigos, até então passivo, adormecido, tímido e inábil
para se exprimir, há uma grande capacidade de bem. (...) Ele construiu, assim,
aquela ponte entre o clero e o laicato, que é uma das vias mais percorridas
pela espiritualidade moderna, uma das vias que dão maior esperança à Igreja de
Deus. (...) Estamos no período sucessivo à Revolução Francesa com todos os
desastres, as ideias desordenadas e caóticas e, ao mesmo tempo, frementes e
ainda confiantes, que aquela revolução tinha incutido nos homens do século
antecedente. Havia grande necessidade de colocar ordem e, se diria, de o
estatizar, torná-lo firme como deve ser (Stawicki,
p. 434, nota n. 213).
Em suma, podemos dizer que o nosso santo fundador
esteve muito à frente do seu tempo. Ele percebia algo que ninguém tinha a
capacidade de perceber, naquele momento. Mas Deus, no momento oportuno,
iluminou a Igreja para que, realmente, pudesse viver o mandato de Cristo: “Ide,
pois, e ensinai a todas as nações, batizai-as em nome do Pai e do Filho e do
Espírito Santo. Ensinai-as a observar tudo o que vos prescrevi” (Mt 28, 19-20). Deus
em tudo e sempre!
PARA REFLETIR
- O que significa cooperar
com a obra apostólica?
- O que Pallotti entendia por
catolicidade da nossa Igreja?
- Pallotti
desejou que toda a União fosse, na Igreja de Jesus Cristo, como uma
trombeta evangélica. O que realmente ele quis dizer com isso?