Tema 03: Os desafios iniciais da União do Apostolado Católico
O tema a ser refletido, “Os desafios enfrentados pela
UAC” nos seus primórdios, vai ajudar você a mergulhar na história palotina e a
descobrir quais foram os passos dados por Pallotti e por seus primeiros
colaboradores sobre o carisma apostólico. Aqui encontraremos os inúmeros
desafios e as incompreensões provindas das autoridades eclesiásticas. Como
todos sabemos, iniciar uma obra confiando apenas na providência divina requer
muita fé e coragem. Pallotti, confiante no dom recebido por Deus, jamais
hesitou e nunca pensou em abandonar aquilo que via como obra de Deus, apesar
dos sofrimentos e desgastes físicos e emocionais. Em sua mente havia sempre uma
única certeza: “A esperança não decepciona” (Rm 5,5). Motivado pela Palavra de
Deus, seguiu o seu caminho: “Se alguém quiser vir após mim, negue-se a si
mesmo, e tome a sua cruz, e siga-me” (Mc 8,34).
Podemos observar que nos primórdios da nossa Igreja,
no tempo dos apóstolos, também havia uma grande dificuldade para falar de
Cristo. Haja vista o que aconteceu com Paulo no areópago de Atenas, que ao
falar de Cristo ressuscitado, todos se dispersaram, pois aquele assunto não lhes
interessava (At 17, 16-34). Temos também o episódio da prisão dos apóstolos por
fazerem curas em nome de Jesus. Grande era o número dos que se convertiam a Cristo,
por meio das pregações, e isto provocou a ira das autoridades do Templo de
Jerusalém. Por causa disto, foram levados a julgamento pelo Sinédrio. Eis,
porém, que uma voz se levanta, Gamaliel, um fariseu respeitado e doutor da Lei,
que persuadiu o Sinédrio a não executar os apóstolos, optando apenas por
açoitá-los e ordená-los a parar de falar o nome de Jesus, antes de libertá-los.
Segundo o parecer de Gamaliel: “é melhor deixar
estes homens em paz e soltá-los. Se o que eles ensinam e realizam é de origem
puramente humana, isso logo será desfeito. Porém, se é de Deus, vocês não serão
capazes de impedi-los, e não é bom que aconteça que vocês acabem lutando contra
Deus” (At 5,38-39).
Da mesma forma, o carisma do Apostolado Católico, que
nasceu sob a inspiração divina, também sofreu muitas perseguições da parte de
autoridades eclesiásticas, por pensarem que o apostolado católico, desejado por
Pallotti, estivesse se apropriando da evangelização da Igreja. Naquela época, a
exclusividade pelo apostolado católico era do Papa e dos bispos. Na verdade, a
finalidade principal da UAC, desde a sua fundação, era de juntar a ação
evangélica, a cooperação pessoal, as orações, as ofertas espontâneas dos
membros, para difundir o amor cristão e, assim, despertar a verdadeira fé e
difundi-la em todo o mundo.
Outra dificuldade encontrada por Pallotti, para que a
sua obra prosperasse, era o conflito criado com a Obra de Lyon, fundada por
Catherine Jaricot. Por isso, seria necessário diferenciá-la de outras obras que
também tinham a finalidade de, somente angariar fundos, para prover as
necessidades dos missionários em terras estrangeiras, como ocorria com a Obra
de Lyon. A obra do Apostolado Católico, por sua vez, ia além da coleta de
recursos financeiros. Ela, além de fazer coleta de contribuições voluntárias dos
seus associados, para socorrer as missões estrangeiras, também se preocupava com
a salvação das almas. Ela buscava unir as pessoas do mundo inteiro em torno de
um único Pastor, Jesus Cristo. É verdade que a União do Apostolado Católico,
pelo grande número de sócios, a cada ano, recebia uma soma considerável de
recursos financeiros, que era empregado rigorosamente em benefício das missões
mais pobres e carentes.[1]
Todos os que se engajavam na obra, criada por Pallotti,
tinham como missão despertar e manter a fé das pessoas nos países cristãos, auxiliando-as
em suas necessidades. Para isso, utilizava de todos os meios possíveis, tais
como: recursos financeiros, obras de caridade, emprego e arte, oração
perseverante, de acordo com a diversidade das classes de membros que a compunham.
Quanto às doações, elas não se limitavam a pessoas de determinada condição, mas
de todos os verdadeiros fiéis, de eclesiásticos ou seculares, homens ou
mulheres, letrados ou não, pobres ou ricos, nobres ou plebeus, qualquer que fosse
o estado, a condição, a profissão, poder e influência social, podiam fazer
parte da obra apostólica. Assim dizia Pallotti: “Todos podem colaborar
eficazmente por meio da oração (OO CC III, 147; OO CC IV, 182; OO
CC IV, 327s) [2]; (Doc.
Fundação, p. 92).
De acordo
com este princípio, o Apostolado
Católico não era algo exclusivo de uma ordem religiosa, mas era uma pia sociedade secular de fiéis, que,
independentemente de qualquer obrigação especial, movidos só por espírito de
zelo e de caridade, trabalham, pelos meios disponíveis, para a manutenção da
piedade e a propagação da fé católica. Este era o verdadeiro objetivo da Pia Sociedade,
buscar a santidade de vida e propagar a fé católica em todo o mundo.
Pallotti deixava bem claro que a Pia Sociedade, com
seus diversos associados, tinha o nome de Apostolado Católico não porque
presuma ter em si o Apostolado Católico, ou seja, ter em si a missão católica
da verdadeira Igreja de Jesus Cristo, mas porque venera, respeita, ama, e
vivamente deseja que todos sejam protagonistas do Apostolado Universal, em
razão do seu batismo. Chama-se Apostolado Católico da mesma forma como outras
instituições se dizem de tal santo ou de Jesus ou do Redentor, fazendo alusão
aos jesuítas (Companhia de Jesus) e aos redentoristas (Santíssimo Redentor).
Dizem-se tais não porque cismem ser aquele santo, ao qual estão consagradas, ou
presumam ser Jesus ou imaginem ser o Redentor, mas porque fundadas em homenagem
e veneração a Jesus, ao Redentor. Portanto, a finalidade principal da pia Sociedade é cooperar vigorosamente nas
obras da maior glória de Deus e da salvação das almas. É por isso que se chama ‘Pia Sociedade do Apostolado Católico’ (Doc. Fundação, p. 109).
A razão do
conflito institucional
Em 1837, o Papa Gregório XVI (1831-1846) resolveu, em
atenção aos prelados franceses e aos leigos que a dirigiam, na França,
introduzir em Roma a ‘Obra da Propagação da Fé de Lyon’, cuja finalidade era, somente,
de angariar recursos financeiros para as missões. A Fundadora desta associação
francesa, juntamente com colaboradores de Paris e de Lyon, foi, em 1822,
Marie-Pauline Jaricot (1799-1862). O Conselho Central da Obra tinha sua sede em
Lyon e era daí que partiam todas as iniciativas e determinações. A fundadora
Jaricot, com o passar dos anos, foi perdendo influência na Obra (Doc. Fundação,
p. 112).
Neste mesmo ano, começaram, em Roma, intrigas da Obra
de Lyon contra a ‘Sociedade do Apostolado Católico’, (cf. Schulte 147s). Diante
disto, Pallotti desistiu da coleta mensal da sua associação e, humildemente,
colocou-se a serviço da Obra missionária de Lyon. Isto não impediu que a sua
obra: O Apostolado Católico, continuasse com o seu trabalho, sem fazer
concorrência à Obra de Lyon. Pois, isso não fazia parte do seu caráter.
Segundo o Pe. Heinrich Schulte, o Papa Gregório XVI
era piedoso, desprendido, despretensioso, mas, politicamente inexperiente e
ingênuo. No dia 28 de julho de 1838, acatou a instâncias do Conselho Central de
Lyon que pleiteava nada menos que a dissolução da Sociedade do Apostolado
Católico e sua anexação à Obra de Lyon. Assim, no dia 30 de julho, o Secretário
da Sagrada Congregação da Propagação da Fé, Monsenhor Ignacio Giovanni
Cadolini, ex-arcebispo de Spoleto, informou Pallotti da dissolução da sua obra apostólica,
porque sua obra foi considerada supérflua e os seus membros deveriam passar
para a Obra de Lyon. Pallotti teve de deixar o Conselho central de Roma, onde
sua presença tinha se tornado inútil.[3]
Antes que isso ocorresse, o Cardeal Vigário, responsável
pelo caso, adiou a publicação do decreto, pois queria ouvir antes as partes
interessadas (a Sociedade de Pallotti e o Conselho Central de Lyon). Na
verdade, o que estava em jogo não era nem o nome Apostolado Católico e nem a
obra de Pallotti que, equivocadamente, fora considerada apenas arrecadadora de
fundos. Segundo o Pe. Schulte, esse conflito entre a Congregação da Propagação
da Fé e a Obra de Lyon, apesar de velado, escondia interesses econômicos e de
prestígio.[4] Somente
em 1922, a administração central da Obra de Lyon foi transferida para Roma, no
Pontificado de Pio XI (1922 a 1939).
A notícia da iminente dissolução da ‘Sociedade do
Apostolado Católico’, naturalmente, atingiu em cheio o coração de Pallotti. Era
o mais pesado golpe desencadeado contra ele e seu projeto. Mas, ele não
protestou. Permaneceu tranquilo e equilibrado. Orando a Deus e confiando nele,
empenhou-se em desfazer os equívocos e mal-entendidos. No dia 30 de julho de
1838, entre outras coisas, escreveu o documento de defesa da ‘Sociedade do
Apostolado Católico’ (OO CC V, 179-180). O seu colaborador Pe. Rafael
Mélia, por sua vez, redigiu, em letra caligráfica, uma defesa que tem quase o
mesmo teor da de Pallotti (cf. OO CC V, 191-201). O Papa leu tudo
atentamente e exclamou: “Disso tudo nós não tínhamos conhecimento. Com isso,
foi sustado o decreto de extinção (cf. Heinrich Schulte, p. 163s).
Dois anos mais tarde, no outono de 1840, Pallotti,
gravemente doente em Ósimo, região de Ancona, em seu testamento aos ‘Padres e
Irmãos’, referiu-se a esta ameaça de morte. “A pia Sociedade foi muito
combatida e, em dada ocasião, chegou ao ponto de apresentar sintomas de morte” (OO
CC III, 24 n. 3); (Doc. Fundação, p. 113).
Em 1836, foi instaurada, com a aprovação do Cardeal
Carlos Odescalchi, no Colégio Urbano da Propagação da Fé, a Associação para
angariar contribuições financeiras para a propagação da fé, de acordo com os
estatutos da Obra de Lyon. Os associados da Pia União passaram para a outra
associação. A Pia Sociedade, temerosa pela possível repercussão do povo,
preferiu não divulgar publicamente o ocorrido.
No início de 1837, Monsenhor Mai, Secretário da
propagação da fé, promoveu uma reunião no Palácio da Propagação da fé, nos
aposentos do Cardeal Luigi Ferrari, com a presença do Arquivista do Colégio e
do Reitor da Pia Sociedade. Nesta reunião foi estabelecido que a Associação
para a coleta de esmolas para as missões estrangeiras fosse tornada pública e
que seus associados constituíssem a ‘Classe dos Contribuintes’ (materiais) do
Apostolado Católico para a propagação da fé. Naquela reunião, o Reitor da Sociedade
ficou incumbido de entrar em acordo com o Cardeal Brígnole, para a formação do
primeiro Conselho. O referido Reitor, com a aprovação dele apresentou os
primeiros integrantes do Conselho, a saber: Pe. Luigi Togni, Vigário Geral dos Camilianos,
o Príncipe Pompeo Gabrielli e o Sr. Giacomo Perelli. Estes, com o Reitor, mais
o presidente Cardeal Brignole, passaram a formar o Conselho. Todos, inclusive o
contador Perelli, eram membros da Sociedade do Apostolado Católico.
Carta ao Papa Gregório XVI
Mesmo diante desta reviravolta institucional, a
questão do nome ‘Apostolado Católico’ continuava em aberto, mesmo após tornada
sem efeito a supressão da Sociedade. Na preocupação de garantir a todo custo a
continuação da sua obra, Pallotti estava até disposto a sacrificar o primeiro
elemento da denominação, a palavra ‘Apostolado’. Neste sentido escreveu uma
carta ao Papa, provavelmente em setembro de 1838, na qual se declarava disposto
a aceitar esta modificação na denominação. De feito, contentava-se com o título
“Sociedade Católica para aprofundamento, defesa e difusão da piedade e da fé
católicas”. Neste caso pedia, porém, sob o novo nome, que ficassem assegurados
os bens espirituais, as doações testamentárias e as finalidades da Sociedade.
Em resposta, no dia 01 de outubro de 1838, no dorso do requerimento, o Papa
confiou a solução definitiva à Congregação da Propagação da Fé.
Esta Congregação, em sessão do dia 11 de dezembro de
1838, discutiu os diversos aspetos da questão. A ‘Sociedade’ sobreviveu, mas o
problema do nome ficou sem solução. Quatro anos depois da morte de Pallotti
(1850), instado pela mesma Congregação da Propagação da Fé, Pio IX (1846-1878),
a 09 de abril de 1854, mudou o nome da Congregação dos Padres e Irmãos para
‘Pia Sociedade das Missões’ (Heinrich Schulte, p. 164s).
Noventa e três anos depois, o Papa Pio XII, no dia 09
de junho de 1947, restituiu à Pia Sociedade das Missões o nome original de
‘Sociedade do Apostolado Católico’. Isso indica que, no momento da aprovação
pontifícia, a Santa Sé preferiu enfatizar o caráter de sociedade clerical
dedicada às missões, em detrimento da visão original e mais ampla de
Pallotti, que era a “Sociedade do Apostolado Católico”. Essa alteração
visava se adequar à estrutura e ao entendimento canônico da Igreja, para as
novas congregações da época, que frequentemente tinham um foco mais definido
(Doc. Fundação, p. 119).
O nome imposto, por um período, liquidou a
designação original e, de certa forma, obscureceu a ideia central de
Pallotti sobre o apostolado leigo universal, que era a essência da “União
do Apostolado Católico” e da “Sociedade do Apostolado Católico”. A retomada do
nome, em 1947, durante o pontificado do Papa Pio XII, significa um retorno
às fontes e à visão profética de São Vicente Pallotti. Essa mudança
marcou o fim de um período de crise interna e foi um passo crucial para o reconhecimento
universal do carisma palotino, que culminou com a beatificação (1950) e a
canonização (1963) do fundador. O nome S.A.C. reflete melhor a missão de reacender
a Fé e reavivar a Caridade em colaboração de leigos, clérigos e
religiosos.
Em resumo, podemos dizer que desde o período da supressão até a recuperação do nome (1854-1947) pode ser visto como uma fase de adaptação e consolidação do carisma palotino. A congregação se estabeleceu dentro de um molde eclesiástico mais tradicional, mas, posteriormente, foi corrigido com a restituição do nome original, que resgatava a plenitude do carisma de São Vicente Pallotti. Que Deus continue abençoando esse carisma, para que continue produzindo abundantes frutos para a Igreja de Cristo em todos os cantos da Terra. “Deus em tudo e sempre”!
PARA REFLETIR
- Quais foram as razões que levaram a suspensão da
UAC?
- Que posição Pallotti tomou em relação ao conflito
com a Obra de Lyon?
- Por que o nome apostolado católico trouxe
dificuldade para a aprovação da UAC?
[1] Bruno
Bayer (Ed); Josef Sweifel. Vicente Pallotti: Documentos da fundação, Pallotti:
Santa Maria, 1996, p. 91.
[2]
Vincenzo Pallotti. Opere complete (OO CC). A cura di Francesco Moccia.
Roma: Curi Generalizia della Società dell’Apostolato Cattolico, 1964-1997.
[3]
Stanislaw Stawicki. A cooperação, paixão de uma vida. Biblos: Santa Maria,
2007, p. 120. Documentos da fundação, pp. 186-190).
[4] Heinrich
Schulte. Estrutura e História do Apostolado Católico de São Vicente Pallotti, pp.
145-147.
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