quinta-feira, 23 de abril de 2026


 Tema 03: Os desafios iniciais da União do Apostolado Católico

 

O tema a ser refletido, “Os desafios enfrentados pela UAC” nos seus primórdios, vai ajudar você a mergulhar na história palotina e a descobrir quais foram os passos dados por Pallotti e por seus primeiros colaboradores sobre o carisma apostólico. Aqui encontraremos os inúmeros desafios e as incompreensões provindas das autoridades eclesiásticas. Como todos sabemos, iniciar uma obra confiando apenas na providência divina requer muita fé e coragem. Pallotti, confiante no dom recebido por Deus, jamais hesitou e nunca pensou em abandonar aquilo que via como obra de Deus, apesar dos sofrimentos e desgastes físicos e emocionais. Em sua mente havia sempre uma única certeza: “A esperança não decepciona” (Rm 5,5). Motivado pela Palavra de Deus, seguiu o seu caminho: “Se alguém quiser vir após mim, negue-se a si mesmo, e tome a sua cruz, e siga-me” (Mc 8,34).

Podemos observar que nos primórdios da nossa Igreja, no tempo dos apóstolos, também havia uma grande dificuldade para falar de Cristo. Haja vista o que aconteceu com Paulo no areópago de Atenas, que ao falar de Cristo ressuscitado, todos se dispersaram, pois aquele assunto não lhes interessava (At 17, 16-34). Temos também o episódio da prisão dos apóstolos por fazerem curas em nome de Jesus. Grande era o número dos que se convertiam a Cristo, por meio das pregações, e isto provocou a ira das autoridades do Templo de Jerusalém. Por causa disto, foram levados a julgamento pelo Sinédrio. Eis, porém, que uma voz se levanta, Gamaliel, um fariseu respeitado e doutor da Lei, que persuadiu o Sinédrio a não executar os apóstolos, optando apenas por açoitá-los e ordená-los a parar de falar o nome de Jesus, antes de libertá-los.

Segundo o parecer de Gamaliel: “é melhor deixar estes homens em paz e soltá-los. Se o que eles ensinam e realizam é de origem puramente humana, isso logo será desfeito. Porém, se é de Deus, vocês não serão capazes de impedi-los, e não é bom que aconteça que vocês acabem lutando contra Deus” (At 5,38-39).

Da mesma forma, o carisma do Apostolado Católico, que nasceu sob a inspiração divina, também sofreu muitas perseguições da parte de autoridades eclesiásticas, por pensarem que o apostolado católico, desejado por Pallotti, estivesse se apropriando da evangelização da Igreja. Naquela época, a exclusividade pelo apostolado católico era do Papa e dos bispos. Na verdade, a finalidade principal da UAC, desde a sua fundação, era de juntar a ação evangélica, a cooperação pessoal, as orações, as ofertas espontâneas dos membros, para difundir o amor cristão e, assim, despertar a verdadeira fé e difundi-la em todo o mundo.

Outra dificuldade encontrada por Pallotti, para que a sua obra prosperasse, era o conflito criado com a Obra de Lyon, fundada por Catherine Jaricot. Por isso, seria necessário diferenciá-la de outras obras que também tinham a finalidade de, somente angariar fundos, para prover as necessidades dos missionários em terras estrangeiras, como ocorria com a Obra de Lyon. A obra do Apostolado Católico, por sua vez, ia além da coleta de recursos financeiros. Ela, além de fazer coleta de contribuições voluntárias dos seus associados, para socorrer as missões estrangeiras, também se preocupava com a salvação das almas. Ela buscava unir as pessoas do mundo inteiro em torno de um único Pastor, Jesus Cristo. É verdade que a União do Apostolado Católico, pelo grande número de sócios, a cada ano, recebia uma soma considerável de recursos financeiros, que era empregado rigorosamente em benefício das missões mais pobres e carentes.[1]

Todos os que se engajavam na obra, criada por Pallotti, tinham como missão despertar e manter a fé das pessoas nos países cristãos, auxiliando-as em suas necessidades. Para isso, utilizava de todos os meios possíveis, tais como: recursos financeiros, obras de caridade, emprego e arte, oração perseverante, de acordo com a diversidade das classes de membros que a compunham. Quanto às doações, elas não se limitavam a pessoas de determinada condição, mas de todos os verdadeiros fiéis, de eclesiásticos ou seculares, homens ou mulheres, letrados ou não, pobres ou ricos, nobres ou plebeus, qualquer que fosse o estado, a condição, a profissão, poder e influência social, podiam fazer parte da obra apostólica. Assim dizia Pallotti: “Todos podem colaborar eficazmente por meio da oração (OO CC III, 147; OO CC IV, 182; OO CC IV, 327s) [2]; (Doc. Fundação, p. 92).

De acordo com este princípio, o Apostolado Católico não era algo exclusivo de uma ordem religiosa, mas era uma pia sociedade secular de fiéis, que, independentemente de qualquer obrigação especial, movidos só por espírito de zelo e de caridade, trabalham, pelos meios disponíveis, para a manutenção da piedade e a propagação da fé católica. Este era o verdadeiro objetivo da Pia Sociedade, buscar a santidade de vida e propagar a fé católica em todo o mundo.

Pallotti deixava bem claro que a Pia Sociedade, com seus diversos associados, tinha o nome de Apostolado Católico não porque presuma ter em si o Apostolado Católico, ou seja, ter em si a missão católica da verdadeira Igreja de Jesus Cristo, mas porque venera, respeita, ama, e vivamente deseja que todos sejam protagonistas do Apostolado Universal, em razão do seu batismo. Chama-se Apostolado Católico da mesma forma como outras instituições se dizem de tal santo ou de Jesus ou do Redentor, fazendo alusão aos jesuítas (Companhia de Jesus) e aos redentoristas (Santíssimo Redentor). Dizem-se tais não porque cismem ser aquele santo, ao qual estão consagradas, ou presumam ser Jesus ou imaginem ser o Redentor, mas porque fundadas em homenagem e veneração a Jesus, ao Redentor. Portanto, a finalidade principal da pia Sociedade é cooperar vigorosamente nas obras da maior glória de Deus e da salvação das almas. É por isso que se chama ‘Pia Sociedade do Apostolado Católico’ (Doc. Fundação, p. 109).

A razão do conflito institucional

Em 1837, o Papa Gregório XVI (1831-1846) resolveu, em atenção aos prelados franceses e aos leigos que a dirigiam, na França, introduzir em Roma a ‘Obra da Propagação da Fé de Lyon’, cuja finalidade era, somente, de angariar recursos financeiros para as missões. A Fundadora desta associação francesa, juntamente com colaboradores de Paris e de Lyon, foi, em 1822, Marie-Pauline Jaricot (1799-1862). O Conselho Central da Obra tinha sua sede em Lyon e era daí que partiam todas as iniciativas e determinações. A fundadora Jaricot, com o passar dos anos, foi perdendo influência na Obra (Doc. Fundação, p. 112).

Neste mesmo ano, começaram, em Roma, intrigas da Obra de Lyon contra a ‘Sociedade do Apostolado Católico’, (cf. Schulte 147s). Diante disto, Pallotti desistiu da coleta mensal da sua associação e, humildemente, colocou-se a serviço da Obra missionária de Lyon. Isto não impediu que a sua obra: O Apostolado Católico, continuasse com o seu trabalho, sem fazer concorrência à Obra de Lyon. Pois, isso não fazia parte do seu caráter.

Segundo o Pe. Heinrich Schulte, o Papa Gregório XVI era piedoso, desprendido, despretensioso, mas, politicamente inexperiente e ingênuo. No dia 28 de julho de 1838, acatou a instâncias do Conselho Central de Lyon que pleiteava nada menos que a dissolução da Sociedade do Apostolado Católico e sua anexação à Obra de Lyon. Assim, no dia 30 de julho, o Secretário da Sagrada Congregação da Propagação da Fé, Monsenhor Ignacio Giovanni Cadolini, ex-arcebispo de Spoleto, informou Pallotti da dissolução da sua obra apostólica, porque sua obra foi considerada supérflua e os seus membros deveriam passar para a Obra de Lyon. Pallotti teve de deixar o Conselho central de Roma, onde sua presença tinha se tornado inútil.[3]

Antes que isso ocorresse, o Cardeal Vigário, responsável pelo caso, adiou a publicação do decreto, pois queria ouvir antes as partes interessadas (a Sociedade de Pallotti e o Conselho Central de Lyon). Na verdade, o que estava em jogo não era nem o nome Apostolado Católico e nem a obra de Pallotti que, equivocadamente, fora considerada apenas arrecadadora de fundos. Segundo o Pe. Schulte, esse conflito entre a Congregação da Propagação da Fé e a Obra de Lyon, apesar de velado, escondia interesses econômicos e de prestígio.[4] Somente em 1922, a administração central da Obra de Lyon foi transferida para Roma, no Pontificado de Pio XI (1922 a 1939).

A notícia da iminente dissolução da ‘Sociedade do Apostolado Católico’, naturalmente, atingiu em cheio o coração de Pallotti. Era o mais pesado golpe desencadeado contra ele e seu projeto. Mas, ele não protestou. Permaneceu tranquilo e equilibrado. Orando a Deus e confiando nele, empenhou-se em desfazer os equívocos e mal-entendidos. No dia 30 de julho de 1838, entre outras coisas, escreveu o documento de defesa da ‘Sociedade do Apostolado Católico’ (OO CC V, 179-180). O seu colaborador Pe. Rafael Mélia, por sua vez, redigiu, em letra caligráfica, uma defesa que tem quase o mesmo teor da de Pallotti (cf. OO CC V, 191-201). O Papa leu tudo atentamente e exclamou: “Disso tudo nós não tínhamos conhecimento. Com isso, foi sustado o decreto de extinção (cf. Heinrich Schulte, p. 163s).

Dois anos mais tarde, no outono de 1840, Pallotti, gravemente doente em Ósimo, região de Ancona, em seu testamento aos ‘Padres e Irmãos’, referiu-se a esta ameaça de morte. “A pia Sociedade foi muito combatida e, em dada ocasião, chegou ao ponto de apresentar sintomas de morte” (OO CC III, 24 n. 3); (Doc. Fundação, p. 113).

Em 1836, foi instaurada, com a aprovação do Cardeal Carlos Odescalchi, no Colégio Urbano da Propagação da Fé, a Associação para angariar contribuições financeiras para a propagação da fé, de acordo com os estatutos da Obra de Lyon. Os associados da Pia União passaram para a outra associação. A Pia Sociedade, temerosa pela possível repercussão do povo, preferiu não divulgar publicamente o ocorrido.

No início de 1837, Monsenhor Mai, Secretário da propagação da fé, promoveu uma reunião no Palácio da Propagação da fé, nos aposentos do Cardeal Luigi Ferrari, com a presença do Arquivista do Colégio e do Reitor da Pia Sociedade. Nesta reunião foi estabelecido que a Associação para a coleta de esmolas para as missões estrangeiras fosse tornada pública e que seus associados constituíssem a ‘Classe dos Contribuintes’ (materiais) do Apostolado Católico para a propagação da fé. Naquela reunião, o Reitor da Sociedade ficou incumbido de entrar em acordo com o Cardeal Brígnole, para a formação do primeiro Conselho. O referido Reitor, com a aprovação dele apresentou os primeiros integrantes do Conselho, a saber: Pe. Luigi Togni, Vigário Geral dos Camilianos, o Príncipe Pompeo Gabrielli e o Sr. Giacomo Perelli. Estes, com o Reitor, mais o presidente Cardeal Brignole, passaram a formar o Conselho. Todos, inclusive o contador Perelli, eram membros da Sociedade do Apostolado Católico.

Carta ao Papa Gregório XVI

Mesmo diante desta reviravolta institucional, a questão do nome ‘Apostolado Católico’ continuava em aberto, mesmo após tornada sem efeito a supressão da Sociedade. Na preocupação de garantir a todo custo a continuação da sua obra, Pallotti estava até disposto a sacrificar o primeiro elemento da denominação, a palavra ‘Apostolado’. Neste sentido escreveu uma carta ao Papa, provavelmente em setembro de 1838, na qual se declarava disposto a aceitar esta modificação na denominação. De feito, contentava-se com o título “Sociedade Católica para aprofundamento, defesa e difusão da piedade e da fé católicas”. Neste caso pedia, porém, sob o novo nome, que ficassem assegurados os bens espirituais, as doações testamentárias e as finalidades da Sociedade. Em resposta, no dia 01 de outubro de 1838, no dorso do requerimento, o Papa confiou a solução definitiva à Congregação da Propagação da Fé.

Esta Congregação, em sessão do dia 11 de dezembro de 1838, discutiu os diversos aspetos da questão. A ‘Sociedade’ sobreviveu, mas o problema do nome ficou sem solução. Quatro anos depois da morte de Pallotti (1850), instado pela mesma Congregação da Propagação da Fé, Pio IX (1846-1878), a 09 de abril de 1854, mudou o nome da Congregação dos Padres e Irmãos para ‘Pia Sociedade das Missões’ (Heinrich Schulte, p. 164s).

Noventa e três anos depois, o Papa Pio XII, no dia 09 de junho de 1947, restituiu à Pia Sociedade das Missões o nome original de ‘Sociedade do Apostolado Católico’. Isso indica que, no momento da aprovação pontifícia, a Santa Sé preferiu enfatizar o caráter de sociedade clerical dedicada às missões, em detrimento da visão original e mais ampla de Pallotti, que era a “Sociedade do Apostolado Católico”. Essa alteração visava se adequar à estrutura e ao entendimento canônico da Igreja, para as novas congregações da época, que frequentemente tinham um foco mais definido (Doc. Fundação, p. 119).

O nome imposto, por um período, liquidou a designação original e, de certa forma, obscureceu a ideia central de Pallotti sobre o apostolado leigo universal, que era a essência da “União do Apostolado Católico” e da “Sociedade do Apostolado Católico”. A retomada do nome, em 1947, durante o pontificado do Papa Pio XII, significa um retorno às fontes e à visão profética de São Vicente Pallotti. Essa mudança marcou o fim de um período de crise interna e foi um passo crucial para o reconhecimento universal do carisma palotino, que culminou com a beatificação (1950) e a canonização (1963) do fundador. O nome S.A.C. reflete melhor a missão de reacender a Fé e reavivar a Caridade em colaboração de leigos, clérigos e religiosos.

Em resumo, podemos dizer que desde o período da supressão até a recuperação do nome (1854-1947) pode ser visto como uma fase de adaptação e consolidação do carisma palotino. A congregação se estabeleceu dentro de um molde eclesiástico mais tradicional, mas, posteriormente, foi corrigido com a restituição do nome original, que resgatava a plenitude do carisma de São Vicente Pallotti. Que Deus continue abençoando esse carisma, para que continue produzindo abundantes frutos para a Igreja de Cristo em todos os cantos da Terra. “Deus em tudo e sempre”!

PARA REFLETIR

  1. Quais foram as razões que levaram a suspensão da UAC?
  2. Que posição Pallotti tomou em relação ao conflito com a Obra de Lyon?
  3. Por que o nome apostolado católico trouxe dificuldade para a aprovação da UAC?

 

 



[1] Bruno Bayer (Ed); Josef Sweifel. Vicente Pallotti: Documentos da fundação, Pallotti: Santa Maria, 1996, p. 91.

[2] Vincenzo Pallotti. Opere complete (OO CC). A cura di Francesco Moccia. Roma: Curi Generalizia della Società dell’Apostolato Cattolico, 1964-1997.

[3] Stanislaw Stawicki. A cooperação, paixão de uma vida. Biblos: Santa Maria, 2007, p. 120. Documentos da fundação, pp. 186-190).

[4] Heinrich Schulte. Estrutura e História do Apostolado Católico de São Vicente Pallotti, pp. 145-147.

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