Tema 20: A FUNDAÇÃO DOS PADRES E DOS IRMÃOS PALOTINOS
Quando lemos os escritos do nosso fundador, Vicente
Pallotti, logo percebemos que a sua ideia primeira foi de convocar todos os
estilos de vida existentes na Igreja, para que pudessem glorificar a Deus. E a
fundação dos padres, irmãos e irmãs não estavam em seus planos. Mas, tinha um
grande desejo de despertar todos os estilos de vida para uma maior consciência
apostólica. Desejava ardentemente reavivar, reacender, defender, propagar a fé
e a caridade em todo o mundo, multiplicando os meios úteis para a construção do
reino de Deus.
No dia 14 de julho de 1839, domingo, na oitava de
pentecostes, após celebrar a santa missa e quando meditava sobre a comunhão e
que a própria misericórdia infinita se faz nosso alimento, veio em sua mente
uma grande certeza de que ele teria sido, verdadeiramente, aquele prodígio da
misericórdia de Deus que gostaria de ser. Sentiu naquele momento que a própria
justiça infinita é infinitamente misericordiosa. Esta foi uma das experiências
tidas do mistério infinito de Deus. No dia 17 de julho, escreveu ele, toda a
dúvida foi tirada da minha mente e todo temor do meu coração, para confirmar-me
na confiança e segurança da participação e comunicação de todas as graças e
favores, dons, comunicações e transformações divinas. “Meu Deus, misericórdia
minha infinita, creio ter compreendido pouco, creio ter dito também pouquíssimo
diante da autoridade da Igreja”.[1]
A Regra
Segundo Pe. Francesco
Amoroso, depois de sete dias de elevações e experiências místicas, o santo
escreveu, de joelhos, a sua Regra, ou melhor, traduziu em norma escrita a sua
própria vida. Portanto, se alguém que ouviu falar dele como idealizador de um
apostolado moderno e universal e, se tiver em mãos as suas Regras e começar a
procurar os capítulos em que falam da formação deste apostolado, ficará no
mínimo desconcertado, porque não encontrará nada disso.
Quem quiser entender a sua
obra precisa partir do princípio de que o autêntico apostolado não pode
acontecer em um ato e nem num momento da vida, mas sim durante toda a vida. Não
é uma simples atitude, mas uma aspiração profunda da alma. Não é tanto uma obra
humana, mas pura graça de Deus. Não é o anúncio de uma mensagem, mas o
esplendor do mistério de Deus.
Para Pallotti, o princípio da atividade humana está
no Espírito Santo e é somente a oração o único meio útil para suplicar os dons
de Deus. Através dela, buscamos o Reino de Deus e a intensidade da vida
interior. Tudo isso não passa de uma premissa necessária para um verdadeiro
apostolado. Pallotti escreve uma minuciosa regra, levando em conta os pequenos
detalhes, para despojar o homem de tudo aquilo que é terrestre, para fazê-lo
viver em perfeita união com Deus e preocupado só com sua infinita glória (cf.
F. AMOROSO. Postulazione generale, p. 146).
Muitos títulos de sua regra têm inspiração na vida
de Jesus, porque segundo nosso fundador, os seus filhos espirituais devem
compreender que a imitação fiel e constante de Cristo é a condição
indispensável para que haja o apostolado. Com uma persuasiva unção, sugere a
mais diligente castidade, a mais afetuosa obediência e a mais generosa pobreza.
A caridade, o silêncio, a união com Deus na assiduidade da oração devem ser o
alimento familiar dos congregados. Desta mesma regra, o santo fez, em 1846, um
compêndio com trinta e três pontos, em homenagem ao número dos anos que a
tradição assinala como sendo vivido por Cristo, para recordar os deveres de
imitar o Redentor (cf. F. AMOROSO. Postulazione generale, p. 147).
A
Congregação sem votos
O
vínculo da consagração deveria ser para todos os membros da Congregação. Era a
perfeita consagração total de si mesmo a Deus e do perfeito abandono do coração
das coisas mundanas, para viver de maneira perseverante na Congregação e na
perfeita observância das regras, segundo o espírito da mesma. A consagração
seria feita, somente, depois de dois ou mais anos de experiência do noviciado. Inicialmente,
a comunidade nasceu sem nenhum voto religioso, porque pretendia diminuir as
razões da lei, para engrandecer aquela do amor. Esta não foi uma resolução
simples e muita menos rápida. Segundo ele, a experiência ajuda o homem ver que
consagrado a Deus, com votos solenes, se perder o amor a Deus, não só se
distancia da observância dos santos votos, como também se torna também
pernicioso ao corpo religioso, ao qual professou solenemente. Porém, como a
consagração deve ser na Igreja como um ponto de união entre o clero secular e
regular, para que possa ter toda a possível e humilde influência para animar um
e outro. Na sagrada união e no exercício mais vivo e profícuo da tarefa
evangélica, convém que os sacerdotes e irmãos da Congregação não tenham um
ligame dos santos votos. Isto para que as coisas não fossem feitas forçadamente.
Diante disso, estabeleceu que na congregação, a parte central e motriz de toda
a Sociedade, devia pertencer e permanecer somente aqueles que eram movidos pelo
amor de Deus (cf. F. AMOROSO. Postulazione generale, p. 150-151).
Segundo o Pe. Paul RHEINBAY, historicamente falando,
essa afirmação é falsa. Mas, insistimos nela para melhor mostrar as ambiguidades
e as dúvidas que surgiram durante a vida do fundador e, sobretudo, depois de
sua morte. Com efeito, essa aparente mudança de acento foi o fundamento do
modelo piramidal e dualista, estranho à visão original, da União do Apostolado
Católico. Ele contribuiu não somente para a clericalização da fundação
palotina, mas também engendrou certo número de cisões entre os seus membros –
leigos, religiosos e clérigos – de sorte que a cooperação entre eles
desapareceu, ou quase, já que cada um seguiu seu próprio caminho.[2]
Um dos exemplos clássicos do modelo piramidal e
dualista é a compreensão linear e descendente da União ainda presente na
mentalidade de alguns palotinos. Por exemplo, em 1983, um eminente palotino
italiano, Pe. Pistella, escreveu: “A sociedade (pelo contexto, trata-se da
União do Apostolado Católico) é um verdadeiro corpo moral (...). Ela se compõe
de três classes: a primeira forma uma comunidade religiosa; a segunda
compreende as Irmãs da Sociedade; a terceira classe abraça todos os outros
membros de ambos os sexos, indivíduos ou corpos morais. A terceira parte se
subdivide em operários, cooperadores espirituais e cooperadores temporais. A
primeira parte, corpo central e dirigente, é constituído de sacerdotes e irmãos
coadjutores da Sociedade; a eles cabe não somente a direção propriamente dita,
mas, sobretudo, a animação e a coordenação das obras da Sociedade e da sua
propagação com o trabalho de agregação de indivíduos e de comunidades”.[3]
Esse
modelo, evidentemente, tem uma concepção reducionista da fundação palotina. Em
vez de partir, como tinha querido Vicente, do que é comum a todos os cristãos,
ou seja, do chamado ao apostolado de todos, parte do clero, detentor do poder
apostólico (cf. OO CC III, 139-143; Documentos da Fundação, p. 32-33).
Trata-se do resultado de uma falsa percepção do papel da Congregação masculina
no seio da União, percepção essa que foi reforçada pouco a pouco, em termos de
uma superioridade, em relação aos outros membros da União. Com efeito, os
padres chegaram a acreditar que possuíam o monopólio do saber e do poder na
União, enquanto as irmãs e os leigos eram vistos somente como membros passivos,
cujo papel se reduzia a se deixarem instruir e, no máximo, a serem auxiliares
dos padres.
Advertência
de Pallotti
Vicente Pallotti advertia contra a tendência de se
isolar dos outros e agir de uma maneira autoritária e arbitrária na União: “A
mesma seja composta por três partes, mas tão ligadas entre si que, em tudo, um
só seja o espírito. Esse espírito seja aquele da Caridade que se faz
tudo para todos (1Cor 9,22) de qualquer grau, estado, ordem, condição, etc.
(...). Todas as três (...) devem estar tão ligadas entre si que uma vigie e
mantenha em movimento contínuo as outras duas, a fim de que em nenhuma delas
aconteça força de arbítrio, diminuição de zelo ou cessação das obras” (OO CC
III, 156-157).
Para terminar esse primeiro ponto acerca das “ambiguidades
palotinas”, observamos que quase todos os movimentos apostólicos do século
XIX propuseram muito mais iniciativas do que efetivamente puderam realizar.
Alguns chegaram a desafiar a Igreja, se opuseram e, até mesmo, romperam com
ela. Outros fizeram uma rápida aparição e, imediatamente, desapareceram
sufocadas pela oposição, ambição ou obstinação. De fato, a inteligência, a
fantasia e a determinação de alguns reformadores avançavam muito mais rapidamente do que
a Igreja com suas estruturas.
Pallotti teve de superar muitas oposições, mas sem
se obstinar. Seu amor pela Igreja era mais forte do que seu apego pelas suas ideias
e suas obras. Procurava realizar a missão que o Espírito lhe tinha confiado e
obedecia a ela com todo coração e toda mente.[4] Com efeito, Pallotti
sabia propor suas ideias com prudência e sabedoria. O seu critério de
discernimento eclesial é expresso através de duas palavras: “necessários e
oportunos”. Assim escreveu: “No ano de 1835, algumas pessoas de Roma, movidas
pela caridade cristã, queriam muito editar o livrinho de Santo Afonso Maria de
Ligório, ‘Máximas Eternas’. (...) Diante do fato (...) a gente pensou que seria
conveniente formar uma pia sociedade, que, nas atuais necessidades da
Igreja, tivesse por finalidade procurar a multiplicação dos meios espirituais e
temporais necessários e oportunos,
para reavivar a fé e reacender a caridade entre os católicos e propagá-las em
todo o mundo” (OO CC VII, 2-3; Documentos da Fundação, p. 274).
Vicente sabia distinguir entre o necessário e o
oportuno. Tudo o que é necessário pode não ser realizável imediatamente. Quanto
ao oportuno, compete à hierarquia da Igreja decidir depois de avaliar as
circunstâncias históricas.[5] Pallotti soube
renunciar a algumas iniciativas sem, porém, desistir do que ele percebia como
sua missão no seio da Igreja. Pode-se dizer que, de todos os seus
contemporâneos que aspiravam, como ele, uma maior unidade e fraternidade na
Igreja, uma mais dinâmica visão cristã do “viver juntos” e uma coordenação e
harmonia maiores dos esforços, dos ideais e dos programas da Igreja, Pallotti é
um dos poucos cuja voz se faz ouvir ainda hoje.
As dificuldades na organização
Após
receber os fiéis junto ao grupo inicial, deu-se início a estruturação do mesmo.
O trabalho foi longo e muito difícil, seja pela variedade de pessoas que
compunha a Sociedade, tais como: religiosos, clero secular e leigos, e pela
multiplicidade de coisas que ela se propunha. A dificuldade maior para Pallotti
era a questão de um espaço físico que pudesse acolher todos os membros. Aliás,
ele não tinha sob sua responsabilidade nenhuma paróquia e nem casa para poder
fixar o centro de acolhida e de sua atividade apostólica. Não tinha como
acolher os sacerdotes e leigos que buscavam consagrar-se às obras do apostolado
católico, para ter uma vida em comum.
Em
1840 ele chegou a afirmar que devido à sua falta de organização e maneira
desorganizada de viver levou a esta dificuldade. A sua autocrítica referia-se
ao seu generoso modo de doar-se às pessoas de maneira desordenada, pois queria
atender a todos os pedidos até a exaustão de suas forças e com isso não tinha
tempo, para se dedicar às pequenas coisas que eram necessárias para a
estruturação de qualquer projeto.
A
15 de novembro de 1845, numa carta ao Pe. Rafael Melia, que estava em Londres,
o Santo escreveu: “Reze pela nossa nascente mínima Congregação”. Aqui começou a
terceira fase da evolução do Apostolado Católico. Não mais três classes
dirigidas por um Corpo central, nem Procuradorias dirigidas por uma
Procuradoria Geral primária, mas uma Congregação de Padres e Irmãos de vida
comum, que dirigisse todos os agregados de toda a ordem pertencentes à
Sociedade do Apostolado Católico. A terminologia era nova, mas a essência da
instituição era a mesma. Vai chamar-se Congregação o que, em 1835, se chamava
Corpo central e motor e, em 1839, Parte dirigente. A Sociedade será chamado o
que, em 1835, estava distribuído nas três classes dos Operários, Cooperadores
espirituais e Cooperadores temporais e o que, em 1839, era a parte dirigida do
Apostolado Católico. Não é que haja uma Congregação e uma Sociedade, porém,
sim, há uma Congregação da Sociedade do Apostolado Católico, ou uma Sociedade
da Congregação do Apostolado Católico. Devido a duplicidade de terminologias a
respeito de um mesmo apostolado, foi preciso ter uma nova aprovação eclesiástica
diferente daquela de 1835 (Postulazione generale, p. 128).
Em
dois documentos de primária importância, o fundador afirma que a Congregação
fundou a Sociedade. Evidentemente, para ele era só questão de terminologia: a
palavra Congregação é de 1845, mas aquilo que ele entende por Congregação é de
muito antes (OO CC VII, p. 22-23). O Corpo central vivia reunido numa
bem ordenada comunidade, sem formar, porém, um estado regular. Entretanto, para
garantir a vitalidade, a eficiência e a estabilidade de uma organização, que
estava destinada a se difundir em todo o mundo, um pequeno grupo, mesmo tendo
bem ordenada convivência, não podia ser suficiente e, por isso, precisamente
para justificar a inovação inaugurada, assim escreveu: “Se não houver uma
Congregação de padres reunidos, que formem um estado de vida de perfeita comunidade
e de vida comum perfeita, a Congregação, espalhando-se em mais partes do mundo
Católico, será como a alma e a parte motora de toda a pia Sociedade, de forma a
manter sempre vivo todos os empreendimentos evangélicos de caridade e de zelo”
(OO CC VII, p. 4); Amoroso. São Vicente Pallotti romano, p. 191-192).
Em
1846, ele conseguiu a sua máxima clareza de expressão, a respeito de sua obra,
distinguindo nela uma Congregação e uma Sociedade. A Congregação entendida como
o Corpo Central e Motriz, reservada aos membros que viviam em comum e a
Sociedade entendida como o corpo externo da mesma Congregação e reservada aos
fiéis que colaboravam com os congregados em diversas atividades (Lettera 1297);
[Postulazione generale, p. 119).
As insuficiências institucionais
As
ideias de Vicente Pallotti foram muito celebradas durante o período da Assembleia
Geral da SAC em 1968-1969. Foi como o início de uma nova juventude da herança
palotina em sua pureza (Horizontes palotinos, p. 388). Essa Assembleia
extraordinária realizou um trabalho considerável em termos de renovação da
Sociedade dos padres e dos irmãos do Apostolado Católico. Mas, no contexto mais
amplo da família palotina, não pôde chegar a conclusões importantes visto que o
processo de renovação foi dispersado entre os vários institutos palotinos: cada
um seguiu seu próprio caminho ou quase.
Com
efeito, nenhum critério incisivo de renovação no sentido global do carisma foi
apresentado. A razão disso foi certamente a falta de cooperação unânime pedida
pelo Vaticano II (Perfectae
Caritatis, nº. 4). Ironia do destino, os palotinos, “especialistas
em cooperação”, tiveram dificuldades em responder adequadamente a esse
princípio. Pelo fato de pertencerem a uma “família numerosa”, o concurso de
todos seus membros se mostrou necessário, para realizar não somente o retorno
às fontes de toda a vida cristã, mas, também, à inspiração original da
fundação. Mas, nessa época, não havia ainda os meios institucionais que
permitissem a realização de tal cooperação. Em suma, observa Pe. Freeman, nós
nos encontramos diante de uma situação
Na
verdade, desde a sua juventude, Pallotti tinha se apaixonado pelo projeto de
reunir os cristãos em diferentes grupos e associações onde os fiéis de qualquer
estado e condição pudessem trabalhar juntos, para a glória de Deus e para a
salvação das almas. Assim, por exemplo, em 1816, ele pensou em uma “união de
eclesiásticos”, para formar um presbitério cheio de “padres seculares santos”,
que deveriam viver e trabalhar juntos (cf. OO CC V, 416). Nos anos
1839-1846, ele convidou as empregadas domésticas a se unirem em uma pia união
sob a proteção de Santa Zita (cf. OO CC V, 612-660), a fim de mostrar
que todos os caminhos levam à santidade e que o cumprimento das mais simples
tarefas pode também ser um apostolado. No quadro das Procuradorias, ele as
convidava a “tirar proveito de todas as circunstâncias que se lhes apresentam,
para promover nas próprias famílias a maior glória de Deus e a salvação das
Almas” (OO CC V, 613). Participando, ele mesmo, de cinco Ordens
Terceiras, incitou os outros cristãos a aderir a elas (cf. OO CC V,
708-713).
Em
1847, no contexto das Procuradorias e para responder ao apelo do papa Pio IX,
Pallotti convidou o clero secular e regular a se organizar em uma pia União
para cooperar na promoção da pureza da palavra, do pensamento e da ação (cf. OO
CC III, 391-399). Por trás de todas essas iniciativas, havia uma ideia na
cabeça de Pallotti. Ele queria que todos esses grupos e associações cooperassem
no serviço à Igreja, se tornando “a parte central e motriz” da sua pia
Sociedade do Apostolado Católico (cf. OO CC I, 4). Assim, por exemplo,
ele buscou promover a fundação de comunidades compostas por padres e irmãos; de
comunidades de padres que se preparavam para as missões estrangeiras (cf. OO
CC IV 340-385); de comunidades de leigos que, livres de todos os negócios
do mundo, desejavam levar uma vida cristã em comum (cf. OO CC V, 143;
III, 230-233); de comunidades de religiosas enclausuradas ligadas por votos (cf.
OO CC II, 555-559); de comunidades de leigas que se consagravam juntas à
educação das órfãs.
Em
1839, durante sua permanência
As circunstâncias desfavoráveis
A
partir de 1846, circunstâncias desfavoráveis ao primeiro projeto obrigaram
Pallotti a concentrar suas forças na organização da Congregação dos padres e
irmãos e a chamá-la de “alma e motor” de toda a União (cf. OO CC III, 3-7). Pallotti confiou a ela
a missão de portadora e realizadora do sistema das Procuradorias. O papel das
religiosas do Apostolado Católico, analogamente ao dos padres e dos irmãos,
consistia em animar a caridade e o zelo apostólico das pessoas de seu sexo nas
comunidades religiosas e no mundo (cf. OO CC II, 555-558).
Mesmo
lhes dando um papel de animadoras e inspiradoras do mundo feminino, Pallotti
evita chamá-las de alma e parte motriz de toda a união. Isso porque Pallotti compreendeu
que essa tarefa só podia ser assegurada por uma associação sacerdotal, naquele
momento. De qualquer maneira, Pallotti não deixou de sublinhar cuidadosa e
explicitamente a corresponsabilidade das irmãs no objetivo de toda a União.
Nesse sentido, eis um texto que mostra a paridade das duas Congregações:
“Como a Congregação dos Padres foi fundada
com o objetivo de animar sempre mais o clero secular e regular, para as obras
do santo ministério evangélico, num sagrado vínculo de competitiva caridade e
zelo e de animar todos, de todo estado, sexo, posição e condição para as obras
de caridade e de zelo da maior glória de Deus e da salvação das almas, assim a
Congregação das monjas institui-se para animar sempre mais a caridade e o zelo
das pessoas religiosas e seculares do próprio sexo. Como os padres da Congregação
devem estar dispostos a exercer qualquer obra do santo ministério, assim as
monjas devem estar dispostas para qualquer obra de caridade e de zelo,
principalmente no que se refere à educação cristã e cível das meninas pobres e
à conversão e santificação das almas, mediante exercícios espirituais a pessoas
de toda idade de sexo feminino” (OO CC II, 559).
Parece-nos
que esse “como” e “assim”, repetidos duas vezes no texto, são um verdadeiro
apelo de Pallotti a não marginalizar o mundo feminino da União do Apostolado
Católico, pois também a elas foram confiadas a missão e a responsabilidade de
ser “alma e motriz” da União. Mais tarde, em um esboço sobre a Congregação
feminina, Pallotti precisa: “As regras delas serão substancialmente as mesmas
da Congregação (dos Padres), com as análogas diversificações para as monjas. O
mesmo se diga das constituições” (OO CC II, 558) vale para os leigos. No
início da fundação, todos os que pertenciam à primeira classe, chamados de
operários evangélicos, faziam parte do “corpo central e motriz” da União (OO
CC IV, 270, 355, 399, 436; V, 47, 59,76).[6]
Depois
de 1846, aconselhado pelo cardeal Lambruschini, Pallotti suprimiu e tirou do
texto da Grande Regra de 1839 todas as passagens que classificavam os fiéis
leigos entre os membros efetivos do corpo central e motriz da pia Sociedade.
Foi justamente isso uma das maiores ambiguidades da fundação palotina.
Na
verdade, Lambruschini, que conhecia o direito canônico mais do que Pallotti,
sabia bem que a plena realização do projeto da União do Apostolado Católico era
impossível naquele momento. Exigiria mudanças na própria estrutura da Igreja.
Com efeito, o fato de confiar aos leigos responsabilidades na União não
correspondia ao ensinamento da Igreja hierárquica da época, nem às convicções
pessoais do cardeal. É certo que Lambruschini via algumas vantagens em engajar
leigos como auxiliares do clero. Mas, não correspondia ao seu modo de pensar
aceitá-los como parceiros que trabalham juntos, na União, para cumprir a missão
apostólica da Igreja no mundo (cf. OO
CC IV, 1-2). O cardeal se esforçou em convencer Vicente a abandonar sua
“visão profética” e se contentar com o que era factível, ou seja, a
constituição e o estabelecimento de uma Congregação de padres e de irmãos.
Parecia-lhe o melhor caminho para “salvar” toda a fundação. Era preciso esperar
tempos mais maduros para relançar a ideia de uma fundação aberta a todos os
cristãos.
Novo direcionamento da obra do apostolado
Lambruschini
conseguiu seu intento, e Pallotti tomou uma nova direção. Isso se tornou mais
claro em 1846, ano em que o cardeal, a pedido de Pio IX, foi encarregado de
fazer a revisão da Regra para a Congregação do Apostolado Católico (cf. OO
CC VII, 1-413). Para cumprir essa tarefa, recebeu de Pallotti não somente
uma cópia da Grande Regra de 1839, já revisada, mas, também, um exemplar do
escrito “Pia Società dell’Apostolato Cattolico” (OO CC I, 1-404). Depois
de ter lido os dois textos, ele enviou a Pallotti o seu julgamento alguns meses
depois: “A ideia é bela, o desenvolvimento é copioso, mas não me parece
suficientemente preciso. As Regras preceptivas se confundem com as diretivas, e
o fim, com o modo. E parece a mim que resplenda mais o modo do que a regra” (OO
CC VII, XXIII).
Sem
se dar conta da justiça de sua proposta, o cardeal Lambruschini tinha acertado.
De fato, a União do Apostolado Católico era mais um “modo” cristão de viver do
que um corpo jurídico. Mas, Pallotti tinha muita dificuldade de abandonar sua
primeira visão da União e de redigir uma nova regra para a sua Congregação. Ele
confiou esse trabalho a dois de seus companheiros, Francesco Vaccari e Enrico
Ghirelli, que dominavam mais que ele a linguagem canônica. Lambruschini, da sua
parte, não deseja o mal a Pallotti nem à sua fundação. Ele optou por fazer o
que era possível nas dadas circunstâncias, tentando traduzir o pensamento de
Pallotti nas categorias eclesiológicas e jurídicas de então. Mas, foi
exatamente isso que limitou a fundação nas estreitezas do tempo. Consentindo,
em detrimento de toda a União, a essa nova orientação, Pallotti consagrou seus
últimos três anos de vida a consolidar a comunidade dos padres e dos irmãos e a
das irmãs do Apostolado Católico. Trata-se, evidentemente, da Regra para a
Congregação dos padres e irmãos coadjutores do Apostolado Católico. Essa regra
foi revisada, em 1846, pelo cardeal e é conhecida como Cópia Lambruschini (cf. OO
CC VII, 1-413).
Quando
Pallotti morreu, a congregação tinha apenas doze membros. Eram oitos padres:
Rafael Melia e Giuseppe Faá di Bruno, que estavam
Para refletir
1.
Qual foi a maior dificuldade de Pallotti, para
organizar a sua obra?
2.
Como podemos superar as possíveis ambiguidades
existentes ainda no nosso tempo?
3.
O que a fundação do apostolado católico
representa para toda a Igreja?
[1] Cf. OO CC X, 321s; F. AMOROSO, San Vincenzo
Pallotti Romano, Postulazione generale, pp. 145-146.
[2]
Cf.
[3]
Domenico PISTELLA, L’apostolato dei
laici in San Vincenzo Pallotti, Istituto di spiritualità, Pontificia
Universalità S. Tommaso d’Aquino, Roma, 1983, p. 95.
[4]
Cf. Séamus FREEMAN, Num dinamismo de fidelidade, nº. 16.
[5]
Cf. Séamus FREEMAN, Num dinamismo de fidelidade, nº. 21.
[6]
Os que puderem consagrar-se inteiramente à Direção e ao regulamento da pia
Sociedade, reunidos em Comunidade bem ordenada pelo vínculo de competitiva e
humilde caridade, sem formarem comunidade religiosa, poderão formar o corpo
central e motriz da pia Sociedade.