sexta-feira, 23 de outubro de 2026

 


Tema 20:  A FUNDAÇÃO DOS PADRES E DOS IRMÃOS PALOTINOS

Quando lemos os escritos do nosso fundador, Vicente Pallotti, logo percebemos que a sua ideia primeira foi de convocar todos os estilos de vida existentes na Igreja, para que pudessem glorificar a Deus. E a fundação dos padres, irmãos e irmãs não estavam em seus planos. Mas, tinha um grande desejo de despertar todos os estilos de vida para uma maior consciência apostólica. Desejava ardentemente reavivar, reacender, defender, propagar a fé e a caridade em todo o mundo, multiplicando os meios úteis para a construção do reino de Deus.

No dia 14 de julho de 1839, domingo, na oitava de pentecostes, após celebrar a santa missa e quando meditava sobre a comunhão e que a própria misericórdia infinita se faz nosso alimento, veio em sua mente uma grande certeza de que ele teria sido, verdadeiramente, aquele prodígio da misericórdia de Deus que gostaria de ser. Sentiu naquele momento que a própria justiça infinita é infinitamente misericordiosa. Esta foi uma das experiências tidas do mistério infinito de Deus. No dia 17 de julho, escreveu ele, toda a dúvida foi tirada da minha mente e todo temor do meu coração, para confirmar-me na confiança e segurança da participação e comunicação de todas as graças e favores, dons, comunicações e transformações divinas. “Meu Deus, misericórdia minha infinita, creio ter compreendido pouco, creio ter dito também pouquíssimo diante da autoridade da Igreja”.[1]

A Regra

Segundo Pe. Francesco Amoroso, depois de sete dias de elevações e experiências místicas, o santo escreveu, de joelhos, a sua Regra, ou melhor, traduziu em norma escrita a sua própria vida. Portanto, se alguém que ouviu falar dele como idealizador de um apostolado moderno e universal e, se tiver em mãos as suas Regras e começar a procurar os capítulos em que falam da formação deste apostolado, ficará no mínimo desconcertado, porque não encontrará nada disso.

Quem quiser entender a sua obra precisa partir do princípio de que o autêntico apostolado não pode acontecer em um ato e nem num momento da vida, mas sim durante toda a vida. Não é uma simples atitude, mas uma aspiração profunda da alma. Não é tanto uma obra humana, mas pura graça de Deus. Não é o anúncio de uma mensagem, mas o esplendor do mistério de Deus.

Para Pallotti, o princípio da atividade humana está no Espírito Santo e é somente a oração o único meio útil para suplicar os dons de Deus. Através dela, buscamos o Reino de Deus e a intensidade da vida interior. Tudo isso não passa de uma premissa necessária para um verdadeiro apostolado. Pallotti escreve uma minuciosa regra, levando em conta os pequenos detalhes, para despojar o homem de tudo aquilo que é terrestre, para fazê-lo viver em perfeita união com Deus e preocupado só com sua infinita glória (cf. F. AMOROSO. Postulazione generale, p. 146).

Muitos títulos de sua regra têm inspiração na vida de Jesus, porque segundo nosso fundador, os seus filhos espirituais devem compreender que a imitação fiel e constante de Cristo é a condição indispensável para que haja o apostolado. Com uma persuasiva unção, sugere a mais diligente castidade, a mais afetuosa obediência e a mais generosa pobreza. A caridade, o silêncio, a união com Deus na assiduidade da oração devem ser o alimento familiar dos congregados. Desta mesma regra, o santo fez, em 1846, um compêndio com trinta e três pontos, em homenagem ao número dos anos que a tradição assinala como sendo vivido por Cristo, para recordar os deveres de imitar o Redentor (cf. F. AMOROSO. Postulazione generale, p. 147).

A Congregação sem votos

O vínculo da consagração deveria ser para todos os membros da Congregação. Era a perfeita consagração total de si mesmo a Deus e do perfeito abandono do coração das coisas mundanas, para viver de maneira perseverante na Congregação e na perfeita observância das regras, segundo o espírito da mesma. A consagração seria feita, somente, depois de dois ou mais anos de experiência do noviciado. Inicialmente, a comunidade nasceu sem nenhum voto religioso, porque pretendia diminuir as razões da lei, para engrandecer aquela do amor. Esta não foi uma resolução simples e muita menos rápida. Segundo ele, a experiência ajuda o homem ver que consagrado a Deus, com votos solenes, se perder o amor a Deus, não só se distancia da observância dos santos votos, como também se torna também pernicioso ao corpo religioso, ao qual professou solenemente. Porém, como a consagração deve ser na Igreja como um ponto de união entre o clero secular e regular, para que possa ter toda a possível e humilde influência para animar um e outro. Na sagrada união e no exercício mais vivo e profícuo da tarefa evangélica, convém que os sacerdotes e irmãos da Congregação não tenham um ligame dos santos votos. Isto para que as coisas não fossem feitas forçadamente. Diante disso, estabeleceu que na congregação, a parte central e motriz de toda a Sociedade, devia pertencer e permanecer somente aqueles que eram movidos pelo amor de Deus (cf. F. AMOROSO. Postulazione generale, p. 150-151).

Segundo o Pe. Paul RHEINBAY, historicamente falando, essa afirmação é falsa. Mas, insistimos nela para melhor mostrar as ambiguidades e as dúvidas que surgiram durante a vida do fundador e, sobretudo, depois de sua morte. Com efeito, essa aparente mudança de acento foi o fundamento do modelo piramidal e dualista, estranho à visão original, da União do Apostolado Católico. Ele contribuiu não somente para a clericalização da fundação palotina, mas também engendrou certo número de cisões entre os seus membros – leigos, religiosos e clérigos – de sorte que a cooperação entre eles desapareceu, ou quase, já que cada um seguiu seu próprio caminho.[2]

Um dos exemplos clássicos do modelo piramidal e dualista é a compreensão linear e descendente da União ainda presente na mentalidade de alguns palotinos. Por exemplo, em 1983, um eminente palotino italiano, Pe. Pistella, escreveu: “A sociedade (pelo contexto, trata-se da União do Apostolado Católico) é um verdadeiro corpo moral (...). Ela se compõe de três classes: a primeira forma uma comunidade religiosa; a segunda compreende as Irmãs da Sociedade; a terceira classe abraça todos os outros membros de ambos os sexos, indivíduos ou corpos morais. A terceira parte se subdivide em operários, cooperadores espirituais e cooperadores temporais. A primeira parte, corpo central e dirigente, é constituído de sacerdotes e irmãos coadjutores da Sociedade; a eles cabe não somente a direção propriamente dita, mas, sobretudo, a animação e a coordenação das obras da Sociedade e da sua propagação com o trabalho de agregação de indivíduos e de comunidades”.[3]

Esse modelo, evidentemente, tem uma concepção reducionista da fundação palotina. Em vez de partir, como tinha querido Vicente, do que é comum a todos os cristãos, ou seja, do chamado ao apostolado de todos, parte do clero, detentor do poder apostólico (cf. OO CC III, 139-143; Documentos da Fundação, p. 32-33). Trata-se do resultado de uma falsa percepção do papel da Congregação masculina no seio da União, percepção essa que foi reforçada pouco a pouco, em termos de uma superioridade, em relação aos outros membros da União. Com efeito, os padres chegaram a acreditar que possuíam o monopólio do saber e do poder na União, enquanto as irmãs e os leigos eram vistos somente como membros passivos, cujo papel se reduzia a se deixarem instruir e, no máximo, a serem auxiliares dos padres.

Advertência de Pallotti

Vicente Pallotti advertia contra a tendência de se isolar dos outros e agir de uma maneira autoritária e arbitrária na União: “A mesma seja composta por três partes, mas tão ligadas entre si que, em tudo, um só seja o espírito. Esse espírito seja aquele da Caridade que se faz tudo para todos (1Cor 9,22) de qualquer grau, estado, ordem, condição, etc. (...). Todas as três (...) devem estar tão ligadas entre si que uma vigie e mantenha em movimento contínuo as outras duas, a fim de que em nenhuma delas aconteça força de arbítrio, diminuição de zelo ou cessação das obras” (OO CC III, 156-157).

Para terminar esse primeiro ponto acerca das “ambiguidades palotinas”, observamos que quase todos os movimentos apostólicos do século XIX propuseram muito mais iniciativas do que efetivamente puderam realizar. Alguns chegaram a desafiar a Igreja, se opuseram e, até mesmo, romperam com ela. Outros fizeram uma rápida aparição e, imediatamente, desapareceram sufocadas pela oposição, ambição ou obstinação. De fato, a inteligência, a fantasia e a determinação de alguns reformadores avançavam muito mais rapidamente do que a Igreja com suas estruturas.

Pallotti teve de superar muitas oposições, mas sem se obstinar. Seu amor pela Igreja era mais forte do que seu apego pelas suas ideias e suas obras. Procurava realizar a missão que o Espírito lhe tinha confiado e obedecia a ela com todo coração e toda mente.[4] Com efeito, Pallotti sabia propor suas ideias com prudência e sabedoria. O seu critério de discernimento eclesial é expresso através de duas palavras: “necessários e oportunos”. Assim escreveu: “No ano de 1835, algumas pessoas de Roma, movidas pela caridade cristã, queriam muito editar o livrinho de Santo Afonso Maria de Ligório, ‘Máximas Eternas’. (...) Diante do fato (...) a gente pensou que seria conveniente formar uma pia sociedade, que, nas atuais necessidades da Igreja, tivesse por finalidade procurar a multiplicação dos meios espirituais e temporais necessários e oportunos, para reavivar a fé e reacender a caridade entre os católicos e propagá-las em todo o mundo” (OO CC VII, 2-3; Documentos da Fundação, p. 274).

Vicente sabia distinguir entre o necessário e o oportuno. Tudo o que é necessário pode não ser realizável imediatamente. Quanto ao oportuno, compete à hierarquia da Igreja decidir depois de avaliar as circunstâncias históricas.[5] Pallotti soube renunciar a algumas iniciativas sem, porém, desistir do que ele percebia como sua missão no seio da Igreja. Pode-se dizer que, de todos os seus contemporâneos que aspiravam, como ele, uma maior unidade e fraternidade na Igreja, uma mais dinâmica visão cristã do “viver juntos” e uma coordenação e harmonia maiores dos esforços, dos ideais e dos programas da Igreja, Pallotti é um dos poucos cuja voz se faz ouvir ainda hoje.

As dificuldades na organização

Após receber os fiéis junto ao grupo inicial, deu-se início a estruturação do mesmo. O trabalho foi longo e muito difícil, seja pela variedade de pessoas que compunha a Sociedade, tais como: religiosos, clero secular e leigos, e pela multiplicidade de coisas que ela se propunha. A dificuldade maior para Pallotti era a questão de um espaço físico que pudesse acolher todos os membros. Aliás, ele não tinha sob sua responsabilidade nenhuma paróquia e nem casa para poder fixar o centro de acolhida e de sua atividade apostólica. Não tinha como acolher os sacerdotes e leigos que buscavam consagrar-se às obras do apostolado católico, para ter uma vida em comum.

Em 1840 ele chegou a afirmar que devido à sua falta de organização e maneira desorganizada de viver levou a esta dificuldade. A sua autocrítica referia-se ao seu generoso modo de doar-se às pessoas de maneira desordenada, pois queria atender a todos os pedidos até a exaustão de suas forças e com isso não tinha tempo, para se dedicar às pequenas coisas que eram necessárias para a estruturação de qualquer projeto.

A 15 de novembro de 1845, numa carta ao Pe. Rafael Melia, que estava em Londres, o Santo escreveu: “Reze pela nossa nascente mínima Congregação”. Aqui começou a terceira fase da evolução do Apostolado Católico. Não mais três classes dirigidas por um Corpo central, nem Procuradorias dirigidas por uma Procuradoria Geral primária, mas uma Congregação de Padres e Irmãos de vida comum, que dirigisse todos os agregados de toda a ordem pertencentes à Sociedade do Apostolado Católico. A terminologia era nova, mas a essência da instituição era a mesma. Vai chamar-se Congregação o que, em 1835, se chamava Corpo central e motor e, em 1839, Parte dirigente. A Sociedade será chamado o que, em 1835, estava distribuído nas três classes dos Operários, Cooperadores espirituais e Cooperadores temporais e o que, em 1839, era a parte dirigida do Apostolado Católico. Não é que haja uma Congregação e uma Sociedade, porém, sim, há uma Congregação da Sociedade do Apostolado Católico, ou uma Sociedade da Congregação do Apostolado Católico. Devido a duplicidade de terminologias a respeito de um mesmo apostolado, foi preciso ter uma nova aprovação eclesiástica diferente daquela de 1835 (Postulazione generale, p. 128).

Em dois documentos de primária importância, o fundador afirma que a Congregação fundou a Sociedade. Evidentemente, para ele era só questão de terminologia: a palavra Congregação é de 1845, mas aquilo que ele entende por Congregação é de muito antes (OO CC VII, p. 22-23). O Corpo central vivia reunido numa bem ordenada comunidade, sem formar, porém, um estado regular. Entretanto, para garantir a vitalidade, a eficiência e a estabilidade de uma organização, que estava destinada a se difundir em todo o mundo, um pequeno grupo, mesmo tendo bem ordenada convivência, não podia ser suficiente e, por isso, precisamente para justificar a inovação inaugurada, assim escreveu: “Se não houver uma Congregação de padres reunidos, que formem um estado de vida de perfeita comunidade e de vida comum perfeita, a Congregação, espalhando-se em mais partes do mundo Católico, será como a alma e a parte motora de toda a pia Sociedade, de forma a manter sempre vivo todos os empreendimentos evangélicos de caridade e de zelo” (OO CC VII, p. 4); Amoroso. São Vicente Pallotti romano, p. 191-192).

Em 1846, ele conseguiu a sua máxima clareza de expressão, a respeito de sua obra, distinguindo nela uma Congregação e uma Sociedade. A Congregação entendida como o Corpo Central e Motriz, reservada aos membros que viviam em comum e a Sociedade entendida como o corpo externo da mesma Congregação e reservada aos fiéis que colaboravam com os congregados em diversas atividades (Lettera 1297); [Postulazione generale, p. 119).

As insuficiências institucionais

As ideias de Vicente Pallotti foram muito celebradas durante o período da Assembleia Geral da SAC em 1968-1969. Foi como o início de uma nova juventude da herança palotina em sua pureza (Horizontes palotinos, p. 388). Essa Assembleia extraordinária realizou um trabalho considerável em termos de renovação da Sociedade dos padres e dos irmãos do Apostolado Católico. Mas, no contexto mais amplo da família palotina, não pôde chegar a conclusões importantes visto que o processo de renovação foi dispersado entre os vários institutos palotinos: cada um seguiu seu próprio caminho ou quase.

Com efeito, nenhum critério incisivo de renovação no sentido global do carisma foi apresentado. A razão disso foi certamente a falta de cooperação unânime pedida pelo Vaticano II (Perfectae Caritatis, nº. 4). Ironia do destino, os palotinos, “especialistas em cooperação”, tiveram dificuldades em responder adequadamente a esse princípio. Pelo fato de pertencerem a uma “família numerosa”, o concurso de todos seus membros se mostrou necessário, para realizar não somente o retorno às fontes de toda a vida cristã, mas, também, à inspiração original da fundação. Mas, nessa época, não havia ainda os meios institucionais que permitissem a realização de tal cooperação. Em suma, observa Pe. Freeman, nós nos encontramos diante de uma situação em que a Comunidade dos padres e irmãos, de um lado, e os outros institutos da União do Apostolado Católico, de outro, se lançaram no processo de renovação e de releitura do carisma palotino, cada um, porém, isolado do outro (Freeman. Num dinamismo de fidelidade, n. 23).

Na verdade, desde a sua juventude, Pallotti tinha se apaixonado pelo projeto de reunir os cristãos em diferentes grupos e associações onde os fiéis de qualquer estado e condição pudessem trabalhar juntos, para a glória de Deus e para a salvação das almas. Assim, por exemplo, em 1816, ele pensou em uma “união de eclesiásticos”, para formar um presbitério cheio de “padres seculares santos”, que deveriam viver e trabalhar juntos (cf. OO CC V, 416). Nos anos 1839-1846, ele convidou as empregadas domésticas a se unirem em uma pia união sob a proteção de Santa Zita (cf. OO CC V, 612-660), a fim de mostrar que todos os caminhos levam à santidade e que o cumprimento das mais simples tarefas pode também ser um apostolado. No quadro das Procuradorias, ele as convidava a “tirar proveito de todas as circunstâncias que se lhes apresentam, para promover nas próprias famílias a maior glória de Deus e a salvação das Almas” (OO CC V, 613). Participando, ele mesmo, de cinco Ordens Terceiras, incitou os outros cristãos a aderir a elas (cf. OO CC V, 708-713).

Em 1847, no contexto das Procuradorias e para responder ao apelo do papa Pio IX, Pallotti convidou o clero secular e regular a se organizar em uma pia União para cooperar na promoção da pureza da palavra, do pensamento e da ação (cf. OO CC III, 391-399). Por trás de todas essas iniciativas, havia uma ideia na cabeça de Pallotti. Ele queria que todos esses grupos e associações cooperassem no serviço à Igreja, se tornando “a parte central e motriz” da sua pia Sociedade do Apostolado Católico (cf. OO CC I, 4). Assim, por exemplo, ele buscou promover a fundação de comunidades compostas por padres e irmãos; de comunidades de padres que se preparavam para as missões estrangeiras (cf. OO CC IV 340-385); de comunidades de leigos que, livres de todos os negócios do mundo, desejavam levar uma vida cristã em comum (cf. OO CC V, 143; III, 230-233); de comunidades de religiosas enclausuradas ligadas por votos (cf. OO CC II, 555-559); de comunidades de leigas que se consagravam juntas à educação das órfãs.

Em 1839, durante sua permanência em Camaldoli, Vicente compôs, para todas essas comunidades, chamadas por ele de Santos Retiros, uma imensa Regra de 426 páginas, manuscritas, onde exprimia seu projeto de querer reunir, a serviço da mesma pia Sociedade do Apostolado Católico, as associações religiosas, os colégios, os seminários e os mosteiros, com o objetivo de “cooperar eficaz, frutuosa e ativamente, através da oração, do exercício da virtude cristã, das obras pessoais e de ministério eclesiástico, para o crescimento, difusão e propagação da piedade e da fé católica” (OO CC II, 1-2). Ele não visava a multiplicação de novas instituições na Igreja, mas que todos os cristãos trabalhassem juntos para a glória de Deus e a salvação das almas. Todas essas instituições deviam estar na e a serviço da Pia União do Apostolado Católico, sem uma conotação jurídica (cf.  OO CC XIII, 451).

As circunstâncias desfavoráveis

A partir de 1846, circunstâncias desfavoráveis ao primeiro projeto obrigaram Pallotti a concentrar suas forças na organização da Congregação dos padres e irmãos e a chamá-la de “alma e motor” de toda a União (cf.  OO CC III, 3-7). Pallotti confiou a ela a missão de portadora e realizadora do sistema das Procuradorias. O papel das religiosas do Apostolado Católico, analogamente ao dos padres e dos irmãos, consistia em animar a caridade e o zelo apostólico das pessoas de seu sexo nas comunidades religiosas e no mundo (cf. OO CC II, 555-558).

Mesmo lhes dando um papel de animadoras e inspiradoras do mundo feminino, Pallotti evita chamá-las de alma e parte motriz de toda a união. Isso porque Pallotti compreendeu que essa tarefa só podia ser assegurada por uma associação sacerdotal, naquele momento. De qualquer maneira, Pallotti não deixou de sublinhar cuidadosa e explicitamente a corresponsabilidade das irmãs no objetivo de toda a União. Nesse sentido, eis um texto que mostra a paridade das duas Congregações:

“Como a Congregação dos Padres foi fundada com o objetivo de animar sempre mais o clero secular e regular, para as obras do santo ministério evangélico, num sagrado vínculo de competitiva caridade e zelo e de animar todos, de todo estado, sexo, posição e condição para as obras de caridade e de zelo da maior glória de Deus e da salvação das almas, assim a Congregação das monjas institui-se para animar sempre mais a caridade e o zelo das pessoas religiosas e seculares do próprio sexo. Como os padres da Congregação devem estar dispostos a exercer qualquer obra do santo ministério, assim as monjas devem estar dispostas para qualquer obra de caridade e de zelo, principalmente no que se refere à educação cristã e cível das meninas pobres e à conversão e santificação das almas, mediante exercícios espirituais a pessoas de toda idade de sexo feminino” (OO CC II, 559).

Parece-nos que esse “como” e “assim”, repetidos duas vezes no texto, são um verdadeiro apelo de Pallotti a não marginalizar o mundo feminino da União do Apostolado Católico, pois também a elas foram confiadas a missão e a responsabilidade de ser “alma e motriz” da União. Mais tarde, em um esboço sobre a Congregação feminina, Pallotti precisa: “As regras delas serão substancialmente as mesmas da Congregação (dos Padres), com as análogas diversificações para as monjas. O mesmo se diga das constituições” (OO CC II, 558) vale para os leigos. No início da fundação, todos os que pertenciam à primeira classe, chamados de operários evangélicos, faziam parte do “corpo central e motriz” da União (OO CC IV, 270, 355, 399, 436; V, 47, 59,76).[6]

Depois de 1846, aconselhado pelo cardeal Lambruschini, Pallotti suprimiu e tirou do texto da Grande Regra de 1839 todas as passagens que classificavam os fiéis leigos entre os membros efetivos do corpo central e motriz da pia Sociedade. Foi justamente isso uma das maiores ambiguidades da fundação palotina.

Na verdade, Lambruschini, que conhecia o direito canônico mais do que Pallotti, sabia bem que a plena realização do projeto da União do Apostolado Católico era impossível naquele momento. Exigiria mudanças na própria estrutura da Igreja. Com efeito, o fato de confiar aos leigos responsabilidades na União não correspondia ao ensinamento da Igreja hierárquica da época, nem às convicções pessoais do cardeal. É certo que Lambruschini via algumas vantagens em engajar leigos como auxiliares do clero. Mas, não correspondia ao seu modo de pensar aceitá-los como parceiros que trabalham juntos, na União, para cumprir a missão apostólica da Igreja no mundo (cf.  OO CC IV, 1-2). O cardeal se esforçou em convencer Vicente a abandonar sua “visão profética” e se contentar com o que era factível, ou seja, a constituição e o estabelecimento de uma Congregação de padres e de irmãos. Parecia-lhe o melhor caminho para “salvar” toda a fundação. Era preciso esperar tempos mais maduros para relançar a ideia de uma fundação aberta a todos os cristãos.

Novo direcionamento da obra do apostolado

Lambruschini conseguiu seu intento, e Pallotti tomou uma nova direção. Isso se tornou mais claro em 1846, ano em que o cardeal, a pedido de Pio IX, foi encarregado de fazer a revisão da Regra para a Congregação do Apostolado Católico (cf. OO CC VII, 1-413). Para cumprir essa tarefa, recebeu de Pallotti não somente uma cópia da Grande Regra de 1839, já revisada, mas, também, um exemplar do escrito “Pia Società dell’Apostolato Cattolico” (OO CC I, 1-404). Depois de ter lido os dois textos, ele enviou a Pallotti o seu julgamento alguns meses depois: “A ideia é bela, o desenvolvimento é copioso, mas não me parece suficientemente preciso. As Regras preceptivas se confundem com as diretivas, e o fim, com o modo. E parece a mim que resplenda mais o modo do que a regra” (OO CC VII, XXIII).

Sem se dar conta da justiça de sua proposta, o cardeal Lambruschini tinha acertado. De fato, a União do Apostolado Católico era mais um “modo” cristão de viver do que um corpo jurídico. Mas, Pallotti tinha muita dificuldade de abandonar sua primeira visão da União e de redigir uma nova regra para a sua Congregação. Ele confiou esse trabalho a dois de seus companheiros, Francesco Vaccari e Enrico Ghirelli, que dominavam mais que ele a linguagem canônica. Lambruschini, da sua parte, não deseja o mal a Pallotti nem à sua fundação. Ele optou por fazer o que era possível nas dadas circunstâncias, tentando traduzir o pensamento de Pallotti nas categorias eclesiológicas e jurídicas de então. Mas, foi exatamente isso que limitou a fundação nas estreitezas do tempo. Consentindo, em detrimento de toda a União, a essa nova orientação, Pallotti consagrou seus últimos três anos de vida a consolidar a comunidade dos padres e dos irmãos e a das irmãs do Apostolado Católico. Trata-se, evidentemente, da Regra para a Congregação dos padres e irmãos coadjutores do Apostolado Católico. Essa regra foi revisada, em 1846, pelo cardeal e é conhecida como Cópia Lambruschini (cf. OO CC VII, 1-413).

Quando Pallotti morreu, a congregação tinha apenas doze membros. Eram oitos padres: Rafael Melia e Giuseppe Faá di Bruno, que estavam em Londres, Vaccari, Auconi, Orlandi, Bandiera e Ghirelli, que estavam em Roma, e Paul de Geslin, na França. Os irmãos eram três: Palombi, Alves e Toesca. Havia um só seminarista: Francesco Minelli. Nessa “mínima congregação” de Pallotti havia dois estrangeiros: um francês, Paul de Geslin, e um português, José Alves. Em 1854, a Santa Sé mudou o nome da congregação para Pia Sociedade das Missões. A partir desse momento, ela tomou uma direção muito missionária. Somente depois de um século, a fundação de Pallotti terá de volta o nome original: “Apostolado Católico”. Em 1947, a comunidade masculina assumirá o nome de Sociedade do Apostolado Católico. 

Para refletir

1.      Qual foi a maior dificuldade de Pallotti, para organizar a sua obra?

2.      Como podemos superar as possíveis ambiguidades existentes ainda no nosso tempo?

3.      O que a fundação do apostolado católico representa para toda a Igreja?

 



[1] Cf. OO CC X, 321s; F. AMOROSO, San Vincenzo Pallotti Romano, Postulazione generale, pp. 145-146.

[2] Cf. Paul RHEINBAY, Powstanie wspólnoty księży i braci w całokształcie Dzieła Apostolstwa Katolickiego Wincentego Pallottiego, p. 14-72.

[3] Domenico PISTELLA, L’apostolato dei laici in San Vincenzo Pallotti, Istituto di spiritualità, Pontificia Universalità S. Tommaso d’Aquino, Roma, 1983, p. 95.

[4] Cf. Séamus FREEMAN, Num dinamismo de fidelidade, nº. 16.

[5] Cf. Séamus FREEMAN, Num dinamismo de fidelidade, nº. 21.

[6] Os que puderem consagrar-se inteiramente à Direção e ao regulamento da pia Sociedade, reunidos em Comunidade bem ordenada pelo vínculo de competitiva e humilde caridade, sem formarem comunidade religiosa, poderão formar o corpo central e motriz da pia Sociedade.


sexta-feira, 9 de outubro de 2026


 

Tema 19: DEUS, O ENLOUQUECIDO DE AMOR

 “Deus amou tanto o mundo que deu o seu único Filho, para que todo aquele que nele crê não se perca, mas tenha a vida eterna” (Jo 3, 16). 

O amor é um dos temas mais complexos e profundos da experiência humana, sendo abordado por diferentes perspectivas ao longo da história: biológica, filosófica, psicológica e, sobretudo, espiritual. Para os santos, o amor não é apenas um sentimento, mas uma virtude teologal (cf. 1Cor 13,13) e uma decisão da vontade:

  1. São Bernardo de Claraval, no capítulo 1 de sua obra De Diligendo Deo via o amor como o peso da alma. Segundo ele: “a medida do amor é amar sem medida”. Ele ensinava que o amor deve ser ordenado, porque não há um limite prudente para o amor a Deus, pois Ele próprio é a razão infindável desse amor. Segundo São Paulo, em Gálatas: “Toda a lei se cumpre numa só palavra: Amarás o teu próximo como a ti mesmo” (Gl 5, 14).
  2. Santo Tomás resumiu o amor (caridade) como querer o bem do outro. É um ato da vontade que busca a perfeição do outro (cf. Suma Teológica III, q. 26, a. 4).
  3. Para Santa Teresinha, o amor é o que movimenta a Igreja, em sua famosa frase: “No coração da Igreja, minha mãe, eu serei o amor” (Obras completas: manuscritos autobiográficos. Manuscrito B, Edições Carmelo, 1996, p. 230), reflete a ideia de que todas as obras, por menores que sejam, só têm valor se feitas com amor.
  4. Segundo São João da Cruz, o amor purifica a alma: “No entardecer da vida, seremos julgados pelo amor”. Ou então: “É impossível chegar ao perfeito amor de Deus, sem uma visão perfeita de Deus” (Cântico espiritual B, 38, n. 5).
  5. São Vicente Pallotti, por sua vez, trouxe uma perspectiva muito específica e dinâmica sobre o amor, fundamentada na ideia de caridade infinita (cf. Vicente Pallotti. As luzes, 113-132). Para ele, o amor não era um conceito abstrato, mas a própria essência de Deus agindo no mundo. Ele contemplava Deus essencialmente como amor e caridade. Ele acreditava que, como fomos criados à imagem e semelhança de Deus, nossa maior vocação é sermos “caridade” no mundo. Ele frequentemente usava a expressão: “Caritas Christi urget nos”! (“A caridade de Cristo nos impele” – 2Cor 5, 14).

Para Pallotti, o amor é operante, é diferente de uma contemplação passiva, o amor para ele é apostólico. Ele defendia que o amor deve se transformar em ação concreta, para reavivar a fé e reacender a caridade em todos os membros do povo de Deus. Não existe amor a Deus que não se desdobre em serviço ao próximo. Ele ensinava, também, que o amor tem o poder de transformar a miséria humana. Por isso, buscava ver a imagem de Deus em cada pessoa, especialmente nos mais pobres e marginalizados, tratando-os com a mesma reverência com que trataria o próprio Cristo.

O toque do amor de Deus

Quem foi tocado pelo profundo amor de Deus, nunca mais será o mesmo. Olhando para a história da Igreja, encontramos inúmeras pessoas que tiveram suas vidas transformadas, depois de um encontro pessoal com o Senhor. Podemos destacar a conversão de Santo Agostinho, que depois de descobrir Deus em sua vida, exclamou: “Tarde te amei, beleza tão antiga e tão nova, tarde te amei! Tu estavas dentro de mim e eu te buscava fora. Estavas comigo, mas eu não estava contigo...” (Confissões, Livro X, 27). Da mesma forma ocorreu com os apóstolos, quando partiram desanimados com a ausência física de Jesus e já estavam voltando para as suas velhas e conhecidas labutas diárias, a pesca (cf. Jo 21, 1-3). Mas, sem Jesus, a pesca fracassou e, somente, com presença d’Ele, na beira do lago, fez com que tudo mudasse. Somente aquele que tinha contato mais direto com o Mestre, João, percebeu logo quem era aquele que estava à beira do lago: “É o Senhor!” (Jo 21,7).

São Vicente Pallotti, também, foi um desses que, ao sentir o amor de Deus em sua vida, expressou: “Perdoe-me se ouso dizer que sois o louco de amor, e de misericórdia para comigo, pois, em cada momento e sempre, desde toda a Eternidade pensa em mim e derrama sobre mim infinitas inundações de graças, de favores, de dádivas e de misericórdias...” (OO CC X, 235; V. Pallotti. As luzes, p. 121). Com essa experiência, a sua vida tornou-se um reflexo desse amor. Da mesma forma que Deus ouviu o clamor do povo, viu o sofrimento deles e desceu (Ex 3,7), assim, também Pallotti, diante das enormes necessidades do mundo e da Igreja sentiu-se impelido a fazer algo, para cooperar com a salvação das pessoas, por amor.

Nele apareceram os mesmos sentimentos de Cristo, o Apóstolo do Pai eterno. O Espírito Santo fez com que ele penetrasse profundamente no coração do Cristo e fizesse seus os sentimentos do próprio Cristo, Apóstolo e bom Pastor. A exemplo de Cristo, que era tomado de compaixão diante dos homens enfraquecidos e abatidos, como ovelhas sem pastor e sujeitos a muitíssimas fraquezas (cf. Mt 9,35s); Vicente Pallotti era tomado de grandíssima e profunda compaixão pelos que se encontravam mergulhados nas trevas do erro e desconheciam, totalmente, Jesus Cristo Salvador.

Ele sentia uma enorme compaixão por aqueles que deixavam este mundo sem fé ou com uma fé morta, porque não foram animadas pela caridade e, por isso mesmo, expostos às terríveis consequências que a própria fé ensina. Ele era incapaz de olhar com indiferença para tantos irmãos ameaçados de perder-se para sempre, mas era impelido, pela caridade de Cristo, a orar e a socorrer, com as obras, o mundo necessitado de salvação. Desejava, ardentemente, que todo o mundo fosse reconduzido a um só rebanho e um só pastor (Jo 10,16). A exemplo de Cristo, queria dar-se por inteiro a todos, a fim de reconduzir todos ao rebanho de Cristo. Queria evangelizar a todos, anunciar a todos a boa nova, ajudar a todos, especialmente os mais necessitados, como manda a caridade cristã (cf. Apostolicam Actuositatem, 8).

A exemplo de Cristo, que ordenou pedir ao Pai a multiplicação dos operários evangélicos, Pallotti desencadeou um movimento de oração, na Igreja, em favor da multiplicação dos operários evangélicos e da sua formação e sustento. Guiado pelo Espírito Santo, ele compreendeu os sentimentos de Cristo e penetrou no sentido mais profundo da palavra de Deus e entendeu que, toda a Igreja e todos os seus membros, estão chamados a se empenharem na continuação do apostolado de Jesus Cristo ou no prolongamento da sua missão no mundo.

Para ele, empenhar-se na salvação do mundo, é missão de toda a Igreja e de cada um dos seus membros. Ele compreendeu que Deus quer que o homem coopere ativamente na salvação eterna do seu próximo. Não apenas os ministros ordenados, mas também todos os cristãos estão chamados a cooperar, eficazmente, na propagação da fé no mundo inteiro e, por isso, a ajudar o próximo a conseguir a sua felicidade eterna. Em outras palavras, somos todos obrigados a ajudar-nos uns aos outros a alcançar o céu.

O Papa Francisco, na Encíclica Evangelii Gaudium (EG), números 272 e 273, reflete sobre o ser missionário. Segundo ele: “O amor às pessoas é uma força espiritual que favorece o encontro em plenitude com Deus... Portanto, quando vivemos a mística de nos aproximar dos outros com a intenção de procurar o seu bem, ampliamos o nosso interior para receber os mais belos dons do Senhor. Cada vez que nos encontramos com um ser humano no amor, ficamos capazes de descobrir algo de novo sobre Deus...” 

Segundo o Papa, “a tarefa da evangelização enriquece a mente e o coração, abre-nos horizontes espirituais, torna-nos mais sensíveis para reconhecer a ação do Espírito, faz-nos sair dos nossos esquemas espirituais limitados. Ao mesmo tempo, um missionário plenamente devotado ao seu trabalho experimenta o prazer de ser um manancial que transborda e refresca os outros. Só pode ser missionário quem se sente bem, procurando o bem do próximo, desejando a felicidade dos outros”.

O número 273 da Evangelii Gaudium acrescenta: “A missão no coração do povo não é uma parte da minha vida, ou um ornamento que posso pôr de lado; não é um apêndice ou um momento entre tantos outros da minha vida. É algo que não posso arrancar do meu ser, se não me quero destruir”. E, assim, concluiu o Papa: “Eu sou uma missão nesta terra, e para isso estou neste mundo”.

Pallotti tinha a convicção de que, embora Deus, por si mesmo, pudesse num instante reavivar a fé e reacender a caridade entre os católicos e dar-se a conhecer e amar a todos os que estão no mundo. Ele não costuma fazê-lo no curso ordinário da sua providência, pois quer que o homem coopere na medida das suas forças para a salvação das almas. Ao fazê-lo, ao tirar proveito de todos os dons que ele recebe de Deus como autor da natureza e da graça, o homem se torna sempre mais semelhante a Deus. Porque todos os homens, segundo a realidade da sua criação, são uma imagem da caridade por essência, pois Deus ordenou que cada um se interesse pelo seu próximo. E se isso é verdadeiro quanto aos bens do corpo de nosso próximo, com maior razão o é quanto ao bem da alma, que é a vida eterna.

Para Pallotti, portanto, todos os homens, pelo fato de serem imagem e semelhança de Deus (cf. Gn 1,26), devem empenhar-se em ajudar o próximo a conseguir a vida eterna, pois Deus em todas as suas ações voltadas para fora procura sempre o bem do homem, até ao ponto de enviar o seu único Filho, para redimir o gênero humano com sua morte na cruz. Diz Pallotti: “Deus é perfeito no amar o homem. Desde toda a eternidade o amou, vendo-o na sua infinita presciência e ama o homem por toda a eternidade. E pelo homem obra sempre no tempo com a criação, conservação, redenção, e na eternidade com a glorificação”. Também o homem, na medida das suas possibilidades, deve imitar a Deus amando a seu próximo com a eficácia das obras. E o próximo é todo ser humano, de qualquer condição, clima, nação etc., capaz de conhecer a Deus. À pergunta: “Quem é meu próximo?” (Lc 10, 25-37). Jesus apresenta a figura do Samaritano. Nossa missão é de mostrar que somos originais e não fotocópias, como nos ensina São Carlo Acutis.

Somos corresponsáveis pela salvação do mundo

A obrigação de contribuir para a salvação eterna do próximo, é vista por Pallotti, no mandamento novo, ensinado por Jesus: “Amar o próximo como a si mesmo” (Mt 22, 39). Ora, haverá quem não saiba que se a gente não observar o preceito da caridade não alcançará a salvação eterna? Por isso, a menos que alguém raciocine como louco, terá que admitir que todo que habite esta terra, em seu estado, condição, posição, dignidade, cultura, talentos, arte, profissão, relações, deverá, na medida de suas forças, procurar efetivamente a salvação eterna do próximo. Porque, todo bem que temos de Deus é para ser usado, ao mesmo tempo, para a sua glória e para a salvação da alma, da própria e da do próximo. Também o uso dos bens terrenos deve ser ordenado para o verdadeiro bem do espírito, como ocorria na comunidade dos primeiros cristãos (cf. At 4, 32).

Para São Vicente Pallotti, a definição de Deus não se limitava a atributos metafísicos de onipotência ou justiça. Para ele, Deus é essencialmente “Amor Infinito”. A expressão “Enlouquecido de Amor” captura a intensidade de um Criador que rompe as barreiras da lógica humana, para buscar a sua criatura. Para ele, a criação não foi um ato de necessidade, mas um impulso de generosidade “louca”. Deus, sendo perfeito e pleno em si mesmo, não precisava de nada. No entanto, o seu amor é tão pulsante que ele “precisava” criar seres para partilhar a sua felicidade. É Loucura pelo fato de criar seres livres, sabendo que essa liberdade poderia ser usada para rejeitá-Lo. É o risco total por amor.

O ápice da visão de Pallotti encontra-se no mistério de Jesus Cristo, que ao assumir a fragilidade de um recém-nascido e a pobreza de uma manjedoura é, para ele, a prova definitiva de que Deus perdeu a “compostura” divina por nós. Ele contempla, em seus escritos, a humildade de Deus como uma forma de embriaguez espiritual. Deus se faz pequeno, para que o homem não tenha medo de se aproximar dele: “Sendo ele de condição divina, não se prevaleceu de sua igualdade com Deus, mas aniquilou-se a si mesmo, assumindo a condição de escravo” (Fl 2, 6-11). 

O excesso do sacrifício de Cristo

Se o mundo considera a Cruz um escândalo ou uma loucura (1Cor 1, 18), Pallotti a vê como o momento em que o “Enlouquecido de Amor” entrega tudo. Não bastava a Deus perdoar; Ele quis sofrer conosco, pois Ele é a Caridade Infinita. Pallotti enfatiza que cada chaga de Cristo é uma boca que grita o quanto Deus nos ama. Ele não economizou sangue nem dor, revelando um coração que não sabe amar com medidas ou cálculos. A história da salvação não terminou no Calvário. Para Pallotti, a Eucaristia é a continuação dessa “loucura”. Deus se esconde sob as espécies do pão e do vinho, para ser alimento e companhia constante. A resposta humana a esse amor enlouquecido deve ser, segundo Pallotti, o apostolado. Se Deus nos ama sem limites, o batizado deve, também, tornar-se um apóstolo que utiliza todos os meios para que o mundo conheça esse Amor Infinito.

Meu Deus, quem sou eu e quem sois Vós?

Diante da grandeza de Deus na vida humana, Pallotti não separava Deus do homem, e perguntava: “Meu Deus, quem sois Vós, e quem sou eu diante de Vós”?  A visão que Pallotti tem de Deus é trinitária. O mistério de Deus na sua dimensão trinitária serviu como impulso inicial para a sua vida espiritual. O mistério da comunhão trinitária lhe serve igualmente como modelo perfeito da colaboração na salvação das almas, porque aquilo que se realiza perpetuamente no seio da Trindade, transborda e se revela também na história da salvação (Stawicki, in Horizontes Palotinos, vol. II, p. 628).

Para ele, Deus é o seu Tudo. Ele usa esse termo, para dizer que qualquer nome é insuficiente para defini-Lo. Ele vai além, em momentos de profunda oração: “Meu Deus, perdoa-me se ouso dizer: sois o louco de amor e de misericórdia para comigo” (OO CC X, 235 e 237).

Em 1849, alguns meses antes de sua morte, com uma espiritualidade mais amadurecida, escreveu um opúsculo, quando estava refugiado no Colégio irlandês, por causa de perseguição política: “Deus, amor infinito” (OO CC XIII, 25-171). Esse opúsculo representa o grito de um homem que, em sua vida, fez a experiência do amor e da misericórdia de Deus e, ao mesmo tempo, o gemido de um peregrino entristecido pelo fato que a sua imagem, isto é, a sua transformação no amor é muito lenta. Apesar do título: Deus amor infinito, escreve repetidas vezes: “Deus, misericórdia infinita”, pois, para ele, Deus é amor infinito atuante, ou seja, a Sua misericórdia é o excesso do amor incompreensível. Via, ainda, que a misericórdia é a invenção do amor de Deus (cf. OO CC XIII, 129). No texto aparecem 190 vezes a expressão: Deus, amor infinito e 230 vezes, misericórdia infinita (Stawicki, in Horizontes Palotinos, Vol. II, p. 630).

Ele chama a misericórdia de Deus de excesso do amor infinito de Deus. A misericórdia enche o abismo do seu nada e transforma a sua incapacidade em plenitude de vida. Eis o resultado da experiência do amor de Deus confessado por ele, com a expressão: “eu senti”. “Eu senti que o prodígio de misericórdia, que a infinita misericórdia realizou em mim, eu deveria desejá-lo a todos os demais” (cf. OO CC XIII, 322).

Essa experiência da misericórdia trouxe duas consequências em sua vida: o renascer interior e a abertura apostólica. Esse renascer interior é fruto total da misericórdia e não o resultado dos seus esforços pessoais. Quanto a abertura apostólica, o miserável tornar-se-á apóstolo da misericórdia. Essa é a passagem do nada ao tudo. É também a passagem do amor para a misericórdia, isto é, do amor que atua e faz do místico um apóstolo. Em linhas gerais, esta foi a experiência tida por Pallotti, que o inspirou e sustentou durante toda a sua vida a ponto de dizer: “Meu Deus, quem sou eu diante de Vós”? “Eu não Vos conheço como deveria conhecer, porque se Vos conhecesse como deveria, Vos amaria, seria completamente desapegado do mundo, seria todo Vosso... viveria tudo por Vós, faria tudo a fim de promover os interesses da Vossa maior glória e para a maior santificação de todas as pessoas” (OO CC X, 466; 467; 468). Porém, para conhecer Deus, o ser humano precisa conhecer a si mesmo, necessita ter consciência de ter sido criado à imagem de Deus, pois ele sabe da malícia e da maldade do coração humano (cf. OO CC X, 682-737).

Pallotti vê o homem como uma grandeza única, porque criado à imagem e semelhança de Deus, é chamado a ser filho e herdeiro de Deus, enriquecido de tantos bens e, ao mesmo tempo, é uma miséria indizível. Mas, se Pallotti ressalta, sem piedade, a corrupção do ser humano e o seu pecado, o faz para salientar o amor infinito, incondicional e misericordioso de Deus. Em outras palavras, segundo a antropologia palotina, o ser humano não é separável de Deus, da mesma forma que a sua grandeza e a sua miséria são dois aspectos inseparáveis (Stawicki. In Horizontes Palotinos, Vol. II, p. 633).

Para Pallotti, o orgulho é que impede o ser humano de conhecer-se e de saber quem é ele diante de Deus. Sobre o orgulho, escreveu: “Eu sou um verdadeiro orgulhoso, eu tenho um orgulho perverso... Vós sabeis quantas vezes fomentei o meu orgulho com respostas equivocadas, destinadas a não revelar minha ignorância sobre todos os assuntos, mesmo naqueles em que fui obrigado a ser educado, enquanto eu sou o primeiro ignorante sobre todos os assuntos” (OO CC X, 234; São V. Pallotti. As luzes, p. 120).

Por outra lado, o que o ilumina na descoberta de sua autoestima e seu autoconhecimento é a misericórdia de Deus (cf. OO CC X, 471). Por isso, Pallotti pede a humildade, pois, ela parece-lhe como remédio mais eficaz contra o orgulho (cf. OO CC XI, 359-360).

Para entrarmos na espiritualidade de Pallotti, precisamos de duas chaves. A primeira é a da união transformante da qual fala São João da Cruz. Porque a pessoa se torna divina, se torna Deus por participação. No caso de Pallotti, o Deus que é amor infinito desperta na alma o desejo de união com Ele. Esse é o dom primeiro na alma de Pallotti, como o é em todos os que experimentam Deus. Ele escreve: “Dilatai, ó Senhor, em cada momento infinitésimo, os meus desejos de Vós...” (OO CC X, 103); mas, essa transformação não funciona sem a segunda, a humildade, que é a capacidade de reconhecer a matéria que deve ser transformada, o homem do pecado (V. Pallotti. O Deus, amor infinito, p. 202; 210).

Portanto, para que todos nós possamos deixar Deus ser Deus em nossas vidas, é preciso ter essa mesma humildade que Pallotti teve de se reconhecer o maior dos pecadores, para atrair a si o amor infinito e misericordioso daquele que nos “amou até o fim” (Jo 13, 1).

 Para refletir

1.      Você concorda com Pallotti que Deus age de maneira desmedida só por amor?

2.      Como o ser humano pode corresponder ao amor infinito que Deus tem por cada um de nós?

3.      O que este texto trouxe como provocação para a sua vida de fé?

 

sábado, 3 de outubro de 2026


 

Tema 18: PALLOTTI: CONTEMPLATIVO NA AÇÃO

Quando entramos no aspecto pessoal da espiritualidade de São Vicente Pallotti, é perceptível que ele, ao longo da sua vida, rompeu com a dicotomia que havia entre o sagrado e o profano. Para o, assim chamado, “Apóstolo de Roma”, a contemplação não era um momento para refugiar-se do mundo, mas, sim, o combustível para transformá-lo em um verdadeiro orante. Ser um contemplativo na ação significava buscar a face de Deus, não apenas no silêncio da capela, mas nas feridas dos enfermos e na fadiga dos trabalhadores, transformando cada gesto de caridade em uma liturgia viva. Esse seu modo de ser e de agir imprimiu no carisma palotino uma busca incessante pela unidade das pessoas entre si e em relação a Deus. A expressão “contemplativo na ação” define o equilíbrio entre o ora et labora (reza e trabalha), onde a contemplação não é um estado de passividade, mas a força motriz que impulsiona o apostolado. Vicente Pallotti compreendeu que, se Deus é amor infinito e ação constante, o apóstolo deve imitá-Lo unindo a oração interior ao serviço concreto ao próximo.

Pallotti, mesmo pertencendo ao clero diocesano, conseguiu destacar-se tanto pelo espírito de oração, como pela contemplação dos santos mistérios de Deus, concretizado na pessoa de Seu Filho Jesus Cristo. O que relatamos aqui, não é somente baseado nos testemunhos sobre a sua vida, mas, principalmente nos baseamos em seus escritos espirituais, iniciados em 1816, quando tinha apenas 21 anos de idade. Embora fosse jovem, ele demonstra ter profundidade, maturidade espiritual e intelectual.

A experiência do amor de Deus em Pallotti era tão forte que, não encontrando palavras para expressar o que sentia, repetia muitas vezes as mesmas palavras: Deus, Deus, Deus, Deus, ou Misericórdia, Misericórdia, Misericórdia, como aparece em muitas partes de seus escritos. Segundo o Padre Achylle Rubin, Pallotti poderia ter orado em línguas, conforme a explicação desse dom feita por Santo Agostinho. Esse Padre da Igreja falava do júbilo que brota do coração, quando não se tem mais palavras para expressar a imensa alegria do amor de Deus.

Agostinho viveu em uma época em que o fenômeno, tal como descrito no dia de Pentecostes, já não era comum na Igreja. Por isso, ele desenvolveu uma interpretação eclesiológica e simbólica sobre o tema. Ele argumentava que o milagre de Pentecostes era um sinal temporário, para demonstrar que o Evangelho deveria ser pregado em todas as línguas. Para ele, a Igreja agora fala todas as línguas do mundo.

Portanto, quem está na unidade da Igreja “fala em línguas”, pois faz parte de um corpo universal que louva a Deus em todos os idiomas (Tratado VI, 10. Comentário à Primeira Epístola de João (In Epistulam Ioannis ad Parthos). Sermões 267, 268 e 269). Ele enfatiza que o verdadeiro sinal do Espírito Santo não é o som das línguas, mas a caridade e a unidade da Igreja.

Quando analisamos friamente a ação da graça na vida de Pallotti, fica a impressão de que era fruto da sua determinação constante e disciplinada de oração. Mas, ele mesmo responde com suas próprias palavras, quando repete em inúmeros textos sobre a misericordiosa ação de Deus em sua vida, sentindo-se indigno de tão grande amor: “Por mim, nada posso, com Deus, posso tudo”. Ele tinha plena consciência de que, por si mesmo, não conseguia se santificar, porque se sentia nada e pecado. No entanto, confiava na incrível e infinita misericórdia de Deus que destruía toda a sua miséria.

Em diversas passagens de seus escritos espirituais, ele apresenta ter sentido a presença ou a ação de Deus nele.  Por isso, ele queria, em todas as suas ações, como a dos outros, que Deus fosse glorificado. Isto podemos ver também em Santa Teresinha, que caminhava pela mesma direção, quando, em sua extraordinária e divina simplicidade, dizia sobre a oração: “Para mim, a oração é um impulso do coração, um simples olhar lançado ao Céu; é um grito de agradecimento e de amor, tanto no meio da provação quanto no meio da alegria; em suma, é algo grandioso, sobrenatural, que me expande a alma e me aproxima de Jesus” (História de uma alma).

Para Pallotti, sentir-se infinitamente amado por Deus o levava a desejar amar infinitamente Aquele que o amou primeiro. Pelos seus escritos, percebemos como ele se relaciona com seu Amor infinito e isso nos dá uma clara ideia da ternura, da confiança e da intimidade que ele experimentava. Ele se refere a Deus, em seu primeiro escrito, dizendo: “meu bom Pai Celeste”, ou “meu Pai amorosíssimo e infinitamente perfeito”, “meu terníssimo e amorosíssimo Pai”. Essas expressões não eram comuns na sua época e tal linguagem revelava que ele tinha uma relação íntima e profunda, assim como Jesus teve ao dizer “Abba”, Pai. É a linguagem dos apaixonados, dos enamorados, dos loucos de amor, daqueles que creem e vivem a “loucura da cruz”.

Rezar com a imaginação

Um detalhe importante a ser notado nos escritos de Pallotti é o modo como ele recorre à imaginação como método para rezar, para estar em oração. Assim escreveu: “onde quer que eu esteja, quero imaginar-me no Cenáculo, com Maria e os Apóstolos”, para sentir-se inundado pelo Espírito Santo e receber seus dons, para que Ele e todas as criaturas louvem a Deus. Ele também recorria à imaginação quando escreveu: “Eu me imagino no seio de Deus, nas chagas de Jesus, onde recebo uma grandíssima abundância de graças para a santificação. Eu me imagino ainda no seio de Maria Santíssima...”. Isto deixa a impressão de que ele empregava o método inaciano de composição de lugar.

Este seu método demonstra que estava inundado de amor, compenetrado a tal ponto que se imaginava estar com a pessoa amada. Santa Teresa de Ávila também o utilizava e o recomendava no “Livro da Vida”, a usar a imaginação para nos aproximarmos e nos entusiasmarmos mais com Deus, com o Evangelho, para excitar em nós o desejo de Cristo. Imaginar-nos como os protagonistas das parábolas de Jesus e, assim, poder recuperar a visão, caminhar e, acima de tudo, voltar correndo para a casa paterna e nos deixar abraçar e encher de beijos, por nosso amadíssimo e terníssimo Pai-Deus.

Pallotti quer que toda a sua vida seja tomada por Cristo: “Seja destruída toda a minha vida e toda a vida de Cristo seja a minha vida. A vida de Jesus Cristo seja a minha meditação, o meu estudo, um adorno para a Igreja em minha pessoa. A oração de Cristo seja a minha oração, a palavra de Cristo seja a minha palavra, a caridade de Cristo seja a minha caridade. O amor de Cristo para com a Virgem Maria seja o meu amor para com ela” (OO CC X, 618-625). Usava também muito esta expressão: “Não quero nada senão Deus: nada, nada. Meu Deus, tudo, tudo, tudo. Só Deus; só, só Deus” (OO CC X, 68).

Essa abertura ao chamado de Deus, esse querer que Deus seja tudo em sua vida, implica, por vezes, sofrimento, solidão e dor. É o caminho que os grandes santos e profetas percorreram e que também nosso fundador percorreu. Em “Noite Escura” e “Cântico Espiritual”, São João da Cruz descreve todas as etapas no caminho da vida espiritual, as etapas na subida ao monte de amor que é Deus. Primeiramente, a alma sente com muita intensidade a presença divina e despertam desejos ardentes de Deus. Ela se entrega à vida espiritual e começa a experimentar profundos sofrimentos, que são chamados por São João da Cruz de “divinas feridas” e sofrimento de “pena da ausência de Deus”. Estes momentos são os que encontramos em seu testamento espiritual quando ele escreve:

“Passados poucos dias... Deus, em sua infinita misericórdia, passou a visitar-me com tais e tão dolorosas tribulações e a fazer-me sentir tão vivamente o peso delas, que, em minha miséria, cheguei a crer que eram maiores que as tribulações de todos os anos da minha vida passada. No que diz respeito a isso, Nosso Senhor Jesus Cristo se dignou em derramar em meu pobre e ingratíssimo coração, vivo sentimento de confiança de que o tempo de sofrimento seria o mais oportuno para receber as luzes de Deus” (Testamento Espiritual. Regras Fundamentais).

É impressionante ver como Pallotti buscou realizar em sua vida o amor de Deus. Ele tentava fazer com que as suas obras, as palavras, os sentimentos e os pensamentos fossem dirigidos ao Criador de forma plena e permanente. Dar sempre glória a Deus, infinitamente. Isso nasceu da consciência que nosso santo teve do amor gratuito, imenso e até “exagerado” de Deus por ele, que se sentia tão indigno de tamanha graça, tão limitado para corresponder a tanto amor.

É por essa razão que Pallotti, com sua vida, tenta, na medida do possível, agradecer ao amor infinito do qual se sente objeto. É por isso, então, que o que moverá Pallotti em seu apostolado é a caridade. A consequência imediata de sentir o amor de Deus é praticá-lo com os irmãos, é anunciá-lo, para que todas as criaturas cheguem ao Pai e todas O louvem e vivam com Ele para sempre. Isso é o que move o seu desejo de reascender a fé e reavivar a caridade. Segundo ele: “Para poder realizar, por amor a Deus, o menor dos atos de caridade para com o próximo, eu me jogaria até mesmo nas chamas do inferno, desde que o possa fazer com a graça de Deus” (Propósitos e aspirações, n. 205, p. 90). Este seu diálogo com Deus parece ilógico para nós, mas esta é a forma como um místico expressa o seu amor para com Deus. Anos mais tarde, Santa Teresinha dirá o mesmo: “iria ao próprio inferno para conseguir que um dos condenados louvasse a Deus. São os arrebatamentos dos apaixonados por Cristo.

O hino da caridade

Quando Pallotti começa a infundir seu carisma na obra nascente, ele escreve como deve ser o método a seguir nas assembleias e recomenda que se leia, como introdução, o hino à caridade de São Paulo (1Cor 13). Assim dizia ele: “Já que a piedosa Sociedade está fundada e instituída na caridade e para promover em todos os fiéis de qualquer estado, classe, grau, sexo e condição o mais perfeito e ativo exercício das obras de caridade e de misericórdia, para a maior glória de Deus e de sua Santíssima Mãe Imaculada e para a maior santificação dos povos, por isso, todos devem estar sempre animados pelo verdadeiro espírito da mais perfeita caridade”. É impressionante ver como Pallotti buscava realizar em sua vida o amor de Deus.

Diante dessa sua profunda experiência com Deus, surgiu nele o desejo de praticar as obras de misericórdia, até porque, para ele, Deus é misericórdia infinita:

“Tenho confiança muito grande em que Deus não deixará de assistir-me com abundância de suas graças por sua bondade infinita e compaixão para com a minha miséria. Eu desejaria estar permanentemente nos hospitais, nas prisões, encontrar-me sempre em todos os lugares da terra para atender às necessidades dos pobres e às enfermidades dos doentes, ensinar aos ignorantes a verdadeira ciência dos santos, fazer com que príncipes, soberanos, reis, grandes e pequenos, nobres e plebeus e todas as criaturas com perfeição infinita conheçam, amem e sirvam a Deus, meu Pai, meu Tudo, meu Bem; assim, gostaria de realizar coisas infinitas por Deus Uno e Trino; e tudo isso de forma tal que eu não seja visto senão por Deus; e como é impossível realizar tudo isso, ofereço ao Senhor, nosso Pai Celeste, os merecimentos e orações de todas as criaturas, especialmente de Jesus e de Maria, para cumprir em parte o mandamento da caridade para com os próximos, meus irmãos, e para com Deus. Eu disse em parte, porque gostaria de fazer mais, uma vez que “tudo posso naquele que me conforta” (Fl 4,13); (Propósitos e aspirações, n. 176, pp. 78-79).

Continua ele: “Em cada uma das minhas ações, mesmo as mais insignificantes, procurarei considerar como de grande importância e realizar com perfeição sempre confiante nos merecimentos do meu mais que amadíssimo Jesus e da minha mais que afetuosíssima Maria, dos anjos e dos santos” (Propósitos e aspirações, n. 141, p. 65).

Propósito de estar sempre no cenáculo

Tenho a firme esperança de que pelos méritos dos santos, dos anjos, de Maria e de Jesus, Deus em sua bondade derramará fartamente sobre mim a graça que santifica e faz operar coisas grandiosas para a glória de Deus, e infundirá em mim altíssimos graus de santidade e perfeição. Tenho confiança de que o Senhor e Pai afetuosíssimo me concederá tal graça, sendo tão grande a minha confiança, tenho a impressão de tê-la recebido já. Espero tornar-me santo como Deus quer, não por obras minhas, mas por graça do Senhor, o qual a cada momento pode instilar nas almas altos graus de santidade.

Por isso, em qualquer lugar em que eu estiver, procurarei imaginar-me que eu mesmo e todas as criaturas estamos no Cenáculo de Jerusalém, onde os apóstolos receberam o Espírito Santo; e esse pensamento eu renovarei frequentemente. Como os apóstolos lá estavam, juntamente com Maria Santíssima, assim, eu também, imaginarei estar junto com a minha mais que encantadora mãe Maria e com o mais que amado esposo de minha alma Jesus, os quais eu tenho certeza de que, como meus particularíssimos advogados, farão descer sobre mim e os outros a abundância do Espírito Santo (Propósitos e aspirações, n. 81 e 82, pp. 48-50).

Em suma, a trajetória de Vicente Pallotti revela que sua eficácia apostólica não era fruto de meros esforços humanos, mas o transbordamento de uma vida profundamente mergulhada em Deus. Ao unir a oração contemplativa, marcada pelo uso da imaginação e pela consciência da própria pequenez, a uma caridade operante, Pallotti demonstrou que ser um “contemplativo na ação” significa permitir que o amor de Deus seja o motor de cada gesto. Sua herança espiritual convida-nos a retornar constantemente ao “Cenáculo”, para que, fortalecidos pelo Espírito Santo e impulsionados pela caridade de Cristo, possamos ser instrumentos da misericórdia divina no mundo, buscando sempre e em tudo a Sua infinita glória.

Vicente Pallotti como contemplativo, orante, personifica o equilíbrio perfeito entre a mística e a missão. Sua espiritualidade, fundamentada na confiança absoluta na Providência e na imitação da vida de Jesus, não o isolou do mundo, mas o lançou com ardor ao serviço dos mais necessitados. Para ele, a oração e a ação eram faces da mesma moeda: o amor a Deus que se concretiza no amor ao próximo. Ao propor que todos, independentemente de seu estado ou classe, fossem apóstolos animados pela caridade, trouxe uma nova aurora para a Igreja. Por isso, seguramente, podemos afirmar que, o grande legado que ele deixou foi a certeza de que não podemos vier sem a unidade e o zelo apostólico. O seu testemunho de vida nos ensina que o segredo da santidade reside na humildade de reconhecer que “nada podemos sem Deus”, mas que, com ele poderemos fazer grandes coisas. 

Para refletir

1.     Como podemos transformar as nossas atividades cotidianas em uma oração contínua, sem nos isolarmos do mundo?

2.     Pallotti utilizava o método da imaginação, para aprofundar sua intimidade com Deus. Como isso pode ajudar em sua oração?

3.     Se a “caridade de Cristo nos impele”, é possível ser um verdadeiro contemplativo sem estar engajado em ações de misericórdia para com o próximo?

sábado, 26 de setembro de 2026


 

Tema 17: A FORMAÇÃO SACERDOTAL DE PALLOTTI 

São Vicente Pallotti pertencia ao clero de Roma. Para que possamos conhecer melhor o seu processo formativo, como sacerdote, é preciso saber como era a situação do clero romano naquela época e como acontecia a sua formação cultural, intelectual e espiritual.

Uma pesquisa histórica feita por Pietro Stella sobre o clero romano, no século XIX, revela que na primeira metade do século XIX verifica-se um desenvolvimento, no campo formativo, com a presença de novas tendências, ou seja, o clero apresentava ter maior preocupação com os trabalhos pastorais e espirituais do que com as coisas temporais.

No campo da formação espiritual aparece o modelo do sacerdote bom pastor, disposto a guiar e a defender as ovelhas perdidas, principalmente no que se refere ao enfraquecimento da prática religiosa. Dá-se maior ênfase também à questão intelectual, com boas bibliotecas, contendo obras que auxiliassem na pregação, na catequese, na apologética, vida dos santos para cada dia do ano, subsídios devocionais, história sagrada, tratados elementares e ecléticos de teologia, manual prático de moral. Isso é possível constatar, no quarto de Pallotti, acima da sua cama, um amplo quadro com as festas litúrgicas durante o ano.

A formação sacerdotal daquele período, do ponto de vista espiritual, era conforme o modelo jesuítico, nutrida pela meditação, exame de consciência, exercícios de piedade e da prática dos sacramentos. Em geral, pode-se afirmar que o clero romano, no tempo de Pallotti, tinha uma boa formação sacerdotal, e ele fazia parte deste elenco.

Formação de Pallotti, antes da ordenação sacerdotal

O jovem Vicente Pallotti iniciou os seus estudos por volta de 1804, frequentando a escola fundamental, na via dei Cappellari e depois no Colégio de São Pantaleão dos padres Escolápios. De 1809 até o verão de 1814, frequentou o Seminário Romano que, após a supressão dos jesuítas, em 1773, no difícil período de ocupação napoleônica, foi confiado a um grupo de sacerdotes diocesanos. No Seminário Romano, o adolescente Vicente fez os seus primeiros estudos humanísticos, onde se familiarizou com os clássicos latinos e gregos.

A última etapa da sua formação de filosofia e de teologia, que o conduziu ao sacerdócio, no dia 16 de maio de 1818, aconteceu na Universidade Romana Sapienza. Naquele tempo, a Sapienza oferecia cursos de teologia, filosofia, medicina, direito e letras. A maioria dos professores pertencia ao clero regular e secular. O ambiente acadêmico e espiritual da Sapienza era muito bom. A vida universitária ajudava os estudantes a cultivar a vida espiritual. De segunda a sexta-feira, o estudante Pallotti, como todos, assistia às aulas dos vários mestres e a discussões de temas teológicos, organizados após os cursos obrigatórios. Na Igreja de Santo Ivo, celebravam-se as missas de abertura do ano letivo e das festas principais. Os sacerdotes professores se alternavam para celebrar as missas festivas e dominicais, como também ouviam as confissões.

Vicente Pallotti teve sua formação sacerdotal de forma diferente, como a concebemos hoje. Ele morava na casa paterna e estudava como aluno externo. Recebia uma sólida formação humana e religiosa de diversas pessoas, primeiramente dos pais, que eram muito piedosos, do seu diretor espiritual, Pe. Fazzini, os mestres Escolápios, Seminário Romano, Universidade Sapienza e, ocasionalmente, os diretores dos exercícios espirituais anuais e dos retiros. Tudo isto teve uma forte influência na sua formação sacerdotal.

O biógrafo do Papa Pio IX, Carlo Falconi, escreveu também sobre Pallotti. Comentou sobre seus estudos acadêmicos e da sua escolha de seguir a vida eclesiástica, privilegiando assim laurear-se em filosofia e teologia. Era também um poliglota e de boa formação intelectual, com inclinação para a intelectualidade, mas fica para ele uma incógnita do porque mudou de rota e decidiu entrar no campo da ação pastoral.

Pallotti e a sua formação sacerdotal permanente

Na vida de Vicente Pallotti, pode-se destacar dois períodos ligados à sua formação sacerdotal permanente. Primeiro: formação sacerdotal, no campo espiritual/intelectual, de 1818 até 1830. Segundo: de 1830 até 1850, formação sacerdotal, no campo espiritual/pastoral.

Antes de tudo, a formação espiritual de Pallotti se dá ao longo da sua existência, no intenso cultivo das coisas espirituais. Isto se confirma pelos seus escritos espirituais, pelas suas inspirações e heroicos propósitos que foram compendiados no volume X das Obras Completas, As luzes. Sobre este assunto, não há necessidade de muitas delongas, porque temos várias outras contribuições sobre o caminho espiritual de Pallotti. Basta folhear os escritos do Pe. Francesco Amoroso, SAC, intitulado: “La via dell’infinito” (O caminho do infinito), no qual apresenta a autobiografia espiritual do referido santo.

O pensamento espiritual de Pallotti deu-se ao longo da sua formação. Isto se pode notar pela sua visão e compreensão a respeito do sacerdócio. No início do seu ministério sacerdotal, escreveu: “O nosso inefável Deus dignou-se elevar-me ao sublime grau do sacerdócio, cuja missão é: celebrar o digníssimo Sacrifício, administrar os Santos Sacramentos, pregar a divina Palavra e recitar o divino Ofício” (OO CC X, 148). No final de sua vida, escreveu de maneira diferente: “Luzes e trevas, bendizei o Senhor. Raios e nuvens, bendizei o Senhor (Dn 3,72-73). Quanto ao que era ensinado por mim, era visto como algo bem feito, tanto da minha parte como da dos outros; mas, na verdade, eu não fiz nada que não fosse o mal, pois não instruí suficientemente os fieis, e não preguei o Evangelho a todas as criaturas; mas as obras de Jesus Cristo e a pregação do Reino, para sua piíssima misericórdia e amor, foram objetos de minhas obras e pregações” (OO CC X, 492).

Pallotti continuou sua formação sacerdotal/intelectual após a ordenação, aos 16 de maio de 1818, com o complemento dos estudos teológicos e exercendo o ofício de professor na Universidade Sapienza. No dia 15 de julho de 1818, Pallotti submeteu-se aos exames para laurear-se em filosofia e teologia, obtendo bons resultados. No dia 4 de março de 1819, o reitor da Universidade, Belisario Cristaldi (1764/1831), nomeou-o como acadêmico daquela mesma universidade. Na carta de nomeação, escreveu: “O favorável parecer a respeito do senhor determinou-me a escolhê-lo como Acadêmico da faculdade de Dogmática, da Escolástica e dos locais teológicos, para ajudar os alunos nos grupos de estudo com argumentações e dissertações” (OCL I, 425-426); (San Vincenzo Pallotti romano, Postulazione generale SAC, Roma 1962, p. 39).

Ansgar Faller explica que Pallotti foi nomeado como repetidor e exerceu este ofício de mestre acadêmico entre os anos de 1819 até 1829. Com este título, não podia desenvolver sua própria opinião teológica, porém, ideias pessoais não lhe faltavam. Mesmo que pudesse manifestá-las, ele as evitava. Limitou-se, rigorosamente, em apenas repetir os conteúdos a serem apresentados. Ele escolhia as pessoas para o debate e anotava seu desenvolvimento com muito cuidado. Organizava as discussões de maneira acadêmica e confirmava os resultados. Durante estes dez anos de trabalho, como mestre acadêmico, teve a oportunidade de aprofundar-se na teologia e com isso pode ajudar na formação de inúmeros sacerdotes que mais tarde tornaram-se párocos e professores.

O esforço de Pallotti em aprofundar na área da teologia ficou evidente pela sua participação na Pia União de São Paulo Apóstolo, iniciada em Roma, no ano de 1790. Era uma obra que promovia a formação espiritual do clero romano e que organizava as atividades apostólicas e pastorais nos diversos campos da vida eclesial. Vicente Pallotti era membro desta Pia União e participava das conferências sobre a moral, a cada quinze dias, na Igreja Santa Maria da Paz, na Igreja da Universidade romana e na Igreja Santo Apolinário.

Nos anos de 1820 a 1829, fez parte de um grupo para resolver casos referentes à moral. Nestes encontros participavam também o clero romano, pois a sua finalidade era para capacitá-los nestas questões. A função de Vicente Pallotti era a de apresentar casos e propor soluções. Isto nos faz acreditar que, já naquele tempo, possuía uma ampla cultura geral e teológica.

As iniciativas de Pallotti a respeito da formação sacerdotal

Vicente Pallotti conhecia, profundamente, a vida sacerdotal. Estava convencido de que a santidade dos sacerdotes, como também seu desempenho pastoral, dependem de uma boa formação. Para ele, não basta apenas o clero ser santo, é preciso que também seja douto (OO CC I, 171). Dizia mais: “Se a vida de todos os cristãos deve ser uma contínua imitação da vida de Nosso Senhor Jesus Cristo, (...) com quanto maior perfeição não deveria ser a daqueles que chegaram ao sacerdócio e que devem agir em nome de Cristo”! (OO CC I, 157).

Por isso, desde o início das atividades sacerdotais se nota um grande apreço de Pallotti pela contínua renovação da vida do clero. Isto se confirma pelo texto escrito entre os anos 1823 a 1829, período do pontificado do Papa Leão XII, intitulado: “Vários pontos para a reforma do clero” (OO CC V, 544 a 557). Este texto traz as propostas para a renovação da vida sacerdotal, e Pallotti é solícito em promover tudo aquilo que pode contribuir para a formação dos perfeitos servos de Cristo. Os sacerdotes e confessores, além de serem bem preparados, devem ter uma vida de santidade. Os pregadores devem distinguir-se tanto pela doutrina quanto pela sua integridade moral. Da santidade, da ciência e da vigilância dos pastores dependem, em grande parte, a paz da cristandade e a salvação eterna das almas.

A partir de 1827, Pallotti foi nomeado diretor espiritual do Seminário Romano, Colégio Inglês e Irlandês. Em 1833, deu início também ao Colégio Urbano da Propagação da Fé. O exercício da direção espiritual levou-o a ter ainda mais convicção da necessidade de uma profunda formação sacerdotal, sobretudo, missionária. Qual fosse o teor da sua formação espiritual, afirma: “Para ajudar os alunos a serem verdadeiros missionários, entre os infieis, é necessário formá-los na prática indicada pelo próprio Cristo: ‘Se alguém quiser vir atrás de mim, renegue-se a si mesmo, tome cada dia sua cruz e me siga’” (Mt 16,24); (OO CC XI, 449)

O pensamento de Pallotti sobre a formação sacerdotal

Vicente Pallotti lembra, frequentemente, em seus escritos, que o eclesiástico deve esforçar-se pessoalmente, para buscar seu crescimento durante toda sua vida. Ele estava convencido de que há uma intrínseca união entre o crescimento espiritual, o estudo e o apostolado. Sobre isto, merece destaque o texto sobre a obrigação de todos no espírito de santidade e de instrução (cf. OO CC II, 81-86; III, pp. 47-48). Este texto vem precedido da referência sobre a vida de Jesus Cristo: “O menino crescia e se fortificava, cheio de sabedoria e da graça de Deus; após três dias o encontraram no Templo, sentado entre os doutores, enquanto os escutava e os interrogava” (Lc 2,40-46). Pallotti, assim, pensava: da mesma forma que Jesus crescia e se fortificava cheio de sabedoria, escutando e interrogando os mestres, mesmo sendo a verdadeira Sabedoria, com maior razão, devemos também nós buscar a verdadeira instrução.

Escreveu ainda: “Devemos mais amar que buscar as instruções, e devemos procurá-las com afinco e ávidos de manifestar aos outros a nossa ignorância; e, por esta via de humildade, Deus nos recompensará com grande e saudável capacidade” (OO CC III, 48). Pallotti, por sua vez, enumerava os pontos que mereciam maior atenção e aprofundamento, a saber: a Sagrada Escritura, a história da Igreja, a teologia fundamental e dogmática, os sacramentos, a liturgia e a teologia moral. Ele expressava, ainda, a razão de se ter um contínuo aprendizado: “Para que jamais regrida na mais perfeita imitação da vida de Nosso Senhor Jesus Cristo e, assim, cooperar eficazmente no engrandecimento da sua glória, para a santificação das almas” (OO CC VII, 63-64).

As propostas de Pallotti em prol da formação sacerdotal

a)      Mês de maio para os eclesiásticos

No início de 1939, Vicente Pallotti começou a celebrar na Igreja do Espírito Santo dos napolitanos o Mês de maio com os sacerdotes romanos, diocesanos e religiosos. Francesco Moccia SAC afirma que os três “Mês de maio”, compostos por Pallotti, em 1833, tinha a intenção de divulgar a devoção mariana e de atingir mais profundamente o coração dos leitores.

O Mês de maio para os eclesiásticos, impresso no curso dos anos, em cinco edições, atribui o título à Maria Imaculada Mãe de Deus, Rainha dos Apóstolos, no mês de maio, em honra aos seus consagrados; recorda aos eclesiásticos instituídos, em qualquer ordem, os avisos que lhes dá a Igreja, após sua ordenação, segundo o Pontifical Romano e seu angélico ministério, segundo os apelos das Sagradas Escrituras.

A fonte para as meditações é o Pontifical Romano com os trechos dos escritos dos Santos Padres, para se ter presente nos diversos dias. O Mês de maio para os eclesiásticos se distingue pela densidade da doutrina. Os temas são tomados das advertências do Pontifical romano aos vários graus dos ordenados e dos ofícios dos coros angélicos. Maria Imaculada, Rainha dos Apóstolos, recorda aos eclesiásticos os avisos que a Igreja lhes dá, durante a cerimônia da ordenação e às funções do seu ministério. A Mãe de Deus instrui, guia, encoraja os mestres da Igreja de seu Filho. A parte mais ampla da meditação é a respeito do exame de consciência e a renovação da própria vida, não se trata tanto de ampliar os conhecimentos, mas de buscar maior transformação pessoal.

A finalidade do mês mariano para os sacerdotes era de aprofundar na doutrina eclesial e a renovação espiritual. Neste escrito, Maria, Rainha dos Apóstolos, dizia aos sacerdotes: “Quero deixar bem claro que, para converter os pecadores e iluminar os incrédulos, é mais eficaz a santidade da vida do clero do que todas as apologias escritas nos livros”. No último dia do mês se encontram as palavras de profundo significado espiritual para a vida do sacerdote. Maria, Rainha dos Apóstolos, lhes diz: “Abrasado de amor no amor infinito, vai acompanhado das bênçãos do Amor Infinito, para exercitar o seu ministério e será um Serafim e espalhará por todos os lados dardos de amor nos corações, para levar-lhes o Amor Infinito: dardos de amor será o seu salmodiar, dardos de amor serão a sua celebração dos mistérios, a sua pregação e a sua administração dos sacramentos; instruído em Deus, aceso de amor em Deus, animado pelo espírito de Jesus Cristo, em plena desconfiança de si; vá corajosamente (...) quero que o seu zelo pelo crescimento do Rebanho de Jesus Cristo seja, sem medida, aceso pela divina caridade e dirigido pelo Amor Infinito”.

A adesão dos sacerdotes às celebrações do mês mariano, na Igreja do Espírito Santo dos Napolitanos, foi muito boa. A cada dia do mês se faziam meditações sob as pegadas de o “Mês de maio para os eclesiásticos”, de Pallotti, e terminava com um cântico atribuído a São Boaventura: “Louvamos a Ti, ó Mãe de Deus”. Segundo as informações históricas, o Mês de maio para os eclesiásticos foi celebrado na Igreja do Espírito Santo, de 1839 até 1845. Isto se confirma com a carta de Pallotti que, em 18 de maio de 1844, escrevia a Domenico Santucci: “Lembre-se de que temos o mês de maio para os eclesiásticos”. Pallotti se transferiu para a casa, junto a São Salvador em Onda, no início da quaresma de 1846.

b)      As conferências semanais para os sacerdotes

Os sacerdotes que participavam das celebrações do Mês de maio expressaram o desejo de reunirem-se no mesmo local, periodicamente, ao longo do ano. Assim nasceu a ideia das conferências semanais para os sacerdotes que participaram na Igreja do Espírito Santo dos Napolitanos, começando em 1839. A alma e promotor principal destas conferências era o sacerdote Vicente Pallotti.

O primeiro encontro aconteceu no dia 6 de junho de 1839, primeira quinta-feira do mês. A partir de então, o clero romano começou a se reunir toda quinta-feira à tarde, na Igreja do Espírito Santo, na Via Giulia. Participaram sacerdotes diocesanos e regulares, monsenhores, teólogos, consultores dos dicastérios pontifícios e também alguns bispos. As conferências, graças a Vivente Pallotti, eram endereçadas à renovação da vida espiritual e a atualização pastoral dos sacerdotes. Ao empreender esta iniciativa, Pallotti se inspirou na ideia de São Vicente de Paulo, que promovia reuniões periódicas de eclesiásticos destinados a renovar a vida espiritual e a preparação pastoral dos sacerdotes. Nestes encontros se abordava um caso de moral ou de liturgia. Analisava-se e apresentava soluções. Neste período, em toda a Europa, começaram surgir estas iniciativas. Pallotti, porém, enriqueceu o programa e focalizou sobre a renovação espiritual, como se pode ver pelo título do texto: “Conferências semanais do espírito, do estudo sacro, e do ministério evangélico para os eclesiásticos, instituídos sob a especial proteção da Imaculada Mãe de Deus, Rainha dos Apóstolos”.

Segundo Pallotti, as conferências de quinta-feira deveriam ser uma palestra de alento espiritual. Aos participantes, Pallotti sugeria boa disposição: “Frequentá-la com espírito da mais profunda humildade e firme persuasão da necessidade de escutar as reflexões dos outros com a consciência da própria indignidade em receber a graça de aprofundar em tais reflexões: e aqui, cada um pode considerar o quanto esteja longe de tirar proveito das conferências, uma vez que a frequentasse somente para mostrar os seus próprios conhecimentos, pensamentos, argumentações e saber”. Por isso, dos encontros “se excluem as reflexões críticas ou de simples erudição; todas as reflexões devem tender a promoção da vida devota e santa (...). São proibidas as perguntas muito longas, porque elas não favorecem o crescimento das ciências sagradas” (OO CC V, 582). De acordo com os escritos de Pallotti, as conferências deveriam ter a finalidade de conduzir as pessoas à maior imitação de Jesus Cristo e de promover o quanto possível, a maior glória de Deus e a perfeição evangélica de si mesmo e dos outros e de dispor-se assim à observância do ministério apostólico.

Pallotti explicava que o método desta conferência, para ser frutuoso, devia ser simples e que tocasse no coração e na mente. Eis os componentes do encontro: lições de canto gregoriano, leitura e partilha de um texto do Evangelho do domingo seguinte, leitura do Catecismo Tridentino ou Romano, com o comentário de um ou mais padres escolhidos, debate desenvolvido “na paz e na caridade” em torno de um caso referente à moral, escolhido na conferência anterior, e a oração final para pedir a Deus operários para sua messe. Quanto à partilha do Evangelho, Pallotti insistia que, após a leitura do texto, em Latim, se lesse também, para uma maior compreensão, “a tradução vulgar com as notas”. Cada participante era convidado a dizer não somente o que o havia tocado, mas também o que gostaria de fazer para seguir Jesus Cristo, de acordo com o que foi lido. Esta partilha tinha também a finalidade de enriquecer a pregação dominical. No final da partilha, se distribuía um pequeno bilhete no qual estava escrito um versículo da Sagrada Escritura. Cada um lia em voz alta e fazia um pequeno comentário.

Do epistolário de Pallotti, descobrimos que as conferências semanais lhe eram muito caras. Ele, pessoalmente, se encarregava de recordar os sacerdotes e também de convidá-los para fazer parte. Esta confirmação aparece em duas cartas, dia 27 de abril de 1841, Pallotti escreve para monsenhor Pietro Minetti: “ela se tornou avarenta, é preciso fazer algum presente na conferência semanal! Fará o mesmo no mês mariano dos eclesiásticos, a qual iniciará na próxima sexta-feira. Espero que venha quinta-feira à conferência e depois a indicada prática do mês de Nossa Senhora Imaculada” (OCL III, 1. n. 751). No dia 13 de março de 1845, Pallotti escreve para Andrea Mogliazzi: “Hoje, às 21h 30min, nos encontramos para a conferência no Santo Espírito; e para cumprir esse dever e regular as forças, você poderia confessar alguém no Hospital Militar” (OCL V, 1. n. 1103)?

Nota-se, também, que para levar adiante este projeto de organizar e assistir todas as quintas-feiras tais conferências, necessitava de muito esforço e exigia empenho e colaboração de muitas pessoas. Talvez, depois do primeiro impulso, diminuiu o zelo dos colaboradores. Isto pode ser observado pela carta escrito por Pallotti, no dia 6 de agosto de 1840, em Cingoli, onde se encontrava para realizar as missões. Ele escreveu aos zelosos colaboradores das conferências espirituais, do estudo sacro, e do ministério evangélico, sob a proteção especial da Imaculada Mãe de Deus Maria Santíssima, Rainha dos Apóstolos: “chegou o momento oportuno de falar do mês mariano para os eclesiásticos e das conferências; gostaria de contar com a presença de todos vocês, e tenho certeza o quanto isso os fará bem. Senhores missionários, gostaria de confirmar vocês no progresso da unidade, mesmo que algum tenha sofrido a tentação do resfriamento ou então da desistência...” (OCL III, 1. n. 695).

Para concluirmos sobre o tema: a Formação sacerdotal de Pallotti e o modo como instruía os membros do clero de Roma, isto no leva a crer que, para ele, não bastava apenas buscar a santidade, mas, também, devemos ter a preocupação diária em sermos doutos.

 

Para refletir

1.      O que você diria da formação sacerdotal de Vicente Pallotti?

2.      Como os membros da UAC podem ampliar os seus conhecimentos no campo da fé?

3.      Que sugestão você daria, para que possamos manter vivo um espírito de oração e de estudo?