quinta-feira, 23 de abril de 2026


 Tema 4: O espírito de cooperação na UAC 

Dando continuidade aos ensinamentos deixados pelo nosso santo fundador, São Vicente Pallotti, hoje vamos tratar sobre O Espírito de cooperação na UAC. Iluminado pelo Espírito Santo, Pallotti visualizou a Igreja como um corpo onde cada membro, do mais simples ao mais instruído, possui um papel vital. A cooperação, portanto, surge como a expressão máxima do amor cristão em sua obra: Amai-vos como eu vos amei (Cf. Jo 13,34-35). Este texto busca detalhar as raízes dessa colaboração fraterna, que ele estabeleceu como pilar para multiplicar os esforços em favor da glória de Deus e da salvação das almas.

É importante salientar que Padre Vicente sempre viu a pessoa humana como alguém que pode cooperar com a obra redentora de Cristo. Aliás, o ser humano se conhece a partir do amor infinito de Deus que se reflete nele. O Livro do Gênesis, por sua vez, apresenta o homem como imagem e semelhança de Deus e como alguém capaz de gerenciar toda a Sua obra (Gn 1,28-31). Com essa consciência, Pallotti intuiu que o apostolado universal é uma obra exclusivamente divina e que a cooperação é imprescindível para a evangelização da Igreja.[1]

Segundo ele, a cooperação reside na ideia de que as iniciativas apostólicas pessoais se tornam mais eficazes e atingem um impacto maior se forem realizadas em colaboração e destinadas ao objetivo comum de difundir o Evangelho.

Muitos autores, que escrevem sobre Pallotti, tratam somente sobre o tema da imitação de Cristo na vida e nas atividades apostólicas. Poucos são os que apresentam essa imitação como cooperação com Deus na salvação da humanidade. Segundo o Pe. Stanislaw Stawicki, é exatamente isso a originalidade do conceito palotino de seguimento de Cristo, colaborar com Deus na obra da salvação. Para o santo, isso não é somente uma estratégia pastoral da Igreja, mas é uma arte, um dom que permite criar e inovar, sem desafiar a Igreja. A maior graça de Deus feita ao homem é o chamado à cooperação em sua própria salvação e a de todos os seres humanos: “Eu vim para que todos tenham vida e a tenham em abundância” (Jo 10, 10); (Stanislaw Stawicki, pp. 407-409).

Originalmente, Pallotti chegou a definir a União com três classes de membros, demonstrando a diversidade da cooperação:

  1. Operários: Agentes apostólicos, como padres, irmãos, irmãs e leigos incorporados.
  2. Coadjutores espirituais: Que colaboravam com a oração.
  3. Coadjutores temporais: Que colaboravam com recursos materiais.

 

Na visão de Pallotti, ninguém é tão pobre que não possa enriquecer o próximo (com o seu apostolado, oração, talentos) e ninguém é tão rico que não precise da ajuda dos outros. Isso reforça o sentido de interdependência e de cooperação mútua. A cooperação, no carisma palotino, nada mais é que o esforço coordenado de todos os batizados, para cumprir a missão de Jesus Cristo na Igreja e no mundo, reconhecendo que o apostolado é um chamado universal, ou seja, de todos.

O método utilizado pelo apostolado católico

O maior sonho do nosso fundador foi o de ver uma Igreja unida, a exemplo dos primeiros cristãos, que colocavam os seus bens em comum e distribuía conforme a necessidade de cada um (At 2, 42-47). Uma característica especial do apostolado da União é a colaboração entre os próprios membros (OO CC IV, 124 s., 389, 393, 477; OO CC V, 122); com todas as outras pessoas que realizam o apostolado (OO CC I, 3 s.; OO CC IV, 32), e a colaboração com os destinatários do apostolado (OO CC I, 5 s., 50 s.; OO CC III, 2; OO CC IV, 123, 318 s., 389 s., 414; OO CC V, 143 s.; OO CC VII, 14).

Pallotti assim exortava: “Coopere o máximo que puder para tornar conhecido o Pai, o Filho e o Espírito Santo, os Mistérios da Redenção e a mais santa lei do Evangelho. Você é rico em bens terrestres? Use-o o máximo que puder para multiplicar os meios oportunos para a propagação da Santa Fé, pois, dentre todas as perfeições divinas, a mais divina é cooperar com Deus na saúde das almas... pensem, filhos, que, no momento da sua morte, para nada servirá o poder, a nobreza, a doutrina e nenhum outro bem terreno se não os aproveitou para os fins que levem a Deus” (OO CC IV, 477-478).

Portanto, a “Pia Sociedade foi instituída não apenas para promover os meios de oração, mas também quaisquer outros meios necessários para esse fim. Ela estimula a caridade cristã entre todas as classes de pessoas, da qual ninguém está isento de exercê-la de acordo com a possibilidade, estado, grau e condição...” (OO CC IV, 318).

O método da colaboração está fundamentado na lei do amor, ou seja, amar a Deus de todo o coração, amar a nós mesmos e amar os outros como a nós mesmos e, ao mesmo tempo, fazer de tudo para ver neles a imagem e semelhança de Deus, Trino. Diante disso, não importa se ele é o nosso inimigo, ou amigo, católico ou herege, pagão ou incrédulo, cristão ou judeu, cidadão ou estrangeiro. Ele será sempre o nosso próximo, por isso devemos amá-lo, como a nós mesmos, por amor a Deus (OO CC III, 152). Segundo São João, no amor não tem temor: “O amor perfeito lança fora o medo, pois o medo tem consigo a pena e quem teme não é perfeito em amor” (1Jo 4, 18). Para São Paulo: “Não fiqueis devendo nada a ninguém, a não ser o amor mútuo... O amor não faz nenhum mal contra o próximo” (Rm 13, 8.10).

Pallotti não era um sonhador ingênuo que idealizava a cooperação, minimizando a sua dimensão histórica. A cooperação para ele não é desencarnada. Ele sabia que o caminho para ela passava pelo combate, muitas vezes. Para cooperar verdadeiramente para a glória de Deus e para a salvação das pessoas, é preciso que o homem peregrino se engaje no combate, como aquele apresentado por São Paulo: “Combati o bom combate, terminei a corrida, guardei a fé” (2Tm 4, 7). Para Pallotti, a cooperação deve ser constante, corajosa, perseverante, enérgica, laboriosa, fervente e zelosa. A cooperação comporta também provas e sofrimentos. Por isso, ela é colocada frequentemente à prova e requer das pessoas certo consentimento ao sofrimento, para enfrentar as resistências das pessoas. Ele tinha plena consciência de que nem sempre as pessoas cooperam para o bem, principalmente quando elas sentem ciúme, fechamento e desejo exclusivista (cf. OO CC IV, 134; OO CC V, 218-219; OO CC XII, 420-421; 425-427).

Segundo o Pe. Stawicki, Pallotti, em seus escritos, não expõe somente a doutrina sobre a cooperação, para suscitar em todos os cristãos a vontade de cooperar nas obras e nos objetivos da Pia Sociedade, mas, ele apresenta igualmente vários modelos e exemplos de cooperação, a saber:

  1. Amplidão ilimitada, já que o seu fundamento se encontra no próprio Deus Uno e Trino. Ela não concerne somente às pessoas entre si. É um trabalho humano, mas em Deus. Parece-nos que é nesse aspecto que se situa a originalidade radial da cooperação na Igreja segundo Pallotti. Ela se liga à fé teologal, uma vez que Deus, em sua natureza, é cooperação e princípio dela entre as pessoas.
  2. A sua fonte é a comunicação recíproca do Pai e Filho no Espírito Santo.
  3. O seu termo está para além da história, na plena “participação da glória de Deus, por toda a eternidade” (OO CC XI, 259). (Stawicki, p. 7)

De fato, Vicente declara querer cooperar sempre, até mesmo depois da morte (Cf. OO CC V, 210-211). Em sua oração, ele manifesta a Deus o desejo de cooperar plena, eficaz e eternamente em todas as empresas da Sua maior Glória e da Salvação das Almas, e de cooperar com tanta plenitude como se, desde toda a Eternidade e por toda a Eternidade, tivesse cooperado e cooperasse em todas as empresas evangélicas passadas, presentes, futuras e possíveis que tivessem sido e seriam necessárias para impedir todos os pecados, até os mais leves, e para salvar todas as almas (Cf. OO CC X, 280).

Essa maneira de viver a obediência na Igreja e na comunidade permite, certamente, o alargamento da visão, a introdução de uma dinâmica de deslocamentos necessários, para operar na busca de respostas que respeitem as diferentes abordagens e que, consequentemente, podem ser levados em conjunto. O “trabalhar juntos” não é mais o projeto dos superiores, de um padre, de um leigo; não é mais uma obra individual, e sim de uma comunidade que se torna verdadeira família, como aquela de Nazaré. Pois, Nazaré é sempre o lugar onde as pessoas buscam viver e trabalhar unidas. Eis uma das chaves da cooperação bem-sucedida. Trata-se de sair do espírito de domínio e do face a face para voltar os olhos a Jesus e aos outros. Sendo assim, a cooperação não se torna uma preocupação de querer vencer sozinho, mas um desejo de cumprir uma missão juntos (Stawicki, p. 412, nota n. 31; 421).

Finalmente notamos que, como no caso da Trindade, Pallotti dirige sua atenção para cada uma das pessoas que a compõe. O exemplo eminente da cooperação é evidentemente o de Jesus, o cooperador do Pai por excelência, que veio ao mundo para cumprir a obra da redenção. Pallotti sublinha, muitas vezes, que o homem que entra na dinâmica da cooperação persegue a missão de Cristo (Cf. OO CC II, 4; III, 139; 177-178; IV, 337). Um outro modelo de cooperação na salvação das almas é São José. Colocando as palavras nos lábios de Maria, Pallotti exorta: “Tendes o exemplo disso de meu esposo, José, que, mesmo sendo carpinteiro de profissão, no seu estado e condição, em meio a dificuldades, sofrimentos, pobreza e perseguições, fez quanto pôde para cooperar na redenção das almas” (OO CC IV, 338). Stawicki, p. 12.

A cooperação é a alma do apostolado

Pallotti sonhava com uma Igreja que estivesse à altura dessa vocação e missão. Segundo ele, a natureza mesma da Igreja exige a cooperação entre todos os membros do povo de Deus. Felizmente, com o Concílio Vaticano II, aquilo que era um sonho, agora, tornou-se realidade para toda a Igreja. Assim encontramos na Gaudium et Spes, n. 2: “Em virtude de sua missão (...) a Igreja torna-se o sinal daquela fraternidade que permite e consolida um diálogo sincero. Isto, porém, requer, em primeiro lugar, que promovamos no seio da Igreja a mútua estima, respeito e concórdia, admitindo toda diversidade legítima, para que se estabeleça um diálogo cada vez mais frutífero entre todos os que constituem o único Povo de Deus, sejam os pastores, sejam os demais cristãos...”.

Pode-se dizer que, hoje, a Igreja não pode ser sinal de fraternidade universal senão vivendo, ela mesma, a cooperação e o diálogo sincero. Pallotti, no seu tempo, de maneira criativa criou um imenso projeto, o das “Procuradorias” (treze frentes de trabalho, para coordenar os esforços de evangelização e da caridade em diferentes áreas), considerado por um dos seus membros, Rafael Melia, como o “coroamento de toda a sua obra”. Mas, qual foi a razão dele criar as procuradorias? Foi unicamente para abrir um espaço de cooperação e permitir, assim, que todos os cristãos pudessem ter parte ativa na vida da Igreja.

A catolicidade da Igreja

Pallotti utilizou exaustivamente dois adjetivos para descrever a sua fundação: “apostólico” (2.060 vezes) e “católico” (2.200 vezes). Com a palavra “apostólico”, ele evoca tanto as atividades, quanto as virtudes daqueles que se esforçam por meio das orações, da propagação da fé e da caridade, colocando seus talentos a serviço da Igreja e da humanidade. Ele utilizou, muitas vezes outras expressões, tais como: “zelo apostólico” (Cf. OO CC I, 159; 196; 203), ou “espírito apostólico” (Cf. OO CC I, 194; 206; II, 110), “homem apostólico” (Cf. OO CC I, 194; II, 548) e “ministério apostólico” (Cf. OO CC I, 193; III, 31). Evidentemente, esses adjetivos conheceram uma evolução muito grande ao longo da história da Igreja. Porém, para Vicente, essa evolução complexa permanece sempre unificada pela referência a Cristo, Apóstolo do eterno Pai, como encontramos na Carta aos Hebreus: “Por isso, irmãos santos, participantes da vocação celestial, considerai a Cristo Jesus, apóstolo e sumo sacerdote da fé que nós professamos” (Hb 3,1; Jo 20,21) e pelos que Ele mesmo enviou (Lc 10,1-12).

A palavra católico significa primeiramente “universal”. Esse é, ao menos, o sentido que Pallotti dá mais frequentemente a essa palavra (Cf. OO CC III, 143; 183; I, 4-5). Mas, “universal” não exprime perfeitamente o conteúdo de “católico”. Este comporta um sentido, muitas vezes, mais rico e concreto. Por isso, Pallotti prefere usar “católico” em vez de “universal”; isto porque a palavra católico quer dizer “com todos”. Outro motivo é porque os cristãos não podem ser encerrados em particularismo algum, pois católico significa “ordenado para o universal”, voltado para “o todo” – não no sentido de uma totalidade, mas no de uma superação dos particularismos (Cf. OO CC III, 183).

Para São Vicente, a catolicidade é a capacidade universal de unidade, de assimilar, de plenificar, de ganhar para Deus, de reunir e de consumar nele todos os seres humanos e todo o valor humano. Ela não pode acarretar um nivelamento das culturas, das línguas e dos ritos. Segundo ele, a catolicidade é um dom de Deus que se abre, progressivamente, a cada época, meio, língua e cultura.

Uma segunda acepção de católico, no pensamento de Pallotti, trata-se evidentemente da expansão geográfica da Igreja, já que ela está destinada a se estender a todas as nações, como nos afirma São Marcos: “Ide por todo mundo e pregai o evangelho a toda a criatura” (Mc 16, 15). Segundo ele, toda missão na verdadeira Igreja de Jesus Cristo é católica, ou seja, para todos indistintamente (Stawicki, p. 430).

Pallotti sugere essa dinâmica no seu Apelo de Maio, onde ele precisa explicitamente: “Assim, na obra do Apostolado, não entra em questão se alguém contribuiu com pregação, com oração, com subsídios ou com exercício de ministério eclesiástico, nem se contribuiu com sua arte, com sua posição social e influência. Vale o zelo e o fervor com que cada qual, no nível que lhe cabe, se presta” (OO CC IV, 137).

Por isso, desenvolvendo o conceito de apostolado universal, Pallotti não insiste nas estatísticas, mas na qualidade dos sinais postos pelos cristãos e principalmente no seu “zelo universal” (Cf. OO CC I, 371; II, 265; VII, 264), “o engajamento universal” (OO CC I, 153; II, 40; VII, 48), “a oração universal” (OO CC I, 153; IV, 151, 272, 358, 401), “a caridade universal” (OO CC II, 236; III, 11; V, 236; VII, 237; X, 199), “a obediência universal” (OO CC II, 90-92; III, 49, 71; VII, 98, 100-101) e no dever de tecer a “cooperação universal” (OO CC I, 50-51; V, 351; III, 193; IV, 19-20, 260, 276, 292-293; VII, 58; XI, 327), superando todas as fragmentações e se abrindo, assim, à unidade na diversidade.

Como já foi mencionado acima, a palavra “todo” não deve ser entendida no sentido de uma totalidade, mas no de superação dos particularismos e das divisões eclesiais entre leigos e clero, entre religiosos e seculares (Cf. OO CC III, 4). Por isso Pallotti quer, por exemplo, que a Congregação dos padres e irmãos palotinos se tornem “um ponto de união entre o clero secular e regular” e que toda a União seja, “para sempre, na Igreja de Jesus Cristo, como uma trombeta evangélica, que chame e convoque a todos os fiéis, de todos os estados de vida, posição e condição social, despertem o zelo e a caridade em todas as nações (Stawicki, p. 434).

O apostolado, na visão de Pallotti, não é um privilégio apenas dos doze apóstolos. De acordo com o Pe. Achylle Rubin: “Pallotti não fez uma teologia do apostolado dos leigos, mas simplesmente do apostolado da Igreja. Se houve maior empenho em argumentar em favor do apostolado dos leigos, isso só aconteceu porque os leigos são a maioria na Igreja e a compreensão do significado do apostolado dos leigos era deficiente e se tornava, por isso, necessário um esclarecimento teológico.[2]

De fato, mesmo que Pallotti tenha chamado a sua União de “corpo auxiliar da Igreja”, ele nunca chamou os leigos de “auxiliares da hierarquia”. Chama-os, pelo contrário, de “pessoas inspiradas pelo Evangelho”, “cristãos zelosos”, “leigos piedosos”, “irmãos da pia União do Apostolado Católico” (OO CC IV, 1-8; XIII, 365). Ele sempre apela para a responsabilidade pessoal de todos os cristãos, seja padre ou leigo, religioso ou secular: “porque todos são chamados e obrigados a imitar o apostolado de Jesus Cristo, na sua própria condição e estado” (OO CC III, 142); “todos, na respectiva posição, condição ou estado, podem, de uma ou de outra forma, sempre com mérito, exercer o apostolado de Jesus Cristo” (OO CC IV, 327).

De fato, para Vicente Pallotti, o apostolado dos leigos não é uma usurpação nem uma substituição ou uma ação paralela ao daquele fundado no sacramento da ordem. O apostolado católico é uma responsabilidade comum de todos os cristãos: “talvez pudesse alguém achar que ninguém possa ter o mérito do apostolado sem ter o ofício de pregar. Pensar deste modo seria, porém, errado. Reparai (...) em nossa Mãe Maria. Sem pregar, ela não só tem o mérito comum dos Apóstolos, mas dos próprios Apóstolos é Rainha. Como tal é saudada pela Igreja de Jesus Cristo, como Rainha dos Apóstolos, porque, na medida em que lhe foi possível, em sua condição e circunstâncias, cooperou na propagação da santa fé. E porque também nisto agiu com tal perfeição que, de muito longe superou os Apóstolos, aquele Deus, que atenta para as disposições do coração das suas criaturas, elevou-a à dignidade e à glória de Rainha dos Apóstolos, pois reconheceu a sua dignidade” (OO CC IV, 180-181).

Considerando a época e as circunstâncias nas quais esse texto foi escrito, não se pode deixar de admirar a liberdade de espírito, o realismo pastoral e o senso de Igreja que animam Pallotti. Com efeito, o apostolado de todos, na escola de Pallotti, é uma responsabilidade comum que supõe que os fiéis leigos sejam também estabelecidos em cargos vitais para uma “Igreja enviada no mundo deste tempo”. Isto contrastava com a visão de apostolado tido pela hierarquia da Igreja, a saber: o Papa Pio X via os leigos como “auxiliares do clero”. Pio XI declarou a Ação Católica como a “participação dos leigos no apostolado da hierarquia”. Pio XII “teve a prudência” de substituir a “participação” dos leigos pela simples “colaboração” no apostolado da hierarquia.

Quanto ao modo de pensar de Pallotti, ele estava muito mais próximo ao do Concílio Vaticano II que não procurou promover os leigos, mas exprimiu mais uma vez a identidade da Igreja como totalidade de fiéis em Cristo. O Capítulo II da Lumen Gentium expressa esta realidade, apresentando a Igreja como “Povo de Deus”.

De fato, Pallotti teve a intuição de fundar a responsabilidade de todos na corresponsabilidade diferenciada: “na obra do Apostolado, não entra em questão se alguém contribuiu com pregação, com oração, com subsídios ou com exercício de ministério eclesiástico, nem se contribuiu com sua arte, com sua posição social e influência.

No dia 1 de setembro de 1963, o Papa Paulo VI, por ocasião de sua visita a Igreja de Frascati, na sua fala evocou as ideias e a ação de Pallotti que despertaram na Igreja a consciência do laicato católico: assim disse ele: O objetivo da minha peregrinação é incentivar a “grande lição oferecida por São Vicente Pallotti ao mundo de hoje, também aqui, e especialmente aqui, onde ele celebrou a primeira Missa e onde escreveu e entregou ao futuro as regras da sua Instituição, tenha, como herança, um novo e belo florescimento de egrégias iniciativas”. Continua o papa: “Hoje é já algo evidente – e Sua Santidade quer, também ele, prestar homenagem à conclusão da biografia tão interessante e tão edificante do Santo – a certeza de que S. Vicente Pallotti foi um precursor. Ele antecipou, de quase um século, a descoberta – é injusto, talvez, para a tradição cristã dizer esta palavra, mas é necessário sermos realistas e usá-la – a descoberta que também no mundo dos leigos, até então passivo, adormecido, tímido e inábil para se exprimir, há uma grande capacidade de bem. (...) Ele construiu, assim, aquela ponte entre o clero e o laicato, que é uma das vias mais percorridas pela espiritualidade moderna, uma das vias que dão maior esperança à Igreja de Deus. (...) Estamos no período sucessivo à Revolução Francesa com todos os desastres, as ideias desordenadas e caóticas e, ao mesmo tempo, frementes e ainda confiantes, que aquela revolução tinha incutido nos homens do século antecedente. Havia grande necessidade de colocar ordem e, se diria, de o estatizar, torná-lo firme como deve ser (Stawicki, p. 434, nota n. 213).

Em suma, podemos dizer que o nosso santo fundador esteve muito à frente do seu tempo. Ele percebia algo que ninguém tinha a capacidade de perceber, naquele momento. Mas Deus, no momento oportuno, iluminou a Igreja para que, realmente, pudesse viver o mandato de Cristo: “Ide, pois, e ensinai a todas as nações, batizai-as em nome do Pai e do Filho e do Espírito Santo. Ensinai-as a observar tudo o que vos prescrevi” (Mt 28, 19-20). Deus em tudo e sempre!

PARA REFLETIR

  1. O que significa cooperar com a obra apostólica?
  2. O que Pallotti entendia por catolicidade da nossa Igreja?
  3. Pallotti desejou que toda a União fosse, na Igreja de Jesus Cristo, como uma trombeta evangélica. O que realmente ele quis dizer com isso?

 



[1] Stanislaw Stawicki. A cooperação, paixão de uma vida. Biblos: Santa Maria, 2007, pp. 173-175.

[2] Achylle Alexio RUBIN, “L’Apostolato Aattolico nella realtà ecclesiale del nostro tempo” in ACTA-SAC, vol. IX, 1979, p. 320.


 Tema 03: Os desafios iniciais da União do Apostolado Católico

 

O tema a ser refletido, “Os desafios enfrentados pela UAC” nos seus primórdios, vai ajudar você a mergulhar na história palotina e a descobrir quais foram os passos dados por Pallotti e por seus primeiros colaboradores sobre o carisma apostólico. Aqui encontraremos os inúmeros desafios e as incompreensões provindas das autoridades eclesiásticas. Como todos sabemos, iniciar uma obra confiando apenas na providência divina requer muita fé e coragem. Pallotti, confiante no dom recebido por Deus, jamais hesitou e nunca pensou em abandonar aquilo que via como obra de Deus, apesar dos sofrimentos e desgastes físicos e emocionais. Em sua mente havia sempre uma única certeza: “A esperança não decepciona” (Rm 5,5). Motivado pela Palavra de Deus, seguiu o seu caminho: “Se alguém quiser vir após mim, negue-se a si mesmo, e tome a sua cruz, e siga-me” (Mc 8,34).

Podemos observar que nos primórdios da nossa Igreja, no tempo dos apóstolos, também havia uma grande dificuldade para falar de Cristo. Haja vista o que aconteceu com Paulo no areópago de Atenas, que ao falar de Cristo ressuscitado, todos se dispersaram, pois aquele assunto não lhes interessava (At 17, 16-34). Temos também o episódio da prisão dos apóstolos por fazerem curas em nome de Jesus. Grande era o número dos que se convertiam a Cristo, por meio das pregações, e isto provocou a ira das autoridades do Templo de Jerusalém. Por causa disto, foram levados a julgamento pelo Sinédrio. Eis, porém, que uma voz se levanta, Gamaliel, um fariseu respeitado e doutor da Lei, que persuadiu o Sinédrio a não executar os apóstolos, optando apenas por açoitá-los e ordená-los a parar de falar o nome de Jesus, antes de libertá-los.

Segundo o parecer de Gamaliel: “é melhor deixar estes homens em paz e soltá-los. Se o que eles ensinam e realizam é de origem puramente humana, isso logo será desfeito. Porém, se é de Deus, vocês não serão capazes de impedi-los, e não é bom que aconteça que vocês acabem lutando contra Deus” (At 5,38-39).

Da mesma forma, o carisma do Apostolado Católico, que nasceu sob a inspiração divina, também sofreu muitas perseguições da parte de autoridades eclesiásticas, por pensarem que o apostolado católico, desejado por Pallotti, estivesse se apropriando da evangelização da Igreja. Naquela época, a exclusividade pelo apostolado católico era do Papa e dos bispos. Na verdade, a finalidade principal da UAC, desde a sua fundação, era de juntar a ação evangélica, a cooperação pessoal, as orações, as ofertas espontâneas dos membros, para difundir o amor cristão e, assim, despertar a verdadeira fé e difundi-la em todo o mundo.

Outra dificuldade encontrada por Pallotti, para que a sua obra prosperasse, era o conflito criado com a Obra de Lyon, fundada por Catherine Jaricot. Por isso, seria necessário diferenciá-la de outras obras que também tinham a finalidade de, somente angariar fundos, para prover as necessidades dos missionários em terras estrangeiras, como ocorria com a Obra de Lyon. A obra do Apostolado Católico, por sua vez, ia além da coleta de recursos financeiros. Ela, além de fazer coleta de contribuições voluntárias dos seus associados, para socorrer as missões estrangeiras, também se preocupava com a salvação das almas. Ela buscava unir as pessoas do mundo inteiro em torno de um único Pastor, Jesus Cristo. É verdade que a União do Apostolado Católico, pelo grande número de sócios, a cada ano, recebia uma soma considerável de recursos financeiros, que era empregado rigorosamente em benefício das missões mais pobres e carentes.[1]

Todos os que se engajavam na obra, criada por Pallotti, tinham como missão despertar e manter a fé das pessoas nos países cristãos, auxiliando-as em suas necessidades. Para isso, utilizava de todos os meios possíveis, tais como: recursos financeiros, obras de caridade, emprego e arte, oração perseverante, de acordo com a diversidade das classes de membros que a compunham. Quanto às doações, elas não se limitavam a pessoas de determinada condição, mas de todos os verdadeiros fiéis, de eclesiásticos ou seculares, homens ou mulheres, letrados ou não, pobres ou ricos, nobres ou plebeus, qualquer que fosse o estado, a condição, a profissão, poder e influência social, podiam fazer parte da obra apostólica. Assim dizia Pallotti: “Todos podem colaborar eficazmente por meio da oração (OO CC III, 147; OO CC IV, 182; OO CC IV, 327s) [2]; (Doc. Fundação, p. 92).

De acordo com este princípio, o Apostolado Católico não era algo exclusivo de uma ordem religiosa, mas era uma pia sociedade secular de fiéis, que, independentemente de qualquer obrigação especial, movidos só por espírito de zelo e de caridade, trabalham, pelos meios disponíveis, para a manutenção da piedade e a propagação da fé católica. Este era o verdadeiro objetivo da Pia Sociedade, buscar a santidade de vida e propagar a fé católica em todo o mundo.

Pallotti deixava bem claro que a Pia Sociedade, com seus diversos associados, tinha o nome de Apostolado Católico não porque presuma ter em si o Apostolado Católico, ou seja, ter em si a missão católica da verdadeira Igreja de Jesus Cristo, mas porque venera, respeita, ama, e vivamente deseja que todos sejam protagonistas do Apostolado Universal, em razão do seu batismo. Chama-se Apostolado Católico da mesma forma como outras instituições se dizem de tal santo ou de Jesus ou do Redentor, fazendo alusão aos jesuítas (Companhia de Jesus) e aos redentoristas (Santíssimo Redentor). Dizem-se tais não porque cismem ser aquele santo, ao qual estão consagradas, ou presumam ser Jesus ou imaginem ser o Redentor, mas porque fundadas em homenagem e veneração a Jesus, ao Redentor. Portanto, a finalidade principal da pia Sociedade é cooperar vigorosamente nas obras da maior glória de Deus e da salvação das almas. É por isso que se chama ‘Pia Sociedade do Apostolado Católico’ (Doc. Fundação, p. 109).

A razão do conflito institucional

Em 1837, o Papa Gregório XVI (1831-1846) resolveu, em atenção aos prelados franceses e aos leigos que a dirigiam, na França, introduzir em Roma a ‘Obra da Propagação da Fé de Lyon’, cuja finalidade era, somente, de angariar recursos financeiros para as missões. A Fundadora desta associação francesa, juntamente com colaboradores de Paris e de Lyon, foi, em 1822, Marie-Pauline Jaricot (1799-1862). O Conselho Central da Obra tinha sua sede em Lyon e era daí que partiam todas as iniciativas e determinações. A fundadora Jaricot, com o passar dos anos, foi perdendo influência na Obra (Doc. Fundação, p. 112).

Neste mesmo ano, começaram, em Roma, intrigas da Obra de Lyon contra a ‘Sociedade do Apostolado Católico’, (cf. Schulte 147s). Diante disto, Pallotti desistiu da coleta mensal da sua associação e, humildemente, colocou-se a serviço da Obra missionária de Lyon. Isto não impediu que a sua obra: O Apostolado Católico, continuasse com o seu trabalho, sem fazer concorrência à Obra de Lyon. Pois, isso não fazia parte do seu caráter.

Segundo o Pe. Heinrich Schulte, o Papa Gregório XVI era piedoso, desprendido, despretensioso, mas, politicamente inexperiente e ingênuo. No dia 28 de julho de 1838, acatou a instâncias do Conselho Central de Lyon que pleiteava nada menos que a dissolução da Sociedade do Apostolado Católico e sua anexação à Obra de Lyon. Assim, no dia 30 de julho, o Secretário da Sagrada Congregação da Propagação da Fé, Monsenhor Ignacio Giovanni Cadolini, ex-arcebispo de Spoleto, informou Pallotti da dissolução da sua obra apostólica, porque sua obra foi considerada supérflua e os seus membros deveriam passar para a Obra de Lyon. Pallotti teve de deixar o Conselho central de Roma, onde sua presença tinha se tornado inútil.[3]

Antes que isso ocorresse, o Cardeal Vigário, responsável pelo caso, adiou a publicação do decreto, pois queria ouvir antes as partes interessadas (a Sociedade de Pallotti e o Conselho Central de Lyon). Na verdade, o que estava em jogo não era nem o nome Apostolado Católico e nem a obra de Pallotti que, equivocadamente, fora considerada apenas arrecadadora de fundos. Segundo o Pe. Schulte, esse conflito entre a Congregação da Propagação da Fé e a Obra de Lyon, apesar de velado, escondia interesses econômicos e de prestígio.[4] Somente em 1922, a administração central da Obra de Lyon foi transferida para Roma, no Pontificado de Pio XI (1922 a 1939).

A notícia da iminente dissolução da ‘Sociedade do Apostolado Católico’, naturalmente, atingiu em cheio o coração de Pallotti. Era o mais pesado golpe desencadeado contra ele e seu projeto. Mas, ele não protestou. Permaneceu tranquilo e equilibrado. Orando a Deus e confiando nele, empenhou-se em desfazer os equívocos e mal-entendidos. No dia 30 de julho de 1838, entre outras coisas, escreveu o documento de defesa da ‘Sociedade do Apostolado Católico’ (OO CC V, 179-180). O seu colaborador Pe. Rafael Mélia, por sua vez, redigiu, em letra caligráfica, uma defesa que tem quase o mesmo teor da de Pallotti (cf. OO CC V, 191-201). O Papa leu tudo atentamente e exclamou: “Disso tudo nós não tínhamos conhecimento. Com isso, foi sustado o decreto de extinção (cf. Heinrich Schulte, p. 163s).

Dois anos mais tarde, no outono de 1840, Pallotti, gravemente doente em Ósimo, região de Ancona, em seu testamento aos ‘Padres e Irmãos’, referiu-se a esta ameaça de morte. “A pia Sociedade foi muito combatida e, em dada ocasião, chegou ao ponto de apresentar sintomas de morte” (OO CC III, 24 n. 3); (Doc. Fundação, p. 113).

Em 1836, foi instaurada, com a aprovação do Cardeal Carlos Odescalchi, no Colégio Urbano da Propagação da Fé, a Associação para angariar contribuições financeiras para a propagação da fé, de acordo com os estatutos da Obra de Lyon. Os associados da Pia União passaram para a outra associação. A Pia Sociedade, temerosa pela possível repercussão do povo, preferiu não divulgar publicamente o ocorrido.

No início de 1837, Monsenhor Mai, Secretário da propagação da fé, promoveu uma reunião no Palácio da Propagação da fé, nos aposentos do Cardeal Luigi Ferrari, com a presença do Arquivista do Colégio e do Reitor da Pia Sociedade. Nesta reunião foi estabelecido que a Associação para a coleta de esmolas para as missões estrangeiras fosse tornada pública e que seus associados constituíssem a ‘Classe dos Contribuintes’ (materiais) do Apostolado Católico para a propagação da fé. Naquela reunião, o Reitor da Sociedade ficou incumbido de entrar em acordo com o Cardeal Brígnole, para a formação do primeiro Conselho. O referido Reitor, com a aprovação dele apresentou os primeiros integrantes do Conselho, a saber: Pe. Luigi Togni, Vigário Geral dos Camilianos, o Príncipe Pompeo Gabrielli e o Sr. Giacomo Perelli. Estes, com o Reitor, mais o presidente Cardeal Brignole, passaram a formar o Conselho. Todos, inclusive o contador Perelli, eram membros da Sociedade do Apostolado Católico.

Carta ao Papa Gregório XVI

Mesmo diante desta reviravolta institucional, a questão do nome ‘Apostolado Católico’ continuava em aberto, mesmo após tornada sem efeito a supressão da Sociedade. Na preocupação de garantir a todo custo a continuação da sua obra, Pallotti estava até disposto a sacrificar o primeiro elemento da denominação, a palavra ‘Apostolado’. Neste sentido escreveu uma carta ao Papa, provavelmente em setembro de 1838, na qual se declarava disposto a aceitar esta modificação na denominação. De feito, contentava-se com o título “Sociedade Católica para aprofundamento, defesa e difusão da piedade e da fé católicas”. Neste caso pedia, porém, sob o novo nome, que ficassem assegurados os bens espirituais, as doações testamentárias e as finalidades da Sociedade. Em resposta, no dia 01 de outubro de 1838, no dorso do requerimento, o Papa confiou a solução definitiva à Congregação da Propagação da Fé.

Esta Congregação, em sessão do dia 11 de dezembro de 1838, discutiu os diversos aspetos da questão. A ‘Sociedade’ sobreviveu, mas o problema do nome ficou sem solução. Quatro anos depois da morte de Pallotti (1850), instado pela mesma Congregação da Propagação da Fé, Pio IX (1846-1878), a 09 de abril de 1854, mudou o nome da Congregação dos Padres e Irmãos para ‘Pia Sociedade das Missões’ (Heinrich Schulte, p. 164s).

Noventa e três anos depois, o Papa Pio XII, no dia 09 de junho de 1947, restituiu à Pia Sociedade das Missões o nome original de ‘Sociedade do Apostolado Católico’. Isso indica que, no momento da aprovação pontifícia, a Santa Sé preferiu enfatizar o caráter de sociedade clerical dedicada às missões, em detrimento da visão original e mais ampla de Pallotti, que era a “Sociedade do Apostolado Católico”. Essa alteração visava se adequar à estrutura e ao entendimento canônico da Igreja, para as novas congregações da época, que frequentemente tinham um foco mais definido (Doc. Fundação, p. 119).

O nome imposto, por um período, liquidou a designação original e, de certa forma, obscureceu a ideia central de Pallotti sobre o apostolado leigo universal, que era a essência da “União do Apostolado Católico” e da “Sociedade do Apostolado Católico”. A retomada do nome, em 1947, durante o pontificado do Papa Pio XII, significa um retorno às fontes e à visão profética de São Vicente Pallotti. Essa mudança marcou o fim de um período de crise interna e foi um passo crucial para o reconhecimento universal do carisma palotino, que culminou com a beatificação (1950) e a canonização (1963) do fundador. O nome S.A.C. reflete melhor a missão de reacender a Fé e reavivar a Caridade em colaboração de leigos, clérigos e religiosos.

Em resumo, podemos dizer que desde o período da supressão até a recuperação do nome (1854-1947) pode ser visto como uma fase de adaptação e consolidação do carisma palotino. A congregação se estabeleceu dentro de um molde eclesiástico mais tradicional, mas, posteriormente, foi corrigido com a restituição do nome original, que resgatava a plenitude do carisma de São Vicente Pallotti. Que Deus continue abençoando esse carisma, para que continue produzindo abundantes frutos para a Igreja de Cristo em todos os cantos da Terra. “Deus em tudo e sempre”!

PARA REFLETIR

  1. Quais foram as razões que levaram a suspensão da UAC?
  2. Que posição Pallotti tomou em relação ao conflito com a Obra de Lyon?
  3. Por que o nome apostolado católico trouxe dificuldade para a aprovação da UAC?

 

 



[1] Bruno Bayer (Ed); Josef Sweifel. Vicente Pallotti: Documentos da fundação, Pallotti: Santa Maria, 1996, p. 91.

[2] Vincenzo Pallotti. Opere complete (OO CC). A cura di Francesco Moccia. Roma: Curi Generalizia della Società dell’Apostolato Cattolico, 1964-1997.

[3] Stanislaw Stawicki. A cooperação, paixão de uma vida. Biblos: Santa Maria, 2007, p. 120. Documentos da fundação, pp. 186-190).

[4] Heinrich Schulte. Estrutura e História do Apostolado Católico de São Vicente Pallotti, pp. 145-147.

 

Tema 2: A origem e o objetivo da União do Apostolado Católico

Ainda muito jovem, Pallotti descobriu Deus como Aquele que ama tudo o que criou. Essa experiência aumentou nele o desejo de responder ao amor de Deus, com todas as suas faculdades, e ajudar o maior número possível de pessoas a fazerem o mesmo.

A atividade de Diretor Espiritual no Colégio da Propagação da Fé, que exerceu desde 1833, logo convenceu Pallotti de que a Igreja, com os meios utilizados até então, não seria mais capaz de realizar as tarefas que lhe eram apresentadas nas novas possibilidades de difundir a fé, especialmente no mundo de língua inglesa (OO CC IV, 120).

Quando ele conheceu as necessidades dos cristãos caldeus, nos atuais territórios do Irã e do Iraque, Pallotti, em 4 de dezembro de 1833, escreveu um apelo dirigido a “todos os bons católicos do mundo inteiro”, para prestar assistência juntamente com aquela Igreja local[1]. Em 1834, Pallotti reuniu ao seu redor um Comitê de leigos e padres que trabalhavam para o apoio da Igreja Caldeia (OO CC III 24; OOCC IV 176, 314).

Entre os anos de 1834 a 1839, Vicente Pallotti alcançou uma crescente clareza em relação à configuração da obra que ele fundou no ano de 1835. A história unificada da União vai de 1820 a 1846, quando Pe. Vicente se mudou para a Igreja do Santíssimo Salvador e tomou a decisão de criar, legalmente, a Sociedade do Apostolado Católico. Esta história está repleta de mal-entendidos, dificuldades e contrastes, e trouxe, a Pallotti, os sinais de morte. Sobre isso, falaremos mais adiante.

No entanto, durante uma curta e dolorosa história unificada, a União, antes de ter a aprovação jurídica do corpo e do motor central da Sociedade, padres e Irmãos, criou e dirigiu as mais importantes iniciativas palotinas, como: os Oratórios noturnos e as Escolas noturnas que começaram em 1819 – 1820; em 1833, o Mês de maio para os enclausurados, eclesiásticos e leigos e a conferência semanal do clero; o Oitavário em 1836; o Colégio de Missões Estrangeiras, criado em 1835; a resposta generosa à epidemia de cólera de 1837; os cuidados do Hospital Militar em 1843 e, finalmente, a missão de Londres em 1844[2]. Quase todas essas atividades começaram, ocorreram e tiveram sua coordenação na Igreja do Espírito Santo dos napolitanos.

Portanto, a data referencial do nascimento da UAC, aceita como inspiração/intuição de Pallotti, ocorreu no dia 9 de janeiro de 1835[3]. O fato ocorreu, quando celebrava o Oitavário da Epifania, no momento de ação de graças, após a celebração da Santa Missa. A sua experiência foi assim descrita: “Meu Deus, minha misericórdia, em sua infinita misericórdia, você me concede de uma maneira particular promover, estabelecer, propagar, aperfeiçoar, perpetuar pelo menos com o desejo mais vivo de seu Santíssimo Coração:

1.      Uma piedosa instituição e um apostolado universal a todos os católicos, para promover a fé e a religião de Jesus Cristo entre todos os incrédulos e não católicos;

2.      Outro apostolado oculto para reavivar, preservar e aumentar a fé entre os católicos;

3.      Uma instituição de caridade universal, no exercício de todas as obras de misericórdia espiritual e corporal, para que você seja conhecido no homem como possível, uma vez que é uma caridade infinita”[4] (Doc. da fundação, p. 34-35).

Em 1835, Vicente Pallotti, em uma experiência mística vital, fez uma profunda experiência do infinito amor e misericórdia de Deus. Pe. Francisco Todisco coloca essa sua experiência como momento fundamental do recebimento do carisma, ou seja, dom espiritual que lhe foi confiado pelo Espírito Santo, para o bem da Igreja de Jesus Cristo. O carisma foi a intuição e a inspiração para estabelecer, na Igreja, a União do Apostolado Católico, uma instituição “múltipla”, isto é, com muitas facetas.

Pallotti vê e sente as grandes necessidades do mundo e da Igreja

Todos os fundadores partiram de uma viva e forte percepção das necessidades da humanidade e da Igreja. Para Pallotti não foi diferente. As suas iniciativas e trabalhos foram orientadas à superação de tais dificuldades, por meio da iluminação da fé e do conhecimento destas realidades, mediante os seus contatos com o mundo missionário, como espiritual no seminário da Propagação da Fé.

As grandes necessidades do mundo, percebidas e sentidas por ele, situavam-se, sobretudo, no plano religioso. Ele olhava tudo isso com os olhos e com o coração do Cristo Apóstolo, do Cristo Missionário, do Cristo Enviado do Pai: um mundo a ser salvo e conduzido ao Pai Celeste. Ele constatava que a grande maioria da humanidade desconhecia, Jesus Cristo e não cria nele e, por causa disso era “infiel”, isto é, sem a fé cristã (Doc. da Fundação, pp. 42, 44, 117-118). Por isso, sentiu a necessidade de trabalhar de forma organizada, para unir as forças vivas da Igreja.

Objetivo central da Sociedade: “O objetivo dessa associação é, exclusivamente, a santificação daqueles que a compõem e a propagação da fé católica em todo o mundo” (OO CC IV, 143 e 253). “A vocação à santidade não está reservada a um setor da Igreja, mas é um chamado universal voltado para todos os batizados sem exceção. Em sua essência, para os fiéis leigos, a santidade significa viver coerentemente sua fé no dia a dia, em seu trabalho profissional e no seu estado de vida. O leigo é um cristão, e seu apostolado está relacionado com o papel que ocupa na sociedade temporal, ou seja, com as responsabilidades específicas de sua condição de leigo, no mundo profissional, social, econômico, cultural e político. “O leigo que não separa a fé e a vida, a aceitação do Evangelho e a ação concreta nas mais variadas realidades temporais e terrenas, dá testemunho do que crê. Ali é o seu apostolado”[5]. “Viver a sua vocação específica o conduz ao coração do mundo como um caminho de santidade”[6].

Segundo Pallotti: “O corpo central e motriz do apostolado católico é composto de eclesiásticos e de leigos. Eles se reunirão, irmanados entre si pela caridade, em local oportuno, para atender à perfeição de si mesmos..., e para preparar o espírito daqueles que queiram dedicar-se às missões” (OO CC V, 47). Mas a Congregação seria a alma e a parte motora da Sociedade e deve garantir-lhe a unidade, a estabilidade e a eficiência.

Um outro fator importante para a Sociedade do Apostolado Católico, é de se opor, por meio de uma ação viva e eficaz, a tudo aquilo que conspira contra a religião. Por isso, pretendia reunir toda a ação evangélica, as orações e as ofertas daqueles que se inscreviam na sua obra, para criar um exército de devotos, um corpo de fiéis zelosos e fervorosos em matéria de fé e de religião. Como corpo auxiliar da Igreja, os membros deveriam ser como trombetas evangélicas, que fomentassem em todos o desejo de propagar a fé, pelo vínculo da caridade.

Para Pallotti, a finalidade da obra do Apostolado Católico é reunir a ação evangélica daqueles que dela fazem parte, para auxiliar as obras de piedade e zelo existentes, e aumentar os meios para propagar a religião católica sob a dependência do papa. Para alcançar mais facilmente seu vasto objetivo, a Sociedade une-se e convida a unir-se a ela outras Sociedades Católicas, Religiosas e Corporações, para trabalharem unidas, porque, para ele, os trabalhos só terão êxito quando todos concentrarem suas forças e caminharem em uma mesma direção. Todos podem fazer parte (Leigos, Religiosos, Padres seculares e Irmãs, individualmente ou em grupo) que, conscientes da obrigação que possuem, por essência da criação, de salvar a si mesmos e aos outros, inscrevendo-se, dão o seu nome, a obra, as orações e a contribuição à Sociedade, para vir em auxílio da Igreja (Papa, Bispos, Párocos, Missões), seguindo Jesus Cristo, Apóstolo do Pai Eterno.

O apostolado nasce do batismo

Pallotti foi mais seguido por leigos do que por padres, mas o corpo central e motor do apostolado universal se reunia com seus leigos, para atender à própria perfeição, ou seja, crescer em santidade para ser apóstolo (OO CC V, 65, 69 e 76)[7]. O preceito da caridade é o argumento para chamar todos ao apostolado. O apostolado feito em benefício da salvação do próximo é fruto da caridade. Como Jesus é apóstolo do Pai eterno, assim todo o cristão é apóstolo dele. O apostolado de Jesus Cristo é a sua obediência ao preceito do Pai Celeste, vale dizer, é a própria obra da redenção. Esse argumento é tão importante para Pallotti que ele coloca a vida de Jesus Cristo como norma para os seus continuadores.

Pallotti não teve a preocupação de apresentar uma descrição do que seja o fiel leigo. Mais do que falar de leigo, ele acentuava o ser cristão, para se referir a todos os membros da Igreja e justificar o direito e o dever de todos participarem do apostolado de Jesus Cristo[8]. O batizado deve inserir-se e identificar-se perfeitamente com Cristo, de tal maneira que Ele é constituído originalmente o “modelo do apostolado de todos”. Pelo batismo, o cristão é colocado em perfeita comunhão com a vontade salvífica do Pai, isto é, com o apostolado. A caridade constitui o cristão, unindo-o ao Pai, e é o seu dinamismo apostólico. Deste modo o cristão se torna, em Cristo, imagem e semelhança de Deus. Esta imagem e semelhança se verifica, em primeiro lugar, no amor ao próximo que é ação salvadora. Desta forma, a teologia do apostolado de Pallotti entra em sintonia com a própria teologia da Igreja, expressa no Vaticano II que diz: A Igreja, antes de ser hierárquica, é povo de Deus (LG 4).

Portanto, o apostolado não é prerrogativa daqueles que têm jurisdição e ministério, mas pertence a todos os batizados. O apostolado é católico. Esta é uma afirmação que faz de Pallotti um autor avançado, visto que o termo apostolado é relativamente recente (At 1, 25)[9].

Ele via, também, muitos fiéis separados do verdadeiro rebanho de Cristo: hereges e cismáticos. Se a existência dos pobres e dos doentes o entristecia e o comovia, muito mais ainda sofria e comovia-se ao ver a maior parte da humanidade privada da luz e da presença salvadora de Jesus Cristo. Ele percebeu que o mundo precisava ser evangelizado, para poder ser salvo por Jesus Cristo e ter a vida eterna. Como não há evangelização sem evangelizadores, e estes eram muito escassos, era preciso multiplicá-los e qualificá-los, isto é, formá-los, habilitá-los e enchê-los do espírito de Cristo.

Além de poucos, os ministros ordenados estavam muitas vezes desunidos. Pallotti lamentava a divisão entre o clero diocesano e o clero regular, a separação entre os religiosos, os clérigos e os leigos. Os clérigos acreditavam que o apostolado era privilégio próprio. O próprio ministério sacerdotal era muitas vezes subordinado a interesses materiais, o que alimentava o carreirismo e a competição entre os membros da hierarquia eclesiástica. Além disso, o clericalismo fomentava a passividade dos leigos.

Paulo VI disse, em Frascati, em 1963, diante do corpo de Pallotti, que “o mundo dos leigos era passivo, sonolento, tímido e incapaz de expressar-se”[10]. Esta passividade dos leigos era causada não só pelo clericalismo dominante dos clérigos, mas também pela grande ignorância da vocação apostólica ou evangelizadora própria de todos os cristãos, por uma falta de fé viva e de uma caridade ardente. Por isso, os leigos devem elevar-se a esta consciência, que é dada, como sabeis, não somente pela necessidade de alongar braços, eu diria, do sacerdote que não chega mais a todos os ambientes e já não dá conta de todas as tarefas. Ela provém de algo mais profundo e de mais essencial, isto é, do fato que também o leigo é cristão (Horizontes palotinos, p. 331). Segundo Bento XVI, “Todo batizado recebe de Cristo, como os apóstolos, o mandato da missão”[11]. Para o Vaticano II, cada um é apóstolo segundo os dons e os carismas recebidos do Senhor: “Há na Igreja diversidade de ministérios, mas unidade de missão” (Apostolicam Actuositatem, n. 2).

Para Pallotti, o apostolado cristão brotava de uma fé viva e de uma caridade ardente e, sem elas, não há apostolado e nem interesse em propagar a fé cristã no mundo. Entendia, ainda, que o apostolado não é apenas o trabalho do missionário, mas é apóstolo aquele que reza pela evangelização do mundo e aquele que com a sua ajuda material colabora para a evangelização[12].

Guiado pelo Espírito Santo, Pallotti compreendeu os sentimentos de Cristo e penetrou no sentido mais profundo da palavra de Deus e entendeu que toda a Igreja e todos os seus membros estão chamados a se empenhar na continuação do apostolado de Jesus Cristo ou no prolongamento da sua missão no mundo. Viu que, o empenho na salvação do mundo, pertence a toda a Igreja e a cada um dos seus membros. Pallotti compreendeu que Deus quer que o homem coopere ativamente na salvação eterna do seu próximo. Não apenas os ministros ordenados, mas também todos os cristãos são chamados a cooperar eficazmente na propagação da fé no mundo inteiro e, por isso, a ajudar o próximo a conseguir a sua felicidade eterna.

Para Pallotti, todos os homens, pelo fato de serem imagem e semelhança de Deus, devem empenhar-se em ajudar o próximo a conseguir a vida eterna, pois Deus, em todas as suas ações voltadas para fora, procura sempre o bem do homem, até ao ponto de enviar o seu único Filho, para redimir o gênero humano com sua morte na cruz (Doc. da Fundação, p. 91). “Deus é perfeito no amar o homem. Desde toda a eternidade o amou e o ama eternamente. Também o homem, na medida das suas possibilidades, deve imitar a Deus amando a seu próximo com a eficácia das obras. E o próximo é todo ser humano, de qualquer condição, clima, nação etc., capaz de conhecer a Deus (Doc. da Fundação, p. 92).

São Vicente Pallotti afirmava que todos os fiéis são chamados a imitar Jesus Cristo, que é o Apóstolo do Pai eterno. Por isso, todos são chamados, conforme a sua condição e seu estado, ao apostolado (Doc. da Fundação, p. 33). Mas, o que ele entende por apostolado? Partindo da significação etimológica da palavra apóstolo, ele dá também a significação de apostolado. Assim escreveu: Nosso Senhor Jesus Cristo é o Apóstolo do eterno divino eterno Pai, porque enviado por Ele para reparar a glória ultrajada da sua majestade e para redimir o gênero humano, tornado massa de perdição pelo pecado de Adão. O apostolado de Jesus Cristo é a sua obediência ao preceito do Pai Celeste, vale dizer, é a própria obra da redenção. Os doze, nomeados no capítulo 6 de São Lucas, são os apóstolos de Jesus Cristo e tudo o que eles, de acordo com o mandato de Jesus Cristo, fizeram pela maior glória de Deus e pela salvação eterna das almas. Esse foi o apostolado deles (Doc. da Fundação, p. 31).

Apostolado é, portanto, a própria obra da redenção ou da salvação, e apóstolo é aquele que realiza a obra da salvação. Mas é também apóstolo aquele que coopera para a realização da salvação, preparando-a ou colaborando para sua realização, expansão e consumação. Assim, Maria é a Rainha dos Apóstolos porque mais do que ninguém, depois de Jesus Cristo, “contribuiu na sua condição para a propagação da fé e a dilatação do reino de Jesus Cristo. Por isso, cada um que, conforme seu estado e suas forças e confiando na graça divina, se dedica quanto pode à propagação da fé, pode merecer o nome de apóstolo e tudo o que ele fizer para tal fim será seu apostolado” (Doc. da Fundação, p. 32). Daí a conclusão de Pallotti: “Apostolado Católico é fazer o que cada um pode e deve fazer, para a maior glória de Deus e para a eterna salvação própria e dos demais” (Doc. da Fundação, p. 34).

Diante da situação em que se encontrava o mundo privado da luz da fé cristã e também da situação lamentável em que se encontravam muitos cristãos, nos quais estava amortecida a fé e apagada a caridade, e por isso mesmo sem condições para praticar as obras da caridade salvífica, Vicente Pallotti viu a necessidade de fazer uma campanha em favor do reavivamento da fé e do reacendimento da caridade cristã entre os católicos, pois somente assim eles seriam capazes de interessar-se pela salvação eterna própria e do próximo. Daí o seu propósito inicial de jovem padre: reavivar na Itália e no mundo inteiro o espírito dos primeiros cristãos.

Na sua mente e no seu coração, foi amadurecendo a ideia de despertar em todos os cristãos o espírito apostólico ou missionário de Jesus Cristo e de motivar toda a comunidade cristã a engajar-se na propagação da fé no mundo inteiro, pois a propagação da fé ou a evangelização de todos os povos ou a reunião de todos os homens, no mesmo rebanho de Cristo, é a obra mais própria da comunidade cristã, a mais necessária para a humanidade, a mais agradável a Deus e a mais meritória para todos os fiéis.

O que Vicente Pallotti, realmente, queria com a sua fundação?

Podemos dizer que Pallotti queria resgatar e promover o apostolado católico na Igreja, isto é, conclamar a todos para que assumissem o seu compromisso de cristãos. Ele foi o grande batalhador do apostolado universal, o qual ele colocou a União do Apostolado Católico a seu serviço e promoção. Com a sua fundação, colocou-se por inteiro a serviço do Apostolado Católico e de cada um, instituído pelo próprio Cristo na sua Igreja, para a salvação do mundo. Ele fundou uma comunidade eclesial apostólica a serviço do apostolado universal. “Essa ideia surgiu quando alguns católicos, sacerdotes e leigos, sem pensar em nenhuma pia sociedade concreta, buscavam, em Roma oportunos meios religiosos adequados ao cultivo da fé e da piedade dos católicos, que vivem em região de infiéis” (Doc. da fundação, p. 120).

O carisma de São Vicente Pallotti envolve muitos elementos relacionados com Deus, com a humanidade, com a Igreja e com a história. Ele envolve uma profunda compreensão de Deus como amor infinito e misericórdia infinita. Por amor, Deus criou o mundo e colocou nele o homem feito à sua imagem e semelhança. Por amor, feito misericórdia, Deus quis salvar o homem perdido e para reconduzi-lo, por meio do seu Filho Jesus Cristo, à comunhão com Ele. Por amor, Jesus Cristo realizou a vontade salvífica do Pai e quer a salvação de todos os homens.

Pallotti sentiu que toda a humanidade não só necessita da salvação, como é chamada a ser salva, pela infinita misericórdia de Deus. Viu-a como o alvo do amor de Cristo, vivo e atuante em cada coração cristão. Diante da imensa maioria que ainda desconhece o Cristo, todo o fiel deve empenhar-se pela salvação da humanidade por meio da oração, da pregação do evangelho e do exercício da caridade cristã. Ele entendeu, também, que a comunidade cristã inteira deve continuar e prolongar, no espaço e no tempo, a salvação realizada por Jesus Cristo, mediante a sua morte, ressurreição e comunicação do seu Espírito.

Para Pallotti, o trabalho de evangelização e de salvação não deve ser feito de modo isolado, mas de modo ordenado, isto é, em conjunto. A sua fecundidade depende da sua unidade. É necessário, portanto, unir forças no trabalho em favor do evangelho.

“São Vicente Pallotti foi, portanto, o grande incentivador do apostolado universal. Ele procurou despertar o espírito missionário, evangelizador em toda a Igreja. De modo particular, ele procurou redescobrir e promover o engajamento apostólico ou missionário de todo cristão leigo. Podemos dizer que ele contribuiu bastante para a redescoberta e a revalorização do espírito e do empenho missionário de toda a Igreja, especialmente dos leigos que, no seu tempo, eram passivos e inexpressivos em termos de missão e de apostolado. Pallotti intuiu, viveu, proclamou e promoveu a missionariedade ou a apostolicidade de todo cristão. Mostrou com a palavra e a vida que ser cristão é cooperar eficaz e generosamente para a salvação eterna do próximo e para a glorificação infinita de Deus”[13].

Portanto, podemos dizer que cada carisma envolve uma batalha constante e autêntica, para entender e para ser tudo aquilo a que somos chamados. Essa é a essência de toda vocação e do nosso chamado palotino. Isso significa que nunca encontraremos uma definição absoluta de nosso caminho, de nossa identidade. O carisma da União é um dom do Espírito Santo e, portanto, uma comunicação da graça divina ao ser humano. Seremos sempre um povo de peregrinos, que busca cumprir a obra de Deus.

 

PARA REFLETIR

  1. Quais foram as primeiras atividades exercidas pelo nosso santo fundador?
  2. O que levou Pallotti a criar uma associação que envolvesse todas as classes de pessoas?
  3. Como você descreveria essa atitude de Pallotti diante das necessidades do seu tempo?


[1] Horizontes palotinos. Angelo Lôndero (org.), Biblos: Santa Maria, 2002, p. 396. San Vincenzo Pallotti. Opere complete lettere (OCL). Curia Generalizia della Società dell’Apostolato Cattolico, ROMA, Vol. I, p. 289.

[2] J. Hettenkoffer. História da Pia Sociedade das Missões, Biblos: Santa Maria, 2003, p. 112-113.

[3] NB: Pallotti teve três importantes experiências com a Sociedade do Apostolado Católico. A primeira ocorreu no dia 9 de janeiro de 1835 (OOCC X, 196-2001); a segunda, entre 14 a 19 de julho de 1839 (OOCC X, 321s); e a terceira, em 26 de março de 1840 (OOCC X, 210-212). Ele teve uma visão mais clara, uma opção mais ousada, que a de um entendimento e a de uma decisão comum. Vicente PALLOTTI. Documentos da Fundação. Trad. do Pe. Dorvalino Rubin (textos de Pallotti) e Pe. João B. Quaini (introduções), Santa Maria: Pallotti, 1996, p. 35.

[4] Documentos da Fundação. Trad. do Pe. Dorvalino Rubin (textos de Pallotti) e Pe. João B. Quaini (introduções), Santa Maria: Pallotti, 1996, pp. 34-35.

[5] João Paulo II, Christifidelis laici, n. 2.

[6] Ângelo Lôndero. Por uma formação cristã e palotina, pp. 339 e 340.

[7] NB: Essas palavras foram ditas pelo leigo Alkusci.

[8] Lôndero. Por uma formação cristã e palotina, p. 325, 326, 327, 328 e 330.

[9] Horizontes palotinos, p. 378 e 379.

[10] Cf. Informações Palotinas, Santa Maria, dez. (1994), p. 98.

[11] Discurso inaugural da Conferência de Aparecida, n. 3.

[12] Lôndero. Por uma formação cristã e palotina, p. 358.

[13] Leis da Sociedade do Apostolado Católico. Pallotti: Porto Alegre, 1984, Preâmbulo, a. b. c.