quinta-feira, 16 de julho de 2026

 


Tema 8: VICENTE PALLOTTI: UM SACERDOTE INQUIETO

Quando analisamos uma pessoa, normalmente, muitos aspectos da sua vida acabam sendo desvendados por impressões de simpatia ou de antipatia. A partir dos primeiros contatos, nós vamos nos identificando ou não com o seu modo de ser e de agir. Quando se trata de alguém com fama de santidade, certamente, os olhares são mais aguçados e mais exigentes da parte daqueles que o observam, pois, ao olhar para ele se vê traços do amor de Deus e, dele, não se espera nada que fuja da missão que ele abraçou em favor do povo.

Quanto a São Vicente Pallotti, durante o período em que exerceu o seu ministério sacerdotal, ele deixou marcas profundas no imaginário de muitas pessoas. Ele exerceu múltiplas funções, sempre com o intuito de dar uma resposta adequada a cada situação com a qual se deparava. Isso foi criando nele uma inquietude espiritual. Podemos dizer que ele foi sendo modelado não somente pela graça infusa de Deus, mas também pela convivência que teve com a sensibilidade humana e religiosa de seus pais.

Em relação ao tema: “Vicente Pallotti: um sacerdote inquieto”, apresentaremos alguns testemunhos de pessoas que o conheceram e que conviveram com ele. Na verdade, ele era um sacerdote de muitas qualidades. Foi professor universitário e de muita ação pastoral. Isso fez com que ele soubesse analisar, com habilidade, as questões teóricas em seus vários aspectos, bem como agia de maneira prática diante dos profundos desafios pela qual passava a Igreja de seu tempo. Por isso, dedicava boa parte do seu tempo para as confissões e orientações. De acordo com relatos, ele jamais viveu de maneira reclusa. Quase nunca estava em casa. Em seus escritos, ele sempre reclamou das suas limitações humanas e procurou vencê-las por meio de longas orações e muito espírito de sacrifício e penitência.

O caminho percorrido por Pallotti

Vicente Pallotti, ainda na sua juventude, viveu como qualquer outro jovem da sua idade. Passou sua infância no centro de Roma. Participava da vida social, em meio aos trabalhos cotidianos da família, convivendo com pessoas de todas as classes sociais que frequentavam o comércio de seu pai. Naquele ambiente, aprendeu a observar as pessoas e a sentir as suas reais necessidades. Ele percebeu que elas buscavam alimento para nutrir o corpo, mas algo lhe dizia que precisavam também de saciar a alma.

No confronto com cada uma delas, percebeu que, independentemente da sua história pessoal, estava diante de um ser humano, feito à imagem e semelhança de Deus, que precisava ser amada e respeitada. À medida que crescia esse sentimento, aumentava nele a necessidade de partilhar com todos a experiência que fizera do amor de Deus. Essa sua sensibilidade foi sendo cada vez mais ampliada a ponto de escrever:

Ao pensar, ao ouvir falar ou ver pessoas aflitas, angustiadas, atribuladas, cansadas, sobrecarregadas, fatigadas, como, por exemplo, pobres fabricantes de chaves, lavradores, carroceiros, carpinteiros, pedreiros, pobres mulheres aflitas pelos trabalhos domésticos, angustiadas e doentes por causa dos filhos, pelas longas vigílias que devem fazer, quando os filhos adoecem, quando devem cuidar deles, amamentá-los (...). Se eu mesmo ou uma outra pessoa pudesse penetrar em todos os ângulos da terra e enxergar de uma só vez as misérias que afligem a pobre humanidade, eu acredito firmemente que o coração humano não suportaria uma tal visão, mas todos morreriam de dor.[1]

No seu dia a dia, encontrou pessoas insatisfeitas com a vida, outras à beira do desespero devido a tantos sofrimentos. Foi insuportável para ele presenciar tudo aquilo. Diante de Deus, tomou a firme resolução de oferecer o que possuía para amenizar os sofrimentos de tanta gente. Muitas vezes, deixou de tomar o seu lanche para doá-lo a quem tinha fome, doou seus sapatos a um pobre e sua cama a um enfermo que dormia desconfortavelmente. A sua fé em Jesus Cristo foi quem o motivou a sair do seu conforto, para ajudar àqueles que eram penalizados pela vida.

As testemunhas do seu processo de beatificação atestaram esse seu interesse especial pelas coisas de Deus. Ainda muito pequeno, contemplava fixamente uma imagem de Maria e começou a preocupar-se pelo cultivo das virtudes. Dava a impressão de ser um menino tranquilo e modesto nos seus gestos. Cinquenta anos mais tarde, os vizinhos ainda recordavam a sua compaixão pelos mais pobres e necessitados.

Quando tinha doze anos de idade, em 1807, começou a fazer direção espiritual com o Padre Bernardino Fazzini, que foi seu confessor até o seu falecimento, em 1838.[2] Ele teve um papel decisivo na vida espiritual de Vicente, conduzindo-o à santidade. Ele inculcou no jovem Pallotti a prática da mortificação corporal, pois logo percebeu que seu dirigido possuía dotes especiais e graças singulares. Para cooperar com elas, era necessário entrar pelo caminho da mortificação e da penitência. Certa vez, sua mãe pediu que Fazzini desaconselhasse Vicente a fazer as mortificações, porque a sua saúde era frágil. Fazzini limitou-se a dizer-lhe que o dedo de Deus estava dirigindo o trabalho. Parece provável que, já na infância, Vicente Pallotti tenha sentido forte atração pelo sacerdócio. Como adolescente sentiu-se atraído pelos ideais e pela austeridade da Ordem Franciscana Capuchinha, mas o seu diretor espiritual o desaconselhou por causa da sua saúde frágil e pelo fato de que deveria desempenhar um trabalho não no claustro, mas no mundo. Fazzini morreu com oitenta e dois anos de idade e seu filho espiritual o acompanhou em sua enfermidade e falecimento (Gaynor, p. 19). Os dois viveram esta amizade verdadeira durante trinta anos.

O cardeal Lambruschini afirmava que, desde pequeno, Vicente teve o dom do amor de Deus. Aos seis anos foi crismado, tendo como padrinho o seu tio que também levava o nome de Vicente Pallotti. Aos nove anos, seu primo Francisco percebeu que, por penitência, Vicente usava como travesseiro um pedaço de madeira. Aos dez anos, ele fez a primeira comunhão e recebera licença para comungar todos os dias, o que na época, era coisa rara. Vicente manifestava sinais de santidade desde a infância.

Aos quinze anos de idade, em 1810, Vicente decidiu entrar para o clero secular. Com o triunfo da Revolução Francesa, os seminários e colégios estavam fechados e os aspirantes ao sacerdócio deveriam prosseguir seus estudos, vivendo com os pais. Por causa disso, Pallotti fez toda a sua formação morando na casa paterna. As autoridades da Igreja não deixavam de prover a formação dos estudantes, que, em cada paróquia, estavam submetidos ao cuidado especial do pároco do lugar. Esse preocupava-se com que os grupinhos de clérigos participassem nos atos de piedade em comum. Havia também confrarias e centros especiais de reunião para eles, para estimulá-los e assim suprir, de alguma forma, a falta de vida comunitária, tão característica da formação seminarística (Gaynor, p. 20-22). Vicente inscreveu-se na confraria de Nossa Senhora do Pranto, mas logo integrou a diretoria, depois presidiu-a por longo tempo e só foi obrigado a renunciar devido ao acúmulo dos trabalhos apostólicos (Gaynor, p. 24).

Uma nova proposta de vida

Vicente Pallotti não se conformava com o fato de ser uma pessoa a mais entre as demais, ou um sacerdote isolado na Igreja. Ele quis, antes de tudo, que a sua pessoa irradiasse Cristo por onde passasse. Isso não era somente um desejo, ele procurou agir com palavras e ações para ser sinal da presença do ressuscitado, não somente quando ocupava a sua função sagrada, mas em cada gesto de sua vida: “Deus em tudo e sempre” (OO CC X, 131).

O povo romano, sedento por uma nova proposta de vida, logo viu em Vicente Pallotti um modelo a ser seguido. Por isso, em 1835, Pallotti fez um apelo ao povo de Roma:

Todos, grandes e pequenos, doutores e ignorantes, ricos e pobres, sacerdotes e leigos, seculares e religiosos, viventes em comunidade ou em solidão, podem, em sua posição, isto é, no estado em que Deus os colocou, exercer, de alguma forma, sempre com mérito, o apostolado de Jesus Cristo (OO CC III, 146).

O seu testemunho de vida despertou em muitos batizados a consciência de que uma nova aurora se despontava na Igreja. Muitos leigos e eclesiásticos aderiram à obra do Apostolado Católico, pois viram nela uma nova forma de ser Igreja. Descobriram, ainda, que podiam ser protagonistas da sua própria história e colaboradores do apostolado universal. Essa realidade deve ser, ainda hoje, propagada, para que mais pessoas possam assumir o seu batismo de modo consciente e alegre, pois, quem serve a Cristo, nunca fica decepcionado. Por isso, todos são convidados a conhecer e a participar do Apostolado de Jesus Cristo. Até mesmo o seu diretor espiritual, Padre Fazzini, foi o primeiro a se inscrever na obra do apostolado católico, em seguida, o próprio santo (Gaynor, p. 19).  

Vicente Pallotti foi um homem concreto e visual. Para expressar a sua fé, servia-se de sagradas estátuas, de crucifixos, de pinturas expressivas de santos e de Nossa Senhora, de relíquias dos santos. Mais tarde, no seu quarto, na reitoria do Espírito Santo dos Napolitanos, mandou abrir uma pequena janela, para poder ver, durante as orações, o tabernáculo. Mais tarde, na residência do Santíssimo Salvador, não foi possível a ele ver o tabernáculo, mas colocou diante do genuflexório um Calvário, em seu quarto, atrás do qual pintou um crucifixo.

O padre Vicente foi um guia e um líder nato, de intensa caridade, reconhecido espontaneamente pelos participantes dos diversos grupos. Era um homem sensível, “amante da música”, capaz de amor intenso e apaixonado na dedicação à pessoa amada, sempre muito constante. Possuía um temperamento de tenacidade legítima, que não chegava a ser teimosia. Tinha uma inteligência acima da média e apta para temas científicos e para discussão de tais temas. Isto lhe dava seguro senso crítico capaz de torná-lo apto para uma carreira acadêmica. Vicente possuía, porém, um senso vivo da realidade (Todisco, p. 151).

Foi declarado, ainda, que ele possuía uma natureza fogosa, mas soube sublimá-la e, ao ser insultado por alguém se mostrava paciente e dócil. Pe. Vaccari também confirma esse seu temperamento, porém, a sua vigilância o fazia sempre doce e bondoso (Todisco, p. 151). Assim dizia ele: “Não sou capaz de dar bom exemplo, mas com a graça de Deus, serei capaz de santificar o mundo” (OO CC X, 607). “Peço a Deus um caminho santo” (OO CC X, 97).

Possuía, ainda, uma inclinação temperamental para o orgulho, para a ambição, para o mando, para a imposição do próprio querer sobre o dos outros: “Removerei os obstáculos que possam impedir a minha santificação; o obstáculo maior dentro de mim é o orgulho” (Propósitos e aspirações, p. 88, n. 197). “Destruí a minha vida e dai-me a vossa vida de caridade. Transformai-me na vossa caridade” (OO CC X, 674-675).

Para o grafólogo Girolamo Moretti, o padre Vicente possuía um senso vivo da realidade: “tem êxito também por ser um organizador prático, enquanto tem à sua disposição a ponderação e a reflexão capazes de entender a realidade principalmente no campo humano”. A sua praticidade estava orientada para as necessidades da vida. A fidelidade total aos ideais cristãos, os dotes de liderança e a caridade foram traços bem marcantes em toda a sua vida.

Depoimento de Melia: “Sou testemunha e admirador de sua perene, inalterável mansidão para comigo e para com todos os outros”. Maneiras atenciosas, paciência e equanimidade inalteráveis usou-as não só com os coirmãos, os nobres e as pessoas de posição, mas com todos, em especial com os pobres, que muitas vezes eram importunos e intolerantes. Assim deixou escrito: “Quero ter dentro de mim uma profunda compaixão pelas viúvas, agricultores, doentes. Quero sentir as suas aflições” (OO CC X, 19-20). “Quero ser luz para os cegos, bebida...” (OO CC X, 15-16).

O sacerdócio se funde perfeitamente com a vida do santo e sua alma, como se ele tivesse nascido apenas para ser um sacerdote e, em sua vida, não há vestígio de uma escolha que ele teve que fazer dela; como se ele tivesse nascido apenas para isso. Sentiu-se responsável pela salvação de todas as almas e de todas as Igrejas, como se o cuidado da Igreja universal lhe tivesse sido confiado (cf. OO CC X, 151) e já, durante os exercícios espirituais, realizados para sua ordenação sacerdotal, ele estabeleceu esse objetivo: “Senhor, ou morrer ou amar-te infinitamente” (OO CC X, 614). E nos exercícios espirituais de 1827, a razão que dominou todas as suas meditações foi: “Toda a vida de Jesus Cristo seja a minha vida” (OO CC X, 618-625)!

Continuou ele: “Estou convencido de que, se me fosse concedido beijar a terra, por onde passou um sacerdote, como prêmio pelas boas obras, elas seriam grandemente compensadas. O que podemos dizer, então, que a bondade do nosso Deus se dignou elevar-me ao mais sublime grau do sacerdócio” (OO CC X, 147). “Eu rezo a Deus que conceda a mim e a todos a graça de servi-Lo, somente, para a sua glória e para o bem das almas” (OO CC X, 616). “Lembre-se sempre, Vicente, que se os outros tivessem a conveniência que você tem de fazer o bem, eles já seriam grandes santos” (OO CC X, 116).

Na Santa Missa, ele revivia novamente a Paixão de Jesus Cristo. Muitas vezes, foi visto suspenso do chão, quando elevava a santa hóstia. Ele se confessava todos os dias, antes da celebração. Passava noites inteiras diante do Tabernáculo. Ele compôs três notáveis visitas ao Santíssimo Sacramento, mas queria escrever uma para cada dia do mês.

Segundo seu primo Francisco, por várias vezes o encontrou em casa vestido de sobrepeliz e estola, pronto para ouvir as confissões. Fabi Montani também escreveu que, em Roma, não havia nenhum doente ou moribundo que não tivesse sido visitado por ele. Aos seus sacerdotes, ele sugeriu que dividissem o seu dia em duas partes, uma para se preparar para celebrar a missa e a outra para agradecer a Deus, pelo presente da celebração já realizada. Ele queria imitar Jesus Cristo e muitos, realmente, acreditavam que O viam nele.

Pallotti desejou a santidade

Olhando para a vida e obra do nosso fundador, podemos afirmar que o santo é o humano que deu certo. Apesar das vicissitudes da vida, ele soube encará-las com serenidade e simplicidade e conseguiu ver além daquilo que todos viam. O santo, pelo fato de ter descoberto o amor de Deus, não tem medo de enfrentar os desafios, sejam eles quais forem. Ele é um desbravador de novidades, mas com Deus e por causa d’Ele. Enquanto para uns a realidade se apresenta caótica, o santo a vê como um terreno fértil para novas realizações e mudanças de paradigmas. Mas, isso não quer dizer que as incertezas e as dificuldades da vida não o atinjam. Quanto a Pallotti, ele não viveu senão para Deus e para sua glória. Por isso, propunha-se elevar a mente para Deus em tudo que tivesse visto e lido, com a aspiração de que tudo redundasse em maior glória para Ele e para a maior glória d’Ele.

Portanto, o amor a Deus foi a marca registrada que perpassou toda a vida de padre Vicente. A glorificação de Deus se traduzia em amor para com Ele e a sua espiritualidade. Glorificar a Deus e sofrer para tornar infinita a glorificação, juntamente com a vocação apostólica, foram os pilares da experiência religiosa e da orientação de toda a sua vida. O amor, qual meio de glorificação, inicialmente parecia levá-lo à contemplação. Vicente parecia estar no céu, para amar e, na terra, para amar e sofrer, e não para trabalhar pela glória de Deus. A espiritualidade de Pallotti parecia centrar-se no aspecto da adoração da vocação sacerdotal (cf. OO CC X, 163).

Enfim, após termos visto alguns aspectos da vida espiritual do padre Vicente, podemos dizer que falar de santidade não é fácil, mas só é possível quando encontramos pessoas com virtudes elevadas, com um estilo próprio, capaz de encarar os desafios do mundo com serenidade. Como palotinos, além de seguir a Cristo, o santo por excelência, temos como modelo de virtude e de santidade o próprio fundador da União do Apostolado Católico, São Vicente Pallotti. Pelo seu testemunho de vida, toda a Igreja pode aproximar-se, cada vez mais de Deus, com a certeza de que somos profundamente amados e perdoados por Ele. Na sua simplicidade, Pallotti procurou sempre analisar a sua vida a partir da fé, do seu encontro pessoal com o amor infinito e misericordioso de Deus. Por isso, os membros da União do Apostolado Católico devem continuar esta mesma missão de fazer com que Cristo seja sempre amado, servido e glorificado por todas as pessoas de todos os tempos.

Que o Espírito Santo, que impulsionou à missão todos os que participaram do Cenáculo de Jerusalém, possa fazer das nossas comunidades um verdadeiro Cenáculo, onde Deus se torna o centro de tudo e de todos.

 

Para refletir

1.      Quais eram as inquietudes do padre Vicente Pallotti?

2.      Com que olhar Vicente Pallotti olhava para as pessoas?

3.      Muitos testemunharam sobre a vida e a obra de Vicente Pallotti. O que você compreendeu, até agora, sobre o carisma deixado por ele?



[1]  GAYNOR, Juan Santos. Vida e obra de São Vicente Pallotti, Santa Maria, 2000, p. 34-35; (OO CC X 19-20).

[2] TODISCO, p. 60-61. AMOROSO, Francesco. São Vicente Pallotti romano, p. 26-27.


domingo, 12 de julho de 2026

 


Tema 7: VICENTE PALLOTTI E SEUS ANSEIOS

Para conhecermos uma pessoa notável (em profundidade), devemos não só entrar em contato com a sua obra, mas também ouvir o que dizem a seu respeito. Certa vez, até mesmo Jesus perguntou aos seus discípulos: O que as pessoas falavam sobre ele. E as respostas foram as mais variadas. “Uns dizem que és João Batista, outros Elias ou algum dos antigos profetas que ressuscitou” (Mt 16,13-16).

Sobre Vicente Pallotti temos relatos de que ele era visto, pelo povo romano, como uma personalidade extremamente popular, amada e quase unanimemente considerada um “santo em vida” e o “apóstolo de Roma”. Sua reputação na “Cidade Eterna” era de um homem incansável na caridade, místico e guia espiritual de todas as classes sociais, desde nobres até os mais pobres e doentes.

Ele era um sacerdote imerso na realidade das pessoas e sabia ouvir as dores e as angústias que cada uma delas trazia em seu coração. Diante disto, certamente brotou nele um profundo desejo de aliviar tantos sofrimentos, ao ponto de escrever no seu diário espiritual “As luzes”: “Ao ver ou pensar nos pobres, esforçar-me-ei para ajudá-los da maneira que puder, e como a maior glória de Deus exige, então, tentarei conceber a mais alta compaixão de seu estado miserável, de modo que eu gostaria que todas as partes do meu corpo e a própria alma respirassem compaixão e misericórdia. Por isso, eu gostaria de me tornar comida, bebida, licor, roupas, posses etc., para sempre ajudar em suas misérias, e, assim, eu gostaria de ser transformado em luz para cegos, voz para os mudos, ouvidos para os surdos, saúde para os doentes etc. (São Vicente Pallotti. As luzes, n. 17.2, p. 25).

Esse seu desejo foi transformado em realidade, quando em 1837 Roma fora acometida pela epidemia de cólera que deixou milhares de pessoas órfãs. Diante de muitas mortes e de pessoas infectadas, ele mesmo cuidou pessoalmente de muitos doentes e moribundos, demonstrando coragem e caridade extraordinárias. Aos olhos do povo, ele era amplamente visto como um homem de amor e de profunda compaixão, doando o que tinha aos necessitados, o que acabou por levá-lo à morte por pneumonia após doar sua capa a um necessitado, em 1850.

A sua preocupação não estava apenas direcionada para as necessidades mais imediatas, como a fome, ou a doença, mas principalmente com a questão espiritual. Em relação aos jovens, com receio de que pudessem se perder na vida, não poupou o seu tempo para dar orientação em colégios e universidades, sendo reconhecido como mestre e guia de almas.

Ele tinha um desejo tão intenso pela salvação das almas que parecia uma obsessão. Como sabia que sozinho era impossível atingir a todos, então teve a nobre intuição de criar uma instituição que pudesse atingir o mundo inteiro.

O trabalho realizado por Pallotti foi tão intenso que ficou conhecido como o “segundo apóstolo de Roma”, depois de São Filipe Neri (1515 a 1595), pois tinha como foco os mais esquecidos que estavam nos hospitais e nas prisões. Tornou-se um confessor extremamente procurado. Ele acreditava que o confessionário era o lugar onde a misericórdia de Deus se tornava concreta. Fundou escolas noturnas para jovens trabalhadores e artesãos que não tinham acesso à educação formal durante o dia.

Diferentemente de muitos padres da sua época, Vicente não trabalhava sozinho. Desde o início, ele buscava a colaboração de pessoas comuns: Ele incentivava médicos, advogados e comerciantes a usarem suas competências profissionais como ferramentas de evangelização. As suas ações visavam quebrar as barreiras entre o clero e o povo, criando uma consciência de missão compartilhada.

Embora tenha começado a agir imediatamente após a ordenação, em 1818, o auge de suas ações iniciais culminou na fundação da União do Apostolado Católico (UAC) em 1835. Nele havia o desejo de que todas as instituições de caridade existentes trabalhassem juntas. A melhor forma para convidar as pessoas a trabalharem juntas, aconteceu na celebração da Oitava da Epifania em Roma, que envolvia vários estratos da sociedade romana, cada um com um papel a cumprir, em um evento que reunia diversas línguas e ritos para mostrar a universalidade da Igreja.

Na verdade, o grande anseio que palpitava no coração de Pallotti era o desejo de “despertar o gigante adormecido” que era o laicato. Ele acreditava que os leigos (pessoas comuns, com profissões e famílias) tinham um papel fundamental na evangelização. O seu maior sonho era ver carpinteiros, advogados e donas de casa usando seus talentos para o bem comum e para levar o Evangelho aos lugares aonde o clero não chegava. Ele não queria criar apenas mais uma congregação isolada, mas, sim, criar uma rede de colaboração que unisse todas as forças da Igreja. Para Pallotti, a caridade era mais eficaz quando feita em conjunto e, com isso, queria superar o isolamento entre diferentes grupos religiosos, para criar uma estrutura de apoio mútuo para as obras de caridade e missões. A caridade, para ele não era apenas dar esmolas, mas atingir a pessoa em sua integralidade.

A Imitação de Maria, Rainha dos Apóstolos

Vicente Pallotti desejava que todos seguissem o exemplo da Virgem Maria. No Cenáculo, ela não era apóstola pela ordenação, mas pela sua presença orante e caridosa que incentivava os outros. Esse era o modelo de “apostolado escondido” que ele ansiava para todos os fiéis. Assim encontramos em Atos dos Apóstolos sobre Pentecostes: “Todos eles tinham os mesmos sentimentos e eram assíduos na oração, junto com algumas mulheres, entre as quais Maria, mãe de Jesus, e com os irmãos de Jesus” (At 1,14).

O surgimento do ideal de Vicente Pallotti

Antes de tudo, foram as suas observações e experiências como diretor espiritual, no colégio da Propagação da Fé, que o fizeram amadurecer em muitas iniciativas apostólicas. As novas perspectivas para a Igreja que provinham dessas vivências prepararam o terreno para o que estava por vir.

O momento da inspiração ocorreu no dia 09 de janeiro de 1835, quando rezava na capela do convento “Regina Coeli” das carmelitas, durante a ação de graças após a comunhão, brilhou repentinamente em sua mente um ideal que mudou completamente o seu modo de agir. Como uma visão de futuro, esse propósito dominaria, nos anos seguintes, todos os seus pensamentos e esforços.

O registro desta experiência, como era seu costume, foi anotado em uma folha solta. Em traços curtos e claros, marcou aquilo que futuramente seria a imagem orientadora de sua alma e de seu ser. Assim escreveu: “Meu Deus, minha misericórdia, em vossa infinita misericórdia, Vós me permitis de uma maneira extraordinária, pelo menos com o mais vivo desejo de promover, de estabelecer, de difundir, de aperfeiçoar e de formar permanentemente em vosso santíssimo Coração. Uma obra de apostolado universal entre todos os católicos, para a difusão da fé e da religião de Jesus Cristo entre todos os infiéis e não católicos. Um outro apostolado oculto, para reavivar, conservar e aprofundar a fé entre os católicos. Uma obra universal do amor pelo exercício de todas as obras de misericórdia corporais e espirituais, para que Vós sejais reconhecido no homem de todos os modos possíveis e imagináveis, já que Vós sois o amor infinito” (S. V. Pallotti. As luzes, p. 65).

Portanto, Pallotti achava que eram necessárias na Igreja três organizações de extensão mundial. O alvo da primeira era: a organização de todos os católicos para a difusão da fé entre os não católicos. Portanto, seria propriamente uma sociedade missionária, que na medida do possível abrangesse todos os católicos como sócios, ganhando-os como colaboradores pela oração e contribuição monetária. Esta cooperação de todos os cristãos católicos, na difusão da fé, Vicente Pallotti a chama sem rodeios de “apostolado”, de maneira que com isso ele preconizou o apostolado dos leigos de nossos dias.

A segunda organização deveria ser um “apostolado oculto”, porque tinha a tarefa de trabalhar em silêncio, reavivando a fé entre os católicos e com isso despertar neles o espírito apostólico, porque sem uma constante e silenciosa renovação da fé, com o tempo, também, se faz impossível um entusiasmo apostólico.

A terceira seria a organização da caridade, com extensão mundial, devia servir com os mesmos objetivos, porque pelo fato de fazer o amor de Deus visível através do exercício do amor humano deveria, por sua vez, despertar este amor ao próximo, naqueles que foram objetos do amor, suscitando um movimento espiral crescente.

Desde aquela hora no “Regina Coeli”, Vicente Pallotti se sabia chamado e encarregado de trabalhar na realização e concretização desta visão de futuro. Além deste “anseio vivíssimo”, nem ele se animava a decidir, claramente, o ‘como’ e o ‘quando’ deveria começar a fundação de tão grande obra. Para isto, a vontade de Deus deveria revelar-se com mais clareza. Possivelmente, seria somente tarefa sua preparar tais obras na Igreja, defender e apoiá-las e criar condições para que se concretizassem. Diante dessas incertezas, evitou usar a palavra “fundar”.

Na verdade, ele nunca teve dúvidas que a criação de uma instituição de extensão mundial estivesse no plano da providência divina. Ele estava realmente convencido disso, ao ponto de concluir seus apontamentos com a oração: “Mesmo que eu seja inapropriado e sempre mais me torne inapropriado e indigno, mesmo assim espero, sim, eu tenho certeza, que agora chegou o momento de um brilhante triunfo de vossa misericórdia sobre a minha incapacidade e indignidade: “Meu Deus, misericórdia graça””.

Esta breve descrição do estado de espírito de todos os membros da Sociedade do Apostolado Católico poderia muito bem ser do ano de 1838, quando Pallotti teve que defender-se de ataques e censuras lançados contra ele. E, certamente, uma destas acusações referia-se à pretensão e à presunção de reivindicar para si o apostolado católico da hierarquia. É por isso que este escrito começa por inculcar, de um lado, o respeito para com os membros da hierarquia, portadores do mandato apostólico neste mundo e, de outro, a obediência no exercício do apostolado participado.

O anseio mais vivo de Pallotti é a caridade serviçal e desinteressada, na qual a humildade e o amor se complementam na gratuidade de todo trabalho e serviço prestado. O grande valor dado por ele a esta atitude interior, a esta motivação, provavelmente decorria do muito que ele observara e experimentara nos círculos clericais de Roma (Doc. Fundação, p. 151).

Para ele, na Sociedade recém-criada devia resplandecer um correto e sólido espírito de profundo respeito, de pronta obediência e de religiosa veneração ao Sumo Pontífice, constituído por Jesus Cristo como o primeiro dentre os apóstolos. Só ele recebeu de Deus o poder de enviar missionários a todas as partes do mundo, para trazer ao redil aquelas ovelhas, ou melhor, aquelas almas das quais disse Jesus Cristo: “Tenho outras ovelhas, que não são deste aprisco: devo conduzi-las também” (Jo 10,16). Só Ele tem o primado de jurisdição sobre toda a Igreja. Deve haver na Sociedade também, proporcional e respectivo, um espírito de religioso respeito e de obediência ao sacro colégio dos cardeais e aos bispos, que, nas suas dioceses, são os nossos pastores. Deve haver também o respeito e a obediência aos superiores das ordens religiosas, que, no âmbito da respectiva ordem, são também apóstolos católicos.

Portanto, a denominação Apostolado Católico, longe de embalar a ufania do agregado à pia Sociedade, que se julgasse digno do nome de apóstolo, porque agregado, deve inspirar em cada qual, de todo estado, posição ou condição, um ardente desejo de fazer quanto esteja a seu alcance, a fim de promover tudo que possa contribuir, para fazer acontecer a maior glória de Deus na salvação das almas. Este é o verdadeiro Apostolado Católico. Só o humilde autêntico pode chegar a resultados concretos. Assim, todo que aspire a concorrer eficientemente, para felizes e rápidos êxitos do Apostolado Católico, deverá considerar-se o mais indigno do nome de apóstolo. Tal nome só cabe àqueles que, em grau heroico, tenham posto em ação o preceito da caridade, promovendo, de toda forma possível, a maior glória de Deus e a salvação das almas (Doc. Fundação, p. 152).

Por isso afirmou: “Nunca desconfie de que Deus não seja capaz de fazer o que fizeram os maiores santos da Igreja, porque com a graça de Deus, tu podes fazer coisas maiores, ou melhor, tu podes fazer mais do que fizeram todos os santos juntos” (OO CC X, 112). Acrescentou ainda: “Se considero infinita a bondade de meu Deus, é porque estou convencido de que Ele me enriquece com a abundância da graça santificante, para que eu possa desejar o Paraíso, se é que se pode desejar algo naquela Pátria beata. Tenho certeza de que Deus, pela sua bondade, se pudesse fazer-me verdadeiro Deus, o faria” (OO CC X, 143).

Em Pallotti, todo o seu contato com Deus está projetado sobre o infinito. A glória de Deus deve ser infinita, a perfeição da criatura deve ser infinita, o amor deve ser infinito e até mesmo a humilhação e o sofrimento devem ser infinitos, para servir de reparação ao Amor infinito. Enfim, tudo deve ser elevado ao infinito, ou seja, quem ama infinitamente deve aceitar também, para reparar os seus erros, verdadeiros ou presumíveis expiações ou reparações também de maneira infinita. A humilhação externa com a mortificação física não só são meios eficazes de expiação dos pecados do orgulho e da concupiscência, mas é também uma ótima disciplina para conservar a castidade e o equilíbrio humano.

Pallotti foi guiado e iluminado por Deus

A presença ativa e constante do amor de Deus na vida quotidiana de Pallotti é a razão psicológica e teológica da sua partida velocíssima no caminho de perfeição e da conquista de metas muito raras. A sua doutrina consiste: o segredo de uma vida santa está no amor de Deus. Se não tem o amor em Deus, todos os atos objetivamente virtuosos se tornam egoísmo e vaidade. Os meios de santificação utilizados por Pallotti para extirpar os vícios e cultivar as virtudes são: a direção espiritual, exercícios de piedade, práticas de penitência, exame de consciência, meditações, recolhimento, confronto com a palavra de Deus, leis da Igreja e o exemplo dos santos, mas a vastidão ou a decisão de seus propósitos é a profundidade da fé, esperança e caridade. Elas dão um ritmo privilegiado à sua marcha (Dal nulla al tutto, p. 67).

Um outro elemento que caracteriza a autenticidade do itinerário de santificação de Vicente Pallotti é a tradução quase que automática do amor de Deus em amor ao próximo. A prova da autenticidade do amor a Deus é a sinceridade do amor ao próximo. Quem não dá nada ao homem do qual vê a sua necessidade, como pode comover-se por Deus ao qual não vê? (Dal nulla al tutto, p. 71).

Porém, o que garante a autenticidade do caminho de santidade de Pallotti é a sua profunda e cordial insatisfação por aquilo que ele é e pelo que faz. Esta é também uma das marcas da sua espiritualidade, pois, segundo ele, um homem satisfeito consigo mesmo não pode ser santo. Olhando para si mesmo, ele ficava espantado por aquilo que ele é (cf. OO CC X, 751; 748; 482-483), porque se julgava como alguém que foi feito à imagem de Deus (cf. OO CC X, 245; 470), e a santidade de Deus é a medida para que o homem também possa tornar-se santo (cf. OO CC X, 51; 112).

Em suma, podemos dizer que Vicente Pallotti foi um visionário que compreendeu que a santidade não é um privilégio do clero, mas um chamado universal. A sua vida foi marcada pelo anseio de “despertar o gigante adormecido” (o laicato), acreditando que cada pessoa, em sua profissão e estado de vida, possui uma missão evangelizadora insubstituível. E a essência de seu legado pode ser resumida em três pilares: primeiro, a caridade operante, que o leva a um profundo amor ao próximo ao ponto de desejar “ser tudo” para salvar os necessitados. O segundo elemento é a unidade e a colaboração, que levou a UAC a criar uma rede de cooperação, para superar o isolamento e potencializar o bem comum. E em terceiro lugar, ele tinha o seu foco no infinito, para superar toda e qualquer superficialidade para buscar a maior glória de Deus através da humildade, da oração e do serviço desinteressado. Esperamos que este seu propósito possa, ainda hoje, estimular muitos cristãos a perseguirem este mesmo caminho.

 

Para refletir

1.      Qual era o anseio mais profundo de Pallotti?

2.      Quais eram os meios de santificação para Pallotti?

3.      O que Pallotti afirma sobre o amor?