domingo, 12 de julho de 2026

 


Tema 7: VICENTE PALLOTTI E SEUS ANSEIOS

Para conhecermos uma pessoa notável (em profundidade), devemos não só entrar em contato com a sua obra, mas também ouvir o que dizem a seu respeito. Certa vez, até mesmo Jesus perguntou aos seus discípulos: O que as pessoas falavam sobre ele. E as respostas foram as mais variadas. “Uns dizem que és João Batista, outros Elias ou algum dos antigos profetas que ressuscitou” (Mt 16,13-16).

Sobre Vicente Pallotti temos relatos de que ele era visto, pelo povo romano, como uma personalidade extremamente popular, amada e quase unanimemente considerada um “santo em vida” e o “apóstolo de Roma”. Sua reputação na “Cidade Eterna” era de um homem incansável na caridade, místico e guia espiritual de todas as classes sociais, desde nobres até os mais pobres e doentes.

Ele era um sacerdote imerso na realidade das pessoas e sabia ouvir as dores e as angústias que cada uma delas trazia em seu coração. Diante disto, certamente brotou nele um profundo desejo de aliviar tantos sofrimentos, ao ponto de escrever no seu diário espiritual “As luzes”: “Ao ver ou pensar nos pobres, esforçar-me-ei para ajudá-los da maneira que puder, e como a maior glória de Deus exige, então, tentarei conceber a mais alta compaixão de seu estado miserável, de modo que eu gostaria que todas as partes do meu corpo e a própria alma respirassem compaixão e misericórdia. Por isso, eu gostaria de me tornar comida, bebida, licor, roupas, posses etc., para sempre ajudar em suas misérias, e, assim, eu gostaria de ser transformado em luz para cegos, voz para os mudos, ouvidos para os surdos, saúde para os doentes etc. (São Vicente Pallotti. As luzes, n. 17.2, p. 25).

Esse seu desejo foi transformado em realidade, quando em 1837 Roma fora acometida pela epidemia de cólera que deixou milhares de pessoas órfãs. Diante de muitas mortes e de pessoas infectadas, ele mesmo cuidou pessoalmente de muitos doentes e moribundos, demonstrando coragem e caridade extraordinárias. Aos olhos do povo, ele era amplamente visto como um homem de amor e de profunda compaixão, doando o que tinha aos necessitados, o que acabou por levá-lo à morte por pneumonia após doar sua capa a um necessitado, em 1850.

A sua preocupação não estava apenas direcionada para as necessidades mais imediatas, como a fome, ou a doença, mas principalmente com a questão espiritual. Em relação aos jovens, com receio de que pudessem se perder na vida, não poupou o seu tempo para dar orientação em colégios e universidades, sendo reconhecido como mestre e guia de almas.

Ele tinha um desejo tão intenso pela salvação das almas que parecia uma obsessão. Como sabia que sozinho era impossível atingir a todos, então teve a nobre intuição de criar uma instituição que pudesse atingir o mundo inteiro.

O trabalho realizado por Pallotti foi tão intenso que ficou conhecido como o “segundo apóstolo de Roma”, depois de São Filipe Neri (1515 a 1595), pois tinha como foco os mais esquecidos que estavam nos hospitais e nas prisões. Tornou-se um confessor extremamente procurado. Ele acreditava que o confessionário era o lugar onde a misericórdia de Deus se tornava concreta. Fundou escolas noturnas para jovens trabalhadores e artesãos que não tinham acesso à educação formal durante o dia.

Diferentemente de muitos padres da sua época, Vicente não trabalhava sozinho. Desde o início, ele buscava a colaboração de pessoas comuns: Ele incentivava médicos, advogados e comerciantes a usarem suas competências profissionais como ferramentas de evangelização. As suas ações visavam quebrar as barreiras entre o clero e o povo, criando uma consciência de missão compartilhada.

Embora tenha começado a agir imediatamente após a ordenação, em 1818, o auge de suas ações iniciais culminou na fundação da União do Apostolado Católico (UAC) em 1835. Nele havia o desejo de que todas as instituições de caridade existentes trabalhassem juntas. A melhor forma para convidar as pessoas a trabalharem juntas, aconteceu na celebração da Oitava da Epifania em Roma, que envolvia vários estratos da sociedade romana, cada um com um papel a cumprir, em um evento que reunia diversas línguas e ritos para mostrar a universalidade da Igreja.

Na verdade, o grande anseio que palpitava no coração de Pallotti era o desejo de “despertar o gigante adormecido” que era o laicato. Ele acreditava que os leigos (pessoas comuns, com profissões e famílias) tinham um papel fundamental na evangelização. O seu maior sonho era ver carpinteiros, advogados e donas de casa usando seus talentos para o bem comum e para levar o Evangelho aos lugares aonde o clero não chegava. Ele não queria criar apenas mais uma congregação isolada, mas, sim, criar uma rede de colaboração que unisse todas as forças da Igreja. Para Pallotti, a caridade era mais eficaz quando feita em conjunto e, com isso, queria superar o isolamento entre diferentes grupos religiosos, para criar uma estrutura de apoio mútuo para as obras de caridade e missões. A caridade, para ele não era apenas dar esmolas, mas atingir a pessoa em sua integralidade.

A Imitação de Maria, Rainha dos Apóstolos

Vicente Pallotti desejava que todos seguissem o exemplo da Virgem Maria. No Cenáculo, ela não era apóstola pela ordenação, mas pela sua presença orante e caridosa que incentivava os outros. Esse era o modelo de “apostolado escondido” que ele ansiava para todos os fiéis. Assim encontramos em Atos dos Apóstolos sobre Pentecostes: “Todos eles tinham os mesmos sentimentos e eram assíduos na oração, junto com algumas mulheres, entre as quais Maria, mãe de Jesus, e com os irmãos de Jesus” (At 1,14).

O surgimento do ideal de Vicente Pallotti

Antes de tudo, foram as suas observações e experiências como diretor espiritual, no colégio da Propagação da Fé, que o fizeram amadurecer em muitas iniciativas apostólicas. As novas perspectivas para a Igreja que provinham dessas vivências prepararam o terreno para o que estava por vir.

O momento da inspiração ocorreu no dia 09 de janeiro de 1835, quando rezava na capela do convento “Regina Coeli” das carmelitas, durante a ação de graças após a comunhão, brilhou repentinamente em sua mente um ideal que mudou completamente o seu modo de agir. Como uma visão de futuro, esse propósito dominaria, nos anos seguintes, todos os seus pensamentos e esforços.

O registro desta experiência, como era seu costume, foi anotado em uma folha solta. Em traços curtos e claros, marcou aquilo que futuramente seria a imagem orientadora de sua alma e de seu ser. Assim escreveu: “Meu Deus, minha misericórdia, em vossa infinita misericórdia, Vós me permitis de uma maneira extraordinária, pelo menos com o mais vivo desejo de promover, de estabelecer, de difundir, de aperfeiçoar e de formar permanentemente em vosso santíssimo Coração. Uma obra de apostolado universal entre todos os católicos, para a difusão da fé e da religião de Jesus Cristo entre todos os infiéis e não católicos. Um outro apostolado oculto, para reavivar, conservar e aprofundar a fé entre os católicos. Uma obra universal do amor pelo exercício de todas as obras de misericórdia corporais e espirituais, para que Vós sejais reconhecido no homem de todos os modos possíveis e imagináveis, já que Vós sois o amor infinito” (S. V. Pallotti. As luzes, p. 65).

Portanto, Pallotti achava que eram necessárias na Igreja três organizações de extensão mundial. O alvo da primeira era: a organização de todos os católicos para a difusão da fé entre os não católicos. Portanto, seria propriamente uma sociedade missionária, que na medida do possível abrangesse todos os católicos como sócios, ganhando-os como colaboradores pela oração e contribuição monetária. Esta cooperação de todos os cristãos católicos, na difusão da fé, Vicente Pallotti a chama sem rodeios de “apostolado”, de maneira que com isso ele preconizou o apostolado dos leigos de nossos dias.

A segunda organização deveria ser um “apostolado oculto”, porque tinha a tarefa de trabalhar em silêncio, reavivando a fé entre os católicos e com isso despertar neles o espírito apostólico, porque sem uma constante e silenciosa renovação da fé, com o tempo, também, se faz impossível um entusiasmo apostólico.

A terceira seria a organização da caridade, com extensão mundial, devia servir com os mesmos objetivos, porque pelo fato de fazer o amor de Deus visível através do exercício do amor humano deveria, por sua vez, despertar este amor ao próximo, naqueles que foram objetos do amor, suscitando um movimento espiral crescente.

Desde aquela hora no “Regina Coeli”, Vicente Pallotti se sabia chamado e encarregado de trabalhar na realização e concretização desta visão de futuro. Além deste “anseio vivíssimo”, nem ele se animava a decidir, claramente, o ‘como’ e o ‘quando’ deveria começar a fundação de tão grande obra. Para isto, a vontade de Deus deveria revelar-se com mais clareza. Possivelmente, seria somente tarefa sua preparar tais obras na Igreja, defender e apoiá-las e criar condições para que se concretizassem. Diante dessas incertezas, evitou usar a palavra “fundar”.

Na verdade, ele nunca teve dúvidas que a criação de uma instituição de extensão mundial estivesse no plano da providência divina. Ele estava realmente convencido disso, ao ponto de concluir seus apontamentos com a oração: “Mesmo que eu seja inapropriado e sempre mais me torne inapropriado e indigno, mesmo assim espero, sim, eu tenho certeza, que agora chegou o momento de um brilhante triunfo de vossa misericórdia sobre a minha incapacidade e indignidade: “Meu Deus, misericórdia graça””.

Esta breve descrição do estado de espírito de todos os membros da Sociedade do Apostolado Católico poderia muito bem ser do ano de 1838, quando Pallotti teve que defender-se de ataques e censuras lançados contra ele. E, certamente, uma destas acusações referia-se à pretensão e à presunção de reivindicar para si o apostolado católico da hierarquia. É por isso que este escrito começa por inculcar, de um lado, o respeito para com os membros da hierarquia, portadores do mandato apostólico neste mundo e, de outro, a obediência no exercício do apostolado participado.

O anseio mais vivo de Pallotti é a caridade serviçal e desinteressada, na qual a humildade e o amor se complementam na gratuidade de todo trabalho e serviço prestado. O grande valor dado por ele a esta atitude interior, a esta motivação, provavelmente decorria do muito que ele observara e experimentara nos círculos clericais de Roma (Doc. Fundação, p. 151).

Para ele, na Sociedade recém-criada devia resplandecer um correto e sólido espírito de profundo respeito, de pronta obediência e de religiosa veneração ao Sumo Pontífice, constituído por Jesus Cristo como o primeiro dentre os apóstolos. Só ele recebeu de Deus o poder de enviar missionários a todas as partes do mundo, para trazer ao redil aquelas ovelhas, ou melhor, aquelas almas das quais disse Jesus Cristo: “Tenho outras ovelhas, que não são deste aprisco: devo conduzi-las também” (Jo 10,16). Só Ele tem o primado de jurisdição sobre toda a Igreja. Deve haver na Sociedade também, proporcional e respectivo, um espírito de religioso respeito e de obediência ao sacro colégio dos cardeais e aos bispos, que, nas suas dioceses, são os nossos pastores. Deve haver também o respeito e a obediência aos superiores das ordens religiosas, que, no âmbito da respectiva ordem, são também apóstolos católicos.

Portanto, a denominação Apostolado Católico, longe de embalar a ufania do agregado à pia Sociedade, que se julgasse digno do nome de apóstolo, porque agregado, deve inspirar em cada qual, de todo estado, posição ou condição, um ardente desejo de fazer quanto esteja a seu alcance, a fim de promover tudo que possa contribuir, para fazer acontecer a maior glória de Deus na salvação das almas. Este é o verdadeiro Apostolado Católico. Só o humilde autêntico pode chegar a resultados concretos. Assim, todo que aspire a concorrer eficientemente, para felizes e rápidos êxitos do Apostolado Católico, deverá considerar-se o mais indigno do nome de apóstolo. Tal nome só cabe àqueles que, em grau heroico, tenham posto em ação o preceito da caridade, promovendo, de toda forma possível, a maior glória de Deus e a salvação das almas (Doc. Fundação, p. 152).

Por isso afirmou: “Nunca desconfie de que Deus não seja capaz de fazer o que fizeram os maiores santos da Igreja, porque com a graça de Deus, tu podes fazer coisas maiores, ou melhor, tu podes fazer mais do que fizeram todos os santos juntos” (OO CC X, 112). Acrescentou ainda: “Se considero infinita a bondade de meu Deus, é porque estou convencido de que Ele me enriquece com a abundância da graça santificante, para que eu possa desejar o Paraíso, se é que se pode desejar algo naquela Pátria beata. Tenho certeza de que Deus, pela sua bondade, se pudesse fazer-me verdadeiro Deus, o faria” (OO CC X, 143).

Em Pallotti, todo o seu contato com Deus está projetado sobre o infinito. A glória de Deus deve ser infinita, a perfeição da criatura deve ser infinita, o amor deve ser infinito e até mesmo a humilhação e o sofrimento devem ser infinitos, para servir de reparação ao Amor infinito. Enfim, tudo deve ser elevado ao infinito, ou seja, quem ama infinitamente deve aceitar também, para reparar os seus erros, verdadeiros ou presumíveis expiações ou reparações também de maneira infinita. A humilhação externa com a mortificação física não só são meios eficazes de expiação dos pecados do orgulho e da concupiscência, mas é também uma ótima disciplina para conservar a castidade e o equilíbrio humano.

Pallotti foi guiado e iluminado por Deus

A presença ativa e constante do amor de Deus na vida quotidiana de Pallotti é a razão psicológica e teológica da sua partida velocíssima no caminho de perfeição e da conquista de metas muito raras. A sua doutrina consiste: o segredo de uma vida santa está no amor de Deus. Se não tem o amor em Deus, todos os atos objetivamente virtuosos se tornam egoísmo e vaidade. Os meios de santificação utilizados por Pallotti para extirpar os vícios e cultivar as virtudes são: a direção espiritual, exercícios de piedade, práticas de penitência, exame de consciência, meditações, recolhimento, confronto com a palavra de Deus, leis da Igreja e o exemplo dos santos, mas a vastidão ou a decisão de seus propósitos é a profundidade da fé, esperança e caridade. Elas dão um ritmo privilegiado à sua marcha (Dal nulla al tutto, p. 67).

Um outro elemento que caracteriza a autenticidade do itinerário de santificação de Vicente Pallotti é a tradução quase que automática do amor de Deus em amor ao próximo. A prova da autenticidade do amor a Deus é a sinceridade do amor ao próximo. Quem não dá nada ao homem do qual vê a sua necessidade, como pode comover-se por Deus ao qual não vê? (Dal nulla al tutto, p. 71).

Porém, o que garante a autenticidade do caminho de santidade de Pallotti é a sua profunda e cordial insatisfação por aquilo que ele é e pelo que faz. Esta é também uma das marcas da sua espiritualidade, pois, segundo ele, um homem satisfeito consigo mesmo não pode ser santo. Olhando para si mesmo, ele ficava espantado por aquilo que ele é (cf. OO CC X, 751; 748; 482-483), porque se julgava como alguém que foi feito à imagem de Deus (cf. OO CC X, 245; 470), e a santidade de Deus é a medida para que o homem também possa tornar-se santo (cf. OO CC X, 51; 112).

Em suma, podemos dizer que Vicente Pallotti foi um visionário que compreendeu que a santidade não é um privilégio do clero, mas um chamado universal. A sua vida foi marcada pelo anseio de “despertar o gigante adormecido” (o laicato), acreditando que cada pessoa, em sua profissão e estado de vida, possui uma missão evangelizadora insubstituível. E a essência de seu legado pode ser resumida em três pilares: primeiro, a caridade operante, que o leva a um profundo amor ao próximo ao ponto de desejar “ser tudo” para salvar os necessitados. O segundo elemento é a unidade e a colaboração, que levou a UAC a criar uma rede de cooperação, para superar o isolamento e potencializar o bem comum. E em terceiro lugar, ele tinha o seu foco no infinito, para superar toda e qualquer superficialidade para buscar a maior glória de Deus através da humildade, da oração e do serviço desinteressado. Esperamos que este seu propósito possa, ainda hoje, estimular muitos cristãos a perseguirem este mesmo caminho.

 

Para refletir

1.      Qual era o anseio mais profundo de Pallotti?

2.      Quais eram os meios de santificação para Pallotti?

3.      O que Pallotti afirma sobre o amor?







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