Tema 7: VICENTE PALLOTTI E SEUS ANSEIOS
Para conhecermos uma
pessoa notável (em profundidade), devemos não só entrar em contato com a sua
obra, mas também ouvir o que dizem a seu respeito. Certa vez, até mesmo Jesus perguntou
aos seus discípulos: O que as pessoas falavam sobre ele. E as respostas foram
as mais variadas. “Uns dizem que és João Batista, outros Elias ou algum dos
antigos profetas que ressuscitou” (Mt 16,13-16).
Sobre Vicente Pallotti
temos relatos de que ele era visto, pelo povo romano, como uma personalidade
extremamente popular, amada e quase unanimemente considerada um “santo em vida”
e o “apóstolo de Roma”. Sua reputação na “Cidade Eterna” era de um homem
incansável na caridade, místico e guia espiritual de todas as classes sociais,
desde nobres até os mais pobres e doentes.
Ele era um sacerdote
imerso na realidade das pessoas e sabia ouvir as dores e as angústias que cada
uma delas trazia em seu coração. Diante disto, certamente brotou nele um
profundo desejo de aliviar tantos sofrimentos, ao ponto de escrever no seu
diário espiritual “As luzes”: “Ao ver ou pensar nos pobres, esforçar-me-ei para
ajudá-los da maneira que puder, e como a maior glória de Deus exige, então,
tentarei conceber a mais alta compaixão de seu estado miserável, de modo que eu
gostaria que todas as partes do meu corpo e a própria alma respirassem
compaixão e misericórdia. Por isso, eu gostaria de me tornar comida, bebida,
licor, roupas, posses etc., para sempre ajudar em suas misérias, e, assim, eu
gostaria de ser transformado em luz para cegos, voz para os mudos, ouvidos para
os surdos, saúde para os doentes etc. (São Vicente Pallotti. As luzes, n. 17.2,
p. 25).
Esse seu desejo foi
transformado em realidade, quando em 1837 Roma fora acometida pela epidemia de
cólera que deixou milhares de pessoas órfãs. Diante de muitas mortes e de
pessoas infectadas, ele mesmo cuidou pessoalmente de muitos doentes e
moribundos, demonstrando coragem e caridade extraordinárias. Aos olhos do povo,
ele era amplamente visto como um homem de amor e de profunda compaixão, doando
o que tinha aos necessitados, o que acabou por levá-lo à morte por pneumonia
após doar sua capa a um necessitado, em 1850.
A sua preocupação não
estava apenas direcionada para as necessidades mais imediatas, como a fome, ou
a doença, mas principalmente com a questão espiritual. Em relação aos jovens, com
receio de que pudessem se perder na vida, não poupou o seu tempo para dar
orientação em colégios e universidades, sendo reconhecido como mestre e guia de
almas.
Ele tinha um desejo tão
intenso pela salvação das almas que parecia uma obsessão. Como sabia que
sozinho era impossível atingir a todos, então teve a nobre intuição de criar
uma instituição que pudesse atingir o mundo inteiro.
O trabalho realizado por
Pallotti foi tão intenso que ficou conhecido como o “segundo apóstolo de Roma”,
depois de São Filipe Neri (1515 a 1595), pois tinha como foco os mais
esquecidos que estavam nos hospitais e nas prisões. Tornou-se um confessor
extremamente procurado. Ele acreditava que o confessionário era o lugar onde a
misericórdia de Deus se tornava concreta. Fundou escolas noturnas para jovens
trabalhadores e artesãos que não tinham acesso à educação formal durante o dia.
Diferentemente de muitos
padres da sua época, Vicente não trabalhava sozinho. Desde o início, ele
buscava a colaboração de pessoas comuns: Ele incentivava médicos, advogados
e comerciantes a usarem suas competências profissionais como ferramentas de
evangelização. As suas ações visavam quebrar as barreiras entre o clero e o
povo, criando uma consciência de missão compartilhada.
Embora tenha começado a
agir imediatamente após a ordenação, em 1818, o auge de suas ações iniciais
culminou na fundação da União do Apostolado Católico (UAC) em 1835. Nele havia o
desejo de que todas as instituições de caridade existentes trabalhassem juntas.
A melhor forma para convidar as pessoas a trabalharem juntas, aconteceu na
celebração da Oitava da Epifania em Roma, que envolvia vários estratos da
sociedade romana, cada um com um papel a cumprir, em um evento que reunia
diversas línguas e ritos para mostrar a universalidade da Igreja.
Na verdade, o grande
anseio que palpitava no coração de Pallotti era o desejo de “despertar o
gigante adormecido” que era o laicato. Ele acreditava que os leigos (pessoas
comuns, com profissões e famílias) tinham um papel fundamental na
evangelização. O seu maior sonho era ver carpinteiros, advogados e donas de
casa usando seus talentos para o bem comum e para levar o Evangelho aos lugares
aonde o clero não chegava. Ele não queria criar apenas mais uma congregação
isolada, mas, sim, criar uma rede de colaboração que unisse todas as forças da
Igreja. Para Pallotti, a caridade era mais eficaz quando feita em conjunto e,
com isso, queria superar o isolamento entre diferentes grupos religiosos, para
criar uma estrutura de apoio mútuo para as obras de caridade e missões. A
caridade, para ele não era apenas dar esmolas, mas atingir a pessoa em sua
integralidade.
A Imitação de Maria, Rainha dos
Apóstolos
Vicente Pallotti desejava
que todos seguissem o exemplo da Virgem Maria. No Cenáculo, ela não era
apóstola pela ordenação, mas pela sua presença orante e caridosa que
incentivava os outros. Esse era o modelo de “apostolado escondido” que ele
ansiava para todos os fiéis. Assim encontramos em Atos dos Apóstolos sobre
Pentecostes: “Todos eles tinham os mesmos sentimentos e eram assíduos na
oração, junto com algumas mulheres, entre as quais Maria, mãe de Jesus, e com
os irmãos de Jesus” (At 1,14).
O surgimento do ideal de Vicente
Pallotti
Antes de tudo, foram as
suas observações e experiências como diretor espiritual, no colégio da
Propagação da Fé, que o fizeram amadurecer em muitas iniciativas apostólicas.
As novas perspectivas para a Igreja que provinham dessas vivências prepararam o
terreno para o que estava por vir.
O momento da inspiração ocorreu
no dia 09 de janeiro de 1835, quando rezava na capela do convento “Regina
Coeli” das carmelitas, durante a ação de graças após a comunhão, brilhou
repentinamente em sua mente um ideal que mudou completamente o seu modo de agir.
Como uma visão de futuro, esse propósito dominaria, nos anos seguintes, todos
os seus pensamentos e esforços.
O registro desta experiência,
como era seu costume, foi anotado em uma folha solta. Em traços curtos e
claros, marcou aquilo que futuramente seria a imagem orientadora de sua alma e
de seu ser. Assim escreveu: “Meu Deus, minha misericórdia, em vossa infinita
misericórdia, Vós me permitis de uma maneira extraordinária, pelo menos com o
mais vivo desejo de promover, de estabelecer, de difundir, de aperfeiçoar e de
formar permanentemente em vosso santíssimo Coração. Uma obra de apostolado
universal entre todos os católicos, para a difusão da fé e da religião de Jesus
Cristo entre todos os infiéis e não católicos. Um outro apostolado oculto, para
reavivar, conservar e aprofundar a fé entre os católicos. Uma obra universal do
amor pelo exercício de todas as obras de misericórdia corporais e espirituais,
para que Vós sejais reconhecido no homem de todos os modos possíveis e
imagináveis, já que Vós sois o amor infinito” (S. V. Pallotti. As luzes, p. 65).
Portanto, Pallotti achava
que eram necessárias na Igreja três organizações de extensão mundial. O alvo da
primeira era: a organização de todos os católicos para a difusão da fé entre os
não católicos. Portanto, seria propriamente uma sociedade missionária, que na
medida do possível abrangesse todos os católicos como sócios, ganhando-os como
colaboradores pela oração e contribuição monetária. Esta cooperação de todos os
cristãos católicos, na difusão da fé, Vicente Pallotti a chama sem rodeios de
“apostolado”, de maneira que com isso ele preconizou o apostolado dos leigos de
nossos dias.
A segunda organização
deveria ser um “apostolado oculto”, porque tinha a tarefa de trabalhar em
silêncio, reavivando a fé entre os católicos e com isso despertar neles o
espírito apostólico, porque sem uma constante e silenciosa renovação da fé, com
o tempo, também, se faz impossível um entusiasmo apostólico.
A terceira seria a
organização da caridade, com extensão mundial, devia servir com os mesmos
objetivos, porque pelo fato de fazer o amor de Deus visível através do
exercício do amor humano deveria, por sua vez, despertar este amor ao próximo,
naqueles que foram objetos do amor, suscitando um movimento espiral crescente.
Desde aquela hora no “Regina
Coeli”, Vicente Pallotti se sabia chamado e encarregado de trabalhar na
realização e concretização desta visão de futuro. Além deste “anseio
vivíssimo”, nem ele se animava a decidir, claramente, o ‘como’ e o ‘quando’
deveria começar a fundação de tão grande obra. Para isto, a vontade de Deus
deveria revelar-se com mais clareza. Possivelmente, seria somente tarefa sua
preparar tais obras na Igreja, defender e apoiá-las e criar condições para que
se concretizassem. Diante dessas incertezas, evitou usar a palavra “fundar”.
Na verdade, ele nunca
teve dúvidas que a criação de uma instituição de extensão mundial estivesse no
plano da providência divina. Ele estava realmente convencido disso, ao ponto de
concluir seus apontamentos com a oração: “Mesmo que eu seja inapropriado e
sempre mais me torne inapropriado e indigno, mesmo assim espero, sim, eu tenho
certeza, que agora chegou o momento de um brilhante triunfo de vossa
misericórdia sobre a minha incapacidade e indignidade: “Meu Deus, misericórdia
graça””.
Esta breve descrição do
estado de espírito de todos os membros da Sociedade do Apostolado Católico
poderia muito bem ser do ano de 1838, quando Pallotti teve que defender-se de
ataques e censuras lançados contra ele. E, certamente, uma destas acusações
referia-se à pretensão e à presunção de reivindicar para si o apostolado
católico da hierarquia. É por isso que este escrito começa por inculcar, de um
lado, o respeito para com os membros da hierarquia, portadores do mandato
apostólico neste mundo e, de outro, a obediência no exercício do apostolado
participado.
O anseio mais vivo de
Pallotti é a caridade serviçal e desinteressada, na qual a humildade e o amor
se complementam na gratuidade de todo trabalho e serviço prestado. O grande
valor dado por ele a esta atitude interior, a esta motivação, provavelmente
decorria do muito que ele observara e experimentara nos círculos clericais de
Roma (Doc. Fundação, p. 151).
Para ele, na Sociedade recém-criada
devia resplandecer um correto e sólido espírito de profundo respeito, de pronta
obediência e de religiosa veneração ao Sumo Pontífice, constituído por Jesus
Cristo como o primeiro dentre os apóstolos. Só ele recebeu de Deus o poder de
enviar missionários a todas as partes do mundo, para trazer ao redil aquelas
ovelhas, ou melhor, aquelas almas das quais disse Jesus Cristo: “Tenho outras
ovelhas, que não são deste aprisco: devo conduzi-las também” (Jo 10,16). Só Ele
tem o primado de jurisdição sobre toda a Igreja. Deve haver na Sociedade
também, proporcional e respectivo, um espírito de religioso respeito e de
obediência ao sacro colégio dos cardeais e aos bispos, que, nas suas dioceses,
são os nossos pastores. Deve haver também o respeito e a obediência aos
superiores das ordens religiosas, que, no âmbito da respectiva ordem, são
também apóstolos católicos.
Portanto, a denominação Apostolado
Católico, longe de embalar a ufania do agregado à pia Sociedade, que se
julgasse digno do nome de apóstolo, porque agregado, deve inspirar em cada qual,
de todo estado, posição ou condição, um ardente desejo de fazer quanto esteja a
seu alcance, a fim de promover tudo que possa contribuir, para fazer acontecer
a maior glória de Deus na salvação das almas. Este é o verdadeiro Apostolado
Católico. Só o humilde autêntico pode chegar a resultados concretos. Assim,
todo que aspire a concorrer eficientemente, para felizes e rápidos êxitos do
Apostolado Católico, deverá considerar-se o mais indigno do nome de apóstolo.
Tal nome só cabe àqueles que, em grau heroico, tenham posto em ação o preceito
da caridade, promovendo, de toda forma possível, a maior glória de Deus e a
salvação das almas (Doc. Fundação, p. 152).
Por isso afirmou: “Nunca
desconfie de que Deus não seja capaz de fazer o que fizeram os maiores santos
da Igreja, porque com a graça de Deus, tu podes fazer coisas maiores, ou
melhor, tu podes fazer mais do que fizeram todos os santos juntos” (OO CC
X, 112). Acrescentou ainda: “Se considero infinita a bondade de meu Deus, é
porque estou convencido de que Ele me enriquece com a abundância da graça
santificante, para que eu possa desejar o Paraíso, se é que se pode desejar
algo naquela Pátria beata. Tenho certeza de que Deus, pela sua bondade, se
pudesse fazer-me verdadeiro Deus, o faria” (OO CC X, 143).
Em Pallotti, todo o seu
contato com Deus está projetado sobre o infinito. A glória de Deus deve ser
infinita, a perfeição da criatura deve ser infinita, o amor deve ser infinito e
até mesmo a humilhação e o sofrimento devem ser infinitos, para servir de reparação
ao Amor infinito. Enfim, tudo deve ser elevado ao infinito, ou seja, quem ama
infinitamente deve aceitar também, para reparar os seus erros, verdadeiros ou
presumíveis expiações ou reparações também de maneira infinita. A humilhação
externa com a mortificação física não só são meios eficazes de expiação dos
pecados do orgulho e da concupiscência, mas é também uma ótima disciplina para
conservar a castidade e o equilíbrio humano.
Pallotti foi guiado e iluminado por
Deus
A presença ativa e
constante do amor de Deus na vida quotidiana de Pallotti é a razão psicológica
e teológica da sua partida velocíssima no caminho de perfeição e da conquista
de metas muito raras. A sua doutrina consiste: o segredo de uma vida santa está
no amor de Deus. Se não tem o amor em Deus, todos os atos objetivamente
virtuosos se tornam egoísmo e vaidade. Os meios de santificação utilizados por
Pallotti para extirpar os vícios e cultivar as virtudes são: a direção
espiritual, exercícios de piedade, práticas de penitência, exame de
consciência, meditações, recolhimento, confronto com a palavra de Deus, leis da
Igreja e o exemplo dos santos, mas a vastidão ou a decisão de seus propósitos é
a profundidade da fé, esperança e caridade. Elas dão um ritmo privilegiado à
sua marcha (Dal nulla al tutto, p. 67).
Um outro elemento que
caracteriza a autenticidade do itinerário de santificação de Vicente Pallotti é
a tradução quase que automática do amor de Deus em amor ao próximo. A prova da
autenticidade do amor a Deus é a sinceridade do amor ao próximo. Quem não dá
nada ao homem do qual vê a sua necessidade, como pode comover-se por Deus ao
qual não vê? (Dal nulla al tutto, p. 71).
Porém, o que garante a
autenticidade do caminho de santidade de Pallotti é a sua profunda e cordial
insatisfação por aquilo que ele é e pelo que faz. Esta é também uma das marcas
da sua espiritualidade, pois, segundo ele, um homem satisfeito consigo mesmo
não pode ser santo. Olhando para si mesmo, ele ficava espantado por aquilo que
ele é (cf. OO CC X, 751; 748; 482-483), porque se julgava como alguém
que foi feito à imagem de Deus (cf. OO CC X, 245; 470), e a santidade de
Deus é a medida para que o homem também possa tornar-se santo (cf. OO CC
X, 51; 112).
Em suma, podemos dizer
que Vicente Pallotti foi um visionário que compreendeu que a santidade não é um
privilégio do clero, mas um chamado universal. A sua vida foi marcada pelo
anseio de “despertar o gigante adormecido” (o laicato), acreditando que cada
pessoa, em sua profissão e estado de vida, possui uma missão evangelizadora
insubstituível. E a essência de seu legado pode ser resumida em três pilares:
primeiro, a caridade operante, que o leva a um profundo amor ao próximo ao
ponto de desejar “ser tudo” para salvar os necessitados. O segundo elemento é a
unidade e a colaboração, que levou a UAC a criar uma rede de cooperação, para
superar o isolamento e potencializar o bem comum. E em terceiro lugar, ele
tinha o seu foco no infinito, para superar toda e qualquer superficialidade para
buscar a maior glória de Deus através da humildade, da oração e do serviço
desinteressado. Esperamos que este seu propósito possa, ainda hoje, estimular
muitos cristãos a perseguirem este mesmo caminho.
Para refletir
1.
Qual era o anseio
mais profundo de Pallotti?
2.
Quais eram os
meios de santificação para Pallotti?
3.
O que Pallotti
afirma sobre o amor?
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