quinta-feira, 16 de julho de 2026

 


Tema 8: VICENTE PALLOTTI: UM SACERDOTE INQUIETO

Quando analisamos uma pessoa, normalmente, muitos aspectos da sua vida acabam sendo desvendados por impressões de simpatia ou de antipatia. A partir dos primeiros contatos, nós vamos nos identificando ou não com o seu modo de ser e de agir. Quando se trata de alguém com fama de santidade, certamente, os olhares são mais aguçados e mais exigentes da parte daqueles que o observam, pois, ao olhar para ele se vê traços do amor de Deus e, dele, não se espera nada que fuja da missão que ele abraçou em favor do povo.

Quanto a São Vicente Pallotti, durante o período em que exerceu o seu ministério sacerdotal, ele deixou marcas profundas no imaginário de muitas pessoas. Ele exerceu múltiplas funções, sempre com o intuito de dar uma resposta adequada a cada situação com a qual se deparava. Isso foi criando nele uma inquietude espiritual. Podemos dizer que ele foi sendo modelado não somente pela graça infusa de Deus, mas também pela convivência que teve com a sensibilidade humana e religiosa de seus pais.

Em relação ao tema: “Vicente Pallotti: um sacerdote inquieto”, apresentaremos alguns testemunhos de pessoas que o conheceram e que conviveram com ele. Na verdade, ele era um sacerdote de muitas qualidades. Foi professor universitário e de muita ação pastoral. Isso fez com que ele soubesse analisar, com habilidade, as questões teóricas em seus vários aspectos, bem como agia de maneira prática diante dos profundos desafios pela qual passava a Igreja de seu tempo. Por isso, dedicava boa parte do seu tempo para as confissões e orientações. De acordo com relatos, ele jamais viveu de maneira reclusa. Quase nunca estava em casa. Em seus escritos, ele sempre reclamou das suas limitações humanas e procurou vencê-las por meio de longas orações e muito espírito de sacrifício e penitência.

O caminho percorrido por Pallotti

Vicente Pallotti, ainda na sua juventude, viveu como qualquer outro jovem da sua idade. Passou sua infância no centro de Roma. Participava da vida social, em meio aos trabalhos cotidianos da família, convivendo com pessoas de todas as classes sociais que frequentavam o comércio de seu pai. Naquele ambiente, aprendeu a observar as pessoas e a sentir as suas reais necessidades. Ele percebeu que elas buscavam alimento para nutrir o corpo, mas algo lhe dizia que precisavam também de saciar a alma.

No confronto com cada uma delas, percebeu que, independentemente da sua história pessoal, estava diante de um ser humano, feito à imagem e semelhança de Deus, que precisava ser amada e respeitada. À medida que crescia esse sentimento, aumentava nele a necessidade de partilhar com todos a experiência que fizera do amor de Deus. Essa sua sensibilidade foi sendo cada vez mais ampliada a ponto de escrever:

Ao pensar, ao ouvir falar ou ver pessoas aflitas, angustiadas, atribuladas, cansadas, sobrecarregadas, fatigadas, como, por exemplo, pobres fabricantes de chaves, lavradores, carroceiros, carpinteiros, pedreiros, pobres mulheres aflitas pelos trabalhos domésticos, angustiadas e doentes por causa dos filhos, pelas longas vigílias que devem fazer, quando os filhos adoecem, quando devem cuidar deles, amamentá-los (...). Se eu mesmo ou uma outra pessoa pudesse penetrar em todos os ângulos da terra e enxergar de uma só vez as misérias que afligem a pobre humanidade, eu acredito firmemente que o coração humano não suportaria uma tal visão, mas todos morreriam de dor.[1]

No seu dia a dia, encontrou pessoas insatisfeitas com a vida, outras à beira do desespero devido a tantos sofrimentos. Foi insuportável para ele presenciar tudo aquilo. Diante de Deus, tomou a firme resolução de oferecer o que possuía para amenizar os sofrimentos de tanta gente. Muitas vezes, deixou de tomar o seu lanche para doá-lo a quem tinha fome, doou seus sapatos a um pobre e sua cama a um enfermo que dormia desconfortavelmente. A sua fé em Jesus Cristo foi quem o motivou a sair do seu conforto, para ajudar àqueles que eram penalizados pela vida.

As testemunhas do seu processo de beatificação atestaram esse seu interesse especial pelas coisas de Deus. Ainda muito pequeno, contemplava fixamente uma imagem de Maria e começou a preocupar-se pelo cultivo das virtudes. Dava a impressão de ser um menino tranquilo e modesto nos seus gestos. Cinquenta anos mais tarde, os vizinhos ainda recordavam a sua compaixão pelos mais pobres e necessitados.

Quando tinha doze anos de idade, em 1807, começou a fazer direção espiritual com o Padre Bernardino Fazzini, que foi seu confessor até o seu falecimento, em 1838.[2] Ele teve um papel decisivo na vida espiritual de Vicente, conduzindo-o à santidade. Ele inculcou no jovem Pallotti a prática da mortificação corporal, pois logo percebeu que seu dirigido possuía dotes especiais e graças singulares. Para cooperar com elas, era necessário entrar pelo caminho da mortificação e da penitência. Certa vez, sua mãe pediu que Fazzini desaconselhasse Vicente a fazer as mortificações, porque a sua saúde era frágil. Fazzini limitou-se a dizer-lhe que o dedo de Deus estava dirigindo o trabalho. Parece provável que, já na infância, Vicente Pallotti tenha sentido forte atração pelo sacerdócio. Como adolescente sentiu-se atraído pelos ideais e pela austeridade da Ordem Franciscana Capuchinha, mas o seu diretor espiritual o desaconselhou por causa da sua saúde frágil e pelo fato de que deveria desempenhar um trabalho não no claustro, mas no mundo. Fazzini morreu com oitenta e dois anos de idade e seu filho espiritual o acompanhou em sua enfermidade e falecimento (Gaynor, p. 19). Os dois viveram esta amizade verdadeira durante trinta anos.

O cardeal Lambruschini afirmava que, desde pequeno, Vicente teve o dom do amor de Deus. Aos seis anos foi crismado, tendo como padrinho o seu tio que também levava o nome de Vicente Pallotti. Aos nove anos, seu primo Francisco percebeu que, por penitência, Vicente usava como travesseiro um pedaço de madeira. Aos dez anos, ele fez a primeira comunhão e recebera licença para comungar todos os dias, o que na época, era coisa rara. Vicente manifestava sinais de santidade desde a infância.

Aos quinze anos de idade, em 1810, Vicente decidiu entrar para o clero secular. Com o triunfo da Revolução Francesa, os seminários e colégios estavam fechados e os aspirantes ao sacerdócio deveriam prosseguir seus estudos, vivendo com os pais. Por causa disso, Pallotti fez toda a sua formação morando na casa paterna. As autoridades da Igreja não deixavam de prover a formação dos estudantes, que, em cada paróquia, estavam submetidos ao cuidado especial do pároco do lugar. Esse preocupava-se com que os grupinhos de clérigos participassem nos atos de piedade em comum. Havia também confrarias e centros especiais de reunião para eles, para estimulá-los e assim suprir, de alguma forma, a falta de vida comunitária, tão característica da formação seminarística (Gaynor, p. 20-22). Vicente inscreveu-se na confraria de Nossa Senhora do Pranto, mas logo integrou a diretoria, depois presidiu-a por longo tempo e só foi obrigado a renunciar devido ao acúmulo dos trabalhos apostólicos (Gaynor, p. 24).

Uma nova proposta de vida

Vicente Pallotti não se conformava com o fato de ser uma pessoa a mais entre as demais, ou um sacerdote isolado na Igreja. Ele quis, antes de tudo, que a sua pessoa irradiasse Cristo por onde passasse. Isso não era somente um desejo, ele procurou agir com palavras e ações para ser sinal da presença do ressuscitado, não somente quando ocupava a sua função sagrada, mas em cada gesto de sua vida: “Deus em tudo e sempre” (OO CC X, 131).

O povo romano, sedento por uma nova proposta de vida, logo viu em Vicente Pallotti um modelo a ser seguido. Por isso, em 1835, Pallotti fez um apelo ao povo de Roma:

Todos, grandes e pequenos, doutores e ignorantes, ricos e pobres, sacerdotes e leigos, seculares e religiosos, viventes em comunidade ou em solidão, podem, em sua posição, isto é, no estado em que Deus os colocou, exercer, de alguma forma, sempre com mérito, o apostolado de Jesus Cristo (OO CC III, 146).

O seu testemunho de vida despertou em muitos batizados a consciência de que uma nova aurora se despontava na Igreja. Muitos leigos e eclesiásticos aderiram à obra do Apostolado Católico, pois viram nela uma nova forma de ser Igreja. Descobriram, ainda, que podiam ser protagonistas da sua própria história e colaboradores do apostolado universal. Essa realidade deve ser, ainda hoje, propagada, para que mais pessoas possam assumir o seu batismo de modo consciente e alegre, pois, quem serve a Cristo, nunca fica decepcionado. Por isso, todos são convidados a conhecer e a participar do Apostolado de Jesus Cristo. Até mesmo o seu diretor espiritual, Padre Fazzini, foi o primeiro a se inscrever na obra do apostolado católico, em seguida, o próprio santo (Gaynor, p. 19).  

Vicente Pallotti foi um homem concreto e visual. Para expressar a sua fé, servia-se de sagradas estátuas, de crucifixos, de pinturas expressivas de santos e de Nossa Senhora, de relíquias dos santos. Mais tarde, no seu quarto, na reitoria do Espírito Santo dos Napolitanos, mandou abrir uma pequena janela, para poder ver, durante as orações, o tabernáculo. Mais tarde, na residência do Santíssimo Salvador, não foi possível a ele ver o tabernáculo, mas colocou diante do genuflexório um Calvário, em seu quarto, atrás do qual pintou um crucifixo.

O padre Vicente foi um guia e um líder nato, de intensa caridade, reconhecido espontaneamente pelos participantes dos diversos grupos. Era um homem sensível, “amante da música”, capaz de amor intenso e apaixonado na dedicação à pessoa amada, sempre muito constante. Possuía um temperamento de tenacidade legítima, que não chegava a ser teimosia. Tinha uma inteligência acima da média e apta para temas científicos e para discussão de tais temas. Isto lhe dava seguro senso crítico capaz de torná-lo apto para uma carreira acadêmica. Vicente possuía, porém, um senso vivo da realidade (Todisco, p. 151).

Foi declarado, ainda, que ele possuía uma natureza fogosa, mas soube sublimá-la e, ao ser insultado por alguém se mostrava paciente e dócil. Pe. Vaccari também confirma esse seu temperamento, porém, a sua vigilância o fazia sempre doce e bondoso (Todisco, p. 151). Assim dizia ele: “Não sou capaz de dar bom exemplo, mas com a graça de Deus, serei capaz de santificar o mundo” (OO CC X, 607). “Peço a Deus um caminho santo” (OO CC X, 97).

Possuía, ainda, uma inclinação temperamental para o orgulho, para a ambição, para o mando, para a imposição do próprio querer sobre o dos outros: “Removerei os obstáculos que possam impedir a minha santificação; o obstáculo maior dentro de mim é o orgulho” (Propósitos e aspirações, p. 88, n. 197). “Destruí a minha vida e dai-me a vossa vida de caridade. Transformai-me na vossa caridade” (OO CC X, 674-675).

Para o grafólogo Girolamo Moretti, o padre Vicente possuía um senso vivo da realidade: “tem êxito também por ser um organizador prático, enquanto tem à sua disposição a ponderação e a reflexão capazes de entender a realidade principalmente no campo humano”. A sua praticidade estava orientada para as necessidades da vida. A fidelidade total aos ideais cristãos, os dotes de liderança e a caridade foram traços bem marcantes em toda a sua vida.

Depoimento de Melia: “Sou testemunha e admirador de sua perene, inalterável mansidão para comigo e para com todos os outros”. Maneiras atenciosas, paciência e equanimidade inalteráveis usou-as não só com os coirmãos, os nobres e as pessoas de posição, mas com todos, em especial com os pobres, que muitas vezes eram importunos e intolerantes. Assim deixou escrito: “Quero ter dentro de mim uma profunda compaixão pelas viúvas, agricultores, doentes. Quero sentir as suas aflições” (OO CC X, 19-20). “Quero ser luz para os cegos, bebida...” (OO CC X, 15-16).

O sacerdócio se funde perfeitamente com a vida do santo e sua alma, como se ele tivesse nascido apenas para ser um sacerdote e, em sua vida, não há vestígio de uma escolha que ele teve que fazer dela; como se ele tivesse nascido apenas para isso. Sentiu-se responsável pela salvação de todas as almas e de todas as Igrejas, como se o cuidado da Igreja universal lhe tivesse sido confiado (cf. OO CC X, 151) e já, durante os exercícios espirituais, realizados para sua ordenação sacerdotal, ele estabeleceu esse objetivo: “Senhor, ou morrer ou amar-te infinitamente” (OO CC X, 614). E nos exercícios espirituais de 1827, a razão que dominou todas as suas meditações foi: “Toda a vida de Jesus Cristo seja a minha vida” (OO CC X, 618-625)!

Continuou ele: “Estou convencido de que, se me fosse concedido beijar a terra, por onde passou um sacerdote, como prêmio pelas boas obras, elas seriam grandemente compensadas. O que podemos dizer, então, que a bondade do nosso Deus se dignou elevar-me ao mais sublime grau do sacerdócio” (OO CC X, 147). “Eu rezo a Deus que conceda a mim e a todos a graça de servi-Lo, somente, para a sua glória e para o bem das almas” (OO CC X, 616). “Lembre-se sempre, Vicente, que se os outros tivessem a conveniência que você tem de fazer o bem, eles já seriam grandes santos” (OO CC X, 116).

Na Santa Missa, ele revivia novamente a Paixão de Jesus Cristo. Muitas vezes, foi visto suspenso do chão, quando elevava a santa hóstia. Ele se confessava todos os dias, antes da celebração. Passava noites inteiras diante do Tabernáculo. Ele compôs três notáveis visitas ao Santíssimo Sacramento, mas queria escrever uma para cada dia do mês.

Segundo seu primo Francisco, por várias vezes o encontrou em casa vestido de sobrepeliz e estola, pronto para ouvir as confissões. Fabi Montani também escreveu que, em Roma, não havia nenhum doente ou moribundo que não tivesse sido visitado por ele. Aos seus sacerdotes, ele sugeriu que dividissem o seu dia em duas partes, uma para se preparar para celebrar a missa e a outra para agradecer a Deus, pelo presente da celebração já realizada. Ele queria imitar Jesus Cristo e muitos, realmente, acreditavam que O viam nele.

Pallotti desejou a santidade

Olhando para a vida e obra do nosso fundador, podemos afirmar que o santo é o humano que deu certo. Apesar das vicissitudes da vida, ele soube encará-las com serenidade e simplicidade e conseguiu ver além daquilo que todos viam. O santo, pelo fato de ter descoberto o amor de Deus, não tem medo de enfrentar os desafios, sejam eles quais forem. Ele é um desbravador de novidades, mas com Deus e por causa d’Ele. Enquanto para uns a realidade se apresenta caótica, o santo a vê como um terreno fértil para novas realizações e mudanças de paradigmas. Mas, isso não quer dizer que as incertezas e as dificuldades da vida não o atinjam. Quanto a Pallotti, ele não viveu senão para Deus e para sua glória. Por isso, propunha-se elevar a mente para Deus em tudo que tivesse visto e lido, com a aspiração de que tudo redundasse em maior glória para Ele e para a maior glória d’Ele.

Portanto, o amor a Deus foi a marca registrada que perpassou toda a vida de padre Vicente. A glorificação de Deus se traduzia em amor para com Ele e a sua espiritualidade. Glorificar a Deus e sofrer para tornar infinita a glorificação, juntamente com a vocação apostólica, foram os pilares da experiência religiosa e da orientação de toda a sua vida. O amor, qual meio de glorificação, inicialmente parecia levá-lo à contemplação. Vicente parecia estar no céu, para amar e, na terra, para amar e sofrer, e não para trabalhar pela glória de Deus. A espiritualidade de Pallotti parecia centrar-se no aspecto da adoração da vocação sacerdotal (cf. OO CC X, 163).

Enfim, após termos visto alguns aspectos da vida espiritual do padre Vicente, podemos dizer que falar de santidade não é fácil, mas só é possível quando encontramos pessoas com virtudes elevadas, com um estilo próprio, capaz de encarar os desafios do mundo com serenidade. Como palotinos, além de seguir a Cristo, o santo por excelência, temos como modelo de virtude e de santidade o próprio fundador da União do Apostolado Católico, São Vicente Pallotti. Pelo seu testemunho de vida, toda a Igreja pode aproximar-se, cada vez mais de Deus, com a certeza de que somos profundamente amados e perdoados por Ele. Na sua simplicidade, Pallotti procurou sempre analisar a sua vida a partir da fé, do seu encontro pessoal com o amor infinito e misericordioso de Deus. Por isso, os membros da União do Apostolado Católico devem continuar esta mesma missão de fazer com que Cristo seja sempre amado, servido e glorificado por todas as pessoas de todos os tempos.

Que o Espírito Santo, que impulsionou à missão todos os que participaram do Cenáculo de Jerusalém, possa fazer das nossas comunidades um verdadeiro Cenáculo, onde Deus se torna o centro de tudo e de todos.

 

Para refletir

1.      Quais eram as inquietudes do padre Vicente Pallotti?

2.      Com que olhar Vicente Pallotti olhava para as pessoas?

3.      Muitos testemunharam sobre a vida e a obra de Vicente Pallotti. O que você compreendeu, até agora, sobre o carisma deixado por ele?



[1]  GAYNOR, Juan Santos. Vida e obra de São Vicente Pallotti, Santa Maria, 2000, p. 34-35; (OO CC X 19-20).

[2] TODISCO, p. 60-61. AMOROSO, Francesco. São Vicente Pallotti romano, p. 26-27.


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