terça-feira, 25 de agosto de 2026

 


Tema 13: ASPECTOS DA PERSONALIDADE DE PALLOTTI

Após termos visto amplamente como Vicente Pallotti idealizou sua obra apostólica, agora vamos dirigir a nossa atenção para as suas características pessoais mais relevantes. Para isso, utilizaremos de alguns testemunhos de pessoas que tiveram algum contato com o santo. A primeira coisa que encontramos sobre sua pessoa é que era extremamente generoso. Ele não era apenas uma pessoa de oração, mas um estrategista da caridade que possuía traços psicológicos de grande resiliência e de empatia.

No confronto com as pessoas, ressalta o seu equilíbrio emocional diante das situações mais adversas. Ele demonstrava uma capacidade de transitar entre o recolhimento absoluto e a ação social frenética. Enfrentou perseguições e incompreensões dentro da própria Igreja. Em vez de reagir com agressividade, utilizava a sublimação, canalizando a frustração em mais trabalho e oração. Ele possuía uma sensibilidade aguçada para o sofrimento alheio. Relatos da época indicam que ele “sentia” a dor dos pobres, o que o levava a atos impulsivos de generosidade, como dar o próprio casaco no intenso inverno romano a um pobre homem. O seu conceito de “aniquilamento” (tornar-se nada perante Deus) revela uma psique totalmente voltada para o exterior e para o transcendente, com um ego minimizado em prol de uma causa maior.

Traços da sua personalidade

Pallotti tinha uma mentalidade inclusiva, que antecipou conceitos modernos de rede e de cooperação. Ele não via barreiras entre as classes sociais. Sua personalidade era agregadora, convencendo nobres e operários a trabalharem juntos na União do Apostolado Católico. A sua liderança estava pautada mais pelo exemplo e nunca pela imposição de autoridade. Vivia em uma simplicidade voluntária extrema. Esse traço não era apenas religioso, mas uma marca de seu caráter que rejeitava o acúmulo e o conforto pessoal. Era muito rigoroso consigo mesmo, o que lhe permitia manter o foco em múltiplos projetos simultâneos (escolas, orfanatos, prisões e missões).

Durante a epidemia de cólera em 1837, enquanto muitos fugiam, Pallotti entrava nos focos da doença. Isso demonstra um traço de personalidade marcado pela coragem física, baseada em uma convicção moral. Ele era capaz de dialogar com intelectuais e papas com a mesma naturalidade com que conversava com os jovens das escolas noturnas de Roma. Ele tinha uma altíssima capacidade de ouvir (foi um dos confessores mais procurados de sua época). Um detalhe importante a ser destacado é a sua capacidade de manter a visão original do seu projeto, mesmo sob pressão financeira e institucional. Por isso, ele é visto como o “precursor do laicato”, justamente porque sua personalidade não aceitava o isolamento ou o privilégio, mas buscava a multiplicação do bem através de cada indivíduo.

As pessoas que conviveram com Vicente Pallotti foram unânimes em relatar, por ocasião do processo de canonização, que, além de ser generoso, era profundamente introspectivo e tinha como grande desejo de penetrar nos mistérios da pessoa humana, para entender o porquê de tanta maldade no mundo, sendo que o ser humano foi feito bom e o próprio Deus se alegrou com a sua criação.

À medida que aprofundava em suas meditações, descobria, na Palavra de Deus, a resposta para a perversidade humana: o pecado. Se o homem foi criado bom, então algo entrou nessa natureza frágil e modificou o projeto inicial do Criador. O próprio Deus tinha se arrependido de ter criado o homem, mas depois voltou atrás, porque a sua misericórdia é infinita (Gn 6,6-7.11-12.17-18). Mesmo o homem abandonando o projeto de Deus, ainda assim, Ele continua fiel ao seu propósito inicial e continuará sustentando-o até o fim.

Olhando para este aspecto, Pallotti ficou ainda mais entusiasmado e enamorado por Deus, e continuamente usava a expressão: o amor infinito de Deus que se apaixona pela criatura deformada pelo pecado, mas Deus não se cansa de oferecer-lhe tantas e tantas oportunidades para fazê-lo melhor, ou seja, santo. Já que é este o desejo de Deus, Pallotti, por um chamado especial d’Ele, aceitou o desafio de ser Seu colaborador na obra da evangelização, convocando a todos para que também abraçassem essa causa, a da salvação do gênero humano. Como ele próprio afirmou: sozinho é impossível levar adiante tão grande projeto de salvação, instaurado por Cristo. Por isso, se faz necessário a colaboração de todas as classes de pessoas, raças, línguas, envolvendo assim em um grande mutirão de evangelização, para que todos possam, o mais rápido possível, chegar a um só rebanho apascentado por um só pastor.

Dizia ele: “A razão e a experiência demonstram que, ordinariamente, o bem que se faz isoladamente é escasso, incerto e de pouca duração e que os esforços, os mais generosos, dos indivíduos, não podem ter êxito, se não enquanto são reunidos e ordenados a um objetivo comum” (OO CC VI, 122).

O projeto é grande, o desafio é ainda maior, por isso conta com a colaboração de todos. Por este motivo, ele fez um apelo ao povo de Roma, para que se despertassem para essa nova realidade, e o eco da sua voz atingiu os confins da terra, fazendo com que todos se sintam impelidos a abraçar esta mesma causa, a salvação do próximo, para que possamos viver em um mundo reconciliado, onde reina a verdadeira paz e o amor fraterno. Se no mundo não há paz é porque não sabemos promovê-la a contento, então é tempo de mudança de hábitos e de atitudes.

Atitudes práticas

Pallotti, no seu cotidiano, era muito comedido no falar, no vestir, no alimentar-se e no lazer. Era humilde e sereno, apesar de extremamente ativo, e muito discreto. Em situações de conflitos não se alterava, simplesmente confiava na providência divina, porém era persistente em seus propósitos, jamais desanimava diante de qualquer desaprovação dos seus atos. Era uma pessoa muito delicada e de olhar penetrante. Desde a sua juventude, ele tinha uma espiritualidade marcante, com um desejo insaciável de amar a Deus e às pessoas. Queria conduzir a todos para mais perto de Deus. Para si não queria nada, mas para Deus e ao próximo, tudo. Daí surgiu a expressão “tudo para a infinita glória de Deus, tudo para a salvação das almas e tudo para a destruição do pecado”.

Ainda jovem, traçou para as famílias cristãs programa de orações, que incluía uma breve meditação diária, alternando entre elas a paixão de Cristo, sugerida pelo livro Máximas eternas de Santo Afonso, com o rosário, com as ladainhas e com o bendito seja Deus. Na verdade, o que ele queria era que a oração dos leigos fosse mais profunda (Todisco, p. 167). Ele foi um verdadeiro cristão, que esteve sempre aberto para escutar a voz de Deus, por meio da Palavra e foi sempre obediente às orientações de seus mestres e superiores.

A obediência praticada por Pallotti não seria uma aceitação passiva da vontade dos outros, nem a acomodação ou a falta de iniciativa. A sua obediência era uma conquista obtida, justamente, com o exercício constante de uma vontade determinada para dominar os instintos humanos. A obediência entra na sua ascética, da mesma forma que entra a humilhação, a mortificação e a castidade. Tudo isso surge da necessidade de reparar o distúrbio induzido pelo pecado original. A natureza é falha e precisa de corretivo.[1] Assim, Pallotti liderou uma cruzada contra o pecado ao longo de sua vida, para erradicá-lo de toda a terra. Ele se acusava de ser o maior pecador, “nada e pecado”, a causa de todos os males físicos e morais da humanidade, mas o pecado do qual ele faz menção é o da ingratidão. Padre Vicente, em seus encontros místicos com Deus, vira bem o quanto ele merece ser amado e, naturalmente, toda a sua gratidão não lhe parecia nada. A não correspondência, portanto, torna-se a sua aflição; ele gostaria de adequar-se ao infinito, e reparar o infinito amor de Deus com, pelo menos, um amor infinito; ele se vê derrotado e grita, por causa da sua monstruosa ingratidão (Dal nulla al tutto, pp. 96-97).

Traços específicos

Pallotti possuía um senso vivo da realidade e uma capacidade inata para a organização prática, orientado para as necessidades da vida. Ainda que fosse capaz de manter as decisões tomadas, ele possuía também uma inclinação temperamental para o orgulho, para a ambição, para o mando, para a imposição do próprio querer sobre os dos outros. Outro traço marcante da sua vida foi a fidelidade aos ideais, aos dotes de liderança e de caridade. Para o Pe. Vaccari, Pallotti possuía um temperamento de fogo, porém, graças à sua vigilância, parecia insensível a todo insulto e era sempre doce e bondoso. Pe. Rafael Melia, no seu depoimento para a beatificação, afirmou:

Sou testemunha e admirador de sua perene, inalterável mansidão para comigo e para com todos os outros. Nas recreações em que, às vezes estava presente, mostrava uma santa alegria, a ponto de tornar-se modelo e referência para os demais. Além disso, a fecundidade de suas ideias, a hilaridade do seu espírito, a sua cortesia e os seus modos gentis, despertavam realmente prazer em quem com ele conversasse (Todisco, pp. 151-152).

Portanto, o caminho da transformação passa pela purificação da alma; como, com forças naturais e com a graça de Deus, a alma se desprende das paixões e afeições terrenas, transforma-se em Deus, quanto mais os véus da carne e dos sentidos se tornarem tênues, mais profundamente a luz de Deus permeia a alma; quando os véus, devido ao efeito do amor de Deus, se dissolvem completamente, a alma se torna o esplendor e o calor de Deus (Dal nulla al tutto, p. 100).

Portanto, o encontro místico de Pallotti o fazia sensível não somente às coisas celestes, mas sofria muito ao ver os sofrimentos humanos. Assim escreveu Rosmini sobre sua grande sensibilidade: “Pallotti era um dos homens mais raros do mundo, porque possuía grandes ideias e ideais. Ele vivia muito além do seu tempo, porém, sem negar as suas raízes familiares”. E, por sinal, tinha uma relação muito estreita com sua piedosa mãe, tanto que quando ela estava gravemente enferma, tornou-se seu enfermeiro a ponto de dormir, próximo a ela, em uma esteira no chão, para dar-lhe a devida atenção. Preocupava-se, também, com o bom andamento de toda a sua família.

Pallotti foi também um exímio diretor espiritual e via a necessidade de uma formação edificante do clero, para que tivessem mais zelo apostólico. Sabia tocar nos sentimentos mais ocultos das pessoas, para convencê-las a praticar o bem. Por isso, ele valorizava muito a direção espiritual. Francesca de Maistre, uma de suas penitentes, testemunhou: “Encontrei nele algo que não encontrei em outros servos de Deus: uma expressão de bondade celeste, uma capacidade de acalmar e de acolher o ponto certo da alma em poucas medidas e eficazes palavras” (OCL, 390). Diante das inúmeras solicitações, ele parecia muito agitado e ansioso, porque queria atender a todos. Era uma pessoa de muita cultura, era corajoso, era perspicaz e hábil em convencer as pessoas a praticarem o bem. Ele dominava a arte do discernimento, e colocava em prática a pedagogia do equilíbrio entre discernir sobre o necessário e o oportuno.[2]

Outro detalhe da sua vida: diante das provações e das contrariedades, quase sempre agia com resignação e paciência, desprezando todo e qualquer tipo de satisfação e de gosto pessoal. Demonstrava uma certa obsessão pelas coisas grandiosas. Tudo, para ele, devia ser elevado ao infinito. O seu maior desejo era de querer viver no Cenáculo, pelo fato de ser um lugar da comunhão universal, de apelo à unidade e da cooperação eclesial. Enfim, era um lugar onde se aprende a ler os sinais dos tempos, as necessidades da Igreja e da humanidade; um lugar em que o apostolado se torna comunhão com Deus e com os irmãos. Mas, segundo ele, é no Cenáculo que se recebe a plenitude do Espírito Santo e a abundância dos seus dons, tão necessários para cooperar eficazmente nas obras da maior glória de Deus e da salvação da humanidade, a exemplo de Maria (Stawicki, p. 501-502).

Iluminado e impulsionado pelas luzes do Espírito, tornou-se um apóstolo incansável, com inúmeras atividades. Essa sua característica de estimar o tempo e de aproveitá-lo ao máximo, vem desde a sua juventude, pois nunca tolerou uma vida cheia de ociosidade. Assim escreveu: “Cuidarei em empregar bem também o menor espaço de tempo (...). Dar grande importância ao tempo e de inculcar nos fiéis uma altíssima estima do tempo” (OO CC X, 567 e 594).

Da mesma forma que ele tinha uma vida apostólica intensa, ainda reservava espaços para alimentar a sua vida espiritual, diante do tabernáculo. Tanto que na Igreja do Espírito Santo pediu para abrir uma janela no seu quarto, para que pudesse contemplar longamente o Santíssimo Sacramento durante a noite. Era aí que ele se acalmava e onde adquiriu a capacidade de gerenciar os conflitos de maneira serena e com muita clareza.

Ele foi capaz de ver, no caos da sociedade romana, uma luz que podia irradiar em todas as nações, sem jamais se perder em generalidades. Com a sua forte inclinação para o apostolado, conseguiu mergulhar nos problemas da Igreja e na vida das pessoas, para, a partir daí, sob o olhar e a inspiração de Deus, apresentar uma nova proposta evangelizadora. Mas, tudo isso só foi possível porque Deus foi colocado no centro de tudo, e, também, graças ao seu esforço pessoal. Diante desse seu testemunho de vida, podemos compreender o motivo pelo qual escreveu: “Deus em tudo e sempre” (As luzes, p. 73).

Embora Pallotti buscasse refletir a face de Cristo em sua própria vida através da santidade, ele também tinha uma percepção aguçada de ver o rosto de Jesus nos outros, especialmente nos pobres, doentes e marginalizados. Que os membros da União possam, também, continuar reverberando, na Igreja e no mundo, essa face misericórdia do nosso Deus.

Para refletir

  1. Pallotti foi sempre uma pessoa generosa e pronta para ajudar. Como podemos imitá-lo?
  2. Qual é o segredo para se chegar à santidade? Quais meios podem ser utilizados?
  3. Como Pallotti superou os seus limites humanos?

 



[1] AMOROSO, Francesco. Dal nulla al tutto, Città nuova Editrice: Roma, 1981, p. 59.

[2] Stawicki. A cooperação paixão de uma vida, pp. 428-429.