Tema 13: ASPECTOS DA PERSONALIDADE DE PALLOTTI
Após termos visto amplamente
como Vicente Pallotti idealizou sua obra apostólica, agora vamos dirigir a
nossa atenção para as suas características pessoais mais relevantes. Para isso,
utilizaremos de alguns testemunhos de pessoas que tiveram algum contato com o
santo. A primeira coisa que encontramos sobre sua pessoa é que era extremamente
generoso. Ele não era apenas uma pessoa de oração, mas um estrategista da
caridade que possuía traços psicológicos de grande resiliência e de empatia.
No confronto com as pessoas,
ressalta o seu equilíbrio emocional diante das situações mais adversas. Ele demonstrava
uma capacidade de transitar entre o recolhimento absoluto e a ação social
frenética. Enfrentou perseguições e incompreensões dentro da própria Igreja. Em
vez de reagir com agressividade, utilizava a sublimação, canalizando a
frustração em mais trabalho e oração. Ele possuía uma sensibilidade aguçada
para o sofrimento alheio. Relatos da época indicam que ele “sentia” a dor dos
pobres, o que o levava a atos impulsivos de generosidade, como dar o próprio
casaco no intenso inverno romano a um pobre homem. O seu conceito de “aniquilamento”
(tornar-se nada perante Deus) revela uma psique totalmente voltada para o
exterior e para o transcendente, com um ego minimizado em prol de uma causa
maior.
Traços da sua personalidade
Pallotti tinha uma
mentalidade inclusiva, que antecipou conceitos modernos de rede e de cooperação.
Ele não via barreiras entre as classes sociais. Sua personalidade era
agregadora, convencendo nobres e operários a trabalharem juntos na União do
Apostolado Católico. A sua liderança estava pautada mais pelo exemplo e nunca
pela imposição de autoridade. Vivia em uma simplicidade voluntária extrema.
Esse traço não era apenas religioso, mas uma marca de seu caráter que rejeitava
o acúmulo e o conforto pessoal. Era muito rigoroso consigo mesmo, o que lhe
permitia manter o foco em múltiplos projetos simultâneos (escolas, orfanatos, prisões
e missões).
Durante a epidemia de cólera
em 1837, enquanto muitos fugiam, Pallotti entrava nos focos da doença. Isso
demonstra um traço de personalidade marcado pela coragem física, baseada em uma
convicção moral. Ele era capaz de dialogar com intelectuais e papas com a mesma
naturalidade com que conversava com os jovens das escolas noturnas de Roma. Ele
tinha uma altíssima capacidade de ouvir (foi um dos confessores mais procurados
de sua época). Um detalhe importante a ser destacado é a sua capacidade de
manter a visão original do seu projeto, mesmo sob pressão financeira e
institucional. Por isso, ele é visto como o “precursor do laicato”, justamente
porque sua personalidade não aceitava o isolamento ou o privilégio, mas buscava
a multiplicação do bem através de cada indivíduo.
As pessoas que conviveram
com Vicente Pallotti foram unânimes em relatar, por ocasião do processo de
canonização, que, além de ser generoso, era profundamente introspectivo e tinha
como grande desejo de penetrar nos mistérios da pessoa humana, para entender o
porquê de tanta maldade no mundo, sendo que o ser humano foi feito bom e o
próprio Deus se alegrou com a sua criação.
À medida que aprofundava em
suas meditações, descobria, na Palavra de Deus, a resposta para a perversidade
humana: o pecado. Se o homem foi criado bom, então algo entrou nessa natureza
frágil e modificou o projeto inicial do Criador. O próprio Deus tinha se
arrependido de ter criado o homem, mas depois voltou atrás, porque a sua
misericórdia é infinita (Gn 6,6-7.11-12.17-18). Mesmo o homem abandonando o projeto
de Deus, ainda assim, Ele continua fiel ao seu propósito inicial e continuará
sustentando-o até o fim.
Olhando para este aspecto,
Pallotti ficou ainda mais entusiasmado e enamorado por Deus, e continuamente usava a expressão: o amor infinito de Deus que se
apaixona pela criatura deformada pelo pecado, mas Deus não se cansa de
oferecer-lhe tantas e tantas oportunidades para fazê-lo melhor, ou seja, santo.
Já que é este o desejo de Deus, Pallotti, por um chamado especial d’Ele,
aceitou o desafio de ser Seu colaborador na obra da evangelização, convocando a
todos para que também abraçassem essa causa, a da salvação do gênero humano.
Como ele próprio afirmou: sozinho é impossível levar adiante tão grande projeto
de salvação, instaurado por Cristo. Por isso, se faz necessário a colaboração
de todas as classes de pessoas, raças, línguas, envolvendo assim em um grande
mutirão de evangelização, para que todos possam, o mais rápido possível, chegar
a um só rebanho apascentado por um só pastor.
Dizia ele: “A razão e a experiência demonstram que,
ordinariamente, o bem que se faz isoladamente é escasso, incerto e de pouca
duração e que os esforços, os mais generosos, dos indivíduos, não podem ter
êxito, se não enquanto são reunidos e ordenados a um objetivo comum” (OO CC
VI, 122).
O projeto é grande, o desafio é ainda maior, por isso
conta com a colaboração de todos. Por este motivo, ele fez um apelo ao povo de
Roma, para que se despertassem para essa nova realidade, e o eco da sua voz
atingiu os confins da terra, fazendo com que todos se sintam impelidos a
abraçar esta mesma causa, a salvação do próximo, para que possamos viver em um
mundo reconciliado, onde reina a verdadeira paz e o amor fraterno. Se no mundo
não há paz é porque não sabemos promovê-la a contento, então é tempo de mudança
de hábitos e de atitudes.
Atitudes práticas
Pallotti, no seu cotidiano, era muito comedido no
falar, no vestir, no alimentar-se e no lazer. Era humilde e sereno, apesar de
extremamente ativo, e muito discreto. Em situações de conflitos não se
alterava, simplesmente confiava na providência divina, porém era persistente em
seus propósitos, jamais desanimava diante de qualquer desaprovação dos seus
atos. Era uma pessoa muito delicada e de olhar penetrante. Desde a sua
juventude, ele tinha uma espiritualidade marcante, com um desejo insaciável de
amar a Deus e às pessoas. Queria conduzir a todos para mais perto de Deus. Para
si não queria nada, mas para Deus e ao próximo, tudo. Daí surgiu a expressão “tudo
para a infinita glória de Deus, tudo para a salvação das almas e tudo para a
destruição do pecado”.
Ainda jovem, traçou para as famílias cristãs programa
de orações, que incluía uma breve meditação diária, alternando entre elas a
paixão de Cristo, sugerida pelo livro Máximas eternas de Santo Afonso, com o
rosário, com as ladainhas e com o bendito seja Deus. Na verdade, o que ele
queria era que a oração dos leigos fosse mais profunda (Todisco, p. 167). Ele
foi um verdadeiro cristão, que esteve sempre aberto para escutar a voz de Deus,
por meio da Palavra e foi sempre obediente às orientações de seus mestres e
superiores.
A obediência praticada por Pallotti não seria uma
aceitação passiva da vontade dos outros, nem a acomodação ou a falta de
iniciativa. A sua obediência era uma conquista obtida, justamente, com o
exercício constante de uma vontade determinada para dominar os instintos humanos.
A obediência entra na sua ascética, da mesma forma que entra a humilhação, a
mortificação e a castidade. Tudo isso surge da necessidade de reparar o
distúrbio induzido pelo pecado original. A natureza é falha e precisa de
corretivo.[1]
Assim, Pallotti liderou uma cruzada contra o pecado ao longo de sua vida, para
erradicá-lo de toda a terra. Ele se acusava de ser o maior pecador, “nada e
pecado”, a causa de todos os males físicos e morais da humanidade, mas o pecado
do qual ele faz menção é o da ingratidão. Padre Vicente, em seus encontros
místicos com Deus, vira bem o quanto ele merece ser amado e, naturalmente, toda
a sua gratidão não lhe parecia nada. A não correspondência, portanto, torna-se
a sua aflição; ele gostaria de adequar-se ao infinito, e reparar o infinito
amor de Deus com, pelo menos, um amor infinito; ele se vê derrotado e grita,
por causa da sua monstruosa ingratidão (Dal nulla al tutto, pp. 96-97).
Traços específicos
Pallotti possuía um senso vivo da realidade e uma
capacidade inata para a organização prática, orientado para as necessidades da
vida. Ainda que fosse capaz de manter as decisões tomadas, ele possuía também
uma inclinação temperamental para o orgulho, para a ambição, para o mando, para
a imposição do próprio querer sobre os dos outros. Outro traço marcante da sua
vida foi a fidelidade aos ideais, aos dotes de liderança e de caridade. Para o
Pe. Vaccari, Pallotti possuía um temperamento de fogo, porém, graças à sua
vigilância, parecia insensível a todo insulto e era sempre doce e bondoso. Pe.
Rafael Melia, no seu depoimento para a beatificação, afirmou:
Sou
testemunha e admirador de sua perene, inalterável mansidão para comigo e para
com todos os outros. Nas recreações em que, às vezes estava presente, mostrava
uma santa alegria, a ponto de tornar-se modelo e referência para os demais.
Além disso, a fecundidade de suas ideias, a hilaridade do seu espírito, a sua
cortesia e os seus modos gentis, despertavam realmente prazer em quem com ele
conversasse (Todisco, pp. 151-152).
Portanto, o caminho da transformação passa pela purificação
da alma; como, com forças naturais e com a graça de Deus, a alma se desprende
das paixões e afeições terrenas, transforma-se em Deus, quanto mais os véus da
carne e dos sentidos se tornarem tênues, mais profundamente a luz de Deus
permeia a alma; quando os véus, devido ao efeito do amor de Deus, se dissolvem
completamente, a alma se torna o esplendor e o calor de Deus (Dal nulla al
tutto, p. 100).
Portanto, o encontro místico de Pallotti o fazia
sensível não somente às coisas celestes, mas sofria muito ao ver os sofrimentos
humanos. Assim escreveu Rosmini sobre sua grande sensibilidade: “Pallotti era
um dos homens mais raros do mundo, porque possuía grandes ideias e ideais. Ele
vivia muito além do seu tempo, porém, sem negar as suas raízes familiares”. E,
por sinal, tinha uma relação muito estreita com sua piedosa mãe, tanto que
quando ela estava gravemente enferma, tornou-se seu enfermeiro a ponto de
dormir, próximo a ela, em uma esteira no chão, para dar-lhe a devida atenção.
Preocupava-se, também, com o bom andamento de toda a sua família.
Pallotti foi também um exímio diretor espiritual e via
a necessidade de uma formação edificante do clero, para que tivessem mais zelo
apostólico. Sabia tocar nos sentimentos mais ocultos das pessoas, para
convencê-las a praticar o bem. Por isso, ele valorizava muito a direção
espiritual. Francesca de Maistre, uma de suas penitentes, testemunhou:
“Encontrei nele algo que não encontrei em outros servos de Deus: uma expressão
de bondade celeste, uma capacidade de acalmar e de acolher o ponto certo da
alma em poucas medidas e eficazes palavras” (OCL, 390). Diante das inúmeras
solicitações, ele parecia muito agitado e ansioso, porque queria atender a
todos. Era uma pessoa de muita cultura, era corajoso, era perspicaz e hábil em
convencer as pessoas a praticarem o bem. Ele dominava a arte do discernimento, e
colocava em prática a pedagogia do equilíbrio entre discernir sobre o
necessário e o oportuno.[2]
Outro detalhe da sua vida: diante das provações e das
contrariedades, quase sempre agia com resignação e paciência, desprezando todo
e qualquer tipo de satisfação e de gosto pessoal. Demonstrava uma certa
obsessão pelas coisas grandiosas. Tudo, para ele, devia ser elevado ao
infinito. O seu maior desejo era de querer viver no Cenáculo, pelo fato de ser
um lugar da comunhão universal, de apelo à unidade e da cooperação eclesial.
Enfim, era um lugar onde se aprende a ler os sinais dos tempos, as necessidades
da Igreja e da humanidade; um lugar em que o apostolado se torna comunhão com
Deus e com os irmãos. Mas, segundo ele, é no Cenáculo que se recebe a plenitude
do Espírito Santo e a abundância dos seus dons, tão necessários para cooperar
eficazmente nas obras da maior glória de Deus e da salvação da humanidade, a
exemplo de Maria (Stawicki, p. 501-502).
Iluminado e impulsionado pelas luzes do Espírito,
tornou-se um apóstolo incansável, com inúmeras atividades. Essa sua
característica de estimar o tempo e de aproveitá-lo ao máximo, vem desde a sua
juventude, pois nunca tolerou uma vida cheia de ociosidade. Assim escreveu:
“Cuidarei em empregar bem também o menor espaço de tempo (...). Dar grande
importância ao tempo e de inculcar nos fiéis uma altíssima estima do tempo” (OO
CC X, 567 e 594).
Da mesma forma que ele tinha uma vida apostólica
intensa, ainda reservava espaços para alimentar a sua vida espiritual, diante
do tabernáculo. Tanto que na Igreja do Espírito Santo pediu para abrir uma
janela no seu quarto, para que pudesse contemplar longamente o Santíssimo
Sacramento durante a noite. Era aí que ele se acalmava e onde adquiriu a
capacidade de gerenciar os conflitos de maneira serena e com muita clareza.
Ele foi capaz de ver, no caos da sociedade romana, uma
luz que podia irradiar em todas as nações, sem jamais se perder em
generalidades. Com a sua forte inclinação para o apostolado, conseguiu
mergulhar nos problemas da Igreja e na vida das pessoas, para, a partir daí,
sob o olhar e a inspiração de Deus, apresentar uma nova proposta
evangelizadora. Mas, tudo isso só foi possível porque Deus foi colocado no
centro de tudo, e, também, graças ao seu esforço pessoal. Diante desse seu
testemunho de vida, podemos compreender o motivo pelo qual escreveu: “Deus em
tudo e sempre” (As luzes, p. 73).
Embora Pallotti buscasse refletir a face de Cristo em
sua própria vida através da santidade, ele também tinha uma percepção aguçada
de ver o rosto de Jesus nos outros, especialmente nos pobres, doentes e
marginalizados. Que os membros da União possam, também, continuar reverberando,
na Igreja e no mundo, essa face misericórdia do nosso Deus.
Para refletir
- Pallotti foi sempre uma pessoa generosa e pronta
para ajudar. Como podemos imitá-lo?
- Qual é o segredo para se chegar à santidade?
Quais meios podem ser utilizados?
- Como Pallotti superou os seus limites humanos?
[1] AMOROSO,
Francesco. Dal nulla al tutto, Città
nuova Editrice: Roma, 1981, p. 59.
[2] Stawicki.
A cooperação paixão de uma vida, pp.
428-429.
Nenhum comentário:
Postar um comentário