Tema 12: UM SACERDOTE JOVEM ENTRE OS JOVENS
“Parai um pouco na estrada para observar, e perguntai sobre os antigos caminhos, e qual será o melhor, para seguirdes por ele; assim ficareis mais tranquilos em vossos corações” (Jer 6,16).
Dezessete meses após a ordenação sacerdotal, a 24 de
outubro de 1819, o neossacerdote Vicente Pallotti, em suas orações, reconhecia
que o Espírito de Deus recebido lhe proporcionava graças abundantes capazes de
produzir frutos para o bem do próximo (cf. OO CC X, 46. Todisco, p.
179).
No vigor de sua juventude, usava algumas palavras de
motivação, tais como: “empenhar, propagar e fazer com que se propague”.
“Trabalhemos, trabalhemos infinitamente, a todo instante infinitésimo. Entre
tudo o que é divino, não há nada de mais divino que cooperar para a salvação
das almas”. (Todisco, p. 180). O seu foco não estava apenas no trabalho, mas
numa ação que levasse à glória de Deus e à salvação das almas.
Em relação às pessoas, o padre Vicente valorizava,
principalmente, o espírito de oração e o zelo ativo. No contato com elas,
demostrava muita sensibilidade, valorizando os mínimos detalhes, como por
exemplo, tinha o costume de saudar cada um dos seus colaboradores, com um olhar
fixo e aperto de mão. Ele sabia surpreender as pessoas com um sorriso nos
lábios, como que a dizer: você é muito importante para Deus. Segundo ele: “Quem não ama não pode viver” (OO CC X, 226 e 614); “Ou morrer ou amar infinitamente” (Propósitos e
aspirações, p. 92, n. 213).
O senso de fraternidade e de indiscutível liderança foram
importantes no desenvolvimento da personalidade do padre Vicente Pallotti. Ele
manifestou, logo depois da ordenação, a capacidade de se fazer rodear de
eclesiásticos dedicados ao apostolado, inspirando aquela fraternidade que, mais
tarde, foi nota distintiva da sua fundação (Todisco, p. 183). Pallotti encantava
as pessoas com o seu modo acolhedor de ser. Ele via no outro a pessoa de
Cristo.
Pallotti
tinha objetivos claros e viáveis
O jovem Pallotti queria que todos os seus companheiros se
filiassem à Pia União da Imaculada, recebendo o respectivo escapulário
propagado pelos padres Teatinos, para que a luta contra o demônio se
desenvolvesse sob a proteção de Maria concebida sem pecado. Queria também uma
guerra, sem trégua, contra o maligno, suprimindo as ocasiões públicas de
pecado. Ele estimulava as pessoas a terem metas e persegui-las. Ele as encorajava
para não terem medo de fracassar, pois, segundo ele, não há podium sem antes
conhecer derrotas.
Diante dos desafios da vida, Pallotti dava respostas
incomuns para a sua época, diferente daquelas dadas por muitos: “não tem jeito,
está tudo errado, está tudo perdido”, mas não faziam nada para mudar. Ele
estimulava os jovens a pensar e a agir, pois, “com Deus, tudo posso”.
Na Faculdade Sapienza, Pallotti animava grupinhos de
discussão, formados espontaneamente à saída das aulas. Isso chamou a atenção
dos professores que, dois meses depois de sua ordenação, foi nomeado professor
suplente de teologia. Isso o incentivou a organizar grupos de discussão, após
as aulas de teologia, para reforçar os temas que há pouco haviam sido expostos.
Padre Mélia, um dos seus primeiros seguidores, dizia que
Vicente Pallotti juntava em si admiravelmente duas coisas não fáceis de se
encontrarem juntas na mesma pessoa, isto é, uma piedade muito grande, unida a
uma ciência eminente que resultava em grande utilidade (Todisco, p. 193).
No seu fervor juvenil, em 1816, dizia: “Em todas as minhas ações e nas alheias,
entendo, que não se tenha outro critério ou finalidade, que não seja Deus. Não
quero nada senão Deus” (OO CC X, 68); (Todisco, p 154).
O jovem sacerdote Pallotti, frequentemente, meditou sobre o
seu futuro como ministro de Deus e da Igreja: não se contentou em apenas
ministrar sacramentos e dar aulas. Em 1819, um ano depois da ordenação
sacerdotal, começou a pregar à noite, em praça pública. As pessoas conquistadas
por suas palavras cheias de fervor cercavam-no e, enchendo aquela praça a ponto
de impedir a passagem das carruagens. Isso mostra a sua profunda sensibilidade
em querer conduzir aquelas pessoas que se encontravam distantes de Deus. Muitas
delas, sedentas por Deus, corriam atrás dele, atrás de novidades. Ao final da
pregação introdutória, pregador e povo dirigiam-se para rezar e cantar na
Igreja de São Nicolau. As pessoas rezavam e o jovem padre as instruía e as confessava
(Todisco, p. 197).
Diante da
dificuldade para pregar, devido ao barulho das crianças na praça, recorreu a um
leigo para que ele também catequizasse as crianças. Algo inédito para a época.
Enquanto ele instruía os adultos, Giacomo ensinava catecismo aos pequenos,
fazia-os cantar à vontade e atraía a atenção da garotada. Nasceram, assim, as
escolas noturnas de religião para os filhos dos artesãos (Todisco, p. 198).
Pregava exercícios
espirituais no morro do Gianicolo.
Não há dúvida de que, nestes primeiros anos de seu
ministério, padre Vicente se tenha especializado na que hoje chamamos de
pastoral da juventude. Sem que ele suspeitasse, Deus lhe preparava um campo de
trabalho mais amplo. Sem sombra de dúvidas, podemos afirmar que, em Pallotti, a
exortação de São Paulo, que segue, foi vivida integralmente por ele:
O amor seja sincero. Detestai o
mal, apegai-vos ao bem. Que o amor fraterno vos una uns aos outros com terna
perfeição, prevenindo-vos com atenções recíprocas. Sede zelosos e diligentes,
fervorosos de espírito, servindo sempre ao Senhor, alegres por causa da
esperança, fortes nas tribulações, perseverantes na oração (Rm 12,9-12).
Um apostolado pleno de vigor
Diante das tantas iniciativas realizadas pelo nosso santo,
isso talvez nos instigue a termos uma visão mais ampla para as tantas
necessidades pastorais do nosso tempo.
Assim viveu o seu ministério:
1. Ele
intuiu e lutou por ideais nobres.
2. Na
sua juventude sacerdotal, sonhava esperando por um futuro diferente.
3. Não
reclamava das dificuldades e nem esperava pelas ações dos outros, simplesmente
agia e envolvia a todos para ter sucesso na sua ação.
4. Era
um jovem cheio de ousadia: ele não repetia velhos conceitos, mas criava novas
formas de evangelização.
5. A
oração era a sua companheira na estrada da vida.
6. Não
tinha medo de expor sua fé e de defendê-la publicamente.
7. Nunca
se rendeu às solicitações humanas, mas superou-as pela força da oração e dos
sacramentos.
8. Jesus
pergunta: o que dizem quem eu sou? Pallotti dizia o que experimentou de Cristo.
Uma coisa é certa, o apostolado
católico nos faz discípulos missionários. O discípulo, porém, só será
missionário se for apaixonado por Cristo. O que aumenta a sua paixão é o
encontro pessoal com Ele na eucaristia, na vivência dos sacramentos, na escuta
atenta da Palavra e na devoção à Maria. Tudo isso deve ser acompanhado por uma
contínua conversão pessoal. Como encontramos nas Regras de São Bento: “A conversão
dos costumes”.
Seguindo o exemplo de nosso fundador, devemos ir ao
encontro dos que estão afastados de Deus e que vivem na indiferença religiosa.
Porém surge uma pergunta: por que o apostolado católico ainda não é levado a
sério pelos cristãos? Primeiro, porque somos imperfeitos e necessitamos de uma contínua
conversão. Todos os dias devemos renovar a nossa opção por Cristo e de viver só
para Ele. Segundo, porque perdemos tempo com coisas insignificantes, com
preocupações inúteis, por discórdias na comunidade, por disputa de poder, como
aquela apresentada pelo evangelho: “Eles discutiam para saber quem era o maior”
(Mt 18,1-3).
Às vezes, perdemos tempo criticando a Igreja, porém nada
fazemos. Pallotti, por sua vez, nunca criticou as estruturas do seu tempo, mas
propôs uma nova maneira de viver o cristianismo, reavivando a fé e reacendendo
a caridade. Como discípulos missionários, somos convidados a sair do nosso
conforto e ir ao encontro daqueles que estão distantes de Deus, daqueles que
estão confusos, perdidos, doentes e que vivem uma vida sem sentido. Muitos não
precisam ser apenas resgatados em sua fé, mas, principalmente, em sua
humanidade.
É comum ouvirmos a expressão, onde estão os nossos jovens?
Eis a questão! Eles estão próximos de nós. Estão nas nossas casas, no nosso
bairro, nas escolas, nos Shoppings, nas avenidas, nas baladas. Muitos estão
perambulando pelas ruas como ovelhas sem pastor. Muitos deles já foram
interceptados pelo mau pastor, por aqueles que se aproveitam dos seus sonhos
juvenis ousados, para lhes oferecer não uma vida abundante como nos propõe o
evangelho (Jo 10,10), mas uma vida limitada e que leva à verdadeira destruição
e ao fracasso. Mas, todo jovem quer viver, quer produzir algo novo, sonha
grande. Mas falta-lhe acolhida e oportunidades para transformar muitas
realidades caducas.
A pergunta que paira no ar é: como surpreendê-los com algo
fascinante, que os leve a sair da inércia para queimarem suas energias juvenis
com algo que edifique a si mesmo e os outros? O saudoso Papa Francisco nos
deixa muitos questionamentos na Exortação Apostólica Christus Vivit: Ele
fala de uma escuta ativa e no protagonismo quando se trata de
acolher a juventude. Para ele, acolher não é apenas abrir as portas de uma
instituição, mas, sim, criar espaços onde os jovens se sintam verdadeiramente
sujeitos da sua própria história.
Aqui estão os pontos centrais da mensagem do Papa sobre
este acolhimento, baseados principalmente na Exortação Apostólica Christus
Vivit:
1. Uma Igreja de “portas abertas” e sem julgamentos
Francisco defende que o acolhimento deve ser
incondicional. Ele critica uma postura defensiva ou excessivamente moralista
que afasta quem não se sente “perfeito”.
·
Acolher a fragilidade: O Papa pede que a
Igreja saiba receber jovens que vivem situações de fracasso, dúvida ou que
estão distantes da prática religiosa tradicional.
·
Linguagem de proximidade: Ele sugere que
o acolhimento deve ser feito com “a linguagem do amor”, que é mais
compreensível do que sermões teóricos ou moralistas.
2. O protagonismo Juvenil
Para o Papa, os jovens não são o “futuro”, mas o “agora
de Deus”.
·
Não ao “asfalto”: Ele usa a metáfora de
que não se deve “asfaltar” o caminho dos jovens, mas deixá-los criar novas
rotas. Acolher significa dar espaço para que eles liderem e tragam novas
ideias, mesmo que isso cause alguma “bagunça”.
·
Escuta empática: Acolher começa por
ouvir. Francisco insiste que os adultos devem aprender a ouvir os
questionamentos dos jovens sem pressa de dar respostas prontas.
3. Acompanhamento e discernimento
Acolher não é um evento isolado, mas um processo de
caminhar juntos (sinodalidade).
·
Caminhar ao lado: Inspirado na passagem
dos discípulos de Emaús, o Papa diz que o acolhimento exige paciência para
caminhar no ritmo do jovem.
·
Cultura do encontro: Ele promove o
diálogo entre gerações. Para Francisco, o acolhimento da juventude se fortalece
quando há uma conexão com os idosos (as raízes).
4. O Uso das novas linguagens
O Papa reconhece que o acolhimento hoje passa pelo mundo
digital e pelas novas formas de expressão.
·
Ambiente digital: Ele vê as redes sociais
como locais de missão, mas alerta que o acolhimento real exige o toque, o olhar
e a presença física sempre que possível.
Por que Cristo fascinou tanta
gente ao longo dos séculos? Qual é a sua proposta de vida? O que falta para
nós, que nos consideramos evangelizadores e portadores da “Boa Notícia” de
Jesus e não conseguimos atingir satisfatoriamente as pessoas? Talvez, falta em
nós a paixão por Jesus Cristo. Assim expressou o Documento de Aparecida, n. 29:
“Conhecer a Jesus é o melhor presente que qualquer pessoa pode receber; tê-lo
encontrado foi o melhor que ocorreu em nossas vidas, e fazê-lo conhecido com
nossa palavra e obras é nossa alegria.”
Que tipo de notícia estamos
anunciando? Uma coisa é certa, não devemos ter a preocupação de sermos iguais a
todos. Ser mais um. O jovem não deve ser mais um no meio da multidão. Ele deve
fazer a diferença, por mais que isso lhe custe a incompreensão. Se a sua
atitude já provocou desconforto em alguém, pode ter certeza de que você está
movido por uma proposta diferente, cheia de vida e de sentido. Você já está
destoando daquilo que dizem ser normal. A sua proposta de vida é outra. Diante
dessa realidade, Jesus tem uma palavra: “Não tenhais medo” (Jo 6,20).
Talvez, um dos maiores problemas que levam o jovem a
dispersão é que ele se depara com uma enorme gama de informação, tudo ao mesmo
tempo, e falta-lhe maturidade suficiente para fazer a melhor escolha. Ou então
prefere aquela que mais lhe dá satisfação momentânea. Porém, fica a pergunta no
ar: como mostrar para eles algo de valor diante das propostas carregadas de
emoções e de sensações imediatas? Muitos estão fragmentados emocionalmente
diante de tantos desafios familiares e sociais e, por isso, procuram meios de
fuga.
Hoje, mais do que nunca, devemos procurar curar suas
feridas interiores, para que estejam abertos à graça de Deus e às necessidades
dos irmãos. A melhor maneira de buscar a Deus é ouvir o que Ele tem para nos
ensinar. Essa escuta, porém, deve ser diária e bem conduzida.
A ovelha só reconhece a voz do seu pastor, porque desde
seu nascimento está ouvindo aquela mesma voz cheia de ternura do lado dela. Se
não nos aproximarmos de Deus, dificilmente a sua Palavra encontrará eco dentro
de nós. Daí surge a urgência de criarmos momentos de encontros, de oração, de
lazer e de partilha. Se tivermos uma espiritualidade superficial, nossos
discursos serão vazios e estéreis. Não surpreenderemos ninguém com o nosso modo
de ser e muito menos fascinaremos alguém com o nosso modo de viver.
Que o exemplo de apostolado criativo do nosso fundador
possa ajudar a nos lançar sem medo, confiando sempre na inspiração divina.
Para refletir
- Como
Pallotti viveu os seus primeiros anos de sacerdócio?
- O
que devemos fazer hoje de relevante, para que nossos jovens se entusiasmem
pelas coisas de Deus e pelo progresso da pessoa humana?
- Na
sua opinião, quais são as necessidades mais prementes da nossa juventude?
Nenhum comentário:
Postar um comentário