quarta-feira, 19 de agosto de 2026


 


 

Tema 12: UM SACERDOTE JOVEM ENTRE OS JOVENS

“Parai um pouco na estrada para observar, e perguntai sobre os antigos caminhos, e qual será o melhor, para seguirdes por ele; assim ficareis mais tranquilos em vossos corações” (Jer 6,16).

 Desde o início do seu ministério, duas coisas se destacam e despertam a nossa admiração pelo jovem, padre Vicente: a sua incansável dedicação apostólica e o seu vivíssimo espírito sacerdotal. Ele vivia intensamente para Cristo e para a Igreja. E almejava que todos tivessem essa mesma dedicação: Ah quanto bem pode realizar um eclesiástico zeloso!” (OCL I, 5; 8; 9).

Dezessete meses após a ordenação sacerdotal, a 24 de outubro de 1819, o neossacerdote Vicente Pallotti, em suas orações, reconhecia que o Espírito de Deus recebido lhe proporcionava graças abundantes capazes de produzir frutos para o bem do próximo (cf. OO CC X, 46. Todisco, p. 179).

No vigor de sua juventude, usava algumas palavras de motivação, tais como: “empenhar, propagar e fazer com que se propague”. “Trabalhemos, trabalhemos infinitamente, a todo instante infinitésimo. Entre tudo o que é divino, não há nada de mais divino que cooperar para a salvação das almas”. (Todisco, p. 180). O seu foco não estava apenas no trabalho, mas numa ação que levasse à glória de Deus e à salvação das almas.

Em relação às pessoas, o padre Vicente valorizava, principalmente, o espírito de oração e o zelo ativo. No contato com elas, demostrava muita sensibilidade, valorizando os mínimos detalhes, como por exemplo, tinha o costume de saudar cada um dos seus colaboradores, com um olhar fixo e aperto de mão. Ele sabia surpreender as pessoas com um sorriso nos lábios, como que a dizer: você é muito importante para Deus. Segundo ele: “Quem não ama não pode viver” (OO CC X, 226 e 614); “Ou morrer ou amar infinitamente” (Propósitos e aspirações, p. 92, n. 213).

O senso de fraternidade e de indiscutível liderança foram importantes no desenvolvimento da personalidade do padre Vicente Pallotti. Ele manifestou, logo depois da ordenação, a capacidade de se fazer rodear de eclesiásticos dedicados ao apostolado, inspirando aquela fraternidade que, mais tarde, foi nota distintiva da sua fundação (Todisco, p. 183). Pallotti encantava as pessoas com o seu modo acolhedor de ser. Ele via no outro a pessoa de Cristo.

Pallotti tinha objetivos claros e viáveis

O jovem Pallotti queria que todos os seus companheiros se filiassem à Pia União da Imaculada, recebendo o respectivo escapulário propagado pelos padres Teatinos, para que a luta contra o demônio se desenvolvesse sob a proteção de Maria concebida sem pecado. Queria também uma guerra, sem trégua, contra o maligno, suprimindo as ocasiões públicas de pecado. Ele estimulava as pessoas a terem metas e persegui-las. Ele as encorajava para não terem medo de fracassar, pois, segundo ele, não há podium sem antes conhecer derrotas.

Diante dos desafios da vida, Pallotti dava respostas incomuns para a sua época, diferente daquelas dadas por muitos: “não tem jeito, está tudo errado, está tudo perdido”, mas não faziam nada para mudar. Ele estimulava os jovens a pensar e a agir, pois, “com Deus, tudo posso”.

Na Faculdade Sapienza, Pallotti animava grupinhos de discussão, formados espontaneamente à saída das aulas. Isso chamou a atenção dos professores que, dois meses depois de sua ordenação, foi nomeado professor suplente de teologia. Isso o incentivou a organizar grupos de discussão, após as aulas de teologia, para reforçar os temas que há pouco haviam sido expostos.

Padre Mélia, um dos seus primeiros seguidores, dizia que Vicente Pallotti juntava em si admiravelmente duas coisas não fáceis de se encontrarem juntas na mesma pessoa, isto é, uma piedade muito grande, unida a uma ciência eminente que resultava em grande utilidade (Todisco, p. 193).

No seu fervor juvenil, em 1816, dizia: “Em todas as minhas ações e nas alheias, entendo, que não se tenha outro critério ou finalidade, que não seja Deus. Não quero nada senão Deus” (OO CC X, 68); (Todisco, p 154).

O jovem sacerdote Pallotti, frequentemente, meditou sobre o seu futuro como ministro de Deus e da Igreja: não se contentou em apenas ministrar sacramentos e dar aulas. Em 1819, um ano depois da ordenação sacerdotal, começou a pregar à noite, em praça pública. As pessoas conquistadas por suas palavras cheias de fervor cercavam-no e, enchendo aquela praça a ponto de impedir a passagem das carruagens. Isso mostra a sua profunda sensibilidade em querer conduzir aquelas pessoas que se encontravam distantes de Deus. Muitas delas, sedentas por Deus, corriam atrás dele, atrás de novidades. Ao final da pregação introdutória, pregador e povo dirigiam-se para rezar e cantar na Igreja de São Nicolau. As pessoas rezavam e o jovem padre as instruía e as confessava (Todisco, p. 197).

Diante da dificuldade para pregar, devido ao barulho das crianças na praça, recorreu a um leigo para que ele também catequizasse as crianças. Algo inédito para a época. Enquanto ele instruía os adultos, Giacomo ensinava catecismo aos pequenos, fazia-os cantar à vontade e atraía a atenção da garotada. Nasceram, assim, as escolas noturnas de religião para os filhos dos artesãos (Todisco, p. 198).

Pregava exercícios espirituais no morro do Gianicolo.

Não há dúvida de que, nestes primeiros anos de seu ministério, padre Vicente se tenha especializado na que hoje chamamos de pastoral da juventude. Sem que ele suspeitasse, Deus lhe preparava um campo de trabalho mais amplo. Sem sombra de dúvidas, podemos afirmar que, em Pallotti, a exortação de São Paulo, que segue, foi vivida integralmente por ele:

O amor seja sincero. Detestai o mal, apegai-vos ao bem. Que o amor fraterno vos una uns aos outros com terna perfeição, prevenindo-vos com atenções recíprocas. Sede zelosos e diligentes, fervorosos de espírito, servindo sempre ao Senhor, alegres por causa da esperança, fortes nas tribulações, perseverantes na oração (Rm 12,9-12).

Um apostolado pleno de vigor

Diante das tantas iniciativas realizadas pelo nosso santo, isso talvez nos instigue a termos uma visão mais ampla para as tantas necessidades pastorais do nosso tempo.

Assim viveu o seu ministério:

1.      Ele intuiu e lutou por ideais nobres.

2.      Na sua juventude sacerdotal, sonhava esperando por um futuro diferente.

3.      Não reclamava das dificuldades e nem esperava pelas ações dos outros, simplesmente agia e envolvia a todos para ter sucesso na sua ação.

4.      Era um jovem cheio de ousadia: ele não repetia velhos conceitos, mas criava novas formas de evangelização.

5.      A oração era a sua companheira na estrada da vida.

6.      Não tinha medo de expor sua fé e de defendê-la publicamente.

7.      Nunca se rendeu às solicitações humanas, mas superou-as pela força da oração e dos sacramentos.

8.      Jesus pergunta: o que dizem quem eu sou? Pallotti dizia o que experimentou de Cristo.

Uma coisa é certa, o apostolado católico nos faz discípulos missionários. O discípulo, porém, só será missionário se for apaixonado por Cristo. O que aumenta a sua paixão é o encontro pessoal com Ele na eucaristia, na vivência dos sacramentos, na escuta atenta da Palavra e na devoção à Maria. Tudo isso deve ser acompanhado por uma contínua conversão pessoal. Como encontramos nas Regras de São Bento: “A conversão dos costumes”.

Seguindo o exemplo de nosso fundador, devemos ir ao encontro dos que estão afastados de Deus e que vivem na indiferença religiosa. Porém surge uma pergunta: por que o apostolado católico ainda não é levado a sério pelos cristãos? Primeiro, porque somos imperfeitos e necessitamos de uma contínua conversão. Todos os dias devemos renovar a nossa opção por Cristo e de viver só para Ele. Segundo, porque perdemos tempo com coisas insignificantes, com preocupações inúteis, por discórdias na comunidade, por disputa de poder, como aquela apresentada pelo evangelho: “Eles discutiam para saber quem era o maior” (Mt 18,1-3).

Às vezes, perdemos tempo criticando a Igreja, porém nada fazemos. Pallotti, por sua vez, nunca criticou as estruturas do seu tempo, mas propôs uma nova maneira de viver o cristianismo, reavivando a fé e reacendendo a caridade. Como discípulos missionários, somos convidados a sair do nosso conforto e ir ao encontro daqueles que estão distantes de Deus, daqueles que estão confusos, perdidos, doentes e que vivem uma vida sem sentido. Muitos não precisam ser apenas resgatados em sua fé, mas, principalmente, em sua humanidade.

É comum ouvirmos a expressão, onde estão os nossos jovens? Eis a questão! Eles estão próximos de nós. Estão nas nossas casas, no nosso bairro, nas escolas, nos Shoppings, nas avenidas, nas baladas. Muitos estão perambulando pelas ruas como ovelhas sem pastor. Muitos deles já foram interceptados pelo mau pastor, por aqueles que se aproveitam dos seus sonhos juvenis ousados, para lhes oferecer não uma vida abundante como nos propõe o evangelho (Jo 10,10), mas uma vida limitada e que leva à verdadeira destruição e ao fracasso. Mas, todo jovem quer viver, quer produzir algo novo, sonha grande. Mas falta-lhe acolhida e oportunidades para transformar muitas realidades caducas.

A pergunta que paira no ar é: como surpreendê-los com algo fascinante, que os leve a sair da inércia para queimarem suas energias juvenis com algo que edifique a si mesmo e os outros? O saudoso Papa Francisco nos deixa muitos questionamentos na Exortação Apostólica Christus Vivit: Ele fala de uma escuta ativa e no protagonismo quando se trata de acolher a juventude. Para ele, acolher não é apenas abrir as portas de uma instituição, mas, sim, criar espaços onde os jovens se sintam verdadeiramente sujeitos da sua própria história.

Aqui estão os pontos centrais da mensagem do Papa sobre este acolhimento, baseados principalmente na Exortação Apostólica Christus Vivit:

1. Uma Igreja de “portas abertas” e sem julgamentos

Francisco defende que o acolhimento deve ser incondicional. Ele critica uma postura defensiva ou excessivamente moralista que afasta quem não se sente “perfeito”.

·         Acolher a fragilidade: O Papa pede que a Igreja saiba receber jovens que vivem situações de fracasso, dúvida ou que estão distantes da prática religiosa tradicional.

·         Linguagem de proximidade: Ele sugere que o acolhimento deve ser feito com “a linguagem do amor”, que é mais compreensível do que sermões teóricos ou moralistas.

2. O protagonismo Juvenil

Para o Papa, os jovens não são o “futuro”, mas o “agora de Deus”.

·         Não ao “asfalto”: Ele usa a metáfora de que não se deve “asfaltar” o caminho dos jovens, mas deixá-los criar novas rotas. Acolher significa dar espaço para que eles liderem e tragam novas ideias, mesmo que isso cause alguma “bagunça”.

·         Escuta empática: Acolher começa por ouvir. Francisco insiste que os adultos devem aprender a ouvir os questionamentos dos jovens sem pressa de dar respostas prontas.

3. Acompanhamento e discernimento

Acolher não é um evento isolado, mas um processo de caminhar juntos (sinodalidade).

·         Caminhar ao lado: Inspirado na passagem dos discípulos de Emaús, o Papa diz que o acolhimento exige paciência para caminhar no ritmo do jovem.

·         Cultura do encontro: Ele promove o diálogo entre gerações. Para Francisco, o acolhimento da juventude se fortalece quando há uma conexão com os idosos (as raízes).

4. O Uso das novas linguagens

O Papa reconhece que o acolhimento hoje passa pelo mundo digital e pelas novas formas de expressão.

·         Ambiente digital: Ele vê as redes sociais como locais de missão, mas alerta que o acolhimento real exige o toque, o olhar e a presença física sempre que possível.

Por que Cristo fascinou tanta gente ao longo dos séculos? Qual é a sua proposta de vida? O que falta para nós, que nos consideramos evangelizadores e portadores da “Boa Notícia” de Jesus e não conseguimos atingir satisfatoriamente as pessoas? Talvez, falta em nós a paixão por Jesus Cristo. Assim expressou o Documento de Aparecida, n. 29: “Conhecer a Jesus é o melhor presente que qualquer pessoa pode receber; tê-lo encontrado foi o melhor que ocorreu em nossas vidas, e fazê-lo conhecido com nossa palavra e obras é nossa alegria.”

Que tipo de notícia estamos anunciando? Uma coisa é certa, não devemos ter a preocupação de sermos iguais a todos. Ser mais um. O jovem não deve ser mais um no meio da multidão. Ele deve fazer a diferença, por mais que isso lhe custe a incompreensão. Se a sua atitude já provocou desconforto em alguém, pode ter certeza de que você está movido por uma proposta diferente, cheia de vida e de sentido. Você já está destoando daquilo que dizem ser normal. A sua proposta de vida é outra. Diante dessa realidade, Jesus tem uma palavra: “Não tenhais medo” (Jo 6,20).

Talvez, um dos maiores problemas que levam o jovem a dispersão é que ele se depara com uma enorme gama de informação, tudo ao mesmo tempo, e falta-lhe maturidade suficiente para fazer a melhor escolha. Ou então prefere aquela que mais lhe dá satisfação momentânea. Porém, fica a pergunta no ar: como mostrar para eles algo de valor diante das propostas carregadas de emoções e de sensações imediatas? Muitos estão fragmentados emocionalmente diante de tantos desafios familiares e sociais e, por isso, procuram meios de fuga.

Hoje, mais do que nunca, devemos procurar curar suas feridas interiores, para que estejam abertos à graça de Deus e às necessidades dos irmãos. A melhor maneira de buscar a Deus é ouvir o que Ele tem para nos ensinar. Essa escuta, porém, deve ser diária e bem conduzida.

A ovelha só reconhece a voz do seu pastor, porque desde seu nascimento está ouvindo aquela mesma voz cheia de ternura do lado dela. Se não nos aproximarmos de Deus, dificilmente a sua Palavra encontrará eco dentro de nós. Daí surge a urgência de criarmos momentos de encontros, de oração, de lazer e de partilha. Se tivermos uma espiritualidade superficial, nossos discursos serão vazios e estéreis. Não surpreenderemos ninguém com o nosso modo de ser e muito menos fascinaremos alguém com o nosso modo de viver.

Que o exemplo de apostolado criativo do nosso fundador possa ajudar a nos lançar sem medo, confiando sempre na inspiração divina.

 

Para refletir

  1. Como Pallotti viveu os seus primeiros anos de sacerdócio?
  2. O que devemos fazer hoje de relevante, para que nossos jovens se entusiasmem pelas coisas de Deus e pelo progresso da pessoa humana?
  3. Na sua opinião, quais são as necessidades mais prementes da nossa juventude?