domingo, 9 de agosto de 2026

 


TEMA 11: O APÓSTOLO DE ROMA

Se quiserdes caminhar a passos largos na vida de perfeição, segui continuamente Jesus, Maria e José. Procurai exercitar aquelas heroicas virtudes que eles praticaram maravilhosamente, com amor, em todas as circunstâncias e lugar.[1]

Um detalhe importante da vida de São Vicente Pallotti é que ele esteve sempre atento às necessidades espirituais e materiais da Igreja. No ano de 1833, ele demonstrou ter um interesse muito grande pelo Colégio da Propagação da Fé, que se encontrava na Praça Espanha (Postulazione generale, p. 61). Com a morte do diretor espiritual, o santo o substituiu oficialmente no dia 23 de setembro de 1835. Com tal nomeação, ele viu concretizar um sonho que para ele tinha muito significado, pois conseguira entrar em um Colégio Missionário da Igreja Católica, canonicamente erigido pelo Papa Urbano VIII, pela bula Immortalis Dei Filius, de agosto de 1627, para que acolhesse alunos de todas as nações, os quais seriam enviados pelo Sumo Pontífice, para a evangelização em todo o mundo.

A diversidade das raças, línguas e proveniências dos alunos, fazia com que palpitasse o coração do santo pela universalidade da Igreja. Pois, ele queria mergulhar toda a humanidade no sangue de Cristo, com suas próprias mãos, para que Cristo a purificasse (Postulazione generale, p. 36).

Para Vicente Pallotti, a essência da santidade está na pureza de coração. E tal virtude deve ser adquirida antes da ordenação, porque, do contrário será muito difícil de ser alcançada. Por isso, dizia sempre: três coisas são importantes para o sacerdócio: “castidade, castidade, castidade” (Postulazione generale, p. 57). Pallotti era tão cauteloso quanto às virtudes que, nas férias de verão, quando os alunos do Colégio da Propagação da Fé iam para a pequena cidade de Frascati, cerca de 25 Km de Roma, ele também se deslocava para lá, para dar assistência aos alunos. No entanto, alugava um banco da carruagem só para ele, para que tivesse uma viagem tranquila e sem a presença ao seu lado de uma mulher.[2]

Orientação apostólica

O trabalho realizado por Vicente Pallotti, até esse momento, não tinha uma linha definida. Era simplesmente um sacerdote que desempenhava sua missão de pastor, rezando missas, atendendo às confissões e demais sacramentos. Procurava fazer o bem às pessoas sem distinguir qual trabalho fosse, porque para ele, em qualquer das suas atividades, podia dar glória a Deus. Os seus trabalhos iniciais foram com os estudantes da Igreja Santa Maria do Pranto, na Academia de Teologia e aplicando os exercícios espirituais aos nobres e militares do Gianicolo, mas este não era o seu maior desejo. Passou, então, a atender os artesãos Del Muccioli, aos artesãos das Escolas Noturnas, de Ponterotto, Clementino Del Campa, e começou a identificar-se com este tipo de trabalho. A procura de seus interesses espirituais se alargou também aos clérigos do Seminário Romano, Colégio Urbano, Grego, Inglês, Irlandês, Escocês, mas ao mesmo tempo tinha contato com Camáldoli e com vários outros institutos de Roma. Depois, começou também atender os cárceres, os hospitais, os condenados à morte, os doentes de toda a cidade e as intermináveis filas dos penitentes.[3] Para nós parece que o seu trabalho era infinito e difícil de ser vencido, mas, para ele, a vontade de Deus é quem tranquiliza o coração (cf. Lettera, 21).

Recusas

Vicente Pallotti recusou, em 1829, trabalhar na Academia de Teologia. Recusou ainda o benefício de canônico na Igreja Santa Maria dos Mártires – Panteão. Recusou a rica e honrada paróquia de São Marcos e o ofício de capelão da Arquiconfraria de São João Decollato, porque teria um alto salário (Postulazione generale, p. 57). Todas essas recusas de Pallotti eram para estar mais livre para o apostolado. Todos viam nele não um sacerdote comum, mas alguém com uma auréola de santidade, um mestre refinado das coisas divinas (Postulazione generale, p. 69).

As seitas secretas

Três eram as ditas seitas secretas que agiam no tempo de Vicente Pallotti e que provocavam grandes problemas para a Igreja: a maçonaria, os carbonários (uma sociedade secreta revolucionária que atuou na Itália, França e Espanha no século XIX, contra o poder temporal da Igreja, cujas regras eram semelhantes às da maçonaria). Tanto a maçonaria como os carbonários se uniram ao Movimento de Unificação da Itália, que tinha fins políticos. Os Papas que sofreram com as investidas destes movimentos foram: Pio VII, Leão XII, Pio VIII, Gregório XVI e Pio IX. Todos eles travaram uma luta contra esses inimigos que tinham como única finalidade acabar com o poder temporal da Igreja (trono e altar).

Os Carbonários se infiltraram largamente nas fileiras do exército pontifício. Eles distribuíam panfletos entre os jovens, anunciando o extermínio total do catolicismo e da ideia cristã. Convidavam seus seguidores a mancharem a imagem do clero e a induzirem a juventude, inclusive os aspirantes ao sacerdócio, para que se inflamassem por esses novos ideais políticos. Eles queriam, na verdade, se infiltrar de tal maneira no governo da Igreja com o intuito de um dia ter um papa Carbonário (Postulazione generale, p. 80).

Gregório XVI, em todo o seu pontificado, viu nas seitas o maior perigo e a maior fonte de mal que ameaçava a Igreja. Um ano após a sua eleição já se falava na Encíclica Mirari vos (1832) da maldade perpetrada por essa seita através de seus costumes licenciosos e pelo desprezo às pessoas e coisas sagradas, pela sua luta contra a Cátedra de Pedro. A Encíclica fez acenos também às reuniões secretas feitas pela seita. Em Roma, as reuniões aconteciam no Coliseu (Postulazione generale, p. 92-100).

Pallotti tinha pleno conhecimento destas reuniões, mas nunca os confrontou diretamente. Vendo a força destrutiva de tal movimento, Pallotti procurou arrebanhar em torno de si o maior número possível de jovens, porque sabia que eles eram seus alvos prediletos. Fundou, nesse período, a liga antidemoníaca para combater a obscenidade e colocou toda sua alma na condução de todos os jovens nos seminários e nos colégios romanos, que se preparavam para o sacerdócio, para que tivessem uma vida santa (Postulazione generale, p. 94). Ele conhecia bem o poder desta organização, de modo que vinte anos mais tarde, à véspera do assassinato do Conde Pellegrino Rossi, quando De Geslin se mostrou surpreso porque não tomava uma iniciativa para salvar a vida do Conde, amargamente respondeu: “O senhor não conhece nem a força e nem a ferocidade desse grupo. O mal reina solto e o papa está impotente frente a eles”. Mesmo diante dos acontecimentos em curso, Pallotti continuou ativo no seu apostolado e tomou como lema para si: Tudo para a salvação das almas e tudo para a destruição do pecado. Em suas palavras tornaram-se frequentes a sua luta contra o pecado e por isso pensou em uma Sociedade Apostólica que fosse como que uma trombeta evangélica na Igreja.[4]

Uma visita inusitada

O desejo de Vicente Pallotti de servir a Cristo não tinha limites. Certo dia, passando pela rua entrou em um pequeno comércio de um senhor chamado Jacó Salvatti e encontra somente sua esposa e sem mesmo conhecê-la perguntou: “foi você que me chamou aqui?” Ela respondeu: “o senhor está enganado, pois nem te conheço!” Pallotti novamente diz à senhora: “Camilla, sua filha enferma, acaba de ser curada! A mulher responde, tão curada que está em agonia. Repetiu de novo e se foi. Quando o marido chega, dirige-se ao quarto e leva uma fruta para a menina. Ela come e em seguida se levanta. O seu médico constata mais tarde que a menina não sofria de mais nenhuma enfermidade. A resposta do médico foi: “certamente foi curada por esse homem de Deus”. Diante desse fato, Salvatti colocou-se à disposição de Pallotti, mas quando Pallotti confiou-lhe a missão de fazer a coleta de quatrocentos Escudos, levou o maior susto. Não é possível, disse. Não sou capaz disso, pois bem sabia que poderia ser malvisto pela sociedade, pelo fato de ter sido prisioneiro por duas vezes.[5] Ninguém acreditaria nele. Precisaria pelo menos de duas cartas de apresentação. Pallotti confirma a quantia e assegura que não precisaria de nenhuma carta de apresentação. Ele, por deferência a Pallotti, convencido saiu em direção à porta, mas de repente parou na soleira da porta, disse: “essa incumbência não é para mim!” Pallotti, mais decidido do que antes, insiste-lhe para que vá. Obedecendo à sua ordem, saiu e Pallotti com segurança profética lhe diz que, em nome do crucificado encontrarás aquilo que é necessário. Confiante em tamanha convicção do santo, Salvatti se anima e sai à procura da quantia estipulada. No meio da rua, mais uma vez começou a vacilar e veio a ideia de dar um giro pelo bairro, sem dizer nada e nem perguntar nada a ninguém, para depois voltar e dizer a Pallotti que ninguém quis colaborar. Pensando bem, ele tinha recebido a ordem de um santo e que descobriria sua mentira. Por fim, acabou se convencendo de que o melhor negócio seria enfrentar a parada. Primeiramente chegou diante de uma quitanda, entrou e logo já foi pedindo quatrocentos Escudos para uma obra de caridade. Esperava que o homem o expulsasse ou risse em sua cara. Para sua surpresa, o homem se desculpou gaguejando dizendo, mas... cem Escudos não estaria bom? De imediato, começou a contar as notas. Salvatti fez mil agradecimentos e encorajado entrou rápido em uma outra porta. O resultado foi idêntico. Ninguém recusou. Aquilo que parecia impossível foi muito rápido e fácil. Em pouquíssimo tempo, já tinha angariado quinhentos e cinquenta Escudos.

Salvatti não era uma pessoa rica, ele era proveniente de Rocca di Papa, perto de Roma. Era fabricante de sabão e vendia na sua lojinha. Por isso, não colocou nas mãos de Pallotti suas riquezas, mas o seu trabalho voluntário. Tornou-se um grande colaborador na Pia Casa di Carità, no Borgo de Santa Ágata. Mais tarde, Pallotti fez o casamento de sua filha Camilla e batizou seus filhos. No batismo da terceira menina, disse: “vieram as três Marias e agora virão aqueles que estavam aos pés da cruz.” Nasceram mais dois meninos e foram chamados de José de Arimatéia e de João. Neste batizado, surpreendeu a todos dizendo que já era velho e que logo partiria para a “Pátria”. Foi a Salvatti que o santo reservou sua visita antes da morte. Depois da morte, apareceu para a sua boa senhora e a curou de um mal súbito (Postulazione generale, pp. 92-94).

Um outro leigo muito próximo e fiel a Pallotti foi o operário do Apostolado Católico, o professor da Sapienza Tommaso Alkusci, caldeu. Em 1840, começou a viver em comunidade com Vicente Pallotti, na Igreja do Espírito Santo dos napolitanos, e, após sua morte, deixou sua rica biblioteca para a Congregação dos palotinos. Giacomo Pichini contribuía generosamente com os gastos referentes à festa do Oitavário da Epifania e deixou Salvatti como herdeiro de confiança, para a conversão de todos os seus bens em obras pias. Tanto a Igreja de Londres como a Pia Casa de Velletri foram beneficiadas por esta herança.[6]

Os colaboradores leigos no apostolado

Muitos leigos, entusiasmados pela ideia inovadora de Pallotti que abria espaço para todos na evangelização, se propuseram a atuar nas Escolas Noturnas, na Propagação da Fé, no Hospital Militar e nas Casernas, na administração da Pia Casa de Caridade das meninas órfãs (Postulazione generale, p. 103). Todo esse trabalho girava em torno de uma mística, ou de uma espiritualidade que os levava a crescer não só na fé, mas no amor ao próximo.

Diante do bom êxito obtido por Jacó Salvatti, na arrecadação de fundos para a impressão de um livreto de oração em língua árabe, levou Pallotti perceber como sendo uma resposta de Deus para um trabalho ainda mais profundo, por isso convocou um grupo de amigos para expor algumas ideias que o incomodavam. Pois, tinha a intuição de que todos podem ser apóstolos, mesmo aqueles que não são sacerdotes, inclusive as mulheres. Em sua experiência profunda de Deus, percebeu que Deus escolheu pessoas para ajudar na sua obra salvífica, sem, no entanto, instituí-las como sacerdotes. Ele toma como exemplo a própria Virgem Maria, que apesar de não possuir nenhum cargo eclesiástico, de nunca ter rezado uma missa, não ter confessado ninguém, nem ter pregado, e, no entanto, é a Rainha dos Apóstolos. É a Rainha dos apóstolos porque, no seu estado, concorreu maravilhosamente para a propagação do Reino de Cristo. Portanto, qualquer um, na condição em que se encontra, pode atuar na propagação da fé. Por isso merece o nome de apóstolo. Além do mais, todos são chamados ao apostolado porque devem imitar Cristo, o apóstolo do eterno Pai. O apostolado católico tem como função de despertar os fiéis do seu torpor e indiferença, frente aos acontecimentos da vida. Visa reacender a fé e reavivar a caridade em todo o mundo (Postulazione generale, p. 112 e 117).

Segundo Rafael Mélia, em 1838, o Apostolado Católico era já conhecido em 28 países, entre os quais, boa parte da Europa, Ásia, África, Oceania, já tinha a presença de membros da Sociedade. O apostolado católico inspirou a unidade e fez passar entre os institutos e casas religiosas, entre os religiosos e o clero secular, entre o clero e os fiéis o desejo de unirem-se em torno de um mesmo ideal, o apostolado universal (Postulazione generale, p. 123).

Em Roma, a Sociedade dirigia e sustentava quatro Escolas Noturnas. Os membros recolhiam e assistiam jovens em perigo ou já na marginalização. Acompanhavam os exercícios espirituais. Em 1837, com a epidemia do cólera, a Igreja do Espírito Santo dos Napolitanos, abriu um escritório de assistência espiritual e corporal para as pessoas contaminadas pela doença. Doavam camas e vestimentas para os necessitados. Em 1838, chegou a distribuir cem mil livretos de devoção popular (Postulazione generale, p. 128).

Vicente Pallotti com sua iniciativa apostólica tornou-se um inovador na Igreja, porque o que ele confiou aos leigos era uma atividade exclusiva do clero secular e regular. Em 1840, sentindo-se muito debilitado, recomendou aos sacerdotes e irmãos que promovessem com toda força a propagação do Instituto, porque, segundo ele, a obra era conforme os desígnios de Deus. Acrescentou ainda: “Nosso senhor Jesus Cristo se dignou revelar a uma alma sua dileta, para que fosse escrito tudo isso a respeito da Sociedade do Apostolado Católico. Tudo foi inspirado por Cristo” (Postulazione generale, p. 141).

Portanto, a trajetória de São Vicente Pallotti revela o quanto ele estava atento aos sinais de seu tempo e às necessidades da Igreja. Ele, realmente, utilizou todos os meios de que dispunha, para consolidar o seu sonho missionário de atingir o mundo inteiro, para unir a diversidade de línguas e raças, a fim de que houvesse um só rebanho sob um só Pastor. Com sua inovação apostólica, ele rompeu com o exclusivismo clerical da época ao entender que todo cristão é um apóstolo. Inspirado pela Virgem Maria — Rainha dos Apóstolos que, sem ter sido sacerdote, foi a maior cooperadora de Cristo — ele integrou leigos, artesãos e profissionais na missão evangelizadora. Essa visão de Pallotti pode ser encontrada no livro dos Atos dos Apóstolos que mostra Paulo reconhecendo que Deus também olha com um olhar misericordioso aos pagãos: “Deus me escolheu para que os pagãos ouvissem de minha boca a palavra do Evangelho e acreditassem. Ora, Deus, que conhece os corações, testemunhou a favor deles, dando-lhes o Espírito Santo como o deu a nós. E não fez nenhuma distinção entre nós e eles, purificando o coração deles mediante a fé” (At 15,7b-9).

Em suma, Vicente Pallotti antecipou o papel do laicato na Igreja, fundando uma “Sociedade Apostólica” que funciona como uma “trombeta evangélica”, recordando que a santidade e a missão não são privilégios de alguns, mas um chamado universal fundamentado na caridade e na união de forças. Por isso, esse grande sacerdote mereceu o título de apóstolo de Roma.

 Para refletir

  1. Por que padre Vicente Pallotti pode ser considerado o apóstolo de Roma?
  2. Qual foi a importância de Salvatti na União do Apostolado Católico?
  3. Quem eram as seitas secretas, no tempo de Pallotti, e como ele as enfrentou?

 

 



[1] Cf. F. AMOROSO, San Vincenzo Pallotti Romano, Postulazione generale della Scocietà dell’Apostolato Cattolico, Tipografia Editrice M. Pisani, Roma 1962, p. 34.

[2] Cf. F. AMOROSO, San Vincenzo Pallotti Romano, pp. 59-67. Segundo testemunhos de peritos da Casa Geral, o fato de Pallotti alugar um banco exclusivo para si em suas viagens, para que não fosse sentada mulher ao seu lado, não era por questão de algum luxo pessoal, ou por desprezo às mulheres, mas, sim, porque havia uma forte campanha patrocinada pelo movimento secreto dos Carbonários, anticlericais, que queriam encontrar a todo custo um pretexto para incriminar sacerdotes e religiosos em algum tipo de escândalo. Prevendo isso, Pallotti sempre foi muito cauteloso para enfrentar essa situação.

[3] Cf. F. AMOROSO. San Vincenzo Pallotti Romano, pp. 57-59. Edição antiga, p. 67.

[4] Cf. P. DE GESLIN. Compagnon de Saint Vincent Pallotti, Ècrits et Lettres, textes établis et annotés par Bruno Bayer SAC, Éditions du Dialogue, Paris, 1972, p. 105; Cf. F. AMOROSO. San Vincenzo Pallotti Romano, p. 94.

[5] Existe nos arquivos do Instituto Pallotti o processo, não completo, do julgamento de Salvatti quando esteve na prisão. Estes documentos, até então, não foram publicados e nem divulgados.

[6] Cf. AMOROSO. San Vincenzo Pallotti Romano, p. 125.


 



Tema 10: VICENTE PALLOTTI: UM TRABALHADOR INCANSÁVEL

 Quem foi Vicente Pallotti

A vida de Vicente Pallotti foi marcada por um vasto apostolado. Aqui, apresentaremos algumas ações realizadas por ele, desde a sua infância e adolescência até os seus primeiros anos de sacerdócio. Mas, ao longo da nossa formação, apresentaremos outras atividades compartilhadas com os membros da sua fundação, a União do Apostolado Católico. Ele surpreendia a todos pela sua segurança e realismo com que fazia as coisas. Ele sempre esteve imerso em um profundo e ardente amor a Deus e ao próximo. Ele estava sempre atento às mínimas dificuldades das pessoas, como: doença, indigência, ignorância, injustiças sociais de todo tipo e ocupou-se disto como verdadeiro pastor de almas.

Além de professor na Faculdade Sapienza de Roma, dedicava grande parte do seu tempo à direção espiritual, às necessidades religiosas dos fiéis em muitos colégios dirigidos por religiosos e aos soldados. Em 1837, ano em que Roma foi acometida pela epidemia do cólera, com um elevado número de vítimas, ele dedicou-se à perigosa cura dos doentes. Roma tinha-se tornado um deserto. As pessoas evitavam sair pelas ruas. O número de pessoas contaminadas pelo cólera chegou a 9.372 e 5.419 mortos.

Essa doença chegou e propagou-se assustadoramente. Faltavam medicamentos, não havia mais assistência, escasseavam os alimentos e até a assistência espiritual às pessoas infectadas. Muitos padres temiam aproximar-se dos doentes, outros davam absolvição de longe. Para suplicar a intervenção divina, para que afugentasse aqueles males, foram feitas orações, caminhadas e procissões. Houve uma grande romaria onde padres, cardeais e o próprio papa Gregório XVI juntaram-se à caminhada processional. Padre Vicente promoveu a participação de grande número de padres diocesanos e religiosos, que fizeram o trajeto descalços, em pleno avanço da doença (Todisco, pp. 409-411).

Padre Vicente permaneceu à frente no atendimento aos doentes: como padre e enfermeiro, administrava os sacramentos e ministrava os remédios. Arrumava as camas, servia comida na boca dos doentes, acomodava-os nas almofadas. Ele não se preocupava com o contágio. Ele criou um centro de assistência religiosa. Se no momento que procuravam não houvesse padre disponível, as pessoas deixavam o endereço e no espaço de poucas horas chegaria um padre do Apostolado Católico ou o próprio Padre Vicente. Levavam também vales para pão, carne, outros alimentos e limões que eram utilizados como remédio. Todos os dias era preparado um panelão de sopa para os necessitados. Por causa deste árduo trabalho, em prol dos necessitados, muitos dos seus colaboradores perderam a vida (Todisco, pp. 412-414). Foi o caso anunciado pelo Próprio Pallotti que o padre Gaspar Del Bufalo faleceu na manhã do dia 28 de dezembro de 1837, após a celebração da santa missa, pelas nove horas.

As consequências da epidemia foram terríveis. Muitas meninas órfãs de pai e mãe vagueavam pelas ruas, muitas com fome e frio. Vicente comoveu-se diante desta realidade e tomou a firme decisão de recolhê-las e entregando-as aos cuidados de algumas mulheres piedosas que as abrigaram em uma casa alugada. Contando com o auxílio dos seus colaboradores, não teve dificuldades para dar-lhes a devida assistência. Com a morte da senhora Brandini, dona da casa alugada, as crianças foram transferidas para a casa de Madalena Salvatti. Como o número de órfãs aumentava a cada dia, Vicente recorreu à Santa Sé, para que fosse cedida à UAC a casa Fuccioli, na Rua Santa Ágata dei Gotti, para servir de abrigo às meninas. O seu pedido foi aceito pelas autoridades.

Vicente Pallotti se destacou por seu trabalho pastoral e pela caridade, estendendo sua atuação de forma notável também aos soldados e encarcerados em Roma. A sua abordagem era profundamente marcada pela compaixão e pelo desejo de reavivar a fé e buscar a dignidade humana, mesmo nas condições mais difíceis.

Trabalho com os Soldados

Durante a sua vida, a cidade de Roma esteve em constante efervescência política e militar, especialmente com as incursões e conflitos relacionados às Guerras Napoleônicas e ao Ressurgimento (unificação italiana). Pallotti via naqueles homens, muitas vezes afastados de suas famílias e em situações de risco, uma necessidade espiritual e humana. Mesmo sabendo do perigo de a qualquer momento se iniciar uma revolução na Itália, consequência da Revolução Francesa, Pallotti não deixou de fazer o seu trabalho junto aos soldados. A ele foi confiado o Hospital Militar e mais tarde recebeu com os seus padres a direção espiritual dos quartéis de Roma. Para motivar a vida religiosa entre os militares, introduziu a explicação semanal do evangelho e do catecismo, as orações em comum, o mês de Maria, os exercícios espirituais, a reza do terço e outros exercícios de piedade. Distribuía entre eles livrinhos de orações. Como conquistou a confiança dos soldados e comandantes, começou a fazer celebrações, retiros, orações. Certa vez, ao apresentar os seus propósitos a um comandante, este o advertiu: “Desse jeito, você vai transformar os soldados em monges”! Pallotti apenas acrescentou: “Tendo-se bons cristãos, ter-se-ão ótimos soldados”! Pallotti pregou muitos retiros nos quartéis, para soldados e comandantes. Ele era tão bem-quisto nos quartéis que chegou a intervir na liberação de soldados presos.[1]

Esse trabalho foi tão exitoso que acabou tendo colaboradores militares na União do Apostolado Católico. Alguns testemunhos afirmaram que muitos quartéis, realmente, chegaram a parecer mosteiros. Era um campo de trabalho desafiador, mas necessário. Ele não se limitava a oferecer somente ajuda material, mas buscava:

  1. Apoio espiritual e sacramental: Ele ia aos quartéis para ouvir confissões, celebrar missas e distribuir a comunhão. Seu objetivo era ser um ponto de apoio e consolo, ajudando os soldados a se reconectarem com sua fé em meio à incerteza e à violência.
  2. Aconselhamento e consolo: Pallotti oferecia palavras de encorajamento, orientando os soldados a manterem a esperança e a moralidade, independentemente das circunstâncias. Ele via cada um como filho de Deus, merecedor de respeito e de cuidado.
  3. Ajuda em batalha: Relatos históricos contam que, durante os conflitos, ele se arriscava para auxiliar os feridos no campo de batalha, demonstrando sua coragem e dedicação inabalável.

Trabalho com os encarcerados

A situação das prisões na época era extremamente precária, com condições desumanas e pouca ou nenhuma assistência espiritual. Pallotti se dedicou a transformar a vida daqueles homens, vendo neles não criminosos irrecuperáveis, mas pessoas em busca de redenção. Em alguns casos, interveio para libertar os injustiçados ou diminuir a pena daqueles pais de família que demonstravam ter boa conduta. Ele dava atenção especial para os condenados à pena de morte. Para alguns, deu assistência até o minuto da execução. Dentre os vários assistidos por ele, com exceção de dois, todos se converteram. Alguns resistiam no começo, mas, acabavam pedindo perdão, aceitando o amor e a misericórdia de Deus.

Ele atuava de diversas formas:

  1. Visitas regulares às prisões: Ele visitava as cadeias com frequência, levando não apenas alimentos e roupas, mas principalmente a esperança e o amor de Cristo. Ele se sentava para conversar com cada um, demonstrando interesse genuíno por suas histórias e arrependimentos.
  2. Ministrava os sacramentos: Assim como aos soldados, ele realizava confissões e missas nas prisões, oferecendo a oportunidade de reconciliação com Deus e de renovação interior.
  3. Trabalho de reabilitação: Pallotti entendia que a fé precisava ser acompanhada de ações concretas para a reabilitação. Ele se empenhou em auxiliar os prisioneiros a se reintegrarem à sociedade, após o cumprimento de suas penas, procurando emprego e moradia para eles. Esse trabalho de ressocialização era a parte fundamental de sua missão.

A atuação de Vicente Pallotti com esses grupos vulneráveis foi um reflexo de sua crença na união dos apóstolos, uma ideia central da sua Pia União. Para ele, cada pessoa, independentemente de sua condição ou passado, tinha o potencial de ser um apóstolo, ou seja, um instrumento para espalhar a fé. Seu legado demonstrava que a compaixão e a solidariedade podem alcançar os marginalizados, oferecendo-lhes uma nova chance de vida.

Vicente Pallotti estava atento a todas as necessidades do seu tempo. Ele não se limitou em fazer apenas um tipo de apostolado. Diante da limitação do Estado para dar a devida formação para as crianças, ele mesmo fundou escolas agrícolas, institutos assistenciais e orfanatos e, através das escolas noturnas, procurou oferecer cultura aos adultos, interessou-se pela difusão da boa imprensa, ocupou-se das obras missionárias. Organizou a assistência espiritual dos imigrantes italianos (na Inglaterra). A sua obra mais importante, para poder atender às inúmeras necessidades de então, foi a fundação da União do Apostolado Católico, uma organização bastante elástica, mas orientada para todo e qualquer tipo de apostolado.

Com a sua fundação, Vicente queria que seus discípulos percorressem o mesmo caminho pelo qual o guiou a divina Providência. Ele não se cansava de afirmar que a necessidade do seu tempo era de reavivar a fé e reacender a caridade no mundo. Necessidade esta que continua a urgir, com maior força ainda, às pessoas da nossa geração.[2]

Pallotti assumiu muitos compromissos e foi extremamente ativo, mas tudo colocava nas mãos de Deus. Ainda criança e adolescente, exerceu muitas obras de caridade, iniciando assim o seu apostolado. Quando saía de casa, levava consigo algo para os necessitados que encontrasse na rua e, por várias vezes, partilhou com os pobres aquilo que lhe era destinado, por exemplo, frutas, doces, sapatos, roupas e, certa vez, até doou o seu colchão.

Com o apoio do seu diretor espiritual, Vicente, ainda seminarista, ajudou e participou de muitas obras apostólicas, tais como: o Albergue de Santa Galla que alojava os migrantes, os camponeses e outras pessoas que passavam algum tempo em Roma. Ele auxiliava na orientação espiritual. A Obra de Ponterrotto (na rua das proximidades havia uma ponte quebrada que passava sobre o rio Tibre), que tinha como objetivo recolher jovens da classe pobre numa espécie de academia, onde aprendiam as artes úteis e os princípios morais e religiosos. Na casa de retiros, no Monte Gianiculo, Pallotti realizou um notável apostolado, tanto que, em 1823, foi nomeado diretor desta obra. Ele ministrava também a educação religiosa nas Escolas Noturnas, destinada aos filhos de artesãos, e assumiu a diretoria da obra até 1839, quando contavam com oito estabelecimentos, com cerca de mil alunos. Os alunos recebiam, nos domingos, a instrução religiosa e as práticas de piedade. Nos outros dias, o Colégio funcionava durante uma hora e meia, e os alunos aprendiam a ler, a escrever, a fazer contas, os princípios do desenho e da geometria aplicados às artes e o catecismo (Gaynor, pp. 44-46).

Pallotti, em seus trabalhos, sempre buscou destacar o valor do apostolado universal, isto é, de todos: clérigos, religiosos e leigos. Cada um conforme a sua realidade e condições deve dedicar-se ao apostolado. Sendo assim, não poderia deixar de valorizar também as associações religiosas existentes na época, com o intuito de fortalecer a caminhada cristã de seus membros.

Desde muito cedo, ele fez parte de associações religiosas, organizadas em forma de Confrarias e Pias Uniões. Ele participou da devoção ao Preciosíssimo Sangue de Jesus Cristo, fundada pelo seu amigo São Gaspar del Bufalo. Ele via nessa devoção a melhor forma de vencer a concupiscência.

Participou da União Antidemoníaca que lutava contra as imagens escandalosas e apresentava a lista dos livros proibidos, segundo a concepção da época. Desde os primeiros anos de escola, participou da Congregação Mariana Nossa Senhora das Lágrimas. Essa devoção surgiu quando a imagem da santa começou a verter lágrimas, perante um crime cometido aos seus pés. Ele chegou estar à frente desta Congregação auxiliando na formação e orientação dos jovens congregados. Foi também animador da Congregação Mariana, ainda seminarista, onde se destacava a devoção à Mãe do Céu. Além de grande colaborador, foi também presidente da Congregação Jesus e Maria.

As suas homilias, normalmente, eram breves para poder sobrar mais tempo para as confissões, função que Vicente exercia com muito amor e zelo. Essa dedicação era fruto da experiência pessoal que teve com o seu confessor. Ele dedicava horas e horas ao confessionário, sem contar as várias chamadas para junto aos enfermos. Os que mais se confessavam com Vicente eram camponeses, operários, autoridades civis e eclesiásticas.

Muitos procuravam orientar-se com ele desde leigos até cardeais, como Lambruschini, que foi secretário de Estado do Papa Gregório XVI. Para todos eles, Vicente destacava infinita bondade e misericórdia de Deus para com todos. Seu zelo pelas almas era tamanho que nunca deixou de se dedicar às confissões, mesmo quando alguns companheiros procuravam impedir esse seu apostolado.

Diante das tantas atividades realizadas pelo nosso santo fundador, isso nos leva a ver as pessoas com um novo olhar, o de Cristo que passou fazendo o bem e nos faz refletir sobre o modo como estamos atuando em nossas atividades pastorais. Que Vicente Pallotti nos inspire sempre, para que possamos ter maior sensibilidade para com as tantas necessidades do nosso tempo.

 

Para refletir

  1. De que maneira Vicente Pallotti desenvolveu o seu apostolado?
  2. Que tipo de mensagem ele deixa para a nossa realidade evangelizadora de hoje?
  3. A partir do exemplo da atuação pastoral de Pallotti, quais deveriam ser as nossas prioridades pastorais?


[1] Ângelo Lôndero (org.). Horizontes Palotinos, Santa Maria: Biblos, 2002, p. 130.

[2] GAYNOR, J. Santos. Vida e obra de São Vicente Pallotti. Pallotti: Santa Maria, 2000, p. 36.