domingo, 9 de agosto de 2026

 



Tema 10: VICENTE PALLOTTI: UM TRABALHADOR INCANSÁVEL

 Quem foi Vicente Pallotti

A vida de Vicente Pallotti foi marcada por um vasto apostolado. Aqui, apresentaremos algumas ações realizadas por ele, desde a sua infância e adolescência até os seus primeiros anos de sacerdócio. Mas, ao longo da nossa formação, apresentaremos outras atividades compartilhadas com os membros da sua fundação, a União do Apostolado Católico. Ele surpreendia a todos pela sua segurança e realismo com que fazia as coisas. Ele sempre esteve imerso em um profundo e ardente amor a Deus e ao próximo. Ele estava sempre atento às mínimas dificuldades das pessoas, como: doença, indigência, ignorância, injustiças sociais de todo tipo e ocupou-se disto como verdadeiro pastor de almas.

Além de professor na Faculdade Sapienza de Roma, dedicava grande parte do seu tempo à direção espiritual, às necessidades religiosas dos fiéis em muitos colégios dirigidos por religiosos e aos soldados. Em 1837, ano em que Roma foi acometida pela epidemia do cólera, com um elevado número de vítimas, ele dedicou-se à perigosa cura dos doentes. Roma tinha-se tornado um deserto. As pessoas evitavam sair pelas ruas. O número de pessoas contaminadas pelo cólera chegou a 9.372 e 5.419 mortos.

Essa doença chegou e propagou-se assustadoramente. Faltavam medicamentos, não havia mais assistência, escasseavam os alimentos e até a assistência espiritual às pessoas infectadas. Muitos padres temiam aproximar-se dos doentes, outros davam absolvição de longe. Para suplicar a intervenção divina, para que afugentasse aqueles males, foram feitas orações, caminhadas e procissões. Houve uma grande romaria onde padres, cardeais e o próprio papa Gregório XVI juntaram-se à caminhada processional. Padre Vicente promoveu a participação de grande número de padres diocesanos e religiosos, que fizeram o trajeto descalços, em pleno avanço da doença (Todisco, pp. 409-411).

Padre Vicente permaneceu à frente no atendimento aos doentes: como padre e enfermeiro, administrava os sacramentos e ministrava os remédios. Arrumava as camas, servia comida na boca dos doentes, acomodava-os nas almofadas. Ele não se preocupava com o contágio. Ele criou um centro de assistência religiosa. Se no momento que procuravam não houvesse padre disponível, as pessoas deixavam o endereço e no espaço de poucas horas chegaria um padre do Apostolado Católico ou o próprio Padre Vicente. Levavam também vales para pão, carne, outros alimentos e limões que eram utilizados como remédio. Todos os dias era preparado um panelão de sopa para os necessitados. Por causa deste árduo trabalho, em prol dos necessitados, muitos dos seus colaboradores perderam a vida (Todisco, pp. 412-414). Foi o caso anunciado pelo Próprio Pallotti que o padre Gaspar Del Bufalo faleceu na manhã do dia 28 de dezembro de 1837, após a celebração da santa missa, pelas nove horas.

As consequências da epidemia foram terríveis. Muitas meninas órfãs de pai e mãe vagueavam pelas ruas, muitas com fome e frio. Vicente comoveu-se diante desta realidade e tomou a firme decisão de recolhê-las e entregando-as aos cuidados de algumas mulheres piedosas que as abrigaram em uma casa alugada. Contando com o auxílio dos seus colaboradores, não teve dificuldades para dar-lhes a devida assistência. Com a morte da senhora Brandini, dona da casa alugada, as crianças foram transferidas para a casa de Madalena Salvatti. Como o número de órfãs aumentava a cada dia, Vicente recorreu à Santa Sé, para que fosse cedida à UAC a casa Fuccioli, na Rua Santa Ágata dei Gotti, para servir de abrigo às meninas. O seu pedido foi aceito pelas autoridades.

Vicente Pallotti se destacou por seu trabalho pastoral e pela caridade, estendendo sua atuação de forma notável também aos soldados e encarcerados em Roma. A sua abordagem era profundamente marcada pela compaixão e pelo desejo de reavivar a fé e buscar a dignidade humana, mesmo nas condições mais difíceis.

Trabalho com os Soldados

Durante a sua vida, a cidade de Roma esteve em constante efervescência política e militar, especialmente com as incursões e conflitos relacionados às Guerras Napoleônicas e ao Ressurgimento (unificação italiana). Pallotti via naqueles homens, muitas vezes afastados de suas famílias e em situações de risco, uma necessidade espiritual e humana. Mesmo sabendo do perigo de a qualquer momento se iniciar uma revolução na Itália, consequência da Revolução Francesa, Pallotti não deixou de fazer o seu trabalho junto aos soldados. A ele foi confiado o Hospital Militar e mais tarde recebeu com os seus padres a direção espiritual dos quartéis de Roma. Para motivar a vida religiosa entre os militares, introduziu a explicação semanal do evangelho e do catecismo, as orações em comum, o mês de Maria, os exercícios espirituais, a reza do terço e outros exercícios de piedade. Distribuía entre eles livrinhos de orações. Como conquistou a confiança dos soldados e comandantes, começou a fazer celebrações, retiros, orações. Certa vez, ao apresentar os seus propósitos a um comandante, este o advertiu: “Desse jeito, você vai transformar os soldados em monges”! Pallotti apenas acrescentou: “Tendo-se bons cristãos, ter-se-ão ótimos soldados”! Pallotti pregou muitos retiros nos quartéis, para soldados e comandantes. Ele era tão bem-quisto nos quartéis que chegou a intervir na liberação de soldados presos.[1]

Esse trabalho foi tão exitoso que acabou tendo colaboradores militares na União do Apostolado Católico. Alguns testemunhos afirmaram que muitos quartéis, realmente, chegaram a parecer mosteiros. Era um campo de trabalho desafiador, mas necessário. Ele não se limitava a oferecer somente ajuda material, mas buscava:

  1. Apoio espiritual e sacramental: Ele ia aos quartéis para ouvir confissões, celebrar missas e distribuir a comunhão. Seu objetivo era ser um ponto de apoio e consolo, ajudando os soldados a se reconectarem com sua fé em meio à incerteza e à violência.
  2. Aconselhamento e consolo: Pallotti oferecia palavras de encorajamento, orientando os soldados a manterem a esperança e a moralidade, independentemente das circunstâncias. Ele via cada um como filho de Deus, merecedor de respeito e de cuidado.
  3. Ajuda em batalha: Relatos históricos contam que, durante os conflitos, ele se arriscava para auxiliar os feridos no campo de batalha, demonstrando sua coragem e dedicação inabalável.

Trabalho com os encarcerados

A situação das prisões na época era extremamente precária, com condições desumanas e pouca ou nenhuma assistência espiritual. Pallotti se dedicou a transformar a vida daqueles homens, vendo neles não criminosos irrecuperáveis, mas pessoas em busca de redenção. Em alguns casos, interveio para libertar os injustiçados ou diminuir a pena daqueles pais de família que demonstravam ter boa conduta. Ele dava atenção especial para os condenados à pena de morte. Para alguns, deu assistência até o minuto da execução. Dentre os vários assistidos por ele, com exceção de dois, todos se converteram. Alguns resistiam no começo, mas, acabavam pedindo perdão, aceitando o amor e a misericórdia de Deus.

Ele atuava de diversas formas:

  1. Visitas regulares às prisões: Ele visitava as cadeias com frequência, levando não apenas alimentos e roupas, mas principalmente a esperança e o amor de Cristo. Ele se sentava para conversar com cada um, demonstrando interesse genuíno por suas histórias e arrependimentos.
  2. Ministrava os sacramentos: Assim como aos soldados, ele realizava confissões e missas nas prisões, oferecendo a oportunidade de reconciliação com Deus e de renovação interior.
  3. Trabalho de reabilitação: Pallotti entendia que a fé precisava ser acompanhada de ações concretas para a reabilitação. Ele se empenhou em auxiliar os prisioneiros a se reintegrarem à sociedade, após o cumprimento de suas penas, procurando emprego e moradia para eles. Esse trabalho de ressocialização era a parte fundamental de sua missão.

A atuação de Vicente Pallotti com esses grupos vulneráveis foi um reflexo de sua crença na união dos apóstolos, uma ideia central da sua Pia União. Para ele, cada pessoa, independentemente de sua condição ou passado, tinha o potencial de ser um apóstolo, ou seja, um instrumento para espalhar a fé. Seu legado demonstrava que a compaixão e a solidariedade podem alcançar os marginalizados, oferecendo-lhes uma nova chance de vida.

Vicente Pallotti estava atento a todas as necessidades do seu tempo. Ele não se limitou em fazer apenas um tipo de apostolado. Diante da limitação do Estado para dar a devida formação para as crianças, ele mesmo fundou escolas agrícolas, institutos assistenciais e orfanatos e, através das escolas noturnas, procurou oferecer cultura aos adultos, interessou-se pela difusão da boa imprensa, ocupou-se das obras missionárias. Organizou a assistência espiritual dos imigrantes italianos (na Inglaterra). A sua obra mais importante, para poder atender às inúmeras necessidades de então, foi a fundação da União do Apostolado Católico, uma organização bastante elástica, mas orientada para todo e qualquer tipo de apostolado.

Com a sua fundação, Vicente queria que seus discípulos percorressem o mesmo caminho pelo qual o guiou a divina Providência. Ele não se cansava de afirmar que a necessidade do seu tempo era de reavivar a fé e reacender a caridade no mundo. Necessidade esta que continua a urgir, com maior força ainda, às pessoas da nossa geração.[2]

Pallotti assumiu muitos compromissos e foi extremamente ativo, mas tudo colocava nas mãos de Deus. Ainda criança e adolescente, exerceu muitas obras de caridade, iniciando assim o seu apostolado. Quando saía de casa, levava consigo algo para os necessitados que encontrasse na rua e, por várias vezes, partilhou com os pobres aquilo que lhe era destinado, por exemplo, frutas, doces, sapatos, roupas e, certa vez, até doou o seu colchão.

Com o apoio do seu diretor espiritual, Vicente, ainda seminarista, ajudou e participou de muitas obras apostólicas, tais como: o Albergue de Santa Galla que alojava os migrantes, os camponeses e outras pessoas que passavam algum tempo em Roma. Ele auxiliava na orientação espiritual. A Obra de Ponterrotto (na rua das proximidades havia uma ponte quebrada que passava sobre o rio Tibre), que tinha como objetivo recolher jovens da classe pobre numa espécie de academia, onde aprendiam as artes úteis e os princípios morais e religiosos. Na casa de retiros, no Monte Gianiculo, Pallotti realizou um notável apostolado, tanto que, em 1823, foi nomeado diretor desta obra. Ele ministrava também a educação religiosa nas Escolas Noturnas, destinada aos filhos de artesãos, e assumiu a diretoria da obra até 1839, quando contavam com oito estabelecimentos, com cerca de mil alunos. Os alunos recebiam, nos domingos, a instrução religiosa e as práticas de piedade. Nos outros dias, o Colégio funcionava durante uma hora e meia, e os alunos aprendiam a ler, a escrever, a fazer contas, os princípios do desenho e da geometria aplicados às artes e o catecismo (Gaynor, pp. 44-46).

Pallotti, em seus trabalhos, sempre buscou destacar o valor do apostolado universal, isto é, de todos: clérigos, religiosos e leigos. Cada um conforme a sua realidade e condições deve dedicar-se ao apostolado. Sendo assim, não poderia deixar de valorizar também as associações religiosas existentes na época, com o intuito de fortalecer a caminhada cristã de seus membros.

Desde muito cedo, ele fez parte de associações religiosas, organizadas em forma de Confrarias e Pias Uniões. Ele participou da devoção ao Preciosíssimo Sangue de Jesus Cristo, fundada pelo seu amigo São Gaspar del Bufalo. Ele via nessa devoção a melhor forma de vencer a concupiscência.

Participou da União Antidemoníaca que lutava contra as imagens escandalosas e apresentava a lista dos livros proibidos, segundo a concepção da época. Desde os primeiros anos de escola, participou da Congregação Mariana Nossa Senhora das Lágrimas. Essa devoção surgiu quando a imagem da santa começou a verter lágrimas, perante um crime cometido aos seus pés. Ele chegou estar à frente desta Congregação auxiliando na formação e orientação dos jovens congregados. Foi também animador da Congregação Mariana, ainda seminarista, onde se destacava a devoção à Mãe do Céu. Além de grande colaborador, foi também presidente da Congregação Jesus e Maria.

As suas homilias, normalmente, eram breves para poder sobrar mais tempo para as confissões, função que Vicente exercia com muito amor e zelo. Essa dedicação era fruto da experiência pessoal que teve com o seu confessor. Ele dedicava horas e horas ao confessionário, sem contar as várias chamadas para junto aos enfermos. Os que mais se confessavam com Vicente eram camponeses, operários, autoridades civis e eclesiásticas.

Muitos procuravam orientar-se com ele desde leigos até cardeais, como Lambruschini, que foi secretário de Estado do Papa Gregório XVI. Para todos eles, Vicente destacava infinita bondade e misericórdia de Deus para com todos. Seu zelo pelas almas era tamanho que nunca deixou de se dedicar às confissões, mesmo quando alguns companheiros procuravam impedir esse seu apostolado.

Diante das tantas atividades realizadas pelo nosso santo fundador, isso nos leva a ver as pessoas com um novo olhar, o de Cristo que passou fazendo o bem e nos faz refletir sobre o modo como estamos atuando em nossas atividades pastorais. Que Vicente Pallotti nos inspire sempre, para que possamos ter maior sensibilidade para com as tantas necessidades do nosso tempo.

 

Para refletir

  1. De que maneira Vicente Pallotti desenvolveu o seu apostolado?
  2. Que tipo de mensagem ele deixa para a nossa realidade evangelizadora de hoje?
  3. A partir do exemplo da atuação pastoral de Pallotti, quais deveriam ser as nossas prioridades pastorais?


[1] Ângelo Lôndero (org.). Horizontes Palotinos, Santa Maria: Biblos, 2002, p. 130.

[2] GAYNOR, J. Santos. Vida e obra de São Vicente Pallotti. Pallotti: Santa Maria, 2000, p. 36.


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