Tema 16: PALLOTTI E OS SEUS TRÊS LEMAS
A
vida de São Vicente Pallotti foi marcada por um profundo amor e zelo pelas
coisas de Deus. Com três lemas, ele implantou um novo modo de ser Igreja. Para
ele: “Tudo deveria conduzir a pessoa para a maior glória de Deus; para a
destruição do pecado e para a salvação das almas”. Esses princípios nortearam a
sua missão de reavivar a fé e a caridade entre os católicos e de espalhar o
Evangelho pelo mundo. Na sua essência, a vida de São Vicente Pallotti foi uma
busca constante por colocar a fé em ação, baseada no amor e no desejo de que
todas as pessoas pudessem conhecer e amar a Deus.
A
sua personalidade espiritual norteava-se pelo esvaziamento total de si mesmo,
para encher-se totalmente de Deus. Buscava uma vida de sacrifícios, para que
Deus triunfasse nele. Por causa disso, procurava excluir de si qualquer germe
ou inclinação de egoísmo. Buscava o aniquilamento do seu eu para que Deus fosse
glorificado. Esta maneira de viver de Pallotti só pode ser compreendida quando
se tem como ponto de referência o seu profundo amor para com Deus, pois o amor
é vida e quanto maior for o amor, tanto maior e mais forte e duradoura será a
vida.
Um
outro detalhe que encontramos em sua vida é a constante necessidade de ser
humilhado. A medida da sua humilhação deve ser a medida da glória de Deus, pois
quanto mais Deus deve ser exaltado, tanto mais ele deve ser humilhado. A
grandeza de Deus é a alegria de sua humildade. Assim dizia ele: “Quem pode
medir a minha miséria, pobreza, malícia e ingratidão? Ninguém, exceto o meu
Deus” (OO CC X, 29). Sobre a via da certeza confiante, Vicente não
conhecia limites. Ele chegou a pedir o dom dos estigmas e estava seguro de que obteria
tal graça, porque o amor de Jesus é infinito (cf. OO CC X, 106). Esse
dom não lhe foi concedido, mas obteve tantos outros que o santificaram.
Ele
sempre exortava para que nunca desconfiassem de que Deus não seja capaz de
fazer o que fizeram os maiores santos da Igreja, porque com a graça dele, você
pode fazer coisas maiores, ou melhor, você pode fazer mais do que fizeram todos
os santos juntos (cf. OO CC X, 112). “Se considero infinita a bondade de
meu Deus, é porque estou convencido de que Ele me enriquece com a abundância da
graça santificante, para que eu possa desejar o Paraíso, se é que se pode
desejar algo naquela Pátria beata. Tenho certeza de que Deus, pela sua bondade,
se pudesse fazer-me verdadeiro Deus, Ele o faria” (OO CC X, 143).
Em
Pallotti, todo o seu contato com Deus está projetado sobre o infinito. A glória
de Deus deve ser infinita, a perfeição da criatura deve ser infinita, o amor
deve ser infinito e até mesmo a humilhação e o sofrimento devem ser infinitos,
para servir de reparação ao Amor infinito. Enfim, tudo deve ser elevado ao
infinito, ou seja, quem ama infinitamente deve aceitar também, para reparar os seus
erros, verdadeiros ou presumíveis expiações ou reparações também de uma maneira
infinita. A humilhação externa com a mortificação física não só são meios
eficazes de expiação dos pecados do orgulho e de concupiscência, mas é também
uma ótima disciplina para conservar a castidade e o equilíbrio humano.
Os
lemas
Tudo para a maior glória de Deus:
O
apostolado, para Pallotti, consiste no conduzir o mundo a se transformar no
amor de Jesus Cristo, que morreu por nós. Em 14 de julho de 1839, após a santa
missa, refletindo que, na comunhão, a misericórdia de Deus e o próprio Deus se
faz alimento da alma, subitamente lhe veio à mente uma iluminação muito forte e
ele escreveu: “Senti que a infinita justiça de Deus é infinitamente
misericordiosa. Senti que o prodígio da misericórdia que a infinita
misericórdia operou em mim, devo desejar para todos. Meu Deus, na íntima
persuasão de minha incapacidade de vos glorificar, recomendo a vós, Pai, Filho
e Espírito Santo, a glorificação infinita que mereceis receber de todas as
criaturas. Sim, meu Deus, glorificai-vos a vós mesmos com a vossa glória eterna
e infinita e cobri-me de vergonha e de sofrimentos e ficarei satisfeito”.
A
sua oração se estende a todo o universo como também à Maria Santíssima, aos anjos,
aos santos, pela libertação das almas do purgatório, a santificação e a difusão
da Igreja Católica, o papa, os bispos, o clero, os sacramentos, os governos, as
nações, as cidades, as famílias, para que, por todos os lados, resplandeçam os
fins adoráveis da divina caridade (S. Vicente Pallotti. As luzes, p. 348).
A
finalidade da sua oração é a glória de Deus, de Maria, dos santos, pela
conversão dos pecadores, pela destruição de todo o pecado e imperfeição, da
libertação imediata e simultânea de todas as almas do purgatório, pela salvação
e perfeição infinita de todas as criaturas, pela multiplicação de todas as
obras de caridade, o alívio de todos os aflitos e indigentes, a formação de um
só rebanho sob um só Pastor, pela sua transformação e de todos os homens em
Cristo. Ele desejava, também, amar a Deus sem que ninguém soubesse, exceto Ele.
E continua: Eu gostaria de sofrer, para aumentar a sua glória, mas, que ele
apenas soubesse disso. Com o passar do tempo, eu gostaria de aumentar, cada vez
mais, a glória de Deus (As luzes, p. 49). Em qualquer lugar em que me encontre
ou nos lugares isolados, pretendo fazer o que os justos, os santos, os anjos,
Maria Santíssima e Jesus fariam se estivessem na mesma situação. Em qualquer
outro estado em que me encontre e imaginando o que fizeram para a glória de
Deus, de Jesus, pela glória do seu Pai Celeste, da mesma forma quero fazê-lo
(As luzes, p. 50).
Ao
longo da sua vida, Pallotti cunhou um binômio: glória de Deus e santificação
das almas e tal binômio não é uma casual formulação literária somente, mas é um
programa de apostolado, isto é, ele vê a santificação das almas como o mais
eficaz contributo para a glória de Deus. Mas, para ele, o que é verdadeiramente
glorificar o nome de Deus? Não consiste na construção de catedrais, de hospitais,
de escolas católicas, de manifestações religiosas públicas, de Igrejas cheias.
Tudo isso são coisas boas e louváveis, mas não são necessariamente elementos
que glorifiquem a Deus, pois nem todos aqueles que colaboram pela construção de
uma catedral tem a intenção de glorificar Deus e nem mesmo uma Igreja cheia de
gente. Segundo ele, a glória de Deus consiste na realização do seu Reino sobre
a terra, no fazer a sua vontade, no santificar o seu nome (Dal nulla al tutto,
p. 171).
Segundo
ele, o maior hino para cantar a glória de Deus e a santificação própria e a do
próximo, é a adesão da mente, do coração e de todas as ações para Deus, pois
esta é proveniente da fé, da esperança e da caridade, é a adesão da mente, do
coração e de todas as ações para Deus (Dal nulla al tutto, p. 172). Certa vez,
ele escreveu em uma carta: “Precisa respirar Deus, procurai-O e o encontrareis.
Procurai-O em todas as coisas e O encontrareis em tudo. Procurai sempre e O
encontrareis sempre” (Lett 382).
Para
Pallotti, pensar em imitar Cristo é algo fascinante, mas poucos praticam,
porque poucos pensam nisto, mas àqueles que pensam nele, quanto mais se
aprofundam neste pensamento, tanto maior será o desejo de imitá-Lo e quanto
mais cresce o amor por Jesus, tanto maior será a fé e a graça de Deus. A
imitação de Jesus tem como objeto o espírito de sacrifício de Jesus Cristo, a
sua disponibilidade para cumprir a vontade do Pai Celeste, a sua humildade e
mansidão, seu amor à pobreza, o seu desejo da glória do Pai e da salvação das
almas (Dal nulla al tutto, p. 175).
Pallotti
não conseguia ficar limitado entre o tempo e o espaço. O seu desejo era de
abraçar o infinito, a eternidade, para poder render infinitamente glória a Deus,
por toda a eternidade. Desejava uma perfeição infinita para si e para todas as
criaturas. A espiritualidade palotina tem como eixo a vida apostólica, que por
sua vez está fundada sobre o entusiasmo que nasce do amor (OO CC VIII,
254-460).
Tudo
para a salvação das almas:
Desde tenra idade, Vicente Pallotti tinha um profundo
desejo de conduzir as pessoas a Deus. Para ele, quanto mais uma alma se emerge
em Deus, tanto mais sentirá a estima e o afeto da criatura para com o Criador.
A prova da autenticidade do amor para com Deus é amando as pessoas, pois quem
não ama as pessoas, também não pode amar a Deus (cf. 1Jo 4,8).
Pallotti, após ter professado procurar só a Deus, só, só,
escreveu: “Procurarei socorrer os pobres, como posso e como mais convém à graça
de Deus. Ele adquiriu uma tão grande compaixão pelo seu estado de vida a ponto
de querer tornar-se alimento, bebida, licor, roupa, para socorrer as suas
misérias e gostaria de ser transformado em luz para os cegos, ouvido para os
surdos, saúde para os enfermos” (OO CC X, 15).
Ao ver que existem muitos pecadores que, se bem orientados,
poderiam fazer grandes coisas e ignorantes, se fossem instruídos, seriam
grandes santos. Por isso, se comprometeu estimular em si mesmo um grande desejo
de instruí-los, iluminá-los, santificá-los e convertê-los com a infinita graça
de Deus (cf. OO CC X,
22-25).
Tudo para a destruição do pecado:
Para compreender a atitude drástica de Pallotti contra o
pecado, é preciso recorrer à Sagrada Escritura, às origens e à reparação do
pecado. O escritor sagrado vê no primeiro pecado como uma evidente recusa de
Deus. Deus proibira o homem de tocar em uma das árvores do jardim do Éden e a
não observância desta ordem incorreria na morte. A serpente insinuara que nada
disso aconteceria, colocando à prova a própria Palavra de Deus, pois, ao
contrário, tal fruto portaria ao verdadeiro conhecimento e, assim, seriam como
Deus. Adão aceitou a insinuação diabólica e desobedeceu à ordem de Deus de não
se aproximar do fruto proibido.
O pecado em si mesmo é a antítese de Deus: Deus cria a vida
e a ordena. O pecado, por sua vez, semeia a morte e a desordem. Com o pecado, o
homem perdeu o equilíbrio do espírito, equilíbrio esse necessário para
distinguir com segurança o bem do mal e a partir daí escolher, decisivamente, sempre
e só o bem.
Com o pecado, a imagem de Deus impressa no ser humano, no
ato da criação, continuava tênue e deturpada. Deus chamou, então, Abraão e
depois Moisés, iluminou os profetas com sua sabedoria, mas o pecado continuava
a devastar a obra do Criador. Mas, quando chegou a plenitude dos tempos, enviou
o Seu próprio Filho (Gl 4,4), que fez o último apelo. Ele mesmo assumiu a
natureza humana, lavou com o seu sangue a mancha que não fora possível lavar nem
com o sangue dos sacrifícios e nem com as águas do dilúvio. Pela sua obediência
até a cruz, compensou a desobediência mortal do primeiro homem. Deus foi
zombado, flagelado, crucificado, morreu entre os insultos do povo, para
compensar a ofensa do pecado que tinha chamado Deus de ciumento e mentiroso.
Mas, a história não termina aqui. No terceiro dia, como havia dito, Jesus
ressuscitou dando a prova decisiva de que Ele era verdadeiramente Deus e que
seu sangue tinha lavado a mancha deixada pelo pecado (cf. OO CC X, 478-479; XIII, 117).
Esta é a razão teológica pela qual Vicente Pallotti declara
o seu ódio contra o pecado e inicia uma cruzada não só para combatê-lo, mas
para erradicá-lo da face da terra (cf. OO CC X, 525). Ele se acusava de ser o maior pecador, nada
e pecado (cf. OO CC X, 160), a causa
de todos os males físicos e morais da humanidade, mas o pecado do qual faz
menção é o da ingratidão (cf. OO CC X, 155; 700-701).
São Vicente Pallotti, no seu encontro místico com Deus, percebera o quanto Ele
merece ser amado e naturalmente toda a sua gratidão era insignificante diante
do amor que Ele tem para com a humanidade pecadora. O não corresponder com a
graça de Deus levou-o a viver uma grande angústia, pois gostaria de reparar o
amor infinito de Deus, também, com um igual amor infinito (cf. OO CC X, 607; 118-120).
A linguagem de Pallotti é muito dura, quando se refere ao
pecado. Diante dos próprios pecados, chega a pedir a Deus que destrua a sua
vida (cf. OO CC X, 568; 260;
674-675). O termo destruição, à primeira vista, dá a impressão de ser negativo,
como se refletisse a algo sádico. Para ele, isto não tinha uma conotação
negativa, como também não era negativa para São Paulo, quando usava a
terminologia do velho homem que deve morrer, para que surja uma criatura nova (cf. Ef 4, 22-24). Essa expressão
faz parte da linguagem mística. Para Pallotti, essa palavra é rica de
significado, de coisas vistas e ouvidas que, por sua vez, não são familiares às
pessoas comuns, porque não podem ser expressas por palavras.
A transformação dos místicos é a antecipação do Paraíso, é
uma experiência antecipada da vitória definitiva. A via da transformação é a
purificação da alma. A graça vai agindo gradativamente na pessoa, à medida que
ela se abre a Deus e se esforça para conquistá-la, e a partir daí a alma se
desprende das paixões e dos afetos terrenos e se transforma em Deus. Quanto
mais se tornam tênues o véu da carne e dos sentidos, tanto mais profundamente e
vastamente a luz de Deus penetra na alma. Quando os véus, pelo impulso do amor
de Deus se desligam de tudo, daí a alma se transforma no esplendor e no calor
de Deus.
Portanto, na ascética de Pallotti, o elemento determinante
para a transformação é a imitação de Jesus Cristo. Segundo ele, quando uma
alma, dia após dia, se coloca verdadeiramente a procurar no seu íntimo os
pensamentos, os afetos e as palavras e as obras de Jesus, Jesus entra naquela
alma e a purifica, adorna, ilumina e aquece; faz dela sua morada e age nela.
Porém, a força que opera a transformação é o amor. O amor assimila sempre
aquele que ama, ao objeto do seu amor. “O amor de Deus transforma em Deus e
quanto mais alguém ama Deus, tanto mais rapidamente e completamente se
transforma em Deus”.
Um dos efeitos mais vistosos da transformação é a aquisição
de uma particular disposição à magnificência. A experiência da infinita beleza,
da infinita misericórdia, da infinita potência e do infinito amor, deixa na
alma uma impressão, uma atitude e um desejo de grandeza que, depois, vai
refletir na linguagem, nos juízos, nas ideias e em todas as iniciativas, e, a
partir daí, tudo passa a ser visto em um plano divino e medido com a medida do
infinito.
Um outro efeito da transformação em Deus é a audácia dos
santos. De fato, quem teve a sorte de pensar quase com o intelecto de Deus e de
amar com o coração de Deus, ousa tudo, não tem limites nos seus desejos, não se
assusta com mais nada, não se fecha diante dos obstáculos e não sabe renunciar
a nenhum dos planos que Ele projetou para a Sua glória.
Deus infunde em Pallotti um sentimento
Ele tem certeza de que a sua vida seria destruída pela
infinita misericórdia de Deus, para que ele pudesse começar uma vida nova e
perfeita em Deus (cf. OO CC X, 642). A
experiência, a qual refere o santo, é uma experiência sobre-humana. A sua
certeza acontece por um estado de união mística com Deus. Deus, apesar de seus
inúmeros pecados nunca o abandonou, pelo contrário, a sua misericórdia o dá
confiança e certeza disso, por isso afirma: “quanto mais me vê pobre, tanto
mais quer multiplicar em mim a difusão da vossa graça. Que coisa é, então, o
homem diante de Deus? É uma coisa inefável, uma fonte de ternura. O homem
diante de Deus é como a ovelha perdida que se obstina em se perder e o pastor
se obstina em procurá-la, ou é o filho que se obstina em estar doente e a mãe
que se obstina em fazer de tudo para que o encontre a cura” (Dal nulla al
tutto, p. 272).
São Vicente nos surpreende com seu perene emergir de todos
os abismos da nulidade e do pecado nos quais ele se precipita com sua
autoacusação de traição e de sacrilégio, mas as suas autoincriminações querem
denunciar uma escassa falta de amor da qual ele se sente culpado porque, em sua
lógica, ele nunca teria amado a Deus, como Ele merece ser amado; e este é o seu
desespero; mas esta também é a sua força: esforçar-se a todo custo para amar a
Deus, como Deus merece ser amado! É seu dever, sua necessidade e a fonte de
toda a sua energia ascética e apostólica.
Em suma, os três lemas de São Vicente Pallotti, a glória de
Deus, a destruição do pecado e a salvação das almas, não são apenas frases
religiosas, mas um programa de vida fundado no amor infinito. Sua trajetória
nos ensina que a verdadeira santidade não reside em grandes obras externas, mas
na conformidade total com Cristo e na busca constante por “respirar Deus” em
cada ação. Pallotti nos convida a sair do egoísmo para abraçar a audácia dos
santos, transformando nossa existência em um reflexo da misericórdia divina.
Para refletir
1. O que levou Pallotti escolher esses três
lemas?
2. Qual ensinamento você pode tirar para a
sua vida?
3. Em que momento de sua vida você percebeu a
ação concreta de Deus?