Tema 15: DEUS, MISERICÓRDIA INFINITA
A vida espiritual de Vicente
Pallotti é para nós, hoje, uma fonte e um exemplo sempre atuais de busca
daquele que nos chamou à existência. Graças ao seu testemunho de fé, podemos
aprender como devemos nos relacionar com Deus, como nos deixar amar por Ele e
como fazer com que todo o nosso ser esteja impregnado da Sua presença. Quando observamos,
por meio dos seus escritos, a maneira como Pallotti rezava e agia, podemos
compará-lo a alguém que atingiu um alto grau de perfeição, um místico. O
místico, por sua vez, é aquele que busca e vivencia uma união direta, íntima e
espiritual com o sagrado ou divino. O que diferencia um místico de uma pessoa
comum é que ele, mesmo diante das suas misérias e fraquezas, permanece em plena
comunhão com Deus: não desiste nunca.
Uma característica
fundamental do nosso fundador é a clara consciência que teve do sentido da vida
cristã, do pecado e da ação salvífica de Deus, por meio da sua infinita
misericórdia, expressa em Jesus Cristo. Na sua experiência de oração se deparou
com a sua pequenez, com o seu “nada”, com a sua limitação humana (cf. As luzes,
p. 136). Mas, ele tinha a certeza de que Deus transformaria o seu “nada” em “tudo”.
Segundo São Paulo: “Quando sou fraco, então é que sou forte” (2Cor 12,10). Era
justamente isso que Pallotti experimentava: é na nossa fraqueza que se faz
presente o amor e a força de Deus. Ele tinha consciência de que toda a sua vida
e o seu agir eram permanentemente sustentados por Deus.
Em sua vida diária, Pallotti
esteve sempre aberto à graça transformadora e vivificante de Deus Pai, que nos
ama profundamente. Ele sabia que, sozinho, não era nada; que por si mesmo não
conseguiria santificar-se, porque se sentia “nada e pecado”. No entanto, confiava
na incrível e infinita misericórdia de Deus que destruía a sua miséria.
Em diversas passagens de
seus escritos espirituais, ele confirmou ter sentido a presença ou a ação de
Deus em si. Certa vez, escreveu: “...no dia 26 de março de 1840, depois de ter
celebrado o divino sacrifício, eu senti, oh meu Deus... que tu te dignaste
destruir todo o meu eu...” (OO CC X, p. 211).
A experiência do amor misericordioso de Deus
A experiência do amor e da
misericórdia infinita de Deus, para com sua pessoa e para com toda a humanidade,
foi vivida de maneira especial por Pallotti. Esta sua experiência tornou-se um
dos alicerces da sua espiritualidade, o que levou a distingui-lo de outros
santos da Igreja.
No contexto religioso do
Século XIX, a vivência religiosa comum não seguia um caminho de proximidade com
a divindade, nem sentia a Sua ternura para com o homem pecador, pelo contrário,
se baseava mais em uma relação de distância e de frieza no cumprimento dos “deveres”
religiosos como um fim em si mesmos. Quanto às pregações nos púlpitos,
mostravam ao povo o perigo permanente de deixar de ser amado por Deus e de se
tornar merecedor do inferno eterno. No entanto, Pallotti brilhava em sua época
como uma estrela brilha no céu. Pois, demonstrava a sua firme confiança na
misericórdia de Deus, e a sua gratidão por saber-se amado “loucamente” por Ele.
Este caminho vivenciado por
nosso fundador é o mesmo que, anos depois, Santa Teresinha do Menino Jesus
percorrerá, com sua experiência de se fazer e de ser sempre criança para poder
ganhar o Reino, pois as crianças confiam, são transparentes, amam e se deixam
amar sem limites e, acima de tudo, estão seguras do amor de seus pais.
Mais próxima de nós, Santa
Faustina, que foi canonizada no ano 2000, por São João Paulo II, nos convida a
seguir pelo caminho de nos consagrarmos ao coração sempre misericordioso de
Jesus, um Jesus que, como lhe foi revelado, está esperando e desejando, pela
salvação do mundo, que confiemos mais em seu amor e misericórdia para conosco.
Esta experiência da
misericórdia de Deus, que agora está mais presente no sentir da Igreja, também
quis ser intensificada pela Carta Encíclica do Papa João Paulo II, “Rico em
Misericórdia”, que nos mostra como o nosso Pai é para com seus filhos e quão
grande é o seu amor. Assim reza o Salmo 117: “Dai graças ao Senhor porque Ele é
bom, porque eterna é a sua misericórdia”!
Para melhor aprofundarmos o
pensamento místico de Pallotti, vejamos alguns de seus textos que nos ajudam a
compreender sobre a misericórdia divina: “Deus é imenso e me alimenta com Sua
imensidão. Eu, como um nada, levo a deformidade do pecado. No entanto, o Deus
imenso está em mim com todos os seus imensos atributos. Oh, misericórdia! Oh,
amor!” (OO CC X, 458).
Ele acrescenta: “Creio e
tenho por firme que tua misericórdia destrói toda a minha miséria e me enche de
todos os seus dons acima de todos os anjos, de todos os santos e de todas as
criaturas passadas, presentes, futuras e possíveis. De modo que, em Maria,
todos os séculos e todas as gerações admiraram o prodígio de tua graça, em mim,
que supero em miséria, em impiedade e ingratidão a todos os anjos rebeldes e a
todo o gênero humano, admirarão o prodígio de tua misericórdia” (OO CC
X, 303).
Pallotti se sente o último
dos pecadores, mas crê e tem por firme que a misericórdia de Deus destrói toda
a miséria humana. Porém, uma coisa é certa, Deus pode destruir tudo o que nos
faz mal, tudo o que nos torna escravos, todos os nossos ídolos, tudo o que nos
cega. Deus nos quer livres, sadios e que amemos uns aos outros como Ele nos
ama. Por isso, dizia: “Nada e pecado é toda a minha vida. Nada e pecado é toda
a minha riqueza. Mas, pela inefável misericórdia de Deus, a vida de Jesus
Cristo é toda a minha vida” (OO CC VIII, 405).
Nos escritos de Pallotti, o
termo Misericórdia se torna repetitivo e sempre acompanhado de
adjetivos: Eterna, Infinita, Imensa, Incompreensível, Inefável. Ele faz questão
de chamá-la de “minha”, o que transforma o termo “Misericórdia minha”
em suas conversas habituais com Deus. Ele saboreia a palavra misericórdia como
a principal razão de seu amor por Deus. Para ele, a característica principal e
mais importante que encontra em Deus é o seu ser misericordioso. Todos
os outros atributos divinos estão em função da misericórdia. Pois, sem
necessidade de nada, Deus criou o mundo e o que nele há, apenas por amor, por
pura misericórdia. E só por essa razão Ele nos entregou o seu único Filho, sem
ter por que fazê-lo, apenas movido pelo mais puro e terno amor: “A vossa
infinita Misericórdia e todos os vossos infinitos atributos, todos
infinitamente misericordiosos, me dão a ousadia de apresentar-me a Vós. A vossa
Infinita Misericórdia e todo Vós, infinitamente misericordioso, com todos os
vossos infinitos atributos, me enchem de confiança... Oh! Misericórdia
Infinita! Oh! Prodígio de Misericórdia”! (OO CC X, 462-63).
Quanto mais Pallotti
experimenta a misericórdia de Deus em sua vida, mais crescia a sua consciência
de pequenez, de ingratidão e de se sentir não merecedor de tanto amor. No
entanto, ele tem claro que toda a sua escuridão é iluminada por Deus, que por
mais pecador que se sinta, Deus sempre estará com ele e o receberá
permanentemente. Pallotti nunca se permitiu duvidar da Eterna Misericórdia
do Criador, que o chamou à vida e deu a Sua vida por ele: “Oh! Triunfo da
Divina Misericórdia infinita! Quero morrer infinitas vezes, com infinitos
tormentos, antes de perder qualquer sentimento de tua bondade, de tua
Misericórdia Infinita, do valor infinito do Sangue de Jesus” (OO CC X,
188).
Cristo é amor por essência
A caridade de Cristo nos
impulsiona e nos move a corresponder ao amor misericordioso e infinito de Deus
(cf. 2Cor 5,14). Esta será a preocupação de São Vicente: corresponder ao amor
de Deus com sua vida, com suas obras, com seus pensamentos, com seu coração. E
à medida que cresce em santidade e se aproxima da fonte de amor e luz que é
Deus, com maior clareza, ele vai perceber, por menores que sejam, as suas
falhas, as suas ingratidões, a sua falta de correspondência à misericórdia da
qual é objeto.
São João da Cruz, na mesma
posição de Pallotti, dirá que “Amor com amor se paga” (Cantico
spirituale B 27 n. 7 e 8), ou seja, o amor que Deus nos manifestou só pode ter
como resposta também o amor, ou seja, corresponder com o mesmo amor. Não
podemos corresponder com egoísmo àquele que é Amor, pois, “Deus é imenso e me
alimenta com a Sua imensidade. Eu, como nada, carrego a deformidade do pecado.
No entanto, o Deus imenso está em mim com todos os seus imensos atributos. Oh
misericórdia! Oh amor”! (OO CC X, 458).
Diante da grandeza de Deus,
que gratuitamente nos amou e nos ama até o extremo, Pallotti sente a sua
pequenez, os seus limites e o seu pecado. No entanto, ele sabe e crê firmemente
que Deus foi tão bom que, na encarnação, assumiu toda a nossa natureza humana,
exceto o pecado (cf. Rm 8,3). Graças a isso, através do batismo, também
adquirimos os atributos de Deus. É por isso que, apesar de nossa natureza estar
vulnerada pelo pecado, devemos olhar mais — como fazia Pallotti — para o fato
de que também temos toda a força de Deus dentro de nós, para nos santificarmos
a cada dia. Assim dizia:
“Oh, meu Deus!... Segundo a natureza de tua bondade infinita que se
difunde infinitamente em todos os teus infinitos atributos, de dia e de noite,
quer eu vele, durma, pense em ti ou não pense em ti, apesar de minha
incompreensível ingratidão e meus incompreensíveis pecados, e apesar de uma
vida de resistência às tuas graças, tu sempre pensas em mim com amor infinito,
me amas, e com todos os teus infinitos atributos, propriedades e natureza, te
voltaste para mim. E difundes sobre mim, de cada um dos teus infinitos
atributos, propriedades e natureza, infinitas produções e comunicações de
favores, de dons, de graças, de divinas influências e misericórdias, para
destruir em mim toda a minha indignidade e para me transformar em ti mesmo e em
teus divinos atributos. E, por isso, me lembras que tu me estás dizendo no
íntimo do meu ingratíssimo coração: ‘Não, eu não me transformo em ti, mas tu
serás transformado em mim!’ Oh, misericórdia! Oh, milagre de todos os infinitos
atributos de Deus, todos infinitamente misericordiosos! Oh, meu Deus! Eu queria
te dizer uma palavra. Mas não confies em minha palavra, pois nunca a mantive.
Sempre te fui infiel. Meu Deus! Eis a palavra que digo: Eu gostaria de
corresponder ao teu amor infinito”! (OO CC X, 472-473).
O Salmo 118,17 expressa com muita clareza o que São Vicente sentia: “Não
hei de morrer, pelo contrário, viverei e cantarei a misericórdia do Senhor”. Este
versículo mostra que, embora se sinta pequeno, ingrato, indigno e que muitas
vezes não corresponde à misericórdia infinita de Deus, ele tem por certo que,
de todas as formas, Deus está loucamente apaixonado por ele, nunca o deixará, o
Seu amor destrói a sua miséria, porque Deus é o Pai que está sempre esperando o
retorno do filho para casa.
A certeza que nos é
transmitida é que, diante de toda a nossa miséria, não morreremos, pelo
contrário, viveremos para cantar sempre a misericórdia do Senhor para conosco.
E esse é o canto da vida de Pallotti. Ele sabia que em nós o pecado não tem a
última palavra, porque Jesus o destruiu com sua morte na cruz. A vida venceu a
morte, por isso não morreremos, mas viveremos em Cristo e para Cristo. E,
continuando o Salmo, dizemos com Pallotti: “Dai graças ao Senhor, porque ele é
bom, porque eterno é o seu amor”! (Sl 136,1). A isso, Pallotti acrescentou: “A Tua
Misericórdia triunfará sobre minha inconcebível malícia, e todo o universo verá
o mais luminoso triunfo de tua misericórdia sobre mim. Todos te conhecerão, te
servirão e amarão e todos cantarão tuas divinas misericórdias no céu” (OO CC
X, 201).
Para concluir o tema sobre a
Misericórdia de Deus, vivida e sentida por Pallotti, nada melhor deixá-lo falar
com as suas próprias palavras, pois elas expressam com clareza o modo como ele
percebia em si a ação misericordiosa de Deus. Por outro lado, seria injusto
comparar os escritos de Pallotti com outros santos, pois, o texto que segue é
de uma riqueza que o faz sobressair sobre os demais, pelo fato de que o nosso
fundador se mostra apaixonado, enamorado, e se atreve a dizer a Deus palavras
que eram impensáveis na época. Mas, como vimos anteriormente, qual é a lógica
do amor? Qual foi a lógica de Deus ao se encarnar? O amor de Deus vivido por
São Vicente segue o caminho mais sensato que a humanidade pôde conhecer, o
caminho da loucura da cruz. Eis o que diz o santo:
“Meu Deus! Tu és amor infinito, misericórdia infinita. Perdoa-me se me
atrevo a dizer em voz alta: Tu és o louco de amor e de misericórdia por mim. Pois, em todo momento e
sempre, desde toda a eternidade, pensas em mim e derramas sobre mim os
infinitos dilúvios de graças, de favores, de dons, de misericórdias, de todos
os teus infinitos atributos, todos infinitamente misericordiosos. (...) E todas
estas ações de teu amor e de tua misericórdia as realizas de dia e de noite,
quer eu vele, durma, coma, beba, passeie, pense em ti ou não pense em ti. (...)
Oh, meu Deus! O que farei eu diante de teu amor tão inefável e de tua infinita
misericórdia? Meu Deus: Eu, nada posso. Mas te ofereço toda a vida santíssima
de Jesus Cristo, nosso Senhor. Oh, bem-aventurada e sacrossanta Trindade! Te
ofereço tua mesma vida eterna e a vida de Maria santíssima e de todos os anjos
e santos. E, para suprir meu defeito, por amor a Jesus, a Maria santíssima, aos
anjos e santos, dá glória, dá louvores, dá bênçãos e dá graças a ti mesmo
infinitamente. E o que sei eu? Meu Deus, tu és tudo, tudo, tudo! Meu Deus, sou
nada, nada, nada, nada! Meu Deus, meu Pai, meu Amor infinito! Vinde, oh anjos e
santos e criaturas do Universo! Vinde adorar o Amor infinito, o louco de amor! Vinde, adorai, bendizei,
admirai, louvai, agradecei, exaltai-o eternamente e além ainda. Cantarei
eternamente as misericórdias de Deus, pelos méritos de nosso Senhor Jesus e por
sua infinita misericórdia” (OO CC X, 235-237).
Segundo o próprio Pallotti, o que o impede de avançar espiritualmente, é
o seu orgulho. Ao invés, o que o ilumina na descoberta da estima de si e do
conhecimento de si é a misericórdia de Deus. Por isso, de um lado, Pallotti
quer ser transformado em Deus, que é misericórdia infinita. De outro lado, ele
pede a humildade. A humildade lhe parece como o remédio mais eficaz contra o
orgulho. Mas, consciente de sua nulidade nesse campo, ele pede a humildade de
Jesus Cristo, para suprir a sua imperfeição (Stawicki, p. 168).
Por fim, ele suplica: “Renovai, ó Deus meu, a todo instante, o prodígio
da vossa misericórdia. Destruí-me todo, a mim, com todas as minhas obras, e agi
vós em mim e em todos, com vossa graça, como agistes e como podeis agir
pessoalmente, porque assim, em tudo e sempre eu vivo, mas já não eu, vive em
mim o Pai, o Filho e o Espírito Santo, Deus todo, por sua piíssima
misericórdia, pelos infinitos méritos de seu Filho Nosso Senhor Jesus Cristo,
pelos méritos e intercessão da Bem-aventurada Virgem Maria, de todos os anjos e
de todos os santos, agora e para sempre” (Doc. da fundação, p. 222).
Que o Espírito de Deus toque em cada um dos nossos corações, para que
possamos superar tudo aquilo que nos impede de sentir e de vibrar com as coisas
divinas. Que as nossas almas estejam abertas para sentir essa misericórdia que
atravessa os séculos e as gerações. Deus seja louvado em tudo, agora e para
sempre.
1. A partir de que momento
Pallotti descobriu Deus como misericórdia infinita?
2. Qual é um dos alicerces da espiritualidade
de Pallotti e como isso o distingue dos demais santos da Igreja?
3. O que mais chamou a sua
atenção neste texto?
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