Tema 14: CAMINHOS DE SANTIDADE
A Igreja Católica trata a santidade como algo comum a todos os fiéis, frequentemente chamada de “vocação universal à santidade”. Isto encontramos na Constituição Dogmática do Concílio Vaticano II, Lumen Gentium. Este Documento superou a ideia histórica de que a santidade era reservada prioritariamente a padres, freiras ou religiosos. O Concílio reafirmou que todos os batizados, qualquer que seja o seu estado de vida ou profissão, são chamados à plenitude da vida cristã e à perfeição da caridade. O Documento Gaudete et Exsultate (Exortação Apostólica do Papa Francisco, 2018) destaca que para ser santo não precisa ter tido grandes êxtases ou atos extraordinários, mas sim viver com amor e dar testemunho cristão nas ocupações diárias: na família, no trabalho e na comunidade. No Documento Christifideles Laici (Exortação Apostólica do Papa João Paulo II, 1988) reforça que os leigos não precisam “fugir do mundo” para se santificarem; pelo contrário, a santidade do leigo se realiza justamente no engajamento com as realidades temporais (política, economia, cultura, família e trabalho). Para o Catecismo da Igreja Católica, a santidade é um crescimento na graça trazida pelo Batismo e que o caminho da perfeição passa, necessariamente, pela união com Cristo e pelo exercício da caridade.
Para compreendermos
como os santos percorreram os seus caminhos de santidade, é preciso
desmistificar a ideia de que eles nasceram prontos ou imunes a falhas. Antes de
tudo, a santidade não deve ser vista com a ausência de erros, mas uma
persistência no amor e uma resposta generosa à graça divina. Embora cada
trajetória seja única, existem “pontos” comuns que definem esse percurso. A
maioria dos santos experimentou um momento de ruptura ou de “despertar”. Para
alguns, foi algo dramático (como São Paulo no caminho de Damasco – At 9,4-8);
para outros, foi um processo lento de amadurecimento (como Santa Teresinha). O
ponto comum entre eles é a decisão de colocar Deus como centro da vida,
movendo-se do “eu” para o “nós”.
Não existe
santidade sem uma conexão profunda com a fonte, que é Deus. Os santos buscavam
a oração não como uma obrigação, mas como uma necessidade vital. Por isso,
sentem a necessidade da contemplação da Palavra de Deus, da Eucaristia e dos
momentos de silêncio para ouvir a voz interior.
Os santos eram
profundamente realistas sobre suas próprias limitações. Eles entendiam que a
santidade não é mérito próprio, mas é obra de Deus neles. Por isso, reconhecem
e aceitam as suas fraquezas e não tem medo de enumerá-las. A santidade vai
ocorrendo na medida em que se desapegam do seu próprio eu, da vaidade e do
controle excessivo sobre a própria vida. A santidade não se apresenta de
maneira isolada, mas é o transbordamento de amor em relação a Deus e ao próximo.
Na verdade, o caminho de santidade é pavimentado pelo serviço abnegado. Assim muitos
se santificaram, como por exemplo:
1.
São Vicente Pallotti: Viu a caridade e o
apostolado como a forma mais pura de imitar a Deus.
2.
São Francisco de Assis: Encontrou o Cristo nos
pobres e na criação.
3.
Santa Teresa de Calcutá: Viveu a santidade no
toque aos “mais pobres entre os pobres”.
4.
São João da Cruz: Despojar-se interiormente,
para alcançar a união transformante com Deus.
5.
Santa Teresa D’Ávila: A santidade não é um
conjunto de regras rígidas ou demonstrações externas de piedade, mas é amizade
e intimidade com Deus. Ser santo é deixar-se transformar pelo amor de Deus
até que Cristo viva plenamente na alma, gerando uma vida repleta de
humildade, liberdade interior e serviço amoroso aos outros.
A
perseverança nas “noites escuras”
Muitos santos
passaram por períodos de aridez espiritual, dúvidas e sofrimentos intensos (a
famosa “Noite Escura da Alma” de São João da Cruz). O diferencial do santo é
que ele continua caminhando, mesmo quando não sente a consolação de Deus. A
santidade é, acima de tudo, fidelidade em tempos de aridez espiritual.
Em relação a
Pallotti, a presença ativa e constante do amor de Deus é a razão psicológica e
teológica da sua partida velocíssima no caminho de perfeição e da conquista de
metas muito raras. A sua doutrina consiste: o segredo de uma vida santa está
no amor de Deus. Não faça nada sem o amor de Deus. Se não tem o amor em
Deus, todos os atos objetivamente virtuosos se tornam egoísmo e vaidade. Os
meios de santificação, utilizados por Pallotti, para extirpar os vícios e
cultivar as virtudes são: a direção espiritual, os exercícios de piedade, as práticas
de penitência, o exame de consciência, as meditações, o recolhimento, o confronto
com a Palavra de Deus, as leis da Igreja e o exemplo dos santos, mas a vastidão
ou a decisão de seus propósitos é a profundidade da fé, esperança e caridade.
Elas dão um ritmo privilegiado à sua marcha.
O segundo
elemento que caracteriza a autenticidade do itinerário de santificação de
Vicente Pallotti é a tradução, quase que automática, do amor de Deus em amor ao
próximo. A prova da autenticidade do amor a Deus é a sinceridade do amor ao
próximo. Quem não dá nada ao homem do qual vê a sua necessidade, como pode
comover-se por Deus ao qual não vê? A santidade, portanto, não consiste em
fazer coisas extraordinárias, mas em fazer extraordinariamente bem as coisas
comuns por amor a Deus.
O
terceiro elemento que garante a autenticidade do caminho de santidade de
Pallotti é a sua profunda e cordial insatisfação por aquilo que ele é e o que
faz. Esta é também uma das marcas da sua espiritualidade, pois, segundo ele, um
homem satisfeito consigo mesmo não pode ser santo. Olhando para si mesmo,
Pallotti fica espantado por aquilo que ele é, porque se julga como alguém que
foi feito à imagem de Deus, pois a santidade de Deus é a medida para que o
homem também possa tornar-se santo (cf. OO CC X, 751; 748; 482-483; OO
CC X, 51; 112). Para ele, precisa respirar Deus: “Procurai-o e o
encontrareis. Procurai-o em todas as coisas e o encontrareis em tudo. Procurai
sempre e o encontrareis sempre” (Lettera 382).
O cultivo espiritual
Vicente Pallotti,
que tinha dedicado a existência ao serviço de Deus e ao ministério em favor do
próximo, cultivou, pois, uma atitude de profunda adoração de Deus e de Jesus
Eucaristia e de veneração para com Maria, os Anjos, os Santos e os justos. A
vivência do mistério eucarístico o levou a uma configuração a Cristo, onde sua
vida, suas atitudes, seu apostolado fosse a vida do próprio Cristo (cf. Gl
2,20). Essa perfeição, porém, só pode ser encontrada no Cenáculo. Através de
seu exemplo, Pallotti nos impulsiona a nutrir um profundo amor pela Eucaristia,
fonte de graças e de bênçãos para todo apostolado.
A oração era o
centro da vida de Pallotti. Recomendava a todos: oração, oração, oração, para
alcançar a submissão da vontade ao querer divino (cf. OCL I, 7;12;25;35;53). A
oração cria um clima de santidade nos grupos que se dedicam à ação apostólica.
Ele se preocupava, para que a oração dos leigos fosse mais profunda. Ainda
jovem, traçou para as famílias cristãs um programa de orações, que incluía uma
breve meditação diária, alternando a da paixão de Cristo com uma, sugerida pelo
livro das Máximas Eternas de Santo Afonso, oração do rosário, das ladainhas
etc. (Todisco, p. 167).
Vicente Pallotti,
ao longo de sua vida pessoal e de sua ação pastoral, fez uso de muitas orações.
Ele tomou orações de autores espirituais, as quais ou usou em sua integridade
original ou modificou ao sabor da própria espiritualidade e do próprio zelo apostólico.
A maior parte de suas orações foi composta por ele mesmo. Embora a linguagem e
a mística de sua época possam parecer distantes ou complexas para nós hoje,
mergulhar em suas orações é essencial. Elas oferecem um vislumbre valioso da
intensidade, do vigor e da profundidade de sua vida interior, revelando a força
de sua espiritualidade.
A vida interior
de Pallotti era um constante e ininterrupto impulso para Deus infinito, imenso
e incompreensível, para o Deus que é Amor. Deus infinito quer atrair tudo a si
e a alma, arrebatada e fascinada por esse Deus, do qual é imagem, dá a sua
resposta. Este impulso para o Deus infinito transforma a vida e a realidade: o
mundo, os seres humanos e todas as criaturas participam deste movimento para
Deus amor infinito.
A vida
contemplativa de Pallotti manifestou-se cedo, aos vinte anos, inserindo-o em
uma união profunda com o Deus infinito. Diante da luz da santidade de Deus, ele
experimentou de forma dolorosa a própria fragilidade e o “abismo do pecado” que
habita na humanidade, identificando-se com a figura bíblica do “homem do pecado”.
Ele também intuiu o caráter profundo e tenebroso do mal, sentindo-se, por
vezes, “pior que o nada”, perante a perfeição divina. Por isso, traçou como
meta espiritual a transformação total em Jesus Cristo. Ele buscava que o
Amor de Deus, que é comunicativo por natureza, se difundisse no abismo de sua
miséria. Ao reconhecer o seu próprio nada, ele se lança inteiramente à
torrente da misericórdia divina, onde a transformação e a gratidão se
tornam possíveis.
Na ascética de
Pallotti, o elemento determinante para a transformação é a imitação de Jesus
Cristo. Segundo ele, quando uma alma, dia após dia, se coloca
verdadeiramente a procurar no seu íntimo os pensamentos, os afetos e as
palavras e as obras de Jesus, Jesus entra naquela alma e a purifica, adorna,
ilumina e aquece; faz dela sua morada e age nela. Porém, a força que opera a
transformação é o amor. O amor assimila sempre aquele que ama, ao objeto do
seu amor. Para ele: “O amor de Deus transforma em Deus e quanto mais alguém ama
Deus, tanto mais rapidamente e completamente se transforma em Deus”. O próprio
Jesus, diz: “Vós sois deuses” (Jo 10,34), para indicar que quem recebe a
palavra divina possui uma centelha dela, ou seja, tem a capacidade de amar e de
evoluir, em vez de se referir a uma igualdade com o Deus Criador.
Um dos efeitos
mais vistosos da transformação é a aquisição de uma particular disposição à
magnificência. A experiência da infinita beleza, da infinita misericórdia, da
infinita potência e do infinito amor, deixa na alma uma impressão, uma atitude
e um desejo de grandeza que depois vai refletir na linguagem, nos juízos, nas
ideias e em todas as iniciativas, e a partir daí tudo passa a ser visto em um
plano divino e medido com o metro do infinito.
Um outro efeito
da transformação em Deus é a audácia dos santos. De fato, quem teve a sorte de
pensar quase com o intelecto de Deus e de amar com o coração de Jesus, ousa
tudo, não tem limite nos seus desejos, não se assusta com mais nada, não se
fecha diante dos obstáculos e não renuncia a nenhum dos planos que Deus
projetou para a Sua glória.
Dimensão apostólica da oração
As orações de
Vicente Pallotti sempre têm também uma vigorosa dimensão apostólica. Incansável
pastor que era, não podia ele, de modo algum, minimizar o engajamento
evangelizador. Sua ação pastoral, na linha da fé e da caridade, ia até a
exaustão. Mas, a ação partia sempre da vida contemplativa, consciente que
estava de que todo apostolado só pode merecer tal nome se partir de Deus.
A oração era para
ele o meio infalível para alcançar tudo. Sua oração abarcava todas as intenções
e necessidades da Igreja e se estendia à totalidade das pessoas. Ele queria
levar todos a Deus amor infinito. Promotor de muitas iniciativas apostólicas,
alimentava-as de permanente oração. A oração era para ele um gênero de
apostolado indispensável.
A
devoção à Maria, principalmente em sua missão histórico-salvífica, ocupava
amplo e profundo espaço em sua vida. Ela era a ‘Rainha dos Apóstolos’. No
pensamento de Pallotti, ela se preocupou com a salvação de todos os homens,
mesmo antes dos apóstolos. Depois, ela fortaleceu com sua oração o testemunho
deles. Ela se tornou o mais digno modelo de todo apostolado da Igreja, de todo
apostolado dos batizados, ao consagrar-se sem medida ao Reino de Jesus Cristo.
Por isso, muitas das preces apostólicas de Pallotti são dirigidas à Maria e
voltam o olhar dos fiéis para a vida dela e para o seu testemunho de fé.
Pallotti e seu caminho de perfeição
Quando se
trata do caminho espiritual de perfeição, devemos pensar que este trajeto
humano pode ser percorrido por qualquer pessoa. Diante de Deus, não existe uns
mais e outros menos privilegiados. Na verdade, todos são chamados à vida de
santidade. O Papa Francisco, na Encíclica Gaudete et Exultate, afirma:
Para ser santo, não é necessário ser bispo, sacerdote,
religiosa ou religioso. Muitas vezes somos tentados a pensar que a santidade
esteja reservada apenas àqueles que têm possibilidade de se afastar das
ocupações comuns, para dedicar muito tempo à oração. Não é assim. Todos somos
chamados a ser santos, vivendo com amor e oferecendo o próprio testemunho nas
ocupações de cada dia, onde cada um se encontra. És uma consagrada ou um
consagrado? Sê santo, vivendo com alegria a tua doação. Estás casado? Sê santo,
amando e cuidando do teu marido ou da tua esposa, como Cristo fez com a Igreja.
És um trabalhador? Sê santo, cumprindo com honestidade e competência o teu
trabalho ao serviço dos irmãos. És progenitor, avó ou avô? Sê santo, ensinando
com paciência as crianças a seguirem Jesus. Estás investido em autoridade? Sê
santo, lutando pelo bem comum e renunciando aos teus interesses pessoais” (Gaudete
et exultate, n. 14).
Tudo o que
foi escrito pelo Papa Francisco, acerca da santidade, pode ser igualado ao modo
como Pallotti via a pessoa humana, imagem de Deus, e se Deus é o Santo por
excelência, então, todos podem atingir esse grau maior de perfeição (Lv
11,44-45). Ele, motivado pela fé em Jesus Cristo, travou uma batalha contra
todo tipo de mal que pudesse afligir a pessoa humana e, assim, distanciá-la do
seu Criador, amor infinito. Assim, ele dizia: “Quem sou eu diante de ti, meu
Deus, tu que, tanto de dia como de noite, quer eu vigie, quer durma, quer eu
pense ou não em ti, não obstante minha ingratidão e os meus pecados, tu com
Amor infinito pensas em mim, para destruir a minha indignidade e transformar-me
em ti”? (OO CC X, 472).
Vicente
Pallotti, ao contemplar o amor misericordioso de Deus, percebeu que, apesar de
ele ter procurado viver só para Ele, ainda a sua vida era marcada por inúmeras
imperfeições, porque nem sempre os seus desejos correspondiam aos desejos de
Deus. Suas inclinações nem sempre eram boas, e tudo isso feria o coração
amoroso de Jesus que deu sua vida para nos salvar.
Na verdade, o
santo quando falava de si mesmo revelava, sem medo, as suas fraquezas, segredos
e malícias, impiedades e impurezas (...). Todo o seu lado sombrio. Por isso,
recorria a expressões muito fortes que nós temos muita dificuldade em aceitar e
compreender. Em alguns momentos, se autonomeava como o mais horrível monstro,
que existiu e que existirá, infinitamente inferior ao puro nada (cf. OO CC X, 458).
Mas, ele justifica essa sua atitude comentando o capítulo 13 da Primeira Carta
aos Coríntios: “Somos filhos de Adão, mesmo que animados pelo desejo de fazer o
bem, não estamos ainda no céu, e sim no mundo” (OO CC I, 108). Por estas
afirmações, podemos perceber o seu equilíbrio e o seu realismo humano e
espiritual.
Ele considerava
o ser humano de uma grandeza imensa, porque foi criado à imagem e semelhança do
Criador, por isso é chamado a ser filho de Deus, “herdeiro de Deus” (Rm 8,17),
cumulado de tantos bens e, ao mesmo tempo, esse mesmo ser humano é de uma
miséria indescritível. Pallotti sublinha, sem piedade, a corrupção do ser
humano e seu pecado, para colocar em relevo o amor infinito, incondicional e
misericordioso de Deus.
Segundo a
antropologia palotina, a criatura humana é inseparável de Deus, do mesmo modo
como a sua grandeza e a sua miséria são dois aspectos inseparáveis. Diante da
amargura do pecado, ele pede o dom da humildade. Quer até mesmo ser humilhado
diante de Deus e de todo o universo. A humildade lhe aparece como remédio mais
eficaz contra o orgulho (cf. OO CC XI, 359-360).
Segundo o Padre
Faller, para entrar na espiritualidade de Pallotti, precisa-se de duas chaves.
A primeira é a do desejo de ser transformado em Deus, Amor e Misericórdia
Infinita. Mas essa não funciona sem a segunda: a da humildade que leva em conta
a matéria a ser transformada: “Buscai Deus e O encontrareis. Buscai-O em todas
as coisas e O encontrareis em tudo. Buscai-O sempre e O encontrareis sempre” (OCL
II, 126).
Em uma
coleção de sentenças diversas sobre o ser humano diante de Deus, nós
encontramos uma resposta muito densa e concisa para a busca de Pallotti. Para a
pergunta: “Quem sois vós e quem sou eu diante de vós”? Ele responde: “Deus é tudo
do ser humano. O ser humano é tudo de Deus” (OO CC XI, 669), ou seja:
uma vez que Deus é o tudo do ser humano, a relação recíproca requer que o ser
humano seja o tudo de Deus. Pallotti, quando olhava para suas limitações
pessoais, declarava-se como o homem do pecado, mas, ao mesmo tempo via-se como
prodígio da misericórdia de Deus, pois, como diz São Paulo: “Onde foi grande o
pecado, foi bem maior a graça” (Rm 5,20). Possuído pela presença de Deus, ele
sentia a necessidade de escrever e de cantar as maravilhas de Deus. O amor de
Deus é como uma violenta tempestade; não pode ser contida, leva e inunda tudo o
que encontra pela frente.
Segundo o Pe.
Amoroso, o amor de Deus deu aos apóstolos a capacidade de conquistar o mundo,
mas sem o Seu amor, o cristão torna-se uma estátua, que fica de pé pela força
da inércia; basta um empurrão para derrubá-la e fazê-la em pedaços. Por isso, a
presença ativa e constante do amor de Deus, na vida quotidiana de Pallotti, é a
razão psicológica e teológica da sua partida velocíssima no caminho de
perfeição e da conquista de metas muito raras. A sua doutrina consiste: o
segredo de uma vida santa está no amor de Deus. Não faça nada sem o amor d’Ele.
Se não tem o amor em Deus, todos os atos objetivamente virtuosos se tornam
egoísmo e vaidade. Os meios de santificação utilizados por Pallotti, para
extirpar os vícios e cultivar as virtudes, são:
- O primeiro de tudo é a direção espiritual, os
exercícios de piedade, as práticas de penitência, o exame de consciência,
as meditações, o recolhimento, o confronto com a palavra de Deus, as leis
da Igreja e o exemplo dos santos, mas a vastidão ou a decisão de seus
propósitos é a profundidade da fé, a esperança e a caridade. Elas dão um
ritmo privilegiado à sua marcha (Amoroso. Dal nulla al tutto, pp. 66-67).
- O segundo elemento que caracteriza a
autenticidade do itinerário de santificação de Vicente Pallotti é a
tradução quase que automática do amor de Deus em amor ao próximo. A prova
da autenticidade do amor a Deus é a sinceridade do amor ao próximo. Quem
não dá nada ao homem do qual vê a sua necessidade, como pode comover-se
por Deus ao qual não vê? Ele, por sua vez, dava seu alimento, sapatos,
meias, blusas, guarda-chuva, cama, dinheiro, etc. (Amoroso. Dal nulla al
tutto, p. 71).
- O terceiro elemento de santidade, que garante a
autenticidade do caminho de santidade de Pallotti é a sua profunda e
cordial insatisfação por aquilo que ele é e o que faz. Esta é também uma
das marcas da sua espiritualidade, pois, segundo ele, um homem satisfeito
consigo mesmo não pode ser santo. Olhando para si mesmo, Pallotti fica
espantado por aquilo que ele é (cf. OO CC X, 751;
748; 482-483), porque se julga como alguém que foi feito à imagem de Deus
(cf. OO CC X, 245; 470), pois a
santidade de Deus é a medida para que o homem também possa tornar-se santo
(cf. OO CC X, 51; 112).
Portanto, a
trajetória de São Vicente Pallotti e o conceito cristão de santidade
apresentados revelam que ser santo não é um estado de perfeição angelical e
distante, mas uma jornada profundamente humana e acessível a todos. A santidade
fundamenta-se no equilíbrio entre o reconhecimento da própria fragilidade (o “abismo
da miséria humana”) e a confiança absoluta na misericórdia divina.
Em suma, a santidade é um caminho acessível a todos os batizados — uma resposta diária e perseverante ao amor de Deus, que acolhe a humanidade em suas limitações e a transforma pelo exercício da fé, da esperança e da caridade. Ela se manifesta na fidelidade cotidiana e na audácia de quem, mesmo em meio às limitações, permite que a “torrente da misericórdia” de Deus guie seus passos.
Para refletir
1. Por quais
caminhos percorreu Pallotti, para chegar à santidade?
2. Quais são
as chaves para entender a espiritualidade de Pallotti?
3. Por que Pallotti diz que ele é um milagre da misericórdia de Deus?
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