quinta-feira, 23 de abril de 2026


 Tema 4: O espírito de cooperação na UAC 

Dando continuidade aos ensinamentos deixados pelo nosso santo fundador, São Vicente Pallotti, hoje vamos tratar sobre O Espírito de cooperação na UAC. Iluminado pelo Espírito Santo, Pallotti visualizou a Igreja como um corpo onde cada membro, do mais simples ao mais instruído, possui um papel vital. A cooperação, portanto, surge como a expressão máxima do amor cristão em sua obra: Amai-vos como eu vos amei (Cf. Jo 13,34-35). Este texto busca detalhar as raízes dessa colaboração fraterna, que ele estabeleceu como pilar para multiplicar os esforços em favor da glória de Deus e da salvação das almas.

É importante salientar que Padre Vicente sempre viu a pessoa humana como alguém que pode cooperar com a obra redentora de Cristo. Aliás, o ser humano se conhece a partir do amor infinito de Deus que se reflete nele. O Livro do Gênesis, por sua vez, apresenta o homem como imagem e semelhança de Deus e como alguém capaz de gerenciar toda a Sua obra (Gn 1,28-31). Com essa consciência, Pallotti intuiu que o apostolado universal é uma obra exclusivamente divina e que a cooperação é imprescindível para a evangelização da Igreja.[1]

Segundo ele, a cooperação reside na ideia de que as iniciativas apostólicas pessoais se tornam mais eficazes e atingem um impacto maior se forem realizadas em colaboração e destinadas ao objetivo comum de difundir o Evangelho.

Muitos autores, que escrevem sobre Pallotti, tratam somente sobre o tema da imitação de Cristo na vida e nas atividades apostólicas. Poucos são os que apresentam essa imitação como cooperação com Deus na salvação da humanidade. Segundo o Pe. Stanislaw Stawicki, é exatamente isso a originalidade do conceito palotino de seguimento de Cristo, colaborar com Deus na obra da salvação. Para o santo, isso não é somente uma estratégia pastoral da Igreja, mas é uma arte, um dom que permite criar e inovar, sem desafiar a Igreja. A maior graça de Deus feita ao homem é o chamado à cooperação em sua própria salvação e a de todos os seres humanos: “Eu vim para que todos tenham vida e a tenham em abundância” (Jo 10, 10); (Stanislaw Stawicki, pp. 407-409).

Originalmente, Pallotti chegou a definir a União com três classes de membros, demonstrando a diversidade da cooperação:

  1. Operários: Agentes apostólicos, como padres, irmãos, irmãs e leigos incorporados.
  2. Coadjutores espirituais: Que colaboravam com a oração.
  3. Coadjutores temporais: Que colaboravam com recursos materiais.

 

Na visão de Pallotti, ninguém é tão pobre que não possa enriquecer o próximo (com o seu apostolado, oração, talentos) e ninguém é tão rico que não precise da ajuda dos outros. Isso reforça o sentido de interdependência e de cooperação mútua. A cooperação, no carisma palotino, nada mais é que o esforço coordenado de todos os batizados, para cumprir a missão de Jesus Cristo na Igreja e no mundo, reconhecendo que o apostolado é um chamado universal, ou seja, de todos.

O método utilizado pelo apostolado católico

O maior sonho do nosso fundador foi o de ver uma Igreja unida, a exemplo dos primeiros cristãos, que colocavam os seus bens em comum e distribuía conforme a necessidade de cada um (At 2, 42-47). Uma característica especial do apostolado da União é a colaboração entre os próprios membros (OO CC IV, 124 s., 389, 393, 477; OO CC V, 122); com todas as outras pessoas que realizam o apostolado (OO CC I, 3 s.; OO CC IV, 32), e a colaboração com os destinatários do apostolado (OO CC I, 5 s., 50 s.; OO CC III, 2; OO CC IV, 123, 318 s., 389 s., 414; OO CC V, 143 s.; OO CC VII, 14).

Pallotti assim exortava: “Coopere o máximo que puder para tornar conhecido o Pai, o Filho e o Espírito Santo, os Mistérios da Redenção e a mais santa lei do Evangelho. Você é rico em bens terrestres? Use-o o máximo que puder para multiplicar os meios oportunos para a propagação da Santa Fé, pois, dentre todas as perfeições divinas, a mais divina é cooperar com Deus na saúde das almas... pensem, filhos, que, no momento da sua morte, para nada servirá o poder, a nobreza, a doutrina e nenhum outro bem terreno se não os aproveitou para os fins que levem a Deus” (OO CC IV, 477-478).

Portanto, a “Pia Sociedade foi instituída não apenas para promover os meios de oração, mas também quaisquer outros meios necessários para esse fim. Ela estimula a caridade cristã entre todas as classes de pessoas, da qual ninguém está isento de exercê-la de acordo com a possibilidade, estado, grau e condição...” (OO CC IV, 318).

O método da colaboração está fundamentado na lei do amor, ou seja, amar a Deus de todo o coração, amar a nós mesmos e amar os outros como a nós mesmos e, ao mesmo tempo, fazer de tudo para ver neles a imagem e semelhança de Deus, Trino. Diante disso, não importa se ele é o nosso inimigo, ou amigo, católico ou herege, pagão ou incrédulo, cristão ou judeu, cidadão ou estrangeiro. Ele será sempre o nosso próximo, por isso devemos amá-lo, como a nós mesmos, por amor a Deus (OO CC III, 152). Segundo São João, no amor não tem temor: “O amor perfeito lança fora o medo, pois o medo tem consigo a pena e quem teme não é perfeito em amor” (1Jo 4, 18). Para São Paulo: “Não fiqueis devendo nada a ninguém, a não ser o amor mútuo... O amor não faz nenhum mal contra o próximo” (Rm 13, 8.10).

Pallotti não era um sonhador ingênuo que idealizava a cooperação, minimizando a sua dimensão histórica. A cooperação para ele não é desencarnada. Ele sabia que o caminho para ela passava pelo combate, muitas vezes. Para cooperar verdadeiramente para a glória de Deus e para a salvação das pessoas, é preciso que o homem peregrino se engaje no combate, como aquele apresentado por São Paulo: “Combati o bom combate, terminei a corrida, guardei a fé” (2Tm 4, 7). Para Pallotti, a cooperação deve ser constante, corajosa, perseverante, enérgica, laboriosa, fervente e zelosa. A cooperação comporta também provas e sofrimentos. Por isso, ela é colocada frequentemente à prova e requer das pessoas certo consentimento ao sofrimento, para enfrentar as resistências das pessoas. Ele tinha plena consciência de que nem sempre as pessoas cooperam para o bem, principalmente quando elas sentem ciúme, fechamento e desejo exclusivista (cf. OO CC IV, 134; OO CC V, 218-219; OO CC XII, 420-421; 425-427).

Segundo o Pe. Stawicki, Pallotti, em seus escritos, não expõe somente a doutrina sobre a cooperação, para suscitar em todos os cristãos a vontade de cooperar nas obras e nos objetivos da Pia Sociedade, mas, ele apresenta igualmente vários modelos e exemplos de cooperação, a saber:

  1. Amplidão ilimitada, já que o seu fundamento se encontra no próprio Deus Uno e Trino. Ela não concerne somente às pessoas entre si. É um trabalho humano, mas em Deus. Parece-nos que é nesse aspecto que se situa a originalidade radial da cooperação na Igreja segundo Pallotti. Ela se liga à fé teologal, uma vez que Deus, em sua natureza, é cooperação e princípio dela entre as pessoas.
  2. A sua fonte é a comunicação recíproca do Pai e Filho no Espírito Santo.
  3. O seu termo está para além da história, na plena “participação da glória de Deus, por toda a eternidade” (OO CC XI, 259). (Stawicki, p. 7)

De fato, Vicente declara querer cooperar sempre, até mesmo depois da morte (Cf. OO CC V, 210-211). Em sua oração, ele manifesta a Deus o desejo de cooperar plena, eficaz e eternamente em todas as empresas da Sua maior Glória e da Salvação das Almas, e de cooperar com tanta plenitude como se, desde toda a Eternidade e por toda a Eternidade, tivesse cooperado e cooperasse em todas as empresas evangélicas passadas, presentes, futuras e possíveis que tivessem sido e seriam necessárias para impedir todos os pecados, até os mais leves, e para salvar todas as almas (Cf. OO CC X, 280).

Essa maneira de viver a obediência na Igreja e na comunidade permite, certamente, o alargamento da visão, a introdução de uma dinâmica de deslocamentos necessários, para operar na busca de respostas que respeitem as diferentes abordagens e que, consequentemente, podem ser levados em conjunto. O “trabalhar juntos” não é mais o projeto dos superiores, de um padre, de um leigo; não é mais uma obra individual, e sim de uma comunidade que se torna verdadeira família, como aquela de Nazaré. Pois, Nazaré é sempre o lugar onde as pessoas buscam viver e trabalhar unidas. Eis uma das chaves da cooperação bem-sucedida. Trata-se de sair do espírito de domínio e do face a face para voltar os olhos a Jesus e aos outros. Sendo assim, a cooperação não se torna uma preocupação de querer vencer sozinho, mas um desejo de cumprir uma missão juntos (Stawicki, p. 412, nota n. 31; 421).

Finalmente notamos que, como no caso da Trindade, Pallotti dirige sua atenção para cada uma das pessoas que a compõe. O exemplo eminente da cooperação é evidentemente o de Jesus, o cooperador do Pai por excelência, que veio ao mundo para cumprir a obra da redenção. Pallotti sublinha, muitas vezes, que o homem que entra na dinâmica da cooperação persegue a missão de Cristo (Cf. OO CC II, 4; III, 139; 177-178; IV, 337). Um outro modelo de cooperação na salvação das almas é São José. Colocando as palavras nos lábios de Maria, Pallotti exorta: “Tendes o exemplo disso de meu esposo, José, que, mesmo sendo carpinteiro de profissão, no seu estado e condição, em meio a dificuldades, sofrimentos, pobreza e perseguições, fez quanto pôde para cooperar na redenção das almas” (OO CC IV, 338). Stawicki, p. 12.

A cooperação é a alma do apostolado

Pallotti sonhava com uma Igreja que estivesse à altura dessa vocação e missão. Segundo ele, a natureza mesma da Igreja exige a cooperação entre todos os membros do povo de Deus. Felizmente, com o Concílio Vaticano II, aquilo que era um sonho, agora, tornou-se realidade para toda a Igreja. Assim encontramos na Gaudium et Spes, n. 2: “Em virtude de sua missão (...) a Igreja torna-se o sinal daquela fraternidade que permite e consolida um diálogo sincero. Isto, porém, requer, em primeiro lugar, que promovamos no seio da Igreja a mútua estima, respeito e concórdia, admitindo toda diversidade legítima, para que se estabeleça um diálogo cada vez mais frutífero entre todos os que constituem o único Povo de Deus, sejam os pastores, sejam os demais cristãos...”.

Pode-se dizer que, hoje, a Igreja não pode ser sinal de fraternidade universal senão vivendo, ela mesma, a cooperação e o diálogo sincero. Pallotti, no seu tempo, de maneira criativa criou um imenso projeto, o das “Procuradorias” (treze frentes de trabalho, para coordenar os esforços de evangelização e da caridade em diferentes áreas), considerado por um dos seus membros, Rafael Melia, como o “coroamento de toda a sua obra”. Mas, qual foi a razão dele criar as procuradorias? Foi unicamente para abrir um espaço de cooperação e permitir, assim, que todos os cristãos pudessem ter parte ativa na vida da Igreja.

A catolicidade da Igreja

Pallotti utilizou exaustivamente dois adjetivos para descrever a sua fundação: “apostólico” (2.060 vezes) e “católico” (2.200 vezes). Com a palavra “apostólico”, ele evoca tanto as atividades, quanto as virtudes daqueles que se esforçam por meio das orações, da propagação da fé e da caridade, colocando seus talentos a serviço da Igreja e da humanidade. Ele utilizou, muitas vezes outras expressões, tais como: “zelo apostólico” (Cf. OO CC I, 159; 196; 203), ou “espírito apostólico” (Cf. OO CC I, 194; 206; II, 110), “homem apostólico” (Cf. OO CC I, 194; II, 548) e “ministério apostólico” (Cf. OO CC I, 193; III, 31). Evidentemente, esses adjetivos conheceram uma evolução muito grande ao longo da história da Igreja. Porém, para Vicente, essa evolução complexa permanece sempre unificada pela referência a Cristo, Apóstolo do eterno Pai, como encontramos na Carta aos Hebreus: “Por isso, irmãos santos, participantes da vocação celestial, considerai a Cristo Jesus, apóstolo e sumo sacerdote da fé que nós professamos” (Hb 3,1; Jo 20,21) e pelos que Ele mesmo enviou (Lc 10,1-12).

A palavra católico significa primeiramente “universal”. Esse é, ao menos, o sentido que Pallotti dá mais frequentemente a essa palavra (Cf. OO CC III, 143; 183; I, 4-5). Mas, “universal” não exprime perfeitamente o conteúdo de “católico”. Este comporta um sentido, muitas vezes, mais rico e concreto. Por isso, Pallotti prefere usar “católico” em vez de “universal”; isto porque a palavra católico quer dizer “com todos”. Outro motivo é porque os cristãos não podem ser encerrados em particularismo algum, pois católico significa “ordenado para o universal”, voltado para “o todo” – não no sentido de uma totalidade, mas no de uma superação dos particularismos (Cf. OO CC III, 183).

Para São Vicente, a catolicidade é a capacidade universal de unidade, de assimilar, de plenificar, de ganhar para Deus, de reunir e de consumar nele todos os seres humanos e todo o valor humano. Ela não pode acarretar um nivelamento das culturas, das línguas e dos ritos. Segundo ele, a catolicidade é um dom de Deus que se abre, progressivamente, a cada época, meio, língua e cultura.

Uma segunda acepção de católico, no pensamento de Pallotti, trata-se evidentemente da expansão geográfica da Igreja, já que ela está destinada a se estender a todas as nações, como nos afirma São Marcos: “Ide por todo mundo e pregai o evangelho a toda a criatura” (Mc 16, 15). Segundo ele, toda missão na verdadeira Igreja de Jesus Cristo é católica, ou seja, para todos indistintamente (Stawicki, p. 430).

Pallotti sugere essa dinâmica no seu Apelo de Maio, onde ele precisa explicitamente: “Assim, na obra do Apostolado, não entra em questão se alguém contribuiu com pregação, com oração, com subsídios ou com exercício de ministério eclesiástico, nem se contribuiu com sua arte, com sua posição social e influência. Vale o zelo e o fervor com que cada qual, no nível que lhe cabe, se presta” (OO CC IV, 137).

Por isso, desenvolvendo o conceito de apostolado universal, Pallotti não insiste nas estatísticas, mas na qualidade dos sinais postos pelos cristãos e principalmente no seu “zelo universal” (Cf. OO CC I, 371; II, 265; VII, 264), “o engajamento universal” (OO CC I, 153; II, 40; VII, 48), “a oração universal” (OO CC I, 153; IV, 151, 272, 358, 401), “a caridade universal” (OO CC II, 236; III, 11; V, 236; VII, 237; X, 199), “a obediência universal” (OO CC II, 90-92; III, 49, 71; VII, 98, 100-101) e no dever de tecer a “cooperação universal” (OO CC I, 50-51; V, 351; III, 193; IV, 19-20, 260, 276, 292-293; VII, 58; XI, 327), superando todas as fragmentações e se abrindo, assim, à unidade na diversidade.

Como já foi mencionado acima, a palavra “todo” não deve ser entendida no sentido de uma totalidade, mas no de superação dos particularismos e das divisões eclesiais entre leigos e clero, entre religiosos e seculares (Cf. OO CC III, 4). Por isso Pallotti quer, por exemplo, que a Congregação dos padres e irmãos palotinos se tornem “um ponto de união entre o clero secular e regular” e que toda a União seja, “para sempre, na Igreja de Jesus Cristo, como uma trombeta evangélica, que chame e convoque a todos os fiéis, de todos os estados de vida, posição e condição social, despertem o zelo e a caridade em todas as nações (Stawicki, p. 434).

O apostolado, na visão de Pallotti, não é um privilégio apenas dos doze apóstolos. De acordo com o Pe. Achylle Rubin: “Pallotti não fez uma teologia do apostolado dos leigos, mas simplesmente do apostolado da Igreja. Se houve maior empenho em argumentar em favor do apostolado dos leigos, isso só aconteceu porque os leigos são a maioria na Igreja e a compreensão do significado do apostolado dos leigos era deficiente e se tornava, por isso, necessário um esclarecimento teológico.[2]

De fato, mesmo que Pallotti tenha chamado a sua União de “corpo auxiliar da Igreja”, ele nunca chamou os leigos de “auxiliares da hierarquia”. Chama-os, pelo contrário, de “pessoas inspiradas pelo Evangelho”, “cristãos zelosos”, “leigos piedosos”, “irmãos da pia União do Apostolado Católico” (OO CC IV, 1-8; XIII, 365). Ele sempre apela para a responsabilidade pessoal de todos os cristãos, seja padre ou leigo, religioso ou secular: “porque todos são chamados e obrigados a imitar o apostolado de Jesus Cristo, na sua própria condição e estado” (OO CC III, 142); “todos, na respectiva posição, condição ou estado, podem, de uma ou de outra forma, sempre com mérito, exercer o apostolado de Jesus Cristo” (OO CC IV, 327).

De fato, para Vicente Pallotti, o apostolado dos leigos não é uma usurpação nem uma substituição ou uma ação paralela ao daquele fundado no sacramento da ordem. O apostolado católico é uma responsabilidade comum de todos os cristãos: “talvez pudesse alguém achar que ninguém possa ter o mérito do apostolado sem ter o ofício de pregar. Pensar deste modo seria, porém, errado. Reparai (...) em nossa Mãe Maria. Sem pregar, ela não só tem o mérito comum dos Apóstolos, mas dos próprios Apóstolos é Rainha. Como tal é saudada pela Igreja de Jesus Cristo, como Rainha dos Apóstolos, porque, na medida em que lhe foi possível, em sua condição e circunstâncias, cooperou na propagação da santa fé. E porque também nisto agiu com tal perfeição que, de muito longe superou os Apóstolos, aquele Deus, que atenta para as disposições do coração das suas criaturas, elevou-a à dignidade e à glória de Rainha dos Apóstolos, pois reconheceu a sua dignidade” (OO CC IV, 180-181).

Considerando a época e as circunstâncias nas quais esse texto foi escrito, não se pode deixar de admirar a liberdade de espírito, o realismo pastoral e o senso de Igreja que animam Pallotti. Com efeito, o apostolado de todos, na escola de Pallotti, é uma responsabilidade comum que supõe que os fiéis leigos sejam também estabelecidos em cargos vitais para uma “Igreja enviada no mundo deste tempo”. Isto contrastava com a visão de apostolado tido pela hierarquia da Igreja, a saber: o Papa Pio X via os leigos como “auxiliares do clero”. Pio XI declarou a Ação Católica como a “participação dos leigos no apostolado da hierarquia”. Pio XII “teve a prudência” de substituir a “participação” dos leigos pela simples “colaboração” no apostolado da hierarquia.

Quanto ao modo de pensar de Pallotti, ele estava muito mais próximo ao do Concílio Vaticano II que não procurou promover os leigos, mas exprimiu mais uma vez a identidade da Igreja como totalidade de fiéis em Cristo. O Capítulo II da Lumen Gentium expressa esta realidade, apresentando a Igreja como “Povo de Deus”.

De fato, Pallotti teve a intuição de fundar a responsabilidade de todos na corresponsabilidade diferenciada: “na obra do Apostolado, não entra em questão se alguém contribuiu com pregação, com oração, com subsídios ou com exercício de ministério eclesiástico, nem se contribuiu com sua arte, com sua posição social e influência.

No dia 1 de setembro de 1963, o Papa Paulo VI, por ocasião de sua visita a Igreja de Frascati, na sua fala evocou as ideias e a ação de Pallotti que despertaram na Igreja a consciência do laicato católico: assim disse ele: O objetivo da minha peregrinação é incentivar a “grande lição oferecida por São Vicente Pallotti ao mundo de hoje, também aqui, e especialmente aqui, onde ele celebrou a primeira Missa e onde escreveu e entregou ao futuro as regras da sua Instituição, tenha, como herança, um novo e belo florescimento de egrégias iniciativas”. Continua o papa: “Hoje é já algo evidente – e Sua Santidade quer, também ele, prestar homenagem à conclusão da biografia tão interessante e tão edificante do Santo – a certeza de que S. Vicente Pallotti foi um precursor. Ele antecipou, de quase um século, a descoberta – é injusto, talvez, para a tradição cristã dizer esta palavra, mas é necessário sermos realistas e usá-la – a descoberta que também no mundo dos leigos, até então passivo, adormecido, tímido e inábil para se exprimir, há uma grande capacidade de bem. (...) Ele construiu, assim, aquela ponte entre o clero e o laicato, que é uma das vias mais percorridas pela espiritualidade moderna, uma das vias que dão maior esperança à Igreja de Deus. (...) Estamos no período sucessivo à Revolução Francesa com todos os desastres, as ideias desordenadas e caóticas e, ao mesmo tempo, frementes e ainda confiantes, que aquela revolução tinha incutido nos homens do século antecedente. Havia grande necessidade de colocar ordem e, se diria, de o estatizar, torná-lo firme como deve ser (Stawicki, p. 434, nota n. 213).

Em suma, podemos dizer que o nosso santo fundador esteve muito à frente do seu tempo. Ele percebia algo que ninguém tinha a capacidade de perceber, naquele momento. Mas Deus, no momento oportuno, iluminou a Igreja para que, realmente, pudesse viver o mandato de Cristo: “Ide, pois, e ensinai a todas as nações, batizai-as em nome do Pai e do Filho e do Espírito Santo. Ensinai-as a observar tudo o que vos prescrevi” (Mt 28, 19-20). Deus em tudo e sempre!

PARA REFLETIR

  1. O que significa cooperar com a obra apostólica?
  2. O que Pallotti entendia por catolicidade da nossa Igreja?
  3. Pallotti desejou que toda a União fosse, na Igreja de Jesus Cristo, como uma trombeta evangélica. O que realmente ele quis dizer com isso?

 



[1] Stanislaw Stawicki. A cooperação, paixão de uma vida. Biblos: Santa Maria, 2007, pp. 173-175.

[2] Achylle Alexio RUBIN, “L’Apostolato Aattolico nella realtà ecclesiale del nostro tempo” in ACTA-SAC, vol. IX, 1979, p. 320.

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