sexta-feira, 14 de junho de 2013

Exercícios Espirituais - II Semana.

 
Os noviços palotinos da América do Sul fazem a II Semana dos Exercícios Espirituais.
 
 
Humildade – uma modalidade do amor


O serviço fraterno é o primeiro gesto de amor que Cristo ensinou a seus discípulos: “amai-vos uns aos outros como eu vos amei”.
“Aquele que quiser ser o primeiro, que seja o servo de todos”.
 
O próprio Cristo dá testemunho de que Ele não veio para ser servido, mas para servir e dar a vida em resgate de muitos (Mt 20, 28). Podemos constatar o fruto da sua pregação na celebração de quinta-feira santa em que Ele lava os pés de seus discípulos, e, ao mesmo tempo, convidou-os para que também eles fizessem a mesma coisa (Jo 13, 14).
 

Servir o irmão não é uma tarefa fácil, precisa, antes de tudo, muita humildade e força de vontade para não servir-se dele.
São Pedro exorta a todos que querem viver o amor: “sejam humildes” (1Pd 3, 8), pois a humildade leva a pessoa a viver a abnegação cristã. Portanto, diante de um pedido de honrarias da parte de alguns discípulos que queriam sentar-se um à direita e outro à esquerda são exortados a ocuparem o último lugar (Mc 9, 35).
O modo evangélico de colocar-se diante do outro é através da humildade e das ações concretas no dia-a-dia, como a mãe que não esconde a alegria de servir o filho.
Só é possível o crescimento comunitário, na medida em que haja disposição entre as pessoas para lavarem os pés uns dos outros. São através dos pequenos gestos que cada um pode mostrar o seu profundo desejo de realizar aquilo que fora recomendado por Cristo: “amai os vossos inimigos e fazei o bem aos que vos amaldiçoam”.
O humilde reconhece que tudo o que possui é graça. Ele tem consciência de que é Deus quem o procura e que sempre o perdoa e que está sempre pronto para começar tudo de novo.
Deus é um eterno apaixonado pela criatura humana, feita à sua imagem e semelhança. Por isso, submeteu-se às piores humilhações ao assumir a natureza humana para que o homem pudesse ter um rosto resplandecente como o Seu. Deus ama porque o Seu amor deve expandir-se, e a melhor forma de expansão se dá através do amor mútuo, no serviço gratuito, no morrer pelo outro como o fez Cristo.
 
Pe. Valdeci Antônio de Almeida, SAC

terça-feira, 4 de junho de 2013

A Igreja San Salvatore in Onda - Roma (Sede dos Palotinos)


A Igreja foi construida no final do século XI e início do século XII. A Igreja é dedicada ao “SS. Salvador” ao qual se acrescenta o nome “in onda”, provavelmente devido às frequentes inundações do Tibre.
A primeira menção histórica da Igreja é atestada em uma “bolla” do Papa Honório II de 1127. Originalmente tinha a forma de uma basílica com três naves. Inocêncio VII (1404 - 1406) concedeu aos monges de S. Paulo eremita que permaneceram até 1445. Por concessão de Eugênio IV (1431-1447), a Igreja com a casa vizinha passou para os Frades Menores Conventuais provenientes de “Santa Maria in Ara Coeli”, que estabeleceram a sede dos procuradores gerais. No dia 14 de Agosto de 1844, Gregório XVI (1831-1846) cedeu a Igreja de “SS. Salvatore in Onda” com a casa ao lado para Vicente Pallotti, sacerdote romano e para a comunidade de sacerdotes e irmãos do Apostolado Católico por ele fundada. Desde aquele tempo prestam serviço, os membros da Sociedade do Apostolado Católico (Palotinos). Em 1845 ele promoveu trabalhos de renovação e em 1846 se transferiu ali junto com a comunidade por ele fundada. Pio IX (1846-1878) com “o breve” de 1847 confirmou a concessão da Igreja para a Sociedade do Apostolado Católico.
Em 1867 iniciaram as restaurações da Igreja com os trabalhos da família Cassetta, sob a direção do arquiteto Luca Carimini. Eles elevaram o nível do piso térreo, conferindo à igreja o atual aspecto. No dia 06 de Agosto de 1878, a Igreja foi reaberta ao culto com a celebração da Santa Missa presidida pelo Mons. Francesco di Paola Cassetta. Os trabalhos mais recentes de restauração datam 1984.
A Igreja possui três naves, divididas por 12 colunas, uma diferente da outra, como também os capitéis. O teto tem o formato de caixa em madeira com diversas cores (século XIX). É iluminada por dez janelas com cristais multicoloridos e uma janela semicircular sobre a fachada com vista para o coro, equipada com um órgão. As estações da Via Sacra são de Domenico Cassarotti. No fundo da Igreja estão dois confessionários feitos a pedido de São Vicente Pallotti.
No fundo da nave central está o altar maior, embaixo do qual está a preciosa urna do escultor Arnaldo Brandizzi que conserva o corpo incorrupto de São Vicente Pallotti, com as vestes sacerdotais, com o rosto e as mãos de prata. No ápice, podemos ver o belíssimo cenário da Transfiguração pintado por Filippo Prosperi. No centro encontra-se a bela imagem de Nossa Senhora com o Menino Jesus e aos lados, os afrescos dos apóstolos Pedro e Paulo e acima deles, em dois pequenos circulos, os Santos João Nepomuceno e Felipe Neri.
No início da nave lateral, à direita está a estátua de “terracota” de Nossa Senhora das Dores, colocada por São Vicente Pallotti. Continuando pela navada se vê a estátua de Santo Antônio e uma grande placa de mármore que contém informações históricas sobre a Igreja. Depois disso chega-se à capela da B.V.M. “Virgo Potens”, construída durante a última restauração da Igreja. Sobre o altar em mármore está a imagem de Maria “Virgo Potens” em tela, doado pela ven. Elisabetta Sanna, uma das primeiras colaboradoras da União do Apostolado Católico. No chão se encontra o túmulo da ven. Elisabetta que morreu em Roma em 1857 e que está em processo de beatificação. As paredes são decoradas com pinturas de Cesare Mariani: “Judite e Olofernes”, “A Imaculada Conceição”, “A Anunciação” (todos os três de 1875), “Ester e Assuero” (1876). No final da nave à direita encontra-se o altar de mármore dedicado a São José e os santos mártires Cosme e Damião. O quadro pintado em tela foi feito por Alessandro Massimiliano Seitz (1811-1888).
Percorrendo a neve à esquerda, vemos a estátua de Jesus de Nazaré em gesso; a estátua do Menino Jesus em “cartapesta” que pertencia a Vicente Pallotti e que ele dava aos fiéis para beijar durante o Oitavário da Epifania; a placa comemorativa que lembra o lugar onde em 1850-1950 foi conservado o corpo de São Vicente Pallotti; uma cópia do quadro de Maria, Rainha dos Apóstolos pintado por Serafino Cesaretti conforme o desenho de Johann Friedrich Overbeck; a placa em memória da visita do Papa João Paulo II na Igreja “SS. Salvatore in Onda” no dia 22 de Junho de 1986 e no fundo, o altar de Santo Alessio em mármore, em alto relevo, colocado a pedido de São Vicente Pallotti.
 
Tirado do Boletim mensal da União do Apostolado Católico - Roma.


O desafio da fé

Este texto foi publicado na Revista Rainha dos Apóstolos de Porto Alegre, mês de junho de 2013.

“Quem nos separará do amor de Cristo”? Esta frase de São Paulo deve, ainda hoje, ecoar dentro de nós, para que possamos responder a Deus o verdadeiro motivo pelo qual acreditamos nele e o seguimos.
 
Muitos se perguntam, porque crer em Deus? Ainda existe a necessidade de seguir uma religião, porque sem Deus e longe da Igreja evita-se criar vínculos com alguém que pode interferir na minha liberdade. Em nome da liberdade, muitos se bastam a si mesmos e a consequência de tudo isso é o agravamento de uma pobreza espiritual. Segundo o Papa Francisco, esse tipo de pensar coloca em risco a convivência entre as pessoas, pois “não pode haver paz verdadeira se cada um é a medida de si mesmo, se cada um pode reivindicar sempre e somente o direito próprio, sem se importar ao mesmo tempo pelo bem dos outros, de todos, começando pela natureza que é comum a todos os seres humanos sobre esta terra”, pois a religião cria espaços reais de autêntica fraternidade. Não se podem viver verdadeiros laços com Deus, ignorando os outros.
A religião, normalmente, cria pessoas capazes de enfrentar qualquer desafio com a força da fé. O homem, quando se encontra com Deus, torna-se um perigo para um sistema injusto, pois ele passa a amar mais e a condenar as injustiças. Afastando-se de Deus ele pode ficar hostil consigo mesmo e com os outros, porque o individual acaba sufocando a alteridade. Quando a presença de Deus é ofuscada, a figura humana começa a ocupar o seu lugar e tudo passa a ser permitido, ocorre a desumanização. O outro passa a ser visto apenas como objeto a ser desfrutado segundo interesses pessoais ou de grupos.
Portanto, qual é a razão de nossa fé? Por que acreditamos em Deus? Muitas pessoas ainda não creem, porque estão confusas diante das propostas oferecidas pelo mundo secular. Pois, para crer, é preciso que antes se faça uma profunda experiência de quem é Deus em nossa vida. Mas, meditando a Palavra se pode encontrar a razão do por que cremos.
No tempo dos apóstolos, após a ressurreição de Cristo e com a pregação de Pedro, muitos se perguntavam: “E nós, o que devemos fazer?" Pedro Respondia: "convertei-vos e creiam no Evangelho”. Acreditamos, porque Cristo nos revelou o amor do Pai a todos nós. Os nossos antepassados experimentaram Deus, na pessoa de Jesus, de maneira muito próxima. Por meio da palavra e do testemunho de vida de Jesus. Somente aqueles que estavam fechados às antigas leis e tradições não conseguiram enxergar nele o enviado do Pai. Talvez, o medo de perder privilégios levou-os a apegarem-se às coisas antigas e fecharem-se para os novos tempos e a novas realidades, porque Deus é dinâmico, Ele sempre se apresenta de maneira nova e fascinante. Somente quem é livre interiormente reconhece Deus com mais facilidade e sem preconceito. Que o Evangelho de Jesus seja sua inspiração para viver bem sua vida, levando amor, alegria, paz e esperança por onde passar.

Pe. Valdeci Antonio de Almeida, SAC

sábado, 20 de abril de 2013

Em busca da felicidade

Publicado na Revista Rainha dos Apóstolos, ano 90, maio de 2013.

Todos temos um desejo na vida. Muitos desejam enriquecer, ter um bom emprego, ter sucesso, outros querem ter um corpo ideal e para isso procuram malhar e malhar, até a exaustão para atingir o seu intento. Tudo isso com o intuito de ser feliz e de poder ficar bem consigo mesmo. Aliás, ser feliz é o desejo de todos, mas nem todos conseguem descobrir onde realmente está ou pode encontrar a felicidade. Antes de tudo a felicidade é um trabalho interior.
Esta busca frenética pela felicidade, sem levar em conta certos princípios, está deixando a sociedade cada vez mais vazia, tanto que, no Brasil, o índice de suicídios cresceu de 1980 a 2000 (1.900%), segundo a “Folha de São Paulo”. E perguntamos, por quê?
Para mim, não são as coisas físicas ou materiais que enobrecem o ser humano, mas as coisas espirituais, até porque tudo neste mundo passa. Aquilo que é material tem validade, inclusive nossa vida. Ninguém conseguirá manter-se jovem e com os mesmos padrões de beleza até o seu último dia de vida. O nosso corpo está em contínuo movimento, mas aquilo que externamente não parece ser mais tão belo, internamente, quando se cultivam bons princípios, inclusive espirituais, jamais envelhece e adquire uma outra beleza, a sabedoria e a harmonia interior, pois a beleza se constrói a partir de dentro. Assim afirma o salmista: “Só em Deus a minha alma encontra repouso” (Sl 62,2-3).
Quem encontrou o sentido para vida, a partir de Deus, torna-se como uma árvore à beira do riacho, está sempre viçosa, porque está diante da fonte da vida. Talvez o que entedia tanta gente, apesar de procurar realizar seus sonhos a qualquer preço, é o fato de usufruir apenas das coisas da terra, sem regar com as coisas do céu.
Portanto, criar um estilo de vida “light”, sem compromisso, é caminhar em direção a um abismo. A sociedade moderna vive sob os pilares da plena liberdade. A pessoa é livre para fazer quase tudo e não tem medo de reivindicar seus direitos, por isso vemos tantas marchas de pessoas que querem impor o seu estilo de vida e modo de ser, e se alguém disser o contrário sofre duras críticas, porque cada um deve viver, ao extremo, a sua liberdade, mesmo que fira a do outro. Diante desse comportamento, encontramos pessoas cada vez mais infelizes e se distanciando da verdadeira missão pela qual estamos aqui nesse mundo, para sermos felizes, mas em sintonia com aquele que nos criou. Fora isso, teremos apenas discursos e pessoas mendigando por felicidade em coisas transitórias. Tudo isso gera uma espiral de insatisfação e, a cada dia, buscam por novidades que preencham seu ser, porque sem elas seria insuportável viver, ao passo que aquele que descobriu a verdadeira beleza que brota do coração, do amor de Deus, atravessa tormentas e desafios, em paz e com um largo sorriso no rosto, porque nele é expresso o amor de Deus.

Pe. Valdeci Antonio de Almeida, SAC

terça-feira, 2 de abril de 2013

IGREJA ESPÍRITO SANTO DOS NAPOLITANOS




Vicente Pallotti recebeu a missão de reitor da Igreja do “Espírito Santo dos Napolitanos” em Dezembro de 1835 e exerceu esse ofício até 1846. Neste lugar Pallotti viveu momentos de alegria, mas também de sofrimento.

 

 
A origem da Igreja remonta à primeira metade do século XIV. Temos notícias que em 1320 existia na Via Giulia a Igreja de “Sant'Aurea” e o mosteiro das Irmãs dominicanas.
 
 
Reduzida em más condições e fechado o convento, a Igreja foi comprada em 1572 pela Companhia dos Napolitanos que estabeleceu a sede da “Irmandade do Espírito Santo” e decidiu construir uma nova Igreja no lugar daquela antiga. Em 1799, durante a invasão de Roma pelos franceses, a Irmandade se dissolveu e a Igreja passou sob o domínio do Reino de Nápoles. Com o passar do tempo se manifestou a degradação da Igreja de modo que parecia inevitável a necessidade de fechá-la. No tempo de Pallotti, o templo era muito pobre, negligenciado, as celebrações sem vida e o número de fiéis era muito reduzido. As autoridades eclesiásticas propuseram entregar a Igreja aos cuidados de Pallotti. Não foi uma Igreja paroquial e, portanto, não tinha vínculos. Mesmo sem ser devidamente cuidada e em estado de abandono, o Pe. Pallotti aceitou a nomeação com grande entusiasmo. O rei Fernando II deu o consentimento e Vicente Pallotti recebeu o cargo de reitor da Igreja em Dezembro de 1835. Temos um Documento de 20 de Janeiro de 1836 no qual Pallotti, como reitor da Igreja, assinou um recibo por uma esmola (OOCC V, p. 771-772). 
 
 
Naquele tempo a Igreja estava sob o patrocínio do rei das Duas Sicílias (união dos Reinos da Sicília e de Nápoles de 1816-1860). A casa do reitor era ocupada por quatro padres e um diácono de Nápoles. Pallotti mandou limpar a Igreja, comprou novos paramentos e toalhas para o altar, mas, sobretudo renovou as celebrações litúrgicas. Iniciou a ação pastoral organizando homelias para os sábados e dias festivos, vários tríduos, novenas, os meses de maio e de agosto. Ele também começou a atender confissões e com o tempo a Igreja estava repleta de fiéis. Em Setembro de 1837, depois da morte de seu pai, mudou-se da casa da família (via del Pellegrino, no. 130) para a Reitoria, mas não ocupou o quarto de reitor, preferindo um quarto contíguo à Igreja onde tinha, ou talvez fez abrir ele mesmo, uma janela para ter a possibilidade de contemplar o tabernáculo e adorar Cristo no SS. Sacramento.



Deste lugar, Pallotti dirigiu e desenvolveu suas mais importantes iniciativas apostólicas: a celebração do primeiro Solene Oitavario da Epifania (1836); a instituição da sede da primeira comunidade do Apostolado Católico e do Colégio das Missões Exteriores (1837); a ajuda aos fiéis durante a epidemia da cólera (1837); a inauguração da Casa de Caridade de Borgo S. Agata (Junho de 1838); o Mês de Maio para o clero e a conferência semanal do clero (1839); o Oitavário pela segunda vez nesta Igreja (Janeiro de 1840); assistência ao hospital militar (1843); os exercícios espirituais aos militares (1844); a missão de Londres (1844).


Muitos esclesiásticos napolitanos não aceitaram um sacerdote romano como reitor da sua Igreja. Eles criaram grandes contrariedades e dificuldades para Pallotti que teve que deixar a casa ao lado da Igreja do “Espírito Santo” e no dia 01 de Janeiro de 1846 transferiu-se com a sua comunidade para a Igreja de “SS. Salvatore in Onda”.
 

Em 1852, depois da morte de Pallotti, iniciaram-se os trabalhos de restauração da Igreja. Em 1860, Pietro Gagliardi realizou na fachada da Igreja o afresco representando os "Anjos adorando a pomba mística", enquanto entre 1852 e 1868 fez o afresco da "descida do Espírito Santo sobre os Apóstolos". Em 1863, a Igreja foi reaberta ao culto até o século sucessivo, mas foi novamente fechada por quase 30 anos. 
 
O atual aspecto da Igreja deve-se ao trabalho árduo de Mons. Natalino Zagotto que orientou os trabalhos de consolidação e restauração, abrindo às celebrações para o Natal de 1986. No dia 17 de Outubro de 2004, foi concedido ao Conselho Geral da Sociedade do Apostolado Católico de colocar um busto de S. Vicente Pallotti na Igreja com uma placa de mármore recordando a presença e as principais iniciativas apostólicas de Pallotti: Nesta Igreja do “Espírito Santo dos Napolitanos” / reitor de 1835 à 1846 / São Vicente Pallotti / sacerdote romano / fundou a União do Apostolado Católico / e o Colégio das Missões Estrangeiras / celebrou o primeiro Oitavário da Epifania / o Mês Mariano para os clérigos e Leigos / animou a Conferência Espiritual do Clero / o povo romano / durante a epidemia do cólera de 1837 / nele reconheceu / o sacerdote santo e apóstolo da caridade.
 
 

sexta-feira, 29 de março de 2013

Sexta-feira Santa




As duas bacias

A Semana Santa é a maior de todas as semanas porque nela encerra a ação de Deus em favor do seu povo. Deus é fiel às suas promessas e as concretiza com a morte de seu Filho na cruz. Ele assumiu sobre si as nossas dores. Levou o projeto do Pai até as últimas consequências, porque ele é a misericórdia por essência.

A mensagem da cruz é uma mensagem de esperança. Mesmo com a presença do pecado no mundo, Deus aposta no ser humano, porque sabe que ele é fruto do seu amor e que a vida só tem sentido quando fundada nele. Muita gente busca pela verdade, mas, diante de tantas vozes com tantas propostas, as pessoas ficam confusas. Somente quem silencia o seu coração saberá fazer o justo julgamento e descobrirá a verdade. Cristo não oferece nada de extraordinário que não seja o seu amor e a recompensa da salvação, mas é preciso acreditar.
São João afirma que a luz iluminou as trevas. Quem se deixou tocar uma vez pela luz de Cristo será capaz de tomar decisões justas e coerentes, porque vive na verdade e a verdade conduz à libertação. Ora, se Jesus é o caminho, a verdade e a vida, porque então os seus contemporâneos o condenaram à morte?
Este é um caminho longo e difícil, pois a verdade não pode ser concebida a partir da ótica humana. O ser humano se deixa condicionar por muitas coisas e por isso tem grande chance de equivocar-se. Deus olha o coração e não as conveniências. Ele conhece as motivações de cada um, e perdoa porque sabe que o mal ofusca a mente e inibe as decisões.
 
A cruz antes de ser o símbolo de morte é a verdadeira escola do amor. Lá não há vingança ou rancor, apenas amor e perdão. A expressão “Pai, perdoa-lhes porque não sabem o que fazem”, abriu a mente de um pagão que não estava contaminado com as ideologias do Templo. Ele apenas cumpria uma ordem e sentiu que só quem ama poderia morrer naquele estado e ainda não permitir o castigo aos seus opositores. Só poderia ser Deus: “Realmente, ele era o Filho de Deus”.
Quem experimenta Deus de verdade, não fica inerte diante dele, toma uma decisão. Assim podemos compreender as duas atitudes ocorridas em uma mesma semana, em questão de horas. A primeira atitude é daquele que nos amou até o fim, com um gesto inédito lava os pés dos seus amigos, demonstrando-lhes o seu mais puro e íntimo afeto. Com este gesto ajudou-os a ver o mundo com novo olhar. A outra postura foi de Pilatos, que por um ato de fraqueza, de medo de perder prestígio e poder, lavou suas mãos, ouvindo os clamores de um grupo sedento de sangue e não de amor e de perdão. A mensagem deste gesto também nos interpela. Com qual bacia você mais se identifica?

terça-feira, 26 de março de 2013

Encontro dos Irmãos Palotinos na Polônia.



Fotografias tiradas no Encontro Internacional dos Irmãos Palotinos, Constancin - Polônia.




Encontro dos Irmãos Palotinos - Polônia

 
A Sociedade do Apostolado Católico se alegra por realizar o IV Encontro Internacional dos Irmãos, no Centro de Animação Missionária da Província de Cristo Rei, em Konstancin, na Polônia (10 a 14 de março de 2013). O encontro começou na noite de 10 de março, com a apresentação do programa e dos participantes. São 55 participantes que vieram da Polônia, Alemanha, Irlanda, Brasil, Argentina, Ruanda, Costa do Marfim, República Checa e Roma. Está presente também o Reitor Geral, Pe. Jacob Nampudakam, o Conselheiro Geral e Secretário Geral para a Formação, Pe. François Harelimana, o Reitor da Província de Cristo Rei (WA), Pe. Józef Lasak, Vice-Provincial da Província da Anunciação (PN), Pe. Lesław Gwarek e do Reitor Provincial da Província Mãe do Divino Amor (IR) e membro do Secretariado Geral para a Formação, Pe. Derry Murphy e outros membros do Secretariado.
O primeiro dia da reunião, 11 de março, começou com uma palestra do Reitor Geral sobre a situação atual da Sociedade do Apostolado Católico, com especial referência para a vocação e a missão dos Irmãos em nossa sociedade. Em seguida Pe. François Harelimana apresentou as decisões da XX Assembleia Geral relativa aos Irmãos.
Durante todo o encontro, houve momentos de estudo e de partilha dos nossos trabalhos apostólicos.


segunda-feira, 11 de março de 2013

ENCONTRO INTERNACIONAL DOS IRMÃOS PALOTINOS - POLONIA

O consagrado palotino: padres e irmãos
 
Konstancin-Jeziorna – Polônia – 09 a 13/03/2013

Pe. Valdeci Antonio de Almeida, SAC

1.      Introdução
Para falarmos da consagração palotina, devemos, antes de tudo, voltar às nossas origens para que possamos perceber o impulso original que nos leva a confirmar-nos no presente e a projetar-nos no futuro com firmeza e perseverança. Segundo as Leis da SAC, n. 19: “A nossa consagração tem suas raízes na consagração batismal, da qual é uma expressão mais perfeita. Ela nos associa, de forma nova e especial, à missão da Igreja para a difusão do Reino de Deus sobre toda a terra”.
Para que um trabalho de evangelização tenha bom êxito, é necessário que o evangelizador tenha consciência da missão que abraçou, por isso, o Concílio Vaticano II procurou levar a Igreja à sua fonte original: Jesus Cristo, o Enviado, o Apóstolo do Pai e Salvador do mundo. Com o Concílio a Igreja interrogou-se à respeito da sua relação com o Pai, com o Filho e com o Espírito Santo; procurou descobrir sua identidade, o que a alimenta e renova e qual é sua relação com o mundo, como ‘sacramento universal da salvação’ (LG 48).
O Concílio Vaticano II quis promover também a renovação da vida religiosa mediante a volta às fontes – Cristo, o Evangelho e os Fundadores – e a sua adaptação aos tempos. A Família Palotina, também procurou fazer este trabalho de renovação, buscando força e ânimo no carisma deixado por Pallotti cuja renovação segundo o Evangelho é a missão na Igreja de hoje. Mas, esse retorno às fontes não foi comunitário, visto que cada instituto palotino o fez por sua própria conta. Mas estamos tentando, agora, voltar juntos às nossas fontes comuns, e descobrir e acolher juntos o dom que o Espírito Santo deu a São Vicente Pallotti e que nós, como seus seguidores, devemos oferecê-lo à Igreja. Daí a importância de acolher esse dom, de apropriar-nos dele e de torná-lo fecundo à toda a Igreja. Portanto, cada membro, seja padre ou irmão, no estado em que se encontra, deve testemunhar sua fé em Cristo, por meio de obras espirituais e materiais.

Que o Espírito Santo de Deus nos dê o dom da sabedoria e do entendimento, para que juntos possamos encontrar a melhor forma de atualizar o carisma de São Vicente Pallotti, o Apostolado Universal, de maneira nova e criativa no mundo em que vivemos. Para que isso aconteça, todos os membros devem empenhar-se de verdade, colocando seus dons a serviço, para assim continuar levando Cristo a todos aqueles que ainda não o conhecem. Essa é a missão comum que os filhos de São Vicente Pallotti devem abraçar, nesse novo milênio.
2.      As grandes necessidades do mundo e da Igreja vistas e sentidas por São Vicente Pallotti

Todos os fundadores partiram de uma viva e forte percepção das necessidades da humanidade e da Igreja. As suas iniciativas e trabalhos foram orientados à superação de tais dificuldades. Pallotti percebeu e sentiu, de um modo todo especial, as grandes necessidades do mundo e da Igreja. Fez isso iluminado pela fé e pelo conhecimento que ele teve destes, graças aos seus muitos contatos com a realidade do mundo missionário, principalmente, na Propaganda Fide.
As grandes necessidades do mundo percebidas e sentidas por ele situavam-se, sobretudo, no plano religioso. Via-o e o sentia com os olhos e com o coração do Cristo Apóstolo, do Cristo Missionário, do Cristo Enviado do Pai: um mundo a ser salvo e conduzido ao Pai celeste.
Pallotti constatava que a grande maioria da humanidade desconhecia ainda Jesus Cristo e não cria nele. A maior parte dos homens não acreditava no Cristo e por isso era “infiel”, isto é, sem a fé cristã. Este, segundo Pallotti, necessita mais de ajuda[1].
Pallotti viu e sentiu as grandes necessidades da Igreja do seu tempo, profundamente ferida pela Revolução Francesa que quis substituir Deus pelo homem e criar uma sociedade humana sem Deus e sem Jesus Cristo. Tal revolução desencadeou uma luta contra a Igreja em todos os campos e perseguiu e matou também muitos cristãos. Procurou desmoralizá-la e tudo que se relacionava com Deus. Como consequência, houve uma grande diminuição das forças missionárias na Igreja e faltavam os operários evangélicos necessários para evangelizar o mundo e também para conservar a fé cristã, onde ela se encontrava. Pallotti escrevia:

 Os campos dourados aguardam, impacientes, a mão que venha segá-los. Mas, infelizmente, quanto mais abundante e madura é a colheita mais escasso é o número dos ceifeiros que devem recolhê-la. As vocações eclesiásticas se tornam cada dia mais raras. Por causa dos acontecimentos passados as ordens religiosas, que tinham suas vocações próprias, não têm hoje sequer o número suficiente para manter a religião onde ela se encontra; muito menos ainda há homens apostólicos suficientes para levar a religião onde ela não se encontra. Oh, a lastimável escassez de operários evangélicos, tanto para cultivar a religião de Jesus Cristo dos poucos católicos, quanto, e muito mais, para ocupar-se da conversão dos hereges e infiéis! Regiões vastíssimas mal chegam a ver um padre no espaço de anos. E a maior parte dos infiéis, milhões e milhões deles caem sepultos nas trevas dos erros, sem que até eles chegue um pregoeiro do evangelho[2].

Via também um grande número de fiéis separados do verdadeiro rebanho de Cristo: hereges e cismáticos. Se a vista dos pobres e doentes o entristecia e o comovia, muito mais ainda sofria e comovia-se ao ver a maior parte da humanidade privada da luz e da presença salvadora de Jesus Cristo.
Pallotti percebeu que o mundo precisava ser evangelizado para poder ser salvo por Jesus Cristo e ter a vida eterna. Como não há evangelização sem evangelizadores, e estes eram muito escassos, era preciso multiplicá-los e qualificá-los, isto é, formá-los, habilitá-los e enchê-los do espírito de Cristo. Além de poucos, os ministros ordenados estavam muitas vezes desunidos. Pallotti lamentava a divisão entre o clero diocesano e o clero regular, a separação entre os religiosos, os clérigos e os leigos. Os clérigos acreditavam que o apostolado era privilégio próprio. O próprio ministério sacerdotal era muitas vezes subordinado a interesses materiais, o que alimentava o carreirismo e a competição entre os membros da hierarquia eclesiástica.
Além disso, o clericalismo fomentava o passivismo dos leigos. Paulo VI disse, em Frascati, diante do corpo de Pallotti, que “o mundo dos leigos era passivo, sonolento, tímido e incapaz de expressar-se”[3].
Este passivismo dos leigos era causado não só pelo clericalismo dominante dos clérigos, mas também pela grande ignorância da vocação apostólica ou evangelizadora própria de todos os cristãos, por uma falta de fé viva e de uma caridade ardente. Para Pallotti, o apostolado cristão brotava de uma fé viva e de uma caridade ardente e, sem elas, não há apostolado e nem interesse em propagar a fé cristã no mundo.

3.      A resposta de São Vicente Pallotti frente aos desafios
Quais foram os sentimentos e as reações de São Vicente Pallotti diante das enormes necessidades do mundo e da Igreja? Nele aparecem os mesmos sentimentos de Cristo, Apóstolo do Pai eterno. O Espírito Santo fez com que ele penetrasse profundamente no coração do Cristo e fizesse seus os sentimentos do próprio Cristo, Apóstolo e bom Pastor. A exemplo de Cristo, que era tomado de compaixão à vista dos homens enfraquecidos e abatidos, como ovelhas sem pastor e sujeitos a muitíssimas fraquezas (cf. Mt 9,35s), Vicente Pallotti era tomado de grandíssima e profunda compaixão pelos que se encontravam mergulhados nas trevas do erro e desconheciam totalmente Jesus Cristo Salvador. Sentia uma enorme compaixão por aqueles que deixavam este mundo sem fé ou com uma fé morta, porque não animada pela caridade e por isso mesmo expostos às terríveis consequências que a própria fé ensina[4]. Ele era incapaz de olhar com indiferença para tantos irmãos ameaçados de perder-se para sempre, mas era impelido pela caridade de Cristo a orar e a socorrer com as obras o mundo necessitado de salvação[5]. Desejava ardentemente que todo o mundo fosse reconduzido a um só rebanho e a um só pastor[6]. A exemplo de Cristo, queria dar-se por inteiro a todos a fim de reconduzir a todos ao rebanho de Cristo. Queria evangelizar a todos, anunciar a eles a boa nova, ajudá-los, especialmente os mais necessitados, como manda a caridade cristã.
A exemplo de Cristo que ordenou pedir ao Pai a multiplicação dos operários evangélicos, Pallotti desencadeou um movimento de oração na Igreja em favor da multiplicação dos operários evangélicos e da sua formação e sustento[7]. Guiado pelo Espírito Santo, Pallotti compreendeu os sentimentos de Cristo e penetrou no sentido mais profundo da palavra de Deus e entendeu que toda a Igreja e todos os seus membros estão chamados a se empenhar na continuação do apostolado de Jesus Cristo ou na prolongação da sua missão no mundo. Viu que o empenho na salvação do mundo pertence a toda a Igreja e a cada um dos seus membros. Pallotti compreendeu que Deus quer que o homem coopere ativamente na salvação eterna do seu próximo. Não apenas os ministros ordenados, mas também todos os cristãos são chamados a cooperar eficazmente na propagação da fé no mundo inteiro e por isso a ajudar o próximo a conseguir a sua felicidade eterna.
Para Pallotti, portanto, todos os homens pelo fato de serem imagem e semelhança de Deus devem empenhar-se em ajudar o próximo a conseguir a vida eterna, pois Deus em todas as suas ações voltadas para fora procura sempre o bem do homem, até ao ponto de enviar o seu único Filho para redimir o gênero humano com sua morte na cruz[8]. “Deus é perfeito no amar o homem. Desde toda a eternidade o amou, vendo-o na sua infinita presciência e ama o homem por toda a eternidade. E pelo homem obra sempre no tempo com a criação, conservação, redenção, e na eternidade com a glorificação”[9]. Também o homem, na medida das suas possibilidades, deve imitar a Deus amando a seu próximo com a eficácia das obras. E o próximo é todo ser humano, de qualquer condição, clima, nação etc., capaz de conhecer a Deus[10].
São Vicente Pallotti afirmava que todos os fiéis são chamados a imitar Jesus Cristo, que é o Apóstolo do Pai eterno. Por isso, todos são chamados, conforme sua condição e estado, ao apostolado[11]. Mas, o que entende Vicente Pallotti por apostolado? Partindo da significação etimológica da palavra apóstolo, Pallotti dá também a significação de apostolado. Ele escreve:

Nosso Senhor Jesus Cristo é o Apóstolo do eterno divino eterno Pai, porque enviado por Ele para reparar a glória ultrajada da sua majestade e para redimir o gênero humano, tornado massa de perdição pelo pecado de Adão.  O apostolado de Jesus Cristo é a sua obediência ao preceito do Pai celeste, vale dizer, é a própria obra da redenção. Os doze nomeados no capítulo 6 de S. Lucas são os apóstolos de Jesus Cristo e tudo que eles, de acordo com o mandato de Jesus Cristo, fizeram pela maior glória de Deus e pela salvação eterna das almas, é o apostolado deles[12].

Apostolado é, portanto, a própria obra da redenção ou da salvação, e apóstolo é aquele que realiza a obra da salvação. Mas é também apóstolo aquele que coopera para a realização da salvação, preparando-a ou colaborando para sua realização, expansão e consumação. Assim, Maria é a Rainha dos Apóstolos porque mais do que ninguém, depois de Jesus Cristo, “contribuiu na sua condição para a propagação da fé e a dilatação do reino de Jesus Cristo. Por isso, cada um que, conforme seu estado e suas forças e confiando na graça divina, se dedica quanto pode à propagação da fé pode merecer o nome de apóstolo e tudo o que ele fizer para tal fim será seu apostolado”[13]. Daí a conclusão de Pallotti: “Apostolado Católico é fazer o que cada um pode e deve fazer para a maior glória de Deus e para a eterna salvação própria e dos demais”[14].
Diante da situação em que se encontrava o mundo privado da luz da fé cristã e também da situação lamentável em que se encontravam muitos cristãos, nos quais estava amortecida a fé e apagada a caridade, e por isso mesmo sem condições para praticar as obras da caridade salvífica, Vicente Pallotti viu a necessidade de fazer uma campanha em favor do reavivamento da fé e do reacendimento da caridade cristã entre os católicos, pois somente assim eles seriam capazes de interessar-se pela salvação eterna própria e do próximo. Daí o seu propósito inicial de jovem padre: reavivar na Itália e no mundo inteiro o espírito dos primeiros cristãos.
Na sua mente e no seu coração foi amadurecendo a ideia de despertar em todos os cristãos o espírito apostólico ou missionário de Jesus Cristo e de motivar toda a comunidade cristã a engajar-se na propagação da fé no mundo inteiro, pois a propagação da fé ou a evangelização de todos os povos ou a reunião de todos os homens no mesmo rebanho de Cristo é a obra mais própria da comunidade cristã, a mais necessária para a humanidade, a mais agradável a Deus e a mais meritória para todos os fiéis.
Junto com seus companheiros – sacerdotes diocesanos, religiosos e leigos – Vicente Pallotti deixou-se possuir, animar e impelir pelo espírito apostólico de Jesus Cristo e procurou levar ajuda aos necessitados. Aos poucos foi se formando no seu espírito a ideia de fundar a União do Apostolado Católico para reavivar a fé e reacender a caridade entre os católicos e para instituir um apostolado universal entre todos os católicos com o fim de propagar a fé e a religião de Cristo entre todos os infiéis e não católicos e para oferecer a todos uma obra na qual fosse possível praticar as obras de misericórdia espiritual e corporal com o fim de por meio delas dar a conhecer Deus como caridade infinita[15].
Guiado e também estimulado pelos pedidos de ajuda material e espiritual, que continuamente chegavam a ele e aos seus companheiros, e também pela resposta generosa de tantos cristãos em favor dos irmãos necessitados, junto com seus companheiros, São Vicente Pallotti quis fundar uma associação de fiéis que, unidos entre si pela caridade de Cristo e movidos por esta mesma caridade, procurassem multiplicar todos os meios espirituais e materiais necessários e oportunos para reavivar a fé e reacender a caridade entre os católicos e para propagá-las no mundo inteiro, a fim de que quanto antes houvesse um só rebanho e um só pastor. A fundação da União do Apostolado Católico foi confirmada e recomendada pela bênção especial do Cardeal Vigário de Roma, do seu substituto e do próprio Papa.

4.      O que São Vicente Pallotti, realmente, queria com a sua fundação?
Podemos dizer que Pallotti queria resgatar e promover o apostolado católico na Igreja, isto é, conclamar a todos para que assumissem o seu compromisso de cristãos. Ele foi o grande batalhador do apostolado universal, o qual ele colocou a União do Apostolado Católico a seu serviço e promoção. Com sua fundação, colocou-se por inteiro a serviço do Apostolado Católico e de cada um, instituído pelo próprio Cristo na sua Igreja para a salvação do mundo. Ele fundou uma comunidade eclesial apostólica a serviço do apostolado universal.
O carisma de São Vicente Pallotti envolve muitos elementos relacionados com Deus, com a humanidade, com a Igreja e com a história. Ele envolve uma profunda compreensão de Deus como amor infinito e misericórdia infinita. Por amor, Deus criou o mundo e colocou nele o homem feito à sua imagem e semelhança. Por amor, feito misericórdia, Deus quis salvar o homem perdido e reconduzi-lo por meio do seu Filho Jesus Cristo à comunhão com Ele. Por amor, Jesus Cristo realizou a vontade salvífica do Pai e quer a salvação de todos os homens.
Pallotti compreendeu que Deus não só quer a salvação de todos os homens, mas também que o homem, salvo por Jesus Cristo e enriquecido com o seu Espírito, coopere para a salvação do seu próximo. Pallotti compreendeu também que o homem, quando coopera para a salvação do seu próximo, presta o maior e melhor serviço a este e se torna mais semelhante a Deus, que é caridade por essência, e em todas as suas ações tem em vista o bem do homem, sua salvação e glorificação.
Entendeu, ainda, que assim como a ação salvadora de Deus é motivada pelo seu amor infinitamente misericordioso, da mesma forma todo apostolado nasce, é animado e acontece a partir da caridade de Cristo, derramada nos corações pelo Espírito Santo (cf. Rm 5,5). Compreendeu que o sentido de todo apostolado é cooperar para salvação do mundo em Cristo, para a salvação própria e do próximo.
Pallotti sentiu que toda a humanidade não só necessita da salvação, como é chamada a ser salva, pela infinita misericórdia de Deus. Viu-a como o alvo do amor de Cristo, vivo e atuante em cada coração cristão. Diante da imensa maioria que ainda desconhece o Cristo, todo o fiel deve empenhar-se pela salvação da humanidade por meio da oração, da pregação do evangelho e do exercício da caridade cristã. Ele entendeu, também, que a comunidade cristã inteira deve continuar e prolongar, no espaço e no tempo, a salvação realizada por Jesus Cristo mediante a sua morte, ressurreição e comunicação do seu Espírito.
Pallotti viu também que o cumprimento do mandamento de amar o próximo como a si próprio, estabelecido por Deus, já no Antigo Testamento e reconfirmado pelo Cristo, implica empenhar-se ativamente na salvação eterna do próximo, pois é impossível amar de verdade o próximo sem querer e ajudar que ele se salve. Pallotti também entendeu que todo ser humano está chamado a imitar nosso Senhor Jesus Cristo: Apóstolo do eterno Pai. Entendeu também que toda a vida de Cristo foi seu apostolado, pois foi toda consagrada à salvação. Entendeu que o apostolado é a realização da salvação e que tudo o que de um modo ou de outro contribui para a salvação do mundo em Cristo é apostolado. Por isso, todos são chamados a imitar o Cristo Apóstolo, devendo, portanto, como Ele, empenhar-se na salvação eterna do próximo. Para Pallotti, o trabalho de evangelização e de salvação não deve ser feito de modo isolado, mas de modo ordenado, isto é, em conjunto. A sua fecundidade depende da sua unidade. É necessário, portanto, unir forças no trabalho em favor do evangelho.
“São Vicente Pallotti foi, portanto, o grande incentivador do apostolado universal. Ele procurou despertar o espírito missionário, evangelizador em toda a Igreja. De modo particular, ele procurou redescobrir e promover o engajamento apostólico ou missionário de todo cristão leigo. Podemos dizer que ele contribuiu bastante para a redescoberta e a revalorização do espírito e do empenho missionário de toda a Igreja, especialmente dos leigos que, no seu tempo, eram passivos e inexpressivos em termos de missão e de apostolado. Pallotti intuiu, viveu, proclamou e promoveu a missionariedade ou a apostolicidade de todo cristão. Mostrou com a palavra e a vida que ser cristão é cooperar eficaz e generosamente para a salvação eterna do próximo e para a glorificação infinita de Deus”[16].

5.      A consagração na Sociedade do Apostolado Católico
Segundo o parecer da XVI Assembleia Geral Palotina, todos os membros da SAC participam da mesma consagração e, no seu plano fundamental, todos os membros são irmãos e os papéis exercidos por cada um deles têm importância secundária. A distinção entre ordenado e não ordenado faz parte daquele conceito de corpo no qual existem “muitos serviços e um só espírito” (1Cor 12). O que faz uma pessoa ser denominada palotina é a sua consagração e não o sacerdócio ministerial.

5.1. O irmão palotino
O papel do irmão palotino é o de dar testemunho da prioridade e da radicalidade evangélica da consagração ao apostolado. O primado da vida consagrada, como valor em si, é o primado do amor, e a consagração não tem menos valor que o ministério ordenado. O irmão faz entender que a Igreja Koinonia não é separável da Igreja Diakonia. O testemunho que o consagrado palotino procura dar no seu dia a dia, olhando para Cristo que viveu como um irmão entre os irmãos, é por meio das obras de misericórdia e de caridade, como bem lembrou o Papa Bento XVI, na sua mensagem enviada por ocasião dos cinquenta anos da canonização do nosso Santo Fundador:

“A fé viva e a caridade operosa foram os dois pilares sobre e os quais S. Vicente Pallotti apoiou firmemente a sua luminosa vida e a sua obra generosa; duas forças interiores que impulsionaram e sustentaram tantas iniciativas apostólicas de que estava cheia a sua vida. “Caritas Christi urget nos” (2Cor 5,14), era o lema que motivava também os seus seguidores. O fruto maduro de seu zelo foi a fundação da União do Apostolado Católico que, já naquele tempo, valorizava a colaboração de todas as categorias de fiéis na Igreja – leigos, sacerdotes, consagrados – vivificando a fé de cada um, para que se tornasse apóstolo, portador do fogo do amor de Deus”.

São Vicente Palloti ao meditar os Evangelhos descobriu que Cristo é o enviado do Eterno Pai, um irmão entre os irmãos, ou seja, viveu inserido no meio do seu povo, tomando contato com as suas realidades humanas de alegrias e de sofrimentos, por isso colocou-se sempre ao lado daqueles mais necessitados. Cristo ao assumir a nossa humanidade procurou atrair-nos de todos os modos para Deus. Ele mostrou o amor infinito de Deus Pai para conosco, acolhendo a todos indistintamente: “Eu não vos chamo servos, mas amigos...”; Amigo é aquele que faz parte da nossa vida, aquele que partilha a mesma mesa e o mesmo pão. Essa imagem do Cristo irmão entre os irmãos pode ser percebida de maneira muito clara no encontro de Jesus com Madalena, com a Samaritana, na visita da casa de Zaqueu, do compadecer-se do povo que caminhava como ovelhas sem pastor, etc. Toda a vida de Jesus foi um contínuo doar-se em favor da salvação da humanidade.
São Vicente Pallotti, na sua profunda experiência de Deus como misericórdia infinita, entendeu que Jesus realiza plenamente a obra de Deus junto à humanidade, como o Apóstolo do Eterno Pai, que veio a esse mundo somente para fazer o bem (cf. At 10, 38). A exemplo dele, todos os batizados também podem fazer o bem, podem aliviar as dores físicas e espirituais de muitos com suas orações e obras de misericórdia. Por isso, é urgente que todos nos responsabilizemos pela salvação da humanidade. Para aqueles que são consagrados cabe adquirir sempre mais esse zelo apostólico, consumindo assim suas forças para que o mais rápido possível, todos possam conhecer a salvação que vem de Deus. E quanto mais e melhor esse trabalho for coordenado, muito mais poderemos fazer pela salvação das almas. Portanto, o irmão palotino porta consigo uma grande herança, deixada pelo Santo Fundador. Basta apenas descobrir suas habilidades e carismas para colocar-se, plenamente, no apostolado da Igreja. 

5.2. Identidade do irmão
O Irmão é um homem que vive a radicalidade do evangelho conforme o carisma de São Vicente Pallotti. Ele serve à Igreja e ao mundo, participando das obras apostólicas da SAC com seus ofícios, serviços e ministérios que não requerem a ordenação. É chamado por Deus ao seguimento de Cristo na realização das tarefas da UAC. Vive o testemunho profético do Cristo Apóstolo do Eterno Pai, no estilo de vida segundo a Lei da SAC.
Vicente Pallotti, nos escritos compostos em Camaldoli, em 1839, apresentou o trabalho apostólico de maneira bastante ampla, levando em conta a presença de inúmeras comunidades, cada uma delas com ministérios diferentes. Nas Regras para tais comunidades, ele previu trabalhos específicos também para os irmãos leigos. Segundo ele, nas casas dos Sagrados Retiros, não deviam e não podiam faltar as obras manuais da Casa de Nazaré, isto é, os trabalhos de marceneiro, ferreiro, sapateiro, alfaiate e outras funções”[17] (Ratio, Cap. VIII sobre os irmãos, n. 322).
Nas “Regras dos Santos Retiros, Colégios, Seminários e Monastérios” de 1839, Pallotti usa o termo “Irmãos Leigos”[18]. Para ele, o Irmão existe não para ser apenas um colaborador dos sacerdotes, mas, sim, um “colaborador do Apostolado Católico”, através do trabalho prestado à Congregação (Ratio, Cap. VIII sobre os irmãos, n. 323).
Pallotti não via os irmãos ocupados somente com os trabalhos manuais, mas também atuando em serviços apostólicos. Escreve: “No fazer a doutrina aos irmãos se tenha como alvo torná-los todos capazes de poder ensinar aos jovens nas paróquias, hospitais, cárceres e nas ocasiões das Santas Missões; e aos mais idôneos, segundo suas disposições, poderão ainda ser catequistas dos missionários que vão às partes dos infiéis; nenhum, porém, seja enviado sem que tenha sido plenamente instruído segundo as necessidades das respectivas regiões, onde estará a missão”[19] (Ratio, Cap. VIII sobre os irmãos, n. 325).
Ele escreve ainda sobre outras profissões, tais como: tipografia, padeiro e qualquer outra profissão. Isso deve influir positivamente na economia da Congregação[20]. Os irmãos devem ter como modelo, Jesus “operário”, que por cerca de trinta anos escolheu o trabalho, “seja de madeira e de ferro”[21], e o “grande Patriarca S. José”[22]; enquanto os sacerdotes têm a sua raiz espiritual e o seu exemplo em Jesus, “Apóstolo do Eterno Pai” (Ratio, Cap. VIII sobre os irmãos, n. 331).
Mas Pallotti não se limita somente a isso. Ele deseja que os irmãos se preparem para desenvolver o apostolado dos enfermos[23], como catequistas, mesmo que sejam somente para as missões “ad gentes”. Os que tiverem mais condições sejam instruídos, primeiro na língua, nos costumes locais e nas “necessidades das respectivas regiões”. Poderão ter e desenvolver a função de catequistas nas Missões externas[24] (Ratio, Cap. VIII sobre os irmãos, n. 332).

5.3  Igualdade de direitos entre padres e irmãos
   Os Irmãos Palotinos, reconhecendo e aceitando a urgência de “reavivar a fé e reacender a caridade”, segundo os ideais apostólicos de Pallotti, doam-se à vida do Apostolado Católico, em uma experiência de vida consagrada, ou seja: em castidade, pobreza, obediência, como condição antecipada do reino de Deus, declarado em promessas, associando a elas aquelas características palotinas de perseverança, vida comum perfeita e recusa das dignidades eclesiásticas. Por isso, em uma espiritualidade idêntica para eles e para os sacerdotes, colaborando diretamente para o progresso da União do Apostolado Católico, através da Congregação, hoje Sociedade, mas de maneira diferente. Os sacerdotes, com seu ministério, e os irmãos, com seu trabalho ou com sua profissão. A Congregação Palotina, filha do seu tempo e de um preciso contexto cultural eclesial, nasceu clerical, ou seja, Pallotti confiou sua direção e responsabilidades, somente, aos seus sacerdotes (Ratio, Cap. VIII sobre os irmãos, n. 334).

5.4  Os irmãos: promotores do apostolado católico
Segundo o nosso Santo Fundador, os Irmãos são cooperadores e promotores do Apostolado Católico e não dos sacerdotes[25]. Neste, os irmãos, os sacerdotes e os leigos gozam da mesma igualdade nas obras do Apostolado Católico. Os trabalhos apostólicos específicos podem diferenciar, mas eles são parceiros e cooperadores, com igual paridade, no Apostolado Católico (RI n. 337).
O “Irmão” terá maior apreço pelo seu ministério e seu papel, quando ver o seu apostolado ou o seu trabalho bem “definido” na Igreja, digno de uma dedicação por toda a vida. O irmão Palotino, na procura de se tornar um autêntico “apóstolo de Jesus Cristo”, descobriu o valor do seu particular ministério, tornando-se “sinal” para toda a União do Apostolado Católico (RI n. 340).
A consagração apostólica é que dá o significado e a identidade à vocação e à vida cristã dos Irmãos[26]. Os Irmãos Palotinos são cristãos leigos, que se consagram publicamente, por meio das promessas a Deus e ao ministério da Igreja. Vivem em comunidade para o recíproco sustento e companhia, e vivem juntos a mesma fé católica e o patrimônio da Sociedade. A sua vocação não é nem superior e nem inferior ao matrimônio, nem ao sacerdócio, nem a um “solteiro”. É diferente. A escolha deste estado de vida não é por falta de capacidade de se chegar ao sacerdócio, mas por ter recebido um chamado especial de Deus, para viver a consagração Palotina em si mesma, sem o acréscimo da vida sacerdotal. A consagração Palotina, tanto para os candidatos ao sacerdócio, como para os irmãos é a mesma. Isso compreende a pessoa do Fundador, a sua espiritualidade, o seu carisma, a história da nossa fundação e as promessas de castidade, pobreza obediência, perseverança, comunhão de bens e espírito de serviço (Ratio, Cap. VIII sobre os irmãos, n. 345).

5.5  Uma espiritualidade única
São Vicente Pallotti estava profundamente convencido de que cada cristão é chamado a ser apóstolo e a colaborar no apostolado da Igreja como continuação da obra redentora de Cristo. Por isso, tanto os padres como os irmãos da SAC participam de uma mesma e única espiritualidade, a do Cristo apóstolo do Eterno Pai.
Visto que ser enviado é a característica essencial de Cristo, então, todo aquele que se lhe aproxima, é inserido na sua missão de salvador do mundo. Por isso, a espiritualidade palotina é essencialmente apostólica, porque o seu único interesse é a maior glória de Deus e a salvação do próximo. O palotino, imbuído por esse sentimento, está empenhado em promover a obra da redenção de Cristo e de espalhar a fé e a caridade e a realizar a salvação entre os homens. A espiritualidade palotina é dinâmica e olha sempre para o futuro, não fica centrada em si mesma, mas requer engajamento e atividade apostólica.
Outra característica de nossa espiritualidade é a universalidade, enquanto se identifica com a espiritualidade cristã. Ela é universal enquanto penetra na vida e no agir do cristão. “O apostolado católico, isto é, o apostolado universal, como é comum a todas as classes de pessoas, consiste em que cada um faça o que pode e deve para a maior glória de Deus, para a salvação da sua própria alma e a do seu próximo”. A Sociedade também está fundada no amor. Ela tem como fim promover em todos os fieis as obras de caridade e de misericórdia para a maior glória de Deus e da Imaculada Mãe de Deus e para a maior santificação dos homens. Por isso, deve ser sempre motivada pelo espírito da perfeita caridade. O amor, como descreve São Paulo, é a parte essencial e constitutivo da nossa Sociedade. Se o faltar, não mais existirá o apostolado católico. Esse amor deve ser de emulação, desinteressado e exercitado, pois ele é o motivo último do nosso engajamento apostólico.
Uma característica típica da espiritualidade palotina é a especial relação entre apostolado e imitação de Cristo. Segundo Pallotti, o apostolado de Cristo é a sua obediência ao preceito do Pai celeste. Por este motivo, Pallotti fez da vida de Cristo a regra fundamental de todas as comunidades por ele fundadas. Sendo assim, a espiritualidade palotina não pode ser individualista, mas deve ter um caráter social e comunitário. Ela exige dos membros um especial amor à Igreja, que tem por missão continuar a obra redentora de Cristo.
A União do Apostolado Católico, por sua vez, atinge todas as vocações da Igreja: sacerdotal, religiosa e leiga. Mas, o sacerdócio na comunidade palotina tem o mérito de servir, na Igreja, como ponto de união entre o clero secular e regular, apta para animar um e outro, numa ligação sagrada capaz de gerar em ambos, maior caridade e maior zelo apostólico (OOCC III, 3-4, 83, 90; VII, 4; IX 25).
Outro aspecto importante da espiritualidade palotina é a devoção à Maria, Rainha dos Apóstolos, isto porque ela significa o mais luminoso exemplo de um apóstolo leigo e a melhor justificação para a existência do apostolado leigo. O espírito mariano da nossa comunidade exige, pois, de nós não somente um cultivo pessoal da devoção à Maria, mas, sobretudo, que a imitemos na sua maneira de exercer o apostolado: através de uma fé inabalável, de uma vida de perfeita imitação de Jesus Cristo, de uma prontidão em servir ao Senhor e à Igreja, por meio da oração e do sacrifício.
Diante desse cenário, Pallotti teve sempre em mente a imagem do Cenáculo de Jerusalém, local onde o Espírito Santo se manifestou e encorajou a todos para que dessem testemunho de Cristo ressuscitado em todas as nações. Inspirado por essa realidade, Pallotti desejou que as nossas casas vivessem sempre no Cenáculo com Maria, Rainha dos Apóstolos. Pois, foi lá que a comunidade nascente buscou, por meio da oração incessante e a convivência fraterna, conhecer a vontade de Deus. Assim, também, as nossas comunidades devem enfrentar os desafios apostólicos do nosso tempo, em um clima de oração, de humildade e de unidade.
Portanto, essa é a espiritualidade vivenciada pelos sacerdotes e irmãos palotinos, e cabe a cada um dos membros fazer do ambiente onde se vive um verdadeiro Cenáculo, ou seja, um local de oração, de encontro fraterno e de decisões conjuntas, pois, só assim, poderemos responder aos desafios do nosso tempo, com o mesmo vigor enfrentado pelo nosso Santo Fundador, no contexto eclesial de sua época.
 Com esse espírito, a comunidade palotina deve conduzir os batizados a viver a sua mais profunda entrega nas mãos do Deus Amor Infinito. Essa missão não é exclusiva, somente, do ministro ordenado, mas de cada consagrado. Por isso, todos devem utilizar os meios necessários e disponíveis, para que, o mais breve possível, a humanidade inteira chegue ao pleno conhecimento de Deus e assim encontrem a salvação eterna.
6.      Conclusão
Ao concluir essa breve reflexão sobre o que é comum na realização do trabalho apostólico entre os sacerdotes e os irmãos da SAC, podemos dizer que temos muitas coisas que nos igualam no apostolado. Antes de tudo, somos filhos do mesmo Pai, recebemos um mesmo batismo e por fim, herdamos um mesmo carisma e recebemos uma mesma consagração. Todos aqueles que se apaixonaram por este carisma possuem uma única preocupação, o apostolado universal, ou seja, conduzir todos ao conhecimento de Deus e à salvação da sua alma. Essa missão não é exclusiva do ministério ordenado. Aqueles que optaram pela ordenação sacerdotal estão submetidos não somente às Leis da SAC, mas também às diretrizes das suas respectivas Dioceses, porém, o espírito palotino deve permanecer. Ele deve apresentar o seu modo de ser palotino, fazendo com que todos os fiéis possam descobrir a sua vocação e o zelo pelo apostolado universal.
O palotino, seja ele padre ou irmão, deve ter sempre uma única preocupação, fazer tudo para a maior glória de Deus, e conduzir a todos à salvação. Deve ainda fomentar o dever missionário em cada cristão, fazendo com que as pessoas saiam da inércia e não se preocupem apenas com o seu bem estar espiritual, mas de todos. Esse é um árduo serviço que não tem fim, mas o palotino deve ter plena consciência de que é esta a sua missão junto ao povo de Deus. Se os padres e os irmãos trabalharem unidos com este mesmo objetivo, certamente, poderemos ter uma Igreja mais viva e atuante. Esse é também o desejo de toda a Igreja, principalmente quando o Papa Bento XVI conclama a todos para a vivência do Ano da Fé. Que possamos aproveitar mais esta oportunidade para melhor desenvolvermos o nosso carisma, juntamente com as Igrejas particulares, oferecendo aquilo que sabemos fazer. Se esse é o grande desafio para a Igreja universal, em um mundo que se distancia cada vez mais de Deus, por que não apresentarmos um novo projeto de evangelização que possa atingir não somente as paróquias bem como todas as Igrejas particulares? Creio que com o empenho e a criatividade de cada um, poderemos fazer com que a obra de Deus atinja os seus objetivos, salvar almas e conduzi-las para mais perto de Deus.
O sacerdote palotino, mesmo tendo suas obrigações junto às dioceses, no que diz respeito aos trabalhos pastorais e administração dos sacramentos, ele tem um diferencial que é o de fazer tudo para a maior glória de Deus e a salvação das almas e, para isso, usa de todos os meios possíveis e disponíveis. A sua preocupação deveria estar voltada também para a formação e conscientização de todos os fiéis da sua verdadeira missão, recebida no batismo. Uma paróquia com a presença de padres e irmãos palotinos deve imprimir nela as características do nosso carisma, onde todos possam se sentir corresponsáveis pelo anúncio do evangelho, na condição em que se encontram. Para isso é necessário que se crie escolas de formação permanente e campos de missão popular, onde o leigo possa se sentir corresponsável pela sua formação e pela formação do próximo, não sendo mero espectador. O tempo é favorável e os leigos estão sedentos de uma espiritualidade mais concreta e profunda.
Esse trabalho jamais deveria ser isolado e sem a colaboração do irmão. Por isso, os trabalhos apostólicos deveriam ser desenvolvidos sempre em sintonia com as respectivas dioceses, onde for possível, sem perder aquilo que é próprio do nosso carisma, reavivar a fé e reacender a caridade cristã entre os católicos e levar a todos ao reconhecimento do amor misericordioso de Deus, por meio de obras espirituais e materiais. 

[1] Vicente PALLOTTI. Escritos seleccionados. Edit. por Bruno BAYER - Josef ZWEIFEL. Trad. de Ángel F. de Aránguiz SAC. Zamora: Ed. Monte Casino, 1988, pp. 34, 35, 96; Edição brasileira: Documentos da Fundação. Trad. do Pe. Dorvalino Rubin (textos de Pallotti) e Pe. João B. Quaini (introduções), Santa Maria: Pallotti, 1996, pp. 42, 44, 117-118.
[2] Escritos seleccionados, p. 102; Documentos da Fundação, p. 124.
[3] Cf. Informações Palotinas, Santa Maria, dez. (1994), p. 98.
[4] Escritos seleccionados, pp. 74, 92-93; Documentos da Fundação, pp. 90, 113-114.
[5] Cf. Escritos seleccionados, p. 74; Documentos da Fundação, p. 90.
[6] Cf. Escritos seleccionados, p. 93; Documentos da Fundação, p. 114.
[7] Cf. Escritos seleccionados, pp. 44, 85; Documentos da Fundação, pp. 56, 101.
[8] Cf. Escritos seleccionados, p. 75; Documentos da Fundação, p. 91.
[9] Escritos seleccionados, p. 94; Documentos da Fundação, p. 116.
[10] Cf. Escritos seleccionados, p. 75; Documentos da Fundação, p. 92.
[11] Cf. Escritos seleccionados, pp. 26-27; Documentos da Fundação, p. 33.
[12] Escritos seleccionados, p. 25; Documentos da Fundação, p. 31.
[13] Escritos seleccionados, p. 26; Documentos da Fundação, p. 32.
[14] Escritos seleccionados, p. 27; Documentos da Fundação, p. 34.
[15] Cf. Escritos seleccionados, p. 29; Documentos da Fundação, pp. 36-37.
[16] Leis da Sociedade do Apostolado Católico. Porto Alegre: Pallotti, 1984, cf. Preâmbulo, a. b. c.
[17] Cfr. OOCC II, p. 146.
[18] Cfr. ivi, pp. 145-147.
[19] Ivi, p. 91.
[20] Ivi, pp. 154-155.
[21] Cfr. ivi, p. 154.
[22] Cfr. ivi, p. 156.
[23] Cfr. ivi, p. 90.
[24] Ibidem.
[25] Vedi il titolo di OOCC VII.
[26] Cfr. Hubert Socha, La natura fondamentale e le caratteristiche di una Società di Vita Apostólica con particolare riferimento ai suoi tre tipi, ACTA SAC, Volume XVIII, pp. 579-580.