terça-feira, 24 de fevereiro de 2009

Quaresma, tempo de mudar velhos costumes.

PENITÊNCIA INTERIOR

A penitência interior é a disposição fundamental do cristão, para vencer o pecado e obter o perdão de Deus.
A primeira coisa a fazer é confessar nossa pecaminosidade: sem desculpas, sem reivindicações e sem autocomplacência.
É preciso confessar nossa incompetência para livrar-nos da pecaminosidade, para criarmos em nós a necessidade de estarmos sob a luz do poder salvífico de Deus em Jesus Cristo.
O cristão deve fazer a experiência da infelicidade, para poder abrir-se Àquele que é e que pode dar a verdadeira felicidade. “Deus derruba os orgulhosos de seus tronos e eleva os humildes”.
Quem me libertará desse corpo mortal?
Quem já não fez a experiência da maldade interior? Quanta coisa ruim passa pela nossa mente? Quanto desejo de vingar aqueles que nos fizeram o mal? Diante dessa triste realidade humana, queremos aproximar-nos de Jesus, sem nenhuma confiança em nós mesmos, para que a graça de Deus transforme nossos velhos hábitos de viver mergulhado no pecado.
Jesus veio para estar com os pecadores e não para os justos. Ele deseja que o ímpio retome o caminho do bem.
Se nos consideramos bons e justos, então ele não veio para nós. “Eu me alegro das minhas fraquezas, porque quando sou fraco, daí que sou forte” (2Cor 12,7-10).
Precisamos estar alertas para que não sejamos hipócritas e que assim não permaneçamos cegos e duros de coração. O filho pródigo só reivindicou direitos (Lc 15,11-32); A esmola e o jejum que agradam a Deus (Mt 6,1-6.16-18).
Em nossos tempos, é muito difícil alcançarmos o sentido de nossa impotência e nossa necessidade de Jesus, pois o pecado pode ser justificado. Para que legitimemos nossas más ações.

O sentido do pecado

Nós não damos muito valor aos nossos pecados. Aliás, o próprio Santo Antão diz que não devemos viver em função do nosso pecado, mas da graça de Deus. O que passou, passou.
Jesus dá muita importância para esta questão. (Heb 12,1b-2 – “Deixemos de lado o que nos pesa e o pecado que nos envolve”; Rom 8,18-21 – “A criação ficou sujeita à vaidade”).
Para ele o perdão dos pecados é muito mais importante do que a saúde física e os bens materiais. Em (Mt 9) cura o paralítico para mostrar a seus adversários que lhe deu uma graça muito mais preciosa, o perdão dos pecados.
Nós, talvez, somos menos sensíveis do que as pessoas do tempo de Jesus. O perdão dos pecados não ocupa os primeiros lugares da lista de primeiras necessidades. É por isso que temos maior necessidade do dom da penitência interior.

O significado da penitência interior

Não é só contrição pelo pecado. Ela é um dos aspectos, mas de modo algum a mais importante.
A palavra grega metanoia indica mudança total de ânimo e de propósito. Penitência interior é a reorientação radical de toda vida, um retorno, uma conversão para Deus de todo nosso coração, uma ruptura com o pecado, aversão ao mal e repugnância às más obras. É desejo e resolução de mudar de vida com esperança na misericórdia divina e a confiança da ajuda de sua graça. (Dt 7,6b.8-9 – “Deus perdoa até a milésima geração”).
Pode-se descrever a penitência como um amar Deus de todo o coração, com toda a alma e com toda a força, com toda inteligência, e o próximo como a si mesmo (Lc 10,27).
Posso chorar lágrimas amargas por meus pecados e dizer a Deus que estou profundamente triste por eles e deles peço perdão. Mesmo assim, isso não me dá o dom da penitência. Talvez esteja longe de querer abandonar todos os apegos desregrados, amar Deus com todo meu ser e levar a vida radicalmente nova com atitudes radicalmente novas que isso infere.
Esta penitência interior vem acompanhada de uma dor e tristeza salutares, chamada de animi cruciatus (aflição do espírito) e compunctio cordis (arrependimento do coração). Outra característica da penitência interior é a alegria e a paz.
Quando falamos de penitência no retiro, as pessoas sempre se preparam com uma porção de sentimentos negativos: sentimentos de culpa e rancor contra si mesmo e até tristeza e desânimo. Mas quem confunde contrição pelo pecado com tristeza não sentiu contrição pelo pecado que vem do Espírito Santo, não é dor salutar.
Estranho paradoxo: lágrimas de contrição (que são dom do Espírito Santo) por termos ofendido a Deus, coexistindo com sentimentos de alegria por tê-lo encontrado de novo, por ele ainda nos amar, por nossos pecados terem sido perdoados. “Haverá festa no céu por um só pecador que se converta...”
Jesus sempre liga o arrependimento e a penitência a sentimentos de profunda alegria. Com muita ternura, ele nos relata como é o Pai quem se alegra quando o filho cabeçudo volta para casa, o pastor que se alegra quando encontra a ovelha perdida, os anjos de Deus que se regozijam quando um pecador se arrepende. Quanta alegria o pecador dá a Deus quando ele retorna.
Quando não há desejo pela penitência interior e sim por atos formais, nos identificamos e muito com a atitude do jovem rico. Ficamos tristes e abandonamos tudo, pois preferimos ficar somente com os bens e com aquilo que conseguimos conquistar (Mc 10, 17-27).
Se, porventura, em seu interior tiver passando algum tipo de desânimo e tristeza, peço que faça um exercício de pedir os sentimentos opostos: alegria porque vão ser abraçados mais uma vez pelo Pai.
Não há melhor maneira de pedir o dom da penitência do que repetindo: "meu Deus, eu vos amo verdadeiramente e quero vos amar com todo coração, mente e com todas as minhas forças". Lembremo-nos do Shemá Israel (Dt 6,4-7): “Ouve, Israel, o Senhor teu Deus, é o único Senhor. Amarás o Senhor teu Deus com todo o teu coração, com toda a tua alma e com todas as tuas forças”.

O arrependimento segue-se ao encontro com Cristo

Pelo que foi dito até agora parece que a penitência é um meio para encontrar Cristo. Isso só é verdade em parte. Em geral, o encontro com Cristo precede a graça da penitência. Sem dúvida, há algum arrependimento inicial que nos ajuda a experimentar Cristo mais profundamente, mas é só depois da experiência que recebemos a graça da penitência em toda sua plenitude. É depois de encontrá-lo que entendemos o que é o pecado e o que é o amor. Não é o pecador, mas o Santo que sabe o que é o pecado, porque o santo recebeu a luz de Deus. Conhecemos nosso pecado por uma revelação de Deus e não por uma análise de introspecção. (Após a negação, Pedro chorou amargamente).
As Escrituras nos dão muitos exemplos. Quando perseguia a Igreja, Saulo julgava estar prestando um serviço a Deus. Considerava-se o mais perfeito, o mais zeloso, o mais fervoroso de todos os judeus. Só percebe o seu pecado depois do encontro com o ressuscitado. Aí se considera inferior a todos os apóstolos, nem mesmo é digno de ser assim chamado porque é como um aborto e porque perseguiu a Igreja. O mesmo acontece com Pedro depois da pesca milagrosa quando exclama: "Afasta-te de mim, Senhor, porque seu um pecador!". Zaqueu promete mudar de vida, depois que o Senhor entra na sua casa.
Como podemos nos arrepender por ofender o Senhor, sem primeiro amá-lo? E como o amaremos sem primeiro entrar em contato com ele e ter experiência dele? A meditação sobre o pecado e a penitência não é só dos principiantes na vida espiritual, mas também dos grandes santos, os homens que progrediram bastante em santidade. Assim vemos nos escritos de Pallotti. É desconcertante quando vemos como ele se vê a si mesmo. Parece que nele há um sentimento de inferioridade não resolvido devido a tantas expressões de humilhação de si mesmo. Pallotti só é ininteligível para aquele que ainda não percebeu o que significa amar Deus e ser por ele amado.
Não devemos ficar desanimados se não conseguirmos a graça da penitência imediatamente. É provável que o Senhor a esteja guardando para que a recebam no fim, quando seu amor por ele tiver se aprofundado de maneira notável. Imitar servilmente um santo não nos leva a fazer progressos; pode ser prejudicial.
O importante, agora, é desejar a graça de amar Deus com ardor e com todo coração.
É importante também não tentar criar a graça da penitência interior. Basta pedir. Pedir com perseverança sem desanimar. “Pedi e recebereis, batei e a porta ser-vos-á aberta”.
É importante lembrar que Cristo se interessa por nós sempre. (Lc 22,31ss) “Pedro eu rezei por ti”. “A ti basta a minha graça” (2Cor 12, 9).

A recusa de perdoar a si mesmo
Deus está disposto a nos perdoar. Ele está mais ansioso para conceder o perdão do que nós de recebê-lo.
O problema do perdão, portanto, não é Deus, mas está conosco. Esquecemo-nos muito facilmente de crer que Deus deseja nosso perdão. Recusamo-nos a perdoar a nós mesmos. Ficamos pensando em como fomos miseráveis, desejamos nunca ter cometido pecado para ficar com a "ficha limpa".
Fomentamos um falso senso de desmerecimento: a atitude de quem quer fazer penitências para expiar por completo o passado antes de aceitar a graça de Deus. É um grande obstáculo para o progresso na vida espiritual. Maior até do que o próprio pecado. Quando há penitência interior o pecado em vez de ser empecilho, é uma grande ajuda. Mas este falso senso de desmerecimento impossibilita qualquer progresso espiritual.
Sobre o pecado, a graça de Deus triunfa com facilidade, mas contra esta recusa de se perdoar, só com muita dificuldade. “Onde grande foi o pecado, muito maior a graça”, diz São Paulo. “Ó pecado de Adão, sem dúvida necessário”, rezamos no precônio Pascal.
Para Jesus, embora o pecado seja o maior mal concebível, ser pecador é um merecimento. Devemos odiar o pecado e lutar contra ele. Mas se pecarmos e nos arrependermos, então teremos razão para exultar, fazer festa, porque “há maior júbilo no céu por causa de um pecador que se arrependa do que por noventa e nove justos que não tenham necessidade de se arrepender”.
Quem entende esta loucura? Lidamos com um mistério além da compreensão humana. O pecador arrependido atrai Deus para si. Deus não o considera repulsivo, mas irresistível. Essa é a boa nova.

Textos para reflexão:

Dt 6,4-7 – Ouve Israel o Senhor seu Deus.
Baruc 1,15-22 – A nós a vergonha no rosto por causa dos nossos pecados.
Lev 11,45 – Sejam santos porque eu sou santo.
Lc 22,31ss – Cristo reza para Pedro.
Mc 10,17-27 – O jovem rico.
Lc 7 – A mulher de Magdala. Notar a ênfase que Jesus dá ao amor e ao perdão.
Lc 15 – Parábolas da Misericórdia divina. Prestar atenção na alegria e na bondade de Deus.
Lc 19 – Jesus e Zaqueu.
Jo 21 – Do amor por Cristo ao Primado de Pedro.
Joel 2,12-18 – Voltai ao Senhor Deus, porque ele é bom e compassivo.
Is 58,1-12 – O jejum que agrada a Deus.

sexta-feira, 20 de fevereiro de 2009

ENTENDA O SENTIDO DA QUARESMA.


VIVENDO A QUARESMA

“Em nome de Cristo, suplicamos: reconciliem-se com Deus. Aquele que nada tinha a ver com o pecado, Deus o fez pecado por causa de nós, a fim de que, por meio dele, sejamos reabilitados por Deus. Visto que somos colaboradores de Deus, nós exortamos vocês para que não recebam a graça de Deus em vão, pois Deus diz na Escritura: ‘Eu escutei você no tempo favorável, e no dia da salvação vim em seu auxílio’. É agora o momento favorável. É agora o dia da salvação” (2Cor 5,20-6, 2).

O que é a Quaresma?
Do latim quadragesima, é o período de quarenta dias - da Quarta-feira de Cinzas até a Quinta-feira Santa - que antecedem a festa ápice do Cristianismo: A Ressurreição de Jesus Cristo.

Qual seu sentido?
É o período de preparação para a Páscoa, reservado para a reflexão, a conversão espiritual. O católico deve aproximar-se de Deus, visando seu crescimento espiritual. É um momento voltado à reflexão, onde cristãos se recolhem em oração e penitência para preparar o espírito para a acolhida do Cristo Vivo.
A Quaresma não tem sentido isolada da Páscoa. Na caminhada quaresmal, não vamos ao encontro do nada ou da morte, mas caminhamos para a ressurreição do Senhor e nossa. Quaresma é, portanto, tempo de conversão e reconciliação com Deus e com as pessoas.
“Rasguem o coração, e não as roupas! Voltem para Javé, o Deus de vocês, pois ele é piedade e compaixão, lento para a cólera e cheio de amor...” (Joel 2,13).

Qual a origem da Quaresma?
As origens da Quaresma são antigas. Já no século IV se fala de quarentena penitencial. Antes disso, nos séculos II e III, costumava-se fazer alguns dias de jejum, em preparação da Páscoa.

Qual o significado dos 40 dias?
O Número 40 é simbólico. Na Bíblia o número quatro simboliza o universo material. Os zeros que o seguem significam o tempo de nossa vida na terra, suas provações e dificuldades. A duração da Quaresma está baseada no símbolo deste número na Bíblia: Quarenta dias do dilúvio, quarenta anos de peregrinação do povo judeu, quarenta dias de Moisés e Elias na montanha, quarenta dias de Jesus jejuando no deserto, entre outros. Esses períodos vêm antes de fatos importantes e mostram a necessidade de ir criando um clima adequado e dirigindo nosso coração para o que há de vir.

O que fazer no tempo da Quaresma?
A Igreja propõe, por meio do Evangelho, três grandes linhas de ação: oração, penitência e a caridade. Não somente durante a Quaresma, mas em toda a sua vida, o cristão deve buscar o Reino de Deus.

Quantos domingos tem a Quaresma?
A Quaresma possui cinco domingos, mais o Domingo de Ramos - início da Semana Santa. Durante toda a Quaresma a cor litúrgica é a roxa, um convite à conversão, à penitência e à fraternidade.

Por que não se canta o Aleluia?
O clima de Quaresma deve transparecer também na ausência do Aleluia e do Glória. Aleluia significa “Louvai Javé”, e é aclamação marcada pela alegria e pela festa. O Clima da Quaresma não combina com isso, pois não é tempo de festa. O Aleluia será uma explosão de alegria na Vigília Pascal. Também o Glória é omitido pelos mesmos motivos.

O que é a Via-Sacra e quando surgiu?
Nas quartas e sextas-feiras da Quaresma, costuma-se fazer a Via-Sacra. A palavra significa “caminho sagrado”, e segue os passos de Jesus rumo à cruz. É um ato de piedade que se reza e se medita sobre 14 episódios da dolorosa sexta-feira santa. Tem início na primeira estação, onde Jesus é condenado à morte, até o sepultamento de Jesus. Ultimamente acrescentou-se a 15ª edição – a ressurreição de Jesus, pois a morte não o venceu ou derrotou.
A prática de percorrer esse “caminho sagrado” é antiga. Fala-se dela no século IV e pelo que tudo indica, nasceu em Jerusalém. A partir do século XVII, as estações foram fixadas em 14.

O que acontece se Solenidades caem em um domingo da Quaresma?
Tomemos por referência a Festa de São José, dia 19 de março. A Norma estabelece que festas não prevalecem sobre os mistérios da nossa redenção. Portanto, quando 19 de março for um domingo da Quaresma, a solenidade de São José é transferida e celebrada no dia seguinte, segunda-feira.

O que é a Campanha da Fraternidade?
A caminhada da Quaresma é acompanhada pela realização da Campanha da Fraternidade – a maior campanha da solidariedade do mundo Cristão. Cada ano é contemplado um tema urgente e necessário. É uma atividade ampla de evangelização que ajuda os cristãos e as pessoas de boa vontade a concretizarem na prática a transformação da sociedade, a partir de um problema específico. É um sinal altamente positivo para chamar a atenção, denunciar, convocar à conversão e suscitar gestos concretos.

Quais os objetivos da Campanha da Fraternidade?
Seus objetivos permanentes são: despertar o espírito comunitário e cristão no povo de Deus, comprometendo, em particular, os cristãos na busca do bem comum; educar para a vida em fraternidade; renovar a consciência da responsabilidade de todos na promoção humana, em vista de uma sociedade mais justa e solidária.

Como começou a Campanha da Fraternidade?
O projeto de uma campanha de fraternidade que já existia regionalmente em Natal, no Rio Grande do Norte, desde 1961, tornou-se nacional pela CNBB, no dia 26 de dezembro de 1963, com uma resolução do Concílio Vaticano II. O Projeto realizou-se na Quaresma de 1964. Naquele ano, aconteceu a primeira Campanha da Fraternidade com o Tema: “Igreja em Renovação”, e o lema: “Lembre-se que você também é Igreja”.

O que contempla a Campanha da Fraternidade deste ano?
A Campanha da Fraternidade de 2009 tem por tema: Fraternidade e Segurança Pública, e lema: “A paz é fruto da justiça” (Is 32,17). Segundo os bispos, o objetivo central desta Campanha é “suscitar o debate sobre a segurança pública e contribuir para a promoção da cultura da paz nas pessoas, na família, na comunidade e na sociedade, a fim de que todos se empenhem efetivamente na construção da justiça social que seja garantia de segurança para todos” (CNBB, Texto-Base, n° 4).

O que é a CNBB?
A CNBB – Conferência Nacional dos Bispos do Brasil – é a instituição permanente que congrega os Bispos da Igreja Católica no País. Foi fundada de 14 a 17 de outubro de 1952 por Dom Hélder Câmara e Dom Eugênio Araújo Sales. Com o clima criado pelo Concílio Vaticano II, estimulou-se a reestruturação da CNBB, promovendo a colegialidade entre os bispos.
Todo ano, desde 1964, a CNBB promove a Campanha da Fraternidade, escolhendo temas que são sempre aspectos da realidade social, econômica e política do país.
Desta forma, a CNBB, sendo a Igreja no Brasil, celebra a Quaresma em preparação à Páscoa com a Campanha da Fraternidade, dando ao tempo quaresmal uma dimensão histórica, humana, encarnada e principalmente comprometida com as questões específicas de nosso povo, como atividade essencial ligada à Páscoa do Senhor.
Sem a CNBB, a história do Brasil teria sido escrita de forma bem diferente. Comprometida com a liberdade e a justiça, sempre se colocou ao lado dos oprimidos, chamando a atenção da sociedade e do governo para a realidade do País.

Organizado por: Nov. Edvaldo Betioli Filho
A.D. 2009

quarta-feira, 18 de fevereiro de 2009

O que a Igreja católica entende por carisma

Introdução

A Igreja sempre foi muito rica em carismas e ministérios. Desde o início, na Igreja primitiva, os cristãos perceberam que toda a atividade dos apóstolos e daqueles que seguiam a Cristo tinham um único objetivo: anunciar que Cristo ressuscitou e está vivo em nosso meio.
Os Atos dos Apóstolos narram como aconteceram os desdobramentos após a ressurreição do Senhor. Todos viviam unidos na oração e na fração do pão e, a cada dia, aumentava o número daqueles que recebiam o anúncio do Evangelho e queriam integrar-se à comunidade dos que foram salvos pelo Deus que derramou seu sangue na cruz. Todos sentiam-se impelidos a anunciar o Evangelho. Dentro deles havia, porém, a certeza de que o Espírito Santo estava com eles e os iluminava.
Muitos derramaram o seu sangue como Cristo. Com isso, o martírio tornou-se o melhor modo de testemunhar a fé na ressurreição. O sangue dos mártires transformou-se em sementeiras de novos cristãos.
Os apóstolos e a comunidade dos fiéis alegravam-se com as afrontas e perseguições, pois sabiam que a promessa de Cristo era de lutas e de sofrimentos, mas garantia-lhes o cêntuplo e a vida eterna.
Portanto, todo êxito obtido na evangelização era visto não como fruto da habilidade de convencimento dos anunciadores da Boa-notícia, mas a confirmação de que a graça de Deus estava com eles.
Diante da missão que herdamos de nossos antepassados, os fiés de hoje são convocados a continuarem firmes na fé e perseverantes no anúncio do Evangelho. Mas, para que isso aconteça, é preciso ter sempre consciência da missão recebida.
Por isso, esse pequeno estudo tem a finalidade de apresentar, de maneira geral, o que é um carisma e como ele se manifesta na Igreja. Mostrará o carisma como dom vindo de Deus, dado gratuitamente às pessoas, segundo o seu beneplácito, ao longo dos séculos. Agora cabe, a cada um, descobri-lo, para melhor servir a Cristo e edificar a Igreja.
Carisma em geral
1. Uso da palavra carisma

A palavra carisma é usada na linguagem popular e na linguagem eclesial ou também teológica.
Na linguagem popular, carisma significa dom natural, talento, qualidade especial de uma pessoa que lhe permite desenvolver também uma atividade especial. Certas pessoas são especialmente dotadas para a organização, para a administração, para a animação, outras para a comunicação.
Carisma é sinônimo de talento, que é um dom natural, embora possa ser aperfeiçoado ou desenvolvido pela própria pessoa que o possui. Todos nós conhecemos, certamente, pessoas carismáticas.
Na linguagem eclesial, a palavra carisma usa-se muito para designar dons especiais, recebidos pelos membros da Igreja, para o benefício de todos. É usado também para caracterizar os movimentos eclesiais.

2. São Paulo apresenta quatro listas de carismas

Encontramos em 1Cor 12,8-10; 12,28-30; Rm 12,6-8; Ef 4,11.
Ao examinar esta lista, encontramos vinte e nove carismas diferentes, mas se considerarmos as repetições, podemos identificar apenas vinte.
Paulo não quis aprofundar sobre o assunto, mas apresenta o carisma, simplesmente, como ação eficaz da graça oferecida gratuitamente pelo Espírito aos fiéis cristãos, de maneira particular e diversificada, para produzir em cada um deles uma determinada capacidade para desenvolver dinamicamente a edificação da comunidade eclesial (1Cor 14,12).
Sobretudo em Romanos e em (1Cor 12,4-11.12-27.28-31), é elaborado o significado deste chamado e missão a ser desenvolvida com uma particular atitude de serviço para a vida e para o crescimento do corpo comunitário dos fiéis (1Cor 12,1; 14,1); carismas (1Cor 12,4); ministérios (1Cor 12,5; 2Cor 9,12s); operações (1Cor 12,6).
Em tudo isso, ele evidencia claramente a sua dimensão trinitária (1Cor 12,4.5.6; 12,28; Ef 4,11). Ele apresenta vários tipos de carismas, às vezes de maneira geral, como dom dado por Deus às pessoas, ao passo que outras vezes apresenta dons mais específicos, ou seja, um chamado particular para o bem da Igreja, uma vocação que torna capaz quem recebe e acolhe para evangelizar, ensinar, governar, profetizar, curar.
Paulo não fornece uma lista precisa de carismas. Ele usa o termo de maneira temática, enquanto que o Antigo Testamento é atemático e raro.
Paulo é rigoroso quando alguém se apropria de maneira individualista dos dons de maneira a não edificar a comunidade. O carisma é sempre mostrado, por ele, em vista do benefício coletivo do corpo Místico de Cristo (1Cor 12,7).
Quem se apropria de um dom, não produz fruto (1Cor 13, 1-3). Paulo intervém com firmeza na comunidade de Tessalônica (1Ts 5,19-21). A caridade é o critério único, para poder fazer crescer o corpo eclesial, para poder atingir a plena estatura de Cristo (1Cor 12,31; 13,13).
O Espírito é, dom por excelência, que consente ao amor de Deus, para ser revelado no coração da pessoa (Rm 5,5; 8,15-16).
Paulo não esquematiza os dons do Espírito, porque são presentes da Trindade às pessoas (1Cor 12,4-6; 1Cor 12,28; Ef 4,11). Os dons têm sempre uma destinação pública e social, não é algo privado ou para benefício próprio.
Os dons são necessários não só para o bem e o crescimento da pessoa, mas de todo o corpo eclesial de todos os tempos e lugares.
Os dons distinguem-se dos talentos pessoais, pois estes são dons naturais, inerentes à natureza humana.
Os carismas são dons sobrenaturais, concedidos pela amável liberalidade de Deus, por meio de uma operação especial do Espírito Santo, que interage com as atitudes naturais da pessoa e habilita o cristão a colaborar com a salvação do mundo, segundo uma especial vocação ou carisma.
O carisma não é algo provocado pela própria pessoa e muito menos oferecido pela hierarquia, mediante algum sacramento. O carisma é fruto livre da graça de Deus.

3. O carisma na história da Igreja

Nos primeiros séculos, o uso da palavra carisma, na tradição da Igreja, era raro e com uma prevalente tendência para exprimir os acontecimentos, com características de extraordinariedade. Existe um certo eclipse em torno do termo carisma, por causa das primeiras heresias da época apostólica, e chegou até nossos dias com interesses variados, só para certos fenômenos de despertar espiritual que ocorrem na vida eclesial.

3.1 Antes do Vaticano II

Antes do Vaticano II, somente alguns Papas fazem alguma referência de maneira geral a respeito da ação do Espírito Santo, quando falam especificamente a respeito das fundações religiosas.
Até o Vaticano I a concepção dos carismas era representada simplesmente como dons extraordinários e transitórios, oferecidos principalmente à Igreja das origens e comunicados sob a imposição das mãos dos apóstolos.
Na luta contra os protestantes, falou-se sempre menos dos carismas e das pessoas carismáticas. Foram vistas como pessoas carismáticas na Igreja o Papa e, ao seu lado, algumas pessoas extraordinárias, por isso os carismas foram vistos como algo raro na Igreja.

3.1.1 Depois do Vaticano I

Após o Vaticano I, o magistério da Igreja fez algum aceno a respeito de carisma, um pouco mais amplo no âmbito teológico. Em 1897, Leão XIII, na sua Encíclica Divinum illud munus, fala do carisma como demostração da origem divina da Igreja, referindo-se aos santos suscitados continuamente na Igreja, pela ação do Espírito. Em seguida o Papa Pio XI fala de carisma na Carta Apostólica Unigenitus Dei Filius, em 1924, e sucessivamente Pio XII com a Mystici Corporis, em 1943, porém continua a considerar os carismas apenas como dons extraordinários e prodigiosos. Supera uma concepção reducionista da Igreja e promove sob os influxos dos novos movimentos eclesiais do fim século XIX, uma eclesiologia na qual os carismas começam a ter relevância no interrior da Igreja como corpo místico, num equilíbrio entre a dimensão hierárquica e aquela carimática. Deste modo foi colocado em evidência a estrutura orgânica de comunhão da Igreja, não limitando apenas o carisma aos graus hierárquicos da mesma.

3.1.2 Vaticano II

Somente com o Vaticano II se recompõe uma dinâmica equilibrada dos carismas. O teólogo que mais influenciou no século XX esta mudança foi Karl Rhaner. Porém, no plano do magistério foi o Papa Pio XII, o qual com sua doutrina além de acolher a variedade e a multiplicidade dos carismas, os inseriu positivamente no interior de uma renovada prospectica eclesial e cristológico-pneumática do Corpo de Cristo. Nesse sentico Rhaner é muito claro: “o elemento carismático nao está à margem da Igeja, mas pertence à sua essência, com os mistérios e os sacramentos”. Todavia com uma diferença, o carisma pertence a livre e imprevisível ação do Espírito Santo, emergindo sempre na história de forma nova, e, por sua vez, deve ser acolhido por toda a Igreja também de maneira nova. Portanto, cabe a hierarquia o delicado e particular encargo de acolher, ensinar e cultivar estes dons vindos do Espírito (1Tes 5,19).
A redescoberta do Espírito Santo na Igreja vai aparecer também com a acentuação dos ministérios na Igreja. Vejamos alguns textos característicos do Vaticano II:

[Lumen Gentium 7] – Um só é o Espírito que, para utilidade da Igreja, distribui seus vários dons segundo suas riquezas e as necessidades dos ministérios.
[LG 12] – Além disso, este mesmo Espírito Santo não só santifica e conduz o Povo de Deus por meio dos sacramentos e ministérios e o adorna com virtudes, mas “distribuindo a cada um os seus dons como lhe apraz” (1 Cor 12,11), distribui também graças especiais entre os fiéis de todas as classes, as quais os tornam aptos e dispostos a tomar diversas obras e encargos, proveitosos para a renovação e cada vez mais ampla edificação da Igreja, segundo aquelas palavras: “a cada qual se concede a manifestação do Espírito em ordem ao bem comum” (1Cor 12,7). Estes carismas, quer sejam os mais elevados, quer também os mais simples e comuns, devem ser recebidos com ação de graças e consolação, por serem muito acomodados e úteis às necessidades da Igreja.
[Unitatis Redintegratio 2] – O Espírito Santo habita nos crentes, enche e rege toda a Igreja, realiza aquela maravilhosa comunhão dos fiéis e une a todos tão intimamente em Cristo, que é princípio da unidade da Igreja. Ele faz a distribuição das graças e dos ofícios, enriquecendo a Igreja de Jesus Cristo com múltiplos dons, “a fim de aperfeiçoar os santos para a obra do ministério, na edificação do corpo de Cristo” (Ef 4,12).
[AA 3] – O Espírito Santo - que opera a santificação do Povo de Deus por meio do ministério e dos sacramentos - concede também aos fiéis, para exercerem este apostolado, dons particulares (1Cor 12, 7), “distribuindo-os por cada um conforme lhe apraz” (1Cor 12, 11), a fim de que “cada um ponha ao serviço dos outros a graça que recebeu» e todos atuem, «como bons administradores da multiforme graça de Deus” (1Ped 4, 10), para a edificação, no amor, do corpo todo (Ef 4, 1). A recepção destes carismas, mesmo dos mais simples, confere a cada um dos fiéis o direito e o dever de atuá-los na Igreja e no mundo, para bem dos homens e edificação da Igreja, na liberdade do Espírito Santo, que: (sopra onde quer” (Jo 3, 8) e, simultaneamente, em comunhão com os outros irmãos em Cristo, sobretudo com os próprios pastores; a estes compete julgar da sua autenticidade e exercício ordenado, não de modo a apagarem o Espírito, mas para que tudo apreciem e retenham o que é bom (1Tes 5, 12.19.21).
[GS 38] – Os dons do Espírito são diversos: enquanto chama alguns a darem claro testemunho do desejo da pátria celeste e a conservarem-no vivo no seio da família humana, chama outros a dedicarem-se ao serviço terreno dos homens, preparando com esta sua actividade como que a matéria do reino dos céus. Liberta, porém, a todos, para que, deixando o amor próprio e empregando em favor da vida humana todas as energias terrenas, se lancem para o futuro, em que a humanidade se tornará oblação agradável a Deus. No decurso da história da Igreja, os fundadores e fundadoras de ordens, de comunidades religiosas e de sociedades de vida apostólica, foram vistos como pessoas carismáticas e carismáticas foram consideradas também suas fundações.
O Vaticano II refletiu bastante sobre o lugar e o sentido da vida consagrada na Igreja e dedicou-lhe um capítulo da Lumem Gentium (Constituição sobre a Igreja) e emanou um decreto sobre a atualização da vida consagrada. Viu que a vida consagrada tem um lugar e uma significação eclesial indiscutível e, para que a presença e a atuação dos consagrados na Igreja fossem postas na devida luz, o Concílio Vaticano II exigiu que todas as comunidades religiosas na Igreja procurassem retornar às fontes originais do seu ser, da sua missão e se adaptassem também às novas situações do tempo. Pediu para que cada comunidade descobrisse o carisma do fundador e o carisma da fundação. (Perfectae Caritatis, 2)
A reflexão sobre a vida consagrada continuou após o Concílio e culminou na exortação apostólica Vita Consecrata de João Paulo II, março de 1996. Nesta reflexão e na literatura pós-conciliar sobre a vida religiosa, fala-se do carisma do fundador e do carisma da sua fundação.
4.2 Na vida consagrada

[Cumprir juntos a VONTADE DO PAI] – Vita Consecrata, 92.

A vida comunitária das pessoas consagradas é o lugar privilegiado para discernir e acolher a vontade de Deus e caminhar juntos em união de mente e coração. A obediência, vivificada pela caridade, faz com que os membros de um Instituto busquem viver o mesmo testemunho e a mesma missão, no respeito da individualidade de cada um. Nesta fraternidade, estabelece-se um diálogo entre os irmãos para descobrir a vontade do Pai e se reconhece no superior a expressão da paternidade divina.
A autoridade e a obediência são um sinal daquela única paternidade que vem de Deus e da liberdade interior de que confia em Deus, apesar dos limites humanos daqueles que O representam.
Quem obedece tem a garantia de estar seguindo o Senhor e não estará caminhando ao sabor dos desejos pessoais ou das próprias aspirações. Pode se considerar guiado pelo Espírito do Senhor.

3.2.1 Dimensões carismáticas

O termo carisma na vida consagrada começou a ser mencionado pelo magistério antes mesmo do Concílio, o qual já havia colocado algumas premissas para se chegar a uma nova mentalidade que se tornasse mais equilibrada a percepção de tais dons na Igreja e na sua reflexão teológica. Alguns Papas pré-conciliares, de maneira diversa, fizeram algum tipo de referência à questão carimática, mesmo que de maneira genérica.

3.2.2 O carisma do fundador

O carisma do fundador é o dom especial que o Espírito Santo concede a alguém para que seja capaz não só de perceber uma especial necessidade da Igreja, mas tenha também a capacidade de dar-lhe uma resposta especial através da sua fundação. Para dar uma resposta às necessidades específicas da Igreja, o Espírito Santo enriquece com seus dons cristãos que se tornam capazes de fazer nascer na Igreja novas comunidades e novos movimentos. O carisma do fundador é, pois, dom do Espírito dado ao fundador, graças ao qual ele se torna capaz de fundar uma nova comunidade na Igreja, a fim de responder a uma necessidade específica da Igreja. Portanto, iluminados e fortalecidos pelo Espírito Santo, os fundadores com suas fundações querem ir ao encontro de especiais necessidades da Igreja e dar-lhes uma resposta de acordo com o Evangelho.

3.2.3 O carisma da fundação

O carisma da fundação é dom que o Espírito Santo dá, através do fundador, aos seus discípulos e companheiros. Graças a esse dom dado ao fundador e através dele aos seus discípulos e companheiros nasce e se desenvolve, na Igreja, uma nova comunidade com sua fisionomia original. É o carisma do instituto.
No início de cada instituto está o fundador que se dá conta de uma necessidade da Igreja local, mas que tem projeção para a Igreja universal. Todos os institutos nascem para a Igreja e também estão a serviço da Igreja na linha da oração e da contemplação, na linha da atividade apostólica: evangelização, catequese, renovação espiritual, serviço da caridade, cuidado com os enfermos, idosos, moribundos, órfãos, presos etc.

Conclusão

A graça de Deus, desde todo o sempre, foi abundantemente derramada sobre nós. Cada fiel batizado recebeu de Deus dons especiais para serem colocados à disposição da comunidade. Uns receberam cinco talentos, outros dois, e muitos apenas um. Mas o Evangelho nos ensina que não importa a quantidade dos dons recebidos. Cada um deve se alegrar por tudo aquilo que, sem nenhum esforço, recebeu de Deus. “Recebestes de graça, de graça dai” (Mt 10,8).
A Igreja tem como missão fazer crescer os dons recebidos de Deus. Por isso, ela deve sempre buscar em Deus a motivação para anunciar o Evangelho. É olhando para Cristo, o enviado do Pai, que ela vai entender a sua missão.
Portanto, cada membro da Igreja deve descobrir e aceitar os dons como vindos de Deus. Em se tratando de uma comunidade religiosa, a missão é ainda maior, pois participa de um carisma que visa conduzir as pessoas para mais perto de Deus.
O carisma deve ser encarado como um dom a ser vivido em comunidade. Ele não é um dom para ser vivido privadamente, mas serve para a edificação do povo de Deus. Com o carisma recebido, os filhos da Igreja compartilham com todos os batizados as graças dele decorrentes. Ele nao conhece fronteiras e nem limites.
Para que o carisma possa ser compreendido na sua mais ampla dimensão, deve ter sempre Cristo como referência. Jesus Cristo, dom de Deus oferto à Igreja, para proporcionar vida plena a todos. Ele testemunhou o amor de Deus não só por obras e pela palavra, mas principlamente pelo testemunho da cruz. Morreu despojado de tudo: das vestes, dos amigos, da própria privacidade. Com ele não ficou sequer uma gota de sangue em seu corpo. Esvaziou-se completamente.
Não reteve nada para si. Até mesmo seu coração foi aberto pela lança, para que a humanidade coubece nele.
Que o Deus da vida nos abençõe e nos dê a graça da fidelidade pelos dons recebidos. Da mesma forma como ele foi fiel e obediente ao Pai até o fim; que assim o sejamos na vivência do carisma do qual participamos.
Dizionario di pastorale vocazionale. Editrice Rogate, Roma 2002, p. 154-168. Tradução: Pe. Valdeci de Almeida.

Uma nova proposta de vida




Vicente Pallotti não se conformava ser uma pessoa a mais entre as demais, ou um sacerdote isolado na Igreja. Ele quis, antes de tudo, que a sua pessoa irradiasse Cristo por onde passasse. Isso não era somente um desejo, ele procurou agir com palavras e ações para ser sinal da presença do ressuscitado, não somente quando ocupava a sua função sagrada, mas em cada gesto de sua vida: “Cristo em tudo e sempre”.
O povo romano, sedento por uma nova proposta de vida, logo viu em Vicente Pallotti um modelo a ser seguido. Por isso, o seu apelo ao povo de Roma, em 1835, despertou em muitos batizados a consciência de que uma nova aurora se despontava na Igreja. Muitos leigos e eclesiásticos aderiram à obra do Apostolado Católico, uma nova forma de ser Igreja. Descobriram ainda que podiam ser protagonistas da sua própria história e colaboradores do apostolado universal. Essa realidade deve ser, ainda hoje, propagada, para que mais pessoas possam assumir o seu batismo de modo consciente e alegre, pois, quem serve a Cristo, nunca fica decepcionado. Por isso, você é convidado a conhecer e a participar do Apostolado de Jesus Cristo.

O legado que Pallotti deixou à Igreja

O legado que Vicente Pallotti deixou à Igreja é a União do Apostolado Católico (UAC). No dia 9 de janeiro de 1835, teve sua primeira inspiração de congregar o maior número de fiéis para trabalhar incansavelmente em prol do Reino de Deus. No dia 04 de abril de 1835, recebeu sua primeira aprovação.
A União do Apostolado Católico nasceu com o intuito de fomentar, entre os batizados, a missão evangelizadora na Igreja. Para Pallotti, o anúncio do Evangelho não é algo exclusivo da hierarquia, mas de todos aqueles que aderem ao projeto redentor do Senhor, pelo batismo. A instituição Igreja só reconheceu isso cem anos mais tarde, com Concílio Vaticano II, que definiu a Igreja como “povo de Deus”. Isso indica que os ministros ordenados também fazem parte deste povo, que caminham em busca da perfeição e da santidade. Por isso, os batizados têm a missão de testemunhar a fé em Cristo em todos os momentos e circunstâncias. Todos devem empenhar-se conforme a sua possibilidade e grau de instrução. Os membros devem usar dos meios disponíveis para que, de acordo com sua função ou influência na sociedade, possam reavivar a fé e reacender a caridade de todos aqueles que estão enfraquecidos na fé e na esperança.
A União do Apostolado Católico (UAC) não é um movimento e nem uma ordem terceira, mas é uma Associação de Fiéis que interpela os cristãos a viverem seu batismo com renovado ardor missionário, na realidade em que se encontram. A UAC tem a missão de ser fermento na massa. Que todos possam conhecer e viver profundamente a sua fé, fazendo com que, o mais breve possível, possa haver um só rebanho apascentado por um só Pastor.

Como posso fazer parte desta obra?



Segundo São Vicente Pallotti, todo batizado é chamado por Deus para ser apóstolo do Reino. Para justificar isso, apresentou Maria, a Mãe de Jesus, como mulher apostólica, fazendo muito mais que todos os apóstolos, mesmo sem receber nenhuma ordem sacra. Ela foi sempre obediente à vontade do Pai; o seu “Sim” transformou o mundo, gerou o Salvador que assumiu a nossa humanidade. Maria, pela graça de Deus, tornou-se a Rainha dos Apóstolos.
O ser humano está sempre em busca de algo maior para sua vida, por isso se pergunta: o que Deus quer de mim? Esse questionamento também é encontrado nos Atos dos Apóstolos, quando Pedro, pela primeira vez, após a vinda do Espírito Santo, fez seu discurso. Tocados pelo mesmo Espírito, as pessoas se perguntavam: “E nós, o que devemos fazer”? Pedro respondia: “Convertam-se e sejam batizadas” (At 2,37-38).
Portanto, o batismo já nos inseriu no projeto redentor de Cristo e, ele convida pessoas para um trabalho específico em sua Igreja, para que sua dedicação seja exclusiva ao serviço do Reino. O Espírito também suscita dons e carismas especiais para que o Evangelho seja proclamado e todos sejam evangelizados.
Se você quiser saber mais sobre a UAC, entre em contato conosco pelo e-mail: valdecialmeida33@gmail.com ou deixe uma mensagem no blog.

domingo, 15 de fevereiro de 2009



Brasão da Sociedade do Apostolado Católico, padres, irmãos e irmãs - Os palotinos.
A heráldica da nossa Sociedade, aprovada pelo V Capítulo geral em 1925 (Analecta II, pg. 95), adotada também pelas irmãs, expressa o sentido do apostolado católico que tem a missão de “reavivar a fé e reacender a caridade entre os católicos e propagá-las por tudo o mundo”. No campo superior do brasão, a cruz representa a fé dos cristãos e tem como fundo a cor azul-celeste, qual dia luminoso da presença do Cristo. Essa cor refere-se também à Nossa Senhora. O apóstolo é enviado para reavivar a fé dos cristãos. Na parte inferior, o cometa dourado, estrela da Epifania que guiou os sábios do oriente à presença do Senhor para adorá-lo, representa a chamada aos povos pagãos (missio ad gentes) e tem o fundo preto que faz pensar aqueles que ainda não foram iluminados pela fé. (O dourado da estrela é cor da sabedoria: os sábios chegaram a Cristo pela sabedoria humana). O apóstolo, como “estrela da Epifania”, é testemunho da fé em Cristo e foi enviado a propagá-la pelo mundo.
Os dois campos aparecem separados por uma franja na qual pode-se ler a expressão de São Paulo: “Caritas Christi urget nos”. A caridade reacendida permanentemente no seu coração impele o apóstolo a levar o amor e a misericórdia infinita de Deus a todo o mundo, para cumprir a sua missão evangelizadora.
O SÍMBOLO PALOTINO DO INFINITO

Os quatro arcos representam os pontos cardeais e indicam o caráter universal da vocação palotina e do nosso empenho em unir o pluralismo da Igreja no espírito do apostolado.
Os quatro arcos juntos formam uma cruz. A cruz revela que, o que os Palotinos fazem, o fazem no seguimento de Jesus Cristo Crucificado. Os arcos estão abertos para os quatro pontos cardeais.
A abertura é uma coluna importante da nossa comunidade palotina. Estamos abertos aos seres humanos: suas preocupações, suas necessidades e suas ânsias. Nós encontramos pessoas em situações e em lugares bem diferentes, e tentamos levar a mensagem de Cristo para elas.
Os quatro arcos estão unidos pelo sinal matemático do infinito. Como Palotinos, nós cremos que o centro da nossa vida consiste em experimentar e seguir o Deus do amor infinito.
A uma certa distância, o símbolo se parece com a estrela de Belém. Os Magos a seguiram para encontrar o Cristo. A estrela expressa o nosso compromisso de levar as pessoas até Cristo, como Vicente Pallotti fez.

VICENTE PALLOTTI, MODELO DE SACERDOTE


Vicente Pallotti, desde o início de sua ordenação sacerdotal, destacou-se no meio clerical e na sociedade romana, por sua forte espiritualidade e pelo serviço prestado às pessoas necessitadas. Estava sempre atento a tudo o que acontecia ao seu redor. Nunca deixou de responder aos desafios de seu tempo. Por isso, a sua atividade como sacerdote não se resumia em apenas celebrar piedosamente a missa e a ministrar os sacramentos. Percebeu que, com a força de seu ministério, podia fazer muito mais que simplesmente atuar como homem do culto. Intuitivamente, convidou leigos fervorosos para juntos formarem uma legião de evangelizadores e assim propagar o evangelho de Jesus a tantas pessoas que ainda não tinham tido a oportunidade de experimentá-lo pela fé.
No seu trabalho apostólico, descobriu que a ajuda do leigo, na evangelização, é indispensável, para que a Palavra de Deus chegue em todos os ambientes, o mais rápido possível. Para ele, o cristão, pela força de seu batismo, deve estar preocupado não somente com a salvação de sua alma, mas de todos. O batismo não leva o indivíduo a apenas fazer parte de uma comunidade orante, mas o credencia a continuar a obra evangelizadora de Cristo, em todo mundo. Não importa o seu estado de vida. Todos são convocados por Cristo para anunciar que o Reino de Deus está em nosso meio. Até mesmo o enfermo, no seu leito de dor, pode ser um apóstolo, quando oferece suas orações e seus sacrifícios para a redenção da humanidade.

quarta-feira, 11 de fevereiro de 2009

Vicente Pallotti, um jovem atento aos necessitados.

Vicente Pallotti viveu como qualquer outro jovem da sua idade. Passou sua infância no centro de Roma. Participava da vida social em meio aos trabalhos cotidianos da família, convivendo com pessoas de todas as classes sociais que freqüentavam a mercearia de seu pai. Naquele ambiente aprendeu a observar as pessoas e a sentir as suas reais necessidades. Ele percebeu que elas buscavam alimento para nutrir o corpo, mas algo lhe dizia que precisavam também de saciar a alma.
No confronto com cada uma delas, viu que, independente da sua história pessoal, estava diante de um ser humano, feito à imagem e semelhança de Deus, que precisava ser amada e respeitada. À medida que crescia, esse sentimento aumentava e ao mesmo tempo despertava nele a necessidade de partilhar com todos a experiência que fizera do amor misericordioso de Deus.
No seu dia a dia, encontrou pessoas insatisfeitas com a vida, outras à beira do desespero devido a tantos sofrimentos. Foi insuportável para ele presenciar tudo isso. Diante de Deus, tomou a firme resolução de oferecer aquilo que possuía para amenizar os sofrimentos de tantos irmãos. Muitas vezes deixou de tomar o seu lanche para doá-lo a quem tinha fome, doou seus sapatos a um pobre e sua cama a um enfermo que dormia desconfortavelmente. A sua fé em Jesus Cristo foi quem o motivou a sair de seu conforto para ajudar àqueles que eram penalizados pela vida.

domingo, 8 de fevereiro de 2009

NOVICIADO RAINHA DA PAZ - PROVÍNCIA SÃO PAULO APÓSTOLO



No dia 11 de janeiro de 2009, a comunidade do noviciado recebeu mais onze noviços. No dia 28 de janeiro, o Provincial, Pe. Júlio Endi Akamine, fez a abertura oficial do Período Introdutório (noviciado), em Cornélio Procópio - PR. Eles vieram de diversas regiões do Brasil, a saber: quatro vieram da Bahia; três do Maranhão; três do Paraná e um de Martinópolis, Estado de São Paulo. O nosso sentimento é de gratidão, por eles terem dito SIM ao chamado de Deus. Rezemos pela perserança deles e para que estejam sempre abertos a viver com entusiasmo o CARISMA de São Vicente Pallotti.

sábado, 7 de fevereiro de 2009

As fotos, que seguem, mostram a história da comunidade palotina em Roma.


Quem foi Vicente Pallotti?


Vicente Pallotti, sacerdote romano, nascido aos 21 de abril de 1795. Ainda muito jovem demonstrou profundo amor à Eucaristia e à Maria Santíssima. Seus pais, Pedro Paulo e Maria Madalena, com sua fé contagiante, despertaram no menino o desejo de viver só para Deus. Cotidianamente, a família reunia-se para a reza do santo rosário. As solenidades marianas também eram festejadas com muito carinho. Sua mãe, mulher santa e piedosa, tinha o costume de todas as tardes visitar o Ssmo Sacramento e os altares de Nossa Senhora, nas Igrejas próximas de sua casa, no centro de Roma, e levava consigo o pequeno Vicente.O freqüente contato com a vida de oração e a escuta da Palavra de Deus, levou-o a ter um profundo zelo pela causa do Reino. Suscitou também grande amor pela Igreja e pelos irmãos desvalidos.Ainda muito pequeno, quis dedicar sua vida ao serviço de Cristo, através da vida consagrada. Desejava ser franciscano, mas por ter característica física franzina, e pelo fato de os franciscanos praticarem ascese muito rigorosa, foi aconselhado pelo seu diretor espiritual, Pe. Fazzini, a não ingressar na Ordem dos franciscanos. Diante disso, aos 15 anos de idade, começou a receber formação para a vida diocesana. Em 1818, foi ordenado sacerdote.Fundou a União do “Apostolado Católico” (UAC), uma Associação de padres, religiosos e leigos, com a missão de reavivar a fé e reacender a caridade, servindo a Cristo, o “Apóstolo do Pai”. Seu último gesto em nosso meio foi o de dar seu próprio agasalho a um mendigo, quando fazia frio e chovia sem parar. Por causa disso foi acometido por uma pneumonia que o levou a óbito no dia 22 de janeiro de 1850, com 55 anos de idade.Cem anos depois, em janeiro de 1950, Pio XII o proclamou beato, e João XXIII o canonizou, no dia 20 de janeiro de 1963, durante o Concílio Vaticano II.


A parte antiga de Roma, vista do Gianicolo (parte mais alta de Roma).


Da esquerda para a direita: Casa Geral do Palotinos; Casa Internacinal dos estudantes estrangeiros e o Cento Preti (Pertence a diocese de Roma).